quinta-feira, novembro 04, 2010

Sinais trocados: a mídia censora

Papéis trocados: a mídia censora

Ativistas assumem a função de jornalistas e os jornais os censuram

“Como de costume, os árabes sabiam”, escreveu Robert Fisk sobre o vazamento pelo site WikiLeaks de 391.832 documentos secretos dos EUA sobre a Guerra do Iraque. Como também sabia, minúcias e estatísticas à parte, quem duvidou da palavra de Washington e Londres e buscou informação além dos grandes órgãos da mídia ocidental.
Os EUA diziam não fazer “contagem de corpos”. Pois os documentos vazados detalham 109.032 mortes, 66.081 das quais civis – e é um balanço parcial. Revelam pelo menos 14 assassinatos de civis pelos mercenários da Xe (ex-Black­water). Iraquianos torturaram e mataram centenas de prisioneiros entregues pelos comandantes estadunidenses, sob seus olhos complacentes. Abusos nas prisões dos EUA prosseguiram após as revelações de Abu Ghraib. De 832 pessoas abatidas em postos de controle dos EUA, apenas 120 eram supostos insurgentes: os demais incluíam famílias e crianças. Vídeos retratam helicópteros a liquidar friamente inimigos rendidos ou civis indefesos. Manuais de tortura.

E barbaridades também do outro lado, como mulheres e meninos com síndrome de Down ou outros problemas mentais usados como mulheres-bomba e homens-bomba: um médico vendeu à Al-Qaeda uma lista de pacientes como esses. A guerra como é, sem edição da CNN e Fox News.

Um precedente foram os “Papéis do Pentágono”, 14 mil páginas de estudos secretos sobre a Guerra do Vietnã vazados pelo analista militar Daniel Ellsberg. Publicado em 1971 pelo New York Times, depois pelo Washington Post, revelou ações secretas que incluíam bombardeios aéreos do Laos, ainda oficialmente neutro, e ataques contra o território do Vietnã do Norte. Os dois jornais enfrentaram uma batalha judicial contra o governo Nixon, que tentou proibir a publicação. Agentes da Casa Branca tentaram desmoralizar Ellsberg, roubando os arquivos de seu psiquiatra e drogando-o para fazê-lo parecer louco. Ellsberg foi processado por traição e absolvido, enquanto seus algozes, punidos por arrombamento. A epopeia gerou o documentário O Homem Mais Perigoso da América, de Judith Erlich e Rick Goldsmith.
É um sinal de decadência da imprensa escrita e da mídia dos EUA que, desta vez, a denúncia só tenha sido possível por intermédio de um site mantido por uma ONG quase clandestina, perseguida pelo Pentágono e pela Casa Branca. Mais grave ainda é que os jornais que protagonizaram o vazamento de 1971 procuram minimizar as revelações ou desmoralizar os responsáveis por sua divulgação, desempenhando o papel que há 40 anos foi de Nixon e seus capangas. E a mídia mais conservadora quer que os responsáveis pelo vazamento sejam executados ou caçados como terroristas, nada menos.

Ao se referir aos arquivos, o New York Times produziu como manchete um primor de contorcionismo: “Detidos se deram pior nas mãos de iraquianos, dizem os arquivos”. E as análises do material, de cuja veracidade ninguém duvida, foram acompanhadas por uma minuciosa tentativa de assassinato da reputação do WikiLeaks e seu editor-chefe, o australiano Julian Assange.

O artigo de John Burns – um dos jornalistas integrados nas tropas, entusiasta da ocupação – retrata Assange pela visão de detratores e “ex-camaradas” que “o estão abandonando pelo que consideram um comportamento errático e autoritário, um certo delírio de grandeza não acompanhado da consciência de que os segredos digitais que revela podem ter um preço em carne e sangue”. De assassinos, torturadores e colaboracionistas, presume-se, embora o WikiLeaks tenha tido muito mais cuidado com suprimir seus nomes do que o Pentágono com evitar os massacres e torturas que protagonizaram. Põe em dúvida sua saúde mental com o empenho do Nixon de 1971: cita detratores segundo os quais “ele não está no seu juízo perfeito” e boatos sobre sua vida pessoal, provavelmente armados pela CIA – como o de que teria violentado duas suecas, acusação pouco verossímil e retirada pelas supostas vítimas.
Em agosto, nas páginas do Washington Post, o comentarista Marc Thiessen afirmou, depois do primeiro vazamento de documentos sobre o Afeganistão, que o WikiLeaks “não é organização noticiosa, mas empresa criminosa” e exigiu que Assange fosse preso antes de “causar mais dano à segurança nacional”. Ante o fato consumado, o editorial fez de conta que não tinha a menor importância: “Os documentos demonstram que a verdade sobre o Iraque já havia sido contada”, mas critica “o enfoque impulsivo e politicamente motivado de Assange, que produz pouca luz, mas causa grandes danos”.

Foram ignoradas as cobranças de investigação da ONU, da Anistia Internacional e do vice-primeiro-ministro britânico Nick Clegg, entre outros. O título mais destacado foi “Papéis do WikiLeaks apoiam alegações de Bush sobre o papel do Irã na Guerra do Iraque” – embora, na verdade, os documentos mostrem que as evidências são mais vagas e ambíguas do que o Pentágono deu a entender.

A CNN fez uma entrevista com Assange que ele interrompeu, indignado com os jornalistas que questionavam boatos sobre sua vida pessoal em vez das informações sobre mais de 100 mil mortes. O editorial da Fox News diz que os funcionários do WikiLeaks precisam ser considerados “combatentes inimigos” e submetidos a “ações não judiciais”. Pede que seus fundos sejam congelados, como se faz com organizações terroristas e que o site seja derrubado pelos hackers do Pentágono. Seu noticiário destacou um deputado que pediu pena de morte para o analista militar Bradley Manning, de 22 anos, preso como suspeito de parte dos vazamentos – ou seja, de ter feito o papel de Ellsberg.

Fora dos EUA foram mais comuns matérias relatando a cumplicidade dos militares com a tortura e os pedidos de investigação, mas viu-se pouca investigação do vasto material além dos pontos destacados pelo próprio WikiLeaks, cuja existência está em risco. O site Moneybookers, que coletava grande parte das doações que lhe eram destinadas, encerrou-lhe a conta, aparentemente a pedido de Washington. O governo sueco negou visto de permanência a Assange, provavelmente pelo mesmo motivo. O jornalismo investigativo nunca foi mais frágil.


Texto da CartaCapital.

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quarta-feira, julho 28, 2010

Estados Unidos pagam à mídia afegã para divulgar conteúdo favorável aos Estados Unidos

Documentos do WikiLeaks mostram que Estados Unidos pagam mídia Afegã to divulgar histórias amistosas

The Upshot

John Cook descobriu documentos mostrando que estações de radio afegãs foram contratadas para levar ao ar conteúdo produzido pelos Estados Unidos. Outros relatos mostram militares americanos aparentemente se referindo aos repórteres afegãos como “nossos jornalistas” e lhes indicando como fazer o trabalho deles.



WikiLeaks documents show US pays Afghan media to run friendly stories

The Upshot

John Cook found documents showing that Afghan radio stations were under contract to air content produced by the United States. Other reports show U.S. military personnel apparently referring to Afghan reporters as "our journalists" and directing them in how to do their jobs.

Origem: http://www.poynter.org/column.asp?id=45&aid=187610


Mais no Yahoo News (em inglês).


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Divulgação de documentos sobre o Afeganistão mostram imagem interna da guerra

Divulgação de documentos sobre o Afeganistão mostram imagem interna da guerra



Matthias Gebauer, John Goetz, Hans Hoyng, Susanne Koelbl, Marcel Rosenbach e Gregor Peter Schmitz



Em um desdobramento sem precedente, perto de 92 mil documentos confidenciais relacionados à guerra no Afeganistão foram vazados. A “Spiegel”, o “New York Times” e o “Guardian” analisaram uma série dos documentos mais confidenciais. Os diários de guerra expõem a verdadeira escala da presença militar ocidental – e os problemas que atormentam a Bundeswehr alemã no Hindu Kush.

Um total de 91.731 relatórios dos bancos de dados militares dos Estados Unidos, relacionados à guerra no Afeganistão, estará disponível publicamente na Internet. Nunca antes foi possível comparar a realidade no campo de batalha de forma tão detalhada com o que a máquina de propaganda do Exército americano está divulgando. O WikiLeaks planeja postar os documentos, a maioria confidencial, em seu site.

O jornal britânico “The Guardian”, o “New York Times” e a “Spiegel” checaram o material e compararam os dados com relatos independentes. Todos os três órgãos de imprensa concluíram que os documentos são autênticos e fornecem uma imagem sem retoques da guerra no Afeganistão – do ponto de vista dos soldados que a estão travando.

Os relatórios, de soldados envolvidos no combate em andamento, foram resumidos de forma sucinta e enviados rapidamente. A maioria é de autoria de sargentos – mas alguns foram redigidos por um tenente ocasional em um posto de comando ou analistas do serviço de inteligência militar.

A divulgação dos documentos ocorre em um momento em que os pedidos para retirada das tropas do Afeganistão estão crescendo – mesmo nos Estados Unidos. Na semana passada, representantes de mais de 70 países e organizações se reuniram em Cabul para uma conferência sobre o Afeganistão. Eles asseguraram ao presidente Hamid Karzai que seu país estaria em posição, até 2014, de garantir a segurança utilizando seus próprios soldados e policiais.

Um quadro sombrio


Mas essas demonstrações de otimismo parecem cínicas diante das descrições da situação no Afeganistão fornecidas pelos documentos confidenciais. Quase nove anos após o início da guerra, eles pintam um quadro sombrio. Eles retratam as forças de segurança afegãs como vítimas desafortunadas dos ataques do Taleban. Eles também oferecem uma impressão conflitante da utilização das aeronaves não-tripuladas, notando que as armas americanas milagrosas também são totalmente vulneráveis.

E elas mostram que a guerra no norte do Afeganistão, onde as tropas alemãs estão posicionadas, está se tornando cada vez mais perigosa. O número de alertas sobre possíveis ataques do Taleban na região – alimentados pelo apoio do Paquistão– aumentou dramaticamente no ano passado.

Os documentos oferecem uma janela para a guerra no Hindu Kush –uma que promete mudar a forma como pensamos sobre a violência em andamento no Afeganistão. Eles também serão indispensáveis para qualquer um que busque se informar sobre a guerra no futuro.

Apesar dos repetidos pedidos, a Casa Branca se recusou a fornecer qualquer comentário dentro do prazo para a edição impressa da “Spiegel”. Na noite de sábado, entretanto, um funcionário da Casa Branca forneceu finalmente respostas por escrito para uma seleção de perguntas sobre o conteúdo dos relatórios obtidos, mas se recusou a conceder uma entrevista.

Ben Rhodes, o vice-conselheiro de segurança nacional para comunicações, disse: “Desde que assumiu o cargo, o presidente Obama tem sido muito claro e franco com o povo americano sobre os desafios que enfrentamos no Afeganistão e no Paquistão. O presidente e altos funcionários do seu governo falaram aberta e repetidamente sobre os santuários que existem no Paquistão, a segurança e os problemas de governança no Afeganistão, além das dificuldades que nos esperam. (...) É importante notar que o período refletido nos documentos é de janeiro de 2004 a dezembro de 2009. A guerra no Afeganistão contou com recursos insuficientes por muitos anos. (...) Em 1º de dezembro de 2009, o presidente Obama anunciou uma nova estratégia e novos recursos para o Afeganistão e Paquistão, precisamente por causa da gravidade da situação lá”.

Respondendo à intenção da WikiLeaks de disponibilizar online os documentos, Rhodes disse: “Nós condenamos fortemente a revelação de informação confidencial por indivíduos e organizações, que colocam as vidas de militares americanos e da coalizão em risco e ameaçam nossa segurança nacional”. Ele disse que a WikiLeaks “não fez esforço para contatar o governo dos Estados Unidos a respeito desses documentos, que podem conter informações que colocam em risco as vidas de americanos, nossos parceiros e da população local que coopera conosco”.

Os editores-chefe da “Spiegel”, do “New York Times” e do “Guardian” concordaram que não publicariam informação particularmente sensível do material confidencial – como os nomes dos informantes afegãos das forças armadas americanas ou informação que pudesse criar riscos de segurança adicionais para os soldados estacionados no Afeganistão. Os publishers foram unânimes em sua crença de que há interesse público justificado no material, porque ele fornece um entendimento mais amplo de uma guerra que continua até hoje, após quase nove anos.

A “Spiegel Online” resumiu uma seleção das revelações mais importantes nos dados.

Os membros da Força-Tarefa 373, uma tropa dos soldados de elite americanos que inclui os SEALs da Marinha e membros da Força Delta, recebem suas ordens diretamente do Pentágono e são independentes da cadeia de comando da Força Internacional de Assistência para Segurança (ISAF, na sigla em inglês) no Afeganistão. A missão deles é desativar altos terroristas e talebans, os matando ou capturando.

Por anos, um grande esforço foi feito para manter em silêncio os detalhes de suas missões. Com os vazamentos dos diários de guerra no domingo, entretanto, o trabalho deles passou a ser um segredo aberto.

Os relatórios de missão também oferecem uma informação considerável sobre a lista confidencial de inimigos das tropas da coalizão. A “Lista Priorizada Conjunta de Ações” (JPEL, na sigla em inglês), como é chamada nos círculos militares, contém os nomes de talebans, barões das drogas, fabricantes de bombas e membros da Al Qaeda –cada um com um número de processo e um nível de prioridade. A decisão sobre prender ou matar um alvo frequentemente cabe aos próprios caçadores.

Um total de 84 relatórios sobre ações da JPEL podem ser encontrados entre os milhares de dados. Especialistas consideram um fato que assassinatos intencionais estão ocorrendo na guerra no Afeganistão. Mas nenhum alto oficial militar está disposto a discutir o assunto. Os dados recém divulgados mostram o que unidades como a Força Tarefa 373 estão fazendo a cada noite – e como as coisas podem dar terrivelmente errado.

Um relatório de 17 de junho de 2007, por exemplo, inclui um alerta na segunda sentença que essa operação da FT 373 deve permanecer “protegida”. Detalhes sobre a missão não poderiam ser fornecidos para outros países que contribuem para a ISAF.

A meta era matar um membro proeminente da Al Qaeda, Abu Laith al Libi. As forças especiais suspeitavam que o alto terrorista e vários de seus seguidores estavam presentes em uma escola do Alcorão que os soldados estavam vigiando há dias.

Mas após o impacto de cinco foguetes americanos, em vez de encontrarem Al Libi, as forças em solo descobriram seis crianças mortas nos escombros da escola. Uma outra criança gravemente ferida também foi encontrada, mas não pôde ser salva.

Os documentos recém divulgados não contêm qualquer informação sugerindo que as tropas alemãs estiveram envolvidas em excessos de violência contra a população civil ou em qualquer operação clandestina ilegal. Todavia, elas oferecem uma imagem das forças armadas alemãs, a Bundeswehr, que ainda assim é devastadora, porque descrevem militares alemães que ingressaram no conflito com grande ingenuidade.

Os alemães acharam que as províncias do norte onde seus soldados estão posicionados seriam mais pacíficas em comparação a outras províncias e que a situação permaneceria assim.

Eles estavam errados. Já no final de 2005, a resistência contra a presença de tropas internacionais começou a crescer –os moradores locais ou eram ameaçados pelos talebans e poderosos senhores da guerra ou seu apoio era comprado. O senhor da guerra Gulbuddin Hekmatyar, por exemplo, instigou o combate ao oferecer 100 mil a 500 mil afeganis (US$ 2 mil a US$ 10 mil) para o líder de qualquer grupo insurgente. Os apelos de Hekmatyar e doações de dinheiro estão cuidadosamente documentos nos relatórios.

No início de sua missão, alguns soldados da Bundeswehr chamavam brincando a pequena cidade de Kunduz de “Bad Kunduz”, com “Bad” sendo a palavra em alemão concedida oficialmente a cidades spa. Mas os dias pacatos de Kunduz, onde um grande número de soldados alemães está estacionado, há muito são coisa do passado. No mínimo, a tranquilidade acabou em 19 de maio de 2007. Naquele dia, três soldados alemães foram mortos por um homem-bomba enquanto tentavam comprar refrigeradores em um mercado local. Oito civis afegãos também morreram no primeiro ataque mortal voltado deliberadamente contra os alemães na região.

Em um “relatório de ameaça” datado de 31 de maio de 2007, tropas alemãs com sede em Kunduz relataram sobre a situação geral após outro ataque suicida. “Diferente de todas as expectativas do Comando Regional do Norte, os ataques dos insurgentes em Kunduz estão prosseguindo como previsto pela Equipe de Reconstrução Provincial de Kunduz e mencionado várias vezes antes”, declara o documento alemão, acrescentando que mais ataques, particularmente contra tropas da ISAF, “são altamente esperados”.

Os soldados parecem ter sido corrigidos para sentirem que estavam sob estado de sítio. Os documentos que foram obtidos envolvem principalmente os chamados “relatórios de ameaça”, milhares de cenários de risco e alertas concretos sobre os ataques planejados. Esses relatórios fornecem um quadro mais claro da deterioração da situação de segurança no norte do Afeganistão do que a informação fornecida pelo governo alemão ao Parlamento federal, o Bundestag, que ordena o envio do Bundeswehr ao exterior. Os postos de controle da polícia são constantemente atacados ou são alvos de tiros, patrulhas são alvo de emboscadas mortais e bombas de estrada explodem.

Eles também mostram quanto o norte do Afeganistão deteriorou para próximo de uma nova guerra civil e quão pouco os alemães realizaram durante sua presença no Hindu Kush.

O relatório de situação confidencial da região no leste do Afeganistão parece inicialmente uma transcrição de rotina: “17 de outubro de 2009: Aproximadamente às 13h o ANA (Exército Nacional Afegão) recebeu inteligência de que aproximadamente 20 insurgentes estavam se movimentando ao sul de sua posição no wadi (leito seco de rio). Aproximadamente às 14h o Raven foi lançado e voou diretamente para FB. Nós não observamos nenhum inimigo no wadi”. Mas então problemas foram detectados no voo do Raven, uma aeronave de reconhecimento não-tripulada americana. “Enquanto fazia a volta, aproximadamente a 300 membros da FB (base de fogo) – a ave repentinamente perdeu altitude e caiu”, declara o relatório.

Então, a situação ficou agitada: “Nós tentamos imediatamente enviar uma patrulha da FB para proteger a ave, e preparar uma patrulha de 6 americanos (soldados) 40 ANA (soldados afegãos)... e pedimos CCA (cobertura área) imediata para vigilância do local do acidente e tentar obter imagem do Raven. Durante preparação da SP (condução de uma patrulha de busca), o ANA ficou temeroso e decidiu que faria a patrulha desmontada”.

No final, os soldados partiram para procurar a aeronave que caiu, mas tiveram que voltar porque insurgentes já estavam esperando pela oportunidade de uma emboscada aos soldados enquanto tentassem resgatar a aeronave.

Falhas de sistema, nos computadores e erro humano

De fato, os memorandos secretos revelam as desvantagens de uma arma que tem sido elogiada pelos militares americanos como uma panaceia, uma opinião partilhada pelo presidente. Em seu pouco tempo no cargo, Barack Obama já lançou o dobro de missões com aeronaves não-tripuladas do que as ordenadas pelo seu antecessor, o aparentemente beligerante George W. Bush.

A assassina não-tripulada pode voar por mais de 20 horas e matar à velocidade de um raio. Mas elas nem sempre são confiáveis. De acordo com relatórios oficiais, 38 aeronaves Predator e Reaper caíram enquanto estavam em missões de combate no Afeganistão e no Iraque, enquanto outras nove caíram durante os voos de teste em bases militares nos Estados Unidos. Cada acidente custa ao governo entre US$ 3,7 milhões e US$ 5 milhões.

Os relatórios de acidente do Departamento de Defesa americano mostram que falhas no sistema, no computador e erros humanos são ocorrências comuns durante as missões das aeronaves não-tripuladas. Parece que os problemas sérios foram ignorados por causa da necessidade das aeronaves serem empregadas o mais rapidamente possível. A demanda pela nova arma era intensa após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 e o início apressado da invasão ao Afeganistão.

“As aeronaves não estavam prontas para entrar em combate”, diz Travis Burdine, gerente Força-Tarefa para Sistemas de Aeronaves Não-Tripuladas da Força Aérea. “Nós não tivemos tempo para resolver os problemas.” A declaração de Burdine é apoiada por relatos nos diários de guerra. Na verdade, os assassinos silenciosos pareciam ter um monte de defeitos.

Não são apenas os custos causados por esses acidentes que preocupam os militares americanos. Mesmo as aeronaves de reconhecimento menores possuem tecnologia de informática complexa – avanços que os militares não querem que caia em mãos inimigas. Tanto os Reapers quanto os Predadores têm uma chamada função para “zerar”, que permite que os dados sejam apagados remotamente. Infelizmente, esse recurso às vezes falha. E com medo de que informações importantes possam cair nas mãos do Taleban, cada acidente com aeronave não-tripulada exige operações de resgate elaboradas e perigosas.

Os Interserviços de Inteligência (ISI), o serviço secreto do Paquistão, inicialmente ajudou a formar e implantar o Taleban no Afeganistão, após este mergulhar em uma guerra civil fratricida e amargo entre os mujahedeen, que prevaleceram sobre os soviéticos e forçaram sua retirada. Apesar de todas as garantias dos políticos paquistaneses de que os antigos laços seriam cortados, o país ainda segue uma política ambígua na região – servindo ao mesmo tempo como aliado dos Estados Unidos e dando apoio aos inimigos destes.

Há uma abundância de novas evidências para apoiar esta tese. Os documentos mostram claramente que a agência de inteligência paquistanesa é a cúmplice mais importante do Taleban fora do Afeganistão. A guerra contra as forças de segurança afegãs, os americanos e seus aliados da ISAF ainda está sendo conduzida a partir do Paquistão.

O país é um importante refúgio seguro para as forças inimigas – e serve como base para lançamento de suas missões. Novos recrutas para o Taleban atravessam a fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão, incluindo os temidos combatentes estrangeiros, entre eles árabes, tchetchenos, uzbeques, uigures e até mesmo muçulmanos europeus.

De acordo com diários da guerra, emissários dos ISI estão presentes quando os comandantes insurgentes realizam conselhos de guerra – e até mesmo dão ordens específicas para realização de assassinatos. Entre eles estavam as ordens para tentar assassinar o presidente afegão, Hamid Karzai. Por exemplo, um relatório de ameaça datado de 21 de agosto de 2008 alertou: “O coronel Mohammad Yusuf dos ISI instruiu o oficial taleban Maulawi Izzatullah para que cuide do assassinato de Karzai”.

O ex-chefe de inteligência do Paquistão, o general Hamid Gul, desempenha um papel proeminente nos documentos dos ISI. Depois deixar o cargo, Gul passou a imagem na imprensa ocidental de ser uma espécie de propagandista do Taleban. Nos documentos, Gul é retratado como uma importante fonte de ajuda ao Taleban e até mesmo, em um relatório, como um “líder” dos insurgentes. Um relatório de ameaça de 14 de janeiro de 2008 afirma que ele coordenou o seqüestro planejado de funcionários da ONU na Estrada 1, entre Cabul e Jalalabad.

Os memorandos declaram que Gul ordenou ataques suicidas e também descrevem o ex-chefe de inteligência como um dos mais importantes fornecedores de armas para o Taleban. Um relatório menciona um comboio de 65 caminhões carregados de munições que Gul supostamente preparou para o Taleban. Outro afirma que os ISI entregaram 1.000 motocicletas para os Haqqanis, uma família liderada pelo senhor da guerra Sirajuddin Haqqani, que –juntamente com o Taleban e Hekmatyar– estão entre os maiores oponentes das forças ocidentais no Afeganistão. Outro menciona 7 mil armas que foram enviadas para a província de fronteira de Kunar, incluindo rifles, morteiros e foguetes Strella.

Ainda assim, mesmo aqueles que redigiram os relatórios não sabem ao certo de sua veracidade. Este tipo de incerteza é frequente nos documentos. Elas revelam a grande fraqueza da estratégia de comunicação americana.

Falando sobre as facetas do Paquistão, Rhodes, o funcionário da Casa Branca, respondeu: “O status quo não é aceitável, precisamente o motivo para os Estados Unidos se concentrarem tanto neste desafio. O Paquistão está se movendo na direção certa, mas é preciso fazer mais. Os santuários para os grupos extremistas violentos dentro do Paquistão continuam a representar uma ameaça intolerável para os Estados Unidos, ao Afeganistão e ao povo paquistanês, que sofreram muito com o terrorismo. O governo paquistanês – e os serviços militares e de inteligência do Paquistão– deve dar continuidade à sua mudança de estratégia contra os grupos extremistas violentos dentro das suas fronteiras e permanecer na ofensiva contra eles”.

As agências de inteligência dos Estados Unidos estão se afogando em um mar de dados. Temendo a repetição dos erros de inteligência que ocorreram antes do 11 de Setembro, os analistas parecem estar relatando cegamente cada mínimo detalhe.

Especialistas em segurança vêm reclamando há algum tempo de que esses inúmeros relatos se concentram em excesso nas opiniões e movimentos do inimigo –neste caso, o Taleban no Afeganistão.

Analistas demais e voos de reconhecimento demais parecem estar preocupados em esboçar a hierarquia das redes dos insurgentes e criar listas de inimigos que devem ser mortos ou capturados. Agentes da inteligência estão constantemente coletando depoimentos de informantes locais, cuja avidez em agradar os americanos muitas vezes supera a sua confiabilidade.

No entanto, os problemas mais graves são muitas vezes negligenciados: a proteção dos civis afegãos, a análise do ambiente político e a busca por uma solução para este conflito interminável.

Uma coisa, porém, é certa. Estes milhares de documentos secretos indicam que, após quase nove anos de guerra, uma vitória no Hindu Kush parece mais distante do que nunca.

Tradução: George El Khouri Andolfato


Texto do Der Spiegel, republicado no UOL.

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terça-feira, dezembro 15, 2009

Checkpoint: Bagram

Afegãos descrevem a vida na "prisão negra" dos EUA

Cruz Vermelha não tem acesso aos detentos do local

Por ALISSA J. RUBIN

CABUL, Afeganistão - Uma prisão militar dos EUA no Afeganistão continua mantendo detentos, às vezes por várias semanas, sem acesso ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), segundo investigadores de direitos humanos e ex-presos da Base Aérea de Bagram.
O local, conhecido pelos detentos como "prisão negra", consiste em celas individuais de concreto, sem janelas, iluminadas apenas por lâmpadas acesas 24 horas por dia. Nas entrevistas, ex-detentos disseram que seu único contato humano se dava em dois interrogatórios diários.
"A prisão negra era um local perigoso e temível", disse Hamidullah, comerciante de autopeças em Candahar, que contou ter sido levado para lá em junho. "Eles não deixam que funcionários do CICV ou outros civis vejam ou se comuniquem com as pessoas mantidas ali. Como eu não sabia que horas eram, não sabia quando rezar."
A operação da prisão ilustra a tensão entre a meta do presidente dos EUA, Barack Obama, de melhorar as condições carcerárias, tão condenadas no governo Bush, e seu desejo declarado de dar aos comandantes militares maior margem de manobra para agirem. Obama assinou em janeiro uma ordem para eliminar as prisões clandestinas de sua agência de inteligência (CIA), mas isso não fechou a prisão de Bagram, operada pelas forças militares de Operações Especiais.
Ainda em meados deste ano, militares diziam que a prisão afegã e uma similar na Base Aérea de Balad, no Iraque, estavam sendo usadas para o interrogatório de presos de alto valor. E, recentemente, autoridades disseram que não há planos para fechá-las.
Em agosto, o governo limitou a duas semanas o tempo que os detentos poderiam passar nas prisões militares. Antes, os militares podiam obter prorrogações.
Os presos entrevistados foram mantidos por mais tempo, mas antes que a nova política entrasse em vigor. Hamidullah (que, como muitos afegãos, usa um só nome) foi libertado em outubro, após cinco meses e meio de prisão, sendo entre cinco e seis semanas na prisão negra, segundo ele.
Dois dos presos foram capturados antes da posse de Obama, mas outro foi detido em junho deste ano. Os três acabaram sendo libertados sem acusações. Nenhum disse ter sido torturado, mas afirmaram ter escutado sons de abusos, e certamente se sentiram humilhados e maltratados. "Eles batiam em outras pessoas na prisão negra, mas não em mim", disse Hamidullah. "Mas o problema é que não me deixavam dormir. Havia uma gritaria para que não se pudesse dormir."
Outros, porém, fizeram relatos de abusos no local, inclusive dois adolescentes afegãos que disseram ao jornal "Washington Post" que foram submetidos a agressões e humilhações pelos carcereiros norte-americanos.
Bryan Whitman, porta-voz do Departamento da Defesa, disse, em 28 de novembro, que os militares rotineiramente verificam acusações de abusos a detentos e que estão checando se os dois adolescentes que falaram ao "Post" haviam estado detidos.
Sem comentar especificamente sobre a prisão de Bagram, que ainda é considerada sigilosa, Whitman afirmou que a política do Pentágono exige que todos os detentos sob custódia norte-americana no Afeganistão sejam tratados de forma humana e de acordo com o direito internacional e dos EUA.
Os três ex-detentos entrevistados pelo "New York Times" se queixaram de continuarem presos por meses após o fim dos interrogatórios intensivos, sem saberem por quê.
A prisão negra é separada do centro de detenção de Bagram, que é maior e atualmente abriga cerca de 700 presos, a maioria em celas que acomodam 20 homens cada, e que ficou célebre para a opinião pública afegã como um símbolo de abusos. Esse centro será fechado até o começo de 2010, e os presos serão transferidos para uma nova prisão, ainda maior, como parte dos esforços do governo para melhorar as condições em Bagram.
Especialistas em direitos humanos dizem que a existência de uma prisão onde os detentos não têm contato com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha nem com suas famílias contradiz a iniciativa do governo Obama para melhorar as condições carcerárias.
"Manter as pessoas no que parece ser uma detenção incomunicável vai na contramão do compromisso do governo com uma maior transparência, responsabilidade e respeito pela dignidade dos afegãos", disse Jonathan Horowitz, pesquisador de direitos humanos do Open Society Institute.
Horowitz afirmou que "as necessidades da guerra exigem que os EUA detenham pessoas, mas há limites para como detê-las".


Colaborou Eric Schmitt, em Washington

Texto do The New York Times, reproduzido na Folha de São Paulo, de 7 de dezembro de 2009.


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quarta-feira, setembro 23, 2009

Prisão de Bagram: a Guantánamo esquecida no Afeganistão

Prisão de Bagram: a Guantánamo esquecida no Afeganistão



Matthias Gebauer, John Goetz e Britta Sandberg


O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, manifestou-se contra o abuso de prisioneiros por parte da Agência Central de Inteligência (CIA) e quer fechar a prisão de Guantánamo. Mas ele tolera a existência da prisão militar de Bagram, no Afeganistão, onde mais de 600 pessoas estão encarceradas sem nenhuma acusação formal. Segundo um dos promotores militares, comparada a Bagram, Guantánamo parece "um bom hotel".

Raymond Azar foi levado a força para Bagram em um dia tranquilo em Cabul. Não houve nenhum ataque e o sol brilhava.

Azar, que nasceu no Líbano, é gerente de uma companhia de construção. Ele seguia para Camp Eggers, a base militar norte-americana próxima ao palácio presidencial, quando dez agentes armados do Birô Federal de Investigação (FBI) subitamente o cercaram.


Os homens, todos usando coletes a prova de balas, algemaram-no, amarraram-no e o empurraram para dentro de um automóvel utilitário esportivo (SUV). Duas horas depois, eles deixaram Azar na prisão militar de Bagram, que fica 50 quilômetros a nordeste de Cabul.

Conforme Azar contou mais tarde, ele foi obrigado a permanecer sentado durante sete horas com as mãos e os pés amarrados a uma cadeira. Ele passou a noite em um contêiner de metal frio, e ficou 30 horas sem receber nenhum alimento. Azar alegou que militares norte-americanos lhe mostraram fotos da sua mulher e dos quatro filhos, e lhe disseram que, se ele não cooperasse, jamais tornaria a ver a família. Ele disse ainda que foi fotografado nu e que depois lhe deram um macacão para vestir.

"Necessidade desse tipo de lugar"
Naquela data, 7 de abril de 2009, o presidente Barack Obama estava no cargo havia exatamente 77 dias. Pouco após a cerimônia de posse, Obama ordenou o fechamento do centro de detenção da Baía de Guantánamo e mandou a CIA abandonar as suas prisões secretas clandestinas, os chamados "black sites" ("locais negros"). Ele desejava acabar com o legado sombrio dos anos Bush - não deveria haver mais torturas, operações secretas para sequestros de suspeitos de terrorismo e as chamadas "renditions" (transferência de presos para prisões clandestinas em outros países, nos quais os detentos são frequentemente torturados).

Pelo menos essa foi a promessa de Obama. Ele não mencionou Bagram nos seus discursos.

Azar estava em Cabul a negócios. A sua companhia assinara contratos com o Pentágono no valor de US$ 50 milhões (34 milhões de euros, R$ 90,8 milhões) para obras de reconstrução no Afeganistão. Em 8 de abril, Azar foi colocado em um jato Gulfstream e mandado para o Estado de Virgínia, nos Estados Unidos, para ouvir acusações formais. Ele foi acusado de ter fornecido propinas ao seu contato no exército dos Estados Unidos a fim de garantir que os contratos militares seriam concedidos à sua companhia, que mais tarde foi considerada culpada de praticar corrupção.

Foi um caso clássico de corrupção, e não aquele tipo de crime devido ao qual um suspeito costuma ser enviado para uma prisão militar. Ninguém é capaz de explicar por que Azar foi levado para Bagram, onde as forças armadas dos Estados Unidos o trataram como um suspeito de terrorismo e, ao fazerem isso, proporcionaram a ele o vislumbre de um mundo que elas normalmente preferem manter secreto.

"Bagram é uma segunda Guantánamo que foi esquecida", afirma o especialista em direito militar norte-americano Eugene Fidell, professor da Faculdade de Direito da Universidade Yale. "Mas, aparentemente, continua havendo a necessidade desse tipo de lugar, mesmo durante o governo Obama".

"Desde o início Bagram já era pior do que Guantánamo", afirma Tina Foster, advogada de Nova York, que trabalhou em vários casos defendendo os direitos de detentos em tribunais dos Estados Unidos. "Bagram sempre foi uma câmara de torturas".

E o que diz Obama? Nada. Ele nunca menciona Bagram nos seus discursos. Quando fala sobre os maus tratos dispensados pelos Estados Unidos a detentos, ele só se refere a Guantánamo.

Localização sigilosa
O centro de detenção de Bagram, atualmente a maior prisão militar norte-americana fora dos Estados Unidos, não está assinalada em nenhum mapa. Na verdade, a sua localização precisa, em algum lugar na periferia da enorme base aérea a nordeste da capital afegão, é sigilosa. Ela consiste de dois prédios cor de areia que lembram hangares de aeronaves, rodeados por altos muros de concreto e por lonas com pintura verde de camuflagem. A instalação foi construída em 2002 como uma prisão temporária em uma antiga base aérea soviética.

Atualmente, os dois prédios contêm grandes celas, cada uma com espaço para 25 a 30 prisioneiros. A prisão tem capacidade para até mil detentos. Os presos dormem em colchonetes, e há um vaso sanitário atrás de uma cortina branca em cada cela. Uma obra de ampliação das instalações no valor de US$ 60 milhões (R$ 109 milhões) deverá ser concluída até o final do ano.

Ao contrário de Guantánamo, Bagram fica no meio da zona de guerra afegã. Mas nem todos os detentos foram capturados em áreas de combate. Muitos suspeitos de terrorismo vieram de outros países e foram transportados para Bagram para serem interrogados após a captura. Desde que a prisão militar entrou em operação, todos os detentos que lá estiveram foram
classificados de "combatentes inimigos", e não de prisioneiros de guerra, uma classificação que permitiria que ficassem sujeitos às normas da Convenção de Genebra


O mais famoso prisioneiro temporário de Bagram foi Khalid Sheikh Mohammed, o auto-proclamado arquiteto dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Após ter sido detido no Paquistão, Mohammed foi levado inicialmente para Bagram, onde ficou três dias, e a seguir foi enviado para uma prisão secreta na Polônia antes de ser mandado para Guantánamo. Ele disse a membros da Cruz Vermelha que, no Afeganistão, foi espancado, dependurado por correntes presas às suas mãos e sexualmente humilhado. "Me obrigaram a deitar no chão. Introduziram um tubo no meu ânus e injetaram água dentro de mim".

"Tendo visitado Guantánamo várias vezes, acredito que, comparada a Bagram, Guantánamo parece um 'bom hotel'", diz o promotor militar Stuart Couch, que teve acesso ao interior de ambas as instalações. "Em Bagram os homens não parecem ter permissão para se locomoverem. Eles sentam-se em filas no chão. O lugar tem o odor da 'gaiola dos macacos' de um jardim zoológico".

Privação de sono e humilhação sexual
Desde o início, Bagram ficou famosa pelas formas brutais de tortura lá empregadas. Indivíduos que lá estiveram detidos contam ter sido submetidos a privação de sono, espancamentos e várias modalidades de humilhação sexual. Em alguns casos, um interrogador colocava o pênis na face do detento enquanto este era questionado. Outros presos foram estuprados com pedaços de madeira e sofreram ameaças de serem submetidos a sexo anal.

Omar Khadr, um detento canadense que à época tinha 15 anos de idade, afirma que os militares o usaram como um 'esfregão vivo'. "A polícia militar jogava óleo de pinho no chão e em mim. E, a seguir, me colocavam deitado de bruços, com as mãos e os pés algemados juntos para trás, e me arrastavam para frente e para trás sobre uma mistura de urina e óleo de pinho no chão".

Pelo menos dois homens morreram durante a prisão. Um deles, um motorista de táxi de 22 anos chamado Dilawar, ficou suspenso no teto pelos pulsos durante quatro dias, tendo sido espancado repetidamente nas pernas, durante o período, por militares norte-americanos. No relatório da autópsia, um médico militar escreveu que os tecidos da perna do rapaz haviam se transformado basicamente em "uma pasta". Os interrogadores já sabiam - e mais tarde disseram isso em um depoimento - que não havia nenhuma prova contra Dilawar.

Segundo uma investigação militar interna dos casos de abusos cometidos contra prisioneiros na prisão Abu Ghraib, no Iraque, que geraram uma indignação internacional quando vieram a público em 2004, as práticas na instalação iraquiana foram inspiradas no tratamento recebido pelos detentos de Bagram.

Centenas de detentos inocentes
Até hoje, praticamente não há fotos do interior de Bagram, e os jornalistas jamais tiveram acesso ao centro de detenção. Embora os números exatos sejam desconhecidos, acredita-se que haja cerca de 600 detentos em Bagram, ou quase o triplo do número de prisioneiros que encontram-se atualmente em Guantánamo. Segundo um relatório do Pentágono de 2009, que ainda não foi oficialmente publicado, 400 dos detentos de Bagram são inocentes que poderiam ser libertados imediatamente.

Os detentos de Bagram ainda não têm direito a um advogado, o que significa que não contam com recursos legais contra a detenção e tampouco com a oportunidade de prestar depoimentos sobre os seus casos. Alguns estão lá há anos, sem saber por que.

Obama anunciou novas diretrizes para o tratamento dos detentos de Bagram, que exigiriam que um militar norte-americano fornecesse assistência a cada detento - não como advogado, mas como uma espécie de conselheiro individual. A seguir, esse militar poderia revisar as evidências e prestar um depoimento sobre o caso pela primeira vez. Ele poderia ainda solicitar que um comitê revisor examinasse o caso.

Os piores abusos
No entanto, a advogada Tina Foster acha que a nova iniciativa é apenas uma medida cosmética. "Não existe absolutamente nenhuma diferença entre as posições do governo Bush e as do governo Obama em relação aos direitos dos detentos de Bagram", disse ela durante uma entrevista a "Der Spiegel" no seu escritório no bairro novaiorquino de Queens.

Foster, uma mulher pequena de 34 anos, com olhos escuros e cabelos negros, trabalhou em casos de detentos de Guantánamo como advogada do Centro de Direitos Constitucionais, uma instituição de Nova York. Isso foi antes de ela descobrir que o piores abusos contra prisioneiros haviam ocorrido em Bagram, muito antes de os detentos terem chegado a Guantánamo.

Desde 2005, Foster trabalha exclusivamente com casos de Bagram. Ela já atuou em tribunais para solicitar habeas corpus para três detentos de Bagram. Normalmente, todo prisioneiro tem direito a habeas corpus, o que proporcionaria ao indivíduo a oportunidade de pedir a um tribunal dos Estados Unidos que investigasse as razões pelas quais foi preso.

"Esse capítulo feio da história norte-americana"
No início de abril deste ano um juiz deu parecer favorável à petição de Foster, argumentando que, como os três clientes dela, dois iemenitas e um tunisiano, não haviam sido "capturados em uma situação de campo de batalha" no Afeganistão, tendo sido, em vez disso, trazidos de um outro país para Bagram, eles também tinham direitos garantidos pela constituição dos Estados Unidos. "Foi um enorme sucesso", diz Foster.

Na segunda-feira (21), o Departamento de Justiça dos Estados Unidos submeteu um memorando de 64 páginas ao tribunal de apelação, recorrendo da decisão. Os advogados do Departamento de Justiça argumentam que, como prisão militar em uma zona de combate, Bagram constitui-se em um caso especial.

Foster, que apoiou Obama durante a campanha e voltou nele, está desapontada com o seu antigo ídolo. "Quando ouvi a declaração dele no sentido de fechar Guantánamo, dei um suspiro de alívio achando que talvez esse capítulo extremamente feio da história norte-americana fosse finalmente chegar ao fim", conta a advogada. "Infelizmente, desde então o governo Obama fracassou completamente no que se refere a implementar a mudança que prometeu".

Deixado de pé na neve
Foster pretende continuar lutando por essa causa, ainda que um dos seus clientes, cujo depoimento tem um papel proeminente no seu caso, esteja morto. Jawed Ahmad, conhecido como Jojo Yazemi, era um jornalista que trabalhava no Afeganistão para uma estação de televisão canadense. Ele tinha 22 anos quando foi preso em outubro de 2007.

Os norte-americanos acusaram-no de manter contato com o Taleban. Eles encarceraram Yazemi em Bagram, onde ele tornou-se simplesmente mais um "combatente inimigo" - o detento número 3.370. Eles o deixaram de pé na neve por seis horas, espancaram-no, ameaçaram-no e o submeteram a privação de sono durante semanas. Foi só quando colegas jornalistas de Nova York deram início a uma campanha na mídia em apoio a Yazemi que ele foi libertado - após 11 meses de prisão e sem nenhuma explicação sobre o motivo para a sua detenção.

Apenas seis meses após a sua libertação, homens armados dirigindo uma picape Toyota, o tipo de veículo preferido por vários talebans, mataram Yazemi a tiros em Kandahar. "Aquele foi um dos momentos mais terríveis da minha vida", diz Tina Foster. "Ele era uma grande pessoa e um amigo". Ele era também uma testemunha importante de Foster no seu processo contra Bagram.

Tradução: UOL


Texto da Der Spiegel, no UOL.

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terça-feira, agosto 25, 2009

Após oito anos de intervenção internacional, a discriminação das afegãs é semelhante à da época do Taleban

As mulheres afegãs são vítimas de uma mentalidade medieval. Não existem leis nem justiça, só a tradição e a vontade inapelável de homens embrutecidos por 30 anos de guerras, que se amparam no nome de Deus para exercer a violência. Em muitas áreas rurais raspa-se o cabelo das meninas durante a celebração dos casamentos, na esperança de que sua feiúra as salve de uma violação, muitas vezes por parte de um familiar. Oito em cada dez mulheres sofrem violência doméstica e 60% são obrigadas a se casar antes dos 18 anos, segundo dados da ONU e da Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão. O presidente Hamid Karzai, financiado pela comunidade internacional - incluindo a Espanha -, aprova leis que permitem que os maridos xiitas castiguem suas esposas deixando-as sem comida se estas não os satisfizerem sexualmente.

"A burqa não é o problema, se é ela quem decide usá-la", afirma Fatana Ishaq Gailani, prêmio Príncipe de Astúrias da Concórdia em 1998 e presidente de uma ONG que defende seus direitos. "O grande problema das mulheres afegãs é o tratamento desumano que recebem. Ninguém as protege da violência. Nem o governo nem a comunidade internacional fizeram nada em oito anos para mudar a situação. É impossível condenar alguém por violação; os juízes liberam os acusados depois do pagamento de um suborno. A mulher afegã quase não tem acesso à educação, e nas áreas rurais vive em condições de extrema pobreza."

Faima tem 23 anos, é de Cabul e teve sorte: conseguiu terminar o ensino secundário, algo vetado a 95% das meninas que iniciam a escola. Aguarda sua vez em uma sala do centro ortopédico que o Comitê Internacional da Cruz Vermelha tem na capital desde 1988. É para seu filho Rahnan, que tem uma malformação no pé. "Não gosto da burqa. Sinto-me em uma prisão e embaixo faz muito calor. O hijab [lenço] é a peça que minha religião exige e que eu uso na cabeça. Muita gente pensa assim em Cabul, mas sei que nas províncias é diferente. Lá muitas mulheres têm de usar a burqa à força."

Salima é uma delas. Vem da província de Takhan, no norte, e usa a burqa erguida sobre o rosto. No início se nega a conversar. Diz que precisa da autorização de seu marido. Com a ajuda de uma das fisioterapeutas, concorda, cobrindo a boca com o tecido: "Ninguém me obriga a usá-la. Embaixo dela me sinto mais segura. Não gosto que os homens me olhem na rua".

Malalai Joya tem 35 anos e é uma das 64 deputadas do Parlamento, mas não pode ir ao seu assento, porque foi expulsa apesar de a lei não contemplar essa possibilidade. Está ameaçada de morte e vive na clandestinidade. Em seu caso, a burqa é um seguro de vida. "A maioria de nossos políticos e parlamentares são narcotraficantes e criminosos de guerra que deveriam ser detidos e levados ao Tribunal Internacional de Justiça de Haia", explica em um de seus refúgios. Opiniões como esta, que ela expressou na Loya Jirga, a Grande Assembléia, em 2003, a colocaram na mira de muitas armas.

"A situação da mulher no Afeganistão é um inferno", prossegue. "Muitas optam pelo suicídio para escapar da violação legalizada na qual se transformaram muitos casamentos. Não podem sair sem autorização de seus maridos. Nem estudar. Eu vivo em um país de misóginos que temem a outra metade. Dizem que somos 25% dos deputados, mas é mentira: as mulheres mal podem falar no Parlamento, são insultadas e atacadas. A mim, por exemplo, tentaram violar. As coisas não mudaram desde que os taleban se foram e o país foi ocupado por tropas estrangeiras." Malalai mostra papéis e fotografias; é uma mulher dedicada a uma causa. "Sei que um dia me matarão. Já tentaram cinco vezes, mas não vou me render", diz.

Sdika tem 12 anos. Levanta-se às 6 da manhã e uma hora depois entra no colégio, mas às 10 tem de voltar para casa para ajudar a fazer o almoço. Gostaria de ser pintora. Desenha jardins e casas grandes. Devem ser seus sonhos de uma Cabul envolta em uma neblina de poeira e areia que machuca os olhos. Diz que não gosta da burqa. "Não a vestirei enquanto não me casar. Depois, dependerá do que meu marido decidir."

A deputada Fawzeja Kofi se queixa de que os candidatos à presidência não deram atenção aos problemas das mulheres. Também acredita que a burqa não é o problema, mas a representação do problema. Acredita que os jovens e as novas tecnologias romperão o cerco. "Pouco mudou na qualidade de vida das mulheres desde a saída dos taleban. Aqui se mata a mulher por ser mulher. Só em Cabul há 60 mil viúvas que devem carregar o peso da casa e que não têm direitos. A única via é a educação, que 85% de mulheres analfabetas aprendam a ler e a exigir seus direitos. Temos um governo corrupto que a única coisa que fez foi legalizar a tradição. Vivemos em uma cultura da impunidade que nada tem a ver com a xariá [lei islâmica]."

Ramón Lobo
Enviado especial a Cabul (Afeganistão)

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Texto do El País, no UOL Notícias.

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terça-feira, janeiro 20, 2009

Meninas afegãs desafiam ataque terrível se recusando a suspender os estudos

Meninas afegãs desafiam ataque terrível se recusando a suspender os estudos

The New York Times

Dexter Filkins
Em Kandahar (Afeganistão)

Certa manhã há dois meses, Shamsia Husseini e sua irmã estavam caminhando pelas ruas lamacentas até a escola local de meninas, quando um homem encostou de moto ao lado de Shamsia e lhe fez uma pergunta que parecia comum.

"Vocês vão para a escola?"

Então o homem arrancou a burca da cabeça de Shamsia e borrifou ácido no rosto dela. Cicatrizes, irregulares e descoloridas, agora se espalham pelas pálpebras de Shamsia e grande parte de sua bochecha esquerda. Atualmente sua visão fica borrada, o que lhe dificulta a leitura.

Mas se o ataque com ácido contra Shamsia e 14 outras pessoas - alunas e professores - visava aterrorizar as meninas a permanecerem em casa, parece que ele fracassou completamente.

Hoje, quase todas as meninas feridas estão de volta à Escola para Meninas de Mirwais, incluindo Shamsia, cujo rosto foi tão gravemente queimado a ponto de ter sido enviada para o exterior para tratamento. Talvez ainda mais notável, foi o fato que quase todas as outras alunas nesta comunidade profundamente conservadora também voltaram - cerca de 1.300 ao todo.

"Meus pais me disseram para continuar indo a escola mesmo se fosse morta", disse Shamsia, 17 anos, em um pausa após a aula. A mãe de Shamsia, como quase todas as mulheres adultas na área, não sabe ler e nem escrever. "As pessoas que fizeram isso comigo não querem que as mulheres tenham instrução. Eles querem que continuemos estúpidas."

Nos cinco anos desde que a Escola para Garotas de Mirwais foi construída aqui pelo governo japonês, ela parece ter provocado uma espécie de revolução social. Enquanto o Taleban aperta seu laço ao redor de Kandahar, as garotas vão para a escola toda manhã. Muitas delas caminham mais de três quilômetros desde suas casas de tijolos de barro no alto das colinas.

As garotas entram na escola murada, muitas delas vestindo trajes que cobrem da cabeça aos pés, conversando, se divertindo e rindo de formas que são inconcebíveis do lado de fora -para garotas e mulheres de qualquer idade. Mirwais não tem fornecimento regular de eletricidade, não tem água encanada e nem ruas pavimentadas. As mulheres são raramente vistas, e quando são elas aparecem em burcas que deixam seus corpos sem forma e tornam seus rostos invisíveis.

Logo, foi particularmente assustador em 12 de novembro, quando três pares de homens em motos começaram a rondar a escola. Uma das duplas usou um borrifador, outro uma pistola d'água e outra um jarro. Elas atingiram 11 meninas e quatro professores ao todo; seis foram parar no hospital. Shamsia foi quem sofreu o pior.

Os ataques pareciam ser obra do Taleban, o movimento fundamentalista que está lutando contra o governo e a coalizão liderada pelos americanos. Proibir as meninas de estudar foi um dos símbolos mais notórios do regime do Taleban antes de ser derrubado em novembro de 2001.

A construção de novas escolas e assegurar que as crianças -especialmente as meninas- as frequentassem era um dos principais objetivos do governo e dos países que contribuíram para a reconstrução do Afeganistão. Alguns dos estudantes na escola de Mirwais estão no final da adolescência ou já são jovens adultos, frequentando a escola pela primeira vez. Mas ao mesmo tempo, na guerra de guerrilha que se desdobra no sul e leste do Afeganistão, o Taleban transformou as escolas em um de seus principais alvos.

Mas quem exatamente esteve por trás do ataque com ácido é um mistério. O Taleban negou qualquer participação nisso. A polícia prendeu oito homens e, pouco depois, o Ministério do Interior divulgou o vídeo da confissão de dois deles. Um deles disse que foi pago por um oficial do Diretoria de Interserviços de Inteligência, a agência de inteligência paquistanesa, para realizar o ataque.

Mas em uma coletiva de imprensa na semana passada, Hamid Karzai, o presidente afegão, disse que não houve envolvimento paquistanês.

Uma coisa é certa: nos meses que antecederam o ataque, o Taleban ingressou na área de Mirwais e no restante dos arredores de Kandahar. Logo, cartazes começaram a aparecer nas mesquitas locais.

"Não deixe suas filhas irem à escola", dizia um deles.

Nos dias que se seguiram ao ataque, a Escola para Meninas de Mirwais permaneceu vazia; nenhum dos pais deixava suas filhas se aventurarem para fora de casa. Foi quando o diretor, Mahmood Qadari, foi trabalhar.

Após quatro dias olhando para salas de aula vazias, Qadari convocou uma reunião com os pais. Centenas compareceram à escola -pais e mães- e Qadari implorou para que permitissem o retorno de suas filhas. Após duas semanas, algumas poucas voltaram.

Então Qadari, cujas três filhas vivem no exterior, incluindo uma nos Estados Unidos, pediu o apoio do governo local. O governador prometeu um maior policiamento, uma ponte para atravessar uma estrada movimentada próxima e, mais importante, um ônibus. Qadari convocou outra reunião e disse aos pais que não havia mais motivo para manter suas filhas em casa.

"Eu lhes disse, se vocês não enviarem suas filhas para a escola, então o inimigo vence", disse Qadari. "Eu lhes disse para não cederem às trevas. Educação é a forma de melhorar nossa sociedade."

Os adultos de Mirwais não precisaram de muita persuasão. Nem o ônibus, nem a polícia e nem a ponte se materializaram, mas as meninas começaram a comparecer assim mesmo. Agora apenas duas dúzias de meninas perdem aulas regularmente; três delas são meninas que foram feridas no ataque.

"Eu não quero ver as meninas sentadas desperdiçando suas vidas", disse Ghulam Sekhi, um tio de Shamsia e de sua irmã, Atifa, 14 anos, que também foi queimada.

Apesar de toda a incerteza do lado de fora de seus muros, a escola de Mirwais está cheia de vida. Suas 40 salas de aula estão tão lotadas que aulas também são dadas no pátio em quatro tendas, doadas pela Unicef. O Ministério da Educação afegão também está construindo um prédio permanente.

Nos últimos dias a escola passou pelo período de provas. Em uma sala, uma aula de geografia, uma professora fazia uma série de perguntas enquanto suas alunas escutavam e escreviam as respostas no papel.

"Qual é a capital do Brasil?" perguntou a professora, chamada Arja, andando de um lado para outro.

"Agora, quais são suas maiores cidades?"

"Quantas vezes os Estados Unidos são maiores do que o Afeganistão?"

Em uma carteira na primeira fila, Shamsia, a garota com o rosto queimado, pensava nas perguntas enquanto escondia sua maior cicatriz com a mão. Ela se abaixou na direção do papel, esfregou os olhos e escreveu algo.

Os médicos disseram para Shamsia que seu rosto poderá precisar de cirurgia plástica para que tenha chance das cicatrizes desaparecerem. É um sonho distante: a aldeia de Shamsia não tem nem mesmo fornecimento regular de eletricidade e seu pai é inválido.

Após a aula, Shamsia se misturou com as outras garotas, circulando, rindo e brincando. Ela parecia não consciente de sua desfiguração, até começar a recontar o caso.

Ela disse: "As pessoas que fizeram isso não sentem a dor dos outros".

Tradução: George El Khouri Andolfato

Ela disse: Texto do The New York Times, no UOL.


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terça-feira, abril 01, 2008

Guerra Natural

A invasão dos EUA ao Iraque completa agora cinco anos. A guerra no Afeganistão já tem mais de seis. A proposta de orçamento militar do governo Bush para 2009 é de US$ 515 bilhões, um recorde na seqüência de aumentos reais de seus dois mandatos. Isso sem contar os créditos suplementares já aprovados para sustentar as duas guerras, um valor superior ao próprio orçamento proposto. Descontada a inflação, é um orçamento anual próximo do que foi gasto durante a Segunda Guerra Mundial. A política social mais agressiva proposta pelas candidaturas democratas diz respeito à universalização da saúde. Custaria a cada ano entre US$ 50/65 bilhões (Barack Obama) e US$ 110 bilhões (Hillary Clinton). Para proteger os proprietários mais pobres da crise imobiliária, Hillary Clinton propõe um fundo de crédito de US$ 1 bilhão. Obama prevê US$ 10 bilhões. Por aí já se vê o quanto essas duas guerras são decisivas também do ponto de vista do Orçamento dos EUA. Só que não são mais um tema central da campanha presidencial. As duas candidaturas democratas prometeram muito vagamente "trazer as tropas de volta". Não falam em prazos nem em números. O indicado republicano fala de sucesso e de vitória. O conservadorismo dos anos Bush pode ter sido neutralizado no momento. Mas os efeitos de seu governo serão sentidos por muito tempo ainda. E uma das armadilhas é justamente a da necessidade de orçamentos militares crescentes. A invenção da chamada guerra preventiva vem junto com ocupações longas e custosas. O grande êxito de Bush foi o de ter conseguido tornar naturais as guerras que promoveu. Lê-se todos os dias sobre bombas e mortes no Iraque e no Afeganistão como se lê sobre um terremoto em um lugar distante e desconhecido. O complexo militar dos EUA aprendeu bem a lição do Vietnã. Com um exército profissionalizado e estratégias para minimizar ao máximo as baixas, não é mais só o caso de entrar para vencer militarmente. Hoje, a superioridade tecnológica garante isso com relativa facilidade. O segredo é entrar em uma guerra para não sair. Nessa lógica, é fundamental manter frentes militares permanentes. Além de deixarem patente para o resto do mundo o próprio poderio, os Estados Unidos garantem com isso "campos de teste e de treinamento" para tropas e armamentos. Bush precisou do cataclismo do 11 de Setembro para instituir essa nova estratégia bélica. Vai ser preciso mais do que uma eleição presidencial nos EUA para conseguir desmontar a idéia de que guerras são coisas naturais.

Da Folha de São Paulo, visto no Depósito do Maia.

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