quarta-feira, agosto 18, 2010

Operações Secretas dos Estados Unidos

Pentágono expande operações secretas na África e na Ásia

Governo Obama aprofundou prática de misturar ação militar com inteligência civil

DO "NEW YORK TIMES"


Inicialmente, a notícia do Iêmen em 25 de maio pareceu uma vitória modesta contra terroristas: um ataque aéreo atingiu grupos que trabalhavam para a Al Qaeda.
Mas o ataque também matou o governador interino de uma Província, que dialogava com a Al Qaeda pelo fim do conflito. O presidente do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, assumiu a responsabilidade e indenizou tribos ofendidas.
A ação, porém, foi uma missão secreta dos EUA, segundo fontes militares, ao menos o quarto ataque à Al Qaeda do país desde dezembro. Esse ataque oferece uma visão sobre a guerra sigilosa do governo Obama contra a Al Qaeda e seus aliados.
Em cerca de 12 países, do norte da África ao Paquistão, os Estados Unidos aumentaram significativamente suas operações de inteligência, perseguindo inimigos com robôs, equipes de elite, pagando mercenários para espionagem e treinando locais para perseguir terroristas.
A Casa Branca intensificou o uso de mísseis teleguiados pela CIA (Agência Central de Inteligência) no Paquistão, aprovou ataques contra a Al Qaeda na Somália e lançou operações clandestinas a partir do Quênia.
O governo trabalhou com aliados europeus para desmantelar grupos terroristas no Norte da África. E o Pentágono criou conexões com uma rede de mercenários para colher inteligência, por exemplo, sobre esconderijos de militantes no Paquistão.
Embora a guerra discreta tenha começado com Bush, foi com Barack Obama que ganhou proeminência.
Virtualmente nenhum dos novos passos agressivos tomados pelo governo americano vieram a conhecimento público. Em contraste com o envio de tropas ao Afeganistão, que tomou meses de debate, a campanha americana no Iêmen começou sem ser notada em dezembro e não foi oficialmente confirmada.
Membros do governo Obama falam dos benefícios de levar para as sombras a guerra contra a Al Qaeda e outras milícias. Afeganistão e Iraque, dizem, esclareceram políticos e eleitores americanos sobre os custos de grandes guerras, que demandam anos de ocupação e podem gerar ainda mais radicalização no mundo muçulmano.

MERCENÁRIOS NO PODER
Ao invés do "martelo", nas palavras de John O. Brennan, importante conselheiro de Obama em contraterrorismo, os EUA vão usar o "bisturi".
Entretanto, tais guerras acarretam muitos riscos: o potencial de operações falhas que só fazem aumentar o ódio antiamericano, uma confusão na distinção entre um soldado e um espião que pode negar às tropas as proteções da Convenção de Genebra, o enfraquecimento da supervisão do Congresso e a confiança em líderes e regimes autoritários.
Por sua vez, o Pentágono está ficando mais parecido com a CIA. No Oriente Médio, operações secretas são realizadas sob ordens que até então caberiam a agências civis. Esses programas operam com ainda menos transparência que na CIA.
Com a expansão das operações de contraterrorismo a territórios hostis aos militares, mercenários ganham um papel de ainda mais relevância, levantando a dúvida de se os EUA não terceirizaram uma de suas mais importantes funções a um exército privado que não é auditável.


Notícia publicada na Folha de São Paulo, de 16 de agosto de 2010.


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quarta-feira, julho 28, 2010

Divulgação de documentos sobre o Afeganistão mostram imagem interna da guerra

Divulgação de documentos sobre o Afeganistão mostram imagem interna da guerra



Matthias Gebauer, John Goetz, Hans Hoyng, Susanne Koelbl, Marcel Rosenbach e Gregor Peter Schmitz



Em um desdobramento sem precedente, perto de 92 mil documentos confidenciais relacionados à guerra no Afeganistão foram vazados. A “Spiegel”, o “New York Times” e o “Guardian” analisaram uma série dos documentos mais confidenciais. Os diários de guerra expõem a verdadeira escala da presença militar ocidental – e os problemas que atormentam a Bundeswehr alemã no Hindu Kush.

Um total de 91.731 relatórios dos bancos de dados militares dos Estados Unidos, relacionados à guerra no Afeganistão, estará disponível publicamente na Internet. Nunca antes foi possível comparar a realidade no campo de batalha de forma tão detalhada com o que a máquina de propaganda do Exército americano está divulgando. O WikiLeaks planeja postar os documentos, a maioria confidencial, em seu site.

O jornal britânico “The Guardian”, o “New York Times” e a “Spiegel” checaram o material e compararam os dados com relatos independentes. Todos os três órgãos de imprensa concluíram que os documentos são autênticos e fornecem uma imagem sem retoques da guerra no Afeganistão – do ponto de vista dos soldados que a estão travando.

Os relatórios, de soldados envolvidos no combate em andamento, foram resumidos de forma sucinta e enviados rapidamente. A maioria é de autoria de sargentos – mas alguns foram redigidos por um tenente ocasional em um posto de comando ou analistas do serviço de inteligência militar.

A divulgação dos documentos ocorre em um momento em que os pedidos para retirada das tropas do Afeganistão estão crescendo – mesmo nos Estados Unidos. Na semana passada, representantes de mais de 70 países e organizações se reuniram em Cabul para uma conferência sobre o Afeganistão. Eles asseguraram ao presidente Hamid Karzai que seu país estaria em posição, até 2014, de garantir a segurança utilizando seus próprios soldados e policiais.

Um quadro sombrio


Mas essas demonstrações de otimismo parecem cínicas diante das descrições da situação no Afeganistão fornecidas pelos documentos confidenciais. Quase nove anos após o início da guerra, eles pintam um quadro sombrio. Eles retratam as forças de segurança afegãs como vítimas desafortunadas dos ataques do Taleban. Eles também oferecem uma impressão conflitante da utilização das aeronaves não-tripuladas, notando que as armas americanas milagrosas também são totalmente vulneráveis.

E elas mostram que a guerra no norte do Afeganistão, onde as tropas alemãs estão posicionadas, está se tornando cada vez mais perigosa. O número de alertas sobre possíveis ataques do Taleban na região – alimentados pelo apoio do Paquistão– aumentou dramaticamente no ano passado.

Os documentos oferecem uma janela para a guerra no Hindu Kush –uma que promete mudar a forma como pensamos sobre a violência em andamento no Afeganistão. Eles também serão indispensáveis para qualquer um que busque se informar sobre a guerra no futuro.

Apesar dos repetidos pedidos, a Casa Branca se recusou a fornecer qualquer comentário dentro do prazo para a edição impressa da “Spiegel”. Na noite de sábado, entretanto, um funcionário da Casa Branca forneceu finalmente respostas por escrito para uma seleção de perguntas sobre o conteúdo dos relatórios obtidos, mas se recusou a conceder uma entrevista.

Ben Rhodes, o vice-conselheiro de segurança nacional para comunicações, disse: “Desde que assumiu o cargo, o presidente Obama tem sido muito claro e franco com o povo americano sobre os desafios que enfrentamos no Afeganistão e no Paquistão. O presidente e altos funcionários do seu governo falaram aberta e repetidamente sobre os santuários que existem no Paquistão, a segurança e os problemas de governança no Afeganistão, além das dificuldades que nos esperam. (...) É importante notar que o período refletido nos documentos é de janeiro de 2004 a dezembro de 2009. A guerra no Afeganistão contou com recursos insuficientes por muitos anos. (...) Em 1º de dezembro de 2009, o presidente Obama anunciou uma nova estratégia e novos recursos para o Afeganistão e Paquistão, precisamente por causa da gravidade da situação lá”.

Respondendo à intenção da WikiLeaks de disponibilizar online os documentos, Rhodes disse: “Nós condenamos fortemente a revelação de informação confidencial por indivíduos e organizações, que colocam as vidas de militares americanos e da coalizão em risco e ameaçam nossa segurança nacional”. Ele disse que a WikiLeaks “não fez esforço para contatar o governo dos Estados Unidos a respeito desses documentos, que podem conter informações que colocam em risco as vidas de americanos, nossos parceiros e da população local que coopera conosco”.

Os editores-chefe da “Spiegel”, do “New York Times” e do “Guardian” concordaram que não publicariam informação particularmente sensível do material confidencial – como os nomes dos informantes afegãos das forças armadas americanas ou informação que pudesse criar riscos de segurança adicionais para os soldados estacionados no Afeganistão. Os publishers foram unânimes em sua crença de que há interesse público justificado no material, porque ele fornece um entendimento mais amplo de uma guerra que continua até hoje, após quase nove anos.

A “Spiegel Online” resumiu uma seleção das revelações mais importantes nos dados.

Os membros da Força-Tarefa 373, uma tropa dos soldados de elite americanos que inclui os SEALs da Marinha e membros da Força Delta, recebem suas ordens diretamente do Pentágono e são independentes da cadeia de comando da Força Internacional de Assistência para Segurança (ISAF, na sigla em inglês) no Afeganistão. A missão deles é desativar altos terroristas e talebans, os matando ou capturando.

Por anos, um grande esforço foi feito para manter em silêncio os detalhes de suas missões. Com os vazamentos dos diários de guerra no domingo, entretanto, o trabalho deles passou a ser um segredo aberto.

Os relatórios de missão também oferecem uma informação considerável sobre a lista confidencial de inimigos das tropas da coalizão. A “Lista Priorizada Conjunta de Ações” (JPEL, na sigla em inglês), como é chamada nos círculos militares, contém os nomes de talebans, barões das drogas, fabricantes de bombas e membros da Al Qaeda –cada um com um número de processo e um nível de prioridade. A decisão sobre prender ou matar um alvo frequentemente cabe aos próprios caçadores.

Um total de 84 relatórios sobre ações da JPEL podem ser encontrados entre os milhares de dados. Especialistas consideram um fato que assassinatos intencionais estão ocorrendo na guerra no Afeganistão. Mas nenhum alto oficial militar está disposto a discutir o assunto. Os dados recém divulgados mostram o que unidades como a Força Tarefa 373 estão fazendo a cada noite – e como as coisas podem dar terrivelmente errado.

Um relatório de 17 de junho de 2007, por exemplo, inclui um alerta na segunda sentença que essa operação da FT 373 deve permanecer “protegida”. Detalhes sobre a missão não poderiam ser fornecidos para outros países que contribuem para a ISAF.

A meta era matar um membro proeminente da Al Qaeda, Abu Laith al Libi. As forças especiais suspeitavam que o alto terrorista e vários de seus seguidores estavam presentes em uma escola do Alcorão que os soldados estavam vigiando há dias.

Mas após o impacto de cinco foguetes americanos, em vez de encontrarem Al Libi, as forças em solo descobriram seis crianças mortas nos escombros da escola. Uma outra criança gravemente ferida também foi encontrada, mas não pôde ser salva.

Os documentos recém divulgados não contêm qualquer informação sugerindo que as tropas alemãs estiveram envolvidas em excessos de violência contra a população civil ou em qualquer operação clandestina ilegal. Todavia, elas oferecem uma imagem das forças armadas alemãs, a Bundeswehr, que ainda assim é devastadora, porque descrevem militares alemães que ingressaram no conflito com grande ingenuidade.

Os alemães acharam que as províncias do norte onde seus soldados estão posicionados seriam mais pacíficas em comparação a outras províncias e que a situação permaneceria assim.

Eles estavam errados. Já no final de 2005, a resistência contra a presença de tropas internacionais começou a crescer –os moradores locais ou eram ameaçados pelos talebans e poderosos senhores da guerra ou seu apoio era comprado. O senhor da guerra Gulbuddin Hekmatyar, por exemplo, instigou o combate ao oferecer 100 mil a 500 mil afeganis (US$ 2 mil a US$ 10 mil) para o líder de qualquer grupo insurgente. Os apelos de Hekmatyar e doações de dinheiro estão cuidadosamente documentos nos relatórios.

No início de sua missão, alguns soldados da Bundeswehr chamavam brincando a pequena cidade de Kunduz de “Bad Kunduz”, com “Bad” sendo a palavra em alemão concedida oficialmente a cidades spa. Mas os dias pacatos de Kunduz, onde um grande número de soldados alemães está estacionado, há muito são coisa do passado. No mínimo, a tranquilidade acabou em 19 de maio de 2007. Naquele dia, três soldados alemães foram mortos por um homem-bomba enquanto tentavam comprar refrigeradores em um mercado local. Oito civis afegãos também morreram no primeiro ataque mortal voltado deliberadamente contra os alemães na região.

Em um “relatório de ameaça” datado de 31 de maio de 2007, tropas alemãs com sede em Kunduz relataram sobre a situação geral após outro ataque suicida. “Diferente de todas as expectativas do Comando Regional do Norte, os ataques dos insurgentes em Kunduz estão prosseguindo como previsto pela Equipe de Reconstrução Provincial de Kunduz e mencionado várias vezes antes”, declara o documento alemão, acrescentando que mais ataques, particularmente contra tropas da ISAF, “são altamente esperados”.

Os soldados parecem ter sido corrigidos para sentirem que estavam sob estado de sítio. Os documentos que foram obtidos envolvem principalmente os chamados “relatórios de ameaça”, milhares de cenários de risco e alertas concretos sobre os ataques planejados. Esses relatórios fornecem um quadro mais claro da deterioração da situação de segurança no norte do Afeganistão do que a informação fornecida pelo governo alemão ao Parlamento federal, o Bundestag, que ordena o envio do Bundeswehr ao exterior. Os postos de controle da polícia são constantemente atacados ou são alvos de tiros, patrulhas são alvo de emboscadas mortais e bombas de estrada explodem.

Eles também mostram quanto o norte do Afeganistão deteriorou para próximo de uma nova guerra civil e quão pouco os alemães realizaram durante sua presença no Hindu Kush.

O relatório de situação confidencial da região no leste do Afeganistão parece inicialmente uma transcrição de rotina: “17 de outubro de 2009: Aproximadamente às 13h o ANA (Exército Nacional Afegão) recebeu inteligência de que aproximadamente 20 insurgentes estavam se movimentando ao sul de sua posição no wadi (leito seco de rio). Aproximadamente às 14h o Raven foi lançado e voou diretamente para FB. Nós não observamos nenhum inimigo no wadi”. Mas então problemas foram detectados no voo do Raven, uma aeronave de reconhecimento não-tripulada americana. “Enquanto fazia a volta, aproximadamente a 300 membros da FB (base de fogo) – a ave repentinamente perdeu altitude e caiu”, declara o relatório.

Então, a situação ficou agitada: “Nós tentamos imediatamente enviar uma patrulha da FB para proteger a ave, e preparar uma patrulha de 6 americanos (soldados) 40 ANA (soldados afegãos)... e pedimos CCA (cobertura área) imediata para vigilância do local do acidente e tentar obter imagem do Raven. Durante preparação da SP (condução de uma patrulha de busca), o ANA ficou temeroso e decidiu que faria a patrulha desmontada”.

No final, os soldados partiram para procurar a aeronave que caiu, mas tiveram que voltar porque insurgentes já estavam esperando pela oportunidade de uma emboscada aos soldados enquanto tentassem resgatar a aeronave.

Falhas de sistema, nos computadores e erro humano

De fato, os memorandos secretos revelam as desvantagens de uma arma que tem sido elogiada pelos militares americanos como uma panaceia, uma opinião partilhada pelo presidente. Em seu pouco tempo no cargo, Barack Obama já lançou o dobro de missões com aeronaves não-tripuladas do que as ordenadas pelo seu antecessor, o aparentemente beligerante George W. Bush.

A assassina não-tripulada pode voar por mais de 20 horas e matar à velocidade de um raio. Mas elas nem sempre são confiáveis. De acordo com relatórios oficiais, 38 aeronaves Predator e Reaper caíram enquanto estavam em missões de combate no Afeganistão e no Iraque, enquanto outras nove caíram durante os voos de teste em bases militares nos Estados Unidos. Cada acidente custa ao governo entre US$ 3,7 milhões e US$ 5 milhões.

Os relatórios de acidente do Departamento de Defesa americano mostram que falhas no sistema, no computador e erros humanos são ocorrências comuns durante as missões das aeronaves não-tripuladas. Parece que os problemas sérios foram ignorados por causa da necessidade das aeronaves serem empregadas o mais rapidamente possível. A demanda pela nova arma era intensa após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 e o início apressado da invasão ao Afeganistão.

“As aeronaves não estavam prontas para entrar em combate”, diz Travis Burdine, gerente Força-Tarefa para Sistemas de Aeronaves Não-Tripuladas da Força Aérea. “Nós não tivemos tempo para resolver os problemas.” A declaração de Burdine é apoiada por relatos nos diários de guerra. Na verdade, os assassinos silenciosos pareciam ter um monte de defeitos.

Não são apenas os custos causados por esses acidentes que preocupam os militares americanos. Mesmo as aeronaves de reconhecimento menores possuem tecnologia de informática complexa – avanços que os militares não querem que caia em mãos inimigas. Tanto os Reapers quanto os Predadores têm uma chamada função para “zerar”, que permite que os dados sejam apagados remotamente. Infelizmente, esse recurso às vezes falha. E com medo de que informações importantes possam cair nas mãos do Taleban, cada acidente com aeronave não-tripulada exige operações de resgate elaboradas e perigosas.

Os Interserviços de Inteligência (ISI), o serviço secreto do Paquistão, inicialmente ajudou a formar e implantar o Taleban no Afeganistão, após este mergulhar em uma guerra civil fratricida e amargo entre os mujahedeen, que prevaleceram sobre os soviéticos e forçaram sua retirada. Apesar de todas as garantias dos políticos paquistaneses de que os antigos laços seriam cortados, o país ainda segue uma política ambígua na região – servindo ao mesmo tempo como aliado dos Estados Unidos e dando apoio aos inimigos destes.

Há uma abundância de novas evidências para apoiar esta tese. Os documentos mostram claramente que a agência de inteligência paquistanesa é a cúmplice mais importante do Taleban fora do Afeganistão. A guerra contra as forças de segurança afegãs, os americanos e seus aliados da ISAF ainda está sendo conduzida a partir do Paquistão.

O país é um importante refúgio seguro para as forças inimigas – e serve como base para lançamento de suas missões. Novos recrutas para o Taleban atravessam a fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão, incluindo os temidos combatentes estrangeiros, entre eles árabes, tchetchenos, uzbeques, uigures e até mesmo muçulmanos europeus.

De acordo com diários da guerra, emissários dos ISI estão presentes quando os comandantes insurgentes realizam conselhos de guerra – e até mesmo dão ordens específicas para realização de assassinatos. Entre eles estavam as ordens para tentar assassinar o presidente afegão, Hamid Karzai. Por exemplo, um relatório de ameaça datado de 21 de agosto de 2008 alertou: “O coronel Mohammad Yusuf dos ISI instruiu o oficial taleban Maulawi Izzatullah para que cuide do assassinato de Karzai”.

O ex-chefe de inteligência do Paquistão, o general Hamid Gul, desempenha um papel proeminente nos documentos dos ISI. Depois deixar o cargo, Gul passou a imagem na imprensa ocidental de ser uma espécie de propagandista do Taleban. Nos documentos, Gul é retratado como uma importante fonte de ajuda ao Taleban e até mesmo, em um relatório, como um “líder” dos insurgentes. Um relatório de ameaça de 14 de janeiro de 2008 afirma que ele coordenou o seqüestro planejado de funcionários da ONU na Estrada 1, entre Cabul e Jalalabad.

Os memorandos declaram que Gul ordenou ataques suicidas e também descrevem o ex-chefe de inteligência como um dos mais importantes fornecedores de armas para o Taleban. Um relatório menciona um comboio de 65 caminhões carregados de munições que Gul supostamente preparou para o Taleban. Outro afirma que os ISI entregaram 1.000 motocicletas para os Haqqanis, uma família liderada pelo senhor da guerra Sirajuddin Haqqani, que –juntamente com o Taleban e Hekmatyar– estão entre os maiores oponentes das forças ocidentais no Afeganistão. Outro menciona 7 mil armas que foram enviadas para a província de fronteira de Kunar, incluindo rifles, morteiros e foguetes Strella.

Ainda assim, mesmo aqueles que redigiram os relatórios não sabem ao certo de sua veracidade. Este tipo de incerteza é frequente nos documentos. Elas revelam a grande fraqueza da estratégia de comunicação americana.

Falando sobre as facetas do Paquistão, Rhodes, o funcionário da Casa Branca, respondeu: “O status quo não é aceitável, precisamente o motivo para os Estados Unidos se concentrarem tanto neste desafio. O Paquistão está se movendo na direção certa, mas é preciso fazer mais. Os santuários para os grupos extremistas violentos dentro do Paquistão continuam a representar uma ameaça intolerável para os Estados Unidos, ao Afeganistão e ao povo paquistanês, que sofreram muito com o terrorismo. O governo paquistanês – e os serviços militares e de inteligência do Paquistão– deve dar continuidade à sua mudança de estratégia contra os grupos extremistas violentos dentro das suas fronteiras e permanecer na ofensiva contra eles”.

As agências de inteligência dos Estados Unidos estão se afogando em um mar de dados. Temendo a repetição dos erros de inteligência que ocorreram antes do 11 de Setembro, os analistas parecem estar relatando cegamente cada mínimo detalhe.

Especialistas em segurança vêm reclamando há algum tempo de que esses inúmeros relatos se concentram em excesso nas opiniões e movimentos do inimigo –neste caso, o Taleban no Afeganistão.

Analistas demais e voos de reconhecimento demais parecem estar preocupados em esboçar a hierarquia das redes dos insurgentes e criar listas de inimigos que devem ser mortos ou capturados. Agentes da inteligência estão constantemente coletando depoimentos de informantes locais, cuja avidez em agradar os americanos muitas vezes supera a sua confiabilidade.

No entanto, os problemas mais graves são muitas vezes negligenciados: a proteção dos civis afegãos, a análise do ambiente político e a busca por uma solução para este conflito interminável.

Uma coisa, porém, é certa. Estes milhares de documentos secretos indicam que, após quase nove anos de guerra, uma vitória no Hindu Kush parece mais distante do que nunca.

Tradução: George El Khouri Andolfato


Texto do Der Spiegel, republicado no UOL.

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segunda-feira, julho 26, 2010

O clube dos países atômicos

Em política internacional, se uma ação parece imprudente ou insensível e os responsáveis por ela não são malucos de carteirinha, em geral é porque foi feita para parecer assim, de propósito. Para mandar um recado.

Veja-se por exemplo o ataque de Israel em águas internacionais contra uma frota de barcos civis, que resultou na morte de nove passageiros turcos. Havia muitas maneiras que não implicavam o uso de violência para impedir que ela chegasse a um porto de Gaza; ou então, se os israelenses não se importavam em matar um ou dois passageiros para mandar um aviso de primeiro nível todos os candidatos a amigos humanitários de Gaza, poderiam ter esperado até que a frota tivesse efetivamente violado o bloqueio e atingido águas territoriais, onde se poderia dizer que Israel o direito de patrulhar e controlar, tornando qualquer possível dano que se abatesse sobre o responsabilidade dos que tentavam furar o bloqueio, e dando às ações de Israel pelo menos uma aparência de legalidade. Mas não, preferiram fazê-lo em águas internacionais, de um modo que garantisse a erupção de violência. E mataram nove civis desarmados no processo.

Pode-se dizer qualquer coisa sobre os militares israelenses, exceto que são incompetentes - e com certeza não são malucos. De modo que todas as desculpas esfarrapadas dadas depois sobre a “reação inesperada" das vítimas e o inquérito unilateral obviamente tendencioso sobre o incidente fazem parte do espetáculo: Israel não cometeu um "erro" ao decidir atacar a frota como o fez, nem os que executaram o ataque foram incompetentes. O recado foi bem claro: faremos o que for preciso para evitar o furo do bloqueio a Gaza, e não nos importamos com o que o resto do mundo pensa. Tão claro que, apesar das manifestações de indignação internacional sobre a morte de nove civis em águas internacionais, e apesar de toda a barulheira sobre o envio de "centenas" de novas frotas, até agora nada foi feito para responsabilizar Israel pelas suas ações, e os moradores de Gaza continuam abandonados à própria sorte, sendo coletivamente punidos por terem votado errado há quatro anos.

Acessoriamente, outro recado foi mandado: os israelenses são cães raivosos, vejam o que eles fizeram e pensem no que podem fazer se não forem apaziguados. Que esse “apaziguamento", sob a forma de sanções contra o Irã, tenha servido outros propósitos é apenas parte do jogo: nós arranjamos uma desculpa para vocês, vocês cobrem as nossas costas, e nós dois falamos sobre outra coisa enquanto fazemos o que temos de fazer. Mais do que nunca, o que se faz não importa, o importante é que se é visto fazendo - e "ver" está aberto a manipulações de todo tipo.

A invasão do Iraque em 2003 é outro exemplo, em uma escala maior. Depois de criado o precedente do Afeganistão e montada a base de propaganda pró-guerra sobre uma base de provas frágeis e – como foi revelado depois – francamente falsas, mesmo diante das maiores manifestações de massa em todo o mundo na história recente, o plano de guerra foi executado até a invasão e a ocupação de um país soberano, resultando na destruição quase completa da infra-estrutura econômica do Iraque e em incontáveis milhares de mortes de civis. Novamente, o recado foi claro: não ligamos a mínima para o que o mundo pensa, nem para as leis internacionais: vamos travar guerras preventivas de agressão contra qualquer país, no momento em que bem entendermos, por qualquer razão que julguemos adequada.

Quem disse que Israel limitou-se a empregar os meios à sua disposição impedir que artigos potencialmente perigosos chegassem às mãos dos "terroristas" de Gaza tinham razão afinal de contas, e nós estávamos errados, como de costume: a perigosíssima idéia de que cidadãos comuns possam passar por cima dos governos e tomar a questão de Gaza nas suas próprias mãos para acabar com o bloqueio precisava ser extirpada por qualquer meio, mandando um recado que matasse no berço quaisquer outras iniciativas semelhantes no futuro – o que estava em jogo era a segurança dos que controlam Israel e o uso do seu poderio militar. E aqueles que contrapunham as necessidades de "segurança mundial" às acusações de "roubo de petróleo" como a força motriz que conduziu à invasão do Iraque também estavam certos, e nós, outra vez errados: a guerra contra o Iraque não aconteceu por causa de petróleo (apesar de que ter o controle direto da terceira maior reserva de petróleo do mundo é um efeito colateral não desprezível): tratava-se de mandar um recado, e criar um precedente: temos o direito de decidir quem pode fazer o que, e vamos fazer cumprir este direito por qualquer meio, inclusive com guerras de agressão e matanças de civis. E, mediante manipulações, chantagens e ameaças, vamos fazer isto com o pleno apoio das instituições internacionais criadas justamente para nos impedir de o fazer.

Em um momento em que a emergência de novas potências mundiais começa a desafiar os proprietários deste mundo em todas as frentes, era urgente impor um limite: podemos aprender a conviver com a concorrência comercial e até mesmo incentivá-la dentro de certos limites para nos tornarmos mais competitivos, mas não vamos entregar o controle total que temos sobre os destinos do mundo. Continuaremos a tomar as decisões finais, e vocês vão continuar a cumpri-las. Podem fazer o que quiserem com os seus próprios vizinhos, contanto que nós possamos continuar fazendo o que quisermos com vocês - e, através de vocês, também com os seus seus vizinhos.

Há uma guerra acontecendo, e as potências nucleares vêm se preparando para ela, e tomando posições estratégicas, desde antes mesmo que os seus adversários percebessem que havia uma disputa. O Irã é o atual campo de batalha desta guerra, o lugar onde eles vão dar mais um passo para garantir o seu poder. É por isso que a Turquia e o Brasil não poderiam ser autorizados a negociar uma saída para o impasse nuclear iraniano, é por isso que a Declaração de Teerã tinha de ser ignorada e uma nova rodada de sanções precisava ser imposta ao Irã: a única solução aceitável para eles é que os iranianos renunciem ao direito de desenvolver a sua própria tecnologia nuclear para fins civis, independentemente de esse direito estar consagrado nas leis internacionais e em tratados internacionais em vigor. E essa "solução" tem de ser alcançado pelos seus próprios esforços e meios, e não pela intervenção de novatos intrometidos como o Brasil ou a Turquia. Esses países têm de ser mantidos no seu lugar como parte do problema e nem por um momento devem achar que podem ser parte da solução.

A meta atual das potências nucleares, que a vêm perseguindo com diligência nas duas últimas décadas, passo a passo, é fazer com que o desenvolvimento do ciclo completo da tecnologia nuclear para fins civis seja um monopólio de quem já o domina, os "estados nucleares" do Tratado de Não Proliferação. Os meios para esse fim são o Protocolo Adicional do TNP, tornando as inspeções intrusivas da AIEA obrigatórias para todos os países (exceto os estados nucleares, é claro), e a proibição de transferências internacionais de tecnologia nuclear, mediante novas regras sobre o comércio nuclear impostas pelo Grupo de Fornecedores Nucleares (GFN). Depois de estabelecido o precedente iraniano, fixando o “direito” das potências nucleares a forçar um país a renunciar aos seus direitos, eles vão resolver os "problemas" restantes: Brasil, Turquia, Argentina, Coreia do Sul, Paquistão, África do Sul e, em última instância, a Índia, já objeto de pesadas pressões americanas nas negociações do NSG, apesar de ter firmado em 2008 um acordo de cooperação nuclear com os Estados Unidos.

A justificação das potências nucleares para a tentativa de torpedear o Tratado de Não Proliferação é que este conteria “lacunas” que permitiriam que os seus signatários desenvolvam programas nucleares paralelos, clandestinos, para a confecção de armas atômicas. Esta alegação, porém, não resiste à análise: nenhum signatário do TNP jamais desenvolveu armas atômicas. A Coreia do Norte retirou-se do Tratado e expulsou os inspetores da ONU do país antes de desenvolver os seus fogos de artifício nucleares, e os únicos países possuidores de um arsenal nuclear além dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança são a Índia, o Paquistão e Israel, nenhum deles signatário do TNP, e todos aliados dos EUA. E, pelo menos no caso de Israel, esse arsenal atômico foi desenvolvido com o apoio ativo dos Estados Unidos, enquanto a Índia e o Paquistão beneficiaram-se do silêncio cúmplice das potências nucleares enquanto desenvolviam os seus brinquedos atômicos. Essa tentativa, feita pelos maiores responsáveis pela proliferação de armas atômicas e baseada em premissas falsas e portanto com objetivos não revelados (mas óbvios), precisa ser combatida com determinação pelos países para os quais o fim do TNP e a imposição de restrições ao desenvolvimento independente de tecnologia nuclear serão mais prejudiciais: Turquia, Egito, Coreia do Sul e Indonésia, entre outros. E, mais ainda que estes, o Brasil, por ter atingido, ao contrário do Irã, um estágio de domínio da tecnologia nuclear em que o desenvolvimento de armas atômicas é uma possibilidade concreta, não uma acusação infundada e desonesta.

Apesar de ser um dos principais interessados em combater essa tentativa, enquanto a Turquia assume uma posição firme no NSG contra mais restrições sobre o comércio internacional de tecnologia nuclear e continua forte e publicamente envolvida nas negociações do programa nuclear iraniano, o Brasil queima o capital político adquirido e, cedendo a pressões não declaradas de partes não esclarecidas, fica em casa lambendo os dedos queimados e em geral promete comportar-se direitinho de agora em diante. Porém, como mostra claramente o exemplo iraniano, "comportar-se" não é uma garantia de ser deixado em paz, e os brasileiros podem ter a certeza de que serão os próximos na fila para este tipo especial de imposição de “conformidade” se abandonarem o campo de batalha agora e permitirem que a violação dos direitos do Irã seja levada a termo.

Como já foi dito inúmeras vezes, a defesa dos direitos iranianos à tecnologia nuclear pacífica não é um capricho do presidente, nem uma tentativa da diplomacia brasileira de “projetar” o país no cenário internacional, ela é antes de mais nada uma defesa dos nossos próprios direitos a um desenvolvimento independente e, neste sentido, é vital para a nossa política externa. Abandoná-la agora atenta contra o interesse nacional, compromete o nosso futuro como nação desenvolvida plenamente autônoma e põe a perder a nossa reputação internacional de seriedade e honestidade. Se estamos sendo pressionados para sair de cena, o governo tem a obrigação de esclarecer quem o faz, e como o faz, para manter a nossa tradição de transparência nas relações internacionais e para que os cidadãos brasileiros possam decidir com conhecimento de causa se querem ceder a elas.


Texto de Tomás Rosa Bueno, disponível no blog do Luís Nassif.

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quinta-feira, maio 06, 2010

28/04/1965: Os Estados Unidos invadem a República Dominicana

Hoje na História: Tropas dos EUA invadem a República Dominicana

Numa ação para prevenir o que o presidente dos Estados Unidos Lyndon B. Johnson chamou de “implantação de uma ditadura comunista”, Washington decide invadir a República Dominicana em 28 de abril de 1965, enviando 22 mil soldados e pesado armamento para restaurar a ordem. A decisão de Johnson provocou ásperos protestos na América Latina e ceticismo em alguns setores dos EUA.

A instabilidade na República Dominicana teve início em 1961, quando o ditador Rafael Trujillo, que estava no poder há tempos, foi assassinado. Trujillo havia sido um tirano brutal, mas sua fanática postura anti-comunista ajudou-o a garantir o respaldo de Washington.

Sua morte levou à ascensão de um governo reformista chefiado por Juan Bosch, eleito presidente em 1962. A hierarquia militar dominicana, porém, abominava Bosch e suas políticas liberais. Bosch foi derrocado em 1963. O caos político decorrente dominou a cena no país quando vários grupos, inclusive o estamento militar em crescente cisão, lutavam acirradamente pelo poder.

Em 1965, forças populares que exigiam a reinstalação de Bosch no poder passaram a se manifestar nas ruas contra o governo controlado pelos militares. Enquanto isso, em Washington, temia-se por uma “outra Cuba”, supostamente em gestação naquele país. Com efeito, muitos funcionários do governo estadunidense, especialmente no Departamento de Estado e na CIA, suspeitavam que Fidel Castro estivesse por trás das manifestações populares.

Ação prática

Finalmente, em 28 de abril, mais de 22 mil fuzileiros navais, apoiados por forças militares cedidas por alguns dos Estados-membros da OEA (Organização dos Estados Americanos), entre eles o Brasil do regime ditatorial militar comandado então por Castello Branco, desembarcaram na República Dominicana. No curso das semanas que se seguiram, as tropas estrangeiras dominaram a situação e ajudaram a instalar um governo não militar, conservador, fortemente ligado aos EUA.

O presidente Johnson saiu a campo para declarar que foi obrigado a tomar aquelas medidas para evitar a instauração de outra “ditadura comunista” na região. Como evidência de suas acusações, tornou público relatórios que apontavam suspeitos de comunismo de vários ocupantes de cargos-chaves na República Dominicana. Até mesmo revisões superficiais da lista de pessoas revelaram que a evidência era extremamente frágil – algumas pessoas daquela lista haviam morrido há tempos e outras não poderiam ser acusadas de comunismo.

Críticas

Alguns governos latino-americanos e diversas organizações sociais condenaram a invasão, denunciando-a como um retorno à “diplomacia das canhoneiras” do começo do século 20, quando os ‘marines’ dos EUA, ao mais leve pretexto, invadiam e ocupavam nações latino-americanas.

Nos EUA, setores políticos liberais, céticos e desconfiados em relação à política de Washington no Vietnã, desdenharam das declarações de Johnson acerca do “perigo comunista” na República Dominicana. Tal crítica tornou-se cada vez mais frequente contra o governo Johnson à medida que os EUA se envolviam mais profundamente na Guerra do Vietnã.


Texto do Operamundi.

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quinta-feira, abril 01, 2010

Hoje na História: Tratado põe fim à Guerra dos Bôeres

Hoje na História: Tratado põe fim à Guerra dos Bôeres

No dia 31 de março de 1902, um tratado pôs fim à guerra de 30 meses entre os bôeres e os ingleses, no território que viria a ser a África do Sul. Os bôeres sempre se referiram ao conflito como a "Guerra de Libertação".

Os bôeres (de boer, que em holandês significa "camponês" e se pronuncia "bur"), também denominados africâners, são os descendentes dos holandeses e franceses instalados no século XVII na região do Cabo da Boa Esperança. Rudes e solidários, queriam preservar seus costumes e sua religião calvinista. Depois que os ingleses anexaram a região como a Colônia do Cabo, em 1814, migraram para o nordeste, assentando-se nos vales dos rios Vaal e Orange.

Em 1887, foi descoberto o maior campo de ouro do mundo em Witwatersrand (ou "The Rand", para os ingleses), a 50 quilômetros de Pretória. Milhares de colonos britânicos foram atraídos para a República do Transvaal, fundada pelos bôeres e anexada pela Inglaterra em 1877. A cidade de Johanesburgo, perto da área, cresceu vertiginosamente. Ao pé das minas, os pobresuitlanders (forasteiros), caçadores de fortuna britânicos que os bôeres (principalmente agricultores) acusavam de invasão, fizeram crescer bairros degradados. Os uitlandersrapidamente ultrapassaram em número os bôeres no Rand, mas permaneciam em minoria no Transvaal. Os Africâners, nervosos e receosos com a presença dos uitlanders, negaram a eles o direito de votar e taxaram a indústria do ouro pesadamente. Em resposta, os uitlanderspressionaram os proprietários da minas para derrubarem o governo bôere. Confiantes de que os bôeres seriam rapidamente derrotados, os britânicos tentaram precipitar a guerra.

Em setembro de 1899, o secretário colonial britânico, Joseph Chamberlain, enviou um ultimato exigindo direitos iguais para os residentes britânicos no Transvaal. O presidente do Transvaal, Paul Kruger, tendo certeza de que a guerra era inevitável, simultaneamente enviou o seu próprio ultimato a Chamberlain, dando 48 horas aos britânicos para retirarem as tropas da fronteira do Transvaal.

A guerra foi declarada em 12 de outubro de 1899, e os bôeres atacaram primeiro, invadindo a Colônia do Cabo e do Natal. Os bôeres estavam prontos para sitiar as cidades de Ladysmith, Mafeking (defendidas pela tropas de Robert Baden Powell, fundador do escotismo) e Kimberley.

O mês de dezembro daquele ano foi dificil para o exército britânico. No período que ficou conhecido como Semana Negra (10 a 15 de dezembro de 1899), os britânicos sofreram uma série de derrotas devastadoras. Os comandantes bôeres, Koos de la Rey e Piet Cronie, elaboraram um plano para abrir trincheiras para confundir os britânicos e dar aos seus artilheiros um grande alcance de tiro. O seu plano funcionou. Os britânicos sofreram várias derrotas até os reforços chegarem, em 14 de fevereiro de 1900, permitindo lançar contra-ofensivas. A reconquista de Mafeking, em 18 de maio de 1900, provocou grandes celebrações na Inglaterra. Os britânicos capturaram Bloemfontein, capital do Estado Livre de Orange, em 13 de março e Pretória, capital do Transvaal, em 5 de junho.

Observadores britânicos acreditavam que a guerra, por fim, tinha acabado. Contudo, os bôeres desencadearam uma campanha de guerrilha para atingir os abastecimentos e linhas de comunicação britânicas. Atacaram o sistema hidráulico de Bloemfontein, 40 quilômetros a leste da cidade, e emboscaram um pesado comboio do qual resultaram a morte de 155 ingleses, 117 vagões e 428 homens capturados. Uma das últimas batalhas formais foi a batalha de Diamond Hill, entre 11 e 12 de junho. Foi o ponto final nas operações militares e o passo seguinte para uma nova fase da guerra.

No total, a guerra custou cerca de 75 mil vidas – 22 mil soldados britânicos; de 6 a 7 mil combatentes bôeres e uns 20 mil africanos negros. O fim da rendição bôere aconteceu em março de 1902 e a guerra acabou com o Tratado de Vereeniging, no mesmo mês. O tratado criou a União da África do Sul (o que só ocorreria em 1910) e acabava com a existência do Transvaal e de Orange como repúblicas bôeres, anexando-as ao Império Britânico.

Texto originário do Operamundi.


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terça-feira, janeiro 12, 2010

Muralhas não funcionam

Fisk: Muralhas não funcionam

Atualizado e Publicado em 03 de janeiro de 2010 às 11:53

Muralhas não funcionam: nem no Oriente Médio nem na Irlanda

2/1/2010, Robert Fisk, no jornal britânico The Independent

Estávamos andando pelo Cemitério Milltown, semana passada, eu e David McKittrick – Nosso Homem em Belfast e um dos meus mais velhos amigos – e o vento descia, mordendo, de Cave Hill.

“Camuflada em gelo e neve” – assim o Belfast Telegraph descrevia a Irlanda do Norte, quando embarquei no trem de volta a Dublin, dia seguinte; mas acho que as amarguras do Ardoyne[1], do parque Falls, da [avenida] Shankill[2], dos velhos Mercados são culpadas pelo exagero. Por mais que se diga que seria uma linha “para a paz”, aquela implacável, gelada muralha de ferro, pedra e arame farpado logo a leste de Andersonstown fez-me lembrar outra e mais permanente “cerca de segurança” a mais de 3 mil quilômetros dali.

No Cemitério Milltown, no “reduto” republicano – sim, Bobby Sands está enterrado lá, também homenageado, é claro, na rua ao lado da embaixada britânica em Teerã –, está a sepultura na qual estão enterrados juntos Máire e James [Jimmy] Drumm do Sinn Fein. A foto a mostra mais jovem do que a conheci, toda sorrisos e cabelos cacheados, sem vestígio de fúria e cinismo (ela me recebeu risonha, há mais de 34 anos, quando apareci para me despedir, com uma garrafa de uísque sobre a mesa e os comandantes da Brigada de Andersonstown, do IRA, pelos sofás em volta dela, reunidos para dizer adeus ao jovem “fella” que partia para Beirute).

Em seu túmulo lê-se “Assassinada por elementos pró-britânicos” – que é o mais perto que alguém do movimento Irlandês Católico Republicano jamais chegará de escrever “protestantes” –, e lembrei que atiraram nela quando estava doente, numa cama do Hospital Mater em 1976; que ela caiu da cama enrolada nos lençóis ensangüentados; que tentou arrastar-se pelo chão e que, então, atiraram nela outra vez.

Ninguém poderia saber que Belfast seria hoje cidade de maioria católica. Nem os colonizadores protestantes dos séculos 16 e 17 – os fazendeiros jacobinos e os veteranos de Cromwell – jamais souberam que suas terras seriam quase totalmente católicas, 400 anos depois. A história dos “assentamentos” protestantes na Irlanda é como uma narrativa ancestral, espectral, do que se diz hoje sobre os modernos “assentamentos” na Cisjordânia, onde os israelenses insistem em combater a última guerra colonial, com assessoria direta dessa que um dia foi grande nação anticolonial, conhecida como EUA.

Há legiões de diferenças, é claro. O protestantismo, em suas inúmeras modalidades irlandesas, visava a converter – ou promover a “limpeza étnica” dos católicos gaélicos. O judaísmo não faz proselitismo – antes, exatamente o contrário –, e o discurso pelo qual Israel insiste em reclamar (ilegalmente) direitos sobre terra dos árabes na Cisjordânia baseia-se em textos considerados sagrados, não no poder de algum rei.

Robert Kee, dos mais refinados especialistas na história da Irlanda dos séculos 16 e 17, diz concisamente: “Os quatro condados de Donegal, Tyrone, Derry e Armagh (...) junto com os dois condados de Cavan e Fermanagh tornaram-se objeto do mais sistemático empenho jamais visto para instalar e plantar, na Irlanda, estrangeiros vindos da Inglaterra e da Escócia. Foi a chamada “Plantation of Ulster”, planejada no gabinete de um governo, entre 1608 e 1610."

Antes já houvera tentativas de colonizar a Irlanda bárbara, quando soberanos católicos implantaram famílias em Leix e Offaly (cujos proprietários de terra descobrem que vivem hoje em condados do rei e da rainha, exatamente como se espera que os palestinos creiam que, desde 1967, vivem em Judeia e Samaria). “Mas todas essas implantações anteriores fracassaram”, escreve Kee. “Fracassaram por falta de braços ou de capital de apoio, ou ainda por terem sido fisicamente varridas de lá pela rebelião dos que haviam sido expulsos e roubados para que houvesse lugar para os colonos."

Esse continua a ser o medo de Israel: que os palestinos expulsos e roubados em 1948 voltem para retomar suas terras do que hoje é o Estado de Israel ou, pelo menos, para as terras que lhes foram roubadas na Cisjordânia, depois de 1967. Os massacres de protestantes por católicos em 1641, período de guerra civil vividamente capturado nas 20 mil páginas de depoimentos hoje arquivados pela minha própria alma mater do Trinity College, em Dublin, é pálido precursor do massacre de judeus em Hebron durante a rebelião árabe de 1929; embora 1.300 protestantes tenham sido enforcados e passados pelo fio da espada em 1641; e 64 judeus, em Hebron. William Baxter, cavalheiro que trabalhava para a empresa Co. Fermanagh “declarou sob juramento que Ross McArt McGuire roubou terras de sua propriedade em Rathmoran [direitos de propriedade comprovados porque] as terras pertenciam a seu pai antes da dita implantação de colonos” – como a professora de história moderna Jane Ohlmeyer relembra em artigo recente.

Mas os colonizadores elizabetanos vieram como soldados-colonos. Mais tarde vieram os protestantes escoceses, como os israelenses para a Cisjordânia, como colonos treinados para ser soldados. “A ideia de povoar terras não povoadas incendiou a imaginação de homens dos dois países” – cito o trabalho de Perceval-Maxwell sobre a migração escocesa, mas “fazer florescer o deserto” e “terra sem povo para povo sem terra” são frases que ecoam longe, no futuro.

Cromwell injetaria uma nova forma de violência na Irlanda, cujas vítimas, afinal, podem ser encontradas hoje no Cemitério Milltown e, adiante, pela estrada Falls, no cemitério predominantemente protestante da cidade de Belfast. Os massacres em Drogheda e Wexford agiram para as massas como catalisadores do medo, assim como as matanças em Deir Yassin e muitas outras vilas árabes em 1948 levaram os moradores de centenas de outras vilas e cidades árabes a capitular e fugir das terras que viriam a constituir Israel. A maior parte das melhores terras da Irlanda, pelo menos ¾ delas, foram confiscadas, roubadas de seus proprietários católicos, e os habitantes foram expulsos para as terras geladas e selvagens de Connaught. À altura de 1688, os católicos possuíam apenas 22% das terras da Irlanda gaélica original, precisamente a mesma porcentagem da terra palestina do Mandato – 22% –, em nome da qual Yasser Arafat teve de negociar o ‘acordo’ de Oslo, absolutamente sem esperanças ou chances. Hoje, a terra que pertence a árabes na ‘Palestina’ é ainda menor que aquela – e caminha inexoravelmente para os meros 14% que ainda pertencia a católicos em 1703.

Outra vez, não são narrativas comparáveis; mas todos os espectros ainda não nascidos estão aí. Os governantes ingleses no século 17 suspeitavam – com muita razão – que a Espanha trabalhava para oferecer apoio espiritual e material aos insurgentes irlandeses; exatamente como Israel, hoje, crê (também com muita razão) que o Irã está oferecendo apoio espiritual e material ao Hamás, e, fora da ‘Palestina’, também ao Hizbollah. Onde havia o Papa de Roma, leia-se hoje “Papa Khamenei de Teerã”. Em muitas ocasiões, atos de “terrorismo” contra os protestantes emergiram de católicos sem-terra que trabalhavam para os mesmos que lhes haviam roubado a terra. E então, mais tarde, os “assentamentos” protestantes foram cercados por muros e muralhas defensivas enormes, nas quais havia, de distância em distância, torres de vigia e aberturas para atiradores. A cidade de Derry tem muralha mais alta que o Bogside católico[3], tão violenta e feroz quanto a muralha israelense que hoje invade ainda mais terras árabes.

E, claro, os católicos irlandeses fugiram de lá – exatamente como o ministro dos Negócios Externos de Israel gostaria de “transferir” palestinos para o oriente. E para onde foram os católicos irlandeses? Cerca de 100 mil fugiram para a Europa, a maioria para os territórios espanhóis dos Habsburgo, em muitos casos para as terras de Espanha das quais os mouriscos – muçulmanos da Espanha e o remanescente dos judeus espanhóis – acabavam de ser varridos (“limpeza étnica”) pelos senhores de terras cristãos católicos. O massacre final dos muçulmanos espanhóis (que não se converteram) ocorreu em 1609, quando Felipe de Espanha obrigou 300 mil almas a abandonar a península Ibérica e partir para o norte (otomano) da África. Entre eles, partiram espanhóis “limpadores étnicos” que haviam assassinado por etnocídio os mouriscos – dentre outros, Garcia Sarmiento de Sotomayor e o Conde Caracena – que passaram a exigir recursos para os irlandeses que chegavam à Galícia.

Publicações dos católicos irlandeses da época – segundo pesquisa feita por Igor Pérez Tostado – comparavam os católicos irlandeses e os muçulmanos espanhóis: “ambos eram apresentados não só como traidores e desleais, mas como ameaça existencial à vida da comunidade política.” E todos, de fato, foram jogados ao mar.

Mas, afinal, os “assentamentos” ingleses e escoceses fracassaram na Irlanda. A eterna esperança dos protestantes de que o apoio vindo de Londres seria eterno, acabou por se revelar esperança delirante, falsa. E então?! O que dizer da certeza, de Israel, de que receberá eterno apoio de Washington?

Ainda não creio em alguma “solução de um Estado” – que a minoria protestante terá de aceitar algum dia na Irlanda, se é que já não aceitou, subconscientemente, talvez –, mas o fim de todas as colonizações é o cemitério. Muralhas não funcionam. Nem religiões ‘superiores’. Nem se pode fazer limpeza étnica ‘total’. A história, que se deve estudar sempre, como as esperanças delirantes, falsas, é carrasco sem piedade.

[1] Bairro de maioria católica, no norte de Belfast. Para ver o bairro, em julho de 2009, visite http://www.youtube.com/watch?v=66R8h-UxotQ&feature=related

[2] Um dos murais da avenida Shankill, em região de maioria protestante, pode ser visto em http://4.bp.blogspot.com/_PzNqvAO3puc/SW4gtWqOCfI/AAAAAAAAIto/lCVZcoPUr2U/s1600-h/postais05.jpg

[3] Para ver o Bogside, fotografado de cima da muralha, em Derry, visite http://en.w ikipedia.org/wiki/File:WestlandFromWall.jpg

Visto no Vi o Mundo.

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terça-feira, novembro 17, 2009

Fora FMI!

FORA FMI, AMEAÇA "WSJ"

O "Wall Street Journal" se voltou em editorial contra conceder mais poder aos "políticos de Pequim e Brasília" no Fundo, como vem negociando o G20.
Questiona não serem "credores de longo prazo" no FMI, como os EUA. Diz que o Fundo "não é uma democracia" e, "se for para virar um banco da ONU, os contribuintes americanos devem parar de pagar por ele". Afinal, "com o FMI de antigamente pelo menos se podia contar na hora de apoiar os interesses geopolíticos do Ocidente".

Trecho da coluna Toda Mídia, na Folha de São Paulo, de 27 de outubro de 2009. Destaques do blogueiro. Uma palavra exemplar sobre o motivo da existência do FMI.

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sábado, agosto 22, 2009

Conosco não

“Nunca admitimos nem admitiremos atividades militares, de nenhum tipo, dos americanos em nosso território. Não podemos esquecer que o México é a fronteira dos EUA com América Latina, uma fronteira que estamos defendendo com dignidade há séculos.”

Felipe Calderón, Presidente do México, sobre a possibilidade do México ter operações conjuntas com os Estados Unidos para repressão ao tráfico de drogas, na Folha de São Paulo, de 18 de agosto de 2009. A pergunta tinha como referência a Colômbia, e a cessão de bases militares aos Estados Unidos.

O presidente Felipe Calderón é um político do campo conservador, de direita, mas parece conhecer o lugar do México no mundo.

Acredito que os mexicanos não esquecem que os Estados Unidos lhes tomaram entre um quarto e um terço de seu território durante o século XIX (Texas primeiro, depois novo México, Arizona, Califórnia, Nevada, Utah e Colorado). Além disso fizeram desembarque de tropas em Vera Cruz (sul do México) durante a Revolução Mexicana (1910-1917).

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quinta-feira, janeiro 29, 2009

Cerco à OEA

Cerco à OEA se delineia há tempos

NEWTON CARLOS
ESPECIAL PARA A FOLHA

A OEA (Organização dos Estados Americanos) naufraga num mar de alternativas regionais cujo acento maior é a exclusão dos EUA. É o caso da proposta de uma nova organização de países da América Latina e do Caribe, que se junta a outras iniciativas do mesmo teor, como o Grupo do Rio e a Unasul.
Washington já fora avisada por instituições acadêmicas americanas de que a OEA corre o risco de perder vigência.
Seria a quebra do mais importante elo da cadeia de ações coletivas envolvendo América Latina e EUA, com predominância histórica dos americanos. A OEA chegou a ser chamada de ministério das colônias dos EUA.
O primeiro golpe foi dado com o Grupo do Rio, inspirado no fracassado Grupo de Contadora. Em 1984, países latino-americanos se reuniram na ilha panamenha de Contadora para encontrar soluções para a guerra na América Central, que se tornara sangrenta com aberta intervenção americana.
Uma OEA sem os EUA? Contadora chegou a concluir um texto de proposta de paz. Mas sofreu operação de bloqueio conduzido por Constantine Menge, na época o encarregado da América Latina no Conselho de Segurança Nacional dos EUA.
A revista "Current History" divulgou documentos que estabeleciam como "estratégia do governo Reagan" impedir negociações de paz na América Central.
O único que importava era derrubar os sandinistas na Nicarágua e com isso, na visão reaganiana, traçar uma "linha de contenção do comunismo em território americano". Deu no escândalo de contrabando de armas para o Irã e num quase impeachment de Reagan.
O Grupo do Rio procura resgatar o espírito de Contadora. Ou buscar soluções latino-americanas para problemas da América Latina. Cuba formalizou seu ingresso na cúpula na Bahia, o que marca mais distância da OEA.
Bush ainda tentou resgatar algo dessas relações empoeiradas em benefício próprio, com o seu "Pathways for Prosperity", um discurso sobre os caminhos para a prosperidade. Foi lançado em setembro ante representações de alto nível de apenas 11 países latino-americanos, nem todos presidentes. Em pouco tempo não se falava mais nisso.

Texto da Folha de São Paulo, de 18 de dezembro de 2008.

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sexta-feira, novembro 21, 2008

O legado de George W. Bush para a América Latina

Pablo Calvi
De Nova Iorque

Quando se analisa o legado político dos dois mandatos de George W. Bush em termos de política externa na América Latina é necessário recorrer a um conceito cunhado por cientistas políticos norte-americanos e que indica uma inesgotável criatividade: benign neglect, ou, negligência benigna, remete a uma situação na qual uma sistemática falta de interesse culmina num cenário claramente positivo.

É claro que nos últimos oito anos, América Latina foi posta de lado na agenda prioritária do Executivo norte-americano. Claro que esta situação, somada ao interesse quase exclusivo de George W. Bush pelo Oriente Médio, resultou num fortalecimento institucional na América Latina. Graças, justamente, à falta de intervenção na região estamos hoje falando de mais de 20 anos de democracia ininterrupta, explica Maria Victoria Murillo, analista e professora de Ciência Política da Universidade de Columbia, em Nova Iorque.

"As intervenções norte-americanas foram sempre negativas e o que ocorreu nos últimos anos comprova isso", diz Murillo. "As democracias estão num momento excelente na região, as instituições mostram-se mais sólidas e há mostras de que isto continuará assim por muito tempo. Há 30 ou 40 anos, ninguém poderia imaginar que as coisas estariam assim tão bem".

A surpresa tem a ver não apenas com a estabilidade institucional na região, que desde os anos 80 vem trabalhando em diferentes processos de consolidação.

"Curiosamente, Bush foi o presidente com mais interesse pessoal pela América Latina e uma das provas disso é que em sua primeira viagem como presidente ele foi para o México", recorda a analista. "Desde que era governador do Texas, sempre mostrou-se próximo à América Latina. Mas a pauta do Oriente Médio o manteve quase que completamente distraído", exceto por algumas claras exceções, pontua Murillo.

Patricio Navia, cientista político e professor da Universidade de Nova Iorque (NYU) converge com a analista de Columbia. Para Navia, "durante os últimos 8 anos, Estados Unidos e América Latina se ignoraram um ao outro, mas isso permitiu ir deixando para trás uma história complexa de intervenções indesejadas. Agora a agenda está muito mais limpa para poder reconstruir relações que vão além do livre comércio sem que pese a herança da Guerra Fria".

De fato, a disputa silenciosa iniciada com o fim da Segunda Guerra Mundial teve conseqüências sumamente nocivas para a região. Desde intervenções em temas de política interna até reiteradas invasões, os Estados Unidos não deixaram de marcar território nas frágeis e circunstanciais democracias latino-americanas, amparando, inclusive, vários regimes totalitários nos casos em que considerou haver risco ideológico de uma iminente ascensão da esquerda.

"Se recapitularmos, desde Noriega (Manuel Noriega, líder militar que governou o Panamá entre 1983 e 1989) que os EUA não invadem nenhum país da América Latina", assinala Murillo. "E se comparamos com os últimos 100 anos, isto é muito interessante. Claro que há problemas, sobretudo econômicos, porém, parece que os países da região estão passando por um grande momento institucional".

Para ambos analistas, a negligência benigna de Bush teve, entretanto, dois pontos questionáveis. O primeiro foi o apoio ao golpe institucional na Venezuela, em 2002. Com Otto Reich como Secretário de Estado para Assuntos Hemisféricos, Bush deu continuidade à política de intervenção regional que começou com Reagan, a qual Bush Pai seguiu quase ao pé da letra. "Mas a mudança ocorreu assim que Bush integrou ao seu gabinete o diplomata Thomas Shannon", explica Murillo. "Basicamente a partir desse momento, a América Latina teve liberdade de agir como quisesse".

O segundo erro foi a política antidrogas aplicada na Colômbia, por causa da pouca eficiência apresentada na hora de limitar a entrada de cocaína nos Estados Unidos, o que acabou deslocando a produção e o tráfico para países como México e Brasil.

Dos países que mais se beneficiaram, Navia sugere que, sem dúvida, foram aqueles que conseguiram firmar acordos de livre comércio com o gigante do norte. "Muito embora este tema se complicará daqui pra frente", antecipa.

"Acho que o acordo com a Colômbia tem menos de 50% de possibilidades de ser aprovado com Obama", confirma Murillo.

Para os dois analistas, um dos temas que mais mudará na agenda do Executivo será a relação com Cuba. "As restrições para viagens e remessas de dinheiro cairão assim que Obama assumir o governo", vaticina a professora da Columbia. "E tudo que tenha a ver com decretos, e tudo o que puder ser feito para melhorar as relações entre os dois países, sairá rápido. O bloqueio está apoiado numa lei e seguramente tardará mais", assegura.

"Na nova administração, a ênfase terá que ser a consolidação das instituições e a democracia", adianta Navia. "Porque já não há mais espaço para avançar em acordos de livre comércio, dado que a maioria deles já foi assinada e os países da região que não assinaram não estão interessados em fazê-lo".


Texto do Terra Magazine.


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quinta-feira, novembro 20, 2008

Brasil potência desperta 'agressividade' em vizinhos, diz 'Newsweek'

O desenvolvimento do Brasil como potência econômica mundial despertou animosidades em países vizinhos, diz um artigo da revista americana Newsweek desta semana.

"Na medida em que o Brasil se torna um país mais poderoso, seus vizinhos se tornam mais agressivos", diz a revista.

"Estes dias, os imperialistas falam português", diz o artigo, afirmando que agora o país "marca o passo econômico da América Latina e está se tornando cada vez mais o alvo nº 1" - posição que a Newsweek diz ter sido ocupada no passado pelos Estados Unidos.

"O rugido anti-brasileiro mais alto vem dos Andes, onde líderes populistas que marcham ao som dos tambores da 'revolução bolivariana' do homem forte venezuelano Hugo Chávez, tentam reconstruir suas nações através da redistribuição de riquezas e do aumento do poder dos grupos e minorias indígenas há muito negligenciados."

A revista diz que "nos últimos dois anos, os líderes de Venezuela, Equador e Bolívia lançaram insultos contra seu vizinho dominante, e ultimamente o clima tem se exaltado". Como exemplo, Newsweek cita o episódio da expulsão da construtora Odebrecht pelo governo do Equador.

E a reação anti-Brasil está chegando ao sul do continente, segundo o artigo. "No Paraguai, o presidente Fernando Lugo tomou posse em agosto sob a bandeira de 'independência energética' - código populista para extrair concessões do império' do outro lado da fronteira."

"Ele (Lugo) está acusando o Brasil de pagar menos pela energia que importa da usina hidrelétrica de Itaipu, e quer liberdade para vender metade do total para qualquer país que desejar."

"Popular"

Apesar do antagonismo, o artigo diz que "ironicamente, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva continua popular na América Latina". O presidente boliviano Evo Morales "se referia reverenciosamente a Lula como seu 'irmão maior'", "Chávez raramente perde uma oportunidade de foto com Lula" e "a primeira viagem internacional de Lugo como presidente foi para Brasília".

"Fazer dos brasileiros os novos gringos pode cair bem para a arquibancada, mas é arriscado política e economicamente", segundo Newsweek.

"Até agora, o Brasil vinha sendo o maior investidor estrangeiro da Bolívia, enquanto o Paraguai se tornou o quinto maior exportador de soja graças à tecnologia brasileira", diz a revista.

A reação do Brasil tem sido "quase de penitência ante seus vizinhos pequenos, que cada vez mais representam os habitantes de Lilliput para o Gulliver do Brasil", diz o artigo, em uma referência aos seres minúsculos que o personagem Gulliver encontra na ilha de Lilliput no romance As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift.

"Embora o governo de Lula tenha sido rápido em enfrentar os países ricos - fazendo queixas formais contra os Estados Unidos e os europeus na Organização Mundial do Comércio sobre barreiras comerciais a etanol, algodão e açúcar - ofender os irmãos no hemisfério rende pouco mais do que uma repreensão", afirma Newsweek.

Mas "a tolerância brasileira pode estar acabando", conclui o artigo, que cita que o Brasil realizou "exercícios militares na fronteira com o Paraguai no mês passado - mensagem difícil de não se ver".

"Não espere uma versão tropical da guerra preventiva. Mas pode ser um sinal de que o Gulliver Latino não está mais querendo enfrentar as coisas deitado", disse o artigo da revista Newsweek.

Texto do BBC Brasil.


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terça-feira, setembro 30, 2008

Ocidentais se defrontam com oposição na ONU

Na ONU, os Ocidentais se defrontam com a oposição das potências emergentes

Natalie Nougayrède e Philippe Bolopion
Em Nova York


A Assembléia Geral da ONU, que foi aberta nesta segunda-feira, 22 de setembro, apresenta um contexto difícil para os ocidentais, confrontados a um recrudescimento das resistências das potências emergentes. Estas estão decididas a defenderem sua visão dos direitos humanos e sua concepção da soberania dos Estados. Em relação a países como Mianmar e o Zimbábue, ou a uma região como o Darfur, que enfrentam uma situação de crise, a política defendida pelos Ocidentais andou esbarrando, no decorrer deste último ano, em oposições fortes, articuladas por diversos países do Sul. Para fazerem valer seus pontos de vista, estes contam com o apoio da Rússia e da China, dois membros do Conselho de segurança que se tornaram os campeões do exercício do direito de veto.

Esta polarização que, segundo alguns observadores, se resume a um enfrentamento sistemático entre "o Oeste" e "o restante" do mundo, foi evidenciada em relação à questão do Kosovo e, mais recentemente, à crise na região do Cáucaso. O endurecimento da Rússia, que parece querer posicionar-se como a principal liderança dos críticos dos Estados Unidos no mundo, desponta como um dos elementos da nova configuração das relações internacionais.

"Na ONU, nós tivemos de adotar uma posição defensiva", constata um diplomata ocidental. "Estamos enfrentando um verdadeiro problema para transmitir nossa mensagem e defender nosso ponto de vista". Ele constata que está havendo "um retorno a uma forma de terceiro-mundismo que lembra muito os anos 1970, um contexto no qual os países não-alinhados se tornam cada vez mais ativos, com países com a Índia, o Brasil e a África do Sul que querem ocupar um espaço condizente com o status de novas potências e que se sentem frustrados diante da inexistência de uma reforma do Conselho de Segurança".

Em julho, um projeto de resolução da ONU que contava com o apoio dos ocidentais e que se destinava a solucionar a crise política no Zimbábue foi contestado e acabou descartado por um duplo veto russo e chinês. Este veto contou com a aprovação, entre outros, da África do Sul e da Indonésia. O Sudão encontrou no decorrer deste ano apoios importantes no âmbito da União Africana e da Liga Árabe, em particular em relação à questão de uma possível inculpação do presidente Omar Al-Bachir pela Corte Penal Internacional por conta dos crimes perpetrados no Darfur.

"Os países não-alinhados estão afirmando seus pontos de vista com maior afinco", comemora o embaixador da África do Sul na ONU, Dumisani Kumalo. "Durante certo tempo, nós acreditamos que os países desenvolvidos respeitariam políticas de parceria com os países em desenvolvimento. Contudo, as ajudas que foram prometidas nunca se concretizaram", diz. "Diante disso, a melhor solução é erguermos a cabeça e nos posicionarmos em defesa dos países em desenvolvimento, principalmente aqueles em relação aos quais nós pensamos que eles são injustamente tratados, tais como o Zimbábue e Mianmar".

Preocupada com a diminuição da capacidade de convencimento dos ocidentais dentro do contexto da ONU, a diplomacia francesa elaborou uma estratégia que consiste em tentar valorizar, por ocasião desta Assembléia Geral, tudo aquilo que a União Européia (UE) proporciona para o sistema das Nações Unidas. Contudo, as capacidades da UE (que é o mais importante contribuinte para o orçamento da ONU e o principal doador de ajudas para o desenvolvimento) deixaram de produzir efeitos em termos de apoios políticos.

Um relatório elaborado pelo grupo de análise European Council on Foreign Relations (ECFR - Conselho Europeu de Estudos das Relações Internacionais), que foi publicado recentemente, calculou que em 2007 e 2008, por ocasião das votações da Assembléia Geral da ONU, a UE conseguiu obter um consenso em torno das suas posições em apenas 48% e 55% dos casos, respectivamente, contra uma média de 72% durante os anos 1990.

Enquanto isso, as posições da China e da Rússia foram encontrando um número crescente de aliados, passando de menos de 50% dos votos no âmbito da ONU no decorrer da década de 1990, para 74% em 2007-2008. A Rússia e a China "andaram assumindo por sua conta as frustrações dos não-alinhados", constata um diplomata ocidental.

A noção de universalidade dos direitos humanos, tal como é concebida pelos ocidentais, tem sido contestada por blocos de países. Neste terreno, a Organização da Conferência Islâmica, que reúne 56 Estados no âmbito da ONU, tem se mostrado a mais virulenta. "Apenas três países de predominância muçulmana, o Afeganistão, a Bósnia e a Turquia, figuram entre os aliados firmes dos europeus por ocasião das votações" na ONU, constata o estudo do ECFR.

O episódio da guerra no Iraque provocou um tipo de desconfiança que passou a predominar entre todos os países não-alinhados, em relação às ingerências e aos questionamentos da soberania dos Estados em nome da democratização. O reconhecimento, neste ano, da independência do Kosovo pelos Estados Unidos e por diversos países europeus consolidou um sentimento de que essas nações praticam uma política de dois pesos, duas medidas. "Existe também a nuvem negra que paira sobre a questão palestina", constata um diplomata ocidental. "Esta é uma ilustração, aos olhos de muitos países do Sul, de uma hipocrisia dos ocidentais".

"Atualmente, o Conselho de Segurança está paralisado", observa o embaixador sul-africano, Dumisani Kumalo. "No final das contas, isso está acontecendo por culpa dos ocidentais, da França, do Reino Unido, dos Estados Unidos". "Essa tendência tem a sua origem na questão do Kosovo; nós havíamos alertado esses países para não abrirem esta porta, mas, eles insistiram, o que resultou naquilo que os russos fizeram na Geórgia. E agora, nós estamos às voltas com essa grande bagunça".

Tradução: Jean-Yves de Neufville

Texto do Le Monde, no UOL.

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terça-feira, agosto 19, 2008

O Financial Times vê o conflito na Geórgia

Conflito mostra primeira tentativa de ressuscitar a União Soviética

Charles Clover

Na terça-feira (12/08), o trecho de auto-estrada entre Tbilisi, a capital da Geórgia, e a cidade de Gori, que fica próxima à frente de batalha, contava a história triste do fim de um exército outrora orgulhoso.

Era possível ver dezenas de veículos vazios, que aparentemente foram abandonados quando o pânico tomou conta dos soldados georgianos durante a noite.

Equipamentos, incluindo metralhadoras, foram deixados nos veículos e espalhados ao longo da estrada. Havia pouquíssimos sinais de luta.
Somente um veículo foi atingido pelo fogo inimigo: um carro blindado retorcido e escurecido pelo fogo. O seu canhão estava jogado em um campo próximo.

O resto da destruição - dois caminhões pesados que colidiram de frente, vários tanques abandonados em depressões à beira da estrada e dezenas de caminhões vazios com as portas abertas - deveu-se ao puro medo. Os soldados que por lá circulavam evidentemente sabiam que qualquer veículo militar na estrada era um alvo potencial para a temida "aviatsia" russa. Melhor voltar a pé para Tbilisi do que morrer.

Foi o final humilhante de uma aventura militar - que teve início na última quinta-feira - espetacularmente mal concebida por Mikhail Saakashvili, o presidente georgiano. Na noite passada ele alimentou o pânico ao anunciar na televisão - falsamente, conforme ficou comprovado - que as tropas russas marchavam em direção à capital e ordenar o recuo das suas unidades.

Quando o presidente russo Dmitri Medvedev anunciou ontem a cessação das hostilidades, a Rússia estava no comando tanto da Ossétia do Sul quanto da Abkházia. Os russos destruíram a capacidade de combate georgiana e pareciam ter a intenção de derrubar Saakashvili, com uma boa chance de sucesso.

Foi o fim de uma semana de riscos sem precedentes assumidos pelos governos georgiano e russo, cada um deles tentando reescrever as regras referentes àquilo que poderiam fazer impunemente. Saakashvili apostou em uma ofensiva contra o enclave separatista da Ossétia do Sul, mas, em vez de desfechar um ataque rápido e preciso, transformou a operação em um uma balbúrdia sangrenta na noite da quinta-feira, quando tropas georgianas cercaram a cidade de Tskhinvali, bombardeando-a e matando até 2.000 pessoas.

O Kremlin também fez uma aposta quando fez com que o seu 58º exército cruzasse a fronteira para atacar um país apoiado pelos Estados Unidos.
Até mesmo as invasões soviéticas da Hungria, da Tchecoslováquia e do Afeganistão, os únicos precedentes para uma guerra deste tipo, foram feitas contra países que se encaixavam solidamente na esfera de influência de Moscou. A Geórgia é diferente: o seu governo pró-ocidental tem vínculos estreitos com Washington, conta com um presidente educado na Universidade Harvard e possui mais de cem assessores militares norte-americanos. Em termos de desrespeito flagrante ao status quo global, a operação tem poucos paralelos.

Mas enquanto a Geórgia apostou e perdeu, até o momento o cálculo da Rússia parece ter resultado em sucesso.

Ao atacar impunemente um aliado norte-americano que estava sendo cogitado para ingresso na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o Kremlin demonstrou que a Rússia é a potência dominante na região. "Historicamente a Rússia foi e continuará sendo a garantidora da segurança dos povos do Cáucaso", afirmou Medvedev na semana passada.

Em outras palavras, parece que a Rússia subitamente passou a pertencer ao clube de elite formado pelos países que podem escrever as suas próprias regras. Da mesma forma como os Estados Unidos foram capazes de ignorar o repúdio generalizado à invasão do Iraque sob um falso pretexto - as inexistentes armas de destruição em massa de Saddam Hussein -, os líderes da Rússia puderam ignorar a pressão internacional referente a uma guerra que eles próprios ajudaram a provocar ao armarem e apoiarem os rebeldes sul-ossetianos.

"A Rússia está exigindo um papel totalmente novo, e este fato terá repercussões pelo mundo todo", afirma Dmitri Trenin, analista político do Centro Carnegie de Moscou. Ele vê como fortes provocações as recentes decisões da Otan de dar início a discussões a respeito do ingresso da Ucrânia e da Geórgia na Otan, bem como os planos dos Estados Unidos para a instalação de um sistema antimísseis na Europa Oriental. "A Rússia começará a enfrentar mais ativamente os Estados Unidos em todo o mundo. Esta atitude não existia um mês atrás - agora o clima é diferente. A Rússia deseja firmar a sua hegemonia regional".

Poucos duvidam que a ação militar na Geórgia é a primeira de uma série de medidas para reinstituir o controle de Moscou sobre a ex-União Soviética. O ingresso da Geórgia e da Ucrânia na Otan, algo que vinha sendo bastante cogitado no início deste ano, agora se tornou bastante improvável.

Tendo criado o precedente de defender os cidadãos russos com o uso de força militar - os sul-ossetianos vêm recebendo passaportes russos há dois anos - , o Kremlin poderia usar as mesmas técnicas do tipo dividir-e-conquistar na Criméia, a província ucraniana dominada por indivíduos de etnia russa, no norte do Cazaquistão, região também dominada pela etnia russa, ou nos Estados bálticos, que possuem grandes minorias russas. É quase certo que a Rússia tentará derrubar Saakashvili, tido por Moscou como um fantoche dos Estados Unidos, e substituí-lo por uma figura pró-Rússia. Viktor Yushchenko, o presidente pró-ocidental da Ucrânia tomará nota disso.

Recentemente o Kremlin procurou confrontar Washington em outras regiões, estabelecendo vínculos com regimes antiamericanos como a Venezuela, de Hugo Chávez, e Cuba, de Raúl Castro, e, ao mesmo tempo, aprofundando o relacionamento com a China para contrabalançar a força da Otan. No mês passado os dois países assinaram um acordo inédito de demarcação de fronteira.

Em face disso, a pressão norte-americana sobre a Rússia tem sido inefetiva. Moscou parece ter calculado corretamente que Washington não reagiria à sua invasão da Geórgia - já que os Estados Unidos estão emaranhados nas guerras no Afeganistão e no Iraque. Não se sabe se as "conseqüências" mencionadas em uma ameaça do vice-presidente dos Estados Unidos, Dick Cheney, alguns dia se materializarão.

Muitos acreditam que o governo georgiano também tem culpa pela guerra por ter atacado primeiro a Ossétia do Sul. "Creio que os Estados Unidos estão embaraçados pelo fato de Saakashvili ter ido além daquilo que Washington considerava uma política racional. Saakashvili tentou colocar os norte-americanos diante de um fato consumado. Mas a operação dele foi um desastre", afirma Trenin. "A resposta européia à crise da Geórgia tem sido heterogênea e marcada por críticas à Geórgia, bem como à Rússia, o que revela uma diferença profunda entre a percepção norte-americana e européia em relação à Rússia. Os europeus opõem-se às políticas de confrontação dos Estados Unidos e preferem não antagonizar Moscou. Muita gente na Europa dirá aos norte-americanos: 'Nós avisamos que vocês não podiam confiar nesse governo georgiano. Eles são como crianças brincando com fósforos no quintal, que acabaram se queimando bastante. Não faz sentido ir à guerra contra a Rússia por causa disso'".

Natalia Leschenko, da instituição de pesquisas políticas Global Insight,
afirma: "Os membros da União Européia dividem-se em duas linhas quanto à posição que a União Européia deveria adotar em relação à Rússia no que diz respeito à esta situação. Os novos membros, os Estados bálticos e a Polônia, exigiram rapidamente a imposição de regulamentações de vistos à Rússia e também a suspensão do Acordo de Parceria e Cooperação (entre a Rússia e a União Européia), que ainda não está em vigor. Já os membros mais antigos da união não vêem sentido na suspensão do diálogo com a Rússia".

Em outras palavras, Moscou obteve uma acachapante vitória militar, a um custo surpreendentemente baixo no que se refere à sua posição internacional. "Os Estados Unidos estão a ponto de perder um aliado, e não há muito que possam fazer, a menos que os russos cometam um erro mais sério como um bombardeio em grande escala contra Tbilisi ou o envio de tropas terrestres a Gori", diz Trenin, referindo-se à cidade georgiana ao sul da Ossétia do Sul. "Em tal caso os Estados Unidos teriam uma justificativa para agir. Mas do jeito que as coisas estão eles nada podem fazer".

Tal ousadia seria impensável há apenas alguns anos, logo após o colapso da União Soviética. Mas a Rússia passou por uma surpreendente transformação nos últimos oito anos sob o governo de Vladimir Putin, que neste ano deixou o cargo de presidente para tornar-se primeiro-ministro.

O liberalismo pró-ocidental da década de 1990 ficou desacreditado e os símbolos que o governo usa para se autodefinir são cada vez mais aqueles do império - a cruz ortodoxa da Rússia imperial czarista e a estrela vermelha da União Soviética. O "patriotismo" anda por toda parte como ideologia de Estado mal definida, sendo estimulado por uma mídia cada vez mais controlada pelo Estado.

Na década de 1990 o Kremlin era bem mais vulnerável às pressões internacionais, já que devia aos credores internacionais e estava ansioso para ser incluído no "Ocidente", com todas as obrigações morais implícitas em tal inclusão. Mas agora a Rússia exibe autoconfiança econômica, possuindo a terceira maior reserva de moeda estrangeira do mundo e exibindo um grande superávit da balança comercial alimentado pelo petróleo e o gás.

Enquanto isso, o relacionamento do país com o Ocidente tornou-se mais ambivalente, sendo que muita gente na Rússia acredita - de maneira similar ao movimento eslavófilo do século 19, que floresceu nos salões da São Petersburgo imperial - que o país tem uma missão própria e especial, não necessitando imitar o Ocidente.

Houve também uma transformação das forças armadas russas sob Putin, que assumiu a sua presidência no período marcado pelo episódio mais negativo referente à capacidade bélica da Rússia: o desastroso afundamento acidental do submarino nuclear Kursk, em 2000, devido a um torpedo defeituoso. A catástrofe do Kursk revelou como era grave o negligenciamento das forças armadas, e desde então o Kremlin fez do Exército uma prioridade. Há alguns anos, uma invasão da Geórgia seria simplesmente uma impossibilidade prática para um exército sucateado e desmoralizado pelas prolongadas campanhas na Tchetchênia e a falta de verbas.

O verdadeiro custo da campanha militar russa na Geórgia é desconhecido, mas ele pareceu ser um exemplo clássico de operação bélica moderna. "Os russos estão nitidamente usando o modelo da campanha dos Estados Unidos na Iugoslávia, em 1999", explica Trenin. O Kremlin efetuou bombardeios de grande altitude para castigar as forças georgianas até que elas recuassem, de forma semelhante ao que a Força Aérea dos Estados Unidos fez contra os sérvios no Kosovo.

Não há dúvida de que a Rússia espera que a imposição de uma grande derrota militar a Saakashvili jogue a opinião pública decisivamente contra ele, e que o povo georgiano faça o resto do trabalho para derrubá-lo. Sergei Lavrov, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, disse na terça-feira que o seu país não está procurando depor Saakashvili, como o presidente georgiano alegou publicamente em uma entrevista à televisão. No entanto, ele frisou que Moscou gostaria que Saakashvili renunciasse ao cargo.

"Seria melhor se ele fosse embora" disse Lavrov em uma coletiva à imprensa. "Não confiamos na atual liderança georgiana".

Os georgianos, que inicialmente apoiaram Saakashvili, e que continuam unidos no seu ódio a Moscou, estão questionando cada vez mais o cálculo do seu presidente. Embora na terça-feira 150 mil pessoas tenham saudado Saakashvili em frente ao parlamento da Geórgia, havia gente reclamando por toda parte. "Por que fomos à guerra sem armas? Por que fomos à guerra sem sistemas anti-aéreos? Quem precisava desta guerra?", criticou Timur Goldelashvili, um morador de Gori.

Apenas algumas horas após o cessar-fogo russo ter passado a vigorar, surgiram na mídia georgiana notícias de que Nino Burjanadze, a ex-primeira-ministra que recentemente desentendeu-se com Saakashvili, indicava que pretendia desafiar o presidente.

"Este não é o momento de fazer ataques políticos... quando os russos estão a apenas alguns quilômetros da nossa capital", afirmou ela. "Mais tarde haverá tempo para determinar responsabilidades e culpas".

Tradução: UOL

O texto é do The Financial Times, reproduzido no UOL. O viés é levemente à direita, mas é um dos mais equilibrados que pude ler a respeito dos recentes episódios envolvendo Geórgia e Rússia.


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quinta-feira, julho 24, 2008

Popular e sem estrutura moral

Friedman: tão popular e sem estrutura moral

Thomas L. Friedman
Colunista do The New York Times


Muita tinta tem sido gasta ultimamente para anunciar o declínio da popularidade norte-americana em todo o mundo sob o governo Bush. As pesquisas nos mostram que atualmente a China é mais popular na Ásia do que os Estados Unidos, e revelam como são poucos os europeus que afirmam identificar-se com os Estados Unidos. Tenho certeza de que há uma verdade nessas pesquisas. Deveríamos ter feito um trabalho melhor no Iraque. Um Estados Unidos responsável pela prisão de Abu Ghraib, pela tortura e pela base de Guantánamo merece um polegar apontado para baixo.

Mas os Estados Unidos não são e nunca foram apenas estas coisas, e é por isso que eu também acho que os resultados de algumas dessas pesquisas são uma espécie de atos reflexos auto-indulgentes e um pouco tolos. A votação na última sexta-feira na Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a questão do Zimbábue fez com que eu me lembrasse da razão disso.

Talvez os asiáticos, os europeus, os latino-americanos e os africanos não apreciem um mundo com excesso de poder norte-americano - para eles o "Mister Big" ficou um pouco grande demais. Mas o que eles achariam de um mundo com pouquíssimo poder norte-americano? Como as forças armadas e os bancos norte-americanos encontram-se excessivamente espalhados e diluídos pelo planeta, é esse o mundo para o qual esses países podem estar rumando.

Bem-vindos a um mundo com um excesso de poder russo e chinês.

Eu não sou um crítico nem da Rússia e nem da China. Mas há realmente algo de asqueroso quanto aos vetos aplicados pela Rússia e a China à tentativa, liderada pelos Estados Unidos no Conselho de Segurança da ONU, de impor sanções específicas sobre o governo de Robert Mugabe no Zimbábue.

Os Estados Unidos apresentaram uma resolução simples ao Conselho de Segurança, pedindo um embargo de armamentos ao Zimbábue, a nomeação de um mediador da ONU e a aplicação de restrições de viagem e financeiras ao ditador Mugabe e às 13 principais autoridades militares e governamentais zimbabuanas por terem roubado a eleição no Zimbábue e basicamente reprimido violentamente um país inteiro em plena luz do dia.

Na primeira rodada das eleições do Zimbábue, em 29 de março, o líder da oposição, Morgan Tsvangirai, obteve quase 48% dos votos, contra 42% de Mugabe. Isso fez com que Mugabe e os seus asseclas iniciassem uma campanha de assassinato e intimidação contra os apoiadores de Tsvangirai, que acabou obrigando a oposição a se retirar do segundo turno das eleições simplesmente para que os seus integrantes continuassem vivos.

Antes mesmo do segundo turno, Mugabe anunciou que não reconheceria os resultados caso o seu partido, o ZANU-PF, perdesse. Ou, conforme ele afirmou: "Não vamos abrir mão do nosso país por causa de um simples X marcado em uma cédula eleitoral".

E então, é claro, Mugabe "venceu" em uma das eleições mais descaradamente roubadas da história - em um país imerso em desmandos, desemprego, fome e inflação. Cerca de 25% do povo do Zimbábue encontra-se atualmente refugiado em países vizinhos (eu tenho amigos próximos do Zimbábue, e uma das minhas filhas trabalhou lá em janeiro em um centro comunitário de ajuda aos pacientes de Aids). Em maio a Associated Press anunciou do Zimbábue: "A inflação anual sumiu neste mês, chegando a 1.063.572%, com base nos preços da cesta básica". Segundo a Associated Press, a moeda do Zimbábue tornou-se tão desvalorizada que "atualmente um pão custa o mesmo que 12 carros novos custavam uma década atrás".

Mas isso não importa. Vitaly Churkin, o embaixador da Rússia na ONU, argumentou que as sanções que os Estados Unidos e outros desejavam impor a Mugabe e seus assessores extrapolava o mandato do Conselho de Segurança. "Nós acreditamos que tais práticas são ilegítimas e perigosas", disse ele, descrevendo a resolução como "uma das tentativas mais óbvias de fazer com que o conselho ultrapasse as suas prerrogativas". Vetada!

Para Churkin, a campanha de intimidação e assassinatos movida por Mugabe não pareceu "ilegítima e perigosa". Só a resolução da ONU para acabar com a atitude de Mugabe foi considerada "ilegítima e perigosa". Vergonhoso. Ao mesmo tempo, a China está sediando as Olimpíadas, uma celebração do espírito humano, enquanto defende o direito de Mugabe de esmagar o espírito do seu próprio povo.

Mas, quando se trata de pura e repugnante corrupção moral, ninguém é capaz de superar o presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, e os seu representante na ONU, Dumisani Kumalo. Eles fizeram tudo o que puderam para impedir qualquer pressão significativa por parte da ONU sobre a ditadura de Mugabe.

Conforme noticiou o "New York Times", o embaixador dos Estados Unidos na ONU, Zalmay Khalilzad, "acusou a África do Sul de proteger o 'horrível regime do Zimbábue'", afirmando que o fato foi especialmente perturbador ao se levar em conta que foram exatamente as sanções econômicas internacionais que derrubaram o governo de apartheid da África do Sul, que há muito oprimia os negros do país.

Portanto, cunhemos agora a Regra Mbeki: quando brancos perseguem negros, quanto mais sanções da ONU melhor. E quando negros perseguem negros, qualquer sanção da ONU é demais.

O que me faz retornar aos Estados Unidos. Não somos perfeitos, mas os Estados Unidos ainda têm alguma estrutura moral. Há farsas que nós não toleraremos. A votação da ONU sobre o Zimbábue demonstra que isto não ocorre quando se trata desses países "populares" - chamados Rússia, China ou África do Sul - que não vêem problema em ficarem do lado de um homem que está pulverizando o seu próprio povo.

Então, é verdade que não somos mais tão populares na Europa e na Ásia. Acredito que europeus e asiáticos prefeririam um mundo no qual os Estados Unidos fossem mais fracos, onde líderes com os valores de Vladimir Putin e Thabo Mbeki tivessem maior influência, e no qual as vozes desesperadas por mudanças no Zimbábue fossem, bem, simplesmente caladas.

Tradução: UOL
Texto do The New York Times, no UOL.

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