quarta-feira, dezembro 22, 2010

Diplomatas foram enganados por modos "cordiais" de Saddam na Guerra do Golfo

Diplomatas foram enganados por modos "cordiais" de Saddam na Guerra do Golfo

Bernhard Zand

Der Spiegel

Uma declaração inábil da embaixadora americana no Iraque provocou a primeira Guerra no Golfo? Os cabogramas americanos vazados mostram que os diplomatas fracassaram em perceber os sinais de que Saddam Hussein estava se preparando para invadir o Kuait e que pintavam seu regime sob luz consistentemente favorável nos anos que antecederam o conflito.

Na manhã de 25 de julho de 1990, o ditador iraquiano Saddam Hussein telefonou para a embaixadora americana no Iraque, April Glaspie. Foi o primeiro encontro dela com Saddam e durou duas horas. E provavelmente entrará para a história como um dos incidentes mais controversos na diplomacia americana.

Naquela noite, Glaspie enviou por cabograma seu relatório sobre a conversa para Washington. Ela o resumiu sob o título: “Mensagem de amizade de Saddam ao presidente Bush”.

Apenas oito dias depois, estourou a guerra quando as tropas de Saddam invadiram o Kuait. A invasão provocou um conflito que duraria mais de 15 anos e terminaria nem mesmo com a morte de Saddam Hussein.

É o pesadelo de todo diplomata. O que transcorreu exatamente no encontro de Glaspie com o presidente iraquiano?

Saddam estava sob pressão em meados dos anos 90. Ele se queixou à embaixadora americana de que os oito anos de guerra com o Irã tinham deixado seu país esgotado e altamente endividado. Ainda pior, o vizinho Kuait estava deliberadamente mantendo baixos os preços do petróleo –tão baixos, de fato, que seu país tinha sido obrigado a cortar as pensões que pagava às viúvas e órfãos.

“A esta altura”, declarou o relatório de Glaspie, “o intérprete e um dos tomadores de notas começaram a chorar”.

Saddam então passou para a questão da disputa de fronteira do Iraque com o Kuait. A conversa se tornou técnica, e ele até mesmo começou a recitar uma lista de distâncias em quilômetros. “A embaixadora”, Glaspie escreveu falando de si mesma, “disse que tinha servido por 20 anos no Kuait; naquela época, como agora, nós não tomamos nenhuma posição a respeito dessas questões árabes”.

Poucas semanas depois, os iraquianos romperam todo protocolo diplomático divulgando uma transcrição resumida da conversa. Nunca antes os Estados Unidos pesaram tão cuidadosamente as palavras de um de seus diplomatas. Nunca antes uma única sentença foi tão discutida quanto à da embaixadora Glaspie.

Os críticos dizem que a resposta dela “confundiu” Saddam Hussein, que ela foi ambígua e vaga demais. Saddam pode ter pensado que os Estados Unidos não interviriam caso atacasse o Kuait. Assim, eles afirmam, Glaspie teve um papel decisivo no início da guerra. Seus defensores dizem que esta crítica é imprópria. Eles apontam que Glaspie disse a Saddam o que qualquer diplomata em sua posição teria dito.

A controvérsia persiste até hoje. Mas novos despachos diplomáticos, recém divulgados pelo WikiLeaks, agora revelam o que os embaixadores americanos em Bagdá informaram a Washington entre 1985 e 1990. Eles mostram o ambiente político no qual Glaspie atuava, a posição americana a respeito de Saddam Hussein na época e o que levou à sentença fatídica dela.

Os Estados Unidos romperam as relações diplomáticas com o Iraque após o conflito entre árabes e israelenses de 1967. A embaixada americana foi reaberta em 1984 e, desde o início, um assunto dominava os relatos dos diplomatas americanos estacionados em Bagdá: o Irã.

Na época, as tropas de Saddam lutavam contra as dos revolucionários do Irã desde as montanhas do Curdistão até o Rio Shatt al Arab, e era bem óbvio de que lado estava a simpatia americana: Washington queria a vitória de Saddam.

Glaspie chegou ao Iraque no final de 1987. Na época ela tinha 46 anos e tinha vasta experiência nos países árabes. Washington certamente não enviou uma novata para Bagdá.

Visão estreita

Uma das primeiras viagens dela foi para se encontrar com os cristãos no norte, cuja situação ela considerou satisfatória. Qualquer “reassentamento” que tenha ocorrido acabou semanas antes. Ela descreveu o governador de Saddam na província de Mosul como “impecavelmente agradável” e seu chefe de segurança como “prestativo e compassivo”. De fato, para onde quer que olhasse, ela estava surpresa em quanto dinheiro o governo iraquiano tinha gasto com sua minoria cristã. Um mosteiro foi reformado e “vários novos vilarejos” –marcados como “vilarejos modelo Saddam”– foram construídos.

Tudo aquilo poderia ser verdade, mas representava uma visão deliberadamente estreita do Iraque no início de 1988. Pois enquanto a embaixadora Glaspie estava visitando Mosul, o primo de Saddam, Ali Hassan al Majid (que viria a ser conhecido como “Ali Químico”), bombardeava os curdos no norte do Iraque, a apenas 250 quilômetros de distância, com gás venenoso. Em 16 e 17 de março de 1988, 10 semanas após a visita, um destino semelhante ocorreu à cidade de Halabja. Cerca de 5 mil pessoas foram mortas ali nesses dois dias, com mais centenas morrendo posteriormente de modo doloroso, devido aos efeitos das armas químicas usadas contra elas.

Não é que a embaixada americana em Bagdá não sabia nada desses ataques. Em meados de fevereiro, Abd al Rahman Qassemlu, um líder curdo iraniano que ficou ao lado de Saddam contra Teerã, foi a Bagdá. Após uma reunião com o ditador, ele também passou na embaixada americana. Ele avisou que não queria nem dinheiro e nem armas. “É claro que sempre é possível ter mais, mas temos o suficiente”, ele disse, segundo um despacho da embaixada.

Ele então narrou o que estava se passando no norte. O relatório disse que o chefe de seu departamento político “perguntou a Qassemlu qual era sua reação diante da campanha iraquiana de destruição das aldeias curdas. Qassemlu reconheceu que a ‘maioria’ das aldeias foi destruída, mas parecia sem nenhuma emoção sobre o assunto”, notou o relatório.

Qassemlu disse aos americanos precisamente quem culpava pelos ataques assassinos ocorridos no norte: “Saddam. Ele está encarregado de tudo”.

Desde cedo, os relatórios americanos começaram a mencionar os temores iraquianos de que os Estados Unidos poderiam abandonar o Iraque por laços mais estreitos com Teerã. Em um cabograma para Washington, escreveu Glaspie: “Nós tranquilizamos os iraquianos no alto escalão e por diferentes canais de que não contemplamos uma ‘inclinação’ em qualquer direção”.

Colaboração excelente

Perto do fim da guerra Irã-Iraque, no segundo trimestre de 1988, os cabogramas da embaixada americana falavam de um crescente otimismo dentro do Iraque. Os diplomatas informaram uma colaboração excelente nos bastidores.

Quando a guerra Irã-Iraque finalmente acabou após oito anos e quase meio milhão de mortos, Glaspie colocou a palavra “vitória” entre aspas; mas assim que a celebração passou, os relatos novamente passaram a se concentrar na ameaça iraniana que criou o elo primário entre o regime de Saddam e os Estados Unidos –passando por cima de todas as queixas sobre assassinatos, armas químicas e violações de direitos humanos. “Nós duvidamos que os iraquianos sejam ingênuos a ponto de acreditarem que qualquer regime clerical no Irã, mesmo após a morte de Khomeini, renunciará à revolução ou a seus elementos integrais, o expansionismo e a interferência nos assuntos internos de outros países, principalmente do Iraque.”

Mas então, no início dos anos 90, “nuvens escuras” se formaram sobre o relacionamento do Iraque com os Estados Unidos, nas palavras do próprio Saddam, falando em uma coletiva de imprensa após uma visita do presidente do Egito, Hosni Mubarak. Saddam atribuiu a deterioração a uma suposta interferência de um “lobby sionista” na política americana. Isso preocupou a embaixadora americana? Ela se preocupou com a escolha de palavras do ditador iraquiano?

Não. Ela apenas enviou para casa um relatório intitulado “Saddam explica e defende”. No despacho, Glaspie falou sobre a posição de Saddam como “talvez derivando de seu antigo esforço para promover um senso de identidade para os ‘iraquianos’ –um senso que ele frequentemente se lembra de carecer quando era menino”. Sua avaliação do presidente iraquiano em abril de 1990 foi a seguinte: “Saddam não está fazendo pose. Ele está genuinamente preocupado com Israel e com o Irã”.

Em maio daquele ano, os chefes de Estado da Liga Árabe se reuniram em Bagdá, tendo como fundo as ameaças de Saddam contra o Kuait e os Emirados Árabes Unidos. De novo, Glaspie elogiou os esforços de Saddam. Ela disse que ele “deu um passo à frente” e reuniu os árabes, apesar de que no “menor denominador comum”.

‘Liderança intelectual’

Ela realmente não viu as nuvens de tempestade se formando no horizonte? No início de junho, Glaspie enviou um cabograma a Washington com o título –aparentemente sem ironia– “Liderança Intelectual”. Ela disse que Saddam tinha passado recentemente muitas horas com um grupo de seis homens finalizando uma nova Constituição. A embaixadora pediu ao Departamento de Estado para anotar os nomes dos homens, porque esse projeto era “importante”, como se Saddam estivesse seriamente pensando na Constituição iraquiano apenas dois meses antes de suas tropas invadirem o Kuait, se de fato esse notório conspirador e mestre da espionagem alguma vez tenha levado uma Constituição a sério em sua vida.

A julgar por seus memorandos, a embaixadora sabia muito pouco sobre as dúvidas perturbadoras que alguns membros do círculo interno de Saddam tinham a respeito de seus planos de invasão cada vez mais concretos. Os rumores de que ele estava sob pressão internamente foram desprezados por Glaspie como meras invenções por parte do Irã e dos exilados iraquianos. E ela rejeitou explicitamente um relatório da embaixada americana no Kuait, que dizia que o comportamento errático de Saddam sugeria “pressões internas e instabilidade de seu regime” –o que, olhando para trás, parece altamente provável. O embaixador em Bagdá insistiu que Saddam era motivado por muitas coisas, mas rumores de golpe não eram um deles.

Isso foi seguido por dois parágrafos que levantam sérias dúvidas a respeito da objetividade de Glaspie em relação ao regime de Saddam: “Nós não estamos sugerindo”, ela escreve, “que não existam algumas ‘ações disciplinares’ ocasionais aqui. Por exemplo, o adc (nota do editor: o ajudante de ordens) curdo de longa data do presidente, Sabah Mizra, sem dúvida rasurou seu livro de notas neste ano. Ele foi preso e pode estar morto”.

E de qualquer forma, ela acrescentou, Saddam está apenas tentando “melhorar o bem-estar dos cidadãos. O partido não tem dificuldade em mobilizar milhares de árabes (não curdos) iraquianos para saudar seu presidente”.

Em junho de 1990, a emissora de televisão americana “ABC” transmitiu uma entrevista que a jornalista Diane Sawyer fez com Saddam Hussein, após mediação da embaixada americana. Os iraquianos ficaram furiosos, porque a conversa de três horas foi editada para 20 minutos. De novo, Glaspie pediu pela compreensão tanto do secretário pessoal de Saddam quanto de Washington. Ela disse que Saddam não estava “jogando a toalha”. Ele estava defendendo sua “nova política de disponibilidade à imprensa ocidental (‘Le Figaro’ é o próximo) e sua disposição de permitir que o público iraquiano o visse e ouvisse sem cortes e sem retoques”.

A entrevista de Sawyer também apareceu na conversa contenciosa de Glaspie com Saddam, em 25 de julho. Glaspie escreveu, se referindo a si mesma, “a embaixadora disse que assistiu ao programa de Diane Sawyer e o considerou barato e injusto. Mas a imprensa americana trata todos os políticos sem gentileza –este é o nosso modo”.

Saddam “cordial, razoável e até mesmo caloroso”

Se o seu comentário sobre a neutralidade americana nas disputas de fronteira árabes fizeram Saddam decidir invadir o Kuait é uma pergunta que talvez apenas o próprio Saddam poderia responder com certeza. Mas os despachos diplomáticos que vazaram mostram que Glaspie e seu antecessor viam o regime de forma extremamente favorável desde o início, fizeram vista grossa para os crimes amplamente conhecidos de Saddam e foram tão influenciados pela inimizade mútua com o Irã a ponto de serem negligentemente não críticos. Essa atitude certamente influenciou a reunião fatídica de Glaspie com Saddam.

A postura do presidente foi “cordial, razoável e até mesmo calorosa”, começa seu relato da reunião. Ele termina concluindo que ele sem dúvida era sincero ao “buscar um acordo pacífico” para o conflito com o vizinho Kuait. Entre eles se encontra parágrafo após parágrafo listando o suposto egoísmo do Kuait e os sacrifícios e intenções pacíficas dos iraquianos.

Saddam Hussein sem dúvida enganou a embaixadora americana, apesar de que também em seu próprio detrimento. Mas ela particularmente não dificultou para ele.

A embaixada enviou mais quatro despachos para Washington antes do início da guerra. Um começa com a crença equivocada de que Saddam estava realmente respondendo às tentativas de mediação mais recentes tentadas pelo presidente do Egito, Hosni Mubarak, mas termina com a análise etnológica que diz mais a respeito dos motivos para a guerra do que muitas avaliações posteriores:

“É difícil exagerar a profundidade do sentimento antikuaitiano no Iraque. Este é um fundo extremamente importante para as tensões atuais. E a antipatia é velha e profunda –não algo estimulado pela mídia para a ocasião.”

“Os kuaitianos que chegam ao Iraque com bolsos cheios de dinares iraquianos (comprados com cotação do mercado negro que é menos que um décimo da taxa de câmbio oficial) e que gastam ostentosamente, não são de classe média educada –estes vão para a Europa. O Iraque recebe o equivalente ao ‘lixo branco pobre’, a classe média baixa, que pode ser vista em grande número em Basra na sexta-feira e nos resorts de verão do norte, frequentemente bêbada, às vezes desordeira, e geralmente apostando em cassinos fora isso vazios. Ela também vai para Bagdá em grande número, fornecendo clientela para as boates baratas e para as garotas de programa.”

“Os iraquianos sentem profundamente que os kuaitianos são grandes sovinas vivendo ostentosamente enquanto o Iraque, que fez sacrifícios terríveis durante a guerra, ainda está sofrendo.”

Quatro dias depois, a embaixadora Glaspie voou para Washington. Sete dias depois, em 2 de agosto de 1990, as tropas iraquianas invadiram o Kuait.

Naquele dia, o vice de Glaspie, Joseph Wilson, que ficou famoso 13 anos depois como o marido da espiã desmascarada da CIA, Valerie Plame, enviou ao Departamento de Estado a mensagem mais breve que a embaixada em Bagdá já tinha enviado: “Nós tentamos repetidamente, desde 0630 local, contatar os altos funcionários diplomáticos, incluindo o ministro Aziz. O subsecretário Hamdun aparentemente não está em casa, já que ninguém atende seu telefone de casa (...) A embaixada enviou uma equipe de gestão de crise”.

Saddam tinha atacado. E da noite para o dia, ele passou de aliado americano por quase 10 anos a inimigo mortal. Tudo o que antes parecia certo, repentinamente estava errado.

Tradução: George El Khouri Andolfato



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quarta-feira, setembro 22, 2010

O sonho não concretizado de Hitler de ver Nova York em chamas

O sonho não concretizado de Hitler de ver Nova York em chamas


Eike Frenzel


Antes mesmo da Segunda Guerra Mundial, estrategistas nazistas formularam vários planos para atacar a cidade de Nova York – com super mísseis, pilotos kamikazes, aviões bombardeiros de longo alcance ou agentes secretos. Alguns desses planos eram ambiciosos e outros tolos, mas todos eles fracassaram.


O capitão Hans-Heinz Lindner estava perdendo gradualmente a calma. Quando o dia nasceu, em 13 de junho de 1942, os primeiros carros já passavam pela estrada à beira-mar na pequena cidade de Amagansett, em Long Island. Mas o submarino estava encalhado. O colosso de aço cinzento se encontrava preso em um banco de areia, em águas rasas, a menos de 200 metros da costa, tão impotente quanto uma baleia encalhada na praia. Dentro de apenas algumas horas, qualquer pessoa que passasse caminhando pela areia avistaria o submarino alemão bem destacado nas águas do Oceano Atlântico.


Porém, Lindner conseguiu desencalhar a embarcação. Acelerando os motores a toda potência, ele foi capaz de manobrar o submarino na enchente da maré e retornar ao mar aberto. O U-202 esgueirou-se por debaixo das ondas antes que alguém fosse capaz de vê-lo. Dentro dele, os marinheiros comemoraram essa salvação de última hora.


Esse fato que quase resultou na perda de um dos submarinos alemães que operavam ao largo da costa leste dos Estados Unidos foi o prelúdio de uma das operações militares mais bizarras da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial: a infiltração de um grupo de sabotadores em solo norte-americano. O Terceiro Reich tinha como objetivo atingir os Estados Unidos no seu próprio território, e os estrategistas nazistas elaboraram diversos planos para ataques dispendiosos com o propósito de abalar a agitada metrópole de Nova York nas suas bases – usando super mísseis, pilotos kamikazes, aviões bombardeiros de longo alcance ou agentes secretos.


Mas os espiões alemães levados à costa inimiga pelo submarino U-202 na ousada “Operação Pastorius” fizeram pouco progresso na sua missão ambiciosa. Apesar dos grandes esforços das forças armadas alemãs para selecionar e treinar oito membros da equipe terrorista, a infiltração nazista acabou se transformando em um fracasso espetacular.


Embora todos os homens tivessem passado algum tempo nos Estados Unidos antes da operação, nenhum deles tinha experiência em trabalhar para um serviço de inteligência. Em abril de 1942, eles foram enviados a Gut Quenzsee, uma cidade situada 75 quilômetros a oeste de Berlim, para fazerem um curso rápido de sabotagem. Durante 18 dias, especialistas militares ensinaram a eles como usar explosivos, temporizadores para detonação, armas e granadas de mão. Para ficarem em forma, eles praticaram Jiu-Jitsu. Depois, em junho, dois grupos de quatro agentes secretos recém-treinados foram desembarcados nas costas da Flórida e de Long Island, um pelo submarino U-584 e o outro pelo U-202.


Um fracasso colossal


As equipes foram enviadas aos Estados Unidos com o propósito de explodirem pontes de estradas de ferro, usinas de geração de energia elétrica e túneis, a fim de paralisar as instalações industriais que eram vitais para o esforço norte-americano de guerra e desmoralizar a população civil do país. Um historiador classificou essas iniciativas como “os planos de sabotagem mais ousados da história”. Mas a operação acabou se transformando em uma enorme dor de cabeça para os comandantes militares dos oito indivíduos. Os agentes alemães cometeram erros que destruíram as suas estórias-coberturas apenas dois dias após terem dado início à sua missão, o que fez com que o FBI organizasse a maior caçada humana da sua história.


O principal responsável pelo desastre da operação de espionagem foi Georg John Dasch, o líder de 39 anos de idade do grupo de Long Island. Após ter quase se afogado durante a tentativa de desembarcar em um barco inflável, ele foi descoberto em pouco tempo entre as dunas da praia por John Cullen, um membro da Guarda Costeira dos Estados Unidos de 21 anos de idade que portava uma lanterna. Quando Cullen encontrou Dasch, este fingiu ser um pescador. A seguir, Dasch agarrou Cullen pelo colarinho, ameaçou-o e acabou colocando nas mãos do rapaz US$ 260, uma parte do dinheiro trazido da Alemanha para as suas despesas operacionais. Em troca, Dasch pediu a Cullen que esquecesse que tinha visto os quatro homens na praia.


É claro que o desconfiado membro da Guarda Costeira não fez o que o alemão solicitou. Ele informou imediatamente o acontecido aos seus colegas, que acabaram descobrindo quatro caixas de explosivos e alguns uniformes alemães que haviam sido enterrados apressadamente na areia. O FBI foi alertado, e deu início a uma busca frenética pelos quatro desconhecidos. Os quatro embarcaram em um trem para a cidade de Nova York, onde se hospedaram em um hotel. Pouco depois, Dasch viajou para Washington, D.C., onde entregou-se às autoridades policiais em 19 de junho. Para provar que era um espião, Dasch mostrou aos agentes do FBI lenços nos quais ele havia escrito os nomes dos seus alvos com tinta invisível. Tendo sido mais tarde descrito como “neurótico” pela equipe policial encarregada do interrogatório, Dasch divulgou aos norte-americanos todos os detalhes relativos à “Operação Pastorius”. Usando a informação, agentes do FBI prenderam os três espiões no hotel de Nova York, bem como os quatro sabotadores alemães que haviam desembarcado na Flórida.


Em 8 de agosto de 1942, a curta carreira de seis dos espiões alemães terminou na cadeira elétrica da prisão do Distrito de Colúmbia. As sentenças dos outros dois, Dasch e Ernst Peter Burger, foram comutadas pelo presidente Franklin Delano Roosevelt para 30 anos de prisão e prisão perpétua, respectivamente.


O sonho de Hitler de ver Nova York em chamas


Na distante Alemanha, apesar do fracasso da missão de sabotagem, Hitler ainda estava obcecado pela ideia de ver Nova York em chamas. Ele acreditava que o seu poderoso inimigo do outro lado do Atlântico precisava ser obrigado a manter-se fora da guerra por meio de vários ataques bem localizados em território norte-americano. Conforme narrou Albert Speer, o arquiteto favorito de Hitler, nos seus “Diários de Spandau”, Hitler sentia grande prazer em assistir na Chancelaria do Reich a filmes de “Londres ardendo”, de “comboios sendo explodidos” e de “um mar de fogo sobre Varsóvia”. Hitler estava com a ideia fixa de assistir “à queda de Nova York em meio a colunas de chamas”.


Tendo em vista o entusiasmo de Hitler por atacar Nova York, não é de se surpreender que os estrategistas nazistas tenham elaborado diversos planos com este objetivo específico, alguns dos quais foram feitos até antes do início da guerra. Em 1937, por exemplo, durante uma visita às instalações da companhia de fabricação de aviões Messerschmitt na cidade de Augsburg, no sul da Alemanha, Hitler conheceu o protótipo de um bombardeiro quadrimotor de longo alcance, o Messerschmitt Me 264, que estava sendo projetado para para ter uma autonomia que lhe permitisse alcançar a costa leste dos Estados Unidos a partir da Europa. Hitler ficou entusiasmado com o conceito de um “bombardeiro Amerika”, cuja carga explosiva pudesse reduzir cidades norte-americanas a cinzas e destroços. Mas o que ele não sabia era que o projetista do Me 264, Willy Messerschmitt, tinha na verdade lhe mostrado um modelo incapaz de voar com o propósito de obter um contrato lucrativo – e ninguém podia de fato afirmar quando a aeronave estaria pronta para entrar em operação.


Quando começaram a ter a impressão de que perderiam a guerra, os nazistas passaram a depositar bastante esperanças no desenvolvimento das chamadas “armas milagrosas”. O centro de pesquisa do exército em Peenemünde, uma vila na ilha de Usedom, no Mar Báltico, era uma verdadeira cornucópia de tais ideias. Os alemães acreditavam, ao final da guerra, que o mesmo centro que havia lançado com relativo sucesso o primeiro foguete V-2 em 1942 seria capaz de finalmente colocar em ação um “foguete Amerika”.


O foguete A-9/A-10 foi projetado para ter 25 metros de comprimento, sendo dez metros mais longo do que o V-2. Pesando quase 100 toneladas, ele poderia subir a uma altitude de 24 quilômetros antes de dar início ao seu voo transatlântico rumo aos Estados Unidos. Um outro grupo de pesquisas buscava uma maneira de possibilitar que um piloto manobrasse o foguete e se ejetasse antes de atingir o alvo – em uma verdadeira missão suicida.


Em termos teóricos, pelo menos, a engenhosidade destrutiva dos engenheiros alemães não tinha limites. Eles cogitaram a ideia de fazer com que submarinos rebocassem depósitos flutuantes contendo foguetes V-2 modificados em direção à costa leste dos Estados Unidos. Assim que fossem posicionados, esses depósitos seriam inundados de forma que os foguetes ficassem apontados para o alto, acima da linha d'água, prontos para serem lançados.


O desenvolvimento da tecnologia militar nazista só se tornou possível por meio da utilização brutal de trabalhos forçados. Milhares de trabalhadores morreram em instalações de produção subterrâneas e fábricas secretas. Mas havia também muitos voluntários que – em nome do sucesso das “armas Amerika” - se mostravam dispostos a enfrentar uma terrível “morte heroica”, mesmo que isso significasse manobrar foguetes lançados de aviões de carga, em estilo kamikaze, até o centro de Nova York.


Escassez de materiais e agentes amadores


No fim das contas, todos os planos dos nazistas para ataques aéreos só tiveram uma coisa em comum: nenhum deles foi colocado em prática. Em dezembro de 1941, a revista norte-americana “Life” publicou uma planta da “Big Apple” com uma matéria que mostrava como aviões nazistas poderiam bombardear Nova York. Em 1944, a mesma revista citou a advertência do prefeito Fiorello La Guardia, que disse que poderia haver um ataque com mísseis alemães contra os Estados Unidos. Mas, no decorrer da guerra, os os “bombardeiros Amerika” e os mísseis nazistas de longo alcance jamais apareceram sobre os arranha-céus de Nova York.


Mais do que tudo, foram os bombardeios aéreos aliados contra as fábricas alemães que atrasaram persistentemente a capacidade nazista de desfechar ataques transatlânticos e que, à medida que a guerra se desenrolava, tornaram tais ataques impossíveis. Uma escassez de materiais, falta de tempo e o volume enorme de novos projetos de engenharia acabaram impedindo a realização do sonho de Hitler de ver os Estados Unidos engolidos pelas chamas.


E quanto aos agentes amadores envolvidos na “Operação Pastorius”, é mais do que provável que cedo ou tarde eles acabassem destruindo as suas estórias-coberturas, mesmo se Dasch não tivesse desertado. De fato, desde o início, a missão estava fadada a fracassar: um dos agentes já tinha se afastado dela após ter contraído gonorreia em Paris. E, nos Estados Unidos, Edward Kerling, o líder da equipe de quatro homens na Flórida, teria se gabado da sua missão secreta para um velho amigo. E Herbert Haupt, um dos membros da equipe de Kerling, chegou até a visitar o seu pai em Chicago, pedindo a este que comprasse para ele um automóvel esportivo preto da marca Pontiac – alegando que necessitava do veículo para viajar a negócios para o governo alemão.


Tradução: UOL



Texto da Der Spiegel, republicado no UOL.

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sábado, setembro 04, 2010

ONU documenta banho de sangue no Congo

ONU documenta banho de sangue no Congo


Mulheres e meninas foram estupradas. Homens foram massacrados. Refugiados foram assassinados com facões e paus. Um novo relatório da ONU descreve uma orgia de violência no Congo entre 1993 e 2003, documentando meticulosamente como a lei e a humanidade foram abandonadas. Ele também acusa Ruanda de atrocidades no Congo – algo que não foi bem recebido em Kigali.


O relatório tem mais de 500 páginas. É uma das investigações mais completas de crimes de guerra na história da ONU. Apesar de ainda não ter sido publicado, causou tensões diplomáticas sérias em Nova York, Congo e Ruanda.


Duas dúzias de inspetores examinaram meticulosamente os assassinatos em massa na República Democrática do Congo, entre 1993 e 2003. Eles avaliaram relatórios, assistiram vídeos e entrevistaram milhares de testemunhas. Eles conferiram tudo que foi considerado significativo. Uma prévia do relatório já vazou e documenta o horror.


Os investigadores descrevem como, por anos, grupos rebeldes patrocinados por Ruanda caçaram, torturaram e massacraram refugiados hutus no Congo, ou Zaire, como era chamado na época. Escolas, hospitais, campos de refugiados, crianças, mulheres, idosos – nada nem ninguém estava seguro das gangues assassinas dos dois lados. De forma alguma, os perseguidores de Ruanda eram os únicos a perpetrarem os crimes. O relatório descreve o enorme país como corrupto e podre, um lugar onde direitos humanos, justiça e valores humanitários perderam seu valor décadas atrás.


Conflitos étnicos pelo Congo


O declínio do país começou muito antes da Primeira Guerra do Congo de 1996 a 1998 e a derrubada e exílio do ex-ditador Mobutu Sese Seko, em 1997. No final de 1991, os congoleses da província rica em cobre de Katanga, no sul do país, começaram a perseguir, remover e matar pessoas que tinham migrado da região de Kasai. O conflito foi alimentado por Mobutu, que se sentiu ameaçado por muitos políticos de oposição de Kasai.


Comerciantes de Kasai tiveram o acesso negado aos mercados em Katanga, suas propriedades foram roubadas e eles foram perseguidos. No final do outono de 1992, cerca de metade dos moradores da cidade de Likasi, em Katanga, foram forçadas a sair, 60.000 pessoas no total. Migrantes de Kasai também foram expulsos da cidade mineira de Kolwezi, com a ajuda da polícia e autoridades locais.


As mesmas arbitrariedades ocorreram em outras províncias, algumas vezes promovidas pelos governadores. Conflitos entre grupos étnicos diferentes levaram à morte de mais de mil pessoas só em Katanga, algo que mal foi registrado na Europa ou nos EUA. Os conflitos logo se espalharam para a capital Kinshasa, onde Mobutu estava tentando com todas suas forças se segurar no poder. Migrantes de Kasai foram as principais vítimas, mas oponentes políticos também temeram por suas vidas.


Enquanto isso, em meados de 1990, no leste do país, rico em recursos, começou uma agitação contra os imigrantes tutsis de Ruanda e Burundi. Na província de Kivu do Norte, banyamasisi-tutsis já tinham sido vítimas de remoção forçada. Agora, a pressão estava crescendo contra os banyamasisi-tutsis em Kivu do Sul. Essa pressão aumentou porque, dois anos antes, milhões de refugiados de Ruanda, primariamente hutus, tinham fugido para o leste do Congo. Eram uma mistura de soldados e civis, assassinos e crianças, e todos tinham deixado Ruanda com medo dos tutsis vitoriosos e seu líder militar Paul Kagame buscarem vingança após o genocídio de 1994, quando 800.000 tutsis e hutus moderados foram assassinados por extremistas hutus em apenas 100 dias.


Assassinatos sistemáticos


Muitos se reorganizaram em campos de refugiados ao longo da fronteira e depois começaram a caçar os tutsis que vinham se estabelecendo no Congo por décadas. No final de setembro de 1996, os assassinatos sistemáticos de banyamasisi-tutsis começaram. O relatório da ONU os descreve em detalhes:


. No dia 29 de setembro de 1996, em Lueba, 78 km ao sul de Ivira, unidades do grupo étnico bembe mataram 152 civis banyamulenge, inclusive muitas mulheres e crianças, com a ajuda do exército do Zaire. Algumas das vítimas foram mortas por golpes de facão, outras foram queimadas em suas casas. Houve estupro em massa de mulheres e meninas.


. Neste momento, em Kivu do Norte, havia um inferno na Terra. Centenas de milhares de pessoas fugiam de suas casas. Milicianos tutsis e soldados de Ruanda invadiram campos de refugiados ao longo da estrada principal entre Goma e Rutshuru. Homens foram amarrados e mortos, mulheres violentadas, crianças surradas até a morte.


. Na noite do dia 29 de setembro e manhã do dia 30, unidades bembe mataram quase 100 civis banyamulenge perto da aldeia de Moboko. As vítimas eram sobreviventes do massacre de Lueba, ocorrido horas antes. Os milicianos disseram que iam levá-los de volta para Ruanda. Entretanto, enquanto as mulheres e crianças puderam deixar o país, os homens foram amarrados e jogados no lago Tanganica.


. No dia 21 de outubro, um banyamulenge foi morto em Uvira e sua cabeça foi carregada em um bastão pela cidade. Os perpetradores fizeram e usaram um colar com seus testículos.


. O chefe das forças armadas do Zaire acusou os banyamulenges, no dia 11 de outubro de 1996, de trabalharem com Ruanda para travar uma guerra contra o Zaire. O anúncio foi uma declaração oficial de caça aberta aos tutsis. Então, tutsis e banyamulenges, apoiados por soldados de Ruanda, começaram a avançar para o Congo, usando métodos igualmente brutais. Eles montaram bloqueios nas estradas e separaram os ruandeses e hutus de Burundi da multidão de refugiados. Centenas de hutus foram mortos ali mesmo, milhares de outros foram selecionados, aparentemente para serem enviados para Ruanda, mas foram assassinados ali perto.


. No dia 22 de novembro de 1996, centenas de refugiados foram amontoados no campo de Chimanga, a 71 km a oeste de Bukavu. Uma vaca foi morta, teoricamente para que tivessem forças para a longa marcha de volta para Ruanda. Quando os hutus começaram a se inscrever, os guardas em torno do campo abriram fogo, matando cerca de 500 a 800 refugiados.


. Na ponte de Ulindi, perto da cidade de Shabunda, os tutsis mataram 500 refugiados no dia 5 de fevereiro de 1997. O povo local teve que remover os corpos e restos da matança na ponte.


O relatório descreve sobriamente mais de 600 incidentes similares e para cada caso há testemunhas e provas. Os investigadores não se fiaram em boatos.


O relatório afirma que as pessoas foram “executadas às centenas, muitas vezes com armas pontiagudas”. Ele afirma que “a maioria das vítimas eram crianças, mulheres, idosos e doentes... que não impunham ameaça alguma às forças que os atacavam”. O relatório prossegue dizendo que “os ataques sistemáticos e amplos têm uma série de elementos agravantes, que provados diante de um tribunal, seriam classificados como crimes de genocídio”.


Não foram apenas os tutsis que colocaram de lado todos os padrões de humanidade em sua guerra de vingança contra os hutus no Congo. Os congoleses não se tratavam muito melhor. O relatório fornece evidências disso.


Quando os conflitos entre os povos hema e lendu escalaram na província de Ituri, em fevereiro de 2003, os hemas convidaram uma delegação lendu para conversas na aldeia de Sangi. O grupo lendu, que incluía mulheres, mal tinha chegado quando os hemas os atacaram com facões, facas e porretes. Alguns foram amarrados e assassinados na igreja local. Somente dois lendus sobreviveram. Os conflitos entre esses grupos étnicos também são detalhadamente documentados no relatório da ONU.


Ruanda ameaça retirar-se de missões da ONU


A versão oficial do relatório será divulgada em poucos dias, mas as primeiras reações às notícias da mídia, em Ruanda em particular, causaram grande inquietação. O governo de Kagame negou expressamente ter tomado parte em crimes que podem ser comparados a genocídios no Congo. Nos últimos meses, o governo até tentou impedir a publicação do relatório, ou ao menos mitigá-lo um pouco.


A ministra de relações exteriores, Louise Mushikiwabo, escreveu uma carta ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, na qual ameaçou terminar o envolvimento de Ruanda com a ONU e disse em particular que ia retirar tropas de paz de Ruanda de missões da ONU, por exemplo, na região de crise sudanesa em Darfur. E o porta voz do governo em Kigali disse que seria “imoral e inaceitável” para a ONU, “uma organização que não conseguiu impedir o genocídio em Ruanda”, agora acusar “o exército que impediu esse genocídio de cometer atrocidades na República Democrática do Congo”.


Ainda assim, Ruanda e sua história estão inextricavelmente ligadas com décadas de banho de sangue no Congo. Isso ficou novamente claro no início de agosto. Membros da milícia hutu de Ruanda, Fdlr, violentaram ao menos 179 mulheres perto de Walikale no Congo. As vítimas disseram que tinham sido estupradas entre duas e seis vezes cada uma. A violência tenebrosa continuou por vários dias.


Tradução: Deborah Weinberg



Notícia da Der Spiegel, republicada no UOL.


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segunda-feira, agosto 30, 2010

Guerra!




Do Laerte, na Folha de São Paulo.

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sábado, agosto 14, 2010

Ambiguidades preocupantes permanecem no Iraque

Ambiguidades preocupantes permanecem no Iraque


Anne Nivat



Nos últimos sete anos como jornalista, fui frequentemente ao Iraque. Sempre ando com proteção e fico com famílias em suas casas, tentando me misturar o máximo possível.


A cada visita, encontro um país diferente. Após a carnificina de 2006 e 2007, o Iraque ficou paralisado de medo. Agora, apesar de continuar havendo uma violência esporádica, a segurança em geral melhorou a ponto de o presidente Obama declarar formalmente o fim do papel de combate dos EUA, e as próprias autoridades iraquianas assumirem a responsabilidade por manter a ordem.


Hoje, as pessoas não usam mais capacetes e máscaras de gás quando fazem compras nos mercados de Bagdá. Em todos os bairros, mesmo os mais perigosos, as crianças saem à tardinha para brincar, e os idosos sentam-se nas calçadas em cadeiras de plástico, como costumavam fazer antes da guerra.


O transporte público, apesar de nem sempre confiável, está sendo reativado. As estudantes não precisam mais ir para a escola ou universidade em vans especiais com cortinas nas janelas.


Mas o ambiente que encontrei em minha mais recente viagem em maio foi cheio de paradoxos. Hoje, o Iraque é um país de paz triste e ambiguidades preocupantes.


Muitas pessoas com quem conversei admitiram que a liberdade da opressão assassina do regime de Saddam foi “produzida nos EUA”. Mas há também um amplo ressentimento com a morte e destruição causados pela guerra norte-americana. Muitos expressaram um cansaço diante da ocupação de sete anos – junto com uma apreensão diante da partida dos americanos.


Poucas pessoas expressaram fé na democracia, seus líderes ou em sua própria capacidade de construir um futuro livre e próspero. Pior, o cenário parece aleijado por uma apatia de anestesiar a mente. Vi o mesmo desânimo paralisante e disseminado na Tchetchênia, no Afeganistão e em outras guerras que cobri como repórter free-lance, na maior parte para a mídia francesa.


Espera-se que os piores horrores que os iraquianos sofreram tenham ficado para trás –mas como podem continuar com suas vidas quando chegaram à conclusão que as batalhas que viveram de nada serviram?


O fato é que resta um enorme vão entre o que o Ocidente quer para o Iraque e o que muitos iraquianos compreendem desses objetivos ocidentais.


Muitas pessoas com quem conversei nunca levaram a sério o desejo americano de estabelecer uma democracia, em grande parte porque simplesmente não tinham familiaridade com o conceito. Para muitos, a palavra democracia se tornou sinônimo de incompetência e corrupção. Eles não têm a menor ideia do que a guerra custou ao Ocidente em termos de dinheiro, vidas e angústia política. Além disso, muitos não dão a mínima.


Em Kirkuk, cidade rica em petróleo onde árabes, curdos e turcos estão lutando pelo poder, visitei um casal turco que conheço há sete anos. Adeeb, engenheiro de petróleo de 55 anos falou diretamente: “Os americanos introduziram distinções em nosso povo que não havia antes. Instituíram quotas de acordo com nossa seita religiosa. Como resultado, a pouca disciplina que tínhamos foi substituída por uma espécie de caos baseado em valores supostamente ‘democráticos’. Se isso que é democracia, então ninguém quer.”


Adeeb parecia ter esquecido que, no regime anterior, suas opções eram muito limitadas por causa de sua etnia. Saddam Hussein nunca hesitou em agir contra qualquer seita ou grupo étnico que julgasse ser uma ameaça e periodicamente fazia operações violentas de opressão. Em 1988, ele usou armas químicas contra os curdos na cidade de Halabja, em um ataque que matou milhares de pessoas. Após a primeira guerra do Golfo, ele massacrou os xiitas marsh, destruindo sua sociedade e sua forma de vida.


Ainda assim, o desapontamento no Iraque pós-Saddam é amplo, independentemente da geração ou status social. Algumas pessoas não apenas expressam abertamente a nostalgia pela ordem da era Saddam, mas fazem dos EUA um alvo fácil de todas as queixas. Sob Saddam, as ruas eram limpas, lembra-se Adeeb. Hoje, carneiros se alimentam do lixo empilhado.


Na cidade de Najaf, Mohammed, comerciante de 35 anos, lamentou que os filhos tivessem que frequentar classes em turnos porque o mesmo prédio está sendo usado para abrigar três escolas diferentes. Em Fallujah, capital da rebelião sunita em 2004, Muamer, professor de 25 anos que lutou contra os americanos, reclamou que sua seita –que estava no topo na era de Saddam - foi “esquecida”.


A mulher de Adeeb, Nidret, ensina inglês em uma escola de ensino fundamental de Kirkuk. Com o passar dos anos, ela se tornou cada vez mais tradicional e religiosa e passou a adotar uma abordagem menos cosmopolita aos valores ocidentais.


“Somos um país ocupado, e os invasores não nos respeitam”, disse ela. “Você pode imaginar, meus alunos nem querem mais aprender inglês. Eles dizem que é a língua de nosso inimigo, das pessoas que estão nos matando sem motivo, então não querem saber.”


A palavra “respeito” é repetida inúmeras vezes, como um mantra. Adnan, 50, que foi oficial militar e membro do Baath, partido governante de Saddam, desapareceu após a queda do ditador e depois ressurgiu como gerente de uma ONG que se dedica a fornecer água potável para sua cidade natal xiita no Sul, também sente que não é respeitado pelos “invasores”.


Ele diz que a vida era melhor com Saddam, em parte porque não viu nenhuma melhora concreta para ele ou para sua família. Ele votou em Ayad Allawi, xiita secular vencedor das eleições há cinco meses, que ainda não sabe se vai se tornar primeiro-ministro. “Precisamos de um homem de ferro”, diz Adnan, “alguém que compreenda que o Iraque só vai se desenvolver novamente se respeitarmos a disciplina, o controle e o Estado de direito”.


Muitos iraquianos estão convencidos de que precisam desenvolver seu país por si mesmos mas não assumem qualquer responsabilidade pelos problemas de hoje. Sua passividade gerou cinismo, claramente ilustrado pela incapacidade dos legisladores recém eleitos do país de alcançar um acordo político. São essas as pessoas que devem encontrar as soluções, não os americanos.


Um argumento usado para justificar a decisão do presidente George W. Bush de entrar em guerra foi que a derrubada de Saddam pavimentaria o caminho para a volta dos exilados iraquianos, muitos deles profissionais altamente qualificados que forneceriam uma base para a renovação e organização da sociedade. Porém, mesmo esses iraquianos bem formados que voltaram para ajudar o país agora são vistos pelos locais com forte ressentimento, como se tivessem “voltado nas malas dos americanos”.


“Onde eles estavam quando agente estava sofrendo? Como podem querer nos guiar agora, quando não compartilharam nosso sofrimento por tantos anos?”, pergunta Fawsia, 68, professor aposentado de inglês e francês que mora em Bagdá.


Essa atitude também é comum no Afeganistão e na Tchetchênia. Quem colaborou com os “invasores” não pode ajudar a melhorar a situação porque são tratados como traidores.


Duvido que esse ressentimento será superado no Iraque, a não ser que haja uma reconciliação profunda – algo que ainda não foi alcançado em nenhum desses países. O desespero e a desorganização são os verdadeiros inimigos, e eles não podem ser derrotados por meios militares. Talvez no Ocidente devamos compreender que é preciso mais tempo para apagar o que a guerra provoca –destruição e desespero - do que para impor o que supostamente deveria trazer: um sistema democrático.


Tradução: Deborah Weinberg



Texto do International Herald Tribune, reproduzida no UOL.


http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/herald/2010/08/04/ambiguidades-preocupantes-permanecem-no-iraque.jhtm



Comentário: o texto de Anne Nivat foi realmente produzido para leitores dos Estados Unidos. Em momento nenhum ela parece demonstrar capacidade de empatia, isto é, se colocar no lugar dos cidadãos iraquianos e tentar pensar como eles.


Logo no início do texto ela fala em “ um amplo ressentimento com a morte e destruição causados pela guerra norte-americana”. Como ela escreve para leitores dos Estados Unidos, ela não descreve o que aconteceu como “invasão norte-americana”. Guerra deve soar melhor a ouvidos norte-americanos. Além disso, cada vez que usa a palavra invasores, a palavra está entre aspas, o que demonstra que, ou ela não acredita que houve uma invasão, ou ela não quer se comprometer com uma palavra que talvez ela ache forte.


Em nenhum momento ela se refere às mentiras das “armas de destruição de massa” utilizadas como justificativa para invasão. O discurso da senhora Nivat é o de que o intento de derrubar Saddam Hussein fosse o motivo da invasão desde o início (como se não continuassem existindo ditadores mundo afora).


De alguma maneira, me parece que a repórter quer justificar a presença dos Estados Unidos no Iraque, e demonstrar que o Iraque é melhor agora do que no tempo de Saddam. Pode até ser que seja, mas parece que muitos cidadãos iraquianos não concordam. E eles deveriam ter direito à opinião deles.


Além disso talvez fosse bom lembrar que enquanto foi interessante para os governantes dos Estados Unidos, eles ajudaram Saddam Hussein, inclusive lhe fornecendo armamentos, que, como a repórter fala, ele usou contra parte de seu próprio povo. Depois, causaram empobrecimento do povo iraquiano, por conta do embargo que impuseram ao país em retaliação pelo Iraque ter invadido o Kuwait.


As ambiguidades não estão apenas na situação do Iraque, mas também na forma da repórter descrever os acontecimentos.



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terça-feira, agosto 10, 2010

Coréia do Sul reconhece perdão japonês para "superar passado"

O Governo da Coreia do Sul reconheceu a vontade japonesa de superar um passado "infeliz" entre os dois países depois que o primeiro-ministro do Japão, Naoto Kan, pediu desculpas nesta terça-feira pela ocupação colonial da península coreana. Em comunicado oficial, Kan expressou nesta terça o "profundo remorso" do Japão e pediu "desculpas de coração" pelos grandes danos e sofrimentos causados pela ocupação colonial japonesa (1910-1945), poucos dias antes de ser completado o centenário da anexação.

Em resposta, o Ministério de Exteriores sul-coreano disse que Seul "presta atenção" ao fato de o Japão aceitar que a colonização japonesa foi contra a vontade do povo coreano e manifestar franqueza sobre erros passados. Seul expressou seu desejo de que "essa visão seja compartilhada por todo o povo do Japão".

"Reconhecemos o comunicado do primeiro-ministro Kan como a vontade do líder e de seu Governo para superar um passado infeliz entre Coreia e Japão e para impulsionar brilhantes relações bilaterais futuras", assinala. Seul também qualificou positivamente o compromisso japonês de realizar cooperação humanitária relacionada com o colonialismo e devolver patrimônios culturais sul-coreanos tomados durante a colonização, entre eles os documentos reais da Dinastia de Joseon (1392-1910).

Seul expressou ainda seu desejo que as relações entre Coreia do Sul e Japão sigam avançando sobre a base de uma correta percepção e reflexão desse passado histórico "infeliz".


Do Terra, via blog do Luís Nassif.

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sábado, agosto 07, 2010

Ex-espiões alertam Obama para ataque de Israel ao Irã

Ex-espiões alertam Obama para ataque de Israel ao Irã

05 de agosto de 2010 | 19h 03

RENATO MARTINS - Agência Estado

O grupo Profissionais Veteranos da Inteligência pela Sanidade (Vips) enviou uma carta ao presidente dos EUA, Barack Obama, "alertando para a probabilidade de que Israel vá atacar o Irã tão cedo quanto neste mês, e isso provavelmente levaria a uma guerra mais ampla".

A carta diz ao presidente que "isso pode ser detido, mas somente se você agir rapidamente para prevenir um ataque israelense com uma condenação pública dessa medida antes que ela ocorra". O documento acrescenta que "mudança de regime, e não armas nucleares iranianas, é a preocupação primária de Israel".

O documento também diz que "se o temor declarado de Israel, de que uma ou duas armas nucleares no arsenal iraniano seriam algo que mudaria o jogo, seria de se esperar que os líderes israelenses dariam pulos de alegria diante da possibilidade de ver metade do urânio levemente enriquecido do Irã ser embarcado para o exterior".

Ao invés disso, acreditam os membros do grupo, Israel descarta como ''um truque'' o acordo tripartite negociado por Turquia e Brasil para embarcar metade do urânio levemente enriquecido do Irã para longe do controle de Teerã.

Programa nuclear

A carta diz ainda que a liderança israelense está na expectativa de um memorando que a comunidade de inteligência dos EUA estaria preparando para atualizar a Estimativa de Inteligência Nacional de 2007, que diz que "nós julgamos com alta confiança que, no outono de 2003, Teerã suspendeu seu programa de armas nucleares". Segundo os integrantes do Vips, uma de suas fontes diz que o novo memorando deverá reafirmar o conteúdo daquela estimativa, ou seja, de que o Irã não tem um programa nuclear militar.

O grupo avalia que o anúncio, na semana passada, de que funcionários dos EUA vão se reunir com os iranianos no próximo mês para retomar conversações sobre maneiras de "arranjar um enriquecimento maior do urânio levemente enriquecido do Irã para o reator de pesquisas médicas de Teerã foi bem-vindo por todos, menos os líderes de Israel".

Argumento

Para os autores da carta, um acordo "enfraqueceria grandemente o argumento mais assustador de Israel para atacar o Irã" e, por isso, "cresce o incentivo em Tel Aviv para que os israelenses ataquem antes que tal acordo seja alcançado".

Um dos autores da missiva é Phil Girardi, que foi da Diretoria de Operações da CIA por 20 anos. O grupo foi formado no começo de 2003, com o objetivo de denunciar as distorções que o governo do então presidente George W. Bush fazia das análises dos serviços de inteligência norte-americanos para justificar a invasão do Iraque.


Do Estadão via blog do Luís Nassif.

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quarta-feira, julho 28, 2010

Estados Unidos pagam à mídia afegã para divulgar conteúdo favorável aos Estados Unidos

Documentos do WikiLeaks mostram que Estados Unidos pagam mídia Afegã to divulgar histórias amistosas

The Upshot

John Cook descobriu documentos mostrando que estações de radio afegãs foram contratadas para levar ao ar conteúdo produzido pelos Estados Unidos. Outros relatos mostram militares americanos aparentemente se referindo aos repórteres afegãos como “nossos jornalistas” e lhes indicando como fazer o trabalho deles.



WikiLeaks documents show US pays Afghan media to run friendly stories

The Upshot

John Cook found documents showing that Afghan radio stations were under contract to air content produced by the United States. Other reports show U.S. military personnel apparently referring to Afghan reporters as "our journalists" and directing them in how to do their jobs.

Origem: http://www.poynter.org/column.asp?id=45&aid=187610


Mais no Yahoo News (em inglês).


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Divulgação de documentos sobre o Afeganistão mostram imagem interna da guerra

Divulgação de documentos sobre o Afeganistão mostram imagem interna da guerra



Matthias Gebauer, John Goetz, Hans Hoyng, Susanne Koelbl, Marcel Rosenbach e Gregor Peter Schmitz



Em um desdobramento sem precedente, perto de 92 mil documentos confidenciais relacionados à guerra no Afeganistão foram vazados. A “Spiegel”, o “New York Times” e o “Guardian” analisaram uma série dos documentos mais confidenciais. Os diários de guerra expõem a verdadeira escala da presença militar ocidental – e os problemas que atormentam a Bundeswehr alemã no Hindu Kush.

Um total de 91.731 relatórios dos bancos de dados militares dos Estados Unidos, relacionados à guerra no Afeganistão, estará disponível publicamente na Internet. Nunca antes foi possível comparar a realidade no campo de batalha de forma tão detalhada com o que a máquina de propaganda do Exército americano está divulgando. O WikiLeaks planeja postar os documentos, a maioria confidencial, em seu site.

O jornal britânico “The Guardian”, o “New York Times” e a “Spiegel” checaram o material e compararam os dados com relatos independentes. Todos os três órgãos de imprensa concluíram que os documentos são autênticos e fornecem uma imagem sem retoques da guerra no Afeganistão – do ponto de vista dos soldados que a estão travando.

Os relatórios, de soldados envolvidos no combate em andamento, foram resumidos de forma sucinta e enviados rapidamente. A maioria é de autoria de sargentos – mas alguns foram redigidos por um tenente ocasional em um posto de comando ou analistas do serviço de inteligência militar.

A divulgação dos documentos ocorre em um momento em que os pedidos para retirada das tropas do Afeganistão estão crescendo – mesmo nos Estados Unidos. Na semana passada, representantes de mais de 70 países e organizações se reuniram em Cabul para uma conferência sobre o Afeganistão. Eles asseguraram ao presidente Hamid Karzai que seu país estaria em posição, até 2014, de garantir a segurança utilizando seus próprios soldados e policiais.

Um quadro sombrio


Mas essas demonstrações de otimismo parecem cínicas diante das descrições da situação no Afeganistão fornecidas pelos documentos confidenciais. Quase nove anos após o início da guerra, eles pintam um quadro sombrio. Eles retratam as forças de segurança afegãs como vítimas desafortunadas dos ataques do Taleban. Eles também oferecem uma impressão conflitante da utilização das aeronaves não-tripuladas, notando que as armas americanas milagrosas também são totalmente vulneráveis.

E elas mostram que a guerra no norte do Afeganistão, onde as tropas alemãs estão posicionadas, está se tornando cada vez mais perigosa. O número de alertas sobre possíveis ataques do Taleban na região – alimentados pelo apoio do Paquistão– aumentou dramaticamente no ano passado.

Os documentos oferecem uma janela para a guerra no Hindu Kush –uma que promete mudar a forma como pensamos sobre a violência em andamento no Afeganistão. Eles também serão indispensáveis para qualquer um que busque se informar sobre a guerra no futuro.

Apesar dos repetidos pedidos, a Casa Branca se recusou a fornecer qualquer comentário dentro do prazo para a edição impressa da “Spiegel”. Na noite de sábado, entretanto, um funcionário da Casa Branca forneceu finalmente respostas por escrito para uma seleção de perguntas sobre o conteúdo dos relatórios obtidos, mas se recusou a conceder uma entrevista.

Ben Rhodes, o vice-conselheiro de segurança nacional para comunicações, disse: “Desde que assumiu o cargo, o presidente Obama tem sido muito claro e franco com o povo americano sobre os desafios que enfrentamos no Afeganistão e no Paquistão. O presidente e altos funcionários do seu governo falaram aberta e repetidamente sobre os santuários que existem no Paquistão, a segurança e os problemas de governança no Afeganistão, além das dificuldades que nos esperam. (...) É importante notar que o período refletido nos documentos é de janeiro de 2004 a dezembro de 2009. A guerra no Afeganistão contou com recursos insuficientes por muitos anos. (...) Em 1º de dezembro de 2009, o presidente Obama anunciou uma nova estratégia e novos recursos para o Afeganistão e Paquistão, precisamente por causa da gravidade da situação lá”.

Respondendo à intenção da WikiLeaks de disponibilizar online os documentos, Rhodes disse: “Nós condenamos fortemente a revelação de informação confidencial por indivíduos e organizações, que colocam as vidas de militares americanos e da coalizão em risco e ameaçam nossa segurança nacional”. Ele disse que a WikiLeaks “não fez esforço para contatar o governo dos Estados Unidos a respeito desses documentos, que podem conter informações que colocam em risco as vidas de americanos, nossos parceiros e da população local que coopera conosco”.

Os editores-chefe da “Spiegel”, do “New York Times” e do “Guardian” concordaram que não publicariam informação particularmente sensível do material confidencial – como os nomes dos informantes afegãos das forças armadas americanas ou informação que pudesse criar riscos de segurança adicionais para os soldados estacionados no Afeganistão. Os publishers foram unânimes em sua crença de que há interesse público justificado no material, porque ele fornece um entendimento mais amplo de uma guerra que continua até hoje, após quase nove anos.

A “Spiegel Online” resumiu uma seleção das revelações mais importantes nos dados.

Os membros da Força-Tarefa 373, uma tropa dos soldados de elite americanos que inclui os SEALs da Marinha e membros da Força Delta, recebem suas ordens diretamente do Pentágono e são independentes da cadeia de comando da Força Internacional de Assistência para Segurança (ISAF, na sigla em inglês) no Afeganistão. A missão deles é desativar altos terroristas e talebans, os matando ou capturando.

Por anos, um grande esforço foi feito para manter em silêncio os detalhes de suas missões. Com os vazamentos dos diários de guerra no domingo, entretanto, o trabalho deles passou a ser um segredo aberto.

Os relatórios de missão também oferecem uma informação considerável sobre a lista confidencial de inimigos das tropas da coalizão. A “Lista Priorizada Conjunta de Ações” (JPEL, na sigla em inglês), como é chamada nos círculos militares, contém os nomes de talebans, barões das drogas, fabricantes de bombas e membros da Al Qaeda –cada um com um número de processo e um nível de prioridade. A decisão sobre prender ou matar um alvo frequentemente cabe aos próprios caçadores.

Um total de 84 relatórios sobre ações da JPEL podem ser encontrados entre os milhares de dados. Especialistas consideram um fato que assassinatos intencionais estão ocorrendo na guerra no Afeganistão. Mas nenhum alto oficial militar está disposto a discutir o assunto. Os dados recém divulgados mostram o que unidades como a Força Tarefa 373 estão fazendo a cada noite – e como as coisas podem dar terrivelmente errado.

Um relatório de 17 de junho de 2007, por exemplo, inclui um alerta na segunda sentença que essa operação da FT 373 deve permanecer “protegida”. Detalhes sobre a missão não poderiam ser fornecidos para outros países que contribuem para a ISAF.

A meta era matar um membro proeminente da Al Qaeda, Abu Laith al Libi. As forças especiais suspeitavam que o alto terrorista e vários de seus seguidores estavam presentes em uma escola do Alcorão que os soldados estavam vigiando há dias.

Mas após o impacto de cinco foguetes americanos, em vez de encontrarem Al Libi, as forças em solo descobriram seis crianças mortas nos escombros da escola. Uma outra criança gravemente ferida também foi encontrada, mas não pôde ser salva.

Os documentos recém divulgados não contêm qualquer informação sugerindo que as tropas alemãs estiveram envolvidas em excessos de violência contra a população civil ou em qualquer operação clandestina ilegal. Todavia, elas oferecem uma imagem das forças armadas alemãs, a Bundeswehr, que ainda assim é devastadora, porque descrevem militares alemães que ingressaram no conflito com grande ingenuidade.

Os alemães acharam que as províncias do norte onde seus soldados estão posicionados seriam mais pacíficas em comparação a outras províncias e que a situação permaneceria assim.

Eles estavam errados. Já no final de 2005, a resistência contra a presença de tropas internacionais começou a crescer –os moradores locais ou eram ameaçados pelos talebans e poderosos senhores da guerra ou seu apoio era comprado. O senhor da guerra Gulbuddin Hekmatyar, por exemplo, instigou o combate ao oferecer 100 mil a 500 mil afeganis (US$ 2 mil a US$ 10 mil) para o líder de qualquer grupo insurgente. Os apelos de Hekmatyar e doações de dinheiro estão cuidadosamente documentos nos relatórios.

No início de sua missão, alguns soldados da Bundeswehr chamavam brincando a pequena cidade de Kunduz de “Bad Kunduz”, com “Bad” sendo a palavra em alemão concedida oficialmente a cidades spa. Mas os dias pacatos de Kunduz, onde um grande número de soldados alemães está estacionado, há muito são coisa do passado. No mínimo, a tranquilidade acabou em 19 de maio de 2007. Naquele dia, três soldados alemães foram mortos por um homem-bomba enquanto tentavam comprar refrigeradores em um mercado local. Oito civis afegãos também morreram no primeiro ataque mortal voltado deliberadamente contra os alemães na região.

Em um “relatório de ameaça” datado de 31 de maio de 2007, tropas alemãs com sede em Kunduz relataram sobre a situação geral após outro ataque suicida. “Diferente de todas as expectativas do Comando Regional do Norte, os ataques dos insurgentes em Kunduz estão prosseguindo como previsto pela Equipe de Reconstrução Provincial de Kunduz e mencionado várias vezes antes”, declara o documento alemão, acrescentando que mais ataques, particularmente contra tropas da ISAF, “são altamente esperados”.

Os soldados parecem ter sido corrigidos para sentirem que estavam sob estado de sítio. Os documentos que foram obtidos envolvem principalmente os chamados “relatórios de ameaça”, milhares de cenários de risco e alertas concretos sobre os ataques planejados. Esses relatórios fornecem um quadro mais claro da deterioração da situação de segurança no norte do Afeganistão do que a informação fornecida pelo governo alemão ao Parlamento federal, o Bundestag, que ordena o envio do Bundeswehr ao exterior. Os postos de controle da polícia são constantemente atacados ou são alvos de tiros, patrulhas são alvo de emboscadas mortais e bombas de estrada explodem.

Eles também mostram quanto o norte do Afeganistão deteriorou para próximo de uma nova guerra civil e quão pouco os alemães realizaram durante sua presença no Hindu Kush.

O relatório de situação confidencial da região no leste do Afeganistão parece inicialmente uma transcrição de rotina: “17 de outubro de 2009: Aproximadamente às 13h o ANA (Exército Nacional Afegão) recebeu inteligência de que aproximadamente 20 insurgentes estavam se movimentando ao sul de sua posição no wadi (leito seco de rio). Aproximadamente às 14h o Raven foi lançado e voou diretamente para FB. Nós não observamos nenhum inimigo no wadi”. Mas então problemas foram detectados no voo do Raven, uma aeronave de reconhecimento não-tripulada americana. “Enquanto fazia a volta, aproximadamente a 300 membros da FB (base de fogo) – a ave repentinamente perdeu altitude e caiu”, declara o relatório.

Então, a situação ficou agitada: “Nós tentamos imediatamente enviar uma patrulha da FB para proteger a ave, e preparar uma patrulha de 6 americanos (soldados) 40 ANA (soldados afegãos)... e pedimos CCA (cobertura área) imediata para vigilância do local do acidente e tentar obter imagem do Raven. Durante preparação da SP (condução de uma patrulha de busca), o ANA ficou temeroso e decidiu que faria a patrulha desmontada”.

No final, os soldados partiram para procurar a aeronave que caiu, mas tiveram que voltar porque insurgentes já estavam esperando pela oportunidade de uma emboscada aos soldados enquanto tentassem resgatar a aeronave.

Falhas de sistema, nos computadores e erro humano

De fato, os memorandos secretos revelam as desvantagens de uma arma que tem sido elogiada pelos militares americanos como uma panaceia, uma opinião partilhada pelo presidente. Em seu pouco tempo no cargo, Barack Obama já lançou o dobro de missões com aeronaves não-tripuladas do que as ordenadas pelo seu antecessor, o aparentemente beligerante George W. Bush.

A assassina não-tripulada pode voar por mais de 20 horas e matar à velocidade de um raio. Mas elas nem sempre são confiáveis. De acordo com relatórios oficiais, 38 aeronaves Predator e Reaper caíram enquanto estavam em missões de combate no Afeganistão e no Iraque, enquanto outras nove caíram durante os voos de teste em bases militares nos Estados Unidos. Cada acidente custa ao governo entre US$ 3,7 milhões e US$ 5 milhões.

Os relatórios de acidente do Departamento de Defesa americano mostram que falhas no sistema, no computador e erros humanos são ocorrências comuns durante as missões das aeronaves não-tripuladas. Parece que os problemas sérios foram ignorados por causa da necessidade das aeronaves serem empregadas o mais rapidamente possível. A demanda pela nova arma era intensa após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 e o início apressado da invasão ao Afeganistão.

“As aeronaves não estavam prontas para entrar em combate”, diz Travis Burdine, gerente Força-Tarefa para Sistemas de Aeronaves Não-Tripuladas da Força Aérea. “Nós não tivemos tempo para resolver os problemas.” A declaração de Burdine é apoiada por relatos nos diários de guerra. Na verdade, os assassinos silenciosos pareciam ter um monte de defeitos.

Não são apenas os custos causados por esses acidentes que preocupam os militares americanos. Mesmo as aeronaves de reconhecimento menores possuem tecnologia de informática complexa – avanços que os militares não querem que caia em mãos inimigas. Tanto os Reapers quanto os Predadores têm uma chamada função para “zerar”, que permite que os dados sejam apagados remotamente. Infelizmente, esse recurso às vezes falha. E com medo de que informações importantes possam cair nas mãos do Taleban, cada acidente com aeronave não-tripulada exige operações de resgate elaboradas e perigosas.

Os Interserviços de Inteligência (ISI), o serviço secreto do Paquistão, inicialmente ajudou a formar e implantar o Taleban no Afeganistão, após este mergulhar em uma guerra civil fratricida e amargo entre os mujahedeen, que prevaleceram sobre os soviéticos e forçaram sua retirada. Apesar de todas as garantias dos políticos paquistaneses de que os antigos laços seriam cortados, o país ainda segue uma política ambígua na região – servindo ao mesmo tempo como aliado dos Estados Unidos e dando apoio aos inimigos destes.

Há uma abundância de novas evidências para apoiar esta tese. Os documentos mostram claramente que a agência de inteligência paquistanesa é a cúmplice mais importante do Taleban fora do Afeganistão. A guerra contra as forças de segurança afegãs, os americanos e seus aliados da ISAF ainda está sendo conduzida a partir do Paquistão.

O país é um importante refúgio seguro para as forças inimigas – e serve como base para lançamento de suas missões. Novos recrutas para o Taleban atravessam a fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão, incluindo os temidos combatentes estrangeiros, entre eles árabes, tchetchenos, uzbeques, uigures e até mesmo muçulmanos europeus.

De acordo com diários da guerra, emissários dos ISI estão presentes quando os comandantes insurgentes realizam conselhos de guerra – e até mesmo dão ordens específicas para realização de assassinatos. Entre eles estavam as ordens para tentar assassinar o presidente afegão, Hamid Karzai. Por exemplo, um relatório de ameaça datado de 21 de agosto de 2008 alertou: “O coronel Mohammad Yusuf dos ISI instruiu o oficial taleban Maulawi Izzatullah para que cuide do assassinato de Karzai”.

O ex-chefe de inteligência do Paquistão, o general Hamid Gul, desempenha um papel proeminente nos documentos dos ISI. Depois deixar o cargo, Gul passou a imagem na imprensa ocidental de ser uma espécie de propagandista do Taleban. Nos documentos, Gul é retratado como uma importante fonte de ajuda ao Taleban e até mesmo, em um relatório, como um “líder” dos insurgentes. Um relatório de ameaça de 14 de janeiro de 2008 afirma que ele coordenou o seqüestro planejado de funcionários da ONU na Estrada 1, entre Cabul e Jalalabad.

Os memorandos declaram que Gul ordenou ataques suicidas e também descrevem o ex-chefe de inteligência como um dos mais importantes fornecedores de armas para o Taleban. Um relatório menciona um comboio de 65 caminhões carregados de munições que Gul supostamente preparou para o Taleban. Outro afirma que os ISI entregaram 1.000 motocicletas para os Haqqanis, uma família liderada pelo senhor da guerra Sirajuddin Haqqani, que –juntamente com o Taleban e Hekmatyar– estão entre os maiores oponentes das forças ocidentais no Afeganistão. Outro menciona 7 mil armas que foram enviadas para a província de fronteira de Kunar, incluindo rifles, morteiros e foguetes Strella.

Ainda assim, mesmo aqueles que redigiram os relatórios não sabem ao certo de sua veracidade. Este tipo de incerteza é frequente nos documentos. Elas revelam a grande fraqueza da estratégia de comunicação americana.

Falando sobre as facetas do Paquistão, Rhodes, o funcionário da Casa Branca, respondeu: “O status quo não é aceitável, precisamente o motivo para os Estados Unidos se concentrarem tanto neste desafio. O Paquistão está se movendo na direção certa, mas é preciso fazer mais. Os santuários para os grupos extremistas violentos dentro do Paquistão continuam a representar uma ameaça intolerável para os Estados Unidos, ao Afeganistão e ao povo paquistanês, que sofreram muito com o terrorismo. O governo paquistanês – e os serviços militares e de inteligência do Paquistão– deve dar continuidade à sua mudança de estratégia contra os grupos extremistas violentos dentro das suas fronteiras e permanecer na ofensiva contra eles”.

As agências de inteligência dos Estados Unidos estão se afogando em um mar de dados. Temendo a repetição dos erros de inteligência que ocorreram antes do 11 de Setembro, os analistas parecem estar relatando cegamente cada mínimo detalhe.

Especialistas em segurança vêm reclamando há algum tempo de que esses inúmeros relatos se concentram em excesso nas opiniões e movimentos do inimigo –neste caso, o Taleban no Afeganistão.

Analistas demais e voos de reconhecimento demais parecem estar preocupados em esboçar a hierarquia das redes dos insurgentes e criar listas de inimigos que devem ser mortos ou capturados. Agentes da inteligência estão constantemente coletando depoimentos de informantes locais, cuja avidez em agradar os americanos muitas vezes supera a sua confiabilidade.

No entanto, os problemas mais graves são muitas vezes negligenciados: a proteção dos civis afegãos, a análise do ambiente político e a busca por uma solução para este conflito interminável.

Uma coisa, porém, é certa. Estes milhares de documentos secretos indicam que, após quase nove anos de guerra, uma vitória no Hindu Kush parece mais distante do que nunca.

Tradução: George El Khouri Andolfato


Texto do Der Spiegel, republicado no UOL.

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terça-feira, julho 07, 2009

Robert McNamara (1916-2009) – Segunda Tentativa

Robert McNamara (1916-2009) – Segunda Tentativa


Robert Strange McNamara, secretário de defesa dos Estados Unidos, sob os governos de John F. Kennedy e Lyndon B. Johnson, faleceu nesta segunda-feira, 6 de julho.

Errol Morris fez um interessante documentário enfocando a vida deste homem, que serviu na Força Aérea durante a Segunda Guerra Mundial, se tornou o primeiro presidente da Ford que não era da própria família Ford, e foi secretário da defesa dos Estados Unidos. Como secretário da defesa, ele passou a receber menos do que recebia na Ford, e esteve envolvido no incremento da participação dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã, bem como na Crise do Mísseis em Cuba, em 1962 (o filme “Treze Dias que Abalaram o Mundo” [“Thirteen Day”], com Kevin Costner traz uma representação de McNamara repreendendo um comandante de navio quando este dispara um tiro de advertência contra um navio soviético, durante o bloqueio naval imposto a Cuba naquele outubro). O nome do documentário em português ficou “Sob a Névoa da Guerra”.

No documentário ele reflete sobre sua carreira, e as decisões que tomos nos eventos em que esteve envolvido. Os bombardeios sobre o então Vietnã do Norte, o aumento do número de soldados norte-americanos no teatro de guerra, com o consequente aumento de mortos e feridos, foram fatos que se tornaram traumáticos para os Estados Unidos, e para o próprio secretário de defesa (dizem os seus obituários que próprio filho de McNamara, universitário na década de 1960, era contra a guerra que era conduzida pelo pai). Quando deixou o governo Johnson abandonou por um período a vida pública. Voltou para se tornar presidente do Banco Mundial. E na década de 1990 escreveu um livro de memórias onde afirma que os Estados Unidos erraram ao aprofundar sua participação na Guerra do Vietnã.

No tal documentário de Errol Morris, McNamara muito se questiona sobre sua vida, e seu papel como secretário da defesa dos Estados Unidos. Singelamente, lá pelas tantas, ele se questiona se ele não seria um f... da p... . Pois é...

Segundo o noticiário, sua esposa constatou sua morte na madrugada desta segunda-feira. Morreu dormindo, e segundo consta, de velhice. Foi um homem que quando serviu na Força Aérea, durante a Segunda Guerra, no Pacífico, trabalhou para que os bombardeios americanos se tornassem mais eficazes, eufemismo para dizer que eles deveriam ser mais mortíferos e destruidores; e depois como secretário de defesa, ordenou bombardeios e mais bombardeios sobre o Vietnã do Norte. Depois ele passou a vida se questionando e se desculpando. Mas soa algo irônico que um homem que tanto encarnou o espírito da guerra, tenha morrido tranquilamente, no calor de sua cama, em casa.


06/07/2009.


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Robert McNamara (1916-2009)

Robert McNamara (1916-2009)


E os portais da Internet dão notícia da morte de Robert Strange McNamara.

Não sei se estou com fixação na morte, ou se é algum tino de historiador diletante que me faz prestar atenção nestas mortes de personalidades mais ou menos famosas.

Robert McNamara faleceu nesta segunda-feira, supostamente de velhice. Segundo a sua esposa ele não estava doente, mas recém completara 93 anos de idade.

Sua morte ocorre pouco mais de uma semana após a morte do provavelmente muito mais famoso junto ao público Michael Jackson.

Mas há esta grande diferença: McNamara morreu aos 93, Jackson aos 50. O que para mim indica que Michael Jackson ainda poderia ter mais uns 40 anos de vida pela frente.

Robert McNamara foi secretário da defesa dos Estados Unidos, durante os governos de John Kennedy, e Lyndon Johnson, nos anos 1960.

Esteve na linha de frente da escalada do envolvimento dos Estados Unidos no Vietnã, e também na crise dos mísseis em Cuba, em outubro de 1962. Saiu (ou foi saído) do governo Johnson em 1968. Mais tarde foi nomeado presidente do Banco Mundial, do qual se aposentou em 1981.

Em 2003 foi o assunto de um documentário de Errol Morris (excelente na opinião deste blogueiro) chamado “Sob a Névoa da Guerra”. O filme ganhou o Oscar de melhor documentário em 2004.



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sexta-feira, janeiro 30, 2009

Corte internacional examina acusações contra israelenses

Corte internacional examina acusações contra israelenses

Pedido foi feito por dirigentes palestinos, mas enfrenta dificuldades jurídicas

Promotor do Tribunal Penal Internacional diz que Liga Árabe também denunciou supostos crimes de guerra de Israel na faixa de Gaza

CLÓVIS ROSSI
ENVIADO ESPECIAL A DAVOS

A Autoridade Nacional Palestina pediu na semana passada a Luis Moreno-Ocampo, promotor do Tribunal Penal Internacional (TPI), que investigue se Israel cometeu crimes de guerra durante a operação de bombardeio e depois ocupação por terra da faixa de Gaza.
ONGs de direitos humanos e governos árabes denunciaram o uso na ofensiva de munição de fósforo branco e bombas com urânio empobrecido. Israel negou a segunda acusação e prometeu investigar se houve uso ilegal de fósforo.
A solicitação ao TPI, sediado em Haia (Holanda), tem potencial para provocar um impacto político tremendo. Se for levada adiante, dirigentes de Israel, a única democracia do Oriente Médio, correm o risco de figurar em um banco de réus no qual, até agora, só foram acusados os piores tiranos.
Antes que o caso ganhe impacto político, no entanto, Moreno-Ocampo terá que decidir um aspecto jurídico fundamental. Ele explicou ontem à Folha que todos os Estados, membros ou não do TPI, têm o direito de recorrer à corte, estabelecida em 2002 para julgar indivíduos acusados de crimes de guerra e contra a humanidade. Mas a Autoridade Nacional Palestina não tem jurisdição reconhecida sobre um território. Ou seja, não é propriamente um Estado.
Moreno-Ocampo está recebendo informações a respeito do que ocorreu em Gaza também da Liga Árabe, que reúne 22 países. Mas ele informa que tampouco a Liga tem personalidade jurídica suficiente para provocar a investigação do TPI, do qual fazem parte 108 países (os não-signatários do Estatuto de Roma, que rege o tribunal, incluem, além de Israel, países como EUA, China e Irã).
De todo modo, o promotor saúda a iniciativa dos países árabes, por reconhecer um tribunal que está pedindo a prisão de um líder árabe, o presidente do Sudão, Omar Hassan al Bashir. O Sudão é, aliás, membro da Liga Árabe. Bashir, no poder desde 1989, é acusado de genocídio, pela matança de cerca de 300 mil pessoas em Darfur.
Moreno-Ocampo não quis, como é óbvio, comentar a atitude que pretende tomar em relação ao pedido da Autoridade Palestina, mas não fugiu de uma observação sobre o aspecto político do caso: disse que o TPI não pode servir apenas "para julgar os inimigos" (da democracia), sob pena de jamais conseguir consolidar-se.

O prazo é 2009
Já o secretário-geral da Liga Árabe, o egípcio Amr Moussa, preferiu tratar dos ataques a Gaza pelo lado da expectativa positiva. Negou à Folha que os países árabes tivessem ficado paralisados pela desunião.
O que os paralisou, segundo Moussa, foi a proposta de alguns líderes, que ele não especificou, de que fossem retiradas da mesa todas as propostas de negociação com Israel, inclusive a apresentada pelos próprios árabes em 2002, por iniciativa da Arábia Saudita.
A maioria dos membros da Liga achou mais lógico esperar a posse de Barack Obama, e dar-lhe um prazo para a retomada da negociação. Mas a proposta única dos árabes sobre a mesa fica sendo a dos sauditas, cuja essência é o reconhecimento do direito de Israel a existir e à segurança -o que é negado pelo Hamas, o grupo que controla Gaza-, em troca da retirada dos territórios ocupados na Guerra dos Seis Dias, em 1967, e da criação de um Estado palestino viável.
Que prazo os árabes dão a Obama? "Ao longo de 2009, é preciso encaminhar a negociação. Não dá para perder outro ano, como se perdeu 2008", responde Moussa.

Texto da Folha de São Paulo, de 29 de fevereiro de 2009.


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