sábado, setembro 04, 2010

ONU documenta banho de sangue no Congo

ONU documenta banho de sangue no Congo


Mulheres e meninas foram estupradas. Homens foram massacrados. Refugiados foram assassinados com facões e paus. Um novo relatório da ONU descreve uma orgia de violência no Congo entre 1993 e 2003, documentando meticulosamente como a lei e a humanidade foram abandonadas. Ele também acusa Ruanda de atrocidades no Congo – algo que não foi bem recebido em Kigali.


O relatório tem mais de 500 páginas. É uma das investigações mais completas de crimes de guerra na história da ONU. Apesar de ainda não ter sido publicado, causou tensões diplomáticas sérias em Nova York, Congo e Ruanda.


Duas dúzias de inspetores examinaram meticulosamente os assassinatos em massa na República Democrática do Congo, entre 1993 e 2003. Eles avaliaram relatórios, assistiram vídeos e entrevistaram milhares de testemunhas. Eles conferiram tudo que foi considerado significativo. Uma prévia do relatório já vazou e documenta o horror.


Os investigadores descrevem como, por anos, grupos rebeldes patrocinados por Ruanda caçaram, torturaram e massacraram refugiados hutus no Congo, ou Zaire, como era chamado na época. Escolas, hospitais, campos de refugiados, crianças, mulheres, idosos – nada nem ninguém estava seguro das gangues assassinas dos dois lados. De forma alguma, os perseguidores de Ruanda eram os únicos a perpetrarem os crimes. O relatório descreve o enorme país como corrupto e podre, um lugar onde direitos humanos, justiça e valores humanitários perderam seu valor décadas atrás.


Conflitos étnicos pelo Congo


O declínio do país começou muito antes da Primeira Guerra do Congo de 1996 a 1998 e a derrubada e exílio do ex-ditador Mobutu Sese Seko, em 1997. No final de 1991, os congoleses da província rica em cobre de Katanga, no sul do país, começaram a perseguir, remover e matar pessoas que tinham migrado da região de Kasai. O conflito foi alimentado por Mobutu, que se sentiu ameaçado por muitos políticos de oposição de Kasai.


Comerciantes de Kasai tiveram o acesso negado aos mercados em Katanga, suas propriedades foram roubadas e eles foram perseguidos. No final do outono de 1992, cerca de metade dos moradores da cidade de Likasi, em Katanga, foram forçadas a sair, 60.000 pessoas no total. Migrantes de Kasai também foram expulsos da cidade mineira de Kolwezi, com a ajuda da polícia e autoridades locais.


As mesmas arbitrariedades ocorreram em outras províncias, algumas vezes promovidas pelos governadores. Conflitos entre grupos étnicos diferentes levaram à morte de mais de mil pessoas só em Katanga, algo que mal foi registrado na Europa ou nos EUA. Os conflitos logo se espalharam para a capital Kinshasa, onde Mobutu estava tentando com todas suas forças se segurar no poder. Migrantes de Kasai foram as principais vítimas, mas oponentes políticos também temeram por suas vidas.


Enquanto isso, em meados de 1990, no leste do país, rico em recursos, começou uma agitação contra os imigrantes tutsis de Ruanda e Burundi. Na província de Kivu do Norte, banyamasisi-tutsis já tinham sido vítimas de remoção forçada. Agora, a pressão estava crescendo contra os banyamasisi-tutsis em Kivu do Sul. Essa pressão aumentou porque, dois anos antes, milhões de refugiados de Ruanda, primariamente hutus, tinham fugido para o leste do Congo. Eram uma mistura de soldados e civis, assassinos e crianças, e todos tinham deixado Ruanda com medo dos tutsis vitoriosos e seu líder militar Paul Kagame buscarem vingança após o genocídio de 1994, quando 800.000 tutsis e hutus moderados foram assassinados por extremistas hutus em apenas 100 dias.


Assassinatos sistemáticos


Muitos se reorganizaram em campos de refugiados ao longo da fronteira e depois começaram a caçar os tutsis que vinham se estabelecendo no Congo por décadas. No final de setembro de 1996, os assassinatos sistemáticos de banyamasisi-tutsis começaram. O relatório da ONU os descreve em detalhes:


. No dia 29 de setembro de 1996, em Lueba, 78 km ao sul de Ivira, unidades do grupo étnico bembe mataram 152 civis banyamulenge, inclusive muitas mulheres e crianças, com a ajuda do exército do Zaire. Algumas das vítimas foram mortas por golpes de facão, outras foram queimadas em suas casas. Houve estupro em massa de mulheres e meninas.


. Neste momento, em Kivu do Norte, havia um inferno na Terra. Centenas de milhares de pessoas fugiam de suas casas. Milicianos tutsis e soldados de Ruanda invadiram campos de refugiados ao longo da estrada principal entre Goma e Rutshuru. Homens foram amarrados e mortos, mulheres violentadas, crianças surradas até a morte.


. Na noite do dia 29 de setembro e manhã do dia 30, unidades bembe mataram quase 100 civis banyamulenge perto da aldeia de Moboko. As vítimas eram sobreviventes do massacre de Lueba, ocorrido horas antes. Os milicianos disseram que iam levá-los de volta para Ruanda. Entretanto, enquanto as mulheres e crianças puderam deixar o país, os homens foram amarrados e jogados no lago Tanganica.


. No dia 21 de outubro, um banyamulenge foi morto em Uvira e sua cabeça foi carregada em um bastão pela cidade. Os perpetradores fizeram e usaram um colar com seus testículos.


. O chefe das forças armadas do Zaire acusou os banyamulenges, no dia 11 de outubro de 1996, de trabalharem com Ruanda para travar uma guerra contra o Zaire. O anúncio foi uma declaração oficial de caça aberta aos tutsis. Então, tutsis e banyamulenges, apoiados por soldados de Ruanda, começaram a avançar para o Congo, usando métodos igualmente brutais. Eles montaram bloqueios nas estradas e separaram os ruandeses e hutus de Burundi da multidão de refugiados. Centenas de hutus foram mortos ali mesmo, milhares de outros foram selecionados, aparentemente para serem enviados para Ruanda, mas foram assassinados ali perto.


. No dia 22 de novembro de 1996, centenas de refugiados foram amontoados no campo de Chimanga, a 71 km a oeste de Bukavu. Uma vaca foi morta, teoricamente para que tivessem forças para a longa marcha de volta para Ruanda. Quando os hutus começaram a se inscrever, os guardas em torno do campo abriram fogo, matando cerca de 500 a 800 refugiados.


. Na ponte de Ulindi, perto da cidade de Shabunda, os tutsis mataram 500 refugiados no dia 5 de fevereiro de 1997. O povo local teve que remover os corpos e restos da matança na ponte.


O relatório descreve sobriamente mais de 600 incidentes similares e para cada caso há testemunhas e provas. Os investigadores não se fiaram em boatos.


O relatório afirma que as pessoas foram “executadas às centenas, muitas vezes com armas pontiagudas”. Ele afirma que “a maioria das vítimas eram crianças, mulheres, idosos e doentes... que não impunham ameaça alguma às forças que os atacavam”. O relatório prossegue dizendo que “os ataques sistemáticos e amplos têm uma série de elementos agravantes, que provados diante de um tribunal, seriam classificados como crimes de genocídio”.


Não foram apenas os tutsis que colocaram de lado todos os padrões de humanidade em sua guerra de vingança contra os hutus no Congo. Os congoleses não se tratavam muito melhor. O relatório fornece evidências disso.


Quando os conflitos entre os povos hema e lendu escalaram na província de Ituri, em fevereiro de 2003, os hemas convidaram uma delegação lendu para conversas na aldeia de Sangi. O grupo lendu, que incluía mulheres, mal tinha chegado quando os hemas os atacaram com facões, facas e porretes. Alguns foram amarrados e assassinados na igreja local. Somente dois lendus sobreviveram. Os conflitos entre esses grupos étnicos também são detalhadamente documentados no relatório da ONU.


Ruanda ameaça retirar-se de missões da ONU


A versão oficial do relatório será divulgada em poucos dias, mas as primeiras reações às notícias da mídia, em Ruanda em particular, causaram grande inquietação. O governo de Kagame negou expressamente ter tomado parte em crimes que podem ser comparados a genocídios no Congo. Nos últimos meses, o governo até tentou impedir a publicação do relatório, ou ao menos mitigá-lo um pouco.


A ministra de relações exteriores, Louise Mushikiwabo, escreveu uma carta ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, na qual ameaçou terminar o envolvimento de Ruanda com a ONU e disse em particular que ia retirar tropas de paz de Ruanda de missões da ONU, por exemplo, na região de crise sudanesa em Darfur. E o porta voz do governo em Kigali disse que seria “imoral e inaceitável” para a ONU, “uma organização que não conseguiu impedir o genocídio em Ruanda”, agora acusar “o exército que impediu esse genocídio de cometer atrocidades na República Democrática do Congo”.


Ainda assim, Ruanda e sua história estão inextricavelmente ligadas com décadas de banho de sangue no Congo. Isso ficou novamente claro no início de agosto. Membros da milícia hutu de Ruanda, Fdlr, violentaram ao menos 179 mulheres perto de Walikale no Congo. As vítimas disseram que tinham sido estupradas entre duas e seis vezes cada uma. A violência tenebrosa continuou por vários dias.


Tradução: Deborah Weinberg



Notícia da Der Spiegel, republicada no UOL.


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quinta-feira, abril 01, 2010

Hoje na História: Tratado põe fim à Guerra dos Bôeres

Hoje na História: Tratado põe fim à Guerra dos Bôeres

No dia 31 de março de 1902, um tratado pôs fim à guerra de 30 meses entre os bôeres e os ingleses, no território que viria a ser a África do Sul. Os bôeres sempre se referiram ao conflito como a "Guerra de Libertação".

Os bôeres (de boer, que em holandês significa "camponês" e se pronuncia "bur"), também denominados africâners, são os descendentes dos holandeses e franceses instalados no século XVII na região do Cabo da Boa Esperança. Rudes e solidários, queriam preservar seus costumes e sua religião calvinista. Depois que os ingleses anexaram a região como a Colônia do Cabo, em 1814, migraram para o nordeste, assentando-se nos vales dos rios Vaal e Orange.

Em 1887, foi descoberto o maior campo de ouro do mundo em Witwatersrand (ou "The Rand", para os ingleses), a 50 quilômetros de Pretória. Milhares de colonos britânicos foram atraídos para a República do Transvaal, fundada pelos bôeres e anexada pela Inglaterra em 1877. A cidade de Johanesburgo, perto da área, cresceu vertiginosamente. Ao pé das minas, os pobresuitlanders (forasteiros), caçadores de fortuna britânicos que os bôeres (principalmente agricultores) acusavam de invasão, fizeram crescer bairros degradados. Os uitlandersrapidamente ultrapassaram em número os bôeres no Rand, mas permaneciam em minoria no Transvaal. Os Africâners, nervosos e receosos com a presença dos uitlanders, negaram a eles o direito de votar e taxaram a indústria do ouro pesadamente. Em resposta, os uitlanderspressionaram os proprietários da minas para derrubarem o governo bôere. Confiantes de que os bôeres seriam rapidamente derrotados, os britânicos tentaram precipitar a guerra.

Em setembro de 1899, o secretário colonial britânico, Joseph Chamberlain, enviou um ultimato exigindo direitos iguais para os residentes britânicos no Transvaal. O presidente do Transvaal, Paul Kruger, tendo certeza de que a guerra era inevitável, simultaneamente enviou o seu próprio ultimato a Chamberlain, dando 48 horas aos britânicos para retirarem as tropas da fronteira do Transvaal.

A guerra foi declarada em 12 de outubro de 1899, e os bôeres atacaram primeiro, invadindo a Colônia do Cabo e do Natal. Os bôeres estavam prontos para sitiar as cidades de Ladysmith, Mafeking (defendidas pela tropas de Robert Baden Powell, fundador do escotismo) e Kimberley.

O mês de dezembro daquele ano foi dificil para o exército britânico. No período que ficou conhecido como Semana Negra (10 a 15 de dezembro de 1899), os britânicos sofreram uma série de derrotas devastadoras. Os comandantes bôeres, Koos de la Rey e Piet Cronie, elaboraram um plano para abrir trincheiras para confundir os britânicos e dar aos seus artilheiros um grande alcance de tiro. O seu plano funcionou. Os britânicos sofreram várias derrotas até os reforços chegarem, em 14 de fevereiro de 1900, permitindo lançar contra-ofensivas. A reconquista de Mafeking, em 18 de maio de 1900, provocou grandes celebrações na Inglaterra. Os britânicos capturaram Bloemfontein, capital do Estado Livre de Orange, em 13 de março e Pretória, capital do Transvaal, em 5 de junho.

Observadores britânicos acreditavam que a guerra, por fim, tinha acabado. Contudo, os bôeres desencadearam uma campanha de guerrilha para atingir os abastecimentos e linhas de comunicação britânicas. Atacaram o sistema hidráulico de Bloemfontein, 40 quilômetros a leste da cidade, e emboscaram um pesado comboio do qual resultaram a morte de 155 ingleses, 117 vagões e 428 homens capturados. Uma das últimas batalhas formais foi a batalha de Diamond Hill, entre 11 e 12 de junho. Foi o ponto final nas operações militares e o passo seguinte para uma nova fase da guerra.

No total, a guerra custou cerca de 75 mil vidas – 22 mil soldados britânicos; de 6 a 7 mil combatentes bôeres e uns 20 mil africanos negros. O fim da rendição bôere aconteceu em março de 1902 e a guerra acabou com o Tratado de Vereeniging, no mesmo mês. O tratado criou a União da África do Sul (o que só ocorreria em 1910) e acabava com a existência do Transvaal e de Orange como repúblicas bôeres, anexando-as ao Império Britânico.

Texto originário do Operamundi.


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sexta-feira, julho 03, 2009

Lula será convidado de honra em cúpula da União Africana

Lula será convidado de honra em cúpula da União Africana

Presidente vem buscando apoio de africanos à candidatura a assento permanente no CS da ONU

DA REDAÇÃO

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva será o convidado de honra da próxima cúpula da União Africana (UA), que acontecerá de 1º a 3 de julho em Sirte, cidade natal do ditador líbio, Muammar Gaddafi, atualmente na presidência do bloco.
Também serão homenageados no evento o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e o da Liga Árabe, Amre Moussa.
Lula discursará na abertura da cúpula, que será focada em agricultura, e terá reuniões bilaterais com líderes africanos.
O convite a Lula não partiu de Gaddafi, mas do chefe do Executivo da UA, o gabonês Jean Ping. A ideia é coroar os acenos do presidente brasileiro em direção à África -será a décima viagem dele ao continente desde a posse, em 2003.
Desde então, o Brasil abriu ou reativou 16 embaixadas na África -uma delas em Adis Abeba, Etiópia, sede da UA. O total de representações brasileiras na região hoje é de 36.
O governo brasileiro também foi o idealizador da primeira Cúpula África-América do Sul, em 2006, na Nigéria.
No plano econômico, a África é hoje o quarto maior parceiro do Brasil, mas os países africanos são os principais beneficiários da intensificação dos laços.
De US$ 5 bilhões anuais em 2003, a corrente comercial saltou para cerca de US$ 26 bilhões no ano passado, com déficit de US$ 5 bilhões em favor dos membros da UA.
A aproximação com a África atende à ambição de angariar apoio à candidatura brasileira a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, que hoje tem 15 membros, dos quais cinco permanentes, com direito de veto.
O Brasil defende uma reforma do conselho para incluir seis novos membros permanentes -sendo dois países africanos- sem poder de veto.
O governo brasileiro avalia como crucial o apoio da UA, um bloco que pesa 52 votos na Assembleia Geral da ONU -o separatista Saara Ocidental não é considerado um país.
O bloco apoia o plano brasileiro, com a ressalva que os novos membros permanentes tenham poder de veto. O Brasil abriu mão da exigência.
Os africanos também estão divididos sobre que países devem ocupar os assentos que caberão à região, caso se concretize a expansão do conselho.

Notícia da Folha de São Paulo, de 26 de junho de 2009.

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sábado, novembro 29, 2008

Zimbábue à beira do colapso

Zimbábue está à beira do colapso, alerta África do Sul

DA REDAÇÃO

O ex-presidente dos EUA Jimmy Carter e o ex-secretário geral da ONU Kofi Annan pediram ontem uma intervenção da Comunidade Sul-Africana de Desenvolvimento (SADC) no Zimbábue.
Integrantes do "grupo de anciões" idealizado por Nelson Mandela para mediar a tentativa de formação de um governo de coalizão entre o ditador Robert Mugabe e o líder opositor Morgan Tsvangirai, eles tiveram visto para entrar no país negado no fim da semana passada.
O veto, em meio a uma epidemia de cólera no Zimbábue, causou reação da vizinha África do Sul, até agora principal obstáculo à ação internacional contra Mugabe.
"A situação ultrapassou o limite do esperar para ver", disse Jacob Zuma, favorito nas eleições presidenciais de 2009. Para o presidente Kgalema Motlanthe, o Zimbábue está à beira do colapso.

Texto da Folha de São Paulo, de 25 de novembro de 2008.


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quinta-feira, novembro 27, 2008

Um sacerdote africano do século 19

Um sacerdote africano do século 19

SÓ PODE ter sido trabalho de santo. Na semana em que Barack Obama elegeu-se presidente dos Estados Unidos, chegou às livrarias no Brasil "Domingos Sodré - Um Sacerdote Africano", do professor João José Reis autor do magistral trabalho sobre a revolta de 1835 dos escravos malês.
O livro conta a história da vida e da prisão de um sacerdote do candomblé que vivia em Salvador na segunda metade do século 19.
Vizinho de Castro Alves, foi acusado de feitiçaria e receptação de objetos roubados. Vestiu o uniforme de veterano da Guerra da Independência para ser levado à cadeia. Ficou cinco dias na cana e morreu em 1887, com uns 90 anos de idade.
Se a vida dos barões desfila em discursos, festas e panegíricos de um império de macaquice, a dos escravos sobrevive nos inquéritos policiais, nos arquivos eclesiásticos e, em alguns casos, nos inventários. Esse foi o mundo de Sodré desenterrado por Reis. A grandeza do trabalho está na reconstrução da vida e da cultura dos negros de Salvador. O professor teve paciência e sorte, pois apesar de tudo o sacerdote deixou mais rastro que Jim Robinson, o tataravô de Michelle Obama, que nem túmulo tem.
Domingos nasceu na Nigéria nos últimos anos do século 18 e chegou escravizado a Salvador no início do Oitocentos. Um viajante descreveu o movimento da cidade à época: "Tudo o que corre, grita, trabalha, tudo que transporta e carrega é negro".
Alforriado em 1836, Domingos viveu num sobrado da ladeira de Santa Tereza. Ao longo da vida comprou, vendeu e alforriou seis escravos. Lá foi preso, acusado de ser "o principal da ordem dos sortilégios e feitiços". Na sua casa foram confiscados objetos de culto, búzios e um exu. Entre as mágicas, sempre demonizadas pela imprensa, estavam receitas para "amansar patrão". (Um chocalho com ervas maceradas e um dente de onça, numa composição benigna, ou arsênico, na maligna.)
Além dos rituais, Domingos foi um operador da "juntas de alforria", uma caixa de poupança mantida pelos escravos. Eram fundos alimentados por contribuições semanais que complementavam a compra da liberdade.
Quando o negro sacava acima dos seus depósitos, ressarcia a junta com juros de 20% ao ano. Quitada a dívida, o alforriado podia continuar na junta, como investidor.
No Brasil do século 19 o preconceito e a violência da escravidão eram apenas uma parte da paisagem. Havia ainda restrições à propriedade e ao trabalho, bem como um sistema tributário concebido para escorchar os negros livres. Os sobrados onde viviam os libertos eram chamados de "quilombos".
A arqueologia de Reis socorre o Brasil do século 21, ensinando-o a olhar para o do 19. Felizmente, a história de hoje é conhecida em tempo real. A repórter Márcia Vieira revelou a existência de uma tese de doutorado da professora Andréia Clapp Salvador, da PUC-Rio, com uma comovente descrição das alegrias e vicissitudes dos alunos que entraram naquela universidade com o benefício de uma política de ação afirmativa. Alguns deles moravam longe e alugaram uma quitinete na vizinhança. Nela chegaram a pernoitar dez estudantes. Dividiam a comida do bandejão, as ofertas de emprego e os livros didáticos.
Tomara que a história dos negros da PUC não demore mais de um século para ser contada em livro.

Texto de Elio Gaspari, na Folha de São Paulo, de 12 de novembro de 2008.


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domingo, janeiro 06, 2008

A Violência no Quênia

O Quênia é um dos países mais desenvolvidos da África mas a imprensa está errada ao afirmar que era conhecido por sua estabilidade. O país passou por três surtos de violência étnica nos últimos 15 anos, e o atual sequer é o pior. As raízes do conflito estão na corrupção e no mau gerenciamento do Estado por parte de políticos da etnia dominante, os kikuyu.

O atual presidente, Mwai Kibaki, foi eleito em 2002 em substituição a quase 25 anos de ditadura de Daniel arap Moi. A vitória de Kibaki despertou muitas esperanças nas instituições de cooperação internacional, que investiram bastante no Quênia. Meus amigos nas fundações partidárias alemãs me contaram que apostaram muito em seu projeto de conciliação e combate à corrupção, mas que logo se decepcionaram com os resultados.

Kibaki havia se aliado a Raila Odinga, da etnia luo, e falado na necessidade de superar os conflitos étnicos. A parceria entre os dois durou poucos anos e desde então se tornaram rivais. Odinga era o favorito para vencer a eleição presidencial de dezembro e fez sua campanha ressaltando que a corrupção dos kikuyu deixava os mais pobres em péssima situação. Quando Kibaki foi reeleito sob fortes suspeitas de fraude, a violência explodiu em mais de 300 mortos, principalmente por conflitos entre kikuyus e luos, mas envolvendo também outros grupos como kalenjin (muitos dos famosos velocistas quenianos são dessa etnia) e luhyas. O episódio mais chocante foi a queima de uma igreja na cidade de Eldoret, com mais de 50 pessoas assassinadas. Muitas cenas lembram os acontecimentos trágicos do genocídio em Ruanda, com milícias armadas de facões em busca de seus inimigos.

Há muita pressão internacional e dos líderes empresariais kikuyus para que o presidente Kibaki decrete um “governo de união nacional” e dê postos de importância a Odinga e seus aliados. Provavelmente será um arranjo precário, mas é a melhor alternativa existente no momento. Os desdobramentos externos da crise atingem a própria eleição presidencial nos Estados Unidos: o pai de Barack Obama era um queniano da etnia luo. O político americano prega a necessidade de conciliação.

No ano passado o Fórum Social Mundial aconteceu em Nairóbi, a capital do Quênia. Conversei com muitos ativistas brasileiros que foram para lá e todos, em especial os negros, ficaram desapontados com os ódios existentes entre as diversas etnias. O racismo não ocorre só entre pessoas de diferentes cores de pele, a estupidez humana é bem mais abrangente.

Muitas pessoas pensarão no Quênia como mais um exemplo de conflito étnico “tipicamente africano”, mas não é bem assim. Uma enorme quantidade de Estados reúnem pessoas de etnias diferentes e o convívio entre elas está longe de ser pacífico. Isso ocorre em países tão distintos entre si quanto Bolívia, Bélgica, Rússia e Sérvia, para citar apenas alguns.

Os Estados africanos têm demonstrado notável capacidade de sobreviver às artificiais fronteiras oriundas da partilha colonial, mas é claro que a presença de grupos étnicos espalhados por vários países cria um elemento de instabilidade no cenário de recursos escassos e crises políticas. Na hora do desespero, as pessoas se voltam para seus parentes. Se você é um tutsi, por exemplo, pode ter primos em Ruanda, Burundi, Uganda. Isso faz com que conflitos étnicos que comecem em um país se alastrem com rapidez, na medida em que há fugas, migrações em massa e pedidos de socorro. O caso mais trágico atualmente é a guerra civil na República Democrática do Congo, que envolve diversos Estados vizinhos. O risco também está presente no Quênia: há relatos de tropas de Uganda intervindo no país.

Texto do blog Todos os Fogos o Fogo.

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sexta-feira, dezembro 21, 2007

Colônia



Citação de JOSÉ EDUARDO AGUALUSA, vista na Luz de Luma.

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