segunda-feira, dezembro 13, 2010

Israel não respeita direitos do povo palestino

Israel não respeita direitos do povo palestino

ARLENE CLEMESHA e BERNADETTE SIQUEIRA ABRÃO

Em artigo nesta Folha ("Direitos humanos em mãos erradas", "Tendências/Debates", 10/10), o embaixador israelense queixou-se do Conselho de Direitos Humanos (CDH) da ONU, em que relatórios têm sido aprovados, denunciando graves violações de direitos humanos por parte do governo israelense nos territórios palestinos ocupados da Cisjordânia e da faixa de Gaza.

De fato, apenas nos primeiros seis meses de 2010, foram registradas na Cisjordânia a demolição de 223 edifícios e a expulsão de 338 palestinos de suas casas.
Quinhentas e cinco barreiras violam o direito de ir e vir, impedindo o acesso da população a escolas, a locais de trabalho e a hospitais, para procedimentos vitais como diálise, cirurgias do coração e cuidado neonatal intensivo.
Seguindo a lógica de anexar o máximo de terras com o mínimo de palestinos, o trajeto tortuoso do muro enclausurou Belém e Qalqilia, expulsou 50 mil palestinos de Jerusalém Oriental e anexou 10% das terras mais férteis da Cisjordânia. As colônias israelenses, também ilegais, expandem-se a todo vapor sobre territórios palestinos.
A justificativa de Israel para a violação de direitos humanos -zelar pela "segurança" de seus cidadãos- não se sustenta, sendo tais atos a própria origem da revolta palestina.
Os "mísseis" citados pelo artigo do embaixador são armas de fabricação caseira, usadas em desespero por um povo sem Estado, que sofre a mais longa ocupação militar da história moderna, submetido a bombardeios, a incursões militares, a assassinatos dirigidos e a toques de recolher.
O artigo também cita um prisioneiro militar israelense, omitindo o fato de que Israel tem em seus presídios mais de 6.000 civis palestinos (incluindo crianças), a maioria deles sem acusação formal, processo judicial ou direito de defesa.
Alega-se que Israel estaria sendo alvo de injustiças por parte do CDH em consequência do relatório do juiz Richard Goldstone sobre os crimes de guerra cometidos durante o bombardeio que massacrou 1.397 pessoas em Gaza (incluindo 320 crianças e 109 mulheres).
Assim, deturpa-se o caráter heroico da flotilha de ativistas humanitários do mundo todo, incluindo israelenses e uma mulher sobrevivente do Holocausto, que arriscaram suas vidas para quebrar o bloqueio ilegal a Gaza.
O objetivo da flotilha era chamar a atenção do mundo para o problema? Sim. Era e continuará sendo uma provocação? Apenas se considerarmos o termo um desafio aberto, para que a humanidade impeça a continuidade do cerco a Gaza, onde 80% da população sofre de má nutrição crônica, as crianças apresentam estresse e distúrbios psicológicos causados pelos ataques, pelo sofrimento e pelas constantes bombas sonoras lançadas por Israel sobre a pequena faixa costeira.
O mesmo governo israelense que se queixa do CDH emitiu, no dia 10/ 10, um projeto de lei que, se aprovado, exigirá de todo não judeu de Israel um juramento de "lealdade ao caráter judeu do Estado".
Cerca de 20% da população, de origem palestina cristã, muçulmana ou outra, terá de aceitar o caráter judeu do Estado de Israel ou emigrar, aumentando o número de refugiados, que ultrapassa 9 milhões. As consequências disso, para a Palestina e para o mundo, não valem um debate no Conselho de Direitos Humanos da ONU?


ARLENE CLEMESHA, professora de história árabe na USP e diretora do Centro de Estudos Árabes da mesma universidade, é representante da sociedade civil do Brasil no Comitê da ONU pelos Direitos do Povo Palestino.
BERNADETTE SIQUEIRA ABRÃO, jornalista, formada em filosofia pela USP, é pesquisadora da questão palestina, ativista de direitos humanos e autora, entre outros livros, de "História da Filosofia" editora Moderna).



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quarta-feira, dezembro 01, 2010

Abbas e Egito foram alertados sobre guerra em Gaza, diz Israel

Por Dan Williams

Israel entrou em contato com a liderança palestina e o Egito antes do ataque de 2008-2009 contra a Faixa de Gaza, disse uma autoridade israelense, segundo mensagens diplomáticas vazadas pelo site WikiLeaks.

As revelações poderão ser um constrangimento ao presidente palestino, Mahmoud Abbas, perante seus rivais do Hamas, que governam Gaza. A ofensiva israelense matou cerca de 1.400 palestinos ao longo de três semanas.

Os palestinos negam que Israel tenha entrado em contato.

Uma carta de 2 de junho de 2009 enviada pela embaixada norte-americana em Tel Aviv relata a declaração do ministro da Defesa israelense, Ehud Barak, a membros do Congresso dos EUA que visitavam a região num esforço de retomar as negociações de paz no Oriente Médio.

"Ele explicou que o GOI (sigla em inglês para governo de Israel) havia consultado o Egito e o Fatah antes da Operação Chumbo Fundido, perguntando se eles estariam dispostos a assumir o controle de Gaza uma vez que Israel derrotasse o Hamas", diz a mensagem, referindo-se à facção de Abbas e usando o termo de Israel para a guerra de Gaza.

"Não surpreendentemente, afirmou Barak, o GOI recebeu respostas negativas de ambos."

Uma autoridade palestina negou que Israel tenha notificado os palestinos antes da ofensiva em Gaza.

"Ninguém nos consultou e essa é a verdade", disse o negociador-chefe Saeb Erekat. "Israel não faz consultas antes de ir para a guerra", afirmou ele.

Ainda não havia uma resposta das autoridades do Egito.

(Reportagem adicional de Tom Perry em Ramallah e de Nidal al-Mughrabi em Gaza)


Notícia da Reuters, no UOL

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quinta-feira, novembro 18, 2010

Israel detém vice-presidente do Parlamento palestino

As forças de segurança israelenses detiveram, na manhã desta quarta-feira, Mahmoud Al Ramahi, deputado do grupo islâmico Hamas e vice-presidente do Conselho Legislativo Palestino.

Ramahi foi detido em uma operação em Ramallah, na Cisjordânia. Segundo um comunicado dos militares, ele foi detido por envolvimento em "atividade do Hamas", sem maiores detalhes. Israel considera o Hamas uma organização terrorista.

O deputado fora libertado em março de 2009, após 32 meses. Ele foi preso junto a dezenas de membros do movimento islamita, em ação israelense após a captura, em junho de 2006, do soldado israelense Gilad Shalit, que ainda permanece sob poder de milícias na faixa de Gaza.

O deputado Ahmed Bahar, vice-presidente do Parlamento em Gaza, classificou a prisão de "parte de uma guerra ampla e sistemática contra nossa nação". O Hamas classificou a detenção do deputado como um "novo crime israelense" e afirmou que a medida não levará a concessões no caso Shalit. O Hamas exige a libertação de mil presos palestinos em troca do soldado.

A mulher de Ramahi confirmou a prisão e disse que alguns dos militares tinham o rosto coberto por máscaras.


Notícia da Folha.com .

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terça-feira, novembro 09, 2010

Hora da verdade para Netanyahu

Hora da verdade para Netanyahu


Roger Cohen

Jerusalém


Todos os últimos primeiros-ministros israelenses fizeram coisas que nunca sonharam em fazer. Não vou listar de um a um, mas considere a reviravolta que deu Yitzhak Rabin, que falava em “quebrar os ossos deles” e se tornou o príncipe da paz; a decisão de Ariel Sharon de retirar-se de Gaza, e a conclusão dolorosa de Ehud Olmert que um acordo com os palestinos vai requerer uma “retirada de quase todos, se não todos” os territórios ocupados.

O que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu nunca sonhou, mas está disposto a fazer? Recentemente chegou a “dois Estados para dois povos”, mas isso era só para recuperar o atraso. Por trás de toda a absurda negociação das últimas semanas em torno do que acontecerá na Cisjordânia nos próximos 60 dias está a questão central de onde Netanyahu imagina que ficará o Estado palestino.

Os palestinos foram claros: as fronteiras de 1967 e algumas trocas de terras de comum acordo, significando um Estado na Cisjordânia e em Gaza, com Jerusalém Oriental como sua capital. Em troca, disse o presidente Mahmoud Abbas, os palestinos retirarão todas as suas “demandas históricas” e viverão ao lado de Israel seguro e em paz.

Netanyahu e os israelenses têm muitos motivos para duvidar, a começar pela divisão no movimento nacional palestino entre Fatah-Hamas e a forma como a retirada de Gaza levou a ataques do Hamas.

O presidente Barack Obama terá que superar esse ceticismo para que suas palavras na Assembleia Geral da ONU há cinco semanas não sejam apenas uma adição à longa lista de discursos bem intencionados que nada significaram no Oriente Médio. As palavras foram: “Quando voltarmos aqui no próximo ano, poderemos ter um acordo que trará um novo membro à ONU – um Estado soberano independente da Palestina, vivendo em paz com Israel”.

No ano que vem! Ou seja, setembro de 2011. Os EUA – junto com a Rússia, União Europeia e Organização das Nações Unidas- também endossaram há cinco semanas um relatório do Banco Mundial que dizia: “Se a autoridade Palestina mantiver seu atual desempenho na formação de instituições e fornecimento de serviços públicos, estará bem posicionada para o estabelecimento de um Estado a qualquer ponto de um futuro próximo”.

A qualquer ponto de um futuro próximo! Ou seja, há declarações internacionais solenes estabelecendo um organograma firme para o Estado palestino e refletindo a impaciência mundial, mas ainda assim as negociações entre israelenses e palestinos está empacada.

Talvez as eleições de meio de mandato forneçam uma oportunidade para Obama pensar. Ficar cavando mais fundo no fracasso é a definição da estupidez. As brigas sobre uma possível extensão da moratória de construção de assentamentos israelenses tornaram-se uma humilhação norte-americana. Obama tem que olhar para o horizonte e fazer a Netanyahu a seguinte pergunta:


“Senhor primeiro-ministro, compreendo suas preocupações em relação à segurança. Os EUA sempre estarão com Israel. Mas diga-me o seguinte: se todas as preocupações com segurança forem abordadas, todas elas, qual fronteira vocês querem para Israel?”

Isso tem que ser respondido para se poder avançar. Os acordos de 1978 do Campo David com o Egito foram firmados depois que o presidente israelense Menachem Begin deixou claro que estava pronto a se retirar do Sinai – sob as condições certas. Ainda assim, uma autoridade israelense disse-me recentemente: “Por razões psicológicas e políticas não definimos nossa atual posição de terras pela paz”.

Netanyahu vai empacar. Ele vai dizer que a direita de sua coalizão de centro-direita quebraria se explicitasse as fronteiras de Israel. Ele vai dizer que precisa de garantias de segurança antes de falar das fronteiras. Mas sem uma resposta, os esforços de paz de Obama estarão mal-fadados.

Na questão da moratória na construção de assentamentos, os palestinos só podem ter flexibilidade se os EUA derem garantias que as fronteiras serão abordadas logo. Quando as fronteiras entrarem no foco, não importará se Israel construir dentro delas.

Então Obama tem que fazer sua pergunta ser respondida. Ele pode dizer, esquece sua coalizão, Bibi, traga o Kadima. Ele pode pensar de que forma pode garantir aos israelenses sua segurança: dois discursos para o mundo muçulmano podem ser complementados com um em Israel. Ele pode trazer para o centro do processo a secretária de Estado Hillary Clinton: suas convicções sobre o Estado Palestino se intensificaram e ela dá segurança aos judeus (como faz seu marido). Mas tudo isso pode não ser suficiente.

Não acredito que Israel ainda tenha que chegar onde o mundo está: a inevitabilidade de um Estado palestino. Não acredito que a ilusão de Judá e Samaria – toda a terra - tenha morrido inteiramente em Netanyahu.

Então qual, por fim, é a influência de Obama sobre Netanyahu? Algumas medidas possíveis americanas são politicamente inconcebíveis. Mas talvez uma obsessão israelense na recente barganha sirva de pista: sua insistência que os EUA não assinem no ano que vem nenhuma resolução da ONU hostil a Israel.

Os israelenses estão com medo que Obama diga para o primeiro-ministro, se não cooperar com o prazo de 2011: “Neste caso, senhor primeiro-ministro, não tenho escolha, se não concordar com Medvedev, Sarkozy, Cameron e Hu que vamos ao Conselho de Segurança buscar uma resolução estabelecendo um Estado palestino dentro das fronteiras de 1967, e sugerir que todos o reconheçam”.

Essa preocupação israelense é um trunfo. Netanyahu tem que entender que é hora de definição.


Tradução: Deborah Weinberg


Texto do International Herald Tribune, republicado no UOL.

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quarta-feira, novembro 03, 2010

Arqueologia vira arma política em Israel

Arqueologia vira arma política em Israel

Descobertas questionáveis de relíquias são usadas por nacionalistas para reforçar ocupação de áreas palestinas

Da mesma forma, palestinos negam que tenha havido templos antigos do judaísmo na cidade de Jerusalém

MARCELO NINIO
DE JERUSALÉM

Com o Velho Testamento numa mão e a réplica de um antigo selo hebreu na outra, o jovem guia israelense incendeia a imaginação do grupo de turistas em Jerusalém.
"Aqui, estão as ruínas do palácio de Davi. Aqui, os profetas Jeremias e Isaías disseram suas palavras eternas", diz ele, diante das escavações na Cidade de Davi, parque multimídia que atrai 400 mil visitantes por ano.
Situado no bairro árabe de Siluan, um dos pontos mais sensíveis do conflito palestino-israelense, o parque também se transformou em foco de intensa polêmica no mundo da arqueologia.
Para muitos estudiosos do assunto em Israel, há abuso político da arqueologia no local para justificar o direito histórico dos judeus sobre a terra e o desalojamento de residentes palestinos.
No centro da polêmica está uma organização privada chamada Elad, também conhecida como Fundação Cidade de Davi, que controla as escavações em Siluan.
Criada por David Beeri, ex-comandante de uma unidade militar de elite, a Elad tem o objetivo declarado de aumentar a presença de judeus em Siluan.
Para isso, conta com doações de judeus milionários do exterior e as bênçãos do governo israelense e da prefeitura de Jerusalém.
O bairro fica na área de Jerusalém ocupada por Israel em 1967 e que os palestinos veem como parte de sua futura capital.
Aumentando a sensibilidade, a poucos passos dali está o ponto nevrálgico da disputa religiosa: Monte do Templo para os judeus, onde teriam sido erguidos e destruídos os dois templos sagrados, Esplanada das Mesquitas para os muçulmanos, onde o profeta Maomé teria subido aos céus.

NACIONALISMO
Com ordens judiciais ou comprando propriedades por meio de terceiros, a organização Elad instalou cerca de 500 colonos, cercados de forte segurança, no meio da população de 45 mil palestinos de Siluan, criando um foco de tensão permanente.
A arqueologia reforça o argumento dos colonos. Para eles, a "Bacia Sagrada", como também é conhecido o vale de Siluan, faz parte inseparável da história judaica.
Foi dali, afirmam, que o rei Davi unificou as tribos e converteu Israel num império, três milênios atrás.
Doron Spielman, porta-voz da Elad, não esconde a ligação entre arqueologia e nacionalismo. Ele explica que soldados israelenses são levados à Cidade de Davi para entender que a fundação de Israel representa a volta do povo judeu a sua origem.
Nos últimos anos, arqueólogos identificados com a direita exibiram descobertas que comprovariam as histórias da Bíblia, principalmente da época de Davi.
O caso mais proeminente é o de Eilat Mazar, da Universidade de Jerusalém. Em 2005, ela anunciou ter achado uma parede do palácio de Davi.
Neste ano, voltou ao noticiário ao encontrar resquícios de uma construção que diz ter sido obra do rei Salomão, no século 10 A.C.
Tais achados são questionados pela maioria dos arqueólogos de Israel, muitos deles frustrados com a inclusão da disciplina na agenda da direita nacionalista.

RELÍQUIAS NO ENTULHO
"Que deixem Abraão, Davi, e Salomão descansar em paz", diz Yoni Mizrahi, diretor do grupo Emek Shaveh, que prega a separação entre arqueologia e política. "A arqueologia não pode ser usada para provar posse".
A disputa pelo passado se estende ao outro lado do conflito. A liderança palestina nega que um dia existiram os templos sagrados do judaísmo em Jerusalém.
Em 1997, o fundo islâmico Waqf, que administra a Esplanada das Mesquitas, causou revolta em Israel ao retirar toneladas de terra do local numa escavação secreta. Mais tarde, foram achadas relíquias arqueológicas no entulho.
"Há absurdos de ambos os lados. Não há santos em Jerusalém", diz Israel Finkelstein, um dos mais respeitados arqueólogos israelenses. "Pelo bem da ciência, é preciso tirar a arqueologia do campo minado da política."

Notícia da Folha de São Paulo, de 1º de novembro de 2010.


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quarta-feira, outubro 27, 2010

Fotos revelam abusos de militares israelenses contra palestinos

Fotos revelam abusos contra palestinos

Militares israelenses aparecem em imagens agredindo prisioneiros durante ofensiva militar à faixa de Gaza

ONG encontrou as fotos no site Facebook; elas haviam sido publicadas pelos próprios militares suspeitos dos crimes

MARCELO NINIO
DE JERUSALÉM

Uma organização de direitos humanos divulgou ontem mais fotos de soldados israelenses cometendo abusos em território palestino.
De acordo com os integrantes da ONG Quebrando o Silêncio, formada por militares israelenses da reserva que se opõem à ocupação, as fotos foram tiradas pelos soldados na ofensiva à faixa de Gaza, entre 2008 e 2009.
As três imagens divulgadas ontem foram enviadas pelos próprios soldados para o site Facebook, de onde a ONG as recolheu e depois divulgou para a imprensa.
Numa delas, um soldado israelense segura pelo pescoço um homem vendado e com as mãos amarradas, e com a outra mão aponta um fuzil para a cabeça dele.
Noutra, um soldado picha numa parede uma estrela de Davi e as palavras em hebraico: "voltaremos em breve".
A terceira mostra um soldado posando com seu fuzil numa cozinha, enquanto uma mulher em trajes árabes continua trabalhando, aparentemente inabalada.
Segundo Michael Manekin, da Quebrando o Silêncio, as fotos mostram um fenômeno que se espalhou nos últimos anos no Exército.
"Colocar prisioneiros em situação humilhante e depois divulgar imagens se tornou rotina", disse Michael à Folha. "O problema é que raramente são punidas com o rigor necessário", afirmou.
A revelação não é nova. Há cerca de dois meses, uma soldado israelense, Eden Abergil, causou indignação até dentro do Exército depois de aparecer sorrindo ao lado de prisioneiros palestinos vendados em fotos postadas por ela no Facebook.
Há três semanas, um episódio semelhante voltou a ganhar as manchetes. Desta vez, a imagem de um soldado dançando em volta de uma palestina vendada foi enviada ao site YouTube.
O Exército abriu investigação, e o vídeo foi duramente criticado pelo premiê israelense, Binyamin Netanyahu. Recentemente, o Exército israelense proibiu o uso de mídias sociais como o Facebook e Twitter em suas bases para evitar vazamentos.

Notícia publicada na Folha de São Paulo, de 26 de outubro de 2010.


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quinta-feira, outubro 14, 2010

OLP pede a EUA mapa com fronteira israelense futura

OLP pede a EUA mapa com fronteira israelense futura


Por Tom Perry

RAMALLAH, Cisjordânia (Reuters) - Os palestinos querem dos Estados Unidos um mapa que indique o traçado final que Israel pretende para suas fronteiras e que deixe claro se esse traçado abrange terras e casas palestinas, disse um funcionário palestino nesta quarta-feira.

Yasser Abed Rabbo, da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), respondeu a um chamado dos EUA para que os palestinos apresentem suas propostas, em resposta à proposta israelense de que eles reconheçam Israel como Estado judaico em troca de restrições às construções nos assentamentos. Os palestinos se opõem há muito tempo a dar uma declaração de reconhecimento de Israel.

"O que é necessário da parte da administração americana e de Israel é que eles nos apresentem um mapa do Estado de Israel que querem que reconheçamos", disse Abed Rabbo à Reuters.

"Esse é o mapa das fronteiras de 1967, ou ele abrange terras palestinas e as casas em que vivemos?", ele perguntou, aludindo ao ano em que Israel capturou Jerusalém Oriental, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, na Guerra dos Seis Dias.

A questão dos assentamentos vem sendo um obstáculo grande às negociações de paz mediadas pelos EUA, que começaram em 2 de setembro. Em visita a Kosovo, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, falou em tom de otimismo.

"Pessoalmente, estou convencida de que os dois líderes, o primeiro-ministro (Benjamin) Netanyahu (israelense) e o presidente (Mahmoud) Abbas (palestino), enxergam como sendo do interesse respectivo de cada um retornar às negociações diretas e seguir adiante com elas", disse Hillary.

Os palestinos dizem que não vão retomar as negociações mediadas pelos EUA enquanto Israel não suspender a construção de assentamentos em territórios ocupados nos quais eles visam fundar seu Estado. Um congelamento declarado por Israel da construção de casas na Cisjordânia ocupada chegou ao fim em 26 de setembro.

Netanyahu disse na segunda-feira que estaria disposto a pedir a seu gabinete a decretação de novo congelamento, se os palestinos reconhecessem Israel como Estado judaico.

Ele afirmou que isso seria "um passo construtor de confiança" enquanto alguns comentaristas palestinos e israelenses questionaram se a proposta não seria apenas uma artimanha para tentar atribuir aos palestinos a culpa por um possível colapso do processo de paz.

Os palestinos descartaram a ideia, que eles enxergam como uma grande concessão que equivaleria ao suicídio político de uma liderança cuja credibilidade já foi fortemente prejudicada pelo fracasso de negociações de paz anteriores.

Hillary disse a repórteres que "os dois lados estão testando várias abordagens diferentes, ofertas e pedidos de um lado a outro".

O pedido de mapa formulado por Abed Rabbo ecoa o chamado de Abbas por termos claros de referência nas negociações de paz.

(Reportagem adicional de Ali Sawafta)


Notícia da Reuters.

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terça-feira, setembro 28, 2010

Israel intercepta veleiro de ativistas que queria romper bloqueio de Gaza

A Marinha de Israel interceptou nesta terça-feira em alto-mar o veleiro de pacifistas judeus que tentava romper simbolicamente o bloqueio israelense à faixa de Gaza. A ação foi realizada sem violência e não deixou vítimas, segundo fintes militares.

Em 31 de maio passado, as forças israelenses mataram nove ativistas turcos na intercepção do barco Mavi Marmara, que levava ajuda humanitária aos palestinos. O episódio atraiu grande condenação internacional e esfriou as relações diplomáticas com a Turquia, rara aliada muçulmana na região.

"Dez navios de guerra israelenses obrigaram o veleiro a desviar para [o porto israelense de] Ashdod", afirmou um dos organizadores do protesto, Amjad Al Shawa, que estava em terra em Gaza. "Eles se renderam porque estavam cercados e não tinham outra opção".

A Marinha confirmou a versão e alega que a ação não resultou em nenhum ato de violência. "Nem os passageiros a bordo nem as forças marítimas israelenses usaram violência de nenhum tipo", afirmou uma porta-voz do Exército israelense.

Segundo ela, antes da abordagem foram feitas duas advertências ao capitão, informando-lhe que estava violando a lei israelense e o direito internacional. "As advertências foram ignoradas pelo capitão da embarcação e pelos passageiros, que continuaram navegando rumo à área que se encontra sob bloqueio marítimo".

O pequeno veleiro Irene, com sete militantes pacifistas judeus e dois jornalistas a bordo, havia zarpado no domingo (26) de Famagusta, ao norte do Chipre, com a intenção de levar ajuda humanitária simbólica à população da faixa de Gaza, submetida a bloqueio desde 2007, como retaliação à tomada de poder do grupo islâmico radical Hamas.

O Irene navega sob bandeira britânica e foi fretado por organizações como a britânica Judeus pela Justiça para os Palestinos, a europeia Judeus Europeus por uma Paz Justa, a americana Voz Judia pela Paz e a australiana Judeus contra a Ocupação.

Segundo os organizadores, trata-se de "um ato simbólico de solidariedade e protesto não violento" que reivindica a suspensão do bloqueio israelense a Gaza.


Notícia da Folha.com .

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quarta-feira, julho 21, 2010

O Retorno do anti-semitismo e o Estado de Israel

O Retorno do anti-semitismo e o Estado de Israel


Na semana passada, o UOL reproduziu notícia do semanário alemão Der Spiegel*, mostrando o extremismo anti-semita comum a neo-nazistas e imigrantes muçulmanos na Alemanha. A notícia informava que durante um festival nos arredores de Hanôver, um grupo judeu de dança, chamado Chaverim, foi impedido de se apresentar, hostilizado por um grupo de migrantes muçulmanos e seus descendentes.


Normalmente os ataques contra a comunidade judaica na Alemanha são perpetrados por grupos neo-nazistas, com a mesma base ideológica da época de Hitler. Esta agressão que impediu a apresentação do grupo de dança judeu por parte de um grupo de imigrantes muçulmanos, muitos deles adolescentes e crianças, é um fato novo, decorrente das agressões do Estado de Israel aos palestinos.


No ano passado, o Pedro Dória comentou no seu weblog uma notícia que lhe chamou a atenção: um grupo de socialistas argentinos atacou um grupo de judeus quando saíam da embaixada de Israel lá, após celebrarem os 61 anos da fundação do estado de Israel. Dória achou o incidente muito estranho, pois sempre houve judeus envolvidos com socialismo, a começar pelo próprio Marx, e o Estado de Israel, nas suas fundações, era em grande parte inspirado por ideais socialistas.


Parece que ambas as coisas são decorrência das políticas míopes do Estado de Israel, com relação, principalmente, aos palestinos. Dória comenta esta possibilidade: “Incompetência, paranóia sem limites, perda de noção do razoável e falta de diplomacia transformaram Israel, principalmente nos últimos anos, em um Estado agressor.” E um Estado agressor costuma atrair antipatia de todo lado.


Infelizmente, enquanto a paz duradoura não for atingida na Terra Santa, e enquanto Israel posar como prepotente e agressor (com todo apoio dos Estados Unidos), a tendência é que estes eventos venham a se tornar mais e mais frequentes.


21/07/2010.


*Infelizmente, só para assinantes do UOL.

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quarta-feira, julho 14, 2010

Assentamentos ilegais israelenses controlam 42% da área da Cisjordânia

Assentamentos controlam 42% da Cisjordânia

DE JERUSALÉM

Os assentamentos judaicos controlam 42% da Cisjordânia ocupada, segundo um estudo da organização israelense de direitos humanos Betselem, embora a área construída represente apenas 1% do total.
Isso ocorre porque as fronteiras municipais dos assentamentos são dez vezes maiores que a área habitada. De acordo com o documento, a população de colonos quase triplicou desde 1993, de 110 mil para 301,2 mil.
A organização acusa o governo israelense de descumprir o compromisso assumido com o governo dos EUA do ex-presidente George W. Bush, em 2003, de congelar todas as construções.
A expansão das colônias é o maior ponto de atrito entre Israel e os EUA, e o estudo foi apontado pelos críticos da Betselem como uma tentativa de sabotar o encontro entre o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, e o presidente Barack Obama.
Para Dani Dayan, chefe do Conselho de Comunidades Judaicas da Cisjordânia, o fato de o estudo ter sido divulgado ontem mostra a intenção do Betselem de "prejudicar os interesses de Israel".
A iniciativa foi comparada ao vazamento da aprovação de uma construção israelense em Jerusalém Oriental em março, feito pelo movimento Paz Agora, apenas uma hora antes do encontro entre Netanyahu e Obama.
(MN)

Notícia da Folha de São Paulo, de 7 de julho de 2010. Destaque do blogueiro.

O detalhe curioso, que destaquei, é que 1993 é o ano dos Acordos de Oslo, supostamente acordos que buscavam implementar uma paz duradoura na região, viabilizando a criação de um estado palestino, e a segurança permanente do estado de Israel. Se a população dos assentamentos ilegais israelenses na Cisjordânia triplicou de lá para cá, isso seria um sinal de dupla intenção por parte de Israel?


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terça-feira, julho 06, 2010

Cerca de 21% da área das colônias israelenses foram confiscadas de palestinos, diz relatório

Pouco mais de 20% das áreas em que foram construídas as colônias israelenses na Cisjordânia ocupada são terrenos privados pertencentes a palestinos, segundo um relatório divulgado nesta terça-feira pela organização israelense de defesa dos direitos humanos B'Tselem.

O informe foi publicado no dia em que o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu deve se reunir na Casa Branca com o presidente Barack Obama.

Os dois vão conversar sobre a eventual ampliação da moratória de 10 meses para as construções nas colônias, que o governo israelense ordenou em novembro e que expira no fim de setembro.

"Um total de 21% das áreas em que foram construídos 121 assentamentos e uma centena de postos avançados na Cisjordânia são terrenos que Israel reconhece como propriedade privada de palestinos", destaca a ONG.

"Os principias métodos utilizados por Israel são a requisição do terreno por necessidades militares, a declaração ou registro como terreno de Estado e a desapropriação por razões públicas", explica a B'Tselem.

O documento destaca que 300.000 israelenses vivem atualmente nas colônias na Cisjordânia, e outros 200.000 no setor oriental de Jerusalém conquistado e anexado por Israel em junho de 1967.

A anexação nunca foi reconhecida pela comunidade internacional, que considera Jerusalém Oriental um território ocupado.


Notícia da AFP, no UOL.

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terça-feira, maio 11, 2010

ONG questiona proibição de Israel à entrada de produtos em Gaza

A ONG israelense de defesa dos direitos humanos Gisha acusou o governo de Israel de agir de maneira "absurda e arbitrária" em relação à proibição da entrada de produtos para 1,5 milhão de palestinos residentes na Faixa de Gaza.

A ONG, cujo trabalho se concentra na defesa da liberdade de ir e vir, questiona a afirmação do governo israelense de que a ampla proibição à entrada de mercadorias na Faixa de Gaza teria o objetivo de proteger a segurança de Israel.

"O que a entrada de coentro na Faixa de Gaza tem a ver com a segurança de Israel e porque as autoridades proíbem o coentro mas autorizam a entrada de canela?", pergunta a diretora da Gisha, Sari Bashi.

Israel decretou um bloqueio quase total à entrada de mercadorias na Faixa de Gaza desde que o grupo islâmico Hamas tomou à força o controle da região, em junho de 2007.

De acordo com porta-vozes oficiais, o objetivo do bloqueio é pressionar o Hamas. Algumas das mercadorias proibidas, como cimento e ferro, "poderiam ser utilizadas para a fabricação de armamentos".

Exemplos

A ONG divulgou uma lista de produtos cuja entrada em Gaza é autorizada por Israel e daqueles que são proibidos e revelou exemplos do que considera decisões absurdas das autoridades israelenses.

A lista, que inclui 97 produtos autorizados, foi elaborada de acordo com informações obtidas junto a comerciantes palestinos e organizações humanitárias que operam na Faixa de Gaza.

Os produtos autorizados por Israel, como farinha e arroz, são transportados para a região por caminhões da ONU.

Segundo a Gisha, a entrada de agua mineral é permitida, porém a entrada de sucos é proibida. Chá e café são permitidos, mas chocolate é proibido.

"Não entendo como impedir crianças de receber brinquedos, ou fábricas de receber matéria prima, pode responder às necessidades de segurança de Israel", afirmou Bashi.

Decisão da Justiça

Depois de uma decisão da Justiça, que aceitou um recurso movido pela Gisha há um ano, as autoridades israelenses finalmente confirmaram a existência da lista, que haviam negado antes.

No entanto, as autoridades se negaram a revelar a lista exata dos produtos permitidos e proibidos e argumentaram que a publicação desse documento pode "prejudicar a segurança e as relações exteriores do Estado".

O governo israelense também confirmou, diante da Corte do Distrito de Tel Aviv, a existência de um documento que estabelece os limites mínimos de fornecimento de alimentos à Faixa de Gaza, de acordo com parâmetros de necessidades nutricionais mínimas que cada pessoa deve consumir.

Segundo o governo, esse documento, denominado Food Needs in Gaza – Red Lines (em tradução livre, "Necessidades de Alimentação em Gaza – Limites Mínimos") serve "apenas para o trabalho de planejamento interno e não para estabelecer uma política".

A advogada da Gisha, Tamar Feldman, protestou contra a recusa do governo de divulgar o conteúdo dos documentos.

"Não está claro porque, em vez de promover a transparência, Israel opta por investir tantos recursos para encobrir a informação", afirmou a advogada.


Notícia da BBC Brasil.

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sábado, abril 17, 2010

Jerusalém nos últimos 42 anos...

“Nos 42 anos em que Jerusalém está unificada sob administração israelense, ela jamais foi tão aberta e livre. Não havia liberdade para cristãos e judeus quando a cidade estava nas mãos árabes. A divisão é o maior erro que pode ser cometido. Jerusalém deve continuar aberta e unificada.”


Nir Barkat, atual prefeito (judeu) de Jerusalém, em entrevista à Folha de São Paulo.


A entrevista completa está disponível na Folha Online.


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terça-feira, março 23, 2010

Em Gaza, Israel foi longe demais

Finkelstein: Em Gaza, Israel foi longe demais

3/3/2010

“A devastação de Gaza pelos israelenses, contra uma população civil cercada – e usando bombas, dinheiro e cobertura diplomática dos EUA – foi tão brutal e horrenda que mudou para sempre o modo como o mundo vê o conflito no Oriente Médio” [Glenn Greenwald, blogueiro de Salon.com, durante a guerra de Gaza].

por Norman Finkelstein, em Counterpunch

A indignação mundial gerada pela invasão de Gaza não nasceu do nada nem foi repentina. De fato, foi a culminação de uma curva que há muito tempo marcava o crescente declínio do apoio a Israel em todo o mundo. Como mostram dados de pesquisas recolhidos nos EUA e Europa, todos os públicos, de judeus e não-judeus, foram-se tornando cada vez mais críticos das políticas israelenses ao longo de toda a última década. As imagens horrendas de morte e destruição mostradas pela televisão em todo o mundo durante a invasão de Gaza aceleraram aquele processo. “A frequência brutal e sempre crescente de guerra naquela região volátil fez mudar a tendência da opinião internacional” – escreveu o britânico Financial Times em editorial, um ano depois da invasão de Gaza –, “fazendo lembrar que Israel não está acima da lei. Israel não pode continuar a ditar os termos dessa discussão.”

Pesquisa feita nos EUA logo depois do ataque israelense a Gaza mostrou que o número de eleitores norte-americanos que se autodefiniam como apoiadores de Israel havia caído de 69% antes do ataque, para 49% em junho de 2009; e o número de eleitores que acreditavam que os EUA deveriam continuar a apoiar Israel, caiu de 69% para 44%.

Consumida pelo ódio, cheia de arrogância e confiante de que poderia controlar ou intimidar toda a opinião pública, Israel atacou Gaza com fúria de assassino que confia que jamais será apanhado, mesmo que promova assassinatos em massa à luz do dia. Mas, embora o apoio oficial a Israel não se tenha alterado no ocidente, a carnificina fez crescer uma onda sem precedentes de indignação popular em todo o mundo. Seja porque o ataque contra Gaza veio depois da devastação que Israel provocou no Líbano, ou por causa da incansável perseguição contra o povo de Gaza, ou seja, porque o ataque a Gaza foi ataque covarde, fato é que o ataque a Gaza em dez.-jan. 2009, parece ter marcado um ponto de virada na opinião pública em relação a Israel. O mesmo tipo de mudança aconteceu também depois do massacre de negros em Sharpeville, em 1960, na África do Sul.

Nas organizações oficiais da diáspora judaica, que têm laços antigos com Israel, o apoio continuou como sempre, cego. Ao mesmo tempo, contudo, organizações de judeus progressistas começaram a afastar-se de Israel, umas mais, outra menos. Enquanto, antes, todos os judeus mais conhecidos no mundo sempre apoiaram as guerras de Israel, muitos, dessa vez, mostraram-se ambivalentes durante a invasão, com uma maioria mais idosa e declinante que saiu em defesa de Israel e uma minoria crescente, mais jovem, que declaradamente fez oposição à invasão de Gaza. Entre o crescente incômodo dos mais jovens em face do belicismo israelense e as muitas vacilações ante a tarefa de apoiar Israel, o massacre de Gaza marcou uma primeira grande fissura no, antes, irrestrito apoio dos judeus a todas as guerras de Israel. Muitos constataram que, ao mesmo tempo em que em todo o ocidente as manifestações contra os ataques a Gaza foram sempre multiétnicas (com a presença de muitos judeus), as demonstrações ‘pró’ Israel sempre reuniram quase exclusivamente judeus.

A evidência de que a oposição ativa à política de Israel – por exemplo, nas universidades – já extrapolou os limites do mundo árabe-muçulmano e já alcançou públicos aos quais antes não chegava, ao mesmo tempo em que encolheu o apoio ativo a Israel, já confinado a uma fração do núcleo mais conservador dos judeus étnicos, é importante indicador da direção para a qual as coisas estão andando. A era da “bela” Israel já passou, parece que para sempre; foi substituída por uma Israel desfigurada que, nos últimos tempos ocupa a consciência pública e provoca embaraço cada dia maior. Não se trata apenas de Israel agir ainda mais mal do que antes, mas, sobretudo, de as ações de Israel terem ultrapassado o limite do que as consciências toleram.

Já não é possível negar ou desqualificar o que todos veem. A documentação do conflito árabe-israelense estabelecida por historiadores conhecidos conflita com versões popularizadas por livros como Êxodo de Leon Uris. Há evidências de inúmeras violações por Israel dos direitos humanos básicos dos palestinos, todas documentadas por organizações conhecidas; essas evidências não confirmam os discursos israelenses e o muito alardeado compromisso com “a Pureza das Armas” [heb. Tohar HaNeshek; ing. Morality in Warfare; é o código ético do Exército de Israel: “moralidade/pureza na guerra”]. As deliberações de corpos políticos e jurídicos respeitados manifestam graves dúvidas quanto ao alardeado compromisso de Israel com a resolução pacífica de conflitos. Por muitos anos, os ‘apoiadores’ de Israel conseguiram evitar o impacto da documentação que se foi acumulando; na maioria dos casos, ocultaram-se por trás de duas espadas gêmeas sempre em riste: o Holocausto e um “novo antissemitismo”.

Houve quem dissesse que os judeus não poderiam ser avaliados pelos padrões morais/legais comuns, depois do inexcedível sofrimento pelo qual passaram durante a II Guerra Mundial e que toda e qualquer crítica às políticas de Israel seriam sempre motivadas por um jamais extinto ódio aos judeus. Quanto a isso, além do desgaste que sofrem todos os argumentos excessivamente usados, esse argumento perdeu muito da eficácia que algum dia teve quando as críticas às políticas de Israel chegaram, afinal, às correntes mais amplas da opinião pública. Incapazes de responder àquelas críticas, os apologistas de Israel conjuram hoje as mais bizarras teorias para explicar o ostracismo ao qual se condenaram. Para George Gilder, guru ‘econômico’ do governo Reagan, o sistema de livre mercado teria modo específico para desencadear os potenciais humanos; e que portanto, sob sistemas de livre mercado, os judeus deveriam “estar sempre representados não proporcionalmente nos escalões superiores”, porque seriam seres humanos naturalmente mais bem dotados que outros. Inversamente, se os judeus não estiverem no comando, comprovar-se-ia que o sistema econômico não alcançou a perfeição.

O antissemitismo brotaria do ressentimento provocado pela “superioridade e excelência dos judeus” e pela “manifesta supremacia dos judeus sobre todos os demais grupos étnicos”; e o ódio contra Israel, do fato de Israel ter evoluído (sob a inspirada tutela de Benjamin Netanyahu) num perfeito sistema de livre mercado que “concentra o gênio dos judeus,” fazendo de Israel “uma das potências capitalistas mundiais líderes” e inveja do mundo: “Israel é odiada sobretudo por suas virtudes.”

Se há judeus que criticam Israel, tratar-se-ia de pura inveja: “os judeus destacam-se tanto e tão rapidamente nos campos intelectuais, que deslocam e derrotam todos os rivais antissemitas.” O ocidente deve tratar, isso sim, de proteger Israel e os israelenses contra “as quimeras mundiais de soma-zero e as fantasias de vingança e morte dos jihadistas”, e contra “as massas bárbaras”, porque foram os talentos e dotes dos judeus que levaram a humanidade “a crescer e prosperar”; em conclusão, porque os judeus são “decisivos para a raça humana”.

E prossegue: “se Israel for destruída, toda a Europa capitalista morrerá; e os EUA, epítome do capitalismo criativo e produtivo empurrado pelos judeus, estará sob grave risco”; “Israel é a vanguarda da próxima geração de tecnologia; está na linha de defesa de uma nova guerra racial contra o capitalismo, contra a individualidade e o gênio judeu”; “Assim como o livre mercado é necessário à sobrevivência das populações humanas sobre a face da Terra, a sobrevivência dos judeus é necessária para garantir o triunfo das economias livres. Se Israel for calada ou destruída, todos sucumbiremos ante as forças que hoje combatem o capitalismo e a liberdade em todo o mundo.”

Do outro lado do Atlântico, Robin Shepherd, diretor de assuntos internacionais da Henry Jackson Society, sediada em Londres, garante que Israel foi alvo de críticas fortes pelo ocidente, não porque seja campeã da defesa dos direitos humanos, mas porque é Estado capitalista democrático obrigado a lutar na linha de frente, ao lado dos EUA, contra o islã radical que seria “ameaça civilizacional”: “Israel tornou-se inimiga não por algo que tenha feito”, mas “porque estava do lado errado das barricadas”. A “principal plataforma de energização no ocidente” para essa “maré incontrolável de histeria, mistificação e distorções contra o Estado judeu” são “os marxistas totalitários e a esquerda liberal, viajantes que, desapontados pelo proletariado ocidental e desiludidos das lutas de libertação do Terceiro Mundo, uniram-se em causa comum com “o islã militante” para destruir a ordem mundial liberal-capitalista. Embora esses críticos de Israel não sejam antissemitas no tradicional sentido “subjetivo” de desprezar os judeus por serem judeus, são agentes de um antissemitismo “objetivo”, porque Israel tornou-se fator central da identidade dos judeus no mundo contemporâneo.

Mas a oposição a Israel também emanaria dos ‘sangue-azul’ do antigo regime que sonham com restaurar as hierarquias do velho mundo, devolvendo-as ao ponto em que teriam sido rompidas pelos arrivistas judeus. Essa conspiração neoantissemita reuniria “quase todos” os que acusam Israel de ter cometido crimes de guerra e de outras violações das leis internacionais. Evidentemente, deve-se entender que, por trás da condenação de Israel pela Anistia Internacional e pela Corte Internacional de Justiça, Jimmy Carter e Mairead Corrigan Maguire ganhadores do Prêmio Nobel, o Financial Times e a BBC, age a mão oculta da gangue dos radicais esquerdistas fanáticos aristocratas islâmicos. Para os que queiram saber mais, Shepherd recomenda “fortemente” que leiam The Case for Israel, de Alan M. Dershowitz.

Embora falte credibilidade a essas explicações para o isolamento de Israel, não há dúvidas de que as ações de Israel entraram em queda livre. Embora Israel tenha conquistado muitos simpatizantes ocidentais depois de fulgurante vitória de junho de 1967, a verdade é que, nos anos mais recentes, já está reduzida a Estado pária, sobretudo entre os europeus. Pesquisa de 2003 feita pela União Europeia, classificou Israel como principal ameaça à paz do mundo. Em 2008, pesquisa de opinião pública global classificou Israel como o principal obstáculo à paz no conflito Israel-Palestina. Em pesquisa do BBC World Service, feita imediatamente depois da invasão de Gaza, 19 dos 21 países pesquisados manifestaram opinião negativa sobre Israel.

Simultaneamente, sob o título “Second Thoughts about the Promised Land” [“Pensando melhor sobre a Terra Prometida”][1], a revista The Economist reporta em 2007 que “embora a maioria dos judeus da diáspora ainda apóiem Israel, aumentaram as dúvidas e a ambivalência.” Vozes de judeus discordantes começam a fazer-se ouvir na Grã-Bretanha, na Alemanha e em outros países, desafiando a hegemonia das organizações judias oficiais que repetem como papagaios a propaganda israelense. Nos EUA as tendências ainda não são muito claras, mas nem por isso menos significativas. Avaliando-se pelos dados de pesquisa, pode-se dizer que os norte-americanos sempre tenderam consistentemente mais a favor de Israel que dos palestinos. Mas os norte-americanos cada vez mais claramente também apóiam que os EUA trabalhem para mediar o conflito; mais recentemente, já há pesquisas que mostram “níveis equivalentes de simpatia” pelos dois lados, e minoria já substancial opinou que as políticas dos EUA favorecem (ou favorecem muito) Israel; uma robusta maioria de norte-americanos “opinaram que Israel não está fazendo bem a parte que lhe cabe de esforços para resolver o conflito”; e já há muitos norte-americanos que pregam o uso de sanções para conter Israel.

Significativamente, a maioria dos norte-americanos também apoiaram um acordo de dois Estados sobre as fronteiras demarcadas em junho de 1967, com total retirada dos israelenses dos territórios ocupados na guerra de junho. “Sim, as pesquisas mostram forte apoio a Israel,” observou em 2007 M. J. Rosenberg, diretor de análises políticas do Israel Policy Forum, a respeito das tendências de então; contudo “esse apoio a Israel, como mostram as pesquisas, é amplo mas não é muito profundo.” Esse fenômeno observa-se quase todos os dias nas “Cartas do Leitor”. Cada vez que aparece alguma coluna sobre Israel, sobretudo se critica Israel, aparecem várias cartas de leitor. A maioria apoia a posição israelense. E quase sem exceção as cartas são assinadas por judeus. A vasta maioria [de não judeus norte-americanos] que se supõe que sejam também favoráveis às posições de Israel não escrevem. Conforme pesquisa de 2007 feita pela Liga Antidifamação [ing. Anti-Defamation League (ADL)] a opinião de norte-americanos a favor de Israel é acentuadamente menos favorável do que suas opiniões favoráveis pró Grã-Bretanha e Japão; e é praticamente tão favorável quanto as opiniões pró Índia ou México. Quase a metade dos respondentes entendem que os EUA devem trabalhar aliados a Estados árabes “moderados”, “mesmo que isso contrarie Israel”.

Metade ou mais dos norte-americanos pesquisados culpam igualmente Israel e o Hizbollah pela guerra do Líbano, no verão de 2006, e apoiaram uma posição (mais) neutra dos EUA. Além disso, em anos recentes, vários grupos religiosos, como a Igreja Presbiteriana dos EUA, o Conselho das Igrejas, a Igreja Unida de Cristo e a Igreja Metodista Unida têm apoiado iniciativas, inclusive a favor do desinvestimento em corporações, para forçar o fim da ocupação da Palestina. Em pesquisa de 2005, feita por Steven M. Cohen, judeu, constatou-se que “a ligação dos judeus norte-americanos com Israel enfraqueceu de modo mensurável nos últimos dois anos, (…) seguindo tendência que se observava há muito tempo.” Menos respondentes, em relação a pesquisas anteriores, declararam prontamente seu apoio a Israel, que conversavam sobre Israel ou que participavam de atividades de apoio a Israel.

Significativamente, não houve declínio semelhante em outras mensurações de identificação com os judeus, incluindo práticas religiosas, observação de preceitos religiosos ou afiliação comunitária. A pesquisa mostrou 26% que se declaram “muito” emocionalmente ligados a Israel, menos que os 31% que se viram em pesquisa de 2002. Cerca de 2/3, 65%, declararam que acompanham de perto o noticiário sobre Israel, menos que os 74% da pesquisa de 2002; e 39% disseram que conversam regularmente com amigos judeus; menos que os 53% de 2002.

Israel também caiu nas pesquisas como componente da identidade judaica pessoal dos respondentes. Quando lhes eram mostrados vários fatores, entre os quais religião, justiça social e comunidade, ao lado de “preocupação com o destino de Israel”, e perguntados “quanto, de cada um desses fatores, pesa no seu sentimento de ser judeu?”, 48% responderam que Israel pesa “muito”; em 2002, foram 58%. Apenas 57% afirmaram que “a preocupação com o destino de Israel é parte muito importante do meu sentimento de ser judeu”; em pesquisa idêntica, de 1989, foram 73%. Pesquisa de 2007, feita pelo Comitê Judeu Norte-americano [ing. American Jewish Committee] mostrou que 30% dos judeus sentiam-se “distantes” ou “muito distantes” de Israel. “No longo prazo”, prevê Cohen, haverá uma “polarização nos judeus norte-americanos: um grupo cada vez menor de judeus mais fortemente religiosos cada vez mais ligados a Israel; e um grupo maior, que se afastará do grupo menor.”

Pesquisa de 2006 mostrou que, entre os judeus norte-americanos de menos de 40 anos, 1/3 declarou-se “distante” e “muito distante” de Israel; pesquisa de 2007 mostrou que, entre os judeus de menos de 35 anos, 40% declarou “fraca ligação” com Israel (apenas 20% declararam “forte ligação”). Surpreendentemente, menos da metade dos respondentes responderam “sim; a destruição de Israel seria vivenciada como tragédia pessoal.” O ex-presidente da Agência Judaica [ing. Jewish Agency] fez soar sinal de alarme, ao divulgar que “menos de 24% dos judeus norte-americanos jovens participam de organizações judaicas. Menos de 50% dos judeus norte-americanos com menos de 35 anos sentem-se profundamente ligados ao povo judeu. Menos de 25% dos judeus norte-americanos com menos de 35 anos autodefinem-se como sionistas.”

Nas universidades norte-americanas, observa-se a queda no apoio a Israel não só entre os alunos judeus em geral, mas também, e principalmente, entre os sionistas reunidos nos Hillels [ing. Hillel Foundation for Jewish Campus Life][2]. “Alunos universitários judeus são claramente menos ligados a Israel hoje do que em gerações anteriores”, dizem vários relatórios de organizações de propaganda pró-Israel. “Israel está perdendo a disputa pelos corações e mentes dos judeus.” De fato, dos cerca de meio milhão de alunos judeus que frequentam instituições de ensino superior, “apenas 5% mantêm qualquer conexão com a comunidade de judeus.”

Observa-se a conversão da ambivalência em aberta oposição em relação a Israel também em outros setores influentes da sociedade norte-americana, mesmo entre as vacas-madrinhas da vida intelectual nos EUA e no público de leitores. Pesquisa recente descobriu que uma maioria de líderes de opinião nos EUA apóiam Israel “movidos sobretudo por insatisfação com os rumos dos EUA” em todo o mundo. Em ensaio publicado em 2003 na New York Review of Books, o historiador judeu Tony Judt escreveu que “a Israel de hoje não é boa para os judeus” e pôs em dúvida tanto a viabilidade quanto a desejabilidade de um Estado judeu. John J. Mearsheimer, da Universidade de Chicago e Stephen M. Walt da Harvard Kennedy School são co-autores de um importante ensaio, de 2006, no qual atacam a imagem idealizada da história de Israel e afirmam que Israel está convertida em “risco estratégico” para os EUA. Livro do ex-presidente Jimmy Carter, provocativamente intitulado Palestine: Peace Not Apartheid, lamenta a política de Israel para os Territórios Palestinos Ocupado e culpa integralmente Israel pela deterioração do processo de paz.

Apesar dos contra-ataques vitriólicos que o lobby pró-Israel lançou contra aquelas intervenções – o discurso usual que acusa todos de serem negadores do Holocausto e antissemitas –, dessa vez os contra-ataques não foram eficazes.

Quando em 2006 as pressões do lobby levaram ao cancelamento de uma das palestras já agendadas de Tony Judt, o caso tornou-se imediatamente cause célèbre nos círculos intelectuais dos EUA. Críticos de Judt, como Abraham H. Foxman da ADL, foram descritos como “gente que se esconde atrás de acusações sem sentido de antissemitismo” e como “anacrônicos”. Carter, por sua vez, foi acusado de plagiador, de haver sido subornado por xeiques árabes, de ser antissemita, de fazer apologia do terror, de simpatizante dos nazistas, e pouco faltou para ser acusado de negar o Holocausto.

Mesmo assim, o livro de Carter chegou rapidamente à lista dos mais vendidos do New York Times e lá permaneceu durante vários meses, tendo vendido mais de 300 mil cópias encadernadas. Embora duramente criticado pelo presidente da Universidade Brandeis, o ex-presidente Carter foi recebido pelos estudantes com uma retumbante ovação, ao chegar para falar naquela universidade judaica tradicional. (E metade da plateia levantou-se e saiu quando Alan M. Dershowitz, professor de Direito de Harvard, levantou-se para discursar em resposta à palestra de Carter.) Mearsheimer e Walt contrataram a publicação de seu livro com a editora Farrar, Straus and Giroux, e seu livro, The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy, também esteve por muito tempo na lista dos mais vendidos do Times.

Demonstração extra de que a sorte de Israel está mudando é que, durante o mandato do primeiro-ministro Ehud Olmert, nem Foxman nem Elie Wiesel, perene apoiador de Israel responderam publicamente à evidência de que Israel não se dedicava suficientemente em busca da paz. A crescente insatisfação pública em relação à política de Israel nos últimos anos chegou a ponto de ebulição e converteu-se em indignação manifesta durante a invasão de Gaza. Apesar da cuidadosamente orquestrada blitz de propaganda israelense; apesar de a cobertura jornalística ter sido, como sempre, marcadamente tendenciosa pró-Israel, sobretudo nos primeiros dias do ataque; e apesar do apoio oficial do ocidente ao ataque contra Gaza – apesar de tudo isso, houve enormes manifestações de rua por toda a Europa Ocidental (na Espanha, Itália, França e Grã-Bretanha), tão grandes que encobriram as pequenas manifestações de apoio a Israel.

Estudantes ocuparam universidades por toda a Grã-Bretanha, inclusive nas universidades de Oxford, Cambridge, Manchester, Birmingham, na London School of Economics, na School of Oriental and Asian Studies, Warwick, King’s, Sussex e Cardiff. Mesmo em tradicionais bastiões de apoio a Israel, como no Canadá, onde é particularmente intenso o viés de apoio a Israel da extrema direita e do establishment político e da mídia, os mais diferentes grupos de opinião pública manifestaram-se contra o ataque a Gaza; e o Sindicato Canadense de Servidores Públicos [ing. Canadian Union of Public Employees] aprovou moção em que pede um boicote acadêmico contra Israel.

Declarando depois do cessar-fogo que “os eventos em Gaza nos chocaram profundamente”, um grupo dos 16 juízes e investigadores mais experientes do mundo – entre os quais Antonio Cassese (Primeiro Presidente e Juiz do Tribunal Criminal Internacional para a ex-Iugoslávia e Chefe da Comissão de Investigação da ONU para o Darfur) e Richard Goldstone (Promotor-chefe do Tribunal Criminal Internacional da Comissão de Investigação da ONU para o Kosovo) – pediram que se instalasse “investigação internacional que examine as graves violações da legislação internacional de guerra cometidas pelos dois lados no conflito de Gaza.”

Como sempre, invariavelmente, os apologistas de Israel atribuíram ao crescimento do antissemitismo a crescente indignação contra a ação israelense em Gaza. Deve-se registrar que, como regra geral, quanto mais profundamente violenta é a conduta criminosa de Israel, mais aumentam, em decibéis, as ‘denúncias’ de antissemitismo. Os judeus estariam enfrentando “uma epidemia, uma pandemia de antissemitismo”, declarou Abraham H. Foxman. “É a pior, a mais intensa, a mais global onda de antissemitismo que nossa memória registra.” Não que esse tipo de diagnóstico seja novidade para Foxman que, em 2003, não se cansava de repetir que “a ameaça à segurança do povo judeu é tão grande hoje quanto foi nos anos 30s.”

Como no passado, sempre aparecem dados de pesquisa que confirmam esses exageros, chamados “indicadores” das “mais perniciosas noções de antissemitismo”; por exemplo, uma pesquisa que descobriu que “grandes porções da opinião pública europeia continua a achar que os judeus falam demais sobre o que lhes aconteceu no Holocausto.” Segundo um “filósofo” midiático francês, Bernard-Henri Lévy, qualquer um que ponha em dúvida que o holocausto nazista “foi um ponto de virada irreversível da história da humanidade” deve ser considerado antissemita. Na Europa, poucas das manifestações ditas antissemitas foram além de manifestações covardes ou apenas desagradáveis, como emails ou graffiti, porque o antissemitismo europeu, por mais que se deixe ver vez ou outra, empalidece completamente se comparado à islamofobia no continente. (Observou-se de fato, recentemente, oposição crescente a judeus e muçulmanos – as duas curvas parecem estar correlacionadas –, resultado provável do ressurgimento do etnocentrismo entre os europeus mais velhos, menos letrados e de orientação política mais conservadora.)

Apesar de tudo, parece ser verdade que a execução, por um autoproclamado Estado judeu, de vários ataques assassinos no Líbano e em Gaza, e o apoio que esses ataques receberam de organizações oficiais de judeus em todo o mundo, determinaram um muito lamentável – embora absolutamente previsível – efeito de “respingamento” sobre todos os judeus, que parecem estar começando a ser, todos, considerados culpados. Se, como o Fórum Israelense de Coordenação da Luta contra o Antissemitismo [ing. Israeli Coordination Forum for Countering Anti-Semitism] afirmou “houve claro aumento no número e na intensidade de incidentes antissemitas” durante o massacre de Gaza; e se “com o cessar-fogo, houve marcado declínio no número e na intensidade dos incidentes antissemitas”; e “outro ataque semelhante à operação em Gaza determinará novo surto de atividade antissemita contra comunidades em todo o mundo”, então, método eficaz de combater o antissemitismo parece ser conseguir que Israel suspenda a prática de massacres.

Também é verdade que o crescente fosso entre apoio oficial aos belicistas israelenses e a rejeição popular aos mesmos belicistas parece estar servindo de combustível a mais teorias antissemitas conspiratórias. Na Alemanha, por exemplo, o establishment político e a mídia dominante não dão espaço a qualquer crítica contra Israel por causa do “relacionamento especial”, ideia que cresce na Alemanha, a partir do que se entende que seja “a responsabilidade histórica” da Alemanha. A chanceler Angela Merkel antecipou-se a outros líderes europeus na defesa de Israel durante a invasão de Gaza. Mesmo assim, pesquisas recentes mostraram que 60% dos alemães rejeitam a ideia de que os alemães tenham qualquer especial obrigação com Israel (entre os jovens, a porcentagem chega a 70%); 50% veem Israel como país agressivo; e para 60% Israel persegue seus interesses mediante métodos cruéis.

Em termos mais gerais, Gideon Levy lembrou “a cena surreal, no auge do brutal ataque contra Gaza, quando chefes de Estado da União Europeia vieram a Israel e jantaram com o primeiro-ministro, em manifestação de apoio unilateral ao lado que promovia matança e destruição.” E embora tenha sido Israel a quebrar o acordo de cessar-fogo e lançar a invasão, os líderes europeus fizeram coro aos EUA (e ao Canadá) e pregaram o desarmamento, não dos assassinos, mas das vítimas. É questão de tempo, e os europeus começarão a preocupar-se – se já não começaram – com os interesses que se escondem por trás das políticas internacionais de seus respectivos governos.

A acusação de antissemitismo contra os não-judeus que se indignaram contra o massacre de Gaza parece cada dia mais sem sentido e mais mal-intencionada, face à indignação crescente e claramente manifesta também entre os judeus. Ao mesmo tempo em que organizações oficiais de judeus lançavam manifestos de apoio a Israel na invasão de Gaza, por todos os lados surgiam manifestações contra o massacre de Gaza, e assinadas também por organizações de judeus.

Muitos judeus de alto prestígio na vida das comunidades judaicas criticaram também Israel, embora nem sempre essas falas tenham sido muito claras ou muito divulgadas. Quando Israel passou à ofensiva por terra, depois de uma semana de ataques aéreos, um grupo dos mais destacados judeus britânicos, que se autoapresentaram como “apoiadores profundos e apaixonados” de Israel, manifestaram-se “horrorizados” ante o crescente número de mortos dos dois lados” e conclamaram Israel a cessar imediatamente qualquer operação militar em Gaza. Em tom muito mais contundente, o deputado e ex-ministro de relações estrangeiras do “Shadow Cabinet” Gerald Kaufman declarou em debate na Casa dos Comuns sobre Gaza: “Minha avó estava de cama, doente, quando os nazistas chegaram à cidade dela, Staszow. Um soldado alemão matou-a a tiros, na cama. Minha avó não morreu para dar cobertura a soldados israelenses que assassinem avós palestinas em Gaza.” E acusou o governo de Israel de “explorar cruel e cinicamente o sentimento de culpa dos não-judeus pelo massacre de judeus no Holocausto, como justificação para o massacre de palestinos.”

Quase ao mesmo tempo, na França, Jean-Moïse Braitberg, escritor judeu muito popular exigiu que o presidente de Israel removesse o nome de seu avô do memorial no Yad Vashem dedicado às vítimas do holocausto nazista, “para que o nome do meu avô não continue a ser usado para justificar o horror praticado contra os palestinos.”

Na Alemanha, Evelyn Hecht-Galinski, filha de um ex-presidente do Conselho Geral dos Judeus na Alemanha, escreveu “Não o governo eleito do Hamás, mas o brutal exército ocupante (…) deve ser levado às barras do tribunal internacional de Haia”, ao mesmo tempo em que a seção alemã da organização Judeus Europeus a Favor de uma Paz Justa lançou manifesto em que se lia: “Os judeus alemães dizem NÃO à matança praticada pelo exército de Israel”.

No Canadá, oito mulheres judias que ocupavam o consulado de Israel conclamaram “todos os judeus a manifestar-se contra esse massacre”. E Anton Kuerti, aclamado pianista canadense declarou que “Os inacreditáveis crimes de guerra que Israel está cometendo em Gaza (…) fazem-me sentir vergonha de ser judeu.” Na Austrália, dois romancistas premiados e um ex-deputado assinaram declaração em que, como judeus, condenam “o ataque tão violentamente desproporcional de Israel contra Gaza”.

O governo Bush e o Congresso dos EUA deram absoluto apoio a Israel durante a invasão. Resolução culpando integralmente o Hamás por todas as mortes e pela destruição de Gaza foi aprovada unanimemente no Senado e por 390 votos a favor e 5 contra, na Câmara de Deputados. Praticamente toda a mídia corporativa nos EUA também ofereceu, sem qualquer pejo, total apoio a Israel. “No Dia de Ano Novo, o esquadrão de louvação a Israel ocupou todas as páginas de colunas assinadas de todos os principais jornais nos EUA, como se fossem quintal seu”, observou o jornalista Max Blumenthal. “De todas as colunas assinadas publicadas no Washington Post, no Wall Street Journal e no New York Times desde o início da guerra contra Gaza, apenas uma coluna manifestava alguma dúvida quanto à correção e justeza do assalto.”

O máximo em matéria de ouvir os dois lados, para o New York Times, consistiu em publicar, lado a lado, os delírios de Jeffrey Goldberg sobre o mal absoluto representado pelo Hamás, e os conselhos de Thomas Friedman, para que Israel infligisse “pesadas dores à população de Gaza”. O rival novaiorquino do Times, o New York Daily News publicou coluna assinada pelo rabino Marvin Hier que conclamava os líderes mundiais a “nunca mais reconstruir Gaza”, apesar do sofrimento de “muitos civis”, porque “terroristas e gente que apóia terroristas não merecem qualquer mercê por sua desumanidade, crimes e cumplicidade.” Hier é fundador e líder do Centro Simon Wiesenthal e do Museu da Tolerância. Na névoa desse esquadrão de linchamento, até organizações de defesa dos direitos humanos dedicaram-se a condenar pesadamente o Hamás.

Apesar dessas doses massivas de veneno, pesquisas de opinião pública mostraram que, embora a maioria criticasse sempre muito pesadamente o Hamás, apenas 40% dos norte-americanos aprovavam o ataque israelense; e entre os eleitores do Partido Democrata (onde há grande número de judeus), a aprovação caía a 30%. Numa dramática manifestação de independência, que fez lembrar Jimmy Carter ao publicar seu Palestine Peace Not Apartheid, um ícone liberal, Bill Moyers, criticou Israel em seu programa de grande audiência, “Bill Moyers Journal”: “Ao matar indiscriminadamente idosos, crianças, famílias inteiras, ao destruir escolas e hospitais, Israel fez exatamente o que fazem os terroristas.”

Como Carter, Moyers imediatamente se tornou também alvo preferencial de Abraham H. Foxman, que o acusou de “racismo, revisionismo histórico e complacência com terroristas”; e do professor de Direito em Harvard, Alan M. Dershowitz, que escreveu sobre a “falsa equivalência moral” que Moyers teria construído entre o terrorismo do Hamás e o exército de Israel que “inadvertidamente matou alguns poucos civis palestinos usados como escudos humanos pelo Hamás.” Mas, outra vez como Carter, Moyers não cedeu e, depois que vários outros liberais saíram em sua defesa, conseguiu emergir sem arranhões, dessa fuzilaria de críticas e calúnias.

Enquanto avançava a invasão de Gaza, e as imagens de uma carnificina chocante transmitidas ao vivo pela rede Al-Jazeera já não podiam ser ignoradas, começaram a surgir fissuras na corrente dos apoiadores de Israel ditos ‘moderados’. Sob o título de “A Solução dos Dois Estados perdeu a hora e a vez?” o programa “60 Minutos”, dos mais vistos nos EUA, levou ao ar matéria sobre colonos judeus na Cisjordânia, em que se viam “residências de famílias árabes ocupadas por soldados do exército de Israel”. A página dos editoriais do Wall Street Journal, tradicionalmente de direita, publicou artigo assinado pelo professor de Direito George E. Bisharat sob a manchete “Israel comete crimes de guerra.” Roger Cohen, colunista do New York Times e incansável defensor de Israel, confessou em várias colunas que “estou envergonhado de ver as ações de Israel”. Noutra coluna, Cohen especulava: “a continuada expansão das colônias, o bloqueio contra Gaza, o muro de separação na Cisjordânia e o recurso à tecnologia de guerra” parecem ter sido planejadas precisamente para “humilhar os palestinos, quebrar-lhes a resistência e a autoestima, até que desistam de lutar por seus sonhos legítimos de alcançar um Estado, cidadania e dignidade.”

Para Andrew Sullivan, ex-editor de New Republic e autor conservador, o ataque dos israelenses contra Gaza “está longe do que se pode considerar atitude moral (…), nessa guerra que parece ser guerra de um lado só”. E chamou de “bárbaros” os judeus de direita que defendiam “a terrível carnificina que Israel pratica hoje (financiada em parte pelos EUA).” Philip Slater, autor de The Pursuit of Loneliness, estudo sociológico, declarou que “A Faixa de Gaza é pouco diferente de um grande campo de concentração comandado por israelenses, nos quais os palestinos são perseguidos e atacados, morrem de fome, não têm nem gasolina, nem água, nem energia elétrica – não encontram nem materiais de primeiros socorros. (…) Difícil, isso sim, seria respeitar os palestinos se não reagissem, pelo menos, com alguns foguetes de fabricação caseira”.

Enquanto isso, o Conselho Municipal de Cambridge, Massachusetts, enclave liberal, que abriga a Universidade de Harvard, adotou resolução “condenando os ataques contra e a invasão de Gaza pelo exército de Israel e os ataques com rojões de fabricação caseira lançados contra a população de Israel”; e um grupo de professores universitários nos EUA lançou campanha nacional conclamando ao boicote acadêmico e cultura contra Israel. Pesquisa feita pela organização American Jews descobriu que 47% dos entrevistavam apoiavam fortemente o ataque israelense, mas – em violento contraste com a ideia de que haveria massiva solidariedade a Israel – 53% dos entrevistados mostraram-se ambivalentes: 44% aprovavam ou desaprovavam “com reservas”; e 9% declararam-se “absolutamente contrários”.

Analistas experientes da comunidade dos judeus norte-americanos já detectam “mudanças pós-Gaza”. À parte “o segmento dos mais conservadores da comunidade pró-Israel”, observou M. J. Rosenberg do Fórum Israel Policy, “poucos manifestam abertamente apoio àquela guerra. Em Nova York, cidade na qual, no passado, se reuniram multidões de 250 mil pessoas em manifestações de ‘solidariedade’ a Israel, apenas 8 mil foram a Manhattan para uma manifestação “de judeus” num domingo de sol. Em confronto público com a liderança tradicional da comunidade, organizações de judeus consideradas hegemônicas, embora menos conhecidas, como a J Street, ficaram a meio caminho e “reconhecem que nem os israelenses nem os palestinos têm qualquer monopólio dos certos e errados”; e recomendaram “que se evitem as posições estreitas de ‘nós contra eles’, em todas as questões do Oriente Médio. ”

Fundada em 2008, a organização J Street aspira a ser um contraponto liberal ao American Israel Public Affairs Committee (AIPAC). É cedo demais para saber se J Street – que trabalha atualmente numa agenda vagamente progressista, embora também se defina como “mais próxima” do Kadima, partido político israelense liderado por Tzipi Livni – chegará a firmar-se como “oposição leal” ou se aprofundará o teor das críticas contra a política israelense à medida que se aprofundar o fosso que separa os judeus norte-americanos e o atual governo de Israel.

Por sua vez, o grupo American Jews for a Just Peace divulgou manifesto conclamando os soldados israelenses “a porem fim à prática de crimes de guerra”. Outro grupo (“Judeus dizem não!”) reuniu-se em manifestação em frente da sede da Organização Sionista Mundial e dos escritórios da Agência Judia. E o grupo “Judeus contra a ocupação” distribuiu panfletos no West Side em Nova York, em que se lia “”Israel, saia de Gaza, AGORA!” Nos círculos intelectuais judeus liberais, só os apoiadores perpétuos de Israel, a maioria dos quais foram arregimentados depois da guerra de junho e já passam hoje dos 70 anos, ousaram manifestar-se em defesa da invasão de Gaza.

Para Michael Walzer, filósofo, pareceu óbvio que Israel exaurira todas as alternativas não violentas antes de atacar; e culpa do Hamás, se morreram civis. Para Walzer, a única “questão relevante” seria se Israel fez tudo que poderia ter feito para diminuir o número de baixas entre os civis.

Como sempre, para Alan M. Dershowitz, Israel “empreendeu seus melhores esforços para não matar civis”, estratégia que falhou porque o Hamas investiu na “estratégia de matar bebês”, para forçar Israel a matar crianças palestinas e, assim, conquistar a simpatia da comunidade internacional.

Também como sempre, para Martin Peretz, editor de New Republic, que examinou os sapatos dos palestinos, o bloqueio de Gaza seria benigno: “É preciso examinar os pés dos palestinos, para ver que usam tênis novos e, evidentemente, caros.”

Paul Berman entendeu como óbvia “uma possibilidade” de que o Hamás algum dia venha a promover o genocídio de judeus, “se se permitir que o Hamás continue a prosperar, e se seus aliados do Hezbollah e do governo iraniano conseguirem prosseguir com seus planos para construir bombas atômicas”. Sendo isso óbvio, Berman conclui que Israel, sim, tem todo o direito de atacar os palestinos, como medida de prevenção. (…)

Mas houve um influente contingente de intelectuais públicos liberais judeus que não se calou: a nova geração de bloggers judeus liberais e colaboradores regulares dos websites liberal-Democratas (p. ex., Salon.com e Huffington Post). Quase todos, são editores, anunciantes, patrocinadores, animadores de redes sociais, todos judeus, mas que falam por uma geração que, em larga medida amadureceu em mundo no qual a mitologia sionista já havia sido deslocada e superada por pesquisa histórica sóbria. O establishment político israelense é hoje magro e reacionário. As práticas de Israel no quesito Direitos Humanos já foram acuradamente analisadas pelos especialistas em direitos humanos.

A paranóia induzida pelo Holocausto e o ‘argumento’ do antissemitismo colidiram contra a realidade cotidiana de uma triunfante assimilação dos judeus em toda parte, da Ivy League a Wall Street, de Hollywood a Washington, do clube de campo ao altar de casamento. Profissionalmente, mentalmente e emocionalmente emancipada dos antolhos do passado, esse judeus íntimos da internet partiram para a ofensiva contra a invasão de Gaza desde o primeiro momento.

Há aí um simbolismo que não se pode ignorar. Onde os apologistas mais linha-dura a favor de Israel, como Walzer, Dershowitz e Peretz embarcam ainda no barco dos sionistas, os mais jovens, uma geração de intelectuais públicos judeus que hoje fazem nome e currículos na internet já saltaram dele. “Tenho pena deles, que desprezam sua herança”, sibilou Peretz. “São fedelhos barulhentos.”

Aqui estão alguns dos fedelhos barulhentos, representados por mensagens redigidas por eles.

Ezra Klein (25 anos; blogueiro da página American Prospect), em msg postada no 2º dia da invasão de Gaza: “Os rojões lançados pelos palestinos com certeza “perturbam profundamente” os israelenses. Os postos de controle, os bloqueios nas estradas, a restrição ao direito de ir e vir, a desesperadora falta de empregos, a opressão cada dia mais cruel, as humilhações diárias, as colônias ilegais – desculpem, “os assentamentos” – tudo isso perturba muito mais profundamente os palestinos; e são agressão muito mais grave. E os 300 palestinos mortos, esses, então, nos deveriam perturbar mais profundamente, a todos.”

Adam Horowitz (35 anos; blogueiro de Mondoweiss) escreveu, no 4º dia da invasão, em resposta à coluna de Benny Morris no New York Times: “É evidente que ele só vê as reações, não a causa. Lista respostas a Israel e a ininterrupta colonização da Palestina histórica, sem mencionar que há um elefante na sala; que, se Israel está encurralada, foi Israel quem buscou essa situação.”

Matthew Yglesias (28 anos; blogueiro de Think Progress) escreveu, no 6º dia: “Enquanto Israel diz que quer deixar os palestinos em paz em seu enclave minúsculo, superpovoado, economicamente inviável, o ‘desengajamento’ de Gaza [em 2005] jamais significou que os palestinos passariam a controlar suas fronteiras ou exercer qualquer soberania significativa sobre a área. A proposta, de fato, foi clara: os palestinos abdicam da violência armada contra Israel e, em troca, a Faixa de Gaza será tratada como reserva de índios.”

Dana Goldstein (24 anos; blogueira de American Prospect) escreveu, no 12º dia: “Quero ainda acreditar que a experiência histórica, coletiva do judaísmo e do sionismo pode levar a alguma coisa melhor – algo mais humano – do que o que vi no Oriente Médio semana passada!”.

Glenn Greenwald (42 anos; blogueiro de Salon.com) escreveu no 13º dia: “Não é uma guerra. É o massacre de um lado pelo outro”. E depois, dia 30/1/2010: “É simplesmente impossível fazer progresso real nos objetivos domésticos de restaurar a Constituição e reverter as expansões militares e de espionagem dos israelenses, se, simultaneamente, continuarmos a apoiar cegamente as muitas guerras de Israel (porque acabamos nos afundando, nós mesmos, naquelas guerras).”

Dia 20/2/2009, Greenwald respondeu insinuação de Jeffrey Goldberg de que ele seria “odiador de judeus”, “carrasco de Israel”:

“Pessoas como Jeffrey Goldberg” (…) respondeu Greenwald, “já abusaram, manipularam, exploraram tanto as acusações de “odiador de judeus”, “carrasco de Israel” e acusações de ‘antissemitismo’, sempre para fins desavergonhadamente pessoais, sempre impróprios, que, hoje, aquelas expressões já nada significam, perderam todo o conteúdo crítico, foram trivializadas até se converterem em caricaturas. (…). De fato, pessoas como Goldberg vão se tornando cada vez mais ácidas, mais rançosas, mais agressivas naquela sua retórica, precisamente porque sabem que seus aparelhos de sevícia e tortura retóricas já não servem para nada.” (…) “Há mudança definitiva e importante nos debates políticos nos EUA sobre Israel”, concluiu Greenwald. “Eles já não conseguem semear cada vez mais discórdia com suas táticas de intimidação; e já sabem disso; por isso é que subiram o volume dos seus ataques e dos palavrões e xingamentos. A devastação de Gaza pelos israelenses, contra uma população civil cercada – e usando bombas, dinheiro e cobertura diplomática dos EUA – foi tão brutal e horrenda que mudou para sempre o modo como o mundo vê o conflito no Oriente Médio”. (…)

A metamorfose generacional em relação a Israel é ainda mais evidente nos campi universitários. “Em alguns campi universitários houve mudança profunda em direção a sentimentos mais claramente pró-palestinos ou anti-Israel”, lia-se no Inside Higher Ed, que continua: “Essa mudança foi provocada, em parte, pela guerra do último inverno em Gaza”. Anfiteatros lotados para assistir palestras de comentaristas que se opunham firmemente ao massacre dos habitantes de Gaza. Os grupos ‘pró’-Israel manifestavam dentro dos anfiteatros ou à entrada, sempre grupos pequenos, muitos dos quais nem foram vistos.

Alunos da Cornell University atapetaram as trilhas do campus com 1.300 bandeiras negras, uma para cada palestino morto em Gaza. (Depois, a instalação foi depredada.)

Nas universidades de Rochester, de Massachusetts, de New York, na Columbia University, no Haverford College, no Bryn Mawr College e no Hampshire College, os alunos organizaram abaixo-assinados, manifestações e ocupações [ing. sit-ins] exigindo que se oferecessem bolsas de estudo para alunos palestinos e ações de desinvestimento em indústrias fabricantes de armas e empresas que negociassem com as colônias ilegais exclusivas para judeus. No Hampshire College, os alunos conseguiram que os acionistas e patrocinadores da escola se manifestassem a favor de desinvestir em corporações norte-americanas que auferissem lucros diretamente da ocupação da Palestina.

Embora as organizações ‘pró’-Israel tenham repetido que “colégios e universidades (…) tornaram-se caldo de cultura para o crescimento de uma nova cepa de antissemitismo”, em praticamente todas as principais instituições os alunos judeus participaram ativamente das manifestações pró-palestinos, em comitês locais de “Estudantes pela Justiça para a Palestina” e de “Anarquistas na luta contra o Muro” [ing. Anarchists Against the Wall, além de participações individuais, como de Anna Baltzer, autora de “Testemunha na Palestina”, que visitou várias escolas, para falar pessoalmente do que vira acontecendo na Palestina.

Os laços de solidariedade que se criaram entre jovens judeus e jovens muçulmanos que se opõem à ocupação – em várias universidades, os grupos mais militantes reúnem radicais judeus não-religiosos e mulheres muçulmanas – permitem ter esperança de que será possível construir uma paz duradoura.

Depois de uma palestra que fiz numa universidade canadense, sobre o massacre de Gaza, recebi de presente dos organizadores um broche em que se lia “I ♥ GAZA.” Prendi o broche na minha mochila e parti para a aeroporto. Na fila para o embarque, um passageiro atrás de mim disse-me baixinho “Gosto do seu broche”. Vejam só, pensei eu, the times they are a-changing, como cantou Bob Dylan. Horas depois, pedi um copo d’água ao comissário de bordo. Ao me servir a água, o rapaz curvou-se e disse “Gosto do seu broche”. Hmm, pensei comigo, alguma coisa já está acontecendo por aqui.

* Nota dos editores:

Esse artigo é excerto de um capítulo do novo livro de Norman Finkelstein sobre o conflito de Gaza, This Time We Went Too Far – Truth and Consequences of the Gaza Invasion, publicado esse mês pela editora OR Books. Para comprar o livro, visite http://www.orbooks.com/. O livro não está à venda em livrarias nem em distribuidores de livros por internet.

[1] Em http://www.acbp.net/About/PDF/ARTICLE-Second%20thoughts%20about%20the%20Promised%20Land.pdf

[2] Organização de judeus, ativa em todos os campus universitários em todo o mundo; para conhecer, por exemplo, o Hillel de São Paulo, ver http://www.hillel.org/about/news/2003/20030520_new.htm

O artigo original, em inglês, pode ser lido aqui.

Tradução de Caia Fittipaldi

Artigo originário do Vi o Mundo.


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sábado, março 20, 2010

Sobre dirigir bêbado em Jerusalém

Sobre dirigir bêbado em Jerusalém


O título deste texto remete para artigo de Thomas Friedman, publicado no The New York Times, e reproduzido no Terra Magazine.


No tal artigo, Friedman comenta a recente humilhação imposta ao vice-presidente pelo governo de Israel, fala dos requisitos para que a paz entre Israel e os palestinos seja alcançada, e comenta que o atual primeiro-ministro Benyamin Netanyahu tem a possibilidade de entrar para a história, se tomar uma iniciativa no sentido de alcançar a paz com os palestinos e permitir a criação de um estado palestino, ou passar à história como, talvez, uma nota de rodapé.


Talvez Friedman não tenha notado, mas este governo de Israel não parece nem um pouco interessado em paz com os palestinos. E me parece que o tal ministro do interior de Israel que anunciou a construção de 1.600 casas para judeus em Jerusalém Oriental (Jerusalém Oriental deveria ser a parte de Jerusalém habitada majoritariamente por árabes) e seu partido, simplesmente acreditam que toda a antiga Palestina, da margem oriental do Mediterrâneo à margem ocidental do rio Jordão pertence a Israel, terra dada por Deus. Ponto. Assim, negociar o que com palestinos?


Então Israel se encaminha para tomar todas as terras da Palestina, e incorporar uma minoria de mais 2,5 milhões de palestinos ao seu estado. Ou talvez o pessoal do ministério do interior pense em deportar toda esta gente, uma nova limpeza étnica como a que resultou do final do conflito de independência em 1948. Aos 2,5 milhões de palestinos devem se somar os 1,6 milhão de árabes israelenses. Teríamos assim, uma minoria de 40% da população sem ascendência judia, num estado que deveria ser o lar do povo judeu. Esta minoria terá (tem) menos direitos que os judeus. Isto não deve acabar bem.


Ou bem Israel se transformará numa democracia para todos, perdendo seu caráter de “estado judeu”, ou se transformará em algo como era a África do Sul do apartheid. Ou algo como foi a Libéria, esta muito menos comentada. Ou seja, não deve acabar bem.


Israel tem um apoio incondicional dos Estados Unidos, devido em parte à importante comunidade judaica dos Estados Unidos; e também ao apoio ao Estado de Israel por parte da direita evangélica, que afinal vê o surgimento de Israel como desígnio divino e sinal de cumprimento de profecias contidas na Bíblia.


Talvez com tal apoio, o pessoal do ministério do interior de Israel acredite que não há nada que os possa deter, e que o destino de Israel é ser dono de toda a antiga Palestina mesmo. E que se o caldo engrossar, pode ser que o Messias venha e intervenha, e uma real teocracia venha a reger o mundo.


Mas nas atuais condições, os caminhos da má política de Israel não deve levar a um bom final.



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