terça-feira, setembro 21, 2010

Pronto para brilhar?

Pronto para brilhar?

Hoje é o bicentenário da Revolução Mexicana. Duzentos anos atrás, em 16 de setembro de 1810, na aldeia de Dolores, Estado de Guanajuanato, o padre local, Miguel de Hidalgo, lançou seu famoso "grito de la independencia", que mobilizou a população indígena e mestiça pobre da mais importante colônia espanhola do Novo Mundo em um levante contra a elite branca dominante, formada por descendentes de espanhóis.
A revolta não demorou a ser reprimida. Hidalgo foi capturado e executado. Sua cabeça decepada foi colocada em exibição, pendurada num paiol de grãos em Guanajuanato, onde centenas de pessoas que procuravam refúgio contra os rebeldes de Hidalgo haviam sido massacradas.
A independência do México só foi obtida em 1821. E, mesmo assim, a estabilidade se provou difícil de conquistar.
Daqui a algumas semanas, o México celebrará o centenário da revolução de 1910, outro sangrento período de conflitos e guerra civil. Quanto a isso, a história mexicana oferece forte contraste com a do Brasil.
A chegada do príncipe regente, de sua mãe louca e da família real à Bahia, no final de 1807, seguida pelo estabelecimento da corte portuguesa no Rio de Janeiro, um ano mais tarde, deu continuidade e estabilidade ao Brasil, evitou disputas quanto à legitimidade e salvou o país dos sangrentos tumultos e dos conflitos étnicos e sociais que caracterizaram com tamanha intensidade as primeiras décadas de independência da América espanhola.
É curioso, portanto, que, neste momento de celebração, o ex-ministro do Exterior mexicano Jorge Castañeda, agora professor da Universidade de Nova York, tenha publicado um artigo na edição de setembro/outubro da revista "Foreign Affairs" no qual afirma que o Brasil (bem como China, Índia e África do Sul) não estão "prontos para brilhar".
Ele argumenta que "colocar potências emergentes no leme pode prejudicar a governança mundial".
Castañeda critica o Brasil por não respeitar os direitos humanos em sua política externa. Menciona a posição brasileira quanto a Cuba e Venezuela. Alega que o Brasil "não merece confiança no que tange à não proliferação nuclear". Acrescenta que "há quem especule que o Brasil esteja preparando as bases para retomar o seu programa nuclear". Afirma que há contradições na abordagem do Brasil quanto à poluição.
A política externa não teve papel importante nesta campanha presidencial. Mas essas declarações apontam para alguns dos dilemas reais que o novo governo brasileiro precisará enfrentar no ano que vem.

Texto de KENNETH MAXWELL, Tradução de PAULO MIGLIACCI, publicado na Folha de São Paulo, de 16 de setembro de 2010.

Curiosamente o texto me parece bastante inconclusivo. Quando introduz as colocações de Castañeda no texto, eu imaginei que Maxwell iria contestá-las ou, talvez, confirmá-las, mas ele evita qualquer posição e termina abruptamente com uma frase anódina sobre a política externa do presidente a ser eleito em outubro.

É difícil querer mensurar a violência aos grupos sociais. Talvez devamos medir pela quantidade de gente morta ou mutilada? Nesse caso o desenvolvimento histórico do Brasil talvez não seja tão violento quanto o do México, mas certamente houve crises e rupturas por aqui, inclusive durante o processo de independência política.


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terça-feira, maio 11, 2010

Na fronteira entre Guatemala e México, imigrantes enfrentam a primeira etapa da busca pelo sonho americano

As águas do rio Suchiate, na fronteira da Guatemala com o México, registram um intenso vai e vem de balsas logo no amanhecer. As embarcações, feitas com pneus e largas tábuas de madeira, saem de Tecún Umán, do lado guatemalteco, em direção a Ciudad Hidalgo, no estado mexicano de Chiapas. Além de carregarem todo tipo de mercadorias, como verduras e frutas, trazem também dezenas de imigrantes em busca do sonho americano.

A odisséia envolve mais de 400 mil centro-americanos todos os anos, de acordo com o INM (Instituto Nacional de Imigração do México), sendo a maioria cidadãos de Honduras, El Salvador, Guatemala e Nicarágua - nessa ordem. Segundo a entidade governamental, somente 150 mil conseguem entrar ilegalmente nos EUA. Os outros recebem destinos distintos: ou são pegos pela polícia imigratória mexicana e enviados de volta a seus países, ou viram vítimas de sequestros, estupros e agressões ao longo dos três mil quilômetros de jornada.

“Os imigrantes saem de seus países por razões diferentes. Em Honduras, o golpe de Estado em junho de 2009 e a crise econômica e social provocaram uma imigração massiva. Desde o ano passado os hondurenhos estão em maior número”, explicou ao Opera Mundi Samuel Arredondo, chefe de comunicação social do INM.

“Os que vêm de El Salvador fogem da violência, agravada pela atuação das gangues, as ‘maras’, que matam muita gente e exigem o pagamento de taxas e impostos para o desenvolvimento de qualquer atividade econômica. Já na Guatemala a pobreza e a falta de trabalho são os fatores que motivam a imigração. Além disso, a criminalidade aumentou no país”, esclareceu Arredondo.

Fronteira: observatório do mundo
“Quando estávamos cruzando o Suchiate a polícia imigratória nos surpreendeu”, contou ao Opera Mundi Hernán, um jovem de 34 anos, abraçado à esposa Laura, de 24 anos. Os dois nasceram em El Salvador. “Obrigaram-nos a pular na água, num trecho muito profundo. Não sabemos nadar e a água entrou pelos nossos narizes. Creio que Deus nos salvou, porque já estávamos perdendo os sentidos. E graças a Deus, que nos acompanha, vamos chegar salvos aos EUA.”

Hernán e Laura descansavam na Casa do Imigrante de Tapachula, coordenada pelo padre Flor Maria Rigoni, da congregação dos missionários Scalabrinianos. Lá, centenas de imigrantes encontram refúgio por até três dias, antes de tentar novamente a travessia para os EUA. De Tapachula percorrem ainda 250 quilômetros até Arriaga, em Chiapas, de onde sai o “trem da morte”, com destino a Ixtepec, no estado mexicano de Oaxaca.

O padre cuida de imigrantes há 25 anos no México, com missões em Tijuana, Ciudad Juárez e Tapachula. “Passei a vida trabalhando com imigrantes, antes na África, depois na Alemanha dividida e desde 1985 no México. E tenho para mim, após essas experiências, que a fronteira é sempre o observatório do mundo. As fronteiras e os fluxos de imigração dizem muito sobre a nossa sociedade, sobre as consequências das decisões políticas, são o outro lado dos processos econômicos”. Para Rigoni, por meio das imigrações é possível medir “as mudanças, erros e dinâmicas humanas” de uma forma clara.

O fluxo imigratório mudou nos últimos anos no México, sobretudo a idade dos imigrantes, contou Rigoni. Há pouco tempo, a idade média media era de 29 anos e agora, é de 21, explicou. Outro dado importante é o aumento da imigração feminina. A porcentagem de mulheres que passa por Tapachula chega a ser 23% do total, e somente 7% delas alcançam a fronteira norte. Muitas são capturadas por grupos criminosos e obrigadas a se prostituir no México e em outros países.

“Hoje, mulheres e jovens imigram por causa do impacto da crise econômica em seus países”, justificou o padre, acrescentando que isso fez com que famílias inteiras tentassem a sorte na fronteira.

Economia da imigração
Há uma economia que se abastece da imigração. De policiais corruptos que, de acordo com os imigrantes, roubam dinheiro e exigem o pagamento de propina, a criminosos envolvidos com a prostituição, tráfico de órgão, sequestros e o comércio na fronteira.

“É um grande negócio”, afirmou Luis, hondurenho de Olancho. “Essa é a terceira vez que tento atravessar e me dei conta que somos tratados como carne. Nos machucam e tratam como bucha de canhão. Até quando morto um imigrante vale dinheiro, pois as funerárias se enfrentam entre si para enviar os cadáveres aos países de origem. Há ainda o cansaço, os perigos ao longo do caminho e a insegurança, para chegarmos aos EUA e vivermos como ilegais.”

“E tudo isso para quê?”, se perguntou Luis. “Para enviar dinheiro às nossas famílias, para que nossos filhos tenham dinheiro para viver, estudar. É preciso entender que enquanto existir tanta injustiça e pobreza, a imigração não acabará. Mesmo que ergam muros, nós vamos transpô-los. Que Deus nos ajude a superar esse caminho”.

Este texto é originário do Operamundi.

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sábado, agosto 22, 2009

Conosco não

“Nunca admitimos nem admitiremos atividades militares, de nenhum tipo, dos americanos em nosso território. Não podemos esquecer que o México é a fronteira dos EUA com América Latina, uma fronteira que estamos defendendo com dignidade há séculos.”

Felipe Calderón, Presidente do México, sobre a possibilidade do México ter operações conjuntas com os Estados Unidos para repressão ao tráfico de drogas, na Folha de São Paulo, de 18 de agosto de 2009. A pergunta tinha como referência a Colômbia, e a cessão de bases militares aos Estados Unidos.

O presidente Felipe Calderón é um político do campo conservador, de direita, mas parece conhecer o lugar do México no mundo.

Acredito que os mexicanos não esquecem que os Estados Unidos lhes tomaram entre um quarto e um terço de seu território durante o século XIX (Texas primeiro, depois novo México, Arizona, Califórnia, Nevada, Utah e Colorado). Além disso fizeram desembarque de tropas em Vera Cruz (sul do México) durante a Revolução Mexicana (1910-1917).

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terça-feira, julho 14, 2009

O incrível caso de dona Jacinta, condenada por sequestrar sozinha seis policiais mexicanos

O incrível caso de dona Jacinta, condenada por sequestrar sozinha seis policiais mexicanos

Pablo Ordaz

Dona Jacinta tem 48 anos - ou talvez 47, não se lembra muito bem -, seis filhos, outros tantos netos, um idioma em que se expressa perfeitamente, o otomi, outro em que tenta, o espanhol, e uma barraca ambulante em que desafia o persistente sol de Querétaro vendendo neve [gelo raspado] e "águas frescas". Melhor dito, desafiava. Porque há três verões, desde que tinha 45 anos - ou talvez 44 -, a indígena dona Jacinta está na prisão, acusada - ela que mede apenas um metro e meio de altura - de sequestrar seis corpulentos agentes da Polícia Federal mexicana. Se seu deus não trouxer remédio, a senhora das neves e das águas frescas passará as próximas duas décadas na prisão, condenada por um delito que ninguém, exceto uma pessoa, acredita que ela tenha cometido. A má sorte de dona Jacinta é que essa pessoa é o juiz.

Tudo começou em 26 de março de 2006. Naquele domingo, seis policiais da Agência Federal de Investigação, sem uniformes nem placas que os identificassem como tal, chegaram ao "tianguis" - assim se chamam aqui os mercados ambulantes, desde muito antes que Hernán Cortez pensasse em viajar - da comunidade indígena de Santiago Mexquititlán e apreenderam várias mercadorias sob o pretexto de que se tratava de pirataria. Os comerciantes se irritaram, os cercaram e pediram suas identificações. Os policiais se negaram. A tensão cresceu. Chegaram mais policiais. Também chegaram mais vendedores ambulantes. A situação foi ficando cada vez mais feia até que um dos chefes policiais teve uma ideia: pagariam os danos causados e "aqui paz e depois glória". Para os comerciantes pareceu bem. Os policiais disseram então: "Vamos buscar o dinheiro". E os comerciantes responderam: "Está bem. Mas que um dos policiais fique para garantir que vocês vão respeitar o acordo". Coube ficar o agente Jorge Cervantes Peñuelas.

No outro extremo da praça, sem perceber a confusão, encontrava-se dona Jacinta vendendo sua neve e suas águas frescas. Havia chegado cedo, mas quando ouviu a última badalada para a missa das 11 deixou uma de suas filhas cuidando da barraca e entrou na igreja. Depois da reza, dona Jacinta não saiu de seu lugar de trabalho até pouco antes do entardecer. "Tive de ir à farmácia tomar uma injeção", lembra, "e pedi a outra de minhas filhas que me acompanhasse porque não sei pronunciar direito o nome dos remédios e não queria me enganar diante de tanta gente."

Foi ali, enquanto tomava a injeção, que a senhora se inteirou da atuação da polícia e da reação indignada dos comerciantes. "Quando saí, me aproximei para ver o que estava acontecendo." A chegada de dona Jacinta ao local do alvoroço coincidiu com a volta dos policiais que tinham ido buscar o dinheiro. Com eles chegou um fotógrafo de um jornal de Querétaro.

Passaram quase três anos. Dona Jacinta conta a história no pátio da prisão feminina de Querétaro. O faz de forma cronológica, sem esquecer nenhum detalhe, juntando as frases ao ritmo de seu desespero. Conta que naquela noite foi para casa com sua família e que nada de estranho aconteceu até três meses depois, até aquele maldito 3 de agosto de 2006 que não se apagará de sua memória. "Naquela tarde, quando cheguei a minha casa já estavam lá os policiais. Eles me perguntaram: 'Você é Jacinta?' Quando disse que sim, me prenderam. Vieram me buscar com armas e caminhonetes. Não tive medo, porque sabia que não tinha feito nada de mal. Disseram-me que iam me levar para depor pelo corte de uma árvore. Mas o motorista dirigia muito mal, dando guinadas, freando e acelerando. Um dos agentes me perguntou: 'E de que religião você é? Com certeza votou no PRD [o partido da esquerda mexicana]'. Respondi que sou católica e então me disse: 'Ah, desculpe'. Puxei meu rosário e comecei a rezar o pouquinho que sei de memória. Quando cheguei ao juizado, tive de assinar muitos papéis escritos em espanhol, papéis que não entendia". Depois de muito tempo, quando a senhora se atreveu a perguntar por que estava ali, a resposta a deixou gelada: "Por sequestrar seis policiais federais".

Dona Jacinta não mede mais que um metro e meio. Diz que a comida da prisão não lhe agrada e por isso emagreceu, mas que quando entrou pesava mais de 80 quilos. Um perfil difícil de coordenar com a acusação de sequestradora de seis policiais de elite, fortes, treinados para lutar com criminosos. Nada disso serviu em sua defesa. Nem mesmo o fato de que em suas primeiras declarações nenhum dos policiais falou dela nem de ninguém parecido. Só muito tempo depois os investigadores repararam que aquele fotógrafo de Querétaro tinha tirado um instantâneo dos minutos finais do incidente. E ali, na terceira ou quarta fila, aparecia dona Jacinta na atitude pacífica de alguém que olha, que só passava por ali. Mas a identificaram, verificaram onde morava e foram buscá-la. O processo judicial desembocou em uma condenação de 21 anos de prisão pelo sequestro dos seis agentes.

Todo esse relato, tudo o que se encontra aqui, foi transcorrendo no mais absoluto silêncio - semana após semana, mês após mês -, até que uma organização mexicana de direitos humanos, o centro Miguel Agustín Pro Juárez, decidiu intervir. E agora dona Jacinta, pelo menos, abriga certa esperança. Animada por essa ilusão, nesse canto do pátio da penitenciária, fugindo do mesmo sol que ela desafiava com suas neves e águas frescas, a indígena vai contando sua vida, que é a de milhares de outras Jacintas. Que começou a vender chicletes pelas ruas do Distrito Federal aos 7 anos, que não foi à escola porque seus pais não tinham dinheiro para sapatos nem para cadernos, que aos 10 anos a puseram para cuidar de cabritos, que aos 14 teve seu primeiro namorado, que fugiu com ele aos 15 e teve sua primeira filha aos 16. Que nunca aprendeu espanhol nem soube, até que esteve detida, o que significava a palavra "advogado" ou a palavra "provas". Também conta que até os 45 anos - ou talvez 44 - foi feliz. Que até então - isso ela não diz, mas há mil estatísticas que o demonstram - não havia provado o sabor amargo que têm no México esses três ingredientes juntos: mulher, indígena e pobre.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Texto do El País, reproduzido no UOL.


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quarta-feira, julho 08, 2009

Imigrantes a caminho dos EUA são vítimas de sequestro, tortura e assassinato na passagem pelo México

Imigrantes a caminho dos EUA são vítimas de tortura na passagem pelo México, diz relatório

Pablo Ordaz
Na Cidade do México (México)

A primeira parte do relatório surpreende. A segunda deixa os cabelos em pé. Porque as primeiras páginas da investigação realizada pela Comissão Nacional de Direitos Humanos (CNDH) do México demonstram que entre setembro de 2008 e fevereiro de 2009 quase 10 mil imigrantes centro-americanos que tentavam chegar aos EUA foram sequestrados e tratados com extrema crueldade em sua passagem pelo território mexicano.

Mas nas últimas 23 páginas são as próprias vítimas que relatam o calvário que sofreram nas mãos de seus captores. Diz uma jovem salvadorenha: "Enquanto não chegou o resgate, me violentaram. Mas minha amiga não tinha familiares para pagar por sua liberdade. Por isso lhe deram dois tiros na cabeça e a deixaram sangrando durante três horas na minha frente... para me intimidar".

As vítimas são homens e mulheres jovens que partem diariamente de Honduras, El Salvador, Guatemala ou Nicarágua em busca de um futuro melhor nos EUA. Mas também são velhos e crianças que empreendem o caminho sozinhos para encontrar-se com seus filhos ou com seus pais. Eles também fizeram um dia essa mesma rota e talvez tenham encontrado trabalho, mas não podem voltar para buscar seus seres queridos por falta de papéis e recursos. Crianças e idosos viajam escondidos em vagões de trem ou no fundo falso de caminhões controlados pelas máfias. Movem-se de noite e por caminhos secundários, fugindo das autoridades. Assim que cruzam a fronteira e entram no México, transformam-se nas vítimas perfeitas.

O relatório, realizado ao longo de seis meses por 30 agentes da comissão supervisionados pelo professor Mauricio Farah, contém um sem-fim de dados, cada qual mais alarmante. O número de pessoas sequestradas foi 9.758. Muitas delas foram capturadas em grupos, retiradas dos vagões de trens e confinadas em casas de segurança ou em armazéns industriais. O resgate exigido por elas flutuava entre 1.100 e 3.600 euros.

A Comissão Nacional de Direitos Humanos calcula que a indústria do sequestro obteve nesse curto espaço de tempo mais de 18 milhões de euros. Para isso não hesitou em utilizar uma violência extrema que inclui tortura, violação e assassinato. Nove em cada dez vítimas receberam ameaças de morte contra elas ou seus parentes; 67% dos sequestrados eram de Honduras, 18% de El Salvador, 13% da Guatemala e os demais da Nicarágua, Equador, Brasil, Chile, Costa Rica e Peru. Os investigadores souberam de 157 mulheres que foram sequestradas, quatro delas grávidas. Duas foram assassinadas por seus captores. Outras foram violentadas e uma foi obrigada a permanecer junto com seus agressores e a desempenhar o papel de "mulher" do chefe do bando.

Da leitura do relatório e de uma conversa posterior com o professor Farah, se deduz que foi realizada de forma conscienciosa. Que apesar da ausência de dados - os sem-documentos não denunciam por medo de ser devolvidos a seu país -, os números dos abusos foram contrastados para evitar duplicidade ou exagero. Também se chega à conclusão de que os criminosos atuam muitas vezes com a cumplicidade das autoridades: "Com frequência os migrantes são vítimas de bandos organizados e em muitas ocasiões de autoridades federais, locais e municipais, especialmente as encarregadas da segurança pública, as quais golpeiam brutalmente, humilham e extorquem com ameaças de privá-los da vida, da liberdade ou deportá-los para seus países de origem".

Embora os sequestros sejam mais frequentes na fronteira sul do México, os dados também demonstram que os sem-papéis não estão seguros em nenhum ponto de sua travessia pelo país. "Às vezes as máfias os roubam dos 'polleros' [traficantes que os ajudam a cruzar a fronteira em troca de dinheiro] para extorqui-los", explica o professor Farah.

E é nesse momento que o leitor do relatório se aproxima das páginas finais. Ali se encontra a história de uma imigrante de Honduras: "Eles me bateram na cabeça, no quadril, nos braços com uma tábua que chamam de 'a lembrança'. Quando ligavam para minha família para pedir dinheiro me colocavam uma furadeira na mão para que eles escutassem. Depois me violentaram". E a de um menor de idade, também de Honduras: "Durante o sequestro só me davam de comer uma vez por dia, tortilhas duras e um pedaço de frango velho. Mataram um salvadorenho que estava conosco. Não denunciei o sequestro porque junto com os sequestradores, que bebiam cerveja e consumiam cocaína o dia todo, também havia policiais de uniforme. Obrigaram a mim e a um companheiro a violar uma mulher sequestrada na frente deles..."

EL PAÍS tentou na quarta-feira, sem êxito, que a Presidência da República ou algum departamento do governo mexicano desse sua versão sobre as graves denúncias feitas pela Comissão Nacional de Direitos Humanos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Texto do El País, reproduzido no UOL.


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quinta-feira, abril 23, 2009

México: o fim de um delicado equilíbrio

O fim de um delicado equilíbrio

A recente promessa da secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, de ficar “ombro a ombro” com o México na sua guerra às drogas nos levou a lembrar de quando éramos crianças e nossa família se mudou dos subúrbios de Tel Aviv, Israel, para El Paso, no Texas.
Um israelense chamado Giora se tornou nosso guia e, naquela primeira semana, nos mostrou os arredores, chegando a cruzar a fronteira com Ciudad Juárez, no México.
Quando encostamos para estacionar, um policial mais velho, ligeiramente obeso, se aproximou. A julgar só pela roupa, suspeitar-se-ia que ele apenas fingia ser da polícia. Sua farda estava esfarrapada, a camisa ficava para fora da calça, e o quepe era velho e surrado. Ele se aproximou de mão estendida, educadamente esperando um pagamento.
“Mas estacionar nesta rua deveria ser grátis”, protestou nosso pai, um israelense consumado. Giora lhe dirigiu um olhar “cala a boca” e entregou dois dólares ao agente. “A taxa é para proteção”, explicou ele. “Você paga ao agente para ‘guardar’ o carro. Claro que, se não pagar, seu carro é misteriosamente vandalizado.”
Rapidamente percebemos que Ciudad Juárez funcionava sob regras diferentes. Policiais, políticos e traficantes formavam alianças e às vezes trocavam de papel. Mas, surpreendentemente, apesar de toda a corrupção, Ciudad Juárez era relativamente ordeira. Turistas norte-americanos lotavam as lojas durante o dia, e adolescentes de El Paso faziam festa à noite. Embora longe de ser um lugar idílico, Ciudad Juárez mantinha um certo equilíbrio.
Tal equilíbrio foi perturbado pela guerra dos Estados Unidos às drogas, e nos perguntamos se o governo dos EUA caiu na mesma armadilha que nós com o agente de trânsito: ver a situação pela lente americana, deixando de reconhecer que regras diferentes vigoravam.
Ao longo dos anos, Washington pressionou o México a reprimir os cartéis de drogas. Em 2006, quando o então presidente mexicano, Vicente Fox, propôs legalizar a posse de pequenas quantidades de narcóticos, o governo Bush o pressionou até que revertesse sua posição.
Quando o atual presidente, Felipe Calderón, tomou posse, imediatamente passou a reprimir as quadrilhas do tráfico. Como recompensa, o presidente Bush destinou US$ 1,4 bilhão para apoiar os esforços mexicanos.
Mas no momento em que Calderón colocou os cartéis na mira, o frágil equilíbrio do México se rompeu. A mera ilegalidade se transformou em violência. Os cartéis começaram a retaliar contra a polícia e o governo —e a lutar entre si. Além disso, para compensar a perda de faturamento, os cartéis passaram a se envolver com tráfico humano, extorsão e sequestros.
Desde que Calderón declarou guerra aos traficantes, mais de 8.000 pessoas já morreram. Recentemente, houve uma ameaça contra o chefe de polícia de Ciudad Juárez: renuncie ou começaremos a matar policiais, um a cada 48 horas. Após quatro dias e dois homicídios, ele renunciou e fugiu para os EUA. E as drogas estão sendo traficadas tão agressivamente quanto antes.
Assim como não podemos separar guardas de trânsito desonestos isoladamente do sistema em que operam, os EUA precisam entender que enfrentar os cartéis perturba um frágil equilíbrio. Certamente não devemos ser lenientes com eles, mas, se realmente pretendemos ficar ombro a ombro com o México, uma solução viável deve levar em conta o equilíbrio de poderes no sistema com o qual estamos lidando.


Ori Brafman e Rom Brafman são irmãos e coautores de “Sway: The Irresistible Pull of Irrational Behavior”. Envie seu comentário para brafmans@nytimes.com .

Texto do The New York Times, na Folha de São Paulo, de 06 de abril de 2009.


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terça-feira, março 17, 2009

O crescente poder do exército mexicano El País

O crescente poder do exército mexicano

El País

Pablo Ordaz
No México

A cada segundo que passa, o exército tem mais poder no México. Todo mundo sabe - principalmente Felipe Calderón - que sem o exército teria sido impossível empreender e manter a atual guerra ao narcotráfico. Primeiro, porque boa parte dos 1.600 corpos policiais do país estavam infiltrados ou diretamente comprados pelo crime organizado. Segundo, porque a única maneira de construir uma polícia federal com rapidez é abastecê-la - por cima e por baixo - de militares. Oitenta por cento dos policiais federais mobilizados nas áreas de conflito são antigos soldados agora vestidos de azul. E um bom número dos cargos de direção na Secretaria de Segurança Pública - equivalente ao Ministério do Interior - está sendo ocupado por generais aposentados. Ainda há uma terceira questão: Calderón confia no exército. Ou, melhor dizendo, Calderón só confia no exército.

Até aqui o que se vê é a primeira linha de fogo. Mas o exército também está tendo um papel principal em outros âmbitos ainda mais delicados. Diante das eleições de julho, os partidos estão polindo suas candidaturas. Uma das principais preocupações dos respectivos dirigentes é não colocar como candidato os personagens captados pelo narcotráfico. Vista a situação no México, não deve ser tarefa fácil separar o grão da palha.

Alguns dirigentes admitem em particular que nos casos de dúvida estão pedindo à Secretaria da Defesa que investigue o passado, as amizades e as propriedades dos possíveis candidatos. A situação é tão delicada que a deputada espanhola Elena Valenciano, em visita ao México na qualidade de secretária das Relações Internacionais do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE, no governo da Espanha), ouviu em algum de seus encontros com líderes políticos mexicanos: "Tememos que em algumas áreas o narcotráfico tente comprar os três candidatos para ter o poder local ganhe quem ganhar..." O exército patrulhando as ruas, o exército investigando os civis, o exército sabendo-se imprescindível...

A situação enche de orgulho os militares, mas também de preocupação. Eles sabem que o trabalho policial que estão executando por ordem do presidente da República se situa na borda da lei. Controles de estradas, detenção de civis, choques armados. Os chefes militares já pediram a Felipe Calderón uma blindagem jurídica que os ponha a salvo de possíveis denúncias. Ou, o que é o mesmo: mais poder. Por isso não são poucos os setores - sobretudo da esquerda - aos quais esta situação preocupa extremamente. Embora Calderón costume repetir que a mobilização militar terminará no mesmo dia em que deixe de ser necessária, há quem se pergunte: "E eles vão querer deixar de ter tanto destaque na vida do México; os militares vão querer voltar à vida aborrecida dos quartéis?"

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Texto do El País, no UOL.

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sábado, dezembro 20, 2008

Jornalista, profissão de risco no México

Jornalista, uma profissão perigosa para os mexicanos

Joëlle Stolz
Na Cidade do México


O México é o lugar mais perigoso da América Latina para se praticar o jornalismo, sobretudo quando se trata de cobrir a "guerra" entre as autoridades e os narcotraficantes.

O Comitê de Proteção aos Jornalistas (CPJ), uma organização não-governamental baseada em Nova York, contabiliza 24 assassinatos ligados ao exercício da profissão desde 2000, mais sete desaparecimentos nos últimos três anos. A Federação Internacional dos Jornalistas lembra que dos 300 profissionais de mídia mortos no mundo nos últimos dez anos, 25% são mexicanos.

"Com o Iraque, o Afeganistão e o Paquistão, o México é um dos países mais arriscados para um jornalista crítico", declarou o célebre jornalista alemão Günter Wallraff, em uma mesa-redonda organizada no final de novembro na Feira Internacional do Livro de Guadalajara.

A mexicana Alma Guillermoprieto, que cobriu as guerras civis da América Central para mídias britânicas e americanas, deu em Guadalajara uma conferência intitulada "Como ser jornalista e não morrer", salientando os perigos próprios à situação do México: "Um jornalista que trata do tráfico de drogas se atira em um túnel escuro, onde os tiros podem vir a qualquer momento e de qualquer lugar".

Esse balanço é contestado pelo procurador federal encarregado dos crimes contra jornalistas, Octavio Orellana. Na última terça-feira (9) ele garantiu que só três vítimas foram mortas por causa de sua profissão. Segundo ele, as outras encontraram a morte por motivos semelhantes "aos que afetam todos os mexicanos" - acidente, bala perdida durante um confronto entre bandidos ou suicídio. E com freqüência não eram verdadeiros jornalistas, ele acrescenta.

Orellana recebeu uma réplica ferina por parte do responsável da CPJ para as Américas, Carlos Lauria: "Esses números evocam mais uma zona de conflito do que um país democrático", ele afirmou, lembrando que dos 24 assassinatos registrados pela CPJ somente um foi solucionado pela justiça.

A polêmica ocorre após o assassinato a tiros de Armando Rodríguez em 13 de novembro em Ciudad Juárez: ele era o especialista em assuntos criminais no "El Diario", principal jornal dessa cidade fronteiriça com o Texas, onde se lamentam desde janeiro mais de 1.300 mortes violentas causadas pelos cartéis da droga. Em 6 de novembro, uma cabeça humana cortada foi depositada em Ciudad Juárez na "praça dos Jornalistas", ao pé de um monumento dedicado à "liberdade de expressão", onde estão inscritos os nomes de profissionais da mídia assassinados.

O assassinato de Armando Rodríguez, seguido de um atentado contra um jornal de Culiacan, capital do estado de Sinaloa (noroeste) e outro campo de batalha dos cartéis, causou um choque no seio de uma profissão já habituada ao pior. "É sem dúvida exagero colocar o México no mesmo plano que o Iraque", admite Adriana Valasis, jornalista da rede de TV Azteca. "Mas esse novo crime provocou um debate na Internet entre colegas dos grandes jornais mexicanos, para tentar definir uma posição comum."

Com dezenas de outros jornalistas, a jovem assinou uma petição lançada pelo grupo "Periodistas de a pie" (Jornalistas em campo): "As autoridades devem mostrar seu envolvimento pela liberdade de expressão e o direito à informação".

Em várias regiões, sobretudo no norte, essa liberdade fundamental é constantemente sufocada. Em Tijuana, às portas da Califórnia, alguns repórteres não saem mais sem colete à prova de balas e se contentam em dar uma informação mínima. Em Nuevo Laredo, a mesma reserva depois que o jornal "El Mañana" foi atacado a metralhadora e a granada em 2006.

No nordeste, feudo do cartel do Golfo, os "narcos" telefonam sem medo para as redações: "As 'pessoas' da organização criminosa não querem que vocês publiquem tal nome ou tal foto". Em Ciudad Juárez, nove jornalistas receberam ameaças do crime organizado, contra eles ou suas famílias. Dois preferiram recentemente exilar-se nos EUA.

"O pior é a indiferença institucional a tudo isso", diz ao "Monde" Gerardo Priego, deputado do Partido da Ação Nacional (PAN, de direita), a formação presidencial. "O assassinato de Rodríguez poderia ter sido evitado com medidas de proteção aos jornalistas mais expostos", ele afirma. "Não compreendem que o jornalista cria um bem de interesse público, que é a informação." Presidente da comissão parlamentar que acompanha as agressões contra jornalistas, Priego, quer aprovar uma lei que qualifica os ataques contra veículos de mídia de delito federal. Segundo ele, ocorrem cerca de dez ataques por mês contra a imprensa no México, que vão da escuta telefônica ilegal ao ataque físico.

"E em quatro casos sobre dez eles vêm de autoridades locais ou do governo, sem falar na utilização da publicidade oficial para recompensar as mídias dóceis ou, ao contrário, castigar as outras", ele salienta.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Texto do Le Monde, no UOL.


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sábado, novembro 29, 2008

México: Outro alto oficial preso por envolvimento com tráfico de drogas

Outro oficial é preso por tráfico no México

Mario Velarde é da cúpula de unidade antidrogas da polícia federal e ex-assessor da Secretaria de Segurança

DA REUTERS

Um dos chefes da unidade antidrogas da polícia federal do México e ex-assessor da Secretaria de Segurança foi preso anteontem por suposto envolvimento com o narcotráfico, disseram fontes que pediram anonimato. Mario Velarde é o segundo oficial de polícia de alto escalão a ser detido nesta semana, em outra ação desatada pela "Operação Limpeza".
Segundo a imprensa mexicana, Velarde já é o quinto auxiliar do secretário de Segurança, Genaro Garcia Luna, a ser investigado pela PGR (Procuradoria Geral da República), que leva a cabo a "Operação Limpeza". Ele foi identificado por foto por uma testemunha protegida pela DEA (agência americana de combate às drogas).
Assim como Ricardo Gutiérrez, chefe de operações da Interpol no México, detido no domingo, Velarde foi preso preventivamente, de acordo com a fonte. As acusações contra ele não foram especificadas, mas as investigações realizadas pela PGR na "Operação Limpeza" focam o vazamento de informações confidenciais por funcionários públicos ao tráfico.
A ofensiva da PGR integra os esforços do governo Felipe Calderón de combater os cartéis de narcotraficantes que disputam as rotas da droga para os EUA. A espiral de violência gerada a partir das ações de Calderón, que colocou 36 mil soldados no combate ao tráfico, causou, estima-se, entre 4.300 e 5.000 mortes apenas neste ano.

Texto da Folha de São Paulo, de 21 de novembro de 2008.


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quinta-feira, outubro 02, 2008

O México vive sob o terror do narcotráfico

O México vive sob o terror do narcotráfico
O México vive dias de chumbo e sangue. Os narcotraficantes, infiltrados na polícia e na política, responderam à pressão do Exército e dos federais com uma guerra sem quartel. Ninguém está a salvo

Pablo Ordaz

Baixa a voz, olha de soslaio para um casal que toma café numa mesa vizinha e solta a pergunta:

- Contaram para você o que aconteceu num salão de cabeleireiro de Culiacán?

O barulho de um helicóptero do Exército voando muito baixo interrompe todas as conversas na praça de Morelia, capital do Estado de Michoacán. A cidade colonial está tomada desde que, na noite de 15 de setembro, que coincidiu com a celebração do grito de independência, duas granadas lançadas contra a multidão causaram a morte de nove pessoas e feriram uma centena.

Os soldados e os policiais, alguns deles encapuzados e portando rifles R-15, cruzam com vendedores de balões e casais de adolescentes de mãos dadas. Um segundo helicóptero segue o rastro do primeiro. Ninguém mais levanta os olhos. Numa das esquinas da catedral - em frente ao Palácio de Governo - continuam acesas as velas que os moradores colocaram para honrar as vítimas do primeiro atentado narcoterrorista da história do México. A noite vai se tingindo com os brilhos azuis e vermelhos dos carros da polícia.

- Onde?

- Num salão de cabeleireiro de Culiacán, no Estado de Sinaloa...

O cabeleireiro estava atendendo uma cliente regular. Outra mulher esperava sua vez folheando uma revista. A cliente se queixava com amargura da onda de violência inusitada da qual o México padece, sobretudo nos Estados do norte. Entre eles, a cidade de Sinaloa, berço dos narcotraficantes mais famosos; um lugar onde a metade das mortes acontece por tiros e onde os jovens assassinos mortos em combate descansam em mausoléus de mármore adornados com seus retratos. Há murais de até cinco metros nos quais é possível admirá-los empunhando um chifre de cabrito (o famoso rifle AK-47) ou posando em frente ao avião Cessna que pilotavam, carregado de drogas. A mulher se queixava no salão do mesmo que todo mundo se queixa no México. "Os traficantes já não matam apenas entre si". Em sua corrida ensandecida pelo controle dos lugares, em seus enfrentamentos quase diários com o Exército, já não importa que morram inocentes. O caso mais doloroso é o de Creel, uma cidade turística do Estado de Chihuahua. Um bebê e 12 adultos foram crivados com balas capazes de esburacar blindados. As pessoas recolheram 170 cápsulas do chão. Havia muito sangue. A polícia demorou muito tempo para chegar. Estranhamente, não havia nenhum policial nas proximidades. O crime das vítimas foi cruzar a rua principal da cidade junto com dois jovens assassinos, no mesmo momento em que um cartel rival estava atrás deles. Cento e setenta disparos.

- Já não dá mais para viver aqui - queixou-se a cliente para o cabeleireiro -, não podemos nem deixar nossos filhos brincarem na rua. E tudo por culpa do maldito narcotráfico...

Nesse momento, a segunda mulher, que havia permanecido em silêncio todo o tempo, levantou os olhos e disse uma palavra, só uma, dirigindo-se ao cabeleireiro:

- Raspe! [a cabeça dela].

O homem, assustando, tentou mediar, mas a ordem repetida era muito clara. Sobretudo porque vinha enfatizada por um revólver que a mulher acabava de tirar do bolso.

- Raspe!

Só quando se certificou de que o cabeleireiro havia começado a cumprir sua ordem, a desconhecida levantou-se e dirigiu-se à porta. Antes de ir embora, encarou a mulher e a advertiu:

- E não use peruca. Se usar, eu te mato.

O policial, sentado sob a galeria da praça de Morelia, ri da história. Diz que tem todo um repertório de casos iguais ou piores que esse. Histórias de terror que demonstram que o narcotráfico mexicano - conhecido como "el narco" no país - está deixando de ser um assunto distante, um mito refugiado nas mansões inacessíveis da terra quente de Michoacán ou nos corredores do tráfico de Los Tigres Del Norte. O narcotráfico está cada dia mais presente na vida cotidiana de muitos mexicanos. "E a razão é muito simples e muito complicada ao mesmo tempo", explica o policial, "mas não se apresse, vou explicar".

Sua análise coincide com a de outras fontes consultadas, e, ainda que cheia de matizes, pode ser resumida assim: os narcotraficantes mexicanos têm cada vez mais problemas para transportar a droga pelo México para introduzi-la nos Estados Unidos. Em primeiro lugar, a culpa é do governo de Felipe Calderón, que está transformando a luta contra o crime organizado no eixo de sua legislatura. Empenhou-se em retirar os corruptos da polícia - tarefa nada fácil; estudos dizem que 80% dos policiais são corruptos -, e também colocou o Exército na guerra contra os cartéis. A segunda dificuldade que os narcotraficantes enfrentam - a redução do comércio com o norte - tem, por sua vez, dois motivos: os controles fronteiriços cada vez mais difíceis de driblar e uma queda bastante pronunciada da demanda de cocaína nos Estados Unidos. O resultado de tudo isso é que grandes quantidades de cocaína estão ficando no México. Para abrir mercado, os cartéis estão distribuindo-a a preços tão acessíveis que já são muitos os mexicanos - sobretudo os mais jovens - que estão se viciando. As principais organizações fragmentaram-se em outras menores e já não buscam tanto o mercado externo, mas sim o interno. Mais do que manter abertas as rotas tradicionais de tráfico, o que lhes interessa agora é conseguir o controle dos Estados e das cidades. Bairro por bairro. Praça por praça. Do narcotráfico ao narcovarejo. Para isso, necessitam controlar os políticos locais e manter os grupos rivais na linha. Para o primeiro, precisam de muito dinheiro. Para o segundo, de muito chumbo.

O casal vizinho se levanta, dá boa tarde e se vai. O policial federal - que faz parte de uma equipe de investigação - introduz um pen drive no computador portátil deste repórter.

- Quer ver como atua o narcotráfico aqui em Michoacán? Mas não vá desmaiar...

A primeira coisa que aparece na tela do computador é um título que diz: "La Familia. Informe confidencial". La Familia é o nome do cartel mais poderoso que opera em Michoacán. Depois, uma fotografia. Nela vêem-se as cabeças cortadas de cinco homens jovens, ainda com sangue, espalhadas pelo cenário de um clube de strip tease da cidade de Uruapan. "Quer ver mais ou já é suficiente?"

Sem esperar resposta, o agente vai percorrendo com o cursor todo o informe. Há mais fotos. E uma parte muito extensa dedicada aos 'narcorecados'. Junto a cada acerto de contas, La Familia deixa um cartaz com os motivos de seu assassinato (por delatar, por não respeitar La Familia, por não respeitar os acordos), os nomes, sobrenomes e indicações dos próximos na lista negra (policiais, políticos, jornalistas, assassinos dos cartéis rivais) e com sua assinatura inconfundível: "O ódio não é esquecido. Isso é justiça divina. Atenciosamente. La Familia de Michoacán". Mas há outra parte do informe que impressiona ainda mais que a imagem dos executados. É a que resume o poder do grupo armado. Ele opera em 87 dos 112 municípios do Estado de Michoacán. Controla diretamente os cabarés, as máquinas de caça-níquel, o negócio milionário da pirataria, muitos dos 2.100 pontos de venda de droga que há no Estado, as madeireiras ilegais, a venda de armas... E oferece proteção obrigatória aos donos dos postos de gasolina, aos produtores de abacate, às lojas de alimentos... A tarifa é de 2.500 a 25 mil dólares. Em dinheiro. Não se admite um não.

- Há alguns meses - conta um advogado de Morelia - um espetáculo muito famoso em todo o México veio para a cidade. Desculpe mas não posso dizer o nome. O fato é que, quando estavam montando o espetáculo, uns sujeitos visitaram o empresário e ofereceram proteção. O homem, que não conhecia o cotidiano daqui, disse que muito obrigado, mas não precisavam de proteção, que ele já contava com a polícia e com a Cruz Vermelha em caso de incidentes.

Eles responderam que não era suficiente, que o espetáculo necessitava de proteção. "Mas, de quem?", atreveu-se a perguntar o empresário. "De nós", foi a resposta... O empresário teve de pagar 5 mil dólares. E o espetáculo, é claro, aconteceu sem incidentes.

Sabendo de tudo isso - afinal ele nasceu aqui, onde sua mãe e irmão ainda moram - o presidente Felipe Calderón colocou Michoacán na mira da Polícia Federal e do Exército. Não somente para combater o narcotráfico, mas também - ou principalmente - para tentar evitar a desaparição paulatina do Estado em favor dos cartéis. Foram feitas apreensões importantes de drogas e armas, detenções, e ainda assim o crime organizado foi capaz de seqüestrar em plena luz do dia Maribel Martínez Martínez, secretária da prefeitura de Uruapan - a 45 minutos de carro de Morelia.

Levaram-na quando ela saia de um ato na Casa de Cultura. Um acompanhante e dois policiais foram feridos gravemente. O suposto motivo da ação está em toda imprensa local: "La Familia financiou a campanha eleitoral do presidente municipal, Antonio González. Em troca queriam que a administração de Segurança Pública, a de Obras Públicas, o mercado e o palanque ficassem com homens de sua confiança. González - que pertence ao PAN, o mesmo partido do presidente da República - não cumpriu seus compromissos com a máfia e agora eles estão acertando contas". Maribel Martínez foi seqüestrada há dois meses. Segundo fontes da polícia, ainda está viva.

Assim estavam as coisas quando, às onze da noite de 15 de setembro, duas granadas explodiram em frente ao Palácio de Governo de Morelia. O primeiro atentado narcoterrorista da história do México deixou nove mortos e mais de cem feridos. Mas, além disso, revelou as vergonhas de um país que sangra por todos os poros.

Nos dias seguintes ao atentado, foram se revelando os detalhes que passariam por fantasiosos na história mais disparatada. O governador, Leonel Godoy, sabia que os narcotraficantes haviam ameaçado atentar contra o desfile do dia 16, mas - pelo menos oficialmente - não se preocupou em reforçar a segurança na noite do dia 15. Um grupo de policiais cuja missão era mesclar-se à paisana na multidão para evitar incidentes, não se apresentou na praça. Um dos chefes recebeu um telefonema misterioso e o obedeceu. Imagens de vídeo mostram os policiais de elite alterando a cena do crime e depois lavando as mãos com uma lata de refrigerante. Um bom número de testemunhas assegura que os que jogaram a granada estavam vestidos de uniforme preto - muito parecido com o usado pelo Grupo de Operações Especiais - e que um deles se chamava El Zorro, mas nenhuma das testemunhas é da polícia. Poucas horas depois do crime - e para finalizá-lo com um surrealismo macabro - o cartel La Familia colocou cartazes por toda a cidade de Morelia condenando o atentado, assegurando que não foram eles os responsáveis, e comprometendo-se a "investigar os fatos".

Hoje, entretanto, junto às velas acesas no lugar do atentado, há um cartaz gigante colado no chão que diz "Paz", assinado por La Familia. Ninguém, nem de uniforme, nem à paisana, atreveu-se a retirá-lo.

- Mas, foram eles?

- Talvez. Ou talvez tenham sido Los Zetas [um grupo de assassinos em guerra aberta contra La Familia]. Ou talvez não tenham sido os narcotraficantes...

Os fantasmas andam a solta pelo país que conhece de cor a árvore genealógica de seus narcotraficantes. Duas semanas depois dos atentados, ninguém sabe ao certo quem é responsável ou por que eles aconteceram em Morelia. Há quem diga que foi um aviso para Calderón: somos capazes de cometer atentados a três quadras da casa de sua mãe.

E há quem - citando fontes fidedignas - assegura que o aviso era para Leonel Godoy, governador de Michoacán, em resposta a uma dívida obscura pendente com La Familia. Outros apostam que o aviso foi para o Exército: vejam o que podemos chegar a fazer se vocês continuarem nos pressionando. Porque o Exército - e nisso todos concordam no México - transformou-se na principal bandeira de Calderón em sua luta desigual contra o narcotráfico. Até os mais próximos - ainda que em privado - reconhecem que o presidente da República pecou por ingenuidade ou atrevimento quando anunciou a guerra aberta contra o narcotráfico. "Somos todos contra o tráfico. E sem dúvida limpar o país dos delinqüentes é vital para o nosso futuro. Mas sim, talvez ele devesse ter contado as balas que tinha antes de sacar o revólver", comenta um dirigente do PAN - o partido do presidente -, sem dúvida alarmado com o desgaste.

Todos os dias, nos principais jornais do México, aparece um quadro com dois números. "El Universal" intitula o quadro de "Baixas do narcotráfico". O primeiro número se refere aos mortos do dia anterior. Na quarta-feira passada 25 pessoas foram mortas em execuções ou tiroteios. O segundo número informa o total. No período de um ano, 3.337 pessoas morreram assassinadas no México. Debaixo desses dois números, há uma coluna de texto - com não mais do que 30 linhas - na qual se resume o que aconteceu no dia anterior. O texto publicado pelo El Universal na quarta-feira intitulava-se "Pepenador encontra crânio em Juárez".

O texto dizia: "A espiral de violência em Chihuahua deixou 11 homicídios e um policial municipal seqüestrado nas últimas 24 horas. Em Ciudad Juaréz, um grupo de homens encapuzados matou a tiros Miguel Ángel Ramírez e Efraín Gallardo Ramírez, que viajavam num Cadillac. Em outro caso, Francisco Cevallos Gálvez morreu baleado na frente de sua mulher e filho. E Félix Antonio García Ramírez, de 17 anos, faleceu num hospital, para onde foi levado com ferimentos a bala. No lixão municipal de Ciudad Juárez, um catador encontrou um crânio que ainda tinha pele no rosto. O corpo não foi localizado. Enquanto isso, foram localizados cinco corpos do sexo masculino nas imediações da capital de Chihuahua..." Esse trecho é apenas 30% de uma coluna perdida no meio do jornal. Só quando o crime alcança conotações especiais vai para a primeira página. E, para desgraça dos mexicanos, o mês de setembro foi especialmente negro. Uma caminhonete cheia de homens sem cabeça. 24 jovens abandonados em La Marquesa - parque natural na entrada da Cidade do México - amarrados, torturados e com um tiro de misericórdia. Um motim em Tijuana com um número de mortos e desaparecidos ainda indeterminado...

O crime organizado e desorganizado parecem ter se juntado para transformar o país - e principalmente o Distrito Federal - num lugar pouco recomendável. As estimativas de mais de 3 mil executados se unem às vítimas de seqüestros por resgate. Segundo números oficiais, em um ano foram seqüestradas 650 pessoas, e, entre elas, 130 ainda continuam em poder dos criminosos, ninguém sabe se estão vivas ou mortas, à espera de um acordo pelo preço do resgate. Mas esse número está, com certeza, muito aquém da realidade. Todos sabem que, aqui, denunciar não adianta muito, que 85% dos delitos ficam sem resolução e que procurar a polícia é às vezes mais perigoso do que lançar-se nos braços do criminoso. De fato, alguns bancos - entre eles o Santander - recomendam a seus clientes que, caso sejam parados por uma patrulha, a primeira coisa a fazer é trancar "todas as portas do carro".

O presidente Calderón passou a semana em Nova York. Lá, voltou a pedir a cumplicidade - e os fundos - do vizinho do norte para vencer a batalha contra o narcotráfico.

No país, enquanto isso, os membros de seu governo ligados à segurança têm sido atacados pela oposição, que - à sua maneira - também lhes pedem dinheiro ou chumbo.

Solução ou demissões. Diante da pressão, um dos homens fortes do governo, o secretário Juan Camilo Mouriño, chegou a reconhecer na tribuna da Câmara dos Deputados: "Não podemos garantir a segurança. A polícia foi infiltrada pelo crime organizado. Assim, até que isso não seja solucionado, não poderemos nem garantir a segurança, nem gozar da confiança dos cidadãos".

Enquanto o alto representando do governo pronunciava essa declaração sincera de impotência, onde estavam os mexicanos? Escondidos debaixo da cama? Enclausurados a sete chaves em suas casas? Nada mais longe da realidade. É verdade que a preocupação cresce e que há empresários que estão tentando colocar suas vidas e propriedades fora de perigo, mas a realidade retratada pelos dados e pelos jornais não é toda a realidade.

O México continua sendo um país amável, de trânsito caótico e natureza exuberante; de uma beleza dificilmente igualável; situado numa posição fundamental para o futuro da América e, talvez, a partir de agora, mais consciente do que nunca do perigo que o narcotráfico representa para seu próprio desenvolvimento. Uma corrente, ainda tímida, de indignação começou a percorrer o país. Umas velas acesas na praça de Morelia. Uma manifestação de milhares de pessoas no Distrito Federal. Uma pressão quase unânime dos meios de comunicação para que o presidente Calderón, uma vez abertos os cofres do trono, não caia na tentação de pactuar ou claudicar diante do terror.

O narcotráfico - tão celebrado até agora em romances e baladas de pistoleiros - já não assusta só os seus iguais. O medo foi esparramado, saiu nas ruas, e os mexicanos, colocados em frente ao espelho, começam a temer a própria imagem refletida diante de si mesmos e do resto do mundo. Há uma placa na entrada de Ciudad Juárez - onde este ano foram executadas mais de mil pessoas - que explica muito bem essa preocupação, esse medo que infunde medo:

- Bem vindo a Ciudad Juárez. Não somos como dizem que somos.

Tradução: Eloise De Vylder

Texto do El País, no UOL.


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terça-feira, julho 29, 2008

México: Nova lei acaba com prisão de clandestinos

Nova lei acaba com prisão de clandestinos

DA REDAÇÃO

A imigração irregular deixa hoje de ser punida com prisão no México, com a reforma da Lei de Povoação. A mudança aproxima a legislação à da maioria dos países latino-americanos, nos quais a estadia não-autorizada de estrangeiros é uma infração civil, não criminal.
A nova lei, publicada ontem no diário oficial, prevê punir com cobrança de multas os clandestinos.
A cada ano 500 mil pessoas cruzam ilegalmente o país, a maioria delas com a intenção de chegar aos EUA. Embora a norma anterior previsse prisão por até dez anos, o procedimento padrão era retê-los apenas enquanto aguardavam a deportação.


Com agências internacionais

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segunda-feira, julho 21, 2008

Violência policial na Cidade do México

Mexicanos se revoltam contra a violência da polícia

Por Joëlle Stolz

Duas semanas depois de uma desastrosa operação policial que incluiu diversas batidas em locais diferentes da Cidade do México, e que provocou a morte de doze pessoas, na sua maioria, adolescentes, o chefe da polícia da capital e o seu procurador-geral foram obrigados a pedirem demissão. A decisão, tomada em 8 de julho, teve como objetivo de apaziguar uma opinião pública revoltada com os métodos quase sempre brutais empregados pelas forças da ordem.

"Nós precisamos construir um outro tipo de polícia", declarou o chefe do governo da Cidade do México, Marcelo Ebrard, do Partido da Revolução Democrática (PRD, de esquerda). A tragédia que ocorreu em 20 de junho dentro da discoteca New's Divine, freqüentada por jovens das camadas populares, evidenciou não apenas o despreparo dos policiais como também os "abusos sistemáticos, além dos atos de brutalidade e de negligência" que eles perpetraram de maneira criminosa contra adolescentes, "cuja ação mais grave que praticavam naquele momento era tomar cerveja", afirma um relatório da Comissão dos Direitos Humanos da capital, a CDHDF.

Sob o pretexto de controlar o consumo ilegal de álcool e de drogas por parte de menores, a polícia organizou uma operação desproporcional, constata o presidente da comissão, Emilio Alvarez. Uma vez que havia apenas um veículo para embarcar os "suspeitos" - entre os quais, centenas de adolescentes e até mesmo crianças -, os agentes barraram a única saída disponível, esmurrando os jovens para obrigá-los a recuarem para dentro de recinto. Doze pessoas foram mortas por asfixia ou pisoteadas, das quais três policiais e uma jovem de 13 anos.

Treinamento para a prática da tortura
A investigação revelou que, um pouco mais tarde, os agentes embarcaram menores, sem que os pais destes fossem informados, e os levaram até a delegacia onde eles foram fichados como delinqüentes. Insultos e ameaças de morte foram proferidos contra eles. Dez jovens adolescentes foram obrigadas a se despirem e a ficarem completamente nuas, na presença de um oficial, para serem fotografadas. "Estes atos não são um caso isolado. Eles constituem práticas sistemáticas e institucionalizadas que devem ser erradicadas", disse Emilio Alvarez.

Ele denuncia os métodos agressivos e brutais empregados pelos policiais de Cidade do México, governada há mais de dez anos pela esquerda. "Quando assumi à frente da CDHDF [em outubro de 2001], havia 16.000 detentos nas prisões da capital. Atualmente, o seu número é de 36.000, entre os quais há, sobretudo, jovens das classes pobres, encarcerados por roubos de valores inferiores a 3.000 pesos [cerca de R$ 470]", lembrou o defensor dos direitos humanos em entrevista ao diário "Crônica". Com freqüência excessiva, acrescentou Alvarez, os policiais "perdem todo controle dos seus atos e libertam sua raiva cometendo maus-tratos contra os jovens pobres ou os empregados modestos".

Segundo a revista semanal "Proceso", o drama do New's Divine comprova principalmente que é ilusório pretender unificar os corpos de polícia sem antes retirar deles todos os seus maus elementos e reestruturá-los completamente.

Foi assim que a imprensa mexicana descobriu, no final de junho, que a polícia do Estado de Guanajuato (no Centro do país), um baluarte da direita católica, vinha recorrendo desde 1997 aos serviços de antigos militares israelenses com o objetivo de treinar seus homens a praticarem atos de tortura. A exibição de vídeos mostrando policiais sendo forçados a rastejarem em poças do seu próprio vômito, ou ainda a enfiarem a cabeça dentro um balde repleto de excrementos, provocou choque na população.

Na sexta-feira, 11 de julho, a Comissão Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) denunciou oito novos casos de abusos e de torturas cometidos por militares contra civis, durante operações contra o tráfico de drogas.

Tradução: Jean-Yves de Neufville
Texto do Le Monde, no UOL.

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segunda-feira, setembro 03, 2007

Brasileiros Presos em Chiapas

A notícia veio no Correio do Povo de sábado passado, dia primeiro de setembro. Agentes do governo mexicano prenderam 22 migrantes em uma estrada de Chiapas, entre eles alguns brasileiros, e o restante centro-americanos. Chamou a atenção nesta notícia o fato de brasileiros terem sido presos no estado de Chiapas, que fica no sul do México, próximo à fronteira com a Guatemala.
Isto me faz lembrar um texto do jornalista Elio Gaspari, tempos atrás, quando o governo mexicano exigia vistos para brasileiros que quisessem visitar aquele país. Isto foi lá pelos anos 1990. Desde então o governo mexicano deixou de exigir vistos dos cidadãos brasileiros, e mais recentemente, no governo Lula, voltou a exigí-los. Gaspari opinava, sarcasticamente, que como dificilmente um brasileiro iria tentar melhorar sua situação econômica, migrando do Brasil para o México, a exigência do México em pedir vistos a brasileiros era mais uma tentativa de agradar o grande vizinho do norte, que restringir o acesso de brasileiros ao seu território. Em sendo assim, continuava Gaspari, o governo mexicano poderia terceirizar o serviço, permitindo diretamente aos agentes do Departamento de Estado quem poderia ou não acessar o território mexicano.
Com a recente retomada da exigência de vistos para brasileiros, alguém previu que, se o governo mexicano barrasse os migrantes em seus aeroportos, eles começariam a tentar entrar nos Estados Unidos fazendo o trajeto por terra desde a Guatemala. Já estão fazendo. E sendo presos por isso.
Sendo assim, podemos prever que em futuro próximo o governo dos Estados Unidos pressionará a Guatemala para exigir vistos de viajantes vindos da América do Sul. Se é que já não o faz.

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