segunda-feira, outubro 18, 2010

A heroína corrói a Rússia

A heroína corrói a Rússia


Marie Jégo


Mais mortífera que o terrorismo, mais destrutiva que o álcool, a heroína é o flagelo número um na Rússia, país de população instável, único Estado industrial onde a expectativa de vida caiu consideravelmente nesses últimos 30 anos (60 anos para os homens). Segundo o general Viktor Ivanov, chefe do serviço de combate às drogas, todo ano 30 mil pessoas morrem vítimas do consumo de heroína, ou seja, bem mais que o saldo de mortos (13.500) da guerra afegã-soviética (1979-1989).


Embora a produção mundial de ópio tenha caído (8.890 toneladas em 2007, 7.754 toneladas em 2009), a Rússia absorve 21% da heroína produzida no Afeganistão, ou seja, 70 toneladas por ano. Vladimir Putin nomeou um de seus mais fiéis aliados – Viktor Ivanov, ex-oficial da KGB, como ele – para chefiar o combate ao narcotráfico, em vão. Os serviços competentes apreendem somente 4% das cargas transportadas para a Rússia. Impotentes, os serviços de Ivanov se limitam a constatar que 2 milhões de jovens, com idade entre 18 e 39 anos, são consumidores regulares.


Essa “geração perdida”, principal vítima da contaminação pelo vírus da Aids, pode ser vista nas grandes cidades industriais dos Montes Urais, no coração do tráfego rodoviário, ferroviário e aéreo com a Ásia Central. A droga passa pela Rússia através da fronteira com o Cazaquistão, com 7.000 quilômetros de extensão, e difícil de ser controlada.


Na Ásia Central, a antiga rota da seda funciona sem parar. Os países pobres e minados pela instabilidade e pela corrupção, tais como o Tadjiquistão e o Quirguistão, são pontos de passagem obrigatórios. Osh, a grande cidade do sul do país, palco de violentos massacres anti-uzbeques em junho, está no centro do tráfico.


Um uzbeque originário de Batken (ao sul de Osh), preferindo manter-se anônimo, conta: “Desde o fim dos anos 1990, toda minha família vive do tráfico, uma verdadeira dinastia. Meus tios, meus irmãos, meus primos ganharam uma fortuna com o dinheiro da droga”. Em um país onde o salário médio não passa de 70 euros (R$ 163), o dinheiro da droga é uma tentação fácil. Comprado a US$ 1.500 no Afeganistão, o quilo da heroína atinge US$ 6 mil quando chega à fronteira do Cazaquistão, e US$ 50 mil em Moscou.


O Quirguistão, que em vinte anos foi palco de dois massacres étnicos (Uzgen em 1990, Osh e Jalal-Abad em 2010) e de duas revoluções (deposição do presidente Askar Akayev em 2005 e de Kurmanbek Bakiyev em abril de 2010), minado pela economia pálida e dependente de ajuda internacional, é um elo importante na rota da heroína. As cargas viajam da fronteira tadjique, ao sul, até Osh. De lá, duas vias são possíveis: para o Uzbequistão a oeste ou para o Cazaquistão ao norte. Para terminar na Rússia.


A divisão das tarefas se faz de acordo com as realidades étnicas do sul quirguiz: “Os uzbeques transportam, os quirguizes dirigem”, explica nosso interlocutor. Como em todo o espaço pós-soviético, as estruturas de segurança e os governadores de região estão envolvidos: “É impossível passar qualquer coisa sem o aval das autoridades locais, que recebem até 70% das transações”. Não é de se surpreender que o sul do país tenha visto a ascensão, nesses últimos anos, de barões locais prontos a desafiar o governo central.


Durante o mandato do presidente Bakiyev (2005-2010), originário do sul, o dinheiro da droga correu abundante. Em 2008, o presidente mandou fechar, sem maiores explicações, o serviço de combate ao narcotráfico do ministério do Interior. Em 2009, aboliu a Agência de Controle de Narcóticos. Ao mesmo tempo, criou um fundo de investimentos e de inovações, pouco preocupado em relação à natureza dos fundos investidos, colocando em sua direção seu filho Maxime. O presidente Bakiyev hoje vive exilado em Minsk, mas seus partidários ainda são muito poderosos. Dizem que seu irmão Janych, que dirigia os serviços de segurança, hoje passa a maior parte de seu tempo entre o sul quirguiz e o Tadjiquistão. Prova de que os pró-Bakiyev são fortes, seu partido Ata-Jourt venceu as legislativas do dia 10 de outubro. Esses “sulistas” agora são a principal força do novo Parlamento, ponta de lança do projeto de república parlamentar lançado pela nova presidente Roza Otunbayeva.


Talvez o parlamentarismo acalme a situação no cenário político quirguiz, mas não terá efeitos sobre o tráfico. “O maior problema é a corrupção”, acredita o analista russo Alexandre Zelitchenko, citado pelo jornal “Komsomolskaia Pravda” do dia 8 de outubro. Mesmo se o Tadjiquistão, o Quirguistão e o Cazaquistão começassem a controlar melhor suas fronteiras, a corrupção dos altos funcionários e dos policiais parece invencível na Ásia Central e na Rússia.


No dia 1º de julho de 2009, dois oficiais do “Narkokontrol” russo foram encontrados mortos por overdose nos recintos do centro de combate às drogas da região oeste de Moscou. A investigação se apressou em concluir uma “intoxicação alimentar”. Seria porque uma das vítimas, Konstantin Khrustalyov, era genro do general Korzhakov, veterano da KGB e ex-guarda costas de Boris Yeltsin? Não se contam mais os casos de cumplicidade entre traficantes e os serviços de segurança. O estranho nome dado ao serviço de combate ao narcotráfico talvez tenha algo a ver com isso: “Serviço Federal para Controle do Fluxo de Drogas”. Como se o problema não fosse impedir o tráfico, e sim controlá-lo!”


Tradução: Lana Lim



Notícia do Le Monde, republicada no UOL.


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terça-feira, setembro 01, 2009

Beslan, cinco anos depois

Cinco anos depois, sobreviventes de Beslan consideram-se abandonados

Matthias Schepp

Meia década após a crise de reféns de Beslan, os sobreviventes e as famílias das vítimas sentem-se abandonados pelo Estado russo. As autoridades não desejam ser lembradas de como as forças de segurança russas mostraram-se incapazes de lidar com um ataque terrorista que provocou a morte de tantas crianças.

Era um dia escaldante de verão quando Alan Adyrkhayev, um médico, recebeu uma carta da sua filha de 11 anos, Emília. A carta era incomum, até porque pai e filha moram na mesma casa em Beslan, uma pequena e poeirenta cidade na Ossétia do Norte, situada entre as montanhas do Cáucaso. Mas o pedido de Emília era suficientemente importante para merecer a redação de uma carta.

"Esta carta é dedicada à nossa mãe Ira", escreveu a menina com a sua letra de criança. "Os anos passaram, mas eu nunca esquecerei o seu sorriso, os seus olhos e o seu carinho". A declaração de amor de Emília à sua mãe morta terminou com um pedido de vingança. "Os russos devem matar os inguches, da mesma forma que eles mataram a nossa Beslan".

Foram terroristas inguches, bem como alguns tchetchenos, que invadiram a escola Número Um, em Beslan, em 1º de setembro de 2004, tomando como reféns 1.127 alunos, professores e pais. As autoridades russas, despreparadas para tal ação, não perderam muito tempo com negociações, e lançaram uma operação de resgate insensível que terminou em um caos sangrento.

Nunca antes um ataque terrorista tirou a vida de tantas crianças. Dentre os 334 mortos, 186 eram alunos da escola ou irmãos dos alunos. Além disso, 17 crianças perderam o pai e a mãe, e 72 ainda padecem de graves deficiências físicas. A mulher de Adyrkhayev, também médica, morreu durante o ataque. Beslan foi o 11 de setembro da Rússia.

"Um ato de desespero"
"Eu não quero que a minha filha passe a vida com tanto ódio", diz Adyrkhayev. "Mas sinto-me impotente". Adyrkhayev, um homem de cabelos negros e olhos tristes, está sentado no seu consultório no segundo andar do hospital municipal. Ele está mais familiarizado do que qualquer dos outros 36 mil moradores de Beslan com as consequências de longo prazo da tragédia. Adyrkhayev enxerga essas consequências nos seus pacientes, incluindo Kristina, de 12 anos, que ele tratou na manhã da entrevista, e cuja pressão arterial era de 160. Um outro paciente de 12 anos de idade, Vladimir, cortou a própria mão com uma faca. "Não foi uma tentativa de suicídio, mas um ato de desespero. Ele provavelmente encontra-se inconscientemente torturado pela sensação de que não merece estar vivo depois que uma quantidade tão grande dos seus colegas de classe morreu."

Adyrkhayev descreve um outra paciente sua, Karina Kussova, uma menina bonita de 13 anos, cuja perna esquerda ficou desfigurada por queimaduras do pé aos quadris. Com uma renda total de aproximadamente 250 euros (cerca de R$ 661) por mês, o seu pai, um trabalhador da construção civil, e a sua mãe, que é operadora de guindaste, não conseguem arcar com a despesa semanal de 540 rublos (aproximadamente R$ 32) com a compra de uma pomada cicatrizante, e muito menos com os cinco mil euros (cerca de R$ 13.257) necessários para um transplante de pele e remoção de quatro estilhaços de munição, uma cirurgia que teria que ser realizada em Moscou.

Mas aquilo do qual a garota de cabelos longos e castanhos mais precisa é de ajuda psicológica. À noite ela imagina que os seus bichos de pelúcia transformam-se em terroristas que usam máscaras negras. Certa noite, Karina acordou gritando, após sonhar que a sua perna ferida tinha sido arrancada do seu corpo magro e jazia, sem vida, ao seu lado na cama.


"O governo não faz nada"
Após a brutal crise dos reféns, que durou 52 horas, Beslan foi inundada por uma onda de compaixão e ofertas de assistência. Pacotes de ajuda humanitária chegaram do mundo inteiro, da Austrália à Jordânia, incluindo 46 aparelhos de televisão, 19 fornos de microondas, 196 telefones, 35 câmeras e "uma quantidade de bichos de pelúcias suficiente para encher os quartos de todas as crianças desta província", como diz uma professora que sobreviveu ao ataque.

O prefeito de Moscou construiu duas escolas modernas na cidade, celebridades do setor russo de entretenimento fizeram shows beneficentes, bancos financiaram a construção de playgrounds e doadores privados e governamentais pagaram o equivalente a 30 mil euros (cerca de R$ 79,5 mil) por cada pessoa morta e 20 mil euros (cerca de R$ 53 mil) a cada indivíduo gravemente ferido no incidente - quantias que não são pequenas na região pobre do Cáucaso.

Entretanto, cinco anos depois, muitos dos sobreviventes e familiares das vítimas sentem-se abandonados. Devido ao legado do sistema de saúde soviético, pouquíssimos moradores de Beslan têm seguro saúde. "O governo não faz nada", critica Adyrkhayev. "Não há exames regulares, e não existe um departamento central do governo para prestar assistência àqueles que buscam ajuda."

O novo hospital, com as suas paredes brancas brilhantes e o telhado azul reluzente - tão atraente e de aparência tão diferente como se tivesse caído dos céus sobre o Cáucaso - foi construído dois anos atrás na periferia de Beslan. Trata-se do hospital mais caro da região, mas ele tem dois problemas. Primeiro, a falta de verbas e de licenciamento significa que este hospital novo em folha ainda não abriu as suas portas. Segundo, o plano inicial não incluiu um departamento de psicologia pediátrica. "Isso significa que os meus jovens pacientes terão que esperar até que cresçam?", resmunga Adyrkhayev.

Enquanto isso, um em cada dois dos 60 leitos do hospital existente no município precisa ficar vazio porque não há dinheiro para reformar o prédio caindo aos pedaços. No início deste mês, a prefeitura da cidade reduziu em 20% os salários de médicos e enfermeiros. Antes disso, Adyrkhayev ganhava 9.000 rublos (aproximadamente R$ 530) por mês, mas somente fazendo vários plantões noturnos.


Suprimindo memórias do banho de sangue
Ao que parece, a Rússia, que possui a terceira maior reserva monetária mundial, preferiria simplesmente suprimir as memórias do banho de sangue de Beslan, da mesma forma como se esqueceu do massacre de mais de 170 pessoas perpetrado por terroristas tchetchenos em um teatro de Moscou em outubro de 2002. Beslan tornou-se um sinônimo da destruição de crianças como "uma demonstração de poder completamente destituída de remorso", diz o escritor russo Victor Erofeyev. O episódio significa também que atualmente os russos veem qualquer uso da violência como "um fenômeno de ordem metafísica".

Vladimir Putin, que era o presidente quando ocorreu a tragédia de Beslan, só foi uma vez ao local desse crime, logo após o massacre. Os responsáveis pela invasão amadorística do prédio da escola por parte das forças russas de segurança não foram punidos, e alguns foram até promovidos. Ainda há dúvidas quanto à versão de que havia 32 sequestradores. Muita gente em Beslan acredita que alguns terroristas conseguiram escapar.

O assunto é mais ou menos um tabu na televisão russa controlada pelo Estado. Membros de um grupo chamado Mães de Beslan reclamam de que passaram anos tentando sem sucesso contar a sua história em algum programa importante de entrevistas televisivas. Isso fez com que uma das líderes do grupo, Susanna Dudieva, rotulasse o incidente de Beslan e os fatos que se seguiram a ele como "uma desgraça dupla". Ela diz que, mesmo tendo informações sobre a possibilidade de um ataque terrorista iminente nos dias que antecederam a crise dos reféns, o governo foi incapaz de proteger as crianças. E agora ela acrescenta que o governo as esqueceu.

Há um álbum de fotografias em um canto do pequeno escritório dela perto da escola destruída. Uma das fotos mostra o torso queimado do seu filho, Saur. Ele estava sentado exatamente embaixo de uma das cargas explosivas que os sequestradores colocaram na cesta de basquete na quadra esportiva da escola. Os reféns ficaram agachados lá, amontoados em meio ao calor escaldante em sem água para beber. As crianças foram obrigadas a ver os terroristas matarem a tiros o professor de educação física Ivan Kanidi.

Os custos de longo prazo
"Quem quer que tenha presenciado isso ficou traumatizado por toda a vida", afirma Adyrkhayev. O médico afirma que alguns dos seus pacientes reclamam de dores de cabeça constantes, para as quais ele não tem explicação. As suas próprias filhas, Emília e Milana, só conseguem dormir com as luzes acesas. Na mesa dele há uma lista com os nomes de oito crianças que necessitam urgentemente de cirurgias, mas não há dinheiro para pagar pelas operações. O nome de Fatima Dzgoeva está no topo da lista.

Fatima tem 15 anos, mas os seus familiares dizem que ficam satisfeitíssimos se ela consegue somar os números 20 e 20. Quando unidades policiais de elite russas invadiram a escola, um fragmento de munição penetrou na testa dela e saiu na parte anterior da cabeça.
Miraculosamente, sobreviveu, mas passou 19 dias em estado de coma.
Ela passou os três anos seguintes deitada em uma cama, usando fraldas e incapaz de pronunciar uma palavra sequer. Após cinco cirurgias, duas delas no Hospital Charité, em Berlim, ela pode agora caminhar e dizer algumas palavras.

Georgiy, o irmão de Fatima, que nasceu após a crise dos reféns, está brincando na areia em frente ao prédio de tijolos vermelhos onde a família mora. A tia dela, Lana, que deixou o emprego de professora de jardim de infância para ajudar a sobrinha portadora de deficiências graves, está falando freneticamente ao telefone com médicos da província, já que ninguém consegue encontrar na região o medicamento que reduz a pressão intracraniana de Fatima. Ela trouxe o remédio consigo da Alemanha, mas o estoque atual só é suficiente para mais uns poucos dias.


O cemitério mais bonito da Rússia
A tia de Fátima escreveu para o governador na capital da província, Vladikavkaz, a 21 quilômetros de Beslan, para arrecadar dinheiro para a operação e tratamento da sobrinha em Berlim. "Estou muito grata pelo fato de o governo nos ter ajudado", diz. Mas, logo após, a indiferença instalou-se. Ninguém quer pagar pelas consequências de longo prazo, e os sobreviventes enfermos foram relegados à condição de suplicantes.

E não são apenas as crianças que sofrem com esse problema. Os adultos traumatizados também precisam de ajuda. Perto do hospital novo, mas ainda inútil, fica a "Cidade dos Anjos", o cemitério mais bonito e bem cuidado da Rússia, com as suas 268 sepulturas.

O diretor do cemitério, Kaspolat Ramonov, colocou rosas na sepultura da filha no início da manhã. Ela estava no segundo ano secundário quando morreu, e atualmente teria 20 anos de idade. "Mariana era tudo para mim", diz.

Ele fala baixo, somente elevando a voz e manifestando indignação quando lhe perguntam há quanto tempo trabalha neste cemitério. "Eu não trabalho nele", declara Ramonov. "Eu moro aqui".

Tradução: UOL

Texto da Der Spiegel, republicado no UOL.

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segunda-feira, agosto 24, 2009

Uma Testemunha Destemida, Silenciada pela Morte

Uma testemunha destemida, silenciada pela morte

C.J. CHIVERS

Natalya Estemirova nos deixou. Seus executores a forçaram a embarcar em um carro, diante de sua casa na Tchetchênia e partiram em alta velocidade na manhã de 15 de julho. Ela conseguiu gritar um aviso de que estava sendo sequestrada, e suas últimas palavras documentam o início dos crimes cometidos contra ela, semelhantes aos crimes que Estemirova documentou contra incontáveis pessoas.
Seus assassinos agiram rapidamente, como se estivessem seguindo ordens. Transportaram-na a um lugar distante, dispararam tiros contra ela e a deixaram na beira da estrada, assassinando-a exatamente da maneira que seus amigos há muito temiam. A bolsa de Estemirova foi deixada ao seu lado. Os assassinos não estavam interessados no que ela continha. O crime tinha outro motivo.
Estemirova era membro essencial do pequeno círculo dos principais investigadores de abusos contra os direitos humanos no Cáucaso -uma mulher de coragem, precisão e calma imensuráveis. Ela trabalhava como pesquisadora para a Memorial, organização de defesa dos direitos humanos que opera em Grozni, capital da Tchetchênia. Para as famílias cujo sofrimento ela trabalhou por aliviar e cujas histórias ela forçou o mundo a contemplar, Estemirova foi sempre a mais resoluta das defensoras.
Para os homens cujos crimes expôs, ela representava um inimigo indecifrável, que eles não eram capazes de dissuadir. Ela vagueava pela arruinada república usando saia, blusa e sapatos de salto alto, sempre de batom, e contemplando com franqueza no olhar, talvez acompanhada por um ligeiro sorriso, tanto os atiradores encapuzados quanto suas vítimas. Estemirova lembrava um pouco uma bibliotecária, pronta a ampliar seu arquivo, documental e cerebral, sobre as verdades da guerra da Tchetchênia. E quem ela achava que era para fazê-lo?
Estamos falando da Tchetchênia, afinal, um mundo de violência tão sinistra que se torna até difícil descrever a situação em um jornal. Essa terra está sob o domínio de vilões. A experiência os ensinou que o medo forçará seus oponentes a ceder. Quem era ela para persegui-los? Por que não era possível convencê-la a desistir? A resposta agora está escrita, embora todos que conheceram Estemirova estivessem cientes do fato há muito tempo: só a morte poderia detê-la.
Resta uma questão sobre sua execução, a mais recente em uma série de homicídios contra aqueles que ainda se dispõem a registrar os horrores da Tchetchênia. Será que o relato do custo humano da violência será interrompido, agora? Sem ela, será que a Tchetchênia, como o Uzbequistão, se tornará um daqueles lugares onde ninguém ousa fazer perguntas inconvenientes de forma aberta?
A Tchetchênia é um pequeno ponto no imenso mapa da Rússia e abriga apenas algumas centenas de milhares de habitantes. Mas ela serve como exemplo dos fatores que propelem as guerras modernas: nacionalismo, petróleo, intolerância religiosa, racismo, tribalismo, códigos de sangue que requerem vingança, combatentes irregulares e unidades militares convencionais indisciplinadas, banditismo escancarado, pobreza, corrupção oficial e, para agravar ainda mais a situação, mercenários islâmicos itinerantes e um governo cuja base é o culto à personalidade.
O escritório de Estemirova se tornou um caleidoscópio do macabro. Por mais que isso pareça improvável, ela servia como um governo de uma mulher só, oferecendo serviços que o governo real não se dispunha a prover. Ela localizava os encarcerados. Procurava sepulturas ocultas. Construía casos contra os perpetradores, mesmo quando descobria, como frequentemente era o caso, que estes vestiam uniformes do governo.
Grozni, a capital, era uma terra arrasada, em termos físicos, morais e psicológicos. Estemirova era quase sobrenatural. Habitava outra Tchetchênia, na qual a dignidade poderia prevalecer. A Rússia caiu no silêncio quanto às guerras. A TV controlada pelo Estado não revelou as constatações de Estemirova. A maioria dos jornalistas russos evitava contato com ela. Na Rússia de Vladimir Putin, ela era uma não pessoa. Mas nada disso serviu para dissuadi-la. Os indícios que descobria eram encaminhados diretamente aos promotores, e Estemirova passava a cobrar investigações. Ao longo dos anos, e de novo nos últimos meses, Estemirova e seus colaboradores foram convocados a reuniões oficiais e ouviram queixas quanto ao trabalho que faziam. A mensagem era clara: basta.
Ela foi convocada a comparecer diante de Ramzan Kadyrov, antigo líder rebelde tornado presidente, chefe de um governo que mantinha centros de tortura nos quais, como mostram os registros de Estemirova, os detentos eram submetidos a espancamentos, chutes, choques elétricos, execuções simuladas, sodomia, queimaduras por tochas de acetileno e, no final, em alguns casos, a execuções reais. E esses casos foram documentados por Estemirova. Praticamente ninguém foi acusado. Agora, Estemirova, a principal investigadora, a mulher que se recusou a parar mesmo quando informada que era hora de silêncio, partiu, eliminada da vida e da Rússia como tantas outras vítimas.

Texto do The New York Times, reproduzido na Folha de São Paulo, de 27 de julho de 2009.


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sexta-feira, julho 24, 2009

Não esqueçamos o assassinato de Natalia Estemirova!

Vocês sabem tudo. Há muito tempo. Não há nenhum mistério. Natalia Estemirova foi eliminada porque ela combatia a mentira e a obscuridade do Estado, porque ela falava demais, porque ela investigava com muita precisão, porque ela acusava os mandatários dos crimes cotidianos na Chechênia, o ditador Kadyrov, os serviços secretos do exército russo, as diversas máfias que agem livremente, e seus chefes no Kremlin. As capturas extrajudiciais executadas por homens encapuzados, as casas de civis incendiadas em "punição", às vezes com seus moradores deliberadamente presos dentro delas, as tomadas de reféns que os serviços públicos devolvem com vida ou em pedaços em troca de dólares, as mulheres violentadas diante de seus maridos.

Vocês sabem tudo. Nenhuma novidade no martírio checheno desde a primeira guerra desencadeada por Moscou em 1994. Nenhuma novidade, além do fato de que a vitória russa foi declarada, que reina a paz putiniana, e que o terror continua.

Nenhuma novidade. Diante do cadáver de Natalia Estemirova, encontro desesperadamente as mesmas palavras e os mesmos pensamentos, as mesmas emoções e as mesmas lágrimas que tive na morte de minha amiga Anna Politkovskaia. Que me apresentou sua amiga, pedindo que a apoiasse para o prêmio Sakharov (ela recebeu a medalha Schuman). Elas se conheciam desde a primeira guerra, tendo ambas partido, intrépidas, em busca da verdade sobre um massacre de longa duração, que eliminou um em cada cinco civis. Ambas, cassandras de nossos tempos, falavam para as paredes, prevendo que o caos se estenderia ao Cáucaso (o que aconteceu), e que os acertos de contas mafiosos e oficiais ganhariam a própria Rússia (o que aconteceu).

A Chechênia? Um império minúsculo, mas um caso clássico para a humanidade: um milhão de habitantes antes da guerra, 200 mil mortos, 40 mil crianças mortas (e quantos órfãos?), uma capital devastada, cidades e vilarejos reduzidos a cinzas. E depois? A educação pelo medo e pela corrupção, ou como calar o povo. Não somente os chechenos, mas os russos e se possível nós, pacíficos cidadãos das nações democráticas. As fachadas reluzentes dos imóveis reconstruídos em Grozny mentem.

Nenhuma novidade no oeste; do lado da Europa tranquila e ainda próspera, já estão acostumados. A leste, os assassinatos se sucedem, se parecem e causam em nós algumas indignações logo esquecidas. É claro, não declararemos guerra - ainda que fria - contra a grande Rússia, então voltemos logo às atividades normais. Esse tipo de conduta de evasão provoca há muito tempo a zombaria da dupla que dirige o Kremlin, que não se constrange de caricaturar publicamente nossos representantes, e suscita a ironia entristecida dos dissidentes que compartilham de nosso gosto pela liberdade e democracia.

Serguei Kovaliev, o amigo de Sakharov, pergunta para quê servem os diplomatas e as chancelarias se a única alternativa é ou a guerra, ou uma complacência definitiva com o domínio das máfias e do despotismo? Para quê servem os ministros das Relações Exteriores se eles se mostram incapazes de planejar pressões econômicas, culturais ou diplomáticas que possam civilizar os tantos preocupantes vizinhos em nossas fronteiras?

No entanto, há uma novidade. Após o assassinato ainda não solucionado de Anna Politkovskaia, Ramzam Kadyrov, protegido de Putin suspeito de ser mandatário do crime, mandou erguer na capital um epitáfio de mármore negro em homenagem aos jornalistas e combatentes dos direitos humanos "assassinados por sua liberdade de expressão". Não, vocês não estão sonhando.

Após o assassinato de Natalia Estemirova, ele tornou pública sua indignação e se colocou como chefe de uma investigação para punir os culpados. Medvedev também. O ápice dessa piada foi atingido em Berlim: Angela Merkel pediu uma investigação, Medvedev prometeu uma, e depois a chanceler alemã e o presidente russo se abraçaram, prometendo um ao outro uma amizade industrial indestrutível. Belo festival de contratos fabulosos, somente dois dias após a descoberta de Natalia, com duas balas na nunca, à beira de uma estrada.

Kadyrov sabe punir, e até gosta disso, é o que dizem. Punir quem? Seu primeiro "ato de justiça" diz muito sobre isso: ele está processando Oleg Orlov, fundador do Memorial [organização de direitos humanos] junto com Sakharov e companheiro de luta de Natalia Estemirova. Sim, Medvedev, o clone "bonzinho" de Putin, vai conduzir uma investigação para persuadir o mundo inteiro. Ele encontrou os assassinos de Anna? Ou os de Stanislav Markelov e de Anastasia Barburova? Ou os da multidão de anônimos? Ele entregou à Grã-Bretanha o assassino de Alexandre Litvinenko? Não! Ele comparece à Duma e faz zombarias na televisão. Ele jura que fará o impossível; ele, que acaba de promover a caça aos "antipatriotas", ou seja, aqueles que estudam os crimes de Stálin durante a Segunda Guerra Mundial, antes e depois.

Orwell revelou a novilíngua moderna: "Guerra é paz, escravidão é liberdade". Ele mostrava esses paradoxos particulares da propaganda totalitária. Progresso estranho: as democracias agora se empenham para não ficarem para trás de uma hipocrisia.

Em 17 de julho, uma caminhonete amarela transportou o corpo de Natalia, cercada de seus amigos, os melhores, os mais corajosos e os mais audaciosos de Grozny. Ela subiu lentamente a avenida Putin, a "Champs-Elysées" da capital, reconstruída e batizada com o nome de seu carrasco. Essa "avenida Putin" onde Natacha nunca andou quando estava viva, rejeitando a injúria cínica feita a seu povo dizimado, forçado a uma completa humilhação.

Em Moscou, prestando homenagem a Natacha, nova mártir da verdade, ao lado das mentes inconformistas do Memorial, estava a incansável Ludmila Alexeyevna, 82, figura da dissidência antissoviética. Em Paris, durante uma breve cerimônia na fonte Saint-Michel, abracei Natalia Gorbanevskaia, a poeta que protestou, com seu bebê nos braços, na praça Vermelha em agosto de 1968, contra os tanques russos que esmagavam uma Praga insurgente. Ela fora enviada a um hospital psiquiátrico.

Inabaláveis mulheres de fibra, vocês são mais determinadas do que toda essa selvageria, mais fortes que nossos retraimentos. Vocês conhecem o orgulho dos povos caucasianos, a dignidade da cultura russa que sempre foi de resistência, e se nossa humanidade tem um rosto, é o de vocês. Anna e Natacha, obrigado.

*André Glucksmann é filósofo.

Tradução: Lana Lim

Texto de André Glucksmann, no Le Monde, reproduzido no UOL.

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quinta-feira, julho 16, 2009

Medvedev condena assassinato de ativista na Chechênia

Medvedev condena assassinato de ativista na Chechênia

O presidente russo Dmitry Medvedev expressou "revolta" nesta quinta-feira pela morte da ativista de direitos humanos Natalia Estemirova.

Ele ordenou a abertura de um inquérito sobre o assassinato de Estemirova, que estava investigando supostos abusos de milícias apoiadas pelo governo na Chechênia.

Estemirova foi sequestrada na quarta-feira em Grozny, capital da Chechênia. O seu corpo foi encontrado no mesmo dia na região vizinha da Ingushetia. Ela foi assassinada a tiros.

A ativista, que tinha 50 anos, estava juntando provas para a organização russa de direitos humanos Memorial sobre uma campanha das milícias para incendiar casas de chechenos.

Ela era uma notória crítica do governo checheno do presidente Ramzan Kadyrov, que é aliado de Moscou.

Casa Branca

O diretor da Memorial, Oleg Orlov, culpou as autoridades chechenas pelo assassinato de Etemirova, e disse que ela já havia sido ameaçada de morte no passado.

O presidente checheno não comentou as declarações de Orlov, mas condenou o assassinato, dizendo que o autores do crime "não merecem apoio e precisam ser punidos como os criminosos mais cruéis", segundo informações da agência de notícias russa Interfax.

Ele prometeu assumir pessoalmente o controle da investigação.

Nos Estados Unidos, a Casa Branca divulgou uma nota na qual o governo americano se diz "profundamente perturbado e entristecido pelo [...] assassinato brutal".

"Um crime tão hediondo passa uma mensagem para a sociedade civil russa e para a comunidade internacional e ilustra a trágica deterioração da segurança e da lei no norte do Cáucaso nos últimos meses", afirma a nota da Casa Branca.

Estemirova trabalhou com a jornalista Anna Politkovskaya, assassinada em 2006, e com o ativista Stanislav Markelov, morto em janeiro deste ano.

Em 2007, ela ganhou o primeiro Prêmio Anna Politkovskaya, e também foi premiada pelos parlamentos da Suécia e da Europa.

O assassinato da ativista também foi condenado pelos grupos Human Rights Watch e Anistia Internacional.


Notícia da BBC Brasil.

A notícia original do assassinato, em inglês, na BBC.

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domingo, janeiro 25, 2009

Advogado e jornalista defensores de direitos humanos na Rússia são assassinados

Advogado e jornalista são assassinados

DA ASSOCIATED PRESS

O advogado Stanislav Markelov, célebre pela defesa de vítimas de abusos humanitários na Tchetchênia (região separatista russa), foi morto ontem no centro de Moscou, após entrevista coletiva. A jornalista Anastasia Baburova, colaboradora do oposicionista "Novaya Gazeta", também foi assassinada.
Markelov, 34, e Baburova, 25, deixavam o prédio onde o advogado dera a entrevista criticando a libertação antecipada do ex-coronel Yuri Budanov, condenado em 2003 a dez anos de prisão pelo assassinato de uma adolescente tchetchena. "É assustador", disse Tatyana Lokshina da Human Rights Watch. O crime remete à morte, em 2006, da jornalista Anna Politkovskaya, cliente de Markelov.

Texto da Folha de São Paulo, de 20 de janeiro de 2009.


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segunda-feira, dezembro 29, 2008

Brasil e Rússia assinam acordos

Brasil compra 12 helicópteros russos de combate para a FAB

Contrato assinado por Lula e Medvedev é estimado entre US$ 250 mi e US$ 300 mi

Em reunião no Itamaraty, no Rio, presidentes firmam acordo para isentar turistas dos dois países de vistos para visitas de até 90 dias

RAPHAEL GOMIDE
DA SUCURSAL DO RIO

O Brasil anunciou ontem a compra de 12 helicópteros de ataque e transporte de tropas Mi-35M para a Força Aérea Brasileira, durante o último dia da visita do presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, ao país.
O contrato, estimado entre US$ 250 milhões e US$ 300 milhões, prevê ainda o fornecimento de peças para as aeronaves. A FAB não falou sobre detalhes do contrato, que vinha sendo negociado há dois anos.
O Mi-35M é um dos mais modernos helicópteros do mundo, podendo transportar oito soldados, e deverá ser empregado na Amazônia -por sinal um dos teatros de operações do mesmo aparelho na vizinha Venezuela. Hoje o Brasil não tem helicópteros de ataque, improvisando armamentos em aparelhos de transporte.
Foi assinado também um protocolo de intenção de cooperação militar de amplo espectro, mas de pouca substância. De todo modo, é um passo para Moscou tentar reposicionar-se na disputa com a França pelo papel de parceiro estratégico do país no campo de defesa -embora o acordo a ser assinado com Paris na visita do presidente Nicolas Sarkozy em dezembro deverá ser bem mais detalhado e aprofundado.
Ele deverá incluir a compra de 50 helicópteros de transporte, de tecnologia menos avançada, da França. Eles seriam montados em Minas Gerais pela Helibrás, que é subsidiária da francesa Eurocopter.
A aquisição das aeronaves foi informada durante o encontro do presidente Lula com Medvedev, no Palácio do Itamaraty, no centro do Rio. O ministro da Defesa, Nelson Jobim, estava presente no encontro ontem.
A Agência Espacial Brasileira e a Agência Federal Espacial da Federação da Rússia firmaram programa de cooperação para usar e desenvolver o Sistema Global de Navegação por Satélite russo, o Glonass -que pretende ser uma alternativa ao consagrado GPS, controlado pelos Estados Unidos.
Pelo combinado no acordo, as partes não podem vender ou transferir a terceiros produtos de destinação militar ou informações obtidas nesse intercâmbio, sem autorização prévia, por escrito, da outra parte.
Outro fruto das reuniões dos presidentes do Brasil e da Rússia foi a isenção de vistos de curta duração para turistas brasileiros e russos. Nacionais dos dois países poderão entrar, sair e transitar pelo outro Estado por até 90 dias, a cada período de 180 dias, a partir da primeira entrada, sem visto.
A decisão vale apenas para as visitas de turismo; para exercer alguma atividade profissional, missionária, trabalho voluntário, estudo, estágio ou pesquisa, continua a ser necessário ter o visto correspondente.
O presidente do Brasil afirmou que o comércio com a Rússia deve ir além das commodities e incluir produtos de maior valor agregado. Lula citou as áreas de tecnologia e militar, e disse que o PAC oferece uma oportunidade de empregar a experiência russa em ferrovias e infra-estrutura, bem como a Rússia pode se beneficiar do know-how brasileiro em biocombustíveis.
Medvedev foi ontem para a Venezuela, onde navios russos chegaram para polêmicos exercícios conjuntos no Caribe, e depois segue para Cuba.


Colaborou a Sucursal de Brasília

Texto da Folha de São Paulo, de 27 de novembro de 2008.

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quarta-feira, setembro 10, 2008

Tanques da Geórgia contra adolescentes da Ossétia

Tanques da Geórgia contra adolescentes da Ossétia: a história da resistência de Tskhinvali

Uwe Klussmann
Em Tskhinvali, Geórgia


Quando as forças georgianas avançaram para a capital da Ossétia do Sul, Tskhinvali, no dia 7 de agosto, elas subestimaram a determinação da resistência dos ossetianos. Jovens abriram fogo com Kalashnikovs e adolescentes jogaram bombas de petróleo contra os tanques. O regime local patrocinado pelos russos saiu triunfante.

Qualquer um que queira saber o valor da palavra do presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, basta olhar para a capital da Ossétia do Sul. O aposentado Wachtang Babeyev ainda fala um pouco do georgiano que aprendeu em tempos soviéticos, quando os ossetianos e georgianos viviam juntos em paz, apesar das tensões. Na tarde do dia 7 de agosto, o carpinteiro aposentado estava sentado em seu apartamento na rua Karl Marx assistindo um discurso de Saakashvilli na televisão. As palavras do presidente fizeram-no se sentir esperançoso.

Saakashvilli estava na capital da Geórgia, Tbilisi, e disse que tinha "dado a ordem muito dolorosa de não reagir com fogo" se os ossetianos do sul atirassem contra as forças de segurança da Geórgia. Ele terminou seu discurso com um apelo: "Vamos deter a espiral de medo. Dar uma chance à paz e ao diálogo". Poucas horas depois, Babeyev estava prestes a cozinhar seu jantar quando bombas começar a cair em torno de seu prédio. Ele fugiu para o porão de um bloco ao lado com nove vizinhos. Foi uma noite em branco, assustadora. Horas de bombardeio de artilharia reduziram os prédios a ruínas, destruíram carros e transformaram os jardins em buracos.

Na manhã seguinte, aviões de guerra da Geórgia lançaram bombas para terminar a destruição. Então, os tanques chegaram para "restaurar a ordem constitucional", como disse Saakashvilli - uma ordem que nunca existiu na Ossétia do Sul. Quando a URSS foi dissolvida, três Estados de fato emergiram no território da antiga república soviética da Geórgia: Ossétia do Sul, Abkházia e a nova Geórgia, que conseguiu entrar para a Organização das Nações Unidas com as fronteiras antigas traçadas por Stálin.

Desejo de autonomia
Os ossetianos do sul não conseguem entender as pessoas que os chamam de "separatistas". Eles dizem que nunca romperam com a Geórgia porque nunca se uniram ao novo país quando foi formado após o colapso da URSS. É impossível encontrar qualquer um nesta parte do mundo que imagine seriamente o território como parte da Geórgia no futuro. O que o mundo está rotulando como "separatismo" de fato é o desejo de autonomia de um povo pequeno que foi dividido contra seus desejos.

Nos tempos soviéticos, a Ossétia do Norte - hoje parte da federação russa - e a Ossétia do Sul eram divididas apenas por uma linha administrativa invisível. Desde 1992, contudo, uma fronteira nacional passou a separar irmãos, irmãs, pais e filhos. Tentativas violentas de nacionalistas georgianos de suprimir os ossetianos do sul levaram o povo da montanha a se refugiar dentro de uma república não reconhecida, como se fosse uma trincheira.

Um cessar-fogo foi firmado com a Geórgia em 1992 e trouxe as forças de paz russas para o país, por um pedido tanto dos ossetianos quanto do georgianos. O cessar-fogo durou 12 anos, até que Saakashvilli chegou ao poder em 2004. Assim que foi eleito com uma votação suspeita de 96% e com as bênçãos de Washington, ele começou a fazer discursos calorosos sobre "separatistas criminosos". Um primeiro ataque militar das tropas georgianas fracassou em agosto de 2004 devido à forte resistência da Ossétia do Sul e porque os EUA, diferentemente de hoje, detiveram a aventura de Saakashvilli.

Os invasores que avançaram para a cidade destruída de Tskinvhali na manhã do dia 8 de agosto em jipes americanos vestiam uniformes e capacetes feitos nos EUA. Muitos deles foram treinados por oficiais americanos ou serviram no Iraque ao lado dos americanos.

Eles rapidamente compreenderam que não estavam enfrentando apenas "meia dúzia de separatistas", como tinha alegado Saakashvili. A atitude dos jovens da Ossétia do Sul pode ser resumida pelo que disse a estudante Julia Beteyeva, da Universidade de Tskhinvali, ao Spiegel, em junho de 2004: "Só poderão tirar nossa república nos matando."

Defensores adolescentes
No dia 8 de agosto, grupos de jovens ossetianos, alguns deles com apenas 16 anos de idade, atacaram os tanques georgianos com bombas de petróleo. Os rapazes pegaram rifles Kalashnikovs em arsenais escondidos e combateram os georgianos em grupos ou sozinhos. Ao meio-dia, Alan Ulmbegov, 34, filho de um oficial soviético nascido na cidade de Meiningen no Leste alemão, viu as tropas georgianas chegando. Ele pegou seu rifle em um armário. Sua mãe implorou para que ele não fosse. "Eu quero proteger nosso povo", respondeu e partiu para a batalha. Lemas como "Jovens da Ossétia pela liberdade" e "Vergonha da Geórgia e de seus defensores como o traidor Sanakoyev" tinham sido pintados nos muros da cidade destruída.

Dmitry Sanakoyev, ex-primeiro-ministro da Ossétia do Sul, foi instalado por Saaskashvili como diretor de um governo para a região, que tinha o título inadvertidamente preciso de "Governo Provisório da Ossétia do Sul", e consistia de meia dúzia de aldeias georgianas no território da Ossétia do Sul. Desde então, estas foram destruídas pelo exército russo e pilhadas pelos ossetianos do sul. Grande parte da minoria georgiana fugiu. Sanakoyev era um "empresário" duvidoso, com dívidas nos jogos, uma presa fácil dos estrategistas de Tbilisi. Em julho mesmo, a secretária de Estado americana Condoleezza Rice apertou as mãos de Sanakoyev como se Washington ainda tivesse grandes planos para ele.

Desde a batalha de Tskhinvali, o poder na Ossétia do Sul está nas mãos do presidente Eduard Kokoity. Ele tem um sorriso malandro que talvez tenha adquirido durante os selvagens anos 90, quando o lutador fez fortuna em contratos questionáveis. Seu orçamento não é especialmente transparente e provavelmente consiste mais de transferências russas do que de pobres receitas fiscais locais. Suas forças militares são constituídas de uma milícia que acaba de derrotar os aliados dos EUA.

Os combatentes de Kokoity participaram de um comício na Praça do Teatro, no centro de Tskhinvali. Alguns usavam preto; um segurava uma granada de mão como se fosse uma bola de tênis. Muitos tinham barba e amplos ombros. Um deles usava chinelo e abraçava sua namorada. Eles são a geração de ossetianos do sul que nem falam georgiano, muito menos se sentem georgianos.

"Genocídio contra o pequeno povo ossetiano"
Kokoity, que não é grande orador, descreve a cidade provinciana de 30 mil habitantes como "Stalingrado do Cáucaso". Suas palavras ecoam em torno dos prédios destruídos por bombas do centro de Tskhinvali enquanto grita contra "O regime sangrento da Geórgia" que cometeu um "genocídio contra o pequeno povo ossetiano". Para amainar o sentimento de ódio, ele acrescenta: "Não estamos combatendo o povo georgiano".

Kokoity quer se unir ao palco diplomático internacional. Ele pede à Rússia que reconheça a Ossétia do Sul. Com a maior parte dos ossetianos do sul, Kokoity é cidadão russo. Quando ele fala de independência, ele quer dizer a unificação com a Ossétia do Norte e toda a Rússia. Antes da guerra, ele tinha distribuído cartazes pela região declarando: "A Ossétia é indivisível".

Hoje, Georgi Bagayev, 70, não está muito preocupado com a situação do governo. Quando ele abre a porta que até o dia 7 de agosto conectava sua cozinha com a sala de estar, ele vê uma pilha de destroços.

Uma bomba destruiu a parede externa, e a sala está cheia de destroços e roupas, além de uma foto de sua neta de cinco meses, Alana. A menina sobreviveu ao ataque em sua cidade natal. Ela foi evacuada para segurança da Ossétia do Norte pouco antes do início da guerra.

Tradução: Deborah Weinberg

Texto da Der Spiegel, no UOL.


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terça-feira, agosto 19, 2008

O Financial Times vê o conflito na Geórgia

Conflito mostra primeira tentativa de ressuscitar a União Soviética

Charles Clover

Na terça-feira (12/08), o trecho de auto-estrada entre Tbilisi, a capital da Geórgia, e a cidade de Gori, que fica próxima à frente de batalha, contava a história triste do fim de um exército outrora orgulhoso.

Era possível ver dezenas de veículos vazios, que aparentemente foram abandonados quando o pânico tomou conta dos soldados georgianos durante a noite.

Equipamentos, incluindo metralhadoras, foram deixados nos veículos e espalhados ao longo da estrada. Havia pouquíssimos sinais de luta.
Somente um veículo foi atingido pelo fogo inimigo: um carro blindado retorcido e escurecido pelo fogo. O seu canhão estava jogado em um campo próximo.

O resto da destruição - dois caminhões pesados que colidiram de frente, vários tanques abandonados em depressões à beira da estrada e dezenas de caminhões vazios com as portas abertas - deveu-se ao puro medo. Os soldados que por lá circulavam evidentemente sabiam que qualquer veículo militar na estrada era um alvo potencial para a temida "aviatsia" russa. Melhor voltar a pé para Tbilisi do que morrer.

Foi o final humilhante de uma aventura militar - que teve início na última quinta-feira - espetacularmente mal concebida por Mikhail Saakashvili, o presidente georgiano. Na noite passada ele alimentou o pânico ao anunciar na televisão - falsamente, conforme ficou comprovado - que as tropas russas marchavam em direção à capital e ordenar o recuo das suas unidades.

Quando o presidente russo Dmitri Medvedev anunciou ontem a cessação das hostilidades, a Rússia estava no comando tanto da Ossétia do Sul quanto da Abkházia. Os russos destruíram a capacidade de combate georgiana e pareciam ter a intenção de derrubar Saakashvili, com uma boa chance de sucesso.

Foi o fim de uma semana de riscos sem precedentes assumidos pelos governos georgiano e russo, cada um deles tentando reescrever as regras referentes àquilo que poderiam fazer impunemente. Saakashvili apostou em uma ofensiva contra o enclave separatista da Ossétia do Sul, mas, em vez de desfechar um ataque rápido e preciso, transformou a operação em um uma balbúrdia sangrenta na noite da quinta-feira, quando tropas georgianas cercaram a cidade de Tskhinvali, bombardeando-a e matando até 2.000 pessoas.

O Kremlin também fez uma aposta quando fez com que o seu 58º exército cruzasse a fronteira para atacar um país apoiado pelos Estados Unidos.
Até mesmo as invasões soviéticas da Hungria, da Tchecoslováquia e do Afeganistão, os únicos precedentes para uma guerra deste tipo, foram feitas contra países que se encaixavam solidamente na esfera de influência de Moscou. A Geórgia é diferente: o seu governo pró-ocidental tem vínculos estreitos com Washington, conta com um presidente educado na Universidade Harvard e possui mais de cem assessores militares norte-americanos. Em termos de desrespeito flagrante ao status quo global, a operação tem poucos paralelos.

Mas enquanto a Geórgia apostou e perdeu, até o momento o cálculo da Rússia parece ter resultado em sucesso.

Ao atacar impunemente um aliado norte-americano que estava sendo cogitado para ingresso na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o Kremlin demonstrou que a Rússia é a potência dominante na região. "Historicamente a Rússia foi e continuará sendo a garantidora da segurança dos povos do Cáucaso", afirmou Medvedev na semana passada.

Em outras palavras, parece que a Rússia subitamente passou a pertencer ao clube de elite formado pelos países que podem escrever as suas próprias regras. Da mesma forma como os Estados Unidos foram capazes de ignorar o repúdio generalizado à invasão do Iraque sob um falso pretexto - as inexistentes armas de destruição em massa de Saddam Hussein -, os líderes da Rússia puderam ignorar a pressão internacional referente a uma guerra que eles próprios ajudaram a provocar ao armarem e apoiarem os rebeldes sul-ossetianos.

"A Rússia está exigindo um papel totalmente novo, e este fato terá repercussões pelo mundo todo", afirma Dmitri Trenin, analista político do Centro Carnegie de Moscou. Ele vê como fortes provocações as recentes decisões da Otan de dar início a discussões a respeito do ingresso da Ucrânia e da Geórgia na Otan, bem como os planos dos Estados Unidos para a instalação de um sistema antimísseis na Europa Oriental. "A Rússia começará a enfrentar mais ativamente os Estados Unidos em todo o mundo. Esta atitude não existia um mês atrás - agora o clima é diferente. A Rússia deseja firmar a sua hegemonia regional".

Poucos duvidam que a ação militar na Geórgia é a primeira de uma série de medidas para reinstituir o controle de Moscou sobre a ex-União Soviética. O ingresso da Geórgia e da Ucrânia na Otan, algo que vinha sendo bastante cogitado no início deste ano, agora se tornou bastante improvável.

Tendo criado o precedente de defender os cidadãos russos com o uso de força militar - os sul-ossetianos vêm recebendo passaportes russos há dois anos - , o Kremlin poderia usar as mesmas técnicas do tipo dividir-e-conquistar na Criméia, a província ucraniana dominada por indivíduos de etnia russa, no norte do Cazaquistão, região também dominada pela etnia russa, ou nos Estados bálticos, que possuem grandes minorias russas. É quase certo que a Rússia tentará derrubar Saakashvili, tido por Moscou como um fantoche dos Estados Unidos, e substituí-lo por uma figura pró-Rússia. Viktor Yushchenko, o presidente pró-ocidental da Ucrânia tomará nota disso.

Recentemente o Kremlin procurou confrontar Washington em outras regiões, estabelecendo vínculos com regimes antiamericanos como a Venezuela, de Hugo Chávez, e Cuba, de Raúl Castro, e, ao mesmo tempo, aprofundando o relacionamento com a China para contrabalançar a força da Otan. No mês passado os dois países assinaram um acordo inédito de demarcação de fronteira.

Em face disso, a pressão norte-americana sobre a Rússia tem sido inefetiva. Moscou parece ter calculado corretamente que Washington não reagiria à sua invasão da Geórgia - já que os Estados Unidos estão emaranhados nas guerras no Afeganistão e no Iraque. Não se sabe se as "conseqüências" mencionadas em uma ameaça do vice-presidente dos Estados Unidos, Dick Cheney, alguns dia se materializarão.

Muitos acreditam que o governo georgiano também tem culpa pela guerra por ter atacado primeiro a Ossétia do Sul. "Creio que os Estados Unidos estão embaraçados pelo fato de Saakashvili ter ido além daquilo que Washington considerava uma política racional. Saakashvili tentou colocar os norte-americanos diante de um fato consumado. Mas a operação dele foi um desastre", afirma Trenin. "A resposta européia à crise da Geórgia tem sido heterogênea e marcada por críticas à Geórgia, bem como à Rússia, o que revela uma diferença profunda entre a percepção norte-americana e européia em relação à Rússia. Os europeus opõem-se às políticas de confrontação dos Estados Unidos e preferem não antagonizar Moscou. Muita gente na Europa dirá aos norte-americanos: 'Nós avisamos que vocês não podiam confiar nesse governo georgiano. Eles são como crianças brincando com fósforos no quintal, que acabaram se queimando bastante. Não faz sentido ir à guerra contra a Rússia por causa disso'".

Natalia Leschenko, da instituição de pesquisas políticas Global Insight,
afirma: "Os membros da União Européia dividem-se em duas linhas quanto à posição que a União Européia deveria adotar em relação à Rússia no que diz respeito à esta situação. Os novos membros, os Estados bálticos e a Polônia, exigiram rapidamente a imposição de regulamentações de vistos à Rússia e também a suspensão do Acordo de Parceria e Cooperação (entre a Rússia e a União Européia), que ainda não está em vigor. Já os membros mais antigos da união não vêem sentido na suspensão do diálogo com a Rússia".

Em outras palavras, Moscou obteve uma acachapante vitória militar, a um custo surpreendentemente baixo no que se refere à sua posição internacional. "Os Estados Unidos estão a ponto de perder um aliado, e não há muito que possam fazer, a menos que os russos cometam um erro mais sério como um bombardeio em grande escala contra Tbilisi ou o envio de tropas terrestres a Gori", diz Trenin, referindo-se à cidade georgiana ao sul da Ossétia do Sul. "Em tal caso os Estados Unidos teriam uma justificativa para agir. Mas do jeito que as coisas estão eles nada podem fazer".

Tal ousadia seria impensável há apenas alguns anos, logo após o colapso da União Soviética. Mas a Rússia passou por uma surpreendente transformação nos últimos oito anos sob o governo de Vladimir Putin, que neste ano deixou o cargo de presidente para tornar-se primeiro-ministro.

O liberalismo pró-ocidental da década de 1990 ficou desacreditado e os símbolos que o governo usa para se autodefinir são cada vez mais aqueles do império - a cruz ortodoxa da Rússia imperial czarista e a estrela vermelha da União Soviética. O "patriotismo" anda por toda parte como ideologia de Estado mal definida, sendo estimulado por uma mídia cada vez mais controlada pelo Estado.

Na década de 1990 o Kremlin era bem mais vulnerável às pressões internacionais, já que devia aos credores internacionais e estava ansioso para ser incluído no "Ocidente", com todas as obrigações morais implícitas em tal inclusão. Mas agora a Rússia exibe autoconfiança econômica, possuindo a terceira maior reserva de moeda estrangeira do mundo e exibindo um grande superávit da balança comercial alimentado pelo petróleo e o gás.

Enquanto isso, o relacionamento do país com o Ocidente tornou-se mais ambivalente, sendo que muita gente na Rússia acredita - de maneira similar ao movimento eslavófilo do século 19, que floresceu nos salões da São Petersburgo imperial - que o país tem uma missão própria e especial, não necessitando imitar o Ocidente.

Houve também uma transformação das forças armadas russas sob Putin, que assumiu a sua presidência no período marcado pelo episódio mais negativo referente à capacidade bélica da Rússia: o desastroso afundamento acidental do submarino nuclear Kursk, em 2000, devido a um torpedo defeituoso. A catástrofe do Kursk revelou como era grave o negligenciamento das forças armadas, e desde então o Kremlin fez do Exército uma prioridade. Há alguns anos, uma invasão da Geórgia seria simplesmente uma impossibilidade prática para um exército sucateado e desmoralizado pelas prolongadas campanhas na Tchetchênia e a falta de verbas.

O verdadeiro custo da campanha militar russa na Geórgia é desconhecido, mas ele pareceu ser um exemplo clássico de operação bélica moderna. "Os russos estão nitidamente usando o modelo da campanha dos Estados Unidos na Iugoslávia, em 1999", explica Trenin. O Kremlin efetuou bombardeios de grande altitude para castigar as forças georgianas até que elas recuassem, de forma semelhante ao que a Força Aérea dos Estados Unidos fez contra os sérvios no Kosovo.

Não há dúvida de que a Rússia espera que a imposição de uma grande derrota militar a Saakashvili jogue a opinião pública decisivamente contra ele, e que o povo georgiano faça o resto do trabalho para derrubá-lo. Sergei Lavrov, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, disse na terça-feira que o seu país não está procurando depor Saakashvili, como o presidente georgiano alegou publicamente em uma entrevista à televisão. No entanto, ele frisou que Moscou gostaria que Saakashvili renunciasse ao cargo.

"Seria melhor se ele fosse embora" disse Lavrov em uma coletiva à imprensa. "Não confiamos na atual liderança georgiana".

Os georgianos, que inicialmente apoiaram Saakashvili, e que continuam unidos no seu ódio a Moscou, estão questionando cada vez mais o cálculo do seu presidente. Embora na terça-feira 150 mil pessoas tenham saudado Saakashvili em frente ao parlamento da Geórgia, havia gente reclamando por toda parte. "Por que fomos à guerra sem armas? Por que fomos à guerra sem sistemas anti-aéreos? Quem precisava desta guerra?", criticou Timur Goldelashvili, um morador de Gori.

Apenas algumas horas após o cessar-fogo russo ter passado a vigorar, surgiram na mídia georgiana notícias de que Nino Burjanadze, a ex-primeira-ministra que recentemente desentendeu-se com Saakashvili, indicava que pretendia desafiar o presidente.

"Este não é o momento de fazer ataques políticos... quando os russos estão a apenas alguns quilômetros da nossa capital", afirmou ela. "Mais tarde haverá tempo para determinar responsabilidades e culpas".

Tradução: UOL

O texto é do The Financial Times, reproduzido no UOL. O viés é levemente à direita, mas é um dos mais equilibrados que pude ler a respeito dos recentes episódios envolvendo Geórgia e Rússia.


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quinta-feira, agosto 14, 2008

Os limites na relação entre Estados Unidos e Rússia

Conflito na Geórgia dá uma lição sobre a dependência americana da Rússia

Helene Cooper

Washington - A imagem do presidente Bush sorrindo e conversando com o primeiro-ministro da Rússia, Vladimir V. Putin, nas arquibancadas das Olimpíadas de Pequim mesmo enquanto as aeronaves russas bombardeavam a Geórgia, define a realidade da política norte-americana em relação à Rússia. Enquanto os EUA consideram a Geórgia seu maior aliado no bloco dos antigos países soviéticos, Washington precisa tanto da Rússia em assuntos maiores como o Irã, para arriscar tudo isso em defesa da Geórgia.

Autoridades do Departamento de Estado deixaram claro no sábado que de nenhuma maneira os Estados Unidos iriam intervir militarmente.

Bush usou uma linguagem dura, pedindo que a Rússia parasse com os
bombardeios. E a secretária de Estado Condoleezza Rice demandou que a Rússia "respeitasse a integridade territorial da Geórgia".

O que Putin fez? Primeiro, ele repudiou o presidente Nicolas Sarkozy da França em Pequim, recusando-se a mudar de posição quando Sarkozy tentou dissuadir a Rússia de sua operação militar. "Foi um encontro muito, muito difícil", disse um oficial ocidental depois. "Putin dizia: 'Nós vamos fazer eles pagarem. Vamos fazer justiça'".

Putin, então, voou de Pequim para uma região que faz fronteira com a Ossétia do Sul, chegando depois do anúncio de que a Geórgia estava retirando suas tropas para fora da capital do território separatista. Ele apareceu ostensivamente para coordenar a assistência aos refugiados que fugiram da Ossétia do Sul para a Rússia, mas a mensagem russa era clara: essa é nossa esfera de influência; os outros devem ficar de fora.

"Pela primeira vez desde a queda da União Soviética, o que os russos fizeram foi tomar uma ação militar decisiva e impor uma realidade militar", disse George Friedman, chefe executivo da empresa de inteligência e análise geopolítica Stratfor. "Eles fizeram isso de forma unilateral, e todos os outros países que contam com o Ocidente para intimidar russos agora foram forçados a considerar o que acabou de acontecer".

Oficiais do governo Bush reconhecem que o mundo, e os Estados Unidos em particular, têm pouca influência sobre as ações russas.

"Não há possibilidade de colocar a Otan ou a comunidade internacional dentro disso", disse um oficial sênior do Departamento de Estado durante uma teleconferência com repórteres. "Não há nenhuma chance. Não existe um perigo de conflito regional em nossa mente".

O conflito emergente na Geórgia desencadeou uma onda de diplomacia. Rice e outros oficiais do Departamento de Estado e do Pentágono falaram ao telefone com o ministro de relações exteriores russo, Sergey V. Lavrov, e com outras autoridades russas, assim como com oficiais da Geórgia, incentivando os dois lados a retomarem as conversações de paz.

A União Européia - e a Alemanha em particular, com seus fortes laços com a Rússia - pediu para que ambos os lados recuem e agendem reuniões para divulgar suas preocupações. Nas Nações Unidas, membros do Conselho de Segurança encontraram-se informalmente para discutir uma possível resposta, mas um diplomata do Conselho disse que há dúvidas de que eles possam fazer alguma coisa, uma vez que a Rússia e a China têm poder de veto no Conselho.

"Estrategicamente, os russos têm enviado sinais de que realmente querem exercitar sua força, e que estão chateados por causa de Kosovo", disse o diplomata. Ele se referia ao revanchismo russo contra o Ocidente por ter reconhecido a independência de Kosovo em relação à Sérvia no começo desse ano.

De fato, a decisão dos Estados Unidos e da Europa em reconhecer Kosovo pode ter aberto o caminho para a decisão relâmpago da Rússia de enviar tropas para apoiar os separatistas da Ossétia do Sul. Durante uma reunião sobre Kosovo em Bruxelas esse ano, Lavrov, o ministro do exterior, alertou Rice e os diplomatas europeus que se eles reconhecessem Kosovo, estariam abrindo um precedente para que a Ossétia do Sul e outras províncias separatistas. Com a mesma facilidade que o Ocidente poderia encorajar o antigo território russo em direção à independência e para fora da esfera de influência da Rússia, os russos advertiram que eles também poderiam encorajar as regiões separatistas pró-russas como a Ossétia do Sul a fazerem o mesmo.

Para o governo Bush, a escolha agora é saber se vale à pena apoiar a Geórgia - que, mais do que qualquer outra antiga república soviética, aliou-se aos Estados Unidos - na questão da Ossétia do Sul, contrariando a Rússia numa época em conseguir o apoio russo para conter as ambições nucleares do Irã está no topo da agenda da política estrangeira dos EUA.

Um diplomata das Nações Unidas disse em tom de brincadeira no sábado que "se alguém chegasse para os russos e dissesse: 'OK, Kosovo pelo Irã', teríamos um acordo."

Isso pode ser uma hipérbole, mas há um sentimento crescente entre alguns oficiais do governo Bush de que talvez os Estados Unidos não possam ter tudo, e tenham de eleger prioridades, particularmente no que diz respeito à Rússia.

O forte apoio do governo Bush à Geórgia - incluindo o treinamento dos militares do país e o apoio de armas - veio, em parte, como uma recompensa por sua ajuda aos EUA no Iraque. Os Estados Unidos sustentaram a Geórgia como um sinal de democracia na antiga União Soviética, ela deveria ser um exemplo para outras ex-repúblicas soviéticas em relação aos benefícios de apoiar o Ocidente.

Mas isso, junto com as ações dos EUA e da Europa em Kosovo, deixaram a Rússia se sentindo ameaçada, encurralada e cada vez mais convencida de que deveria tomar medidas agressivas para restaurar seu poder, dignidade e influência numa região que ela considera como um quintal estratégico, dizem os especialistas em política internacional.

A agressividade emergente da Rússia está sincronizada com a preocupação dos Estados Unidos em relação ao Iraque e ao Afeganistão, e com o confronto iminente com o Irã. Com essas considerações na balança, significa que Moscou está sentada no assento do motorista, reconhecem oficiais do governo.

"Nos colocamos numa posição de acordo com a qual não temos o para fazer nada globalmente", disse Friedman da Stratfor. "Poderíamos pensar que sob essas circunstâncias, deveríamos ficar quietos."

Um oficial sênior do governo riu quando ouviu a citação. "Bem, talvez
estejamos aprendendo a ficar quietos agora", disse. Ele pediu para que
seu nome não fosse divulgado porque não está autorizado a falar
publicamente sobre o assunto.

Tradução: Eloise De Vylder

Texto do The New York Times, no UOL.

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sábado, agosto 09, 2008

Morreu Soljenitsin

Morre Soljenitsin, dissidente soviético, aos 89

Crítico da polícia secreta e dos campos de trabalho, que retratou em "O Arquipélago Gulag", sofreu parada cardíaca em Moscou

Expulso da URSS em 1974, Nobel de Literatura de 1970 só retornou 20 anos depois; ultranacionalista, recebeu medalhas de Putin e Ieltsin


DA REDAÇÃO

O escritor e dissidente soviético Alexander Soljenitsin, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1970, morreu no final da noite de ontem aos 89 anos, em Moscou, vítima de uma parada cardíaca. Encarcerado por mais de dez nos campos de prisioneiros políticos da extinta União Soviética -os gulags-, ele relatou em seus livros o horror que vivenciou, tornando-se o mais famoso dissidente do regime comunista.
Nascido em 11 de dezembro de 1918, Soljenitsin estudou física e matemática na Universidade Rostov e se tornou oficial do Exército em 1941, após a invasão nazista. Depois de criticar a forma como o ditador Josef Stálin (1922-1953) conduziu a guerra, foi enviado aos campos de trabalho forçado.
Em 1962, durante o degelo pós-stalinismo, publicou "Um Dia na Vida de Ivan Denisovich", romance em que descreve a vida nesses campos. Mas logo passou a ser alvo da censura e sua expulsão do país foi consumada em 1974, depois que sua obra mais famosa, "O Arquipélago Gulag", monumental radiografia das prisões stalinistas, foi editada em Paris.
Após se radicar em Vermont, nos EUA, tornou-se um ícone da resistência ao comunismo, mas seu fervor religioso e seus ataques ao capitalismo o tornaram incômodo. Henry Kissinger, então secretário de Estado americano, aconselhou o presidente Gerald Ford (1974-1977) a não encontrá-lo.
Anistiado pelo último presidente soviético, Mikhail Gorbatchov (1986-1991), Soljenitsin só voltou à Rússia em 1994, após o fim do comunismo. Recebeu tratamento de herói. Em 1998, o presidente Boris Ieltsin concedeu a Soljenitsin a Ordem de Santo André, um dos maiores prêmios culturais do país. Crítico das reformas liberais promovidas por Ieltsin, ele recusou, argumentando não poder aceitar "essa honra", pois os russos "morrem de fome".
Em 2007, foi homenageado pelo presidente Vladimir Putin com a entrega de uma das mais importantes honrarias do país, a medalha do Estado. Putin era coronel do KGB, a polícia secreta, quando o escritor foi exilado, mas qualificou Soljenitsin de "historiador maior", "o primeiro a ter relatado uma das grandes tragédias soviéticas". Em seu governo, ele passou a valorizar a visão que Soljenitsin tinha da Rússia, como um bastião do cristianismo ortodoxo com cultura e destino únicos.
Em 1978, em uma palestra em Harvard, o escritor havia dito: "Qualquer cultura autônoma antiga e profundamente enraizada [...] constitui um mundo autônomo, repleto de enigmas e surpresas para o pensamento ocidental. Por milhares de anos, a Rússia pertenceu a essa categoria".

Câncer como metáfora
No romance "Pavilhão dos Cancerosos" (1967), Soljenitsin trata de um câncer de que padeceu, usando-o como metáfora do stalinismo. "Um homem tem um tumor e morre - como então pode sobreviver um país que deu origem a campos de concentração e exílios?"
No livro, ataca a cumplicidade dos russos com o regime. "Todos os professores e engenheiros se tornaram sabotadores -e eles [a população russa] acreditam nisso?... Todos os membros da velha guarda de Lênin se tornaram vis renegados -E eles acreditam nisso?"
A era stalinista, disse Soljenitsin referindo-se a um poema do Alexander Puchkin, "forçou os cidadãos soviéticos a escolher entre três papéis: de tirano, de traidor, de prisioneiro".
Depois da morte do egípcio Naguib Mahfuz, em 2006, Soljenitsin era o mais velho Nobel de Literatura vivo. No texto que escreveu para a entrega do prêmio -a que não pôde comparecer- disse que os homens comuns não podem ser coniventes com a mentira, mas "os escritores e artistas têm a obrigação de derrotá-la".
Desde a volta do exílio, o escritor vivia semi-recluso nos arredores de Moscou. Atacava sistematicamente o materialismo, o secularismo, os EUA e a Otan, a aliança militar ocidental, por terem, dizia, "cercado" a Rússia pós-soviética na tentativa de asfixiar sua soberania.
Seu último livro, "Duzentos Anos Juntos", de 2001, trata das relações judaico-russas e foi acusado por alguns críticos de ser anti-semita. Ele negou, dizendo entender "as sutilezas, a sensibilidade e o bom coração do caráter judeu".

Texto da Folha de São Paulo, de 4 de agosto de 2008.


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quinta-feira, julho 24, 2008

Popular e sem estrutura moral

Friedman: tão popular e sem estrutura moral

Thomas L. Friedman
Colunista do The New York Times


Muita tinta tem sido gasta ultimamente para anunciar o declínio da popularidade norte-americana em todo o mundo sob o governo Bush. As pesquisas nos mostram que atualmente a China é mais popular na Ásia do que os Estados Unidos, e revelam como são poucos os europeus que afirmam identificar-se com os Estados Unidos. Tenho certeza de que há uma verdade nessas pesquisas. Deveríamos ter feito um trabalho melhor no Iraque. Um Estados Unidos responsável pela prisão de Abu Ghraib, pela tortura e pela base de Guantánamo merece um polegar apontado para baixo.

Mas os Estados Unidos não são e nunca foram apenas estas coisas, e é por isso que eu também acho que os resultados de algumas dessas pesquisas são uma espécie de atos reflexos auto-indulgentes e um pouco tolos. A votação na última sexta-feira na Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a questão do Zimbábue fez com que eu me lembrasse da razão disso.

Talvez os asiáticos, os europeus, os latino-americanos e os africanos não apreciem um mundo com excesso de poder norte-americano - para eles o "Mister Big" ficou um pouco grande demais. Mas o que eles achariam de um mundo com pouquíssimo poder norte-americano? Como as forças armadas e os bancos norte-americanos encontram-se excessivamente espalhados e diluídos pelo planeta, é esse o mundo para o qual esses países podem estar rumando.

Bem-vindos a um mundo com um excesso de poder russo e chinês.

Eu não sou um crítico nem da Rússia e nem da China. Mas há realmente algo de asqueroso quanto aos vetos aplicados pela Rússia e a China à tentativa, liderada pelos Estados Unidos no Conselho de Segurança da ONU, de impor sanções específicas sobre o governo de Robert Mugabe no Zimbábue.

Os Estados Unidos apresentaram uma resolução simples ao Conselho de Segurança, pedindo um embargo de armamentos ao Zimbábue, a nomeação de um mediador da ONU e a aplicação de restrições de viagem e financeiras ao ditador Mugabe e às 13 principais autoridades militares e governamentais zimbabuanas por terem roubado a eleição no Zimbábue e basicamente reprimido violentamente um país inteiro em plena luz do dia.

Na primeira rodada das eleições do Zimbábue, em 29 de março, o líder da oposição, Morgan Tsvangirai, obteve quase 48% dos votos, contra 42% de Mugabe. Isso fez com que Mugabe e os seus asseclas iniciassem uma campanha de assassinato e intimidação contra os apoiadores de Tsvangirai, que acabou obrigando a oposição a se retirar do segundo turno das eleições simplesmente para que os seus integrantes continuassem vivos.

Antes mesmo do segundo turno, Mugabe anunciou que não reconheceria os resultados caso o seu partido, o ZANU-PF, perdesse. Ou, conforme ele afirmou: "Não vamos abrir mão do nosso país por causa de um simples X marcado em uma cédula eleitoral".

E então, é claro, Mugabe "venceu" em uma das eleições mais descaradamente roubadas da história - em um país imerso em desmandos, desemprego, fome e inflação. Cerca de 25% do povo do Zimbábue encontra-se atualmente refugiado em países vizinhos (eu tenho amigos próximos do Zimbábue, e uma das minhas filhas trabalhou lá em janeiro em um centro comunitário de ajuda aos pacientes de Aids). Em maio a Associated Press anunciou do Zimbábue: "A inflação anual sumiu neste mês, chegando a 1.063.572%, com base nos preços da cesta básica". Segundo a Associated Press, a moeda do Zimbábue tornou-se tão desvalorizada que "atualmente um pão custa o mesmo que 12 carros novos custavam uma década atrás".

Mas isso não importa. Vitaly Churkin, o embaixador da Rússia na ONU, argumentou que as sanções que os Estados Unidos e outros desejavam impor a Mugabe e seus assessores extrapolava o mandato do Conselho de Segurança. "Nós acreditamos que tais práticas são ilegítimas e perigosas", disse ele, descrevendo a resolução como "uma das tentativas mais óbvias de fazer com que o conselho ultrapasse as suas prerrogativas". Vetada!

Para Churkin, a campanha de intimidação e assassinatos movida por Mugabe não pareceu "ilegítima e perigosa". Só a resolução da ONU para acabar com a atitude de Mugabe foi considerada "ilegítima e perigosa". Vergonhoso. Ao mesmo tempo, a China está sediando as Olimpíadas, uma celebração do espírito humano, enquanto defende o direito de Mugabe de esmagar o espírito do seu próprio povo.

Mas, quando se trata de pura e repugnante corrupção moral, ninguém é capaz de superar o presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, e os seu representante na ONU, Dumisani Kumalo. Eles fizeram tudo o que puderam para impedir qualquer pressão significativa por parte da ONU sobre a ditadura de Mugabe.

Conforme noticiou o "New York Times", o embaixador dos Estados Unidos na ONU, Zalmay Khalilzad, "acusou a África do Sul de proteger o 'horrível regime do Zimbábue'", afirmando que o fato foi especialmente perturbador ao se levar em conta que foram exatamente as sanções econômicas internacionais que derrubaram o governo de apartheid da África do Sul, que há muito oprimia os negros do país.

Portanto, cunhemos agora a Regra Mbeki: quando brancos perseguem negros, quanto mais sanções da ONU melhor. E quando negros perseguem negros, qualquer sanção da ONU é demais.

O que me faz retornar aos Estados Unidos. Não somos perfeitos, mas os Estados Unidos ainda têm alguma estrutura moral. Há farsas que nós não toleraremos. A votação da ONU sobre o Zimbábue demonstra que isto não ocorre quando se trata desses países "populares" - chamados Rússia, China ou África do Sul - que não vêem problema em ficarem do lado de um homem que está pulverizando o seu próprio povo.

Então, é verdade que não somos mais tão populares na Europa e na Ásia. Acredito que europeus e asiáticos prefeririam um mundo no qual os Estados Unidos fossem mais fracos, onde líderes com os valores de Vladimir Putin e Thabo Mbeki tivessem maior influência, e no qual as vozes desesperadas por mudanças no Zimbábue fossem, bem, simplesmente caladas.

Tradução: UOL
Texto do The New York Times, no UOL.

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sexta-feira, setembro 14, 2007

A Ignorância Nossa de Cada Dia

O jornal Correio do Povo noticia que um "serial killer" russo, possível assassino de mais de 60 pessoas, será submetido à júri popular em Moscou, e poderá pegar uma pena máxima de prisão perpétua, caso condenado.
Este blogueiro não sabia que a pena de morte havia sido abolida na Rússia.

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