segunda-feira, dezembro 27, 2010

Bancos, crimes e contravenção

Bancos, crimes e contravenções


O VEXAME da grande finança mundial não tem fim. Não obstante, o pessoal do dinheiro grosso continua por cima da carne seca, "business as usual". Ou, como escreveu Paul Krugman, que entende um pouquinho mais disso do que quase todos nós: "Os fundamentalistas do livre mercado estavam errados sobre tudo -mas agora dominam completamente a cena política [americana]" ("Quando os zumbis ganham", ontem, no "New York Times").
A começar pelo vexame mais divertido, a China reafirmou seu "compromisso" de ajudar os países quebrados ou semiquebrados da Europa. Os chineses estão comprando e vão comprar mais títulos da dívida de Grécia, Irlanda, Portugal e de outros países que foram para o vinagre ou estão à beira de ir para lá. Ou seja, a China empresta dinheiro para governos falidos da Europa, o que por sua vez ajuda a aliviar a situação de parte da banca europeia, pendurada na dívida desses países.
Por falar nisso, mais ou menos desde maio o Banco Central Europeu (BCE) financia esses bancos e governos quebrados -mais uma vez os bancos transferiram os riscos de sua incompetência para o público.
Note-se que bancos centrais não existem para financiar a dívida de governos, menos ainda de governos quebrados, o que é ainda mais escandaloso em se tratando do BCE, cheio de ares de ortodoxia e autoproclamado juiz da irresponsabilidade fiscal do mundo.
Mas, "princípios, princípios, negócios à parte". Se o BCE deixasse os juros da dívida grega, irlandesa e portuguesa (e espanhola, italiana...) explodirem, governos faliriam de vez, à vera. Haveria tumulto geral, mais bancos quebrados (aqueles que a Europa dizia serem "saudáveis" antes de a Irlanda ir à lona). O euro poderia entrar em colapso.
A novidade agora é a mãozinha interessada do novo império, a China, que ajuda o seu maior freguês. A China, sim, senhor, da heterodoxa economia ditatorial de mercado.

BANCOS DE CRIMES
A promotoria do Estado de Nova York acusa a Ernst & Young de ajudar o Lehman Brothers a cometer "maciça fraude contábil". O Lehman era o quarto maior banco de investimentos dos EUA. Quebrou em 2008 e quase arrastou o mundo com seus negócios ineptos com títulos imobiliários e excesso de endividamento. A promotoria de Nova York diz que a megaempresa de auditoria ajudou o bancão a esconder dívidas de dezenas de bilhões de dólares, enganando o mercado. Uma maquiagem de balanço, mais uma.
Lembre-se de outra onda de fraude sistêmica, a da bolha dos anos 1990, explodida em 2001. Com a ajuda de bancos de investimento, de agências de risco e de auditores (Arthur Andersen), empresas fraudavam o público e contratos. Foi o caso de Enron, WorldCom, Tyco, GlobalCrossing, Lucent e Adelphia, entre muitas outras. A fraude inflou a bolha, que inflou a fraude. Há mais.
O Deutsche Bank, maior banco da Alemanha, vai pagar US$ 553,6 milhões (R$ 935 milhões) a fim de evitar um processo criminal em que é acusado de ajudar americanos ricos a fraudar o Imposto de Renda.
Em fevereiro de 2009, o UBS, o maior banco da Suíça, admitiu que prestava serviços de fraude para clientes americanos e que fazia parte de uma quadrilha com o objetivo de fraudar a Receita dos EUA.

Texto de Vinicius Torres Freire, na Folha de São Paulo, de 22 de dezembro de 2010.

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quinta-feira, novembro 25, 2010

Amarrem os cintos!

Amarrem os cintos!

O encontro do G20 em Seul, na Coreia do Sul, foi uma reunião lítero-musical de qualidade duvidosa. O seu resultado, pífio. A "solução prática" foi a cínica entrega da questão aos cuidados do FMI.
No ano que vem, ele deve apresentar um programa factível que distribua equanimente os custos do ajuste. Em poucas palavras e sem nhe-nhe-nhem: cada um que volte para casa, trate de cuidar dos seus interesses e ponha as barbas de molho.
Há uma grande dificuldade em dar peso adequado ao problema dos EUA e às malfeitorias da China, o que provoca ataques cruzados.
Os EUA meteram-se numa grave crise e, desde 2007, destruíram 10 milhões de empregos. Para retornar à taxa de desemprego aceitável de 5%, precisam reconstruí-los. Devido ao crescimento da população, para manter apenas o inaceitável nível atual de desemprego, de 9,6%, precisam criar 1,5 milhão de empregos por ano, ou seja, 125 mil por mês.
Mesmo que haja uma rápida recuperação e a economia possa absorver 600 mil empregos por mês (que é o dobro da média dos anos 90!), serão precisos dois anos antes que se volte ao nível de 2007.
Não se trata de um problema de liquidez, mas de confiança: as empresas não financeiras têm em caixa US$ 3 trilhões e não investem a não ser em tecnologias poupadoras de mão de obra. As instituições financeiras têm excesso de reserva de US$ 1 trilhão e não emprestam porque não há tomadores (o nível de endividamento das famílias é da ordem de 100% do PIB).
O único tomador de recursos é o próprio Tesouro dos EUA, cujo endividamento só poderá ser sustentado com a volta ao crescimento, que, por sua vez, depende do investimento do setor privado e do consumo das famílias.
Os EUA pagam agora o preço de sua miopia. Aumentaram o emprego nas finanças e na habitação enquanto transferiam alegremente (graças à valorização do dólar) para a China suas fábricas e seus empregos industriais e para a Índia os do setor de serviços.
Com a explosão das duas "bolhas", no setor financeiro e no imobiliário, o emprego no primeiro talvez nunca se recupere, e o do segundo demorará muito tempo. Uma coisa é certa. Se a demanda interna nos EUA não se recuperou, porque o governo foi incapaz de restabelecer a confiança no circuito econômico interno, só lhe resta a saída das exportações e a substituição do petróleo importado por biocombustíveis. Ele vai persegui-la com a desvalorização do dólar.
Devemos "amarrar os cintos" e aguentar a competição que vem por aí! Parece que com a taxa de câmbio de R$ 1,60 já podemos importar o etanol de milho dos EUA...

Coluna de Antônio Delfim Netto, na Folha de São Paulo, de 17 de novembro de 2010.


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quarta-feira, outubro 27, 2010

Direito à aposentadoria

Direito à aposentadoria

A conta da crise financeira internacional de 2008, simbolizada pela quebra do banco de investimento americano Lehman Brothers, está longe de ser paga. Pacotes trilionários de ajuda ao setor privado foram insuficientes para cobrir os rombos da especulação desenfreada. É preciso mais.
Os europeus que o digam.
Grécia, Portugal, Espanha, França e Grã-Bretanha são amostras de países que, a pretexto de não falir, passam a faca em direitos sociais diversos. Um dos alvos preferidos são as aposentadorias. O governo inglês, por exemplo, além de projetar o maior corte de gastos públicos em 60 anos e a demissão de meio milhão de servidores, quer elevar de 65 para 66 anos a idade para aposentadoria.
Embora, no conjunto, as medidas pareçam de menor amplitude, é na França que a situação está mais exacerbada. O presidente Nicolas Sarkozy declarou guerra a conquistas históricas dos sindicatos e decidiu aumentar em dois anos a idade mínima da aposentadoria. Conseguiu deslanchar a maior onda de mobilizações no país em muitos anos, envolvendo funcionários públicos, trabalhadores em geral e a juventude estudantil.
Pesquisas de opinião mostram que as manifestações têm índice de apoio da altura de Carla Bruni, enquanto a satisfação com o governo está mais para a estatura do marido. Mais de 70% dos franceses são simpáticos aos protestos.
Já o presidente bateu seu próprio recorde de impopularidade: enquete divulgada no domingo registra que só 29% dos entrevistados são favoráveis a Sarkozy.
Os "reformistas" franceses argumentam que, se em 1945 havia oito trabalhadores na ativa para sustentar um aposentado, daqui a 15 anos a proporção descerá a um para um caso nada seja feito. É mais ou menos a mesma ladainha atuarial ouvida no Brasil. Para os governos e o pessoal bem de vida, a aposentadoria -dos outros, bem entendido- passou a ser tratada como luxo a ser eliminado (ao mesmo tempo, um ótimo negócio para a banca que negocia planos de previdência privada).
Na ponta do lápis, considerando o aumento da expectativa de vida e a queda dos índices de natalidade, a conta dos "reformistas" até parece fazer algum sentido. Sentido numérico, apenas.
É difícil engolir que, diante de tanto progresso técnico e material, da capacidade internacional de gerar riqueza e do aumento de produtividade do trabalho -é difícil engolir que a saída para deixar a casa em ordem seja sempre reverter conquistas sociais. Por mais não fosse, basta lembrar a soma de recursos públicos queimados para salvar banqueiros e empresários espertalhões só nos últimos dois anos.
Dinheiro há. Resta decidir em qual bolso ele vai parar.

Texto de Ricardo Melo, na Folha de São Paulo, de 26 de outubro de 2010.


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A política cambial café-com-leite

Saudades da política cambial café-com-leite, por José Paulo Kupfer

Reza a cartilha das boas práticas no mercado financeiro que os departamentos de pesquisa e análise econômica de bancos e instituições financeiras sejam separados das áreas de operação. Pode até haver uma separação formal – “muralha da China”, no jargão do mercado –, mas na prática, a teoria é outra. Não há muralha capaz de barrar contaminações mentais.

Só isso explica as queixas e advertências dos chamados economistas de mercado, depois que o governo começou a atuar na defesa da taxa de câmbio. Eles andam contrariados com o “desmonte” da política cambial até recentemente praticada, como declarou Tony Volpon, chefe de pesquisas para mercados emergentes da Nomura Securities, em reportagem dos colegas Fabio Graner e Adriana Fernandes, no Estadão desta segunda-feira.

Segundo Volpon, o Brasil está saindo de um sistema de câmbio flutuante “sujo”, mas transparente, para um regime mais de câmbio administrado. O economista lamenta que, nessa passagem, segundo sua avaliação, o governo está deixando de praticar uma política previsível.

Previsível? Desde quando uma política cambial tem de ser previsível? Política cambial previsível só é boa para quem está no jogo para tosquiar o carneiro.

O governo, até recentemente, fez, de fato, política cambial café-com-leite. Enxugava os excessos de dólares com leilões de compra de divisas, com dia e hora marcados. Acumulou reservas, é certo, mas essa atuação previsível colaborou para atrair mais e mais capitais especulativos – aqueles que procuram taxas atraentes e, além disso, compondo o melhor dos mundos, previsibilidade. A política previsível resultou numa acumulação de reservas que já passou do ponto.

De uns tempos para cá, porém, foram acionados outros mecanismos. Começou com mais IOF na renda fixa e o fechamento de escapes no mercado de ações e de futuros. Já abriu o leque para outras aplicações em portfólio e em futuros. De previsível na política cambial, agora, só os sinais de que, se precisar, virá mais chumbo.

Trocou o café-com-leite por um pouco mais de coerência. Depois da mudança, até aqui, felizmente, não se vê mais o Banco Central puxando para cá e a Fazenda esticando para lá no câmbio. BC e Fazenda têm operado em conjunto, sem queimar de uma vez todo o arsenal à disposição e. enfim, sem aviso prévio do momento em que seriam colocadas em campo.

Isso aumenta os custos de transação no mercado cambial e encarece as operações de hedge, até mesmo para importadores, exportadores e investidores em atividades produtivas, como advertem os reclamantes? Sem dúvida. E, além disso, como também apontam os queixosos, pode vir a elevar os riscos de redução dos fluxos de capitais, numa quadra em que os déficits em contas correntes tendem a crescer.

Contudo, desde que se tenha consciência de que esses movimentos são apenas para mitigar um problema à espera de soluções estruturais, uma ação mais contundente no mercado cambial tem tudo, no momento, para produzir mais benefícios do que custos. Só os tosquiadores de carneiros podem sentir saudades daquela política cambial tão previsível.

http://blogs.estadao.com.br/jpkupfer/saudades-da-politica-cambial-cafe-com-leite/


Visto no blog do Luís Nassif.

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sábado, outubro 16, 2010

Diálogo Chinês

Diálogo chinês

O governo chinês está dando sinais muito interessantes de que deseja um diálogo mais adequado com o setor privado externo, que o ajudou e continua a ajudar a construir sua economia.
Este sente-se permanentemente ameaçado pela intensa discriminação que sofre na competição interna promovida por empresas estatais, principalmente em relação à apropriação de suas tecnologias.
Agora mesmo, a Ford e a Toyota, que desejam participar da indústria de carros elétricos na China (que deverá ser a maior do mundo), só poderão fazê-lo se se dispuserem a ceder gratuitamente a tecnologia (baterias, controles, motores etc.) que já desenvolveram (e que custaram milhões de dólares) às três empresas estatais chinesas que serão criadas para conquistar o mundo. Quem quiser aceita. Quem não quiser não precisa entrar.
A tecnologia será contrabandeada do mesmo jeito!
No dia 22 de setembro, o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, reuniu-se no Waldorf Astoria de Nova York com uma dezena de grandes empresários americanos investidores na economia do seu país para uma conversa mediada por Henry Kissinger. O diálogo foi franco e respeitoso.
Jiabao, delicadamente, fez ouvidos de bom mercador. Ele sabe o poder que tem a potencialidade do mercado interno chinês. Todos se queixaram, mas ninguém disse que sairá.
Em outra reunião, no mesmo dia, Wen disse tranquilamente que a China não busca "intencionalmente" os enormes superávits com os EUA e acrescentou que "não existe base para uma valorização drástica do yuan". E, em tom humilde, lamentou: "Vocês não sabem quantas empresas chinesas faliriam. Haveria sérias perturbações. Apenas o primeiro-ministro chinês (ele mesmo) sente essa pressão".
O pequeno problema é o seguinte: por que tantas empresas faliriam se houvesse a valorização do yuan se elas não estivessem vivendo sob a proteção do subsídio da desvalorização intencionalmente produzida pelo próprio governo?
A China, obviamente, não é uma economia de mercado, e sua organização é sustentada por um Estado-indutor apoiado numa competente burocracia (com grau normal de corrupção). O aparelhamento desse Estado pelo Partido Comunista Chinês se fez na tradição milenar.
No século 2 antes de Cristo, um imperador criou uma universidade para cooptar funcionários por concursos públicos, criar competência profissional e promovê-los pelo mérito. Ela tem objetivos claros.
Quem quiser aceitar suas regras fica, quem não quiser vai embora! Ela tem consciência do enorme poder de atração de seu mercado interno. Quem está disposto a perder as oportunidades que ele oferece?

Texto de Antonio Delfim Netto, na Folha de São Paulo, de 13 de outubro de 2010.


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terça-feira, agosto 17, 2010

BNDES, transparência e pseudo subsídios

BNDES, transparência e pseudo subsídios

Antonio Corrêa de Lacerda

A atuação do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) tem sido alvo de uma série de questionamentos, especialmente no que se refere a um alegado subsidio embutido nos empréstimos ao setor privado.

O foco tem sido nos aportes realizados pelo Tesouro Nacional ao banco, envolvendo nos últimos dois anos um montante de R$ 180 bilhões. Como a taxa de juros cobrada pelo BNDES aos empréstimos é pela TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo), atualmente em 6% ao ano e a divida pública é regida principalmente Selic (Taxa básica de juros, definida pelo Copom-Comite de Politica Monetária), hoje em 10,75%, a diferença se configuraria em um subsidio ao setor privado.

No entanto, a questão não é assim tão simples. Aparentemente haveria na operação uma diferença de 4,75 pontos percentuais que se configuraria em um subsidio da ordem de R$ 8 bilhões ao ano, a ser coberto pelas contas publicas. Mas, o raciocínio aqui tem que ser dinâmico e não estático. Mais econômico do que contábil.

O primeiro ponto a ser destacado é que trata-se de empréstimos de longo prazo, de 30 ou mais anos. É muito pouco provável que a diferença atual, entre Selic e TJLP prevaleça nesse longo período. A tendência é que elas se aproximem, pois as taxas de juros básicos devem ser reduzidas.

Segundo, vale analisar o papel dos bancos públicos. Eles existem como atividade de fomento, financiando investimentos em infraestrutura, indústria e agropecuária, algo que os bancos privados nem sempre estão dispostos a fazê-lo. Outro aspecto importante é que, no mundo cada vez mais globalizado, nossas empresas concorrem com outras, que tem condições de financiamento incomparavelmente mais favoráveis.

Empresas sulcoreanas e chinesas, por exemplo, contam com financiamentos públicos a custo praticamente zero e tem as suas atividades apoiadas com subsídios e incentivos porque são vistas como estratégicas para o desenvolvimento e inserção internacional destes países.

A questão é que as altas taxas de juros praticadas no mercado doméstico brasileiro inibem os investimentos produtivos. Elas são um verdadeiro convite ao ócio. Porque alguém investiria na produção para ganhar menos do que receberia adquirindo títulos da dívida publica, sem muito esforço e quase sem risco. Os próprios bancos privados tendem a não se interessar por operações de crédito, porque é muito mais cômodo e seguro financiar o Estado. No Brasil, os bancos públicos também têm a função de corrigir parcialmente essa anomalia.

Mas, as contas públicas também são favorecidas com o resultado das operações realizadas pelos bancos públicos. Primeiro porque há um efeito multiplicador dos investimentos, que vamos considerar, de forma conservadora, da ordem de 2 vezes. Os R$ 180 bilhões adicionais de capacidade de empréstimos do BNDES geram potencialmente R$ 360 bilhões de atividade econômica, que propiciam uma receita tributária da ordem de R$ 72 bilhões, considerando, também de forma bastante conservadora, um carga tributária média de 20%.

O segundo aspecto é que a atividade do BNDES é lucrativa. Somente em 2009 gerou o lucro liquido de R$ 6,7 bilhões, depois do pagamento de Imposto de Renda. O Tesouro Nacional é beneficiário de grande parte desse lucro, na forma de dividendos.

Um terceiro ponto, de difícil mensuração é o custo da não realização de investimentos. O BNDES praticamente dobrou a sua participação no financiamento de investimentos na infraestrutura e indústria nos últimos quatro anos, de 21%, em 2005, para quase 40% do total, em 2009. Se não houvesse o apoio dos bancos públicos muitos projetos não seriam realizados, especialmente na infraestrutura, representando uma restrição ao crescimento da atividade, do emprego, da renda e da receita tributária. Algo danoso para o país.

Ou seja, não há subsidio nas operações do BNDES, nem no conceito clássico da OMC (Organização Mundial do Comercio), porque os juros praticados, embora mais baixos do que a média do mercado brasileiro ainda estão muito acima dos concorrentes internacionais, nem representam ônus para as contas publicas, uma vez que a receita gerada para o governo, supera em muito o custo implícito na operação.

A crise internacional deveria ter ressaltado o papel crucial desempenhado pelos bancos públicos no Brasil, que representaram um importante instrumento de política macroeconômica anticíclica. Foi um determinante contraponto à escassez de crédito de financiamento e, portanto, um dos principais fatores que diferenciaram a economia brasileira de outros países em desenvolvimento que não puderam contar com instrumentos equivalentes.

Não deixa de ser curioso observar que os defensores da ora, do erário público e da transparência, no que se refere ao suposto subsidio dos empréstimos públicos ao setor privado, jamais tenham proposto o mesmo procedimento para o custo de financiamento da dívida pública. Os juros reais mais elevados do mundo geram uma despesa pública anual de 5,5% do PIB (Produto Interno Bruto), algo próximo de R$ 160 bilhões ao ano. Uma transferência enorme renda de toda a sociedade para o setor financeiro e os rentistas, extremamente vulnerável às ?expectativas? de inflação e de juros, que acabam influenciando fortemente as decisões do Copom !

Antonio Corrêa de Lacerda é professor-doutor do departamento de economia da PUC-SP e ex-presidente do Cofecon ? Conselho Federal de Economia e da Sobeet.


Texto publicado no Valor Online, reproduzido no blog do Luís Nassif.


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sábado, agosto 14, 2010

A Agonia da Classe Média Americana

A Agonia da Classe Média Americana


Edward Luce, Financial Times, de Washington
04/08/2010


Tecnicamente falando, Mark Freeman deveria considerar-se entre as pessoas mais sortudas do planeta. Aos 52 anos, ele vive com sua família em casa própria, numa rua arborizada e no coração do país mais rico do mundo. Quando está com fome, ele come. Quando esquenta, ele liga o ar-condicionado. Quando quer buscar alguma coisa, ele navega na internet.

No entanto, de alguma forma, as coisas não vão mais tão bem. No ano passado, o banco tentou retomar a casa dos Freeman, apesar de eles estarem com seu pagamento atrasado apenas três meses. Seu filho, Andy, foi recentemente excluído da cobertura do seguro saúde de sua mãe e só penosamente readmitido mediante um grande pagamento. E, assim como as casas tapadas com tábuas - que sinalizam a epidemia de retomadas judiciais de imóveis nos EUA -, o tráfico de drogas e os tiroteios, que antes eram distantes de seu bairro, estão chegando cada vez mais perto, quarteirão por quarteirão.

O que é mais perturbador, no caso dos Freeman, é como eles são típicos. Nem Mark nem Connie - sua incansável mulher, tão gordinha quanto ele é magro - têm doenças crônicas. Ambos trabalham no Hospital Metodista local - ele trabalha no almoxarifado, e ela é técnica em suprimentos de anestesia. A US$ 70 mil por ano, a renda bruta do casal é mais de um terço superior à mediana do núcleo familiar americano.

No passado, isso era o "sonho americano". Nos dias atuais, poderia ser chamado de "devaneio incerto americano". Na prática, Mark gasta muito dinheiro todo mês com o aluguel de uma máquina para tratar sua apneia, que lhe dá insônia. "Se perdemos nossos empregos, depois de umas três semanas teremos zerado nossa poupança", diz ele, sentado em seu quintal, de olho na rua e uma garrafa de cerveja na mão. "Nós trabalhamos dia e noite para tentar poupar para nossas aposentadorias. Mas nunca estamos a mais de um ou dois cheques de distância do olho da rua."

Quando se fala de classe média americana, a maioria dos estrangeiros imagina algo mais atemporal e confortável, como nas séries de TV, na qual os adolescentes vão à escola dirigindo carros esportivos e as meninas são sempre animadoras de torcidas. Isso pode representar como vivem uns 10% do topo da classe média. O resto vive como os Freeman. Ou pior.

Uma visita completa à casa de 65 m2, pertencente a Mark, no noroeste de Mineápolis, leva apenas uns 30 segundos. A casa foi comprada mediante um financiamento de US$ 50 mil em 1989. Agora, ela vale US$ 73 mil. "Houve um momento em que ela valia US$ 105 mil dólares - e pensamos que tínhamos entrado no paraíso", diz Mark. "Os bancos continuaram telefonando - às vezes quatro ou cinco vezes numa mesma noite -, oferecendo linhas de crédito e empréstimos. Insistiam como traficantes de drogas."

O lento estrangulamento econômico dos Freeman, e de milhões de outros americanos de classe média, começou muito antes da Grande Recessão, que apenas agravou a "recessão pessoal" que os americanos comuns vinham sofrendo havia anos. Denominada pelos economistas como "estagnação do salário mediano", a renda anual dos 90% de famílias menos bem de vida nos EUA permaneceu essencialmente inalterada desde 1973 - tendo crescido apenas 10% em termos reais nos últimos 37 anos. Isso significa que a maioria das famílias americanas está no sufoco há mais de uma geração.

No mesmo período, a renda do 1% de famílias mais ricas triplicou. Em 1973, executivos-chefes de grandes companhias recebiam, em média, remuneração igual a 26 vezes a renda mediana. Hoje, é mais de 300 vezes superior.

A tendência só tem se intensificado. A maioria dos economistas vê a grande estagnação como um problema estrutural - ou seja, imune ao ciclo econômico. Na última expansão, que começou em janeiro de 2002 e terminou em dezembro de 2007, a renda familiar mediana americana ficou US$ 2 mil menor - a primeira vez em que a maioria dos americanos esteve pior no fim de um ciclo do que no início. O mais grave é que a longa era de renda estagnada tem sido acompanhada por algo profundamente antiamericano - um declínio na mobilidade da renda.

Alexis de Tocqueville, grande cronista francês dos primórdios da nação americana, já foi erroneamente citado como tendo dito: "Os EUA são o melhor país do mundo para os pobres". Isso deixou de ser verdade. Hoje, nos EUA, é menor a chance de passar de um estrato de renda mais baixa para outro mais elevado do que em qualquer outra economia desenvolvida. Para inverter as clássicas histórias de Horatio Alger, nos EUA de hoje, se você nasceu esfarrapado, tem maior probabilidade permanecer nesse estado do que em praticamente qualquer país da velha Europa.

Combinadas a essas duas tendências profundamente enraizadas, há uma terceira - forte crescimento da desigualdade. O resultado é a crise em fogo lento do capitalismo americano. Uma coisa é sofrer as agruras de uma estagnação da renda. Outra é perceber que você tem uma probabilidade decrescente de escapar dessa estagnação - especialmente quando poucos afortunados que vivem nos proverbiais "condomínios fechados" parecem mais mimados cada vez que você os vislumbra. "Quem matou o sonho americano?", dizem os cartazes em passeatas de esquerda. "Resgatemos a América", gritam os manifestantes de direita do movimento Tea Party.

As estatísticas capturam somente uma fatia do problema. Mas é Larry Katz, renomado economista de Harvard, quem oferece a analogia mais atraente. "Imagine a economia americana como um grande prédio de apartamentos", diz o professor. "Um século atrás - até mesmo 30 anos atrás -, era um objeto de inveja. Mas, na última geração, sua feição mudou. Os apartamentos de cobertura estão cada vez maiores. Os apartamentos nos andares intermediários estão cada vez mais espremidos e o térreo foi inundado. Para completar, o elevador não está funcionando. Esse elevador quebrado é o que mais deprime as pessoas."

Não surpreende que uma maioria crescente de americanos tem dito, em pesquisas de opinião, acreditar que seus filhos terão um padrão de vida pior do que o deles próprios. Durante as três décadas do pós-guerra, que muitos hoje relembram como a era de ouro da classe média americana, a maré alta erguia a maioria dos barcos, nas palavras de John F. Kennedy. A renda cresceu em termos reais quase 2% ao ano, quase dobrando a cada geração.

E, embora os anos dourados tenham sido puxados pelo crescimento do ensino superior de massa, não era preciso ter diploma de ensino médio para dar conta das despesas. Como seu marido, Connie Freeman foi criada num lar de "classe trabalhadora" no chamado Cinturão do Ferro, no norte de Minnesota, perto da fronteira canadense. Seu pai, que deixou a escola aos 14 anos, após a Grande Depressão dos anos 1930, trabalhou nas minas de ferro a sua vida inteira. No fim de sua vida profissional, ele ganhava US$ 15 por hora - mais de US$ 40 em valores atuais.

Trinta anos depois, Connie, que é muito mais qualificada do que seu pai, após ter completado o ensino médio e concluído um ano adicional de estudos, ganha apenas US$ 17 por hora.

O pai de Connie, com sua escolaridade mínima, ganhava o suficiente para permitir que sua esposa continuasse a ser dona de casa em tempo integral e ainda bancou a educação de dois filhos até a faculdade. Connie e Mark, por seu turno, têm dificuldades para pagar o fluxo de contas num lar de dupla renda familiar. O Estado de Minnesota custeia um curso de teatro para Andy, o filho de 20 anos do casal que sofre de autismo agudo.

A rigor, Connie vive num lar de quatro rendas. "Quando Andy tinha dois anos, disseram-me para comprar um aparelho de karaokê, porque as crianças autistas às vezes reagem bem a isso", disse Mark, apontando para o que só pode ser descrito como um antigo aparelho pós-moderno. "Foi assim que iniciei meus negócios com karaokê. Eu ganho cerca de US$ 100 toda quarta-feira, promovendo karaokês pagos em casa. E, aos sábados sou gerente na loja de bebidas do bairro. Precisamos de todos os quatro empregos para manter a cabeça fora d ' água."

Do ponto de vista da maioria dos economistas, a história até o momento é inquestionável. A maioria concorda sobre o diagnóstico, mas diverge sobre as causas. Muitos na esquerda atribuem a culpa à Grande Estagnação da globalização. A ascensão de China, Índia, Brasil e outros países solapou os salários no Ocidente e eliminou postos de trabalho de americanos sem qualificação, semiqualificados e até mesmo qualificados. A indústria agora representa somente 12% dos postos de trabalho nos EUA.

Pense no trabalhador típico da indústria automobilística em Detroit, 30 anos atrás, que tinha um estilo de vida de classe média seguro, bom plano de saúde e perspectiva de gorda aposentadoria. Hoje, ele vive na China.

Outro grupo de economistas define como causa principal o surgimento explosivo de novas tecnologias, que facilitaram a automação computadorizada de rotinas repetitivas e de trabalhos mais simples. Pense na auxiliar de escritório, que anotava ditados e fazia o café. Ela agora é um BlackBerry que passa metade de sua vida no Starbucks. Ou o pessoal de retaguarda de escritórios que, como aqueles sapateiros em conto de fadas, agora "costura a contabilidade" das empresas americanas em Bangalore, na Índia, enquanto as pessoas dormem nos EUA.

Há também aqueles, como Paul Krugman, colunista do "The New York Times" e ganhador do Prêmio Nobel de Economia, que atribuem a culpa ao mundo político, especialmente à reação conservadora iniciada quando Ronald Reagan chegou ao poder, em 1980, o que acelerou o declínio dos sindicatos e reverteu os traços mais progressistas do sistema fiscal americano.

Menos de um décimo dos trabalhadores do setor privado americano pertence a um sindicato. As pessoas na Europa e no Canadá estão sujeitas às mesmas forças globalizantes e tecnológicas, mas fazem parte em maior número de sindicatos, e seu atendimento médico é coberto por verbas públicas. Mais de metade das falências de famílias nos EUA são causadas por doença ou acidente graves.

Essas são as teorias concorrentes (porém não contraditórias) sobre a causa da deterioração. A "experiência vivida", como diriam os sociólogos, é outra coisa.

De forma muito semelhante aos Freeman, os Miller poderiam estar vivendo em qualquer lugar dos EUA. Somente o calor abafado denuncia que estão na Virgínia, no sul do país. Falls Church, na Virgínia, é na verdade um subúrbio da capital do país, Washington. A implacável expansão do governo fomentou um setor privado "verde", do outro lado do rio Potomac, dedicado principalmente a atividades relacionadas com segurança, defesa, serviços governamentais e lobbying. O lugar de honra na casa de Shareen Miller abriga uma fotografia granulada de sua conversa com Barack Obama numa cerimônia na Casa Branca, no ano passado, para a assinatura de uma nova lei que impõe igualdade de remuneração para as mulheres.

Como organizadora, na Virgínia, de 8 mil assistentes de cuidados pessoais - profissionais que cuidam de idosos e de deficientes nas próprias casas dessas pessoas - Shareen, de 42 anos, foi convidada, com outras dezenas, a participar da cerimônia. Mas isso foi tudo o que ela ganhou de sua fugaz proximidade com o presidente. Desde então, sua remuneração e suas horas de trabalho não pararam de cair. No ano passado, ela ganhava US$ 1,5 mil por mês. Agora, recebe US$ 900. Assim como outros governadores de Estado, Bob McDonnell, governador da Virgínia, vem cortando impiedosamente o gasto público desde que a recessão começou.

Embora com área de aproximadamente o dobro do lar dos Freeman, na casa de Shareen a sensação é de aperto ainda maior. Junto com dois filhos, uma nora, uma neta e seu marido, Shareen tem um verdadeiro zoológico de animais de estimação. Sua paciente Marissa, 26, com paralisia cerebral, muitas vezes pernoita na casa deles.

Shareen exibe a vigorosa boa vontade que encontramos em muitos americanos. Apesar de seu pouco tempo livre, ela pratica uma atividade voluntária, aos sábados, dedicada a animais de estimação perdidos. Para ir a qualquer lugar, os Freeman precisam de um carro. A uns 250 metros de sua casa, fica o trevo local, onde estão as emblemáticas Taco Bells, 7-Eleven e lojas de um dólar que pontilham os EUA. É a geografia física que diferencia os lugares; a geografia humana, simplesmente se repete.

Dona de um sorriso permanente, Shareen traça sua complexa árvore genealógica: um pai aposentado, que trabalhou numa penitenciária do Estado de Oregon, e vários meio-irmãos e meio-irmãs, nenhum dos quais parece estar chegando com dinheiro ao fim do mês. "Adivinhe de qual estou mais próxima", pergunta ela com um sorriso travesso. "De nenhum."

De novo, tecnicamente falando, Shareen vive em relativo conforto. Como seu marido trabalha para uma companhia de segurança contra incêndios e ganha US$ 70 mil por ano, os Miller estão, sem dúvida, sobrevivendo. Mas eles temem o que poderá acontecer se um deles tiver um problema de saúde. Alguns anos atrás, Shareen teve um tumor removido de seu diafragma, que gerou US$ 17 mil em dívidas. E o marido sofre de uma hérnia de disco. Surpreendentemente, tendo em vista que sua renda bruta conjunta é o dobro da mediana nos EUA, Shareen teve de adiar uma operação dentária por seis meses, a fim de saldar o empréstimo para a compra de seu carro. E não tem tempo para estudar e se requalificar. "Uma coisa comum nas pessoas que cuidam de gente com deficiências é que elas nunca têm tempo", diz ela.

Tanto quanto discordam sobre o que causou a grande estagnação, os economistas também divergem sobre as soluções. A maioria concorda que níveis educacionais mais altos melhoram o rendimento potencial das pessoas, mesmo que isso não resolva o problema subjacente. Outros salientam que nem todo mundo pode ser um corretor de ações, empresário de software ou professor de Harvard.

Muitos dos empregos do futuro serão funções "interpessoais" que não podem ser facilmente substituídos por computadores (ou imigrantes): zeladores, cabeleireiros e manicures, para os quais uma faculdade é algo frequentemente supérfluo. Além disso, grande parte dos americanos atingidos pela estagnação nos últimos dez anos tem curso universitário. Mesmo eles não estão a salvo. Porém, mais educação, no mínimo, melhorará as chances das pessoas. Como pagar isso são outros quinhentos.

Apesar de a renda nos EUA estar estagnada, o custo das escolas não cessa de crescer. Desde 1990, quase dobrou a proporção de americanos que estão pagando mais de US$ 20 mil em empréstimos educacionais uma década após terem se formado. Lawrence Summers, principal assessor econômico de Obama, que há muito tempo preocupa-se com o crescimento do que ele denomina "nervosa classe média" americana, salienta que, entre as principais economias, os EUA têm o maior percentual de diplomados no mercado de trabalho. Mas, na faixa etária de 25 a 34 anos, os EUA não estão nem nos "dez mais".

Mais e mais americanos jovens são dissuadidos pela perspectiva de assumir uma dívida de longo prazo. "Não é só o medo do endividamento - são os quatro anos de lucros cessantes", diz Ruth Miller.

O impacto sobre as pessoas, como os Miller e os Freeman, tem sido agudo. Primeiro, houve estagnação. Depois veio a recessão.

Qual é, então, o futuro do sonho americano? Michael Spence, economista ganhador do Prêmio Nobel, a quem o Banco Mundial encarregou de realizar um estudo sobre o futuro do crescimento mundial, admite um mau presságio. Como um número crescente de economistas, Spence disse ver a grande estagnação como uma profunda crise de identidade.

Durante anos, o problema foi amenizado e parcialmente oculto pela disponibilidade de crédito barato. Americanos de classe média foram ativamente incentivados a se endividar continuamente, oferecendo suas casas em garantia, ou a canibalizar seus fundos de aposentadoria, confiando em que os preços dos imóveis e as bolsas de valores desafiariam permanentemente a gravidade (uma atitude estimulada, entre outros, pela metade ganhadores do Nobel de Economia em todo o mundo). Essa reserva de valor, agora, não existe mais. O dinheiro fácil transformou-se em pesado endividamento. "Baby boomers" - os nascidos na explosão da natalidade após a Segunda Guerra Mundial - adiaram sua aposentadoria. Filhos com curso superior estão voltando para a casa dos pais.

O barômetro é econômico. Mas a raiva é humana e cada vez mais política. "Tenho esse desgastante sentimento sobre o futuro dos EUA", diz Spence. "Quando as pessoas perdem o senso de otimismo, as coisas tendem a ficar mais voláteis. O futuro que mais temo para os EUA é latino-americano: uma sociedade muito desigual, propensa a fortes oscilações entre populismo e ortodoxia. Veja o Tea Party [movimento conservador]. As pessoas acham que surgiu do nada. Embora eu não concorde com suas soluções, a maioria dos membros do Tea Party são americanos de classe média que vêm sofrendo em silêncio há anos."

Spence admite estar pensando em voz alta e "extrapolando em muito os dados". E ele admite que os EUA provavelmente ainda conservam sua força mais vibrante em sua capacidade de liderança mundial em inovação tecnológica. A maioria dos economistas não é tão pessimista como Spence. Mas é entre os americanos comuns que seu pessimismo repercute mais intensamente. "Ser pessimista sobre o futuro é algo tão novo para os americanos", diz Spence. "Mas a maioria das pessoas compreende sua própria situação melhor do que qualquer economista." (Tradução de Sergio Blum)

O texto é do Valor Econômico, e foi visto no blog do Luís Nassif.


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sexta-feira, julho 30, 2010

China se torna o maior consumidor de energia do mundo

China passa EUA e já é o maior país consumidor de energia

THAÍS MARZOLA ZARA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Recentemente, os temores de uma desaceleração mais acentuada da economia chinesa fizeram-se sentir sobre os preços do petróleo.
E não é para menos: segundo a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), em 2009 a China ultrapassou os Estados Unidos no consumo (incluindo, numa medida equivalente em toneladas de petróleo, todo o consumo de petróleo, carvão, gás natural, energia nuclear e de fontes renováveis), tornando-se o maior país consumidor de energia do mundo.
No ano passado, a China consumiu energia equivalente a 2,252 bilhões de toneladas de óleo, enquanto os EUA consumiram 2,170 bilhões. Comparando o consumo de energia dos dois países nos últimos dez anos, verifica-se que, enquanto o norte-americano recuou 4,5%, o chinês aumentou impressionantes 103,4%.
É certo que os Estados Unidos passaram por um ano difícil; contudo, como as perspectivas são que a China continue a crescer num ritmo muito maior que o dos Estados Unidos, mesmo considerando alguma desaceleração, o quadro não deve voltar a se inverter.
Considerando-se apenas o petróleo, os Estados Unidos ainda continuam sendo o maior consumidor -de acordo com a British Petroleum, os norte-americanos consumiram 843 milhões de toneladas em 2009, contra apenas 405 milhões da China. Mas não é difícil prever que, em 10 ou 15 anos, a China alcance a primeira posição.

PAPEL DA CHINA
Assim, a matriz energética chinesa ganhará cada vez mais importância.
Uma alteração que privilegie carros movidos a energia elétrica ou etanol, por exemplo, teria grande impacto sobre a demanda mundial de energia (não só pela própria demanda chinesa como também, num impacto secundário, pela importância como fornecedor de manufaturados do país na economia mundial).
Não só isso; mesmo que mudanças reduzindo a participação do petróleo venham a ocorrer, a demanda pelo produto deve continuar pressionada pelo crescimento chinês nos próximos anos, já que se espera que ela mantenha um ritmo de crescimento elevado, ainda que inferior ao registrado na primeira década deste século.
A boa notícia para os brasileiros é que a demanda deverá continuar crescendo, justamente no período em que a produção de petróleo extraído da camada pré-sal deverá começar a ocorrer de forma mais intensa, lembrando que deve levar de cinco a dez anos para se iniciar a produção à plena capacidade.


THAÍS MARZOLA ZARA é economista-chefe da Rosenberg Consultores Associados e mestre em economia pela USP.

Internet: www.rosenberg.com.br

Publicado na Folha de São Paulo, de 28 de julho de 2010.


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terça-feira, maio 11, 2010

Cavalo de Troia na Europa

Cavalo de Troia na Europa

ONTEM FOI dia de brasileiros prestarem atenção à chatíssima crise da dívida grega. Que pode se tornar crise da dívida portuguesa, quiçá irlandesa ou espanhola. O intermitente churrasco grego serviu para impulsionar a "correção" da Bolsa. O Ibovespa fechou ontem 7,4% abaixo do pico do dia 8. A Bolsa estava carinha e, enfim, os juros vão subir, o que não é assim lá tão relevante no caso do mercado brasileiro, mas pega.
A Grécia mergulhara no vinagre na semana passada, quando pediu dinheiro ao FMI e à União Europeia. Como de hábito, as agências de classificação de risco comparecem ao campo de batalha a fim de matar os feridos. Degradaram ontem a nota de crédito do governo grego para "junk", investimento com razoável risco de levar calote. A dívida portuguesa também foi desacreditada.
Apesar de ineptas e cúmplices da bandalha que resultou na crise de 2007-09, as notas das agências são relevantes. Investidores podem ser impedidos, por motivos contratuais, de comprar títulos com nota de crédito "junk".
Se todas as maiores agências rebaixarem a Grécia para "junk", os títulos gregos não serviriam como garantia nem para negócios com o Banco Central Europeu. O problema é que bancos usam títulos gregos como garantia para empréstimos no BCE. Quando os papéis perdem valor, em tese os bancos têm de oferecer mais garantias.
O mercado passou a cobrar taxas de juros cada vez mais altas do governo grego. Cobra quase o dobro da taxa pedida para o Brasil, desde a semana passada. É a espiral da morte: o país já superendividado paga cada vez mais caro para refinanciar a dívida, que cresce mais. O rendimento dos papéis gregos ("juros") de dois anos ultrapassou bem o dos brasileiros e até os argentinos. Excetuado algum país obscuro, são agora os mais altos do mundo.
Se a Alemanha não abrir logo o cofrinho, os gregos terão de "reestruturar" a dívida (pagar mais tarde, quando puderem). Os alemães em tese bancariam 28% do empréstimo europeu à Grécia. Mas o governo alemão adia a decisão sobre a ajuda, muito impopular entre o eleitorado.
E daí?
Se a Grécia "reestrutura", dá um calote, bancos franceses e alemães, entre outros, perdem dinheiro e ficam com menos capital. Isso para não falar do medo -os seguros de crédito ficam mais caros, os juros sobem, e não apenas para os governos europeus. O caldo da economia do mundo rico pode voltar a entornar.
O novo pico da crise pode ser um faniquito do mercado. Pode não ser. Em tese, apenas a promessa de empréstimos tapa-buraco à Grécia deveria ter acalmado o ambiente. Com o dinheiro prometido por FMI e Europa, a Grécia poderia tapar buracos até o início do trimestre final do ano.
Mas rumores e palpites publicados na mídia financeira europeia dão conta de que o mercado quer um remendo de pelo menos ano e meio. O remendo também não garante o fim da novela. O governo grego precisa cortar sua despesa em pelo menos 12% do PIB até 2015. É um massacre. Virá recessão, corte de benefícios sociais e revolta, que já está nas ruas. Além do mais, os gregos vão precisar tomar empréstimos a juros de pai para filho, de modo a não voltar ao buraco. Está difícil.

Texto de Vinicius Torres Freire, na Folha de São Paulo, de 28 de abril de 2010.

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terça-feira, abril 27, 2010

O preço da estabilização fiscal na Lituânia

Austeridade cobra preço alto na Lituânia


Economia deixa profundas cicatrizes sociais nos lituanos


Por LANDON THOMAS Jr.


VILNA, Lituânia - Se os líderes dos muitos países endividados do mundo quiserem ver o que é austeridade, podem visitar a Lituânia, país báltico de 3,3 milhões de habitantes.
Diante do crescente déficit que ameaçara quebrar a economia nacional, a Lituânia reduziu os gastos públicos em 30% -cortando, inclusive, os salários do funcionalismo entre 20% e 30% e reduzindo as aposentadorias em até 11%. Até o primeiro-ministro, Andrius Kubilius, sofreu um corte de rendimentos de 45%.
E o governo não parou por aí. Aumentou impostos sobre diversos produtos, como farmacêuticos e bebidas alcoólicas. Os impostos corporativos aumentaram de 15% para 20%, e a taxa sobre valor agregado, de 18% para 21%.
O efeito líquido sobre as finanças do país foi uma economia de gastos equivalente a 9% do PIB, o segundo maior ajuste fiscal em um país desenvolvido, depois da Letônia, desde o início da crise de crédito.
Mas a austeridade tem seu preço, em dificuldades sociais e pessoais. Os aposentados, com seus benefícios reduzidos, inundaram as sopas comunitárias. O desemprego saltou para 14%, e a economia, já combalida, encolheu 15% no ano passado.
De maneira notável, a austeridade foi, em geral, imposta com o apoio a contragosto dos sindicatos e partidos de oposição da Lituânia e ainda não provocou o tipo de protesto expresso nas amplas e regulares manifestações de rua e greves vistas em Grécia, Espanha e Reino Unido.
Certamente, Kubilius tem muitos críticos no país e no exterior. A austeridade do governo em meio a uma recessão vai contra a abordagem keynesiana de aumentar os gastos públicos para combater a queda econômica. Esse foi o caminho que a maioria dos países escolheu.
Mas Kubilius e sua equipe dizem que, com um déficit orçamentário de 9% do PIB, uma moeda atrelada ao euro e mercados de títulos internacionais avessos a emprestar para a Lituânia, o governo não teve escolha senão mostrar ao mundo que poderia impor sua própria desvalorização interna, cortando os gastos públicos, restabelecendo a competitividade e exigindo boa vontade dos mercados de títulos.
Outra motivação foi se conformar às regras de afiliação à união monetária europeia, que a Lituânia espera conseguir em 2014.
De fato, com exceção da Irlanda, nenhum país europeu chegou perto dos severos cortes de gastos da Lituânia sem a ajuda do FMI. A Irlanda aprovou o orçamento mais austero de sua história, e os cortes de salários no setor público foram uma peça central na iniciativa de reforma do governo.
O Ministério das Finanças lituano prevê crescimento de 1,5% neste ano, e a agência Moody's recentemente aumentou sua previsão para a economia lituana de negativa para estável.
Enquanto a Europa pondera os custos sociais e políticos ao tomar medidas para cortar gastos, a Lituânia oferece um caso de estudo em tempo real das compensações sociais.
"Você precisa dialogar com seus parceiros sociais e fazer os cortes mais difíceis o mais rapidamente possível", disse Kubilius. "Eu lhes disse: vocês precisam decidir hoje como querem ser descritos nos livros de história."
Como a Letônia e a Estônia, a Lituânia teve uma fase de sucesso econômico conduzida pelos setores bancário e imobiliário no início desta década. A construção passou a dominar a economia, e as baixas taxas de juros provocaram um boom na habitação. Muitos lituanos fizeram hipotecas com baixas taxas de juros nominais, em moedas estrangeiras. Com o início da crise, os preços das casas despencaram, a construção parou, e, de repente, milhares perderam os empregos.
A estudante universitária Monika Midveryte e sua mãe hoje sustentam a família depois que seu pai perdeu o emprego na construção. Agora, ela disse, ele fica em casa em frente à TV bebendo para esquecer os problemas. "Ele não tem esperança."
O preço psicológico foi enorme. Os suicídios aumentaram -em um país onde o índice de suicídios, de 35 por 100 mil habitantes, já é um dos mais altos do mundo.
"A estratégia de desvalorização interna pode ter tido sucesso para produzir uma estabilização em curto prazo, mas a que preço?", questionou Charles Woolfson, professor de estudos do trabalho na Universidade de Glasgow, especializado nos países bálticos. Ele indica que a alienação social se aprofunda na Lituânia, resultando no maior aumento da emigração desde que o país entrou para a União Europeia em 2004.
"Na época, foi a migração dos esperançosos", ele disse. "Hoje, é a migração dos desesperados."
Mecislovas Zukauskas, 88, eletricista aposentado, passou pelas devastações da Segunda Guerra Mundial, da ocupação soviética e, recentemente, da morte de sua mulher. Ele enfrenta calmamente o corte de sua aposentadoria. "O governo faz o que quer, não podemos fazer nada", resignou-se.

Texto do The New York Times, republicado na Folha de São Paulo, de 19 de abril de 2010.


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sábado, março 20, 2010

Um Fundo Monetário Europeu?

Um Fundo Monetário Europeu?


Por que os europeus precisam criar um Fundo Monetário próprio, se já controlam amplamente o FMI?



POSSO DAR um "teco" nos europeus outra vez? Quem gostava de falar assim era o embaixador Álvaro Alencar, brilhante diplomata e querido amigo, já morto. O Itamaraty, aliás, publicou em 2009 um belo livro em sua homenagem: "Álvaro Alencar: Um Diplomata na Luta Contra o Subdesenvolvimento" (Fundação Alexandre Gusmão).
Mas volto aos europeus. Não sei se devo dar mais um "teco". Vários europeus estão me caçando a pauladas, feito ratazana prenhe. Não gostaram nada de artigos que publiquei recentemente na Folha e em "O Globo". Onde já se viu um subdesenvolvido ousar escrever sobre o declínio, ainda que relativo, da Europa? Os velhos instintos imperiais deram arrancos triunfais de cachorro atropelado, como diria Nelson Rodrigues.
O leitor provavelmente não sabe, mas hoje já não é possível ter uma conversa reservada, só com brasileiros, no idioma pátrio. Logo aparece algum estrangeiro para dar palpites os mais variados (baseando-se, o que é pior, em traduções parcialmente incorretas e até incompletas).
Por isso, antes de entrar no assunto, aviso amigavelmente a algum europeu que esteja por acaso extraviado nesta coluna: estou falando com o leitor brasileiro, só com ele. Quando quiser falar com estrangeiros, vou escrever em inglês e tentar publicar em algum jornal ou revista no exterior.
Bem. Os europeus não param quietos. A cada semana, uma novidade. A última: querem agora criar um "Fundo Monetário Europeu".
O ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, manifestou-se mais de uma vez sobre o tema e publicou artigo no "Financial Times", na sexta-feira passada.
O ministro atraiu muita atenção, uma vez que a Alemanha é a maior economia da zona do euro.
Todo esse debate começou com o que Schäuble chama de "desastre orçamentário da Grécia". Pela primeira vez, os países da zona do euro estão plenamente engajados no monitoramento da política econômica de um país membro da união monetária, observa o ministro.
Schäuble reconhece que esse tem sido o papel do FMI em muitas crises. Mas, para ele, assim como para muitos europeus influentes, que um país da zona do euro bata às portas do Fundo é um desfecho inaceitável, ou muito difícil de aceitar. Lorenzo Smaghi, integrante da diretoria do Banco Central Europeu, declarou que a Grécia ir ao Fundo significaria colocar o euro sob administração de um "comissário externo".
Que ironia! Quando nós, subdesenvolvidos, manifestávamos esse tipo de relutância, os europeus e outros nos criticavam severamente por falta de compromisso com as entidades multilaterais e resistência irracional ao FMI.
Segundo Schäuble, os membros do euro deveriam ter acesso a ajuda de emergência proporcionada por um "Fundo Monetário Europeu", "o que evitaria que eles tivessem de recorrer ao FMI no futuro".
Não há consenso na Europa, nem mesmo na Alemanha, a respeito da proposta. A chanceler alemã, Angela Merkel, apoia a proposta, que ainda precisa ser detalhada.
O presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, disse que ela merece ser examinada.
Porém um aspecto parece incompreensível: por que os europeus precisariam criar um Fundo Monetário próprio, se já controlam amplamente o FMI aqui em Washington, onde estão escandalosamente sobrerrepresentados?

Texto de Paulo Nogueira Batista Jr. , na Folha de São Paulo, de 18 de março de 2010. Os destaques são deste blogueiro.


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segunda-feira, janeiro 04, 2010

Impressões entre a marolinha e o navio

A marolinha e o navio

SÃO PAULO - O jornal "O Estado de S. Paulo" publicou na capa da sua edição do último domingo uma foto muito ilustrativa. Centenas de pessoas estão acomodadas ao redor de uma grande piscina. São famílias, homens, mulheres, crianças. Trajes de banho, óculos escuros, drinques, celulares e máquinas fotográficas na mão, elas dirigem sua atenção sorridente a uma cena que a imagem não mostra: a legenda nos informa que todos ali acompanham um concurso de drag queen.
O conjunto lembra um pouco o Piscinão de Ramos, a praia artificial que Garotinho instalou na zona norte do Rio em 2001. Mas aqui estamos a bordo de um navio, num dos muitos cruzeiros pela costa brasileira que movimentam o turismo, cujo crescimento está ancorado na ascensão da classe C. No ano da marolinha, Lula levou o Piscinão de Ramos para passear em alto mar.
Trata-se, é claro, de uma boa notícia. O naviozão brega é um entre outros vários símbolos de inclusão que a realidade nos mostra. No auge do Real, sob Fernando Henrique, falava-se com orgulho do aumento do número de pessoas com acesso à dentadura. É só uma impressão, mas repare nas ruas se hoje não existe, entre os mais pobres, muita gente usando aparelho dentário.
TV de tela plana, celular com câmera, carro usado, passagem aérea mais barata que viagem de ônibus -são ícones de consumo da era Lula. A contrapartida são aeroportos cheios, trânsito demais nas ruas -o país que se descobre maior e mais apertado. A velha classe média vê seus privilégios e sonhos de exclusividade frustrados pelos emergentes. Ao mesmo tempo, a violência urbana e a desagregação social em cidades como São Paulo e Rio projetam uma grande sombra de ameaças sobre as esperanças de todos.
Para onde vai afinal o navio brasileiro? A imagem sugere que estamos na rota da americanização sem escola. Muita gente ainda vai cair no mar, mas podia ser bem pior.

Coluna de Fernando de Barros e Silva, na Folha de São Paulo, de 30 de dezembro de 2009.


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quarta-feira, dezembro 16, 2009

Números desimportantes sobre automóveis no Brasil

O jornal Folha de São Paulo informa em sua edição de hoje que a venda de automóveis no Brasil deve ultrapassar o número de três milhões de unidades neste ano de 2009. Se não estou enganado, em 1990 eram quatrocentos mil por ano. E a população do Brasil não aumentou sete vezes nesses quase 20 anos.

Todos estes carros significam conforto para mais algumas pessoas. Significam também uma melhora geral nas condições da economia brasileira, que permitiu um aumento massivo do consumo.

E isso sem falar no também expressivo aumento no número de vendas de motocicletas, provavelmente maior que as vendas de automóveis.

Claro que isso tudo significa também aumento de consumo de recursos do planeta, mais poluição, e mais congestionamentos.

Mas, e daí? Quem se importa?


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quinta-feira, novembro 19, 2009

Reflexões de um ex-vira-lata

Reflexões de um ex-vira-lata

ANTONIO PATRIOTA , até recentemente embaixador brasileiro aqui em Washington, reclamou comigo: "Para de falar em complexo de vira-lata! O Brasil passou dessa fase". Talvez o nosso embaixador tenha razão. O Brasil vem ganhando autoconfiança com uma rapidez surpreendente.
Nas recentes reuniões do G20, em Londres e Pittsburgh, e na última reunião anual do FMI, em Istambul, o Brasil bateu um bolão. Somos subdesenvolvidos? Sim. Temos equipes pequenas? Sim, muito menores do que as dos países desenvolvidos. E, no entanto, as delegações brasileiras têm sido das mais atuantes e -correndo o risco de soar presunçoso- acrescento: das mais influentes.
A aliança Bric (Brasil, China, Índia e Rússia) vem sendo fundamental. Mas não é só isso. O Brasil, em si mesmo, tem tido um papel cada vez maior. Há um fator que nos ajuda enormemente: a imagem favorável do país no exterior. A cotação do Brasil está muito alta. Do Brasil como economia, do Brasil como ator na cena internacional, do Brasil como nação cultural.
Bem sei, leitor, que o brasileiro está longe de compartilhar uma visão tão positiva. Talvez porque esteja mais perto do Brasil e conheça melhor as nossas mazelas. Talvez porque o complexo de vira-lata ainda esteja mais vivo do que imagina o embaixador Patriota.
Faço ainda outra ressalva: existe provavelmente um certo economicismo na forma como os países são vistos internacionalmente. O chamado mercado (um dos codinomes da turma da bufunfa) só se interessa pelos indicadores econômicos e financeiros. Não quer nem saber da péssima distribuição de renda, dos problemas sociais, dos níveis ainda elevados de pobreza e de miséria.
Ora, os indicadores econômicos brasileiros têm ficado, em geral, acima do esperado. Até 2007-2008, os nossos detratores (quase sempre brasileiros) diziam: "O Brasil está navegando uma onda internacional favorável".
Veio então a maior crise internacional desde a Grande Depressão. A torcida adversária (brasileira, em geral) começou a salivar intensamente, aguardando o colapso. Não aconteceu. O Brasil sofreu os efeitos da crise, claro. Mas menos do que se esperava. A recuperação brasileira também começou mais cedo do que o previsto. Basta dizer uma coisa: no meio dessa crise mundial, o Brasil anunciou um empréstimo de US$ 10 bilhões ao FMI.
O meu complexo de vira-lata deu arrancos triunfais de cachorro atropelado (para combinar dois bordões do Nelson Rodrigues em uma única frase). Quis o destino ou o acaso que coubesse a mim, logo a mim -devedor nato, hereditário e até inadimplente-, ser o diretor-executivo pelo Brasil no Fundo exatamente nessa conjuntura. Qualquer um dos meus antecessores -Alexandre Kafka, Murilo Portugal ou Eduardo Loyo- desempenharia o papel de credor com mais categoria e convicção.
Só tenho uma coisa a dizer em meu favor: apesar de credor neófito, acho que preservo uma identificação autêntica com os devedores do FMI. Sei o que significa ser devedor dessa instituição e, dentro do que posso, empresto a minha voz aos países em crise, especialmente os pequenos e oprimidos (mesmo aos brancos de olhos azuis). Foi o que tentei fazer pela Islândia, por exemplo, que passou ontem pela Diretoria-Executiva do FMI.
Dizem que os mulatos podem ser os piores racistas. Que os cristãos-novos são os mais fervorosos. Que um credor neófito pode ser o mais linha-dura. Vamos tentar desmentir esses ditados.


PAULO NOGUEIRA BATISTA JR. , 54, escreve às quintas-feiras nesta coluna. É diretor-executivo no FMI, onde representa um grupo de nove países (Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, República Dominicana, Suriname e Trinidad e Tobago), mas expressa seus pontos de vista em caráter pessoal.

Texto publicado na Folha de São Paulo, de 29 de outubro de 2009.


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terça-feira, novembro 17, 2009

Fora FMI!

FORA FMI, AMEAÇA "WSJ"

O "Wall Street Journal" se voltou em editorial contra conceder mais poder aos "políticos de Pequim e Brasília" no Fundo, como vem negociando o G20.
Questiona não serem "credores de longo prazo" no FMI, como os EUA. Diz que o Fundo "não é uma democracia" e, "se for para virar um banco da ONU, os contribuintes americanos devem parar de pagar por ele". Afinal, "com o FMI de antigamente pelo menos se podia contar na hora de apoiar os interesses geopolíticos do Ocidente".

Trecho da coluna Toda Mídia, na Folha de São Paulo, de 27 de outubro de 2009. Destaques do blogueiro. Uma palavra exemplar sobre o motivo da existência do FMI.

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quarta-feira, outubro 07, 2009

A cara do Brasil

Em meu livro “Os Cabeças de Planilha”, a partir da observação do dia a dia da economia, procurei desenvolver a tese de como se daria o estalo, o processo que deflagraria a percepção de desenvolvimento nacional e que pudesse vitaminar todo o organismo econômico, tal como ocorreu no governo JK.

Pensava em algo assim:
  1. O país vai desenvolvendo, ano a ano, um conjunto cada vez mais amplo de setores modernos.
  2. Quando esses avanços são percebidos no seu todo – e por todos os setores -, deflagra-se o movimento modernizador, desperta-se o chamado “espírito animal” na economia.
  3. Em algum momento, algum evento político ou econômico daria o tiro de partida, despertando o país para essa nova realidade.
  4. Ganharia o galardão de Estadista o político que conseguisse mostrar que o país é composto pela soma de todas as partes, o mercado, o sistema financeiro, as políticas sociais, os movimentos sociais, o agronegócio, a indústria, os cientistas, os gestores, as multinacionais, as pequenas e micro empresas e se transformasse na síntese, conduzindo.
*** A Constituição de 1988 permitira grandes avanços sociais. O governo Collor fizera o trabalho sujo de desmonte do modelo anterior, de redução da dívida pública para patamares civilizados e deixara plantadas as sementes de programas de qualidade, da abertura gradativa da economia. Mesmo aos trambolhões, o governo Itamar Franco manteve a chama da responsabilidade social que emergiu com a Constituinte.
*** FHC pegou o país pronto, uma conjuntura internacional extraordinariamente favorável (com o reposicionamento das multinacionais no mundo), o PSDB tornou-se o pólo de atração de quadros técnicos dos melhores – PUC Rio, FGV São Paulo, FEA. FHC tinha preparo, história, acesso aos movimentos de esquerda e aos empresários, à academia e à política. Todos os grupos modernizadores, plantados nos anos anteriores, convergiram automaticamente para sua candidatura, em 1994. Mais que isso, tinha a espoleta política capaz de deflagrar a auto-estima nacional: um plano de estabilização bem sucedido. Naqueles primeiros anos, o país regurgitava o novo. Estudos eram tirados das gavetas, por todos os cantos havia a esperança da inovação, da mudança de hábitos, da modernização.
*** Foi essa oportunidade histórica que FHC jogou no lixo. O que explica esse desperdício? Em parte, porque sua única obsessão era o chamado controle do Estado – a criação de oportunidades de enriquecimento para novos grupos, através da privatização. Mas, muito, por conta da extrema falta de compromisso com o país. Era apenas um deslumbrado com o poder. De imediato afastou do Palácio os dois tucanos que poderiam impulsionar o governo – Sérgio Motta e José Serra.
*** Com o tempo, conseguiu descaracterizar completamente não apenas seu governo, mas o próprio PSDB. Tirou do partido a vitalidade inicial, a busca do novo, a visão de conjunto e pragmática sobre o país, a ponto de descaracterizar completamente o próprio José Serra – cuja submissão intelectual e emocional a FHC um dia ainda será objeto de análises mais aprofundadas.

Em busca do tempo perdido – 1

A inação de FHC gerou quinze anos de atraso ao país. Só agora se retoma a trilha perdida, por conta da intuição de Lula. Não é por outro motivo que o ex-Ministro Delfim Netto – que não é de gastar elogio à toa – declarou dia desses que Lula salvou o capitalismo brasileiro. Não se trata de mera retórica. Depois das cabeçadas iniciais, Lula conseguiu entender muito melhor do que FHC a lógica do Estadista.
Em busca do tempo perdido – 2

O caminho passava pela conciliação da nação em torno dos novos valores do desenvolvimento. Ao contrário de FHC – que encontrou o país pronto – Lula precisou construir seu próprio caminho. O primeiro desafio consistia em desarmar seu próprio partido – um amálgama de várias tendências e de vários estilos políticos. Depois das cabeçadas iniciais, quando bateu no fundo do poço – o episódio dos chamados “mensaleiros” – começou a virada.
Em busca do tempo perdido – 3

A crise ajudou a domar as áreas mais radicais do partido. Quem não se enquadrou saiu para montar partidos mais à esquerda. Dentro do governo, Lula abriu espaço para o agronegócio (através do Ministério da Agricultura), para a agricultura familiar (através do Ministério do Desenvolvimento Agrário), para o mercado (através do Banco Central) e para os movimentos sociais (através do Ministério da Integração Social).
Em busca do tempo perdido – 4

Ao mesmo tempo em que imprimia uma política econômica muito ortodoxa, pouco a pouco foi montando a área desenvolvimentista do governo, com o eixo BNDES-Ministério da Fazenda. Demorou para implementar a nova política? Para muitos, demorou. Mas aguardou o tempo político. Quando eclodiu a crise mundial, veio a oportunidade para a mudança na política econômica. Aproveitou-se com um senso de oportunidade único.
Em busca do tempo perdido – 5

No plano político, projetou a imagem de um pacificador inesperado, tendo em conta seu histórico de lutas sindicais pesadas. Apesar de alvo da mais inclemente campanha de mídia que um presidente jamais encarou – mais acirrada e prolongada que a própria campanha do impeachment – jamais radicalizou suas críticas ou se valeu do poder do príncipe para pedir a cabeça de jornalistas – o oposto de alguns adversários.
Em busca do tempo perdido – 6

Por tudo isso, a herança bendita de Lula não foi FHC. Foi o movimento pela qualidade, o pensamento desenvolvimentista, os mercadistas, os que construíram o agronegócios e os movimentos sociais. Em suma, essa grande confluência de setores e fatores que compõem o Brasil moderno. O sindicalista semi-alfabetizado soube entender a complexidade do país muito mais do que o sociólogo consagrado.

Texto do Luís Nassif, no Último Segundo.


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terça-feira, setembro 15, 2009

Procura-se iniciativa privada

Procura-se iniciativa privada

DAS CEM MAIORES empresas do Brasil, dois terços são de capital nacional ou misto (segundo o ranking por receita líquida, elaborado pela publicação "Valor 1000", edição 2009). Dessas, metade são estatais ou contam com o governo como acionista relevante (via BNDES). Ou, pelo menos, abrem as portas para a intervenção governamental devido à participação acionária de fundos de pensão de empregados de estatais (do Banco do Brasil ou da Caixa, em geral).
Em algumas, a influência do governo é relevante não devido à participação no capital, ou não apenas devido a isso, mas também porque braços do Estado financiam as empresas com altas somas, como em teles. Ou, para falar francamente, as salvam da bancarrota, caso recente dos frigoríficos ou, mais antigo, de empresas de energia elétrica, ou logística, privatizadas nos anos FHC.
Poucas empresas das "top 100" foram "iniciativas privadas", como Gerdau, Pão de Açúcar, Cosan ou Natura, e assim continuaram a tocar a vida, basicamente sem depender de que o Estado entrasse em seu negócio. Muitas nasceram e foram por muito tempo "iniciativas privadas", mas fizeram um casamento arranjado, mas voluntário, com o Estado assim que precisaram crescer ou quando tomaram tombos, caso de quase todos os grandes frigoríficos.
O braço de participações acionárias do BNDES, a BNDESPar, poderia quase se chamar BNDESCarnes.
Notícias do final de semana suscitaram muxoxos e comentários direta ou indiretamente críticos a respeito do peso estatal, não apenas no capital das empresas. Dadas as rápidas pinceladas estatísticas acima, faz sentido a queixa? Por que há tão poucos negócios privados surgidos do chão, do nada? Por que há tão pouco investimento na criação de novos setores (a maioria das grandes empresas nacionais é do setor de recursos naturais e a grande maioria foi criada pelo Estado)? Por que o agronegócio, embora muito bem-sucedido, tenha tanto dependido da pesquisa estatal para florescer?
No final de semana, ouviu-se que a petroquímica Braskem (Odebrecht mais Petrobras e um tanto dos fundos de pensão) pode comprar a Quattor (onde a Petrobras tem 40%) a fim de evitar que a Petrobras volte a engolir o setor. Tudo bem.
Mas por que o capital privado já depende tanto da estatal petroleira? Ouviram-se ainda rangidos de dente por causa do calor que Lula tem dado na Vale, liderada pelo Bradesco, que é, porém, sócio menor da Previ (fundo de pensão do BB).
Por fim, amigos do mercado de capitais comemoram a "pujança" do setor privado devido ao fato de que faz ano e pouco a dívida privada é maior que a dívida pública. Tudo bem, mas "menos". Em parte, tal virada se deve ao fato de que a dívida pública cresceu bem menos.
De fato, começa a haver um mercado de capitais doméstico. O papel da empresa privada jamais foi tão grande no Brasil pós-Vargas. Mas, no país do agronegócio, onde estão as grandes empresas de biotecnologia? No país dos minérios, onde estão as grandes empresas de engenharia de materiais? No país do pré-sal, onde estão as empresas inovadoras na química? Talvez a esperar um subsídio (direto, indireto, "informal" ou "estratégico") do Estado.

Texto de Vinicius Torres Freire na Folha de São Paulo, de 25 de agosto de 2009.


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quarta-feira, agosto 19, 2009

Do "American dream" ao pesadelo

Do "American dream" ao pesadelo

JORIO DAUSTER

VENCIDOS OS duros anos da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos conceberam o "American dream", em que se entrelaçavam os ideais de prosperidade e igualdade.
Seis décadas depois, o país vive uma crise de proporções imprevisíveis, mas, antes disso, com um quarto da renda concentrada em 1% da população, o país já exibia os piores índices de justiça social entre todas as nações industrializadas.
São complexas as razões que levaram do sonho ao pesadelo, mas duas tendências surgidas na década de 1970 explicam o essencial do fenômeno: a "financeirização" da economia e o predomínio da filosofia neoliberal do Partido Republicano.
Os dois choques do petróleo, exigindo a circulação de imensos recursos, fortaleceram e globalizaram o sistema bancário. Desde então, as instituições financeiras suplantaram em relevância econômica e política os agentes da "economia real", forçando-os a conformarem-se às exigências dos mercados de capital.
Com o tempo, os bancos tradicionais estenderam suas atividades a outros campos, enquanto surgiam novos atores (bancos de investimento, fundos de participação acionária e fundos de hedge) menos regulados.
No quadrante político-ideológico, iniciam-se com Nixon, em 1969, quatro décadas de domínio do Partido Republicano e de seu ideário conservador. A partir da administração Reagan (1981-1989), as teses neoliberais ganharam impulso, com o desmonte dos sindicatos e de várias estruturas do "welfare state" identificadas com o Partido Democrata.
Tão forte haviam se tornado tais tendências que Bill Clinton, convivendo durante 6 dos seus 8 anos no poder com um Congresso de maioria republicana, patrocinou em 1999 a maior desregulamentação bancária da história norte-americana.
Ao mesmo tempo produto e motor dessas transformações, implantou-se no país um mandarinato que, como quase toda oligarquia, possui um componente dinástico -basta ver como Bush pai abriu para Bush filho as portas de Yale e da Casa Branca. Mas a maior força da casta dirigente está no seu caráter meritocrático, na capacidade de cooptar os melhores cérebros até quando oriundos do exterior. Outra feição notável é a porta giratória que liga instituições financeiras e corporações industriais às universidades, ao governo e ao Congresso -e os mandarins, transitando entre esses centros de poder, acumulam experiências diversificadas enquanto garantem seu pecúlio.
Sob a forma de salários, bônus e opções de ações milionárias, esse grupo de privilegiados apropriou-se de um quinhão crescente da riqueza, como se vê pelo fato de que o índice Gini (tanto maior quanto pior a distribuição da renda) subiu nos EUA de 37,6 em 1947 para 46,3 em 2007.
Aliás, isso significa que, mantidas as tendências atuais, o Brasil, que saiu de 60 em 1990 para 53 em 2007, poderá em breve exibir uma distribuição mais justa que a dos EUA.
Entretanto, como cabia impedir que os 90% da população que agora só detinham metade da renda nacional se conscientizassem de que estavam sendo excluídos do festim, os oligarcas utilizaram três instrumentos: mantiveram baixos os preços da gasolina, evitando qualquer taxação que reduzisse a atratividade dos SUVs beberrões, estimularam o consumismo pelo uso descontrolado dos cartões de crédito, fazendo com que a taxa de poupança pessoal se tornasse negativa, e congelaram por longo tempo os juros em níveis artificialmente baixos, estimulando irresponsavelmente a expansão do crédito imobiliário.
A combinação desses fatores está na origem da grave crise em cujo bojo se deu a eleição de Obama, primeiro sinal de reação popular diante das crescentes distorções distributivas.
Prova disso é que o candidato democrata visou a classe média ao prometer não só o resgate dos valores morais mas também a redução dos impostos sobre os segmentos de menor renda. Igual sinalização foi feita quanto à extensão dos serviços de saúde a todos os cidadãos e à recuperação do setor educacional.
Contudo, não será fácil vencer a resistência dos oligarcas, pois o próprio Obama não pôde dispensar a colaboração de muitos deles. Por exemplo, seu principal assessor econômico, Larry Summers, passou por Harvard, Banco Mundial, Tesouro e pela firma de investimento D.E. Shaw (onde em dois anos ganhou US$ 5,2 milhões para trabalhar uma tarde por semana).
O anúncio de que o governo controlará as remunerações dos executivos dos bancos por ele ajudados provocou uma corrida para repagarem o auxílio recebido no auge da crise. Alguns, como Goldman Sachs, escaparam das novas regras moralizadoras, porém outros, como Citigroup, tiveram de se dobrar a essas limitações.
Mas a luta de Obama apenas começou -e o "American dream" nunca esteve tão longe de se realizar.


JORIO DAUSTER , 71, embaixador, consultor de empresas e tradutor, é presidente do Conselho de Administração da Brasil Ecodiesel. Foi presidente da Companhia Vale do Rio Doce (1999 a 2001) e do Instituto de Estudos Políticos e Sociais (2003 e 2006).

Texto publicado na Folha de São Paulo, de 22 de julho de 2009.


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