segunda-feira, novembro 23, 2009

Caso de espionagem eleva tensão entre Chile e Peru

Caso de espionagem eleva tensão entre Chile e Peru

Militar peruano é preso sob acusação de vender dados sigilosos a governo chileno

Santiago nega participação no episódio; presidente do Peru, Alan García, critica ato de "republiqueta" e cobra explicações de vizinho


DA REDAÇÃO

Um suposto caso de espionagem militar desatou a pior crise diplomática entre Chile e Peru dos últimos anos, após a prisão de um oficial da Força Aérea peruana acusado de repassar dados sigilosos a Santiago.
Preso pela polícia peruana no último dia 30 em Lima, Víctor Ariza Mendoza, 45, é acusado pelo Ministério Público de ter recebido, em média, US$ 3.000 mensais desde setembro de 2005, em troca de informações confidenciais sobre o sistema de segurança do Peru.
O caso veio a público na quinta-feira passada. Em sinal de contrariedade pelo episódio, o presidente do Peru, Alan García, antecipou no final de semana sua volta do fórum da Apec (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico), em Cingapura, e cancelou encontro que manteria no local com a mandatária chilena, Michelle Bachelet.
Ontem, após reunião de segurança em Lima, García pediu "serenidade" no episódio, mas disse que o caso de espionagem, que descreveu como "próprio de uma republiqueta", deixa "muito ruim a imagem do Chile perante o mundo".
Considerado um dos presidentes à direita na América do Sul, ao lado de Álvaro Uribe, da Colômbia, García poupou a esquerdista Bachelet e atribuiu a suposta espionagem a setores conservadores, adeptos a costumes "ditatoriais e pinochetistas na relação com os vizinhos" -referência à ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990).
"Não afirmamos que a presidente Bachelet seja responsável", disse García, para em seguida cobrar explicações "qualquer que seja o nível dos funcionários envolvidos".
O Chile negou envolvimento no caso. "O governo do Chile não pratica espionagem, e não temos nenhuma informação disponível que permita nem sequer vislumbrar algum tipo de participação chilena", afirmou o ministro das Relações Exteriores, Mariano Fernández.
Segundo a imprensa do Peru, entre as informações vendidas por Mendoza estão um planejamento estratégico da Força Aérea peruana para 2021 e códigos criptografados do sistema de comunicação da Embaixada do Peru em Santiago -onde o suboficial trabalhou em 2002.
No Chile, políticos governistas e de oposição apontaram a existência de uma campanha para afetar a imagem do país. Questionaram ainda o fato de o caso ter sido divulgado na imprensa peruana no mesmo dia em que os EUA autorizaram uma possível venda de US$ 660 milhões em armas ao Chile.
O aumento da tensão bilateral ocorre justamente quando o governo García promove um tour pela região para promover o desarmamento. Em razão do episódio, o peruano suspendeu a visita de uma ministra ao Chile para tratar do tema, agendada para esta semana.
Rivais na Guerra do Pacífico, no final do século 19, Chile e Peru são unidos por laços comerciais e migratórios típicos de países vizinhos, mas têm um conflito de fronteira pendente -em 2008, o Peru apresentou à Corte Internacional de Haia uma demanda em que busca delimitar sua fronteira marítima com o Chile.

Com agências internacionais

Notícia publicada na Folha de São Paulo, de 17 de novembro de 2009.

Qual será o caroço embaixo desse angu?

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quinta-feira, novembro 20, 2008

Brasil potência desperta 'agressividade' em vizinhos, diz 'Newsweek'

O desenvolvimento do Brasil como potência econômica mundial despertou animosidades em países vizinhos, diz um artigo da revista americana Newsweek desta semana.

"Na medida em que o Brasil se torna um país mais poderoso, seus vizinhos se tornam mais agressivos", diz a revista.

"Estes dias, os imperialistas falam português", diz o artigo, afirmando que agora o país "marca o passo econômico da América Latina e está se tornando cada vez mais o alvo nº 1" - posição que a Newsweek diz ter sido ocupada no passado pelos Estados Unidos.

"O rugido anti-brasileiro mais alto vem dos Andes, onde líderes populistas que marcham ao som dos tambores da 'revolução bolivariana' do homem forte venezuelano Hugo Chávez, tentam reconstruir suas nações através da redistribuição de riquezas e do aumento do poder dos grupos e minorias indígenas há muito negligenciados."

A revista diz que "nos últimos dois anos, os líderes de Venezuela, Equador e Bolívia lançaram insultos contra seu vizinho dominante, e ultimamente o clima tem se exaltado". Como exemplo, Newsweek cita o episódio da expulsão da construtora Odebrecht pelo governo do Equador.

E a reação anti-Brasil está chegando ao sul do continente, segundo o artigo. "No Paraguai, o presidente Fernando Lugo tomou posse em agosto sob a bandeira de 'independência energética' - código populista para extrair concessões do império' do outro lado da fronteira."

"Ele (Lugo) está acusando o Brasil de pagar menos pela energia que importa da usina hidrelétrica de Itaipu, e quer liberdade para vender metade do total para qualquer país que desejar."

"Popular"

Apesar do antagonismo, o artigo diz que "ironicamente, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva continua popular na América Latina". O presidente boliviano Evo Morales "se referia reverenciosamente a Lula como seu 'irmão maior'", "Chávez raramente perde uma oportunidade de foto com Lula" e "a primeira viagem internacional de Lugo como presidente foi para Brasília".

"Fazer dos brasileiros os novos gringos pode cair bem para a arquibancada, mas é arriscado política e economicamente", segundo Newsweek.

"Até agora, o Brasil vinha sendo o maior investidor estrangeiro da Bolívia, enquanto o Paraguai se tornou o quinto maior exportador de soja graças à tecnologia brasileira", diz a revista.

A reação do Brasil tem sido "quase de penitência ante seus vizinhos pequenos, que cada vez mais representam os habitantes de Lilliput para o Gulliver do Brasil", diz o artigo, em uma referência aos seres minúsculos que o personagem Gulliver encontra na ilha de Lilliput no romance As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift.

"Embora o governo de Lula tenha sido rápido em enfrentar os países ricos - fazendo queixas formais contra os Estados Unidos e os europeus na Organização Mundial do Comércio sobre barreiras comerciais a etanol, algodão e açúcar - ofender os irmãos no hemisfério rende pouco mais do que uma repreensão", afirma Newsweek.

Mas "a tolerância brasileira pode estar acabando", conclui o artigo, que cita que o Brasil realizou "exercícios militares na fronteira com o Paraguai no mês passado - mensagem difícil de não se ver".

"Não espere uma versão tropical da guerra preventiva. Mas pode ser um sinal de que o Gulliver Latino não está mais querendo enfrentar as coisas deitado", disse o artigo da revista Newsweek.

Texto do BBC Brasil.


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quarta-feira, outubro 01, 2008

Unasul na Bolívia - II

Comissão da Unasul chega 2ª à Bolívia para investigar massacre

Morales diz que, graças a apoio do bloco, oposição o trata com mais respeito

ANDREA MURTA
DE NOVA YORK

O presidente boliviano Evo Morales anunciou ontem que receberá na próxima segunda-feira uma comissão da Unasul (União de Nações Sul-Americanas) para investigar o massacre no departamento de Pando, onde ao menos 15 de seus correligionários morreram após confronto com oposicionistas, no último dia 11.
"Estamos de braços abertos. É preciso esclarecer os atos genocidas em Pando", afirmou ele. Morales e os presidentes de Brasil, Colômbia, Chile, Argentina e Paraguai fizeram uma reunião informal da Unasul às margens da 63ª Assembléia Geral da ONU, em Nova York.
Ele disse ainda que há outra comissão da Unasul prevista, de apoio logístico a operações de abastecimento alimentar e energético, mas sem previsão para ser lançada.
A reunião de ontem deu prosseguimento à cúpula da Unasul realizada em Santiago na semana passada, na qual os presidentes ofereceram respaldo a Morales na crise com governadores de oposição em cinco departamentos do país.
"O mero apoio da Unasul e sua presença na Bolívia funcionam como um freio para a oposição", disse Morales. "Com a Unasul presente, os governadores me tratam muito melhor, começam até a me chamar de "senhor presidente"."
Ele afirmou estar confiante de que será alcançado um acordo hoje com a oposição.
A atuação da Unasul, formada há cinco meses, é vista como decisiva para o avanço do diálogo na Bolívia. Segundo a presidente do Chile, Michele Bachelet, que também preside interinamente o órgão, "a Unasul demonstrou que é um instrumento poderoso de integração e resolução de problemas".
Analistas americanos têm reservas. "O órgão só é útil enquanto os presidentes estiverem concordando uns com os outros. Foi importante na Bolívia, mas a longo prazo esse tema deveria ser levado à Organização dos Estados Americanos (OEA)", disse Peter Hakim, presidente do think-tank Inter American Dialogue.

Texto da Folha de São Paulo, de 25 de setembro de 2008.


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terça-feira, setembro 30, 2008

Unasul na Bolívia

Saem os EUA, entra a América do Sul

CLÓVIS ROSSI
ENVIADO ESPECIAL A SANTIAGO

A cúpula da Unasul (União de Nações Sul-Americanas), realizada na segunda-feira em Santiago, marca talvez o primeiro momento em que os Estados Unidos não exercem o protagonismo em uma crise na região desde a independência dos países sul-americanos, que está para completar 200 anos.
Daria, portanto, para chamá-la de histórica, mas é prudente aguardar para ver se a efeméride é acompanhada de eficiência, sem o que se torna apenas um registro banal.
É prudente também esperar para ver se a marginalização de Washington faz parte de um fenômeno mais amplo, de redistribuição do poder em escala global, ou é apenas conseqüência de estar na Casa Branca um "pato manco", como os americanos chamam presidentes em fim de mandato e sem poder, que além disso é desastrado, para dizer o mínimo.
Goste-se ou não, a América do Sul (e a América Latina, mais amplamente) ainda é o pátio traseiro dos EUA. Assim como a Rússia, muito menos poderosa hoje, embora também historicamente imperial, não permitiu movimentos em territórios que considera seus (caso Geórgia/Ossétia do Sul/ Abkházia), não é razoável supor que os EUA deixarão que seus interesses sejam contrariados na sub-região.
Ainda mais que a liderança alternativa, a do Brasil, é historicamente relutante em aceitar tal papel. Basta ver que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, antes de embarcar para a cúpula de Santiago e mesmo durante a sua realização, fez questão de enfatizar que cabia a Evo Morales, o presidente boliviano, decidir se aceitava o diálogo com a oposição e, por extensão, a intermediação da Unasul.
Em nenhum momento, Lula fez qualquer tipo de sermão sobre o comportamento que deveria ser adotado, seja pela própria Bolívia, seja pela Unasul. Os EUA (e também a Europa, é bom deixar claro) raramente deixam de dar as receitas que consideram não só as melhores mas as únicas.

Chávez e Lula
Ainda assim, o Brasil é cristalinamente o líder regional. É puro espetáculo especular, como o faz parte importante da mídia sul-americana, com uma disputa de liderança Brasil/Venezuela ou Lula/Hugo Chávez.
Pelo território, pela população e pelo tamanho da economia, o Brasil, qualquer que seja o presidente, é o líder natural, indisputado. Com Lula, é mais ainda porque o presidente tornou-se, além de estrela pela sua história de vida, a palavra da moderação e do sentido comum nos foros regionais e também nos internacionais.
Chávez só lhe disputa a liderança no que restou de esquerda -e não é muito, seja nas urnas, seja nos palácios de governo. Embora, pelo passado, todos os presidentes da Unasul sejam de esquerda, exceto Álvaro Uribe, só 3 dos 12 merecem hoje o rótulo pela ação político-administrativa (Chávez, Evo Morales e o equatoriano Rafael Correa).
Mesmo Alan García, hoje sempre listado à direita, é do Apra, sigla histórica que quer dizer Aliança Popular Revolucionária Americana. Seu fundador, Victor Raúl Haya de la Torre, escreveu nos anos 30 um clássico chamado "O Apra e o antiimperialismo" -muito antes, portanto, de Hugo Chávez adotar o mote.
A liderança de Lula, no entanto, não se exerce pelo confronto, como ficou evidente, pela enésima vez, na cúpula de segunda-feira. Chávez discursou, de novo, contra a suposta ou real "mão oculta" de Bush na crise boliviana, evocou Salvador Allende, deposto faz 35 anos, com ativa participação norte-americana, e ainda voltou a acusar generais bolivianos de golpistas.

Brasil responsável
Lula tomou a palavra, fingiu que não ouvira nada e definiu o eixo da intervenção da Unasul na crise boliviana: se Morales aceitar o diálogo, vamos a ele. Do contrário, não há nada que a Unasul possa fazer. É verdade que a proposta original do que está sendo chamado de "mesa de diálogo" é do governo chileno. Mas, a julgar pelo que a Folha ouviu dos próprios chilenos, foi a intervenção de Lula que a tornou a pedra de toque da cúpula.
O que, de resto, aumenta a responsabilidade do governo brasileiro na gestão da crise. Um fracasso agora tornaria a cúpula de Santiago não a primeira intervenção sul-americana independente dos EUA, mas o seu primeiro fracasso.

NA FOLHA ONLINE
www.folha.com.br/082601
leia a íntegra do comunicado da Unasul

Texto da Folha de São Paulo, de 17 de setembro de 2008.

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Morales aceita que Unasul seja mediadora na Bolívia

Morales aceita que Unasul seja mediadora na Bolívia

Presidente exige que oposição desocupe prédios públicos antes de negociações

Lula disse que bloco só atuaria se boliviano fizesse opção por diálogo; Chávez apontou "mão oculta" de Bush na ação oposicionista

CLÓVIS ROSSI
ENVIADO ESPECIAL A SANTIAGO

O presidente da Bolívia, Evo Morales, aceitou ontem que a Unasul (União de Nações Sul-Americanas) atue como mediadora do diálogo entre seu governo e os cinco governadores de oposição, que há três semanas promovem o bloqueio de rodovias e a ocupação de aeroportos e prédios públicos.
Morales, no entanto, apresentou aos oito presidentes (mais a anfitriã Michelle Bachelet), reunidos em cúpula de emergência da Unasul em Santiago, Chile, duas condições para iniciar as negociações. Primeiro, que os opositores desocupem os edifícios do governo; segundo, que uma comissão internacional investigue o massacre de camponeses pró-governo no departamento de Pando (norte da Bolívia).
O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, ofereceu sua instituição para a investigação.
O "sim" de Morales à mediação veio depois da intervenção do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva. Lula disse que, se Morales optasse por reprimir os opositores, não havia nada que a Unasul pudesse fazer. O bloco regional, criado há apenas quatro meses, atuaria se a opção pelo diálogo fosse de Morales.
"A posição de Lula mudou o eixo da reunião", conforme a Folha ouviu de representantes chilenos e peruanos.

Vídeo de abertura
Explica-se a frase: até então, haviam predominado as críticas do venezuelano Hugo Chávez ao que considerou "mão oculta de Bush [o presidente dos EUA] na preparação de um golpe na Bolívia".
Aliás, Morales abriu a reunião, depois da apresentação da anfitriã, Michelle Bachelet, exibindo vídeo de atos de vandalismo da oposição e de proclamações golpistas.
Também Cristina Kirchner (Argentina) criticou, embora em termos bem mais brandos, os EUA, depois de Chávez ter dito que a suposta conspiração norte-americana agora estava envolvendo a própria presidente argentina (referência à acusação dos EUA de que a campanha eleitoral da hoje presidente foi financiada por Chávez).
Lula tirou completamente o foco dos EUA com a sua observação sobre a autonomia de Morales para aceitar ou não o diálogo. Tanto que não houve, na declaração final, qualquer menção a Washington.
Lula, ao sair do Palácio de la Moneda, sede do governo chileno e da cúpula de emergência, já avançada a noite (passava das 21 horas, 22h em Brasília), festejou o resultado e a ênfase no diálogo: "Um país pobre como o Bolívia precisa de tranqüilidade para poder se desenvolver".
Já o chanceler Celso Amorim preferiu resumir o encontro em duas palavras: "pressão e diálogo". Pressão no sentido de que a condição indispensável para o diálogo é a desocupação, pelos oposicionistas, de prédios públicos ainda tomados.
O documento dá ainda, como a Folha antecipara, forte respaldo à "autoridade legítima", o presidente Evo Morales, condição, aliás, que Lula também fez questão de ressaltar, lembrando até que a legitimidade do boliviano saíra reforçada do recente referendo revogatório.
O texto faz ainda intransigente defesa da integridade territorial da Bolívia, "que não deve ser posta em questão em nenhum momento", segundo o chanceler chileno Alejandro Foxley. Parte da oposição já vinha usando uma palavra incendiária ("secessão") para tratar da autonomia dos departamentos rebelados contra La Paz.

"Mesa de diálogo"
De todo modo, o nítido respaldo a Morales, natural em se tratando de um presidente eleito e reconfirmado, vem acompanhado do aceno ao diálogo com a oposição. Falta apenas definir o formato final do que os chilenos estão chamando de "mesa de diálogo".
O que está certo é que a presidência de turno da Unasul, exercida pelo Chile, será a liderança. Houve uma proposta para que o chamado grupo de amigos da Bolívia (Argentina, Brasil e Colômbia) completasse a mesa. Mas o uruguaio Tabaré Vázquez reclamou: "Porque só três amigos, se somos todos amigos da Bolívia?".
Ficou então decidido que todos os 12 países da Unasul formarão o grupo de amigos, que se colocará à disposição de Morales para iniciar a mediação. Mas nem todos, óbvio, irão à Bolívia. Bachelet vai conversar nos próximos dias com os colegas para definir quem acompanhará a missão de pacificação.
Antes da reunião dos presidente, o chanceler Foxley dissera que o diálogo seria com "todos os setores". "Inclusive com Leopoldo Fernández, governador de Pando, cuja prisão foi decretada pelo governo e que o presidente Morales não aceita à mesa?", perguntou a Folha.
Foxley respondeu com uma frase que permite qualquer interpretação: "O que interessa é um diálogo construtivo com interlocutores dispostos a chegar a um acordo".
Ao chegar a La Paz, Morales antecipou o que seria seu discurso ante os chefes de governo. Denunciou que está em marcha o que chamou de "golpe de Estado cívico em alguns departamentos", em referência aos Comitês Cívicos, que reúnem a elite econômica e política das regiões.

Texto da Folha de São Paulo, de 16 de setembro de 2008.


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quarta-feira, setembro 24, 2008

Da oração à reunião

Da oração à reunião

SANTIAGO - O embaixador Rubens Ricupero relatou no domingo, nesta Folha, os apelos desesperados de um diplomata norte-americano para que o Brasil e os países da América do Sul fizessem alguma coisa para resolver a crise boliviana do início dos anos 80, representada por uma narcoditadura chefiada pelo general Garcia Mesa.
O chanceler brasileiro da época, Saraiva Guerreiro, limitou-se a sugerir orações pela Bolívia. Menos de 30 anos depois (o que, em termos históricos, é bem pouco), o Brasil e seus pares da região já não rezam pela Bolívia. Ao contrário, reúnem-se em bloco para tentar ajudar. E -detalhe fundamental- não precisaram de apelos dos Estados Unidos. A iniciativa da cúpula da Unasul (União de Nações Sul-Americanas) é "coisa nossa".
Não sei, ninguém sabe, se reunir-se resolverá mais do que rezar (por motivos técnicos, escrevo antes do término da cúpula). Mas que "as nossas coisas" melhoraram um bocado é inegável.
Primeira e essencial melhoria: como é que os países sul-americanos poderiam reagir a uma ditadura, ainda que narcoditadura, na Bolívia se quase todos também eram ditaduras? Hoje, todos são democracias.
Tudo bem que os regimes democráticos não resolveram os seculares problemas da sub-região. Mas a ausência da democracia só criou um novo e enorme problema: a ilegitimidade de origem dos governos autoritários e a violência institucional que todos praticaram.
A reunião da Unasul, mesmo que não tenha sido chamada com essa finalidade, é uma primeira aproximação ao passo seguinte necessário: como democracias podem ajudar-se umas às outras concretamente sem violar princípios como o da soberania e o da não-ingerência? Aliás, ainda são princípios sagrados em tempos de globalização e da decorrente cessão de soberania para blocos de países?

Texto de Clóvis Rossi, na Folha de São Paulo, de 16 de setembro de 2008.


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terça-feira, setembro 02, 2008

Bolívia: protestos paralisam reformas

Protestos paralisam reformas na Bolívia

Andres Schipani
Em La Paz


Debaixo da lona azul no seu precário quiosque de rua, Rosita, uma açougueira de etnia aimará, reclama. "Não há carne suficiente", diz ela. "Esses conservadores racistas do leste querem que nós, os índios, passemos fome para que cedamos e voltemos a ficar sob a sola dos sapatos deles. Mas nós não permitiremos que eles façam isso. Lutaremos por Evo e por este processo de mudanças".

Mas o processo parece ter chegado a um violento impasse nos últimos sete dias. Embora o primeiro presidente indígena da Bolívia tenha emergido como o vitorioso incontestável em uma eleição nacional no início deste mês que poderia ter culminado com a sua remoção da presidência, a metade oriental do país, que é mais branca e rica, não está querendo admitir a derrota. E esta elite tampouco está feliz com um governo que muitos no leste da Bolívia descrevem como totalitário.

Na segunda-feira (26), os chamados grupos cívicos das províncias de Chuquisaca, Tarija e Santa Cruz bloquearam as estradas nacionais e aquelas que levam à Argentina e ao Paraguai, e ameaçaram ocupar os campos estatais de petróleo em suas regiões.

Esses grupos estão exigindo que o governo eleve o preço do gás exportado para a Argentina e o Brasil dos atuais US$ 5 para US$ 18 por unidade térmica britânica (BTU).

Manifestantes nas terras baixas orientais cortaram os suprimentos de carne para o oeste na semana passada, e bloquearam as estradas, embora o fornecimento já tenha sido normalizado.

Houve também confrontos violentos envolvendo inimigos e apoiadores de Evo Morales e a polícia em várias províncias orientais, depois que grupos de jovens radicais pró-autonomia armados de paus e escudos atacaram policiais em Santa Cruz na semana passada.
Por sua vez, alguns dos aliados indígenas de Morales bloquearam o acesso à capital constitucional e judicial do país, Sucre, um bastião oposicionista, e grupos indígenas nas áreas mais pobres de Santa Cruz afirmaram estar prontos para contra-atacar.

O vice-presidente da Bolívia, Álvaro García Linera, descreveu as ações como "uma agressão à Bolívia e um ato criminoso", enquanto Morales garantiu que o governo protegerá as instalações de gás.

A Bolívia, geograficamente dividida entre as terras baixas tropicais prósperas do leste e os altiplanos ocidentais pobres, ficou mais polarizada após o referendo. Os governadores da oposição das regiões orientais de Santa Cruz, Tarija, Beni e Pando também obtiveram novos mandatos nas urnas e exibiram uma crescente popularidade, enquanto as conversações entre Morales e os governos do leste não foram capazes de resolver a crise.

"Estamos enfrentando um acirramento de posições radicais que aprofundam a polarização já existente", explica Guido Riveros Franck, diretor da Fundação Boliviana para a Democracia Multipartidária. "E agora estamos à mercê de grupos radicais e violentos de ambos os lados... Neste quadro, o diálogo fica cada vez mais distante".

Morales está seguindo em frente com os seus planos para a realização de um novo referendo com o objetivo de aprovar uma nova constituição nacional. Mas as cinco províncias orientais que se opõem à constituição afirmam que ela privilegiaria injustamente os grupos indígenas, estimularia o controle centralizado e faria com que uma parcela das rendas provenientes do petróleo fosse retirada das províncias que produzem a maior parte do gás boliviano.

Eles estão pressionando para que seja adotado um sistema mais federativo com maior autonomia regional.

"O governo chama o federalismo de divisionismo e separatismo. Mas é isto o que os centralistas querem mostrar, já que eles temem perder o poder", afirma Carlos Dabdoud, um líder oposicionista de Santa Cruz. "Enquanto o presidente encarar esta sua última vitória com arrogância, tentando impor a sua vontade, o conflito continuará".

Morales indicou que poderia adotar uma rota intermediária que concedesse mais autonomia no contexto da nova constituição. Mas os seus aliados estão pessimistas.

"Com a violência, a oposição deseja que a Bolívia retorne ao status quo anterior, egoísta e neoliberal", acusa Sabino Mendoza, parlamentar pró-Morales que redigiu o texto da nova constituição. "Não podemos permitir que isso aconteça".

Tradução: UOL

Texto do The Financial Times, publicado no UOL.


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sexta-feira, maio 30, 2008

Unasul II

Política de boa vizinhança

BRASÍLIA - Enquanto setores do Primeiro Mundo assumem desavergonhadamente que cobiçam a Amazônia, o Brasil se une aos vizinhos da América do Sul na Unasul. Um movimento é de ataque, e o outro, de defesa. Logo, legítimo.
Como se seguissem um padrão -ou seria patrão?-, os governos sul-americanos caminharam juntos em aventuras populistas, ditaduras militares, ondas neoliberais, mas seus povos desconheciam-se uns aos outros. Mal se liam, não se visitavam e até hoje é mais fácil voar do Amazonas, do Ceará, da Bahia ou de qualquer outro Estado para a Europa ou para os EUA do que para Venezuela, Colômbia, Bolívia.
O Brasil é uma ilha de língua portuguesa num oceano de língua hispânica, mas, geração após geração, as elites brasileiras estudaram francês, inglês e até latim, suspiraram em Paris e deslumbraram-se nos shows da Broadway, sem saber qual é e onde é a capital do Peru.
O que o brasileiro sabia da Venezuela quando estourou o fenômeno Chávez? Nada.
Com esse grau de distanciamento, os países e suas riquezas, amazônicas ou não, são alvos fáceis. Daí, a Unasul tem tudo a ver. Não se esperem resultados "concretos" rapidamente, muito menos moeda única, banco central válido para todos e um conselho de segurança comum da noite para o dia, como Lula dá a entender, do alto de seu otimismo embalado a índices estonteantes de popularidade. Olhe-se o processo. A Unasul é uma manifestação política, uma busca de identidade e de união. E sem alternativa.
Os destinos dos países sul-americanos -assim como suas crises- estão intrincados uns nos outros.
Especialmente num mundo dito globalizado, cada vez mais formatado em grandes e desafiantes blocos.
Quem perder esse trem não vai poder chorar as pitangas e as jabuticabas quando, e se, o fantasma da internacionalização da Amazônia tentar se materializar.


Texto de Eliane Castanhede (Eliane Castanhede?) na Folha de São Paulo, de 27 de maio de 2008.


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quinta-feira, maio 29, 2008

Unasul

Em Brasília, os países sul-americanos dão um passo rumo à integração regional

Jean-Pierre Langellier
No Rio de Janeiro


Um novo organismo regional nasceu na América Latina. Os dirigentes de doze países que, juntos, representam 380 milhões de habitantes, assinaram na sexta-feira (23), em Brasília, o tratado que cria a União das Nações Sul-Americanas (Unasul), estão seguindo o exemplo da União Européia. Este fórum de diálogo político reúne Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela.

A implantação da Unasul foi concretizada, sobretudo, por obra do Brasil. Ela caracteriza, na visão brasileira, um novo passo rumo à integração regional da qual o país desponta, em função do seu peso demográfico e da sua potência econômica, como o principal beneficiário. Para desempenhar o papel em nível mundial ao qual ele aspira, o Brasil precisa de estabilidade em seu continente. E ele não faz mistério disso, sem dar mostras de qualquer inquietação nem exibir qualquer arrogância.

Na visão dos seus idealizadores brasileiros, a Unasul deverá ser um organismo maleável, um foro para consultas que poderão ser efetuadas de maneira permanente, além de uma instância que sirva como "primeiro recurso" para permitir a prevenção dos conflitos. Assim, na medida do possível, esta entidade terá por missão evitar que seja acionada, em caso de conflito, a Organização dos Estados Americanos (OEA), da qual fazem parte os Estados Unidos. O Brasil considera mais desejável que os doze países da América do Sul solucionem entre si os problemas do seu subcontinente.

É por estas razões que Brasília também está trabalhando na criação de um Conselho de Defesa sul-americano. Longe de ser uma mini-OTAN local (organização do Tratado do Atlântico Norte, integrada pelos Estados Unidos e vários países europeus, voltada para assuntos de defesa e cooperação militar), este conselho não selaria nenhuma aliança militar. Ele seria essencialmente "um órgão de articulação" das políticas de defesa entre os doze países. Contudo, este outro projeto brasileiro não desfruta de um consenso regional. O Uruguai, e, sobretudo, a Colômbia, que firmou uma aliança estreita com os Estados Unidos, se opõem à sua realização.

Presidida por Michelle Bachelet
Bogotá, que recusou a oferta de Brasília, considerou que seria "imprudente" presidir a Unasul, alegando as suas "dificuldades" atuais com o Equador e a Venezuela. A presidente chilena, Michelle Bachelet, por sua vez, aceitou assumir a sua presidência. Ela conclamou os seus homólogos sul-americanos a "concentrarem seus esforços na busca de consenso" e a empregarem "toda a energia possível para que a união possa ser implementada".

A Unasul realizará uma reunião anual com os chefes de Estado. No longo prazo, a União será dotada de um Parlamento. Contudo, o caráter heterogêneo das ideologias que norteiam os governos do subcontinente constituirá a principal dificuldade que a Unasul terá de enfrentar. Os países da esquerda radical - Bolívia, Equador e Venezuela - estimam que "falta audácia" na concepção do tratado. O presidente venezuelano, Hugo Chávez, defende a idéia de uma "OTAN da América do Sul", uma aliança militar que estaria dirigida contra "o inimigo número um, o império dos Estados Unidos", conforme ele repetiu em seu discurso na sexta-feira. Com isso, não foi por acaso se a Bolívia e a Venezuela anunciaram no mesmo dia terem concluído um novo tratado bilateral de cooperação militar.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

Texto do Le Monde, no UOL.

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