quarta-feira, outubro 27, 2010

De repente, a morte - Romeu Tuma, Nestor Kirchner

Nestes últimos dois dias fomos surpreendidos pela morte de dois personagens ilustres.

Ontem faleceu o senador e ex-delegado Romeu Tuma. No caso de Tuma, a morte não chega tão repentinamente assim. O senador estava internado faz algum tempo, e um portal de notícias havia divulgado sua morte tempos atrás numa barriga que não chegou a ser desmentida com o mesmo destaque da então falsa notícia de morte. O senador tinha 79 anos, e se notabilizou por ser chefe do Dops de São Paulo, no final da década de 1970, o que lançou uma certa sombra de dúvida sobre o senador nestes últimos dias. Também desempenhou o cargo de chefe da Polícia Federal no governo Sarney, e de secretário da Receita Federal. Exercia o mandato de senador desde 1994.

Mais do que o falecimento do senador Romeu Tuma, foi a notícia hoje, no final da manhã do falecimento do ex-presidente argentino, e atual secretário da Unasul, Nestor Kirchner. Kirchner foi o presidente que veio restabelecer certo equilíbrio sobre a Argentina, após o caos que se abateu sobre o país vizinho após o governo Menem. De La Rua foi eleito, mas renunciou diante de grave crise econômica decorrente da conversibilidade peso-dólar que vigorara no governo anterior. Em seguida, três presidentes se sucederam rapidamente tentando achar uma solução. A coisa mais próxima de uma solução no caso da Argentina acabou por ser a eleição de Kirchner em 2003. Kirchner acabou por renegociar uma dívida externa, que até hoje é contestada por alguns credores. E sua esposa, Cristina Fernandez, acabou por sucedê-lo. Após passar mal, foi levado ao hospital, onde veio a falecer, em El Calafate, no sul da Argentina. A notícia do IG, dá contas de lamentações por parte de praticamente todos os dirigentes dos países da América do Sul.


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quinta-feira, outubro 21, 2010

Os números e o futuro

Os números e o futuro


Desde a Antiguidade, os homens voltam-se aos números para tentar desvendar o futuro. Talvez haja alguma sabedoria neste comportamento. Podemos testá-lo perguntando aos números como será o Brasil depois desta eleição presidencial.
Analisemos a hipótese do candidato oposicionista, José Serra, ganhar. Seu partido conseguiu eleger apenas 53 deputados. Os outros partidos que o apoiam (DEM, PPS, PMN e PT do B) conseguiram 62 deputados. Não se vai muito longe com uma base de 115 deputados em uma Câmara com 513 membros.
Será necessário compor com partidos que fizeram parte da coligação do governo, como PMDB, PP e PR. Partidos conhecidos pelo seu perfil radicalmente fisiológico.
Políticos costumam dizer que não fazem loteamento de cargos, que são capazes de tecer alianças programáticas com os "melhores" de cada partido. Qualquer pessoa sensata, ao contrário, sabe que partidos como estes cobrarão muito alto para dar sustentação parlamentar ao governo, já que eles sabem que a maioria governista será frágil.
Todas as vezes que uma proposta importante for votada, eles colocarão a faca contra a garganta do Executivo para exigir mais um ministério de "porteira fechada".
Ainda mais porque haverá uma forte oposição (se levarmos em conta o PT mais os partidos que giram em torno dele, como o PC do B, PSB e PDT) de 165 deputados.
A situação no Senado é mais dramática, pois o possível governo Serra teria apenas 19 de 81 senadores.
Tais números, por si só, indicariam um governo refém de negociações intermináveis.
No entanto, há ainda um dado novo. É consenso que o vencedor desta eleição ganhará por margem estreita. Isto nunca ocorreu desde a redemocratização. Ou seja, a sociedade brasileira assistiria à posse do próximo presidente dividida e (a levar em conta o nível do debate atual) profundamente acirrada.
Serra teria que fazer frente à oposição popular, vinda de quem perdeu por muito pouco, apelando sistematicamente àqueles setores que impulsionaram sua campanha na reta final -a saber, a ala mais reacionária das igrejas, o "cinturão do agronegócio" e os arautos do pensamento conservador nacional. Ou seja, um governo minoritário refém de setores obscuros do atraso para fazer frente à oposição.
Mas ainda há algo que os números não mostram. Mesmo entre seus aliados, é consenso que a personalidade de José Serra é, digamos, bonapartista. Caracterizado por ser centralizador e avesso à crítica (basta ver sua coleção de reações destemperadas a jornalistas que lhe colocam perguntas incômodas), José Serra mostrou inabilidade até para sustentar sua coligação (o PTB a abandonou por se sentir desprestigiado). Sua capacidade de negociação é limitada, vide a novela da escolha de seu vice.
Governo minoritário, sociedade acirrada, presidente bonapartista. Desde a eleição de Fernando Collor, o Brasil não conheceu uma situação com tais componentes. Para não deixar muito à mostra esta realidade problemática que os números mostram, talvez o melhor seja mesmo discutir crenças religiosas e correr atrás de mulheres que abortam.

Texto de Vladimir Safatle, na Folha de São Paulo, de 18 de outubro de 2010.

Estas colunas do Vladimir Safatle têm se mostrado fundamentais no presente contexto político brasileiro.


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domingo, outubro 03, 2010

A pizza e o strogonoff

A pizza e o strogonoff

EM BRASÍLIA, o clima tem sido denso de fofocas, expressão popular que os comentaristas políticos, sérios, conspícuos, traduzem por "tensão". E aqui entre nós, as tensões têm sido muitas e graves: quebra de sigilo na Receita Federal, escândalos na Casa Civil, longuíssima e inútil discussão no Supremo Tribunal Federal sobre a lei da Ficha Limpa, nepotismo diversificado e, menos recente, o mensalão envolvendo parlamentares, prisão de políticos, desentupido tráfico de influência, corrupção em várias modalidades e por aí vai.
Como se não bastassem as tensões brasílicas, fatos e versões vindos de outras praças fazem o rei, o clero e o povo ficarem assanhados: previdência social deficitária, restrições à liberdade de imprensa, possibilidade de um segundo turno, Tiririca garantindo que terá 1 milhão de votos, o último debate na TV seria sangrento e decisivo, o diabo.
O mais interessante é que, em Brasília, todo mundo é bem-informado. E ninguém fica realmente alarmado. Sou do tempo em que o Rio era a capital federal, e uma fofoca na rua do Ouvidor, um incidente no Golden Room do Copacabana Palace ou uma dor de barriga mais virulenta no líder do governo faziam o país estremecer, os tanques desciam da Vila Militar, o líder da oposição subia à tribuna no grande expediente e declarava, aos berros ou em prantos, que o país estava à beira do caos, a pátria finalmente precipitada no abismo.
Os jornais tiravam edições extras, os editorialistas desciam o pau em cima do governo ou da oposição (conforme a linha editorial do próprio) e, ao fim da tarde, à hora da ave-maria, o cardeal vinha ao rádio pedir cordura e paz à família brasileira tão gravemente ameaçada pelas forças do mal.
No dia seguinte, tudo continuava em paz, o desarmamento dos espíritos funcionara durante a noite, mas sempre ficava um tanque enguiçado, aí pelas alturas da avenida Brasil. As velhas máquinas de guerra não aguentavam a barra, as saídas intempestivas, a desoras, para salvar o regime e as instituições. Entupiam-se os carburadores, quebravam-se molas, rompiam-se esteiras, o ministro do Exército aproveitava a ocasião e solicitava mais verbas para o reaparelhamento das Forças Armadas, mesmo sem qualquer perspectiva de guerra no horizonte pátrio. Uma simples e pacífica viagem do Realengo à Praça Mauá provocava terríveis baixas em nosso bélico equipamento.
Em Brasília não tem nada disso. O clima é tenso, a dívida é alta, os juros altíssimos, ninguém sabe onde está a saída -e parece que ninguém quer sair de lugar nenhum. Mas, à noite, vão todos aos coquetéis, às recepções e às homenagens a isso ou àquilo. A capital federal é, de longe, a cidade que mais importância dá a essas reuniões provincianas, onde depois dos discursos e canapés com palito espetando as azeitonas, serve-se um jantar dançante à base de "Moonlight Serenade", o foco de luz multicolorido passeando pelo salão para dar clima de musical da Metro dos anos 50.
Não se trata de saudosismo nem de patriotismo deficiente. Mas prefiro os tempos das crises mais cruas, que traziam o Regimento Sampaio para acampar na praça da República, faziam os rádios tocar os dobrados militares de praxe, os jornais vendiam mais e tudo terminava deixando no ar a necessidade de uma nova crise para consertar as coisas.
Nada se resolvia, todos permaneciam nas posições em que estavam. Não é necessário citar "O Leopardo" de Lampedusa: é preciso de vez em quando agitar as coisas para que tudo continue como sempre.
Naquele tempo, a pizza ainda não havia entrado no mercado, de maneira que tudo terminava em strogonoff, iguaria então recente e que estava em moda. Era, segundo se dizia na época, de particular estima das esposas dos oficiais do Estado-Maior.
Havia até mesmo uma teoria sociológica para explicar o apego dos militares pelos cargos públicos: provado uma vez, o strogonoff subia ao patamar de símbolo do poder. Rasgavam a Constituição para terem direito permanente ao prato que só era servido na boate Vogue, trazido para nossas plagas pelo barão von Stuckart, barão não sei de onde, acho que do império austríaco.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 1º de outubro de 2010.

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sábado, outubro 02, 2010

Religião e política

Religião e Política

Vejo há algum tempo o “desconforto” que setores da imprensa, justamente os mais fortes, e o segmento da sociedade que eles representam, sentem com o atual presidente da república. Isso explica a agressividade com que ambos, imprensa e esse segmento da sociedade, o trataram ao longo dos seus dois mandatos.

Não esperava, porém, que essa rejeição chegasse aos níveis atuais e explico porque. Falar da condição que o Brasil ostenta perante o mundo seria perda de tempo: todo o mundo sabe disso. Quero falar de outro aspecto.

O atual presidente da república, todos sabemos, não possui o linguajar e o fino trato dos doutores, das pessoas de bem desse país, o que faz com que ele não pertença a aquilo que se chama de elite brasileira.

A rigor, não existe uma elite, existem elites. Elite intelectual, social..., e em alguns casos as pessoas se põem como membros de mais de uma delas. O atual presidente da república não pertence a elas. Não se pode conceber como membro de uma elite um homem com a sua formação.

a-se imaginar que os membros da elite são, digamos, pessoas especiais, de saber, de fino trato. Nesse sentido, a minha decepção não vem de agora. Sempre me causa estranheza, e profunda irritação, que, por exemplo, ao deixarem os seus filhos nas escolas, os pais parem/estacionem os carros sem nenhuma preocupação com regras elementares de cidadania, no caso específico educação no trânsito. São escolas particulares, para pessoas de boa condição financeira, são carros caros, pessoas com formação superior (elite financeira e social), mas, ali, “elevam-se” à condição de seres com educação primária. Não importa, são membros da elite.

Pela convivência em nome da sociabilidade, isso é aturado no dia-a-dia todos os dias, todas as semanas, todos os meses, todos os anos. Diante dessa convivência tão intensa, não fica difícil imaginar que nos tornamos craques no trato social, com um altíssimo preço a pagar. Não sou um craque, mas tenho feito os meus gols.

Recentemente, porém, tenho tido forte impressão de que as elites abandonaram qualquer vínculo com a civilidade, e vivem os seus melhores tempos de instintos primários, sem controle.

Na atual campanha política para a presidência da república, particularmente esta, o comportamento assumido pelos setores mais elitizados da sociedade não beira, chegou ao que há de mais inferior, de mais sub-mundo. Pior ainda, não teve nenhum pudor em usar qualquer possibilidade que lhe surgisse à frente. A radicalização foi absoluta.

Confesso que aceitaria, não de bom grado, que esse comportamento se manifestasse nas pessoas tidas como sem nenhuma formação, ou mesmo naquelas de formação precária. Não, ele tem origem justamente naquelas classes tidas como superiores.

E foi a partir desses setores que essas manifestações se disseminaram pelos diversos segmentos da sociedade, inclusive o religioso, com uma virulência jamais vista. Católicos, evangélicos, todos foram igualmente envolvidos numa perseguição a uma mulher.

De membro de uma corja de patifes, passando por cafajeste, terrorista, assassina, matadora de criancinhas, a sexualmente pervertida, ela já foi chamada. Não quero falar da inexistência de qualquer documento que desse o mínimo de respaldo a afirmativas tão violentas a um ser humano. Não é sobre isso que quero falar. Neste momento, saio da discussão político/social e me permito seguir outro caminho.

À minha mente só chega um sentimento, o de absoluta perplexidade. Como nós, católicos, evangélicos, espíritas, todos nós, independente da opção religiosa, ligados a um mundo espiritual, nos deixamos levar tão facilmente por sentimentos de ira, perseguição, destruição de um ser humano, ainda mais quando esse ser humano é uma mulher. A mulher, o mais sublime dos seres, porque ela é a mãe de todos nós.

Particularmente na Internet, “correntes” foram criadas para acorrentar uma mulher ao preconceito, à ira, à perseguição, aos mais baixos sentimentos do ser humano, sentimentos esses absolutamente incompatíveis com a religiosidade do brasileiro.

Induzidos por poderosíssimos meios de comunicação, perdemos o que tínhamos de melhor; a boa fé, a bondade, o afeto e respeito às pessoas. Induzidos por poderosíssimos meios de comunicação, pisamos em importante preceito de Deus, quando Ele diz que “não darás falso testemunho contra o teu próximo”.

Qual é o princípio básico da lei de Deus? A Bíblia diz em Romanos 13:10 “O que ama ao seu próximo não lhe faz nenhum mal. Pois o amor é o cumprimento total da lei.” Ao pregarem sentimentos de condenação e revolta, padres e pastores se afastaram da Palavra de Deus. Passaram a pregar a palavra do homem.

Somos todos pecadores. Não nos cabe, com todos os nossos pecados, assumir o papel do Criador. Só Ele pode julgar os homens e mulheres.

Que todos possamos escolher e votar nos nossos candidatos, permitindo e respeitando a escolha de cada um, esse é o nosso papel. Mas com o pensamento voltado para Deus. Não pequemos mais do que já o fazemos. E que Ele nos perdoe por esse momento em que nos esquecemos inteiramente das Suas palavras.


Texto atribuído a Ronaldo Souza, visto no blog do Luís Nassif.

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segunda-feira, setembro 27, 2010

A política segundo Ruy Fausto

RESPOSTAS A UMA ENTREVISTA

Tomei distância em relação ao PT por causa do escândalo chamado de “mensalão”, e de outros casos ainda mais graves e tenebrosos. O que é o PT? Há algum tempo, meu colega André Singer, jornalista e ex-´portavoz do governo, escreveu um artigo sobre o tema, publicado na revista do Cebrap, artigo do qual se falou bastante. O texto, bastante rigoroso, era centrado numa análise das bases de classe do PT, e se apoiava em textos clássicos, como o 18 de Brumário, de Marx, e também em Gramsci. Ora, acho que se a elucidação do que é o PT deve passar por esse tipo de investigação focalizada nas relações entre as classes, ela não pode ficar nisso. A observação vale, também, para o caso de outros partidos brasileiros.

Que é o PT?

Acho que ele é muitas coisas. Por um lado, o que já complica, o PT é ele mesmo, e o Lula... Depois, dentro dele, existem, creio, pelo menos três elementos. Há ainda, lá dentro, grupos bastante radicais, cujos projetos, como sempre, não estão isentos de ilusões com as formas autoritárias (ou néo-totalitárias) de governo. Há, em segundo lugar, grupos empenhados em reformas, e com uma consciência democrática suficientemente arraigada. Há, em terceiro lugar, os setores que, na falta de um termo melhor, deveríamos chamar de “máfias”. O PT é, a meu ver, isso tudo. E, sendo assim, se uma análise das bases de classe do partido é válida e até (entre outras coisas) se impõe, ela evidentemente não dá conta de tudo o que existe no PT, principalmente do “terceiro elemento”.

No 18 Brumário de Brumário de Marx há lugar para as máfias, mas finalmente eles giram na superfície do que seria, essencialmente, um conflito de classes. Ora, isso representa uma limitação, para analisar uma experiência como a brasileira. Sem dúvida, as máfias atuam sobre o fundo de uma sociedade em que existem classes e diferenças de classe. Mas eu diria que seu movimento é, de certo modo, autônomo. Ou, mais precisamente, que elas apontam, antes de mais nada, para elas mesmas. Para isso, é necessário em primeiro lugar, que se fale delas (nas análises mais sofisticadas, por incrível que pareça, elas, freqüentemente, são pura e simplesmente esquecidas). Que se pode dizer hoje do PT? Que empurrado pelo que ele tem de melhor (e esse melhor “corta” tendências e personagens), ele pôs em prática programas sociais que deram certo, embora em escala limitada. É preciso ressaltar esse fato, e lutar para que esses programas sejam mantidos e ampliados. Mas ao mesmo tempo, deve-se dizer que não só eles vêm junto com uma política econômica que, sob certos aspectos, é contestável, mas que eles coexistem com o fenômeno do peso crescente de grupos suspeitos (e até pior do que isto) dentro do partido ou no perímetro das suas alianças. Dilma continuará a implementar as medidas econômicas populares do governo Lula. Muito bem. Mas, com Dilma, sobe ao poder, embora não só ele, um grupo ou grupos bem conhecidos pela vontade com que lidam com o dinheiro público, e pela “desenvoltura” dos seus métodos. Por outro lado, Dilma seria eleita em aliança com o PMDB, e com um candidato a vice sobre o qual se poderia dizer algumas coisas. Outro problema é o da política externa do PT. Não vejo como parte da esquerda pode se entusiasmar com essa política. Ela remete a um pretenso “anti-imperialismo” que cultiva gente do tipo de Ahmadinejad, alguém que metralha manifestantes, apedreja mulheres, falsifica eleições etc etc. E ela conduz o nosso presidente a comparar dissidentes cubanos com bandidos.

O provável novo governo petista continuará nessa via desastrosa? Dito isto, que atitude tomar diante da candidatura Dilma?

Manter e ampliar programas como a bolsa família, o micro-crédito etc é muito desejável, mas o peso político que ganharão certos grupos (agravado por uma vice-presidência entregue ao PMDB) é real. E não temos garantias de que a política externa de Dilma será mais atenta à crítica dos despotismos pretensamente socialistas ou terceiromundistas. O julgamento da candidata depende do peso relativo que se dê a cada um desses fatores. Mas é preciso analisar também os outros candidatos. Não sei se vale a pena continuar falando do PT, porque, como já disse, é impossível falar desse partido, e da sua candidata (e avaliá-los), sem comentar os outros partidos e candidatos.

Que tal se passarmos a esses temas? Voltaríamos depois ao PT, se houver tempo e espaço.

- Serra não é mais um homem de esquerda (foi ele mesmo que o disse), ele é mais ou menos um homem de centro. Isto, quanto a ele. Porque a sua candidatura, acho que ela pode ser considerada como uma candidatura de direita. Em primeiro lugar, houve, já antes do processo eleitoral, uma polarização de forças, e o conjuntos das forças sociais e políticas, digamos, conservadoras se concentraram em torno de partidos como o Dem e também o PSDB. Este já foi um partido de centro-esquerda, mas quaisquer que sejam as convicções de alguns, ou vários dos seus membros, ele não é mais de centro-esquerda. Isto significa, por um lado, que, mesmo que ele se comprometa a continuar certos programas postos em prática pelo governo Lula, um governo Serra teria muito menos, digamos, vocação para realizar políticas econômicas que ajudem os mais pobres. E isso no Brasil é urgente.

Porém, há uma coisa que me preocupa mais nesses partidos, PSDB inclusive. Fora o fato de que em matéria de “gente duvidosa” eles não ficam atrás do PT, existe hoje uma mobilização da extrema-direita, que se faz na periferia, senão no interior desses partidos. Dir-se-á que esse gente tem pouco peso, e no momento atual, não é uma real ameaça.

Mas, cuidado. Por trás de certo jornalismo de sarjeta, que se manifesta com a sua “finura” bem conhecida na campanha eleitoral, há dinheiro, instrumentos midiáticos, há o peso de seitas religiosas do tipo “Opus Dei” etc. Toco nesse assunto, porque, embora isto não seja ainda muito visível, existe, evidentemente, em escala mundial, uma reorganização da extrema-direita, cujo cerne é o movimento neo-conservador (seus membros são freqüentemente ex-gauchistas que inverteram os sinais). Ele atua nos EUA (articulando ex-gauchistas com mafiosos do tipo Karl Rove), mas também na Europa. Penetra na administração, nos partidos, e também nas universidades. Sua ideologia é uma mistura de “fanatismo do progresso” e fideismo medieval.

Ele explora essencialmente dois pontos fracos de parte da esquerda (ele só os vê na esquerda e não na direita e nele mesmo): as inclinações totalitárias, e a corrupção. Que aqueles que encarnam no Brasil essa tendência se movam em torno (ou mesmo dentro), de partidos que incluem um ex-partido de centro-esquerda como o PSDB, é um pouco assustador, embora o perigo não seja imediato. Mas importa registrá-lo, porque a médio prazo ele será efetivo.

A rigor, não é grave que um partido fique muito tempo no poder, isto se as regras democráticas forem respeitadas. O que se deve e pode fazer é: 1) denunciar toda eventual derrapagem institucional do eventual novo governo petista; 2) não embarcar na canoa da direita e principalmente da extrema-direita, que fará tudo para denunciar também conspirações inexistentes, em proveito próprio.

Complicado?

É complicado, mas uma política lúcida tem que responder à complicação do mundo.

Há três elementos essenciais. Combate pela defesa da democracia, em prol da crítica do capitalismo e contra a corrupção.

Mas primeiro preferiria completar o quadro da análise dos candidatos.

Plínio Arruda Sampaio consegue brilhar na TV, arranhando os adversários com críticas ao capitalismo nacional e mundial. Muito bem. Que Plínio inclua no seu programa pontos como a redução da jornada de trabalho, é positivo. Mas a visão global de Plínio, conhecemos. Ele é capaz de fazer as críticas mais detalhadas e sutis ao capitalismo, mas diante dos novos regimes de opressão e exploração, que surgiram há quase um século, e que não desapareceram da história (mesmo se sobrevivem, muitas vezes, em forma muito modificada), em relação a estes, Plínio e os seus amigos são de uma cegueira total. Eles crêem no que dizem os representantes destes regimes com a candura com que os ideólogos do capitalismo ocidental acreditam no democratismo de Bush. Para Plínio, é Marx na terra, e Deus (e Cristo) no céu. Dogmatismo que só prepara catástrofes. O paradoxo é que ele seria um melhor homem de esquerda se fosse mais sensível a certos temas que em principio são caros aos cristãos (respeito aos direitos do homem - também no plano internacional, luta contra a corrupção) e menos apreciador dessa iguaria indigesta que é o marxismo dogmático.

- Marina poderia ser a melhor candidata. Tem o mérito de ser de esquerda (ela o é, sem dúvida), e se revelar ao mesmo tempo anti-totalitária e anti-corrupção. Um dos seus pontos fracos é conhecido: sua religiosidade bastante tradicional. Outra coisa, e mais grave, é o que se passa com o partido verde. Se Marina se mostrasse (se mostrar) capaz de denunciar leilões de legendas e outros coisas desse tipo, que lá vicejam,ela seria, apesar de tudo, o melhor dos candidatos. - O novo governo deve continuar um programa de reformas. Em princípio, não creio que ameaçará internamente a democracia, embora no plano externo, eu não seja otimista quanto ao caminho que seguirá. O capítulo corrupção é certamente o mais pesado, mas é difícil prever.

Tentando resumir e generalizar. Aqueles três pontos, representam certamente as questões fundamentais. Nenhum deles é primeiro em relação aos outros. Eles se completam e se reforçam mutuamente. Um ponto que interessa diretamente a esses três elementos são as questões ligadas ao imposto de renda. A luta contra a sonegação, e a necessária alteração das cargas tributárias de maneira a beneficiar os mais pobres, abririam perspectivas muito favoráveis no programa da redução das desigualdades, na luta contra a corrupção, e no reforço da democracia.

Duas palavras finais sobre a corrupção. Sem dúvida, ela se encaixa mal nos velhos esquemas explicativos da esquerda tradicional. No artigo sobre o PT, a que me referi no início, a luta contra a corrupção entra de forma apenas adjetiva e sociologizante, como anseio (sempre suspeito) da classe média, ou como motivo de mobilização da direita. A análise intrínseca do que representa um partido que se pretende de esquerda mas que, ao mesmo tempo, tolera (para não dizer mais) a corrupção, está ausente.

Corrupção existe em todo lugar. Mas ela tem duas características inquietantes no Brasil. Uma, precisamente, é a de que ela atinge a fundo também os partidos de esquerda (na Europa, não é bem assim, há alguma corrupção também à esquerda, mas não dessa ordem). O outro é que se desenvolveu dentro da esquerda uma ideologia de tolerância “geral” em relação a tais práticas. E, mutatis mutandis, isso vale para todos os terrenos, grande política, universidade, vida pessoal. Aqui não é o lugar para dizer tudo o que teria a dizer sobre esse tema a propósito da universidade, ou mais precisamente, a propósito dos concursos universitários (não de todos). Disse-o numa entrevista à TV Escola, que dei no Rio há um ano (espero que a passagem não tenha desaparecido na versão final).

Para terminar, observo, voltando à grande política, que, além de outros méritos, uma mudança de atitude no campo da luta anti-corrupção daria a sustentação política necessária para promover reformas mais radicais do que as que se vai fazendo até aqui. Há sinais, aliás, de que uma mudança como essa poderá vir a ocorrer ou de que já esteja ocorrendo, penso numa campanha popular recente, que teve êxito e deu origem a um projeto de lei, hoje em vigor.


Visto no blog do Luís Nassif.

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Pior do que está fica

Pior do que está fica


HÁ ALGUM TEMPO, passei as festas de fim de ano no litoral sul do Rio de Janeiro. No dia de voltar, acordei com a notícia de que um conflito entre traficantes rivais havia fechado as vias de acesso à capital. O noticiário aconselhava a população a não retornar para casa.
Foi em uma peça baseada no livro de Luiz Eduardo Soares, secretário de Segurança na época do fatídico Réveillon, que fui apresentada à suposta gravidade maquiavélica dos bastidores daquela ação.
Não sei o quanto "Tropa de Elite 2" vai se basear no que assisti em cena. Segundo a ficção teatral, o personagem de Luiz Eduardo ordenou a ocupação da rendosa favela da Rocinha pelo Bope.
Para tirá-lo de lá, a própria chefia da polícia provocou uma guerra entre facções contrárias na região metropolitana do Grande Rio, obrigando a tropa de choque a se retirar do morro da zona sul para controlar a violência na periferia.
Sem a presença do Bope, o tráfico se restabeleceu na Rocinha e, junto com ele, o esquema de propina das delegacias cariocas. Existia fundamento naquela barbárie.
Toda vez que um pleito se aproxima, o Rio de Janeiro sofre uma abrupta onda de cólera e irracionalidade. Neste ano não foi diferente.
Arrastões e ataques de porte a postos policiais voltaram a nos deixar de orelha em pé.
Quando assisti as imagens da troca de tiros e granadas entre um bonde de mercenários ligados ao traficante Nem e policiais ação que culminou com a invasão do Hotel Intercontinental em São Conrado lembrei do incidente do Bope e me perguntei se não havia motivação política por trás da bestialidade.
O Rio deve reeleger um governo cujo secretário de segurança, José Mariano Beltrame, reduziu o território sob controle de traficantes armados.
Semear o pânico, entre outras utilidades, exibe poder, diminui os feitos do opositor, ou os liquida com simples atentados.
Marcelo Freixo, deputado empenhado na luta contra a insanidade bélica do Rio de Janeiro, tem grandes chances de não se reeleger.
Se isso acontecer, perderá a proteção oficial que já desbaratou cinco tentativas de assassinato contra ele e terá que deixar o país.
Já Tiririca será eleito com mais de 1 milhão de votos e ainda propiciará ao seu partido emplacar seis outros candidatos.
Tiririca é uma piada niilista do eleitor, é como votar no Macaco Tião. A diferença é que o Macaco Tião valia como voto nulo.
Tiririca, não. Esse vai bater ponto no Congresso sem compreender, como confessa, sua função de deputado. Tiririca e a Mulher Pêra, ambos, e muitos outros, servirão de massa de manobra para interesses que não dominam, enquanto Freixo é despachado para a fronteira mais próxima na clandestinidade.
A indiferença, na figura do voto nulo, é a maneira mais eficaz de evitar a angústia e se eximir da culpa da responsabilidade. É compreensível.
Grave mesmo é a descrença de quem dá poder ao Tiririca.
Pior que está fica.

Texto de Fernanda Torres, na Folha de São Paulo, de 26 de setembro de 2010.

Fernanda Torres está sendo uma boa surpresa no colunismo político, às vésperas desta eleição de 2010.

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sábado, setembro 25, 2010

Um livrão no Planalto

Um livrão no Planalto

Há três dias, a Fundação Joaquim Nabuco lançou, no Palácio do Planalto, um livro que se destina a ser raro e fazer escola: dois volumes de entrevistas com os chefes de comunicação da Presidência da República, de JK a Lula.
É, no fundo, a primeira publicação sobre os segredos do poder presidencial, como se tomam decisões e os bastidores de como elas chegam ao público. Foi uma inovadora iniciativa do ex-porta-voz André Singer, com fotos de Orlando Brito. As entrevistas são excelentes e revelam a tensão permanente entre o governo e os comunicadores, jornalistas em síntese. O Brasil não tem o hábito de fazer história com fontes primárias. Em geral, são degraus se repetindo uns aos outros. Autobiografias de presidentes, nem pensar.
Campos Sales escreveu um livro medíocre que é mais o relato da campanha republicana paulista. O diário de Getúlio é uma sequência de fofocas diárias sem nenhuma visão prospectiva, sem as fontes nem as razões de decisão. O de Juscelino, escrito a quatro mãos, tem altos e baixos. O primeiro volume, sobre sua infância e vida, é primoroso. Os demais são relatos bem escritos, porém mais relativos a Brasília que a ele mesmo. Epitácio Pessoa guardou seu ressentimento na geladeira, como dizia Tancredo, e colocou-o para fora nos livros de defesa irada do seu governo.
Nos EUA, a literatura de como se tomam as decisões na Casa Branca (título de livro de Theodore Sorensen) é farta. Há uns 25 anos, Michael Nielson, professor da Vanderbilt University e jornalista do "Washington Post", publicou um trabalho de profundidade sobre o assunto: "A Presidência e o Sistema Político".
Valeu-se de muitas informações de porta-vozes. Chegou a algumas conclusões: os presidentes que perseguiram e desejaram o poder saíam mais fortes do que entravam (veja-se Lula, cá, Roosevelt e Wilson, lá). A inflação dá a base de popularidade dos presidentes. Quanto mais baixa, mais popular.
Arthur Schlesinger Jr., a exemplo de seu pai em 1948 e 1962, classificou, em 1996, depois de ouvidos 719 historiadores, acadêmicos e cientistas políticos, o desempenho dos presidentes dos EUA -bons, regulares e ruins. Os bons quase sempre eram displicentes quanto à burocracia, se engajavam na liderança e exerciam o poder com energia e desenvoltura. "Idealismo" e "flexibilidade", avaliados previamente pelo sociólogo Gary Maranell, já não eram importantes para o julgamento final do governo. No fundo, o que pesa mesmo é o que ficou para a história. O circunstancial não conta.
Quem sabe, depois deste livro, cada porta-voz ficará tentado a escrever suas memórias da Presidência. Será bom para o Brasil e sua história, baseada em fonte direta.

O texto é de José Sarney, na Folha de São Paulo, de 17/09/2010.


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sábado, agosto 28, 2010

O domínio do trivial

O domínio do trivial

AOS VINTE anos, leitor de Gramsci, eu entendia que o poder das classes dominantes se exercia de duas maneiras.
Havia a exploração econômica, com repressão eventualmente brutal das reivindicações dos trabalhadores (sem contar as guerras imperialistas).
E havia a outra face do domínio: o controle das ideias e das mentes, oculto e insidioso. Esse era o terreno de luta dos intelectuais: podíamos colaborar com a classe dominante ou, então, fazer o quê? Sermos porta-vozes de uma nova classe?
Não éramos totalmente ingênuos. Reconhecíamos os horrores do dito "socialismo real" e percebíamos que ele substituíra uma classe dominante por outra. A ditadura do proletariado não tinha por que ser melhor do que a ditadura da burguesia; talvez, aliás, ela fosse pior. Nosso sonho era outro: uma sociedade sem classes.
Pois bem, um espectador apressado poderia pensar que, enfim, realizamos a famosa sociedade sem classes -ao menos em parte.
Claro, desigualdades e exploração continuam; no entanto, é difícil distinguir a cultura da classe dominante das outras que lhe seriam opostas, porque, no fundo, mesmo quando parecemos discordar, pensamos todos igual.
Acabo de ler "L'Egemonia Sottoculturale", de Massimiliano Panarari (Einaudi, 2010). O autor, um intelectual de minha geração, faz uma crítica hilária da "subcultura da fofoca", que seria, segundo ele, a cultura dominante na Itália de hoje. Infelizmente, é difícil entender os exemplos no texto de Panarari sem ter sido espectador da televisão aberta italiana durante um bom tempo (e para isso é necessário dar prova de um certo heroísmo). Mas o que Panarari diz não se aplica só ao caso da Itália.
Mundo afora, é cada vez mais difícil dizer algo que não faça parte de um senso comum que é feito de referências, ideias e, sobretudo, maneiras de pensar compartilhadas graças ao uso generalizado da mesma mídia.
Nesse quadro, pensar criticamente é árduo. Quem deseja convencer seus leitores ou espectadores de que ele pensa fora da trivialidade dominante tende a parecer-se com aquelas crianças que, de vez em quando, gritam "xixi e cocô" e, com isso, gabam-se de ter quebrado um grande tabu.
Nesse sentido, nos EUA, são cada vez mais populares radialistas, apresentadores e jornalistas supostamente "conservadores", que devem seu sucesso a uma vulgaridade e a uma truculência que parecem satisfazer a espera de todos por um pensamento novo, diferente. Um exemplo: um dos aspectos do senso comum é um respeito forçado das regras do politicamente correto. Diante disso, os ditos comentadores não inventam visões mais complexas e produtivas da diversidade social, mas, para criar a ilusão de que eles pensariam fora do senso comum, permitem-se, de vez em quando, dizer ou gritar "negro" ou "viado". Sua "ousadia" é tão inovadora quanto a das crianças do "xixi e cocô".
No Brasil, o debate eleitoral em curso poderia também servir para mostrar que nosso senso comum compartilhado é, no caso, uma espécie de razoabilidade, resignada a evitar temas excessivamente conflitivos (o aborto, por exemplo) e a aceitar alianças duvidosas e supostamente "necessárias".
Como chegamos a essa perda de contraste na vida pública e cultural?
Segundo Panarari, a burguesia ganhou a luta pela hegemonia jogando a carta do prazer: "Na década do hedonismo reaganiano, todos se convenceram, de repente, que estava na hora de divertir-se. Palavra de ordem: "Queremos folgar" e, por favor, evite-se empestar a existência, de qualquer maneira que seja, com política, cultura, economia e todas essas "coisas" assimiláveis a preocupações e aborrecimentos". Conclusão: a subcultura hedonista da fofoca é o novo ópio do povo.
Concordo (um pouco) com essa visão apocalíptica da cultura dominante. Mas discordo da ideia de que a subcultura da fofoca seja a invenção vitoriosa de uma classe específica.
Ela é, ao meu ver, uma consequência dos nossos tempos, pela razão que segue. Quando a mídia é de massa, não há mais diferença entre manipuladores e manipulados, pois os próprios manipuladores, expostos à mídia, são manipulados por suas produções. Ou seja, progressivamente, todo o mundo pensa as mesmas trivialidades.
É o feitiço que enfeitiça o feiticeiro.

Texto de Contardo Calligaris, na Folha de São Paulo, de 19 de agosto de 2010.

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quarta-feira, agosto 18, 2010

O medo da política

O medo da política


O PRIMEIRO DEBATE presidencial ocorrido no início do mês deu a tônica da profunda despolitização que parece determinar essa campanha. Os principais candidatos demonstraram um cuidado incrível em transformar o confronto político em uma mera discordância a respeito de problemas, em larga medida, gerenciais.
Questões estruturais, como a educação, eram tratadas sob a lógica do ajuste, como se o problema se restringisse a construir algumas dezenas de escolas técnicas e facilitar o acesso de deficientes às escolas.
Enquanto isso, um dos candidatos lutava com todas as forças para que não colocassem na balança as escolhas operadas por seu partido nos anos em que esteve no governo federal. Normalmente, quem diz não fazer política olhando para o retrovisor tem medo de ser cobrado pelas barbeiragens que fez e pelas expectativas que atropelou.
A outra candidata parecia muito mais preocupada em seguir conselhos de profissionais de marketing e acertar desesperadamente seu difícil "timing". Por fim, a candidata verde queria nos fazer acreditar que os problemas do mundo podem ser resolvidos por algumas parcerias com ONGs e grandes bancos internacionais, já que a ecologia seria esta vara de condão com o dom mágico de apagar conflitos sociais e unir ricos e pobres, especuladores financeiros e camponeses.
Talvez seja interessante nos perguntarmos se isso não é o sintoma mais evidente de um certo "medo da política" que parece querer bloquear nossa democracia.
Medo que faz com que todas as propostas de mudanças estruturais sejam imediatamente expulsas do debate, como se fossem produções delirantes.
Um belo exemplo foi a discussão sobre a reforma tributária. Em dado momento, apareceu no programa da candidata governista propostas como impostos sobre grandes fortunas e sobre herança. Uma boa maneira de lembrar que a discussão tributária em um pais de desigualdades brutais como o Brasil passa por tributar cada vez mais a renda em detrimento do consumo.
No entanto, como quem descobre algo vergonhoso que já devia ter sido extirpado há muito, a proposta foi colocada em um lugar seguramente longe. Neste sentido, não é surpreendente o súbito interesse em torno de Plínio de Arruda Sampaio. Pois, no debate, Plínio não teve medo de fazer política. Ele não temeu explorar problemas que tocam a maneira com que relações sócio-trabalhistas são estruturadas em nosso país, como a jornada de trabalho. Enquanto há países cuja jornada é de 35 horas, nós ainda estamos a tentar discutir a redução de uma jornada de 44 horas.
Ele também lembrou como problemas sociais são profundamente ligados aos impasses brutais de redistribuição de riquezas, embora seria necessário não se contentar com generalidades e mostrar claramente quais seriam as políticas de redistribuição a serem defendidas, como elas poderiam ser implementadas sem desestruturação da atividade econômica. Isto, seu partido tem dificuldade em mostrar.
Porém, a repercussão do desempenho do candidato do PSOL talvez sirva para mostrar que, embora questões gerenciais sejam importantes e não devam ser negligenciadas, o que se espera em uma campanha presidencial é um debate verdadeiramente político onde visões estruturais de país possam ser confrontadas.


Texto de Vladimir Safatle, na Folha de São Paulo, de 16 de agosto de 2010.

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quinta-feira, julho 08, 2010

A década que não acabou

A década que não acabou

Imagine que a balbúrdia das alianças estaduais e regionais não aconteça apenas a cada quatro anos, em ano de eleições gerais. Imagine que seja a regra da política brasileira.
Imagine que a política nacional seja somente o resultado de acordos pontuais e instáveis, ditados por interesses de chefes políticos locais. Imagine que os acordos durem tanto quanto a rolagem de toda a dívida pública nacional: uma noite, "overnight" no jargão da época.
Imaginou? Bem-vindo à década de 1980.
Foi a década dos governadores. Um tempo de inflação fora de controle e de contas públicas em desordem, em que Estados tinham bancos importantes, faziam política monetária e fiscal, rivalizando com a União.
A partir de FHC, a União se impôs sobre a política dos governadores. Centralizou a política monetária e fiscal. E deu ao partido que ocupa o poder federal o monopólio da formulação política mais ampla.
Mas a confusão atual nos arranjos estaduais mostra que muita coisa da década de 1980 continua bem viva na política.
Mostra que PT e PSDB são polos que lideram, mas não dirigem, uma massa informe de interesses e de querelas regionais.
Durante três anos, os governadores guardam silêncio obsequioso, postos na dependência de transferências da União. Isso aconteceu mesmo com os candidatos de oposição José Serra e Aécio Neves.
Ao ser desencadeado o processo eleitoral, os interesses locais reaparecem com apetite e avidez. Interesses que raramente coincidem com recortes partidários. Menos ainda com programas políticos.
Foi um quadro geral como esse que pesou, por exemplo, na decisão estratégica mais importante do PT para as próximas eleições. Em nome da aliança formal com o PMDB, o partido abriu mão de disputar governos estaduais e decidiu concentrar esforços na eleição para o Senado.
No poder há sete anos, Lula concluiu que os governadores podem ser controlados na boca do caixa. E que a Câmara dos Deputados, estruturalmente instável, é relativamente controlável, desde que devidamente atendidos médios, pequenos e minúsculos interesses. Nessa lógica, o problema seria o Senado. A duração mais longa dos mandatos, o menor número de integrantes, a experiência política acumulada, tudo isso faria com que o Senado fosse hoje de controle mais difícil.
Seja como for, é uma lógica de simples adaptação, e não de transformação, a que move os dois polos da política brasileira. São síndicos em um condomínio de interesses locais irreconciliáveis. Onde o vale-tudo dos arranjos estaduais não é uma anomalia. É a regra.

Texto de Marcos Nobre, na Folha de São Paulo, de 22 de junho de 2010.


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terça-feira, junho 22, 2010

Temporada de caça aos blogues?

Temporada de caça aos blogues?


Notícias publicadas na semana passada na Folha de São Paulo (restrito a assinantes) e no portal da Rede Globo, o G1, dão conta que a Justiça Eleitoral quer saber os responsáveis pelos blogues Os Amigos do Presidente Lula, e Eu Quero Serra. As notícias informam ainda que o ministério público eleitoral quer impor multas aos tais blogues por “propaganda eleitoral antecipada”.


Situação complicada. Uma breve visita ao blog Os Amigos do Presidente Lula revela que ele está no ar desde janeiro de 2006. É um bocado de tempo. Por outro lado, aparentemente o dono do blogue Eu Quero Serra, se antecipou ao Ministério Público Eleitoral e retirou seu conteúdo do ar. Os “posts” deixados eram de questionamento à censura que o procuradores eleitorais estavam patrocinando contra a liberdade de expressão que um simples cidadão estava tentando exercer. O proprietário do blogue afirma que ele publica por simpatia ao candidato José Serra, e não tem vínculos com partidários com o PSDB, partido de José Serra.


No caso do blogue Os Amigos do Presidente Lula, ele é assinado por um casal que também afirma a sua não-filiação ao ao PT. Os “posts” mais recentes também questionavam o comportamento censor do Ministério Público Eleitoral. No caso deste blogue, o conteúdo ainda não havia sido tirado do ar. E é possível avaliá-lo. De maneira geral, os “posts” se assumem como “de esquerda”, “petista”, e “pró-presidente Lula”, não necessariamente nesta ordem. Também questionam críticas ao governo feitas pela chamada grande imprensa.


Aparentemente o Ministério Público Eleitoral quer manter a equanimidade e a lisura da campanha para as eleições gerais no segundo semestre.


Contudo ao querer tirar conteúdos do ar e impor multas aos seus responsáveis, o Ministério Público Eleitoral mostra desconhecimento de como funciona a blogosfera, e demonstra querer impedir a manifestação do pensamento de qualquer cidadão fora dos limites do quadro partidário existente. Ninguém poderá escrever que prefere a candidata Dilma, ou o candidato Serra, ou a candidata Marina, sob pena de multa e cassação do direito de expor sua opinião.


Com a intenção de manter a lisura do pleito, o Ministério Público Eleitoral corre o risco de apenas ser um instrumento de censura e autoritarismo.



21/06/2010.


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quarta-feira, junho 16, 2010

Aparelhamento

Aparelhamento


No primeiro discurso como candidato oficial, Serra repetiu um mantra tucano dos últimos quatro anos: o PT estaria "aparelhando" não só o governo mas o Estado. Junto com a acusação veio a consequência: produziria com isso os "neocorruptos".
A acusação é a de que o PT colocou o Estado brasileiro a serviço do partido. E, ao unir Estado e burocracia partidária, o PT estaria "justificando deslizes morais", afirmou Serra. Conclusão: a "neocorrupção" ameaçaria a própria democracia.
Um debate para valer deveria poder qualificar os termos. A democracia brasileira está em risco apenas em convescotes ideológicos. Aliás, onde estão mesmo aqueles que afirmavam com segurança absoluta que Lula iria buscar o terceiro mandato? A chegada ao governo de um partido que ficou na oposição durante 22 anos exigiria necessariamente a composição de uma equipe de governo nova em grande medida. Foi algo que aconteceu também com o PSDB em 1995.
A diferença é que os tucanos, ao contrário do PT, herdaram quadros de administrações estaduais, já estavam no governo Itamar Franco e fizeram uma aliança com o então PFL, um velho habitué do aparelho de Estado. Confundir esse processo com aparelhamento pura e simplesmente não ajuda a entender o que aconteceu no Brasil nos últimos 16 anos de estabilidade em estabilização.
Veja-se o caso das chamadas agências reguladoras, citados por Serra e por outros integrantes da oposição. O fato é que o PT nunca se convenceu de que a fiscalização de concessões feitas pelo Estado deveria ser feita por intermédio de agências.
Não se trata de aparelhamento, mas de discordância em relação ao modelo implantado pelos tucanos. O governo Lula não aboliu o modelo, mas lhe deu uma outra função: passou a usar as agências para moderar o poder de alguns ministros, à maneira de um contrapeso.
Se o problema de aparelhamento fosse real, a proposta deveria ser a de limitar o número de cargos de confiança e comissionados a um número próximo do ínfimo, por exemplo. Isso não acontece, porque, até o momento, nem PT nem PSDB acham que podem realmente imprimir sua marca nas políticas de governo sem suas equipes próprias.
Se o problema do aparelhamento fosse levado a sério, ele estaria posto onde realmente acontece: nos fundos de pensão de estatais, por exemplo. Corrupção é um problema sério demais para ficar misturado sem mais com política.
Avanços democráticos vêm com a discussão de problemas reais. Pedem que fantasias de cubanização e de aparelhamento sejam deixadas para encontros sociais de fina estampa.


Texto de Marcos Nobre, na Folha de São Paulo, de 15 de junho de 2010.


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segunda-feira, março 08, 2010

Messalina Cívica

A messalina cívica

A ESTA ALTURA do baixo astral que atravessamos, a grande novidade que se anuncia é a sucessão presidencial, se é que haverá mesmo uma sucessão. Pelo rodar da carruagem parece que Lula fará tudo, o possível e o impossível, para emplacar a sua candidata, o que dará de certa forma um caráter de continuísmo ao governo do PT e a sua base política. O próprio Serra, encarnando uma modalidade de oposição, não diluirá a pasmaceira original, não se trata de um fato novo e representa forças que, não faz muito tempo, estiveram no poder.
Ninguém pediu meu testemunho, mas lá vai ele. Faço parte daquela vetusta maioria que já votou diversas vezes e, no meu caso pessoal, sempre votei inutilmente: meus candidatos nunca foram eleitos e houve mesmo alguns pleitos em que não votei em ninguém.
Acredito que, de tanto chamarem as urnas de invioláveis e a cabine eleitoral de indevassável, a mecânica do voto entre nós tornou-se tão corrompida, que a política resultou violada e devassa, tornando-se a messalina cívica de nosso tempo.
Nada tenho contra as eleições, pelo contrário, governos anteriores fizeram-me a honra de trancafiar-me seis vezes nas enxovias da lei, justamente porque, entre outras coisas, sempre reclamei pelo direito de todos votarem livremente. Mas cada vez que o tempo passa, mais desprezo a política como um todo, não a política menor, essa de prometer emprego e bica d'água, a qual, no fundo, é simpática, combina com a fragilidade humana que nos torna merecedores de amor e redenção.
Meu desprezo é pela política maior, aquela que é servida em embalagens sofisticadas, a política que se autoproclama de ideológica. Creio que já citei, mas citarei outra vez um autor pouco recomendável: Albert Speer, arquiteto de Hitler, que cumpriu 20 anos de prisão (ele não foi condenado à morte porque o Tribunal de Nuremberg isolou-o dos demais nazistas que se marcaram pelo assassínio e pela brutalidade). Speer escreveu um livro, muito sincero por sinal, que termina com uma espécie de profecia: a humanidade futura não compreenderá como a humanidade da qual fazemos parte foi tão estúpida e atrasada ao se dividir em ideologias disso ou daquilo.
Li, há tempos, um livro sobre os últimos dias de Stálin: com exceção de detalhes episódicos, o homem que havia em Hitler e Stálin pouco ou nada diferiam.
Hitler ouviu Wagner pouco antes de se suicidar. Stálin estava ouvindo Mozart na hora em que tombou, vitimado pelo derrame cerebral que o mataria dias depois.
No essencial, eram dois homens iguais, embora adotassem ideologias diversas. O exemplo é sumário, esquemático, mas serve para tudo e para todos. Continuo não vendo diferença entre bons e maus, entre amigos e inimigos do povo.
Frequentemente, os valores se invertem na prática, muitas vezes os reacionários são mais progressistas do que os revolucionários e vice-versa. Certo, é um direito de todos serem assim ou assado, mas esse direito acaba no momento em que determinada ideologia justifica qualquer crime ou brutalidade contra o gênero humano. Os exemplos da história são muitos, mas não bastantes para mudar a situação.
Na realidade, a mudança de governo, se houver realmente mudança, será superficial, mudança de nomes, de algumas prioridades, mas a rotina se centrará nas promessas demagógicas de salários justos, segurança mais segura, educação e saúde para todos etc. etc.
Os otimistas dirão que antes assim, uma vez que a situação nacional é boa, o Brasil está em alta, o consumo não sofreu os efeitos da crise, de uma hora para outra nos tornamos uma superpotência cujo exemplo pode servir aos países subdesenvolvidos. Tudo bem. Não será caso de pregar uma alteração radical e revolucionária no ato de governar, mas a realidade é que as duas pré-candidaturas ameaçadas, Serra e Dilma, nada trarão de novo.
Marina Silva seria talvez um fato realmente novo, mas suas chances são remotas, como remotas são as esperanças de que o ritual democrático, de alternância do poder, traga para o povo um horizonte de poder mais justo e possível.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 5 de março de 2010.

Ele está mais cético que eu.


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quinta-feira, fevereiro 25, 2010

A paz que reina sobre nós

A palavra “pacificação” tornou-se, infelizmente, uma categoria da política gaúcha. Infelizmente porque o seu uso aponta na direção oposta do que parece sugerir. Chega a ser constrangedor ver como essa tese, histórica e intelectualmente indigente, deitou raízes com relativa facilidade no debate político do Estado, ganhando adeptos mais ou menos inocentes, inclusive à esquerda. Juntamente com o discurso do “novo”, a pacificação adquiriu ares de agenda política, econômica e cultural. Uma máscara, como se sabe, que esconde a verdadeira face daqueles que a ostentam. Uma máscara que é retirada do armário apenas em alguns momentos estratégicos, quando é preciso esvaziar o debate político de sentido, memória e história.

Esta fraude começou na campanha eleitoral de 2002, com Germano Rigotto (PMDB). O então deputado federal foi eleito pregando o fim da “guerra” entre o PT e Antonio Britto. Assim mesmo, entre o PT, representado por Tarso Genro naquela eleição, e Britto. O PMDB, partido que governou o Estado com Britto de 1995 a 1998 e implementou uma agressiva política de privatizações, apresentou-se na campanha de 2002 como algo novo que não tinha nada a ver com esta “guerra”. Ninguém pregou a “pacificação”, é claro, quando o PMDB declarou guerra às empresas públicas no Estado. E a paz veio. A vitória de Rigotto, o candidato da pacificação e da terceira via, prometeu uma nova era, de paz e prosperidade, para gaúchos e gaúchas.

Quatro anos após um governo insosso, a população avaliou o legado do pacificador. Reprovado! Sequer foi ao segundo turno da eleição de 2006. Ocupou seu lugar a mensageira do novo. Depois da paz, o novo jeito de governar. Mas Yeda Crusius também valeu-se do discurso da pacificação em sua campanha, pregando o fim da polarização entre PT e PMDB no Estado, a necessidade de seguir um “novo caminho”. E o Rio Grande do Sul seguiu um novo caminho. Três anos depois, instituições como Ministério Público Federal, Justiça Federal e Polícia Federal apontavam a existência de uma quadrilha instalada no aparelho de Estado para roubar dinheiro público. A ação desta quadrilha viria desde o governo anterior, o da pacificação.

Chega 2010, uma nova eleição, e, mais uma vez, os arautos da pacificação saem do armário para fazer seu trabalho. Cabe registrar a seletividade da aplicação da tese. Quando a esquerda governou o Estado, a guerra era um dever para os cruzados da direita gaúcha. E ela foi travada do primeiro ao último dia de governo. Nos Pampas, nunca se ouve o clamor pela paz quando a Brigada Militar está reprimindo manifestações de sem terra ou de algum sindicato. Neste caso, a palavra “paz” cede espaço a outros termos: baderna, perturbação. A pacificação não se aplica também às quadrilhas organizadas para roubar dinheiro público. Para estas, as quadrilhas, vale (mil vezes) o benefício da dúvida e a exigência de infinitos fatos novos e provas irrefutáveis.

Em resumo, para dizer em bom português, o discurso da pacificação é uma estratégia chinelona (para usar um termo técnico) da direita gaúcha (para usar outro termo técnico) com um duplo objetivo: colar na esquerda o adesivo da guerra e fazer da direita (que, em sua eterna invisibilidade, nunca se apresenta como tal) a mensageira da paz. Uma estratégia que obteve sucesso nos últimos sete anos, o que só depõe contra a qualidade da capacidade de elaboração política da esquerda gaúcha neste período. E este sucesso tem uma tradução bem concreta: precarização dos serviços públicos, fim de políticas sociais, desmonte da legislação ambiental, saque ao patrimônio público, apropriação de bens públicos pelo grande capital. Essa é a paz que reina sobre nós.

Texto do RS Urgente.


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segunda-feira, fevereiro 01, 2010

A Democracia Americana é uma ficção útil

Democracy in America Is a Useful Fiction

por Chris Hedges*, no
Common Dreams, por indicação do Marco Aurélio

As forças corporativas, bem antes da decisão da Suprema Corte no processo Cidadãos Unidos vs. Comissão Eleitoral Federal [nessa decisão, a maioria da Suprema Corte dos Estados Unidos reduziu os limites para as doações financeiras das corporações no processo político], deram um golpe de estado em câmera lenta. O golpe acabou. Perdemos. A decisão é apenas mais uma tentativa judicial de reduzir os mecanismos de controle corporativo. Expõe o mito de uma democracia em funcionamento e o triunfo do poder corporativo. Mas não altera o quadro político. O estado corporativo está firmemente cimentado em seu lugar.

A ficção da democracia permanece útil, não apenas para as corporações, mas para nossa classe liberal falida. Se a ficção for seriamente desafiada, os liberais serão forçados a considerar a resistência, o que não será prazeroso, nem fácil. Enquanto a fachada democrática existir, os liberais podem se engajar em posturas morais vazias que requerem pequeno sacrifício ou compromisso. Eles podem ser os líderes auto-indicados do Partido Democrata, agindo como se fossem parte do debate e se sentindo vingados com seus gritos de protesto.

Muito do protesto expresso sobre a decisão da Suprema Corte é ultraje daqueles que preferem essa coreografia. Enquanto ela existir, eles não precisam se preocupar em como combater o que o filósofo político Sheldon Wolin chama de nosso sistema de "totalitarismo invertido".

Ele representa "a chegada ao período do poder corporativo e da desmobilização política da cidadania", escreveu Wolin em seu livro Democracia Inc. O totalitarismo invertido difere das formas clássicas de totalitarismo, que giram em torno de um líder demagógico ou carismático, e encontra sua expressão no anonimato do estado corporativo.

As forças corporativas por trás do totalitarismo invertido não fazem como os movimentos totalitários clássicos, que anunciam a substituição de estruturas decadentes por estruturas revolucionárias. O totalitarismo invertido supostamente honra a política eleitoral, a liberdade e a Constituição. Mas faz isso de forma tão corrupta e manipuladora das ferramentas do poder que torna a democracia impossível.

Totalitarismo invertido não é conceituado como uma ideologia, nem é tema de políticas públicas. Ele avança através de "autoridades e cidadãos que muitas vezes parecem não se dar conta das consequências de suas ações ou inações", Wolin escreve. Mas é tão perigoso quanto as formas clássicas do totalitarismo. Em um sistema de totalitarismo invertido, como a decisão da Suprema Corte ilustra, não é necessário reescrever a Constituição, como regimes fascistas ou comunistas fazem. É suficiente explorar os meios de poder legítimos através da interpretação legislativa ou judicial.

Essa exploração assegura que grandes contribuições de campanha das corporações sejam protegidas como "direito à liberdade de expressão" sob a Primeira Emenda [da Constituição dos Estados Unidos]. Assegura que a atividade lobista organizada e pesadamente financiada pelas grandes corporações seja interpretada como protegida pelo direito da população de peticionar ao governo. Aqueles que dentro das corporações cometem crimes podem evitar a cadeia pagando grandes somas de dinheiro ao governo enquanto, de acordo com a interpretação judicial, não "admitem qualquer crime". Existe uma palavra para isso. É chamado corrupção.

As corporações tem 35 mil lobistas em Washington e milhares mais em capitais estaduais para dar dinheiro, formatar e escrever leis. Elas usam os chamados comitês de ação política para obter de seus empregados e acionistas dinheiro para dar a candidatos amigáveis. O setor financeiro, por exemplo, gastou mais de 5 bilhões de dólares em campanhas políticas, ações de influência política ou lobistas na década passada, o que resultou em profunda desregulamentação, o furto de consumidores, o derretimento financeiro global e a pilhagem subsequente do Tesouro dos Estados Unidos.

Os Fabricantes e Pesquisadores Farmacêuticos dos Estados Unidos gastaram 26 milhões de dólares no ano passado e companhias como a Pfizer, Amgen e Eli Lilly deram dezenas de milhões mais para comprar os dois partidos. Essas corporações fizeram da assim chamada reforma do sistema de saúde uma lei que vai nos forçar a comprar produtos defeituosos e predatórios.

A indústria de gás e petróleo, a indústria do carvão, os empreiteiros da Defesa e as companhias de telecomunicações bloquearam a busca por energia sustentável e orquestraram a constante erosão das liberdades civis. Políticos defendem as corporações e promovem atos superficiais de teatro político para manter a ficção de que o estado democrático está vivo.

Não existe instituição nacional que possa ser caracterizada como democrática. Os cidadãos, em vez de participar do poder, podem ter opiniões virtuais sobre questões pré-determinadas, uma forma de fascismo participativo tão sem sentido quando votar no "American Idol" [o Big Brother dos Estados Unidos].

Emoções de massa são estimuladas nas chamadas "guerras culturais". Isso nos permite assumir posições emocionais em questões que são inconsequentes para a elite política.

Nossa transformação em um império, como aconteceu com Atenas e Roma, viu a tirania que praticamos no estrangeiro se transformar na tirania que praticamos em casa. Nós, como todos os impérios, fomos destruídos pelo nosso próprio expansionismo. Nós utilizamos armas de terrível poder destruidor, subsidiamos o desenvolvimento delas com bilhões de dólares de dinheiro público e somos os maiores vendedores de armas do mundo. E a Constituição, como Wolin nota, é usada "para servir aos aprendizes do poder, não como a consciência deles".

"O totalitarismo invertido inverte as coisas", Wolin escreve. "É política o tempo todo, mas largamente despotilizada. Disputas partidárias são ocasionalmente apresentadas em público e há a constante disputa entre facções de partidos, grupos de interesse, competidores corporativos e grupos de mídia rivais. E há, naturalmente, o momento culminante das eleições nacionais, quando a atenção da Nação é exigida para fazer a escolha entre personalidades, em vez de alternativas de poder. O que está ausente é o político, o compromisso de encontrar onde fica o bem comum no meio dos interesses bem financiados, altamente organizados e que com um mar de dinheiro vivo praticam a subversão do governo representativo e da administração pública".

Hollywood, a indústria de notícias e a televisão, todas controladas por corporações, se tornaram instrumentos do totalitarismo invertido. Eles censuram ou fazem ridículo daqueles que criticam ou desafiam as estruturas corporativas. Eles saturam as ondas com controvérsias fabricadas, seja [o escândalo envolvendo o golfista] Tiger Woods ou a disputa entre [os apresentadores de TV] Jay Leno e Conan O'Brien.

Eles manipulam imagens para nos fazer confundir sensações com conhecimento, que foi como Barack Obama se tornou presidente. E o controle interno empregado pelo Departamento de Segurança da Pátria, os militares e a polícia sobre qualquer forma de dissidência interna, junto com a censura da mídia corporativa, fazem pelo totalitarismo invertido o que as tropas de choque e as fogueiras de livros fizeram pelos regimes totalitários clássicos.

"Parece um replay da experiência histórica que a distorção praticada pela mídia de hoje tenha como alvo consistente as sobras do liberalismo", Wolin escreveu. "Faz-me lembrar que um elemento comum do totalitarismo do século 20, seja Fascismo ou Stalinismo, era a hostilidade em relação à esquerda. Nos Estados Unidos, a esquerda é considerada espaço exclusivo de liberais, ocasionalmente a "ala esquerda do Partido Democrata", nunca de democratas".

Liberais, socialistas, sindicalistas, jornalistas e intelectuais independentes, muitos dos quais um dia foram vozes importantes de nossa sociedade, foram silenciados ou foram alvo de eliminação dentro da universidade, da mídia e do governo controlados pelas corporações. Wolin, que foi professor em Berkeley e mais tarde em Princeton, é um dos mais importantes filósofos políticos do país. Ainda assim seu novo livro foi virtualmente ignorado. Também é por isso que Ralph Nader, Dennis Kucinich e Cynthia McKinney, assim como intelectuais como Noam Chomsky, não fazem parte de nosso discurso nacional.

A uniformidade de opiniões é reforçada pelas emoções orquestradas pelo nacionalismo e pelo patriotismo, que descrevem os dissidentes como "fracos" ou "não patriotas". O cidadão "patriota", com medo de perder emprego e de possíveis ataques terroristas, dá apoio ao monitoramento indiscriminado e ao estado militarizado. Isso significa não questionar o 1 trilhão de dólares em gastos relacionados à defesa. Isso significa manter as agências militares e de inteligência acima do governo, como se não fizessem parte dele. Os mais poderosos instrumentos do poder e do controle estatais foram removidos das discussões públicas.

Nós, como cidadãos imperiais, somos ensinados a desprezar a burocracia governamental; ainda assim, ficamos como carneiros diante dos agentes da Segurança da Pátria em aeroportos e ficamos mudos quando o Congresso permite que nossa correspondência e nossas conversas sejam monitoradas e arquivadas. Estamos sob maior controle estatal do que em qualquer outra época da História americana.

A linguagem cívica, patriótica e política que usamos para nos descrever permanece a mesma. Demonstramos lealdade aos mesmos símbolos nacionais e iconografia. Encontramos nossa identidade coletiva nos mesmos mitos nacionais. Continuamos a deificar os Pais Fundadores. Mas os Estados Unidos que celebramos é uma ilusão. Não existem. Nosso governo e nosso judiciário não tem soberania. Nossa imprensa oferece diversão, não informação. Nossos órgãos de segurança e poder nos mantém tão domesticados e amedrontados quanto a maioria dos iraquianos. O capitalismo, como entendeu Karl Marx, quando elimina o governo se torna uma força revolucionária. E essa força revolucionária, melhor descrita como totalitarismo invertido, está nos mergulhando em um estado de neo-feudalismo, guerra perpétua e repressão severa. A decisão da Suprema Corte é parte de nossa transformação, pelo estado corporativo, de cidadãos em prisioneiros.

*Chris Hedges escreve para a Truthdig.com. Ele é autor dos livros War Is A Force That Gives Us Meaning, What Every Person Should Know About War e American Fascists: The Christian Right and the War on America. Seu livro mais recente é Empire of Illusion: The End of Literacy and the Triumph of Spectacle.


Texto visto no Vi o Mundo.


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terça-feira, janeiro 26, 2010

Do Chile ao Brasil

Do Chile ao Brasil

A DITADURA liderada pelo general Pinochet no Chile manteve controle estrito sobre o processo de transição para a democracia, durante a década de 1980. No Brasil, pode-se dizer que os militares conseguiram manter relativo controle do processo até a eleição indireta de Tancredo Neves à Presidência, em 1985. Mas não depois disso.
Para derrotar Pinochet, os mais variados partidos de oposição fizeram um grande acordo para as eleições presidenciais de 1989. Foi um movimento que ficou conhecido como "Concertación" e que se manteve no poder por 20 anos. Até a derrota do último domingo, com a eleição do candidato de direita Sebastián Piñera.
O Brasil da redemocratização foi marcado por pelo menos dez anos de disputa selvagem entre grupos e partidos políticos, sem que nenhum deles conseguisse se impor sobre os demais. Até que a coalizão do Plano Real conseguiu impor um modelo de desenvolvimento para o país. E, como consequência, estabeleceu o PT como o líder do segundo polo do sistema político.
O curioso é que, apesar dessa polarização a partir de 1994, também o Brasil acabou por construir a sua Concertación. Os 16 anos de Lula e FHC representam o estabelecimento de um acordo de base extenso e detalhado entre os dois polos da política brasileira. A tal ponto que vai ser difícil ver reais diferenças entre as campanhas de Serra e de Dilma, por exemplo.
No último domingo, a Concertación no Chile foi derrotada duplamente. Em primeiro lugar, por Marco Enriquez-Ominami, candidato de 36 anos que alcançou nada menos que 20% dos votos no primeiro turno das eleições presidenciais. Saído do interior da Concertación, Ominami posicionou-se à esquerda do candidato da situação.
Sua votação mostrou que o modelo chegou a seu limite.
A Concertación chilena foi derrotada também porque sua estratégia de longo prazo para neutralizar a direita se esgotou. A ideia de incorporar seletivamente ao grande acordo temas e grupos da direita deixou de funcionar. O eleitorado optou pela polarização e acabou dando a vitória a uma direita que ainda mantém laços e bases importantes no período Pinochet.
Ao dizer que nas eleições de 2010 não haverá candidaturas truculentas, Lula apenas colocou em palavras a Concertación brasileira. Também usa todo o seu poder para manter essa Concertación sob a forma curiosa da polarização PT-PSDB. Pode ser que ainda dure algum tempo. Mas o fato é que, se não fizer nada para mudar, a Concertación brasileira estará se preparando tanto para o seu Ominami como para o seu Piñera.

Texto de Marcos Nobre, na Folha de São Paulo, de 19 de janeiro de 2010.


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quarta-feira, janeiro 13, 2010

Arruda no Distrito Federal, Yeda no Rio Grande do Sul, tudo a ver

Arruda no Distrito Federal, Yeda no Rio Grande do Sul, tudo a ver


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A foto de capa da Folha de São Paulo mostra um policial militar do Distrito Federal dando uma gravata em manifestante contra o o governador José Roberto Arruda. Modelo de polícia que está aí para servir e para proteger...


A foto leva para as notícias sobre os desdobramentos da crise desencadeada no governo do Distrito Federal a partir da divulgação de uma série de vídeos de deputados da câmara distrital de Brasília recebendo maços de dinheiro. E aparentemente o principal desdobramento é que a base parlamentar do governador tomou conta de todas as comissões destinadas a analisar as acusações de corrupção contra o governador e os pedidos de “impeachment” contra ele. Não acharei estranho se as comissões chegarem à conclusão que não há evidências suficientes de comprovação de corrupção do governador, ou que demonstrem a necessidade dele ser afastado do cargo.


Me lembrou tudo o que tem acontecido aqui no Rio Grande do Sul. A diferença aqui é que não houve um membro do governo que tenha gravado vídeos de colegas de governo ou da base parlamentar recebendo maços de dinheiro vivo. Aqui houve uma série de gravações que também, obviamente, muita gente acha que não são evidências suficientes de demonstração de prática de atos ilícitos ou criminosos.


Curiosamente, no Distrito Federal alguns dos políticos ficaram sem partido. A Folha de São Paulo se refere ao governador José Roberto Arruda, como “ex-DEM”, e o presidente da câmara distrital, Leonardo Prudente igualmente como “ex-DEM”. Aqui no Rio Grande do Sul, todos continuam nos seus partidos.


Me pergunto se isto é sinal da alienação dos políticos em relação aos eleitores, ou mesmo desprezo.


Mas talvez não. Talvez seja um risco calculado.


Se a governadora Yeda Crusius já escapou de um pedido de “impeachment” aqui no Rio Grande do Sul, e se o governador José Arruda escapar de um “impeachment” no Distrito Federal, é bem possível que eles não consigam se reeleger em 2010.


Contudo, também é bem possível que muitos destes deputados que fazem parte das respectivas maiorias parlamentares dos governadores acabem sendo reeleitos.


Não conheço o varejo da política brasiliense, mas aqui no Rio Grande do Sul, tenho a impressão que o franco favorito para ser eleito governador é o atual prefeito de Porto Alegre (e também ex-senador) José Fogaça. Não que ele seja um grande político, mas simplesmente muita gente preferirá votar nele a votar na oposição petista representada pelo atual ministro da justiça, Tarso Genro. E provavelmente, se eleito, o Sr. José Fogaça conseguirá uma base parlamentar na assembléia legislativa que será a mesma da atual governadora, que, aliás, é a mesma do governador anterior, Germano Rigotto, o pacificador.


Vejamos o que acontecerá com a assembléia legislativa gaúcha e a câmara distrital brasiliense em outubro. Se estas casas parlamentares tiverem ampla renovação será um sinal de esperança, senão...



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segunda-feira, dezembro 07, 2009

Mensalão, mensalão, mensalão

Mensalão do PSDB

Nos sites e telejornais, há dias, "mensalão do PT" e "mensalão do DEM".
O ex-presidente do PSDB virou réu por esquema que precedeu os dois e foi destacado em manchetes, ontem nos portais UOL, Terra e G1, como "mensalão mineiro". Na Globo propriamente, nem "mensalão". Fátima Bernardes descreveu um "esquema que ficou conhecido como valerioduto de Minas".
Já o site do jornal "O Estado de S. Paulo" postou a manchete "Supremo decide processar Azeredo por mensalão tucano".



MENSALÃO? QUE MENSALÃO?

A newsletter de Cesar Maia, pai do presidente do DEM, abordou o escândalo que envolve o único governador do partido sem citar uma única vez a expressão "mensalão". No final, após notas sobre outros assuntos, mencionou o "mensalão" do PT.
José Dirceu reagiu postando que o adversário "escreve como se não fosse com ele". No título, "Nunca vi tamanho cinismo e hipocrisia!".

INIMIGOS...
Cesar Maia recorreu a Churchill para questionar o PSDB ou parte dele:
"A Câmara dos Comuns dispõe governo e oposição de forma confrontante. Um estreante sentou ao lado de Churchill: "Ali na frente, nossos inimigos". Churchill sorriu: "Ali na frente, nossos adversários. Aqui atrás, nossos inimigos"."

Trechos da coluna Toda Mídia, na Folha de São Paulo, de 4 de dezembro de 2009.

“Mensalão”, pelo que me consta foi o termo inventado pelo ex-deputado Roberto Jefferson para descrever um suposto meio de “comprar” maiorias parlamentares na hora de votar projetos importantes para o governo no Congresso. Esta tese ainda está por ser provada. Me pareceu mais um esquema de caixa 2. Assim como parece caixa 2 que a grande mídia gosta de chamar de “mensalão mineiro”, mas que para ser justo, deveria ser chamado de mensalão tucano, já que chamam o mensalão de Roberto Jefferson de “mensalão petista”. Já o rolo com o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, eu ainda não consegui saber do que se trata. A julgar pelos vídeos divulgados e comentários, parece mais um esquema de enriquecimento pessoal, mas bem pode ser também caixa 2 como parece que já alegou um dos suspeitos.

O financiamento de campanhas é um calcanhar de Aquiles nas democracias representativas. Em qualquer uma delas, seja no Brasil, Estados Unidos, Itália ou Japão, só para citar os países que mais geram os escândalos que aparecem nos nossos noticiários.


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sexta-feira, dezembro 04, 2009

A corrupção intrínseca do modelo político

Os episódio envolvendo o governador do Distrito Federal José Roberto Arruda (DEM) completa o quadro da política brasileira.

Arruda era um dos mais cotados para vice-presidente da chapa de José Serra. As empresas flagradas pela Polícia Federal com esquemas pesados de propina atuaram, antes, na Prefeitura de São Paulo, através da Secretaria da Saúde – que no mesmo período (gestão Serra) terceirizou os serviços de radiologia para uma empresa sem tradição no ramo. Sem licitação.

Significa que o governo federal é diferente do governo do DF ou de São Paulo? Não, em absoluto. Significa que, no modelo político atual, todos são iguais.

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Nos últimos anos, o jogo de financiamento de caixa 2 concentrou-se na área de serviços. Ainda há esquemas pesados nas obras físicas, entre as empreiteiras. Os Tribunais de Contas – especialmente o da União – , no entanto, desenvolveram metodologias aprimoradas para cercar os preços das obras físicas.

A corrupção enveredou, então, pela área de serviços e de sistemas – onde há grande dose de capital intelectual, de difícil aferição.

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O jogo é curioso e repete, no inverso, o que ocorria antes da chegada do PT ao poder. Quem estava no Executivo – governo FHC – conseguia o financiamento de campanha em grandes contratos públicos ou nos programas de privatização. Ao PT restava os contratos com empresas de serviço municipais – lixo, ônibus etc.

Com o PT no poder, inverteu-se o jogo. O governo federal controla os grandes contratos e a oposição teve que partir para contratos miúdos que até agora só não merecem manchetes escandalosas por conta da blindagem proporcionada pela grande mídia.

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O modelo de corrupção é simples. A figura central desse jogo é o que se poderia batizar de empreendedor de jogadas. É o sujeito que aprende como operar com o setor público e bancar as propinas políticas deixando o mínimo de rastro. Cada partido, em geral, trabalha com seus próprios operadores.

Depois, o know-how acumulado em um estado é exportado para estados vizinhos de governadores aliados.

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As empresas envolvidas no escândalo da merenda escolar da Prefeitura de São Paulo, por exemplo, aparecem no governo Yeda Crusius. A CTIS, empresa de aluguel de equipamentos de informática, surgiu em Brasília no governo passado. Hoje em dia, leva a maioria dos contratos de São Paulo.

O mesmo aconteceu com a Positivo, que se transformou no maior montador de computadores do país graças aos contratos com a área pública. Em São Paulo, a Secretaria da Educação adquiriu notebooks Positivo para venda aos professores – com sistema Office incluído. Os preços não eram muito diferentes dos de varejo, adquiridos individualmente.

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Nas áreas de limpeza e de terceirização de mão-de-obra estão dentre as prediletas para jogadas. Cada partido tem as empresas afilhadas cuja atuação, muitas vezes, é exportada para estados de aliados.

No caso de terceirização, por exemplo, a empresa que domina os contratos de São Paulo é a Tejofran. Em Brasilia, a Capital Federal.

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Só que a tendência é tudo isso virar escândalo. O que obrigará, em breve, a mudanças no modelo político.

Texto do blog do Luís Nassif.


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