quarta-feira, novembro 03, 2010

Arqueologia vira arma política em Israel

Arqueologia vira arma política em Israel

Descobertas questionáveis de relíquias são usadas por nacionalistas para reforçar ocupação de áreas palestinas

Da mesma forma, palestinos negam que tenha havido templos antigos do judaísmo na cidade de Jerusalém

MARCELO NINIO
DE JERUSALÉM

Com o Velho Testamento numa mão e a réplica de um antigo selo hebreu na outra, o jovem guia israelense incendeia a imaginação do grupo de turistas em Jerusalém.
"Aqui, estão as ruínas do palácio de Davi. Aqui, os profetas Jeremias e Isaías disseram suas palavras eternas", diz ele, diante das escavações na Cidade de Davi, parque multimídia que atrai 400 mil visitantes por ano.
Situado no bairro árabe de Siluan, um dos pontos mais sensíveis do conflito palestino-israelense, o parque também se transformou em foco de intensa polêmica no mundo da arqueologia.
Para muitos estudiosos do assunto em Israel, há abuso político da arqueologia no local para justificar o direito histórico dos judeus sobre a terra e o desalojamento de residentes palestinos.
No centro da polêmica está uma organização privada chamada Elad, também conhecida como Fundação Cidade de Davi, que controla as escavações em Siluan.
Criada por David Beeri, ex-comandante de uma unidade militar de elite, a Elad tem o objetivo declarado de aumentar a presença de judeus em Siluan.
Para isso, conta com doações de judeus milionários do exterior e as bênçãos do governo israelense e da prefeitura de Jerusalém.
O bairro fica na área de Jerusalém ocupada por Israel em 1967 e que os palestinos veem como parte de sua futura capital.
Aumentando a sensibilidade, a poucos passos dali está o ponto nevrálgico da disputa religiosa: Monte do Templo para os judeus, onde teriam sido erguidos e destruídos os dois templos sagrados, Esplanada das Mesquitas para os muçulmanos, onde o profeta Maomé teria subido aos céus.

NACIONALISMO
Com ordens judiciais ou comprando propriedades por meio de terceiros, a organização Elad instalou cerca de 500 colonos, cercados de forte segurança, no meio da população de 45 mil palestinos de Siluan, criando um foco de tensão permanente.
A arqueologia reforça o argumento dos colonos. Para eles, a "Bacia Sagrada", como também é conhecido o vale de Siluan, faz parte inseparável da história judaica.
Foi dali, afirmam, que o rei Davi unificou as tribos e converteu Israel num império, três milênios atrás.
Doron Spielman, porta-voz da Elad, não esconde a ligação entre arqueologia e nacionalismo. Ele explica que soldados israelenses são levados à Cidade de Davi para entender que a fundação de Israel representa a volta do povo judeu a sua origem.
Nos últimos anos, arqueólogos identificados com a direita exibiram descobertas que comprovariam as histórias da Bíblia, principalmente da época de Davi.
O caso mais proeminente é o de Eilat Mazar, da Universidade de Jerusalém. Em 2005, ela anunciou ter achado uma parede do palácio de Davi.
Neste ano, voltou ao noticiário ao encontrar resquícios de uma construção que diz ter sido obra do rei Salomão, no século 10 A.C.
Tais achados são questionados pela maioria dos arqueólogos de Israel, muitos deles frustrados com a inclusão da disciplina na agenda da direita nacionalista.

RELÍQUIAS NO ENTULHO
"Que deixem Abraão, Davi, e Salomão descansar em paz", diz Yoni Mizrahi, diretor do grupo Emek Shaveh, que prega a separação entre arqueologia e política. "A arqueologia não pode ser usada para provar posse".
A disputa pelo passado se estende ao outro lado do conflito. A liderança palestina nega que um dia existiram os templos sagrados do judaísmo em Jerusalém.
Em 1997, o fundo islâmico Waqf, que administra a Esplanada das Mesquitas, causou revolta em Israel ao retirar toneladas de terra do local numa escavação secreta. Mais tarde, foram achadas relíquias arqueológicas no entulho.
"Há absurdos de ambos os lados. Não há santos em Jerusalém", diz Israel Finkelstein, um dos mais respeitados arqueólogos israelenses. "Pelo bem da ciência, é preciso tirar a arqueologia do campo minado da política."

Notícia da Folha de São Paulo, de 1º de novembro de 2010.


Marcadores: , , , , ,

quarta-feira, outubro 27, 2010

De repente, a morte - Romeu Tuma, Nestor Kirchner

Nestes últimos dois dias fomos surpreendidos pela morte de dois personagens ilustres.

Ontem faleceu o senador e ex-delegado Romeu Tuma. No caso de Tuma, a morte não chega tão repentinamente assim. O senador estava internado faz algum tempo, e um portal de notícias havia divulgado sua morte tempos atrás numa barriga que não chegou a ser desmentida com o mesmo destaque da então falsa notícia de morte. O senador tinha 79 anos, e se notabilizou por ser chefe do Dops de São Paulo, no final da década de 1970, o que lançou uma certa sombra de dúvida sobre o senador nestes últimos dias. Também desempenhou o cargo de chefe da Polícia Federal no governo Sarney, e de secretário da Receita Federal. Exercia o mandato de senador desde 1994.

Mais do que o falecimento do senador Romeu Tuma, foi a notícia hoje, no final da manhã do falecimento do ex-presidente argentino, e atual secretário da Unasul, Nestor Kirchner. Kirchner foi o presidente que veio restabelecer certo equilíbrio sobre a Argentina, após o caos que se abateu sobre o país vizinho após o governo Menem. De La Rua foi eleito, mas renunciou diante de grave crise econômica decorrente da conversibilidade peso-dólar que vigorara no governo anterior. Em seguida, três presidentes se sucederam rapidamente tentando achar uma solução. A coisa mais próxima de uma solução no caso da Argentina acabou por ser a eleição de Kirchner em 2003. Kirchner acabou por renegociar uma dívida externa, que até hoje é contestada por alguns credores. E sua esposa, Cristina Fernandez, acabou por sucedê-lo. Após passar mal, foi levado ao hospital, onde veio a falecer, em El Calafate, no sul da Argentina. A notícia do IG, dá contas de lamentações por parte de praticamente todos os dirigentes dos países da América do Sul.


Marcadores: , , , , , ,

Minhas histórias com o delegado Tuma

O delegado Romeu Tuma foi uma das pessoas mais educadas que conheci em minha carreira profissional. Mas também um dos grandes enigmas. Sempre foi o bom policial, em contraposição ao delegado Fleury, o mau.

Meu primeiro contato com ele foi na greve dos jornalistas em 1979. Fui detido em um piquete, depois de ter assumido a responsabilidade por um episódio com um caminhão da Folha, perpetrado pelo meu colega Nunzio Brigulio. O Nunzio combinou com o motorista encontrar-se em um local ermo para transferir para seu carro os jornais que seriam distribuídos. No meio da operação, apareceu um vigilante noturno e tiveram que chamar a polícia e dar parte. O Nunzio foi com seu carro até o piquete do Estadão. Quando chegou o investigador Lalau, do DOPS, Nunzio pediu para algum colega, que ainda não tinha sido indiciado, se apresentar como responsável pelo carro. O «laranja» aqui se apresentou e foi levado detido, primeiro para a delegacia de Santo Amaro, depois para o DOPS.

Lá houve o interrogatório. Na sala ao lado, minha mulher (que eu não sabia que tinha ido para lá), acompanhada do delegado Romeu Tuma – que foi atencioso, educado, inclusive amparando-a quando teve uma taquicardia, depois do investigador que me interrogava dizer que eu poderia levar 12 anos de prisão nas costas (blefe evidente).

Nos dias seguintes, Tuma teve papel essencial, negociando com Dom Paulo e o senador Franco Montoro, para abafar a investigação.

O segundo encontro foi no início dos anos 80, quando explodiu o caso da corretora Tieppo. A imprensa inteira enaltecendo os feitos da polícia de Tuma, que havia localizado os arquivos de Tieppo. No Jornal da Tarde, montamos uma investigação paralela que comprovou que o delegado Tuma combinou com Tieppo a entrega apenas dos arquivos oficiais. Ficou de fora o caixa 2, que identificava as operações clandestinas de remessa de dólares.

O terceiro encontro foi quando, já com a seção Dinheiro Vivo da Folha, fui alvo de um inquérito de um procurador gaúcho, me acusando de estimular a sonegação – por conta de uma matéria onde ensinava como pagar menos imposto casando duas vezes.

Tive que depor, deixar impressões digitais. Do meu lado, o delegado Tuma gentilíssimo, pedindo dicas sobre financiamento no BNH.

O quarto encontro foi mais pesado. Me enredei em uma briga monumental com o consultor-geral da República, Saulo Ramos, por ter assinado um segundo decreto do Cruzado reinstituindo a jogada da liquidação extrajudicial de bancos quebrados – um sistema que permitia ao banco congelar as dívidas com o governo e corrigir os ativos.

Foi uma luta pesadíssima que custou meu emprego na Folha, depois de negociações conduzidas pessoalmente pelo próprio Saulo. Aliás, ganhei seis meses de sobrevida porque no dia em que provavelmente seria demitido conquistei o Prêmio Esso Categoria Nacional – justamente com a série sobre o Cruzado.

No auge da guerra, identifiquei sinais estranhos no meu telefone. Por recomendação de um amigo, procurei o corregedor da Polícia Civil de São Paulo – o juiz Walter Maierovitch – que constatou o grampo e o responsável – justamente o pessoal do delegado Tuma. Avisei a Folha sobre o dia em que a Polícia Civil faria a varredura para pegar os gravadores, mas o jornal não quis dar cobertura.

Saí da Folha mas permaneci crítico ao governo Sarney no programa que tinha na TV Gazeta. Uma noite ele foi lá dar uma entrevista ao Ferreira Neto e o cobrei pelo grampo. Negou e me disse que, quando levou Saulo Ramos ao aeroporto (Saulo passou um mês de «férias», para escapar da guerra que lhe movia) até lhe disse que não entendia sua ênfase em me processar, já que eu tinha elementos para derrubá-lo. Por coincidência, uma frase que minha mulher tinha dito a um amigo pelo telefone no período em que o aparelho esteve grampeado.

O quinto encontro foi pouco tempo depois.

Dois fatos me chamaram a atenção: Naji Nahas e o advogado Edevaldo Alves da Silva (da FMU) foram detidos em Cumbica carregando dólares com eles. Como na época ainda não havia cartão de crédito internacional, era uma prática recorrente levar dólares no bolso. O que ambos tinham em comum? Eram adversários de Saulo Ramos em ações pesadas na Justiça.

Por aqueles dias, convidado pela Alcoa, fui aos Estados Unidos com uma comitiva de jornalistas. Na volta, pensei em comprar um laptop mas me lembrei dos dois casos de adversários de Saulo. Pensei comigo mesmo: o delegado Tuma estará aguardando em Cumbica.

Dito e feito. Quando descíamos do avião, encontrei no final da escadaria o grande Fernando Vieira de Mello, da Jovem Pan. Perguntei o que fazia ali. Estava esperando seu filho Fernandinho, por coincidência no nosso avião – mas não na nossa comitiva.

Ele me disse que, inclusive, o delegado Tuma estava ali. E se virou para mostrar. Mas cadê o delegado? Estava atrás de uma coluna. Fui até lá e zombei dele: Doutor Tuma, vindo investigar in loco.

Ele me disse que havia denúncias de que um doleiro estaria no avião com uma mala com cinco milhões de dólares. Ironizei: será que esse doleiro não descobriu que existe o dólar cabo (um sistema de transferência de dólares por telex)?

Bom, toda nossa bagagem foi revistada. Ainda bem que não cedi à tentação de trazer o laptop.

Depois disso, cruzamos algumas vezes em eventos. Ele sempre educado, voz mansa, tipo agradável. Mas com muitas e muitas histórias que certamente jamais registrou.


Texto do blog do Luís Nassif.

Marcadores: , , ,

domingo, outubro 03, 2010

A pizza e o strogonoff

A pizza e o strogonoff

EM BRASÍLIA, o clima tem sido denso de fofocas, expressão popular que os comentaristas políticos, sérios, conspícuos, traduzem por "tensão". E aqui entre nós, as tensões têm sido muitas e graves: quebra de sigilo na Receita Federal, escândalos na Casa Civil, longuíssima e inútil discussão no Supremo Tribunal Federal sobre a lei da Ficha Limpa, nepotismo diversificado e, menos recente, o mensalão envolvendo parlamentares, prisão de políticos, desentupido tráfico de influência, corrupção em várias modalidades e por aí vai.
Como se não bastassem as tensões brasílicas, fatos e versões vindos de outras praças fazem o rei, o clero e o povo ficarem assanhados: previdência social deficitária, restrições à liberdade de imprensa, possibilidade de um segundo turno, Tiririca garantindo que terá 1 milhão de votos, o último debate na TV seria sangrento e decisivo, o diabo.
O mais interessante é que, em Brasília, todo mundo é bem-informado. E ninguém fica realmente alarmado. Sou do tempo em que o Rio era a capital federal, e uma fofoca na rua do Ouvidor, um incidente no Golden Room do Copacabana Palace ou uma dor de barriga mais virulenta no líder do governo faziam o país estremecer, os tanques desciam da Vila Militar, o líder da oposição subia à tribuna no grande expediente e declarava, aos berros ou em prantos, que o país estava à beira do caos, a pátria finalmente precipitada no abismo.
Os jornais tiravam edições extras, os editorialistas desciam o pau em cima do governo ou da oposição (conforme a linha editorial do próprio) e, ao fim da tarde, à hora da ave-maria, o cardeal vinha ao rádio pedir cordura e paz à família brasileira tão gravemente ameaçada pelas forças do mal.
No dia seguinte, tudo continuava em paz, o desarmamento dos espíritos funcionara durante a noite, mas sempre ficava um tanque enguiçado, aí pelas alturas da avenida Brasil. As velhas máquinas de guerra não aguentavam a barra, as saídas intempestivas, a desoras, para salvar o regime e as instituições. Entupiam-se os carburadores, quebravam-se molas, rompiam-se esteiras, o ministro do Exército aproveitava a ocasião e solicitava mais verbas para o reaparelhamento das Forças Armadas, mesmo sem qualquer perspectiva de guerra no horizonte pátrio. Uma simples e pacífica viagem do Realengo à Praça Mauá provocava terríveis baixas em nosso bélico equipamento.
Em Brasília não tem nada disso. O clima é tenso, a dívida é alta, os juros altíssimos, ninguém sabe onde está a saída -e parece que ninguém quer sair de lugar nenhum. Mas, à noite, vão todos aos coquetéis, às recepções e às homenagens a isso ou àquilo. A capital federal é, de longe, a cidade que mais importância dá a essas reuniões provincianas, onde depois dos discursos e canapés com palito espetando as azeitonas, serve-se um jantar dançante à base de "Moonlight Serenade", o foco de luz multicolorido passeando pelo salão para dar clima de musical da Metro dos anos 50.
Não se trata de saudosismo nem de patriotismo deficiente. Mas prefiro os tempos das crises mais cruas, que traziam o Regimento Sampaio para acampar na praça da República, faziam os rádios tocar os dobrados militares de praxe, os jornais vendiam mais e tudo terminava deixando no ar a necessidade de uma nova crise para consertar as coisas.
Nada se resolvia, todos permaneciam nas posições em que estavam. Não é necessário citar "O Leopardo" de Lampedusa: é preciso de vez em quando agitar as coisas para que tudo continue como sempre.
Naquele tempo, a pizza ainda não havia entrado no mercado, de maneira que tudo terminava em strogonoff, iguaria então recente e que estava em moda. Era, segundo se dizia na época, de particular estima das esposas dos oficiais do Estado-Maior.
Havia até mesmo uma teoria sociológica para explicar o apego dos militares pelos cargos públicos: provado uma vez, o strogonoff subia ao patamar de símbolo do poder. Rasgavam a Constituição para terem direito permanente ao prato que só era servido na boate Vogue, trazido para nossas plagas pelo barão von Stuckart, barão não sei de onde, acho que do império austríaco.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 1º de outubro de 2010.

Marcadores: , , , ,

quarta-feira, setembro 29, 2010

Filmes da Fúria Atômica

Filmes da fúria atômica deixam de ser segredo

Por WILLIAM J. BROAD

Sua existência e a natureza do seu trabalho só emergiram das sombras depois que o governo americano iniciou um esforço concentrado para derrubar o sigilo sobre seus filmes, há mais de dez anos. Ao todo, os cineastas da bomba atômica rodaram 6.500 filmes secretos, segundo autoridades federais.
Hoje, o resultado é uma avalanche de imagens que estão ficando "marcadas a fogo na imaginação das pessoas", disse Robert Norris, historiador da questão nuclear.
Dois novos documentários, "Countdown to Zero" e "Nuclear Tipping Point", trazem imagens de arquivo de explosões. Ambos argumentam que a ameaça do terrorismo atômico está em alta e defendem um fortalecimento das salvaguardas nucleares e a posterior eliminação dos arsenais globais.
Quanto aos cinegrafistas atômicos, não sobraram muitos. "Vários deles morreram de câncer", disse George Yoshitake, 82, um dos sobreviventes. "Sem dúvida, isso teve relação com os testes."
Uma cerca elétrica protegia a sede deles, nas colinas de Hollywood. O discreto edifício tinha estúdio, salas de exibição, laboratórios de revelação, equipamentos de animação, depósitos de películas e mais de 250 produtores, diretores e cinegrafistas -todos com credenciais "top secret".
Na época em que foram feitos, os filmes serviam como fonte vital de informação para cientistas que investigavam a natureza das armas nucleares e sua destrutividade. Alguns funcionaram também como tutoriais para líderes do governo federal e do Congresso dos EUA.
Hoje, especialistas em controle de armas veem os velhos filmes como estudos sobre a paranoia.
"Eles têm uma voz estranhíssima", disse Mark Sugg, produtor audiovisual do Instituto para a Segurança Mundial, uma entidade de Washington. "Você e eu ficaríamos horrorizados de que alguma bomba de hidrogênio tenha feito evaporar um canto do que antes era o paraíso. Mas eles colocavam um sujeito para se gabar disso."
Um livro de 2006, "How to Photograph an Atomic Bomb" ["Como fotografar uma bomba atômica"] aborda o misterioso trabalho desses cinegrafistas.
"As imagens que eles capturaram irão, durante muito tempo, ser um flagrante de como foi o nosso último século", afirmou Peter Kuran, o autor do livro, que é realizador de efeitos especiais em Hollywood. A unidade cinematográfica secreta, criada em 1947 pelos militares, aproveitava o talento e a tecnologia de Hollywood. "Os vizinhos suspeitavam, porque as luzes passavam a noite toda acesas", lembra-se Yoshitake.
Historiadores do cinema dizem que a unidade testou lentes, câmeras e películas modernas, que Hollywood depois viria a adotar.
Os cinegrafistas viajavam para os locais governamentais de testes no Pacífico Sul e no deserto de Nevada, com a missão de registrar a fúria daquela época. Isso os colocava a apenas três quilômetros das explosões.
Yoshitake se lembra de documentar o que uma explosão fez com porcos. "Alguns ainda estavam grunhindo. Dava para sentir o cheiro da carne queimando. Dava enjoo."
Astros de Hollywood apareciam em alguns filmes. Reed Hadley, protagonista do programa de TV "Racket Squad", interpretou um observador militar que testemunhava a primeira explosão de uma bomba de hidrogênio.
A discreta empreitada perdeu sua razão de ser em 1963, quando as superpotências decidiram passar para os testes nucleares subterrâneos.
Em 1997, Hazel O'Leary, então secretário de energia do governo de Bill Clinton, tentou trazer os velhos filmes a público. Mas a quebra do sigilo parou em 2001, depois do início do governo Bush e dos atentados terroristas do 11 de Setembro.
Agora, o Departamento de Energia afirma já ter liberado por volta de cem filmes do vasto acervo, inteiramente controlado pelos militares. O departamento considera esse material como "uma documentação visual duradoura e impressionante do poder e da destruição das armas nucleares".
Kuran continua trabalhando com esses filmes, tentando restaurar e melhorar suas esmaecidas imagens. Yoshitake, o ex-cinegrafista, disse que a divulgação dos filmes melhora a compreensão da opinião pública sobre a ameaça nuclear.
Ele se pergunta por que, agora que a Guerra Fria acabou, países avançados ainda preservam mais de 20 mil unidades da mais letal de todas as armas. "É assustador."

Texto do The New York Times, na Folha de São Paulo, de 27 de setembro de 2010.


Marcadores: , , , , ,

sábado, setembro 25, 2010

Um livrão no Planalto

Um livrão no Planalto

Há três dias, a Fundação Joaquim Nabuco lançou, no Palácio do Planalto, um livro que se destina a ser raro e fazer escola: dois volumes de entrevistas com os chefes de comunicação da Presidência da República, de JK a Lula.
É, no fundo, a primeira publicação sobre os segredos do poder presidencial, como se tomam decisões e os bastidores de como elas chegam ao público. Foi uma inovadora iniciativa do ex-porta-voz André Singer, com fotos de Orlando Brito. As entrevistas são excelentes e revelam a tensão permanente entre o governo e os comunicadores, jornalistas em síntese. O Brasil não tem o hábito de fazer história com fontes primárias. Em geral, são degraus se repetindo uns aos outros. Autobiografias de presidentes, nem pensar.
Campos Sales escreveu um livro medíocre que é mais o relato da campanha republicana paulista. O diário de Getúlio é uma sequência de fofocas diárias sem nenhuma visão prospectiva, sem as fontes nem as razões de decisão. O de Juscelino, escrito a quatro mãos, tem altos e baixos. O primeiro volume, sobre sua infância e vida, é primoroso. Os demais são relatos bem escritos, porém mais relativos a Brasília que a ele mesmo. Epitácio Pessoa guardou seu ressentimento na geladeira, como dizia Tancredo, e colocou-o para fora nos livros de defesa irada do seu governo.
Nos EUA, a literatura de como se tomam as decisões na Casa Branca (título de livro de Theodore Sorensen) é farta. Há uns 25 anos, Michael Nielson, professor da Vanderbilt University e jornalista do "Washington Post", publicou um trabalho de profundidade sobre o assunto: "A Presidência e o Sistema Político".
Valeu-se de muitas informações de porta-vozes. Chegou a algumas conclusões: os presidentes que perseguiram e desejaram o poder saíam mais fortes do que entravam (veja-se Lula, cá, Roosevelt e Wilson, lá). A inflação dá a base de popularidade dos presidentes. Quanto mais baixa, mais popular.
Arthur Schlesinger Jr., a exemplo de seu pai em 1948 e 1962, classificou, em 1996, depois de ouvidos 719 historiadores, acadêmicos e cientistas políticos, o desempenho dos presidentes dos EUA -bons, regulares e ruins. Os bons quase sempre eram displicentes quanto à burocracia, se engajavam na liderança e exerciam o poder com energia e desenvoltura. "Idealismo" e "flexibilidade", avaliados previamente pelo sociólogo Gary Maranell, já não eram importantes para o julgamento final do governo. No fundo, o que pesa mesmo é o que ficou para a história. O circunstancial não conta.
Quem sabe, depois deste livro, cada porta-voz ficará tentado a escrever suas memórias da Presidência. Será bom para o Brasil e sua história, baseada em fonte direta.

O texto é de José Sarney, na Folha de São Paulo, de 17/09/2010.


Marcadores: , , , ,

quarta-feira, setembro 22, 2010

O sonho não concretizado de Hitler de ver Nova York em chamas

O sonho não concretizado de Hitler de ver Nova York em chamas


Eike Frenzel


Antes mesmo da Segunda Guerra Mundial, estrategistas nazistas formularam vários planos para atacar a cidade de Nova York – com super mísseis, pilotos kamikazes, aviões bombardeiros de longo alcance ou agentes secretos. Alguns desses planos eram ambiciosos e outros tolos, mas todos eles fracassaram.


O capitão Hans-Heinz Lindner estava perdendo gradualmente a calma. Quando o dia nasceu, em 13 de junho de 1942, os primeiros carros já passavam pela estrada à beira-mar na pequena cidade de Amagansett, em Long Island. Mas o submarino estava encalhado. O colosso de aço cinzento se encontrava preso em um banco de areia, em águas rasas, a menos de 200 metros da costa, tão impotente quanto uma baleia encalhada na praia. Dentro de apenas algumas horas, qualquer pessoa que passasse caminhando pela areia avistaria o submarino alemão bem destacado nas águas do Oceano Atlântico.


Porém, Lindner conseguiu desencalhar a embarcação. Acelerando os motores a toda potência, ele foi capaz de manobrar o submarino na enchente da maré e retornar ao mar aberto. O U-202 esgueirou-se por debaixo das ondas antes que alguém fosse capaz de vê-lo. Dentro dele, os marinheiros comemoraram essa salvação de última hora.


Esse fato que quase resultou na perda de um dos submarinos alemães que operavam ao largo da costa leste dos Estados Unidos foi o prelúdio de uma das operações militares mais bizarras da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial: a infiltração de um grupo de sabotadores em solo norte-americano. O Terceiro Reich tinha como objetivo atingir os Estados Unidos no seu próprio território, e os estrategistas nazistas elaboraram diversos planos para ataques dispendiosos com o propósito de abalar a agitada metrópole de Nova York nas suas bases – usando super mísseis, pilotos kamikazes, aviões bombardeiros de longo alcance ou agentes secretos.


Mas os espiões alemães levados à costa inimiga pelo submarino U-202 na ousada “Operação Pastorius” fizeram pouco progresso na sua missão ambiciosa. Apesar dos grandes esforços das forças armadas alemãs para selecionar e treinar oito membros da equipe terrorista, a infiltração nazista acabou se transformando em um fracasso espetacular.


Embora todos os homens tivessem passado algum tempo nos Estados Unidos antes da operação, nenhum deles tinha experiência em trabalhar para um serviço de inteligência. Em abril de 1942, eles foram enviados a Gut Quenzsee, uma cidade situada 75 quilômetros a oeste de Berlim, para fazerem um curso rápido de sabotagem. Durante 18 dias, especialistas militares ensinaram a eles como usar explosivos, temporizadores para detonação, armas e granadas de mão. Para ficarem em forma, eles praticaram Jiu-Jitsu. Depois, em junho, dois grupos de quatro agentes secretos recém-treinados foram desembarcados nas costas da Flórida e de Long Island, um pelo submarino U-584 e o outro pelo U-202.


Um fracasso colossal


As equipes foram enviadas aos Estados Unidos com o propósito de explodirem pontes de estradas de ferro, usinas de geração de energia elétrica e túneis, a fim de paralisar as instalações industriais que eram vitais para o esforço norte-americano de guerra e desmoralizar a população civil do país. Um historiador classificou essas iniciativas como “os planos de sabotagem mais ousados da história”. Mas a operação acabou se transformando em uma enorme dor de cabeça para os comandantes militares dos oito indivíduos. Os agentes alemães cometeram erros que destruíram as suas estórias-coberturas apenas dois dias após terem dado início à sua missão, o que fez com que o FBI organizasse a maior caçada humana da sua história.


O principal responsável pelo desastre da operação de espionagem foi Georg John Dasch, o líder de 39 anos de idade do grupo de Long Island. Após ter quase se afogado durante a tentativa de desembarcar em um barco inflável, ele foi descoberto em pouco tempo entre as dunas da praia por John Cullen, um membro da Guarda Costeira dos Estados Unidos de 21 anos de idade que portava uma lanterna. Quando Cullen encontrou Dasch, este fingiu ser um pescador. A seguir, Dasch agarrou Cullen pelo colarinho, ameaçou-o e acabou colocando nas mãos do rapaz US$ 260, uma parte do dinheiro trazido da Alemanha para as suas despesas operacionais. Em troca, Dasch pediu a Cullen que esquecesse que tinha visto os quatro homens na praia.


É claro que o desconfiado membro da Guarda Costeira não fez o que o alemão solicitou. Ele informou imediatamente o acontecido aos seus colegas, que acabaram descobrindo quatro caixas de explosivos e alguns uniformes alemães que haviam sido enterrados apressadamente na areia. O FBI foi alertado, e deu início a uma busca frenética pelos quatro desconhecidos. Os quatro embarcaram em um trem para a cidade de Nova York, onde se hospedaram em um hotel. Pouco depois, Dasch viajou para Washington, D.C., onde entregou-se às autoridades policiais em 19 de junho. Para provar que era um espião, Dasch mostrou aos agentes do FBI lenços nos quais ele havia escrito os nomes dos seus alvos com tinta invisível. Tendo sido mais tarde descrito como “neurótico” pela equipe policial encarregada do interrogatório, Dasch divulgou aos norte-americanos todos os detalhes relativos à “Operação Pastorius”. Usando a informação, agentes do FBI prenderam os três espiões no hotel de Nova York, bem como os quatro sabotadores alemães que haviam desembarcado na Flórida.


Em 8 de agosto de 1942, a curta carreira de seis dos espiões alemães terminou na cadeira elétrica da prisão do Distrito de Colúmbia. As sentenças dos outros dois, Dasch e Ernst Peter Burger, foram comutadas pelo presidente Franklin Delano Roosevelt para 30 anos de prisão e prisão perpétua, respectivamente.


O sonho de Hitler de ver Nova York em chamas


Na distante Alemanha, apesar do fracasso da missão de sabotagem, Hitler ainda estava obcecado pela ideia de ver Nova York em chamas. Ele acreditava que o seu poderoso inimigo do outro lado do Atlântico precisava ser obrigado a manter-se fora da guerra por meio de vários ataques bem localizados em território norte-americano. Conforme narrou Albert Speer, o arquiteto favorito de Hitler, nos seus “Diários de Spandau”, Hitler sentia grande prazer em assistir na Chancelaria do Reich a filmes de “Londres ardendo”, de “comboios sendo explodidos” e de “um mar de fogo sobre Varsóvia”. Hitler estava com a ideia fixa de assistir “à queda de Nova York em meio a colunas de chamas”.


Tendo em vista o entusiasmo de Hitler por atacar Nova York, não é de se surpreender que os estrategistas nazistas tenham elaborado diversos planos com este objetivo específico, alguns dos quais foram feitos até antes do início da guerra. Em 1937, por exemplo, durante uma visita às instalações da companhia de fabricação de aviões Messerschmitt na cidade de Augsburg, no sul da Alemanha, Hitler conheceu o protótipo de um bombardeiro quadrimotor de longo alcance, o Messerschmitt Me 264, que estava sendo projetado para para ter uma autonomia que lhe permitisse alcançar a costa leste dos Estados Unidos a partir da Europa. Hitler ficou entusiasmado com o conceito de um “bombardeiro Amerika”, cuja carga explosiva pudesse reduzir cidades norte-americanas a cinzas e destroços. Mas o que ele não sabia era que o projetista do Me 264, Willy Messerschmitt, tinha na verdade lhe mostrado um modelo incapaz de voar com o propósito de obter um contrato lucrativo – e ninguém podia de fato afirmar quando a aeronave estaria pronta para entrar em operação.


Quando começaram a ter a impressão de que perderiam a guerra, os nazistas passaram a depositar bastante esperanças no desenvolvimento das chamadas “armas milagrosas”. O centro de pesquisa do exército em Peenemünde, uma vila na ilha de Usedom, no Mar Báltico, era uma verdadeira cornucópia de tais ideias. Os alemães acreditavam, ao final da guerra, que o mesmo centro que havia lançado com relativo sucesso o primeiro foguete V-2 em 1942 seria capaz de finalmente colocar em ação um “foguete Amerika”.


O foguete A-9/A-10 foi projetado para ter 25 metros de comprimento, sendo dez metros mais longo do que o V-2. Pesando quase 100 toneladas, ele poderia subir a uma altitude de 24 quilômetros antes de dar início ao seu voo transatlântico rumo aos Estados Unidos. Um outro grupo de pesquisas buscava uma maneira de possibilitar que um piloto manobrasse o foguete e se ejetasse antes de atingir o alvo – em uma verdadeira missão suicida.


Em termos teóricos, pelo menos, a engenhosidade destrutiva dos engenheiros alemães não tinha limites. Eles cogitaram a ideia de fazer com que submarinos rebocassem depósitos flutuantes contendo foguetes V-2 modificados em direção à costa leste dos Estados Unidos. Assim que fossem posicionados, esses depósitos seriam inundados de forma que os foguetes ficassem apontados para o alto, acima da linha d'água, prontos para serem lançados.


O desenvolvimento da tecnologia militar nazista só se tornou possível por meio da utilização brutal de trabalhos forçados. Milhares de trabalhadores morreram em instalações de produção subterrâneas e fábricas secretas. Mas havia também muitos voluntários que – em nome do sucesso das “armas Amerika” - se mostravam dispostos a enfrentar uma terrível “morte heroica”, mesmo que isso significasse manobrar foguetes lançados de aviões de carga, em estilo kamikaze, até o centro de Nova York.


Escassez de materiais e agentes amadores


No fim das contas, todos os planos dos nazistas para ataques aéreos só tiveram uma coisa em comum: nenhum deles foi colocado em prática. Em dezembro de 1941, a revista norte-americana “Life” publicou uma planta da “Big Apple” com uma matéria que mostrava como aviões nazistas poderiam bombardear Nova York. Em 1944, a mesma revista citou a advertência do prefeito Fiorello La Guardia, que disse que poderia haver um ataque com mísseis alemães contra os Estados Unidos. Mas, no decorrer da guerra, os os “bombardeiros Amerika” e os mísseis nazistas de longo alcance jamais apareceram sobre os arranha-céus de Nova York.


Mais do que tudo, foram os bombardeios aéreos aliados contra as fábricas alemães que atrasaram persistentemente a capacidade nazista de desfechar ataques transatlânticos e que, à medida que a guerra se desenrolava, tornaram tais ataques impossíveis. Uma escassez de materiais, falta de tempo e o volume enorme de novos projetos de engenharia acabaram impedindo a realização do sonho de Hitler de ver os Estados Unidos engolidos pelas chamas.


E quanto aos agentes amadores envolvidos na “Operação Pastorius”, é mais do que provável que cedo ou tarde eles acabassem destruindo as suas estórias-coberturas, mesmo se Dasch não tivesse desertado. De fato, desde o início, a missão estava fadada a fracassar: um dos agentes já tinha se afastado dela após ter contraído gonorreia em Paris. E, nos Estados Unidos, Edward Kerling, o líder da equipe de quatro homens na Flórida, teria se gabado da sua missão secreta para um velho amigo. E Herbert Haupt, um dos membros da equipe de Kerling, chegou até a visitar o seu pai em Chicago, pedindo a este que comprasse para ele um automóvel esportivo preto da marca Pontiac – alegando que necessitava do veículo para viajar a negócios para o governo alemão.


Tradução: UOL



Texto da Der Spiegel, republicado no UOL.

Marcadores: , , , ,

segunda-feira, agosto 16, 2010

O direito de conhecer a verdade

O direito de conhecer a verdade


NAVI PILLAY

A recente sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos exigindo que o Brasil revise sua lei de anistia é um marco crucial na luta contra a impunidade em uma região que ainda precisa entender melhor e confrontar as atrocidades cometidas durante os conflitos internos das últimas décadas.
As leis de anistia que fazem vista grossa para os abusos de direitos humanos não só distorcem os registros históricos que todo país deve ter mas também minimizam o sofrimento das vítimas e prejudicam seu direito a conhecer a verdade e a obter uma reparação.
Os governos costumam justificar as leis de anistia em nome da rápida reconciliação nacional.
A história mostra, porém, que não responsabilizar os autores, além de negar a justiça às vítimas, pode gerar novos conflitos em vez de curar feridas. Quando anistias são concedidas na pressa de virar a página dos conflitos -ou pela sinistra razão de encobrir os abusos- sua revogação deve ser sempre uma opção aberta.
No entanto, na América do Sul e em outros lugares, o esquecimento continua sendo promovido. Isso acontece apesar de que, como a Corte sublinhou, deixar indefesas as vítimas e continuar com a impunidade são ações incompatíveis com o espírito da Convenção Americana sobre Direitos Humanos.
Um exemplo é o Brasil, onde o Supremo Tribunal Federal negou a possibilidade de alterar a lei de anistia de 1979, afirmando que os crimes cometidos durante a ditadura foram "atos políticos".
No Chile, a lei da anistia continua vigente, após 32 anos, apesar do repúdio internacional e das tentativas fracassadas de condenar o ex-ditador Augusto Pinochet.
No Uruguai, o governo teve que intervir para impedir a promulgação de uma lei que teria permitido a libertação de autores de violações de direitos humanos devido à sua idade avançada. Nesse contexto, medidas para melhorar a prestação de contas são fundamentais.
Na Argentina, país com o maior número de julgamentos de direitos humanos no mundo, tribunais continuam presidindo casos de crimes contra a humanidade e graves violações de direitos humanos cometidos durante a guerra suja. O ex-ditador Rafael Videla está novamente respondendo por violações de direitos humanos.
A Argentina tem demonstrado que conhecer a verdade é um direito sem limites. E um direito que ninguém pode negar. Todos e cada sociedade têm o direito de saber quem violou seus direitos, por que, quando, onde e como os crimes foram cometidos, e de serem informados sobre o destino das vítimas.
Anistias que sepultam a verdade e isentam os responsáveis são suscetíveis a prejudicar a perspectiva de construção de sociedades justas e seguras no futuro. A impunidade fomenta o ressentimento e a falta de confiança nas instituições. Ela encoraja os autores a cometer novos crimes e pode encorajar outros a se juntarem aos infratores.
A posição da ONU sobre as anistias é claríssima: não são admissíveis se evitam o julgamento de pessoas que podem ser penalmente responsáveis por crimes de guerra, genocídio, crimes contra a humanidade ou violações graves de direitos humanos. Por outro lado, a anistia não deve pôr em perigo o direito das vítimas a recursos legais, incluindo a reparação, nem pode limitar seu direito e o das sociedades de conhecer a verdade.
O exercício desses direitos é incompatível com a impunidade. Os países do hemisfério Ocidental devem estar atentos à decisão da Corte Interamericana e prover a longa e negada justiça às vítimas de violações dos direitos humanos.


NAVI PILLAY é comissária das Nações Unidas para os direitos humanos.

Texto publicado na Folha de São Paulo, de 6 de agosto de 2010.


Marcadores: , , , , , ,

Tony Judt

Tony Judt


SÃO PAULO - Tony Judt era (ou é) um dos maiores intelectuais da atualidade. A frase soa batida e talvez não dê conta da dimensão pública do historiador britânico, morto na sexta-feira, aos 62 anos.
Três de seus livros estão traduzidos: "Passado Imperfeito" (1992), sobre a atração fatal da intelectualidade parisiense pelo comunismo nos anos que se seguiram à libertação da França, em 1944; "Pós-Guerra: uma História da Europa desde 1945" (2007), que é sua obra monumental; e "Reflexões sobre um Século Esquecido" (2008), reunião de ensaios que pingaram nas últimas duas décadas em publicações como a "New York Review of Books".
São textos excepcionais, escritos com estilo e clareza exemplar. Vários deles cuidam dos intelectuais e da sua relação, tantas vezes de omissão ou cumplicidade, com os horrores do século 20.
Em "Eric Hobsbawm e o Romance do Comunismo", Judt elogia a "fama bem merecida" do colega, "o historiador mais dotado do nosso tempo". Mas lembra que, "para fazer algum bem no novo século, temos de começar por dizer a verdade sobre o anterior"; e Hobsbawm "de certa forma dormiu durante o terror e a vergonha de sua época".
Não imagine por isso que Judt seja um entusiasta do livre-mercadismo. Não mesmo. Ele não hesita em tratar o marxismo como uma fantasia -"uma combinação de descrição econômica, prescrição moral e previsão moral" sedutora-, mas permanece no campo da esquerda.
Sua perspectiva é a social-democracia, ainda que reconheça que hoje ela tenda a se confundir com a "ala avançada do liberalismo de mercado reformista". Judt é um pensador agudo, sutil e antidogmático, jamais obscuro ou panfletário.
Talvez por isso tivesse humor para dizer: "Fora da universidade, sou visto como um comunista judeu, esquerdista e louco que se odeia; dentro da universidade, me veem como um elitista branco, liberal e antiquado". Intelectuais como ele fazem diferença. E falta.

Texto de Fernando de Barros e Silva, na Folha de São Paulo, de 9 de agosto de 2010.


Marcadores: , ,

terça-feira, agosto 10, 2010

Coréia do Sul reconhece perdão japonês para "superar passado"

O Governo da Coreia do Sul reconheceu a vontade japonesa de superar um passado "infeliz" entre os dois países depois que o primeiro-ministro do Japão, Naoto Kan, pediu desculpas nesta terça-feira pela ocupação colonial da península coreana. Em comunicado oficial, Kan expressou nesta terça o "profundo remorso" do Japão e pediu "desculpas de coração" pelos grandes danos e sofrimentos causados pela ocupação colonial japonesa (1910-1945), poucos dias antes de ser completado o centenário da anexação.

Em resposta, o Ministério de Exteriores sul-coreano disse que Seul "presta atenção" ao fato de o Japão aceitar que a colonização japonesa foi contra a vontade do povo coreano e manifestar franqueza sobre erros passados. Seul expressou seu desejo de que "essa visão seja compartilhada por todo o povo do Japão".

"Reconhecemos o comunicado do primeiro-ministro Kan como a vontade do líder e de seu Governo para superar um passado infeliz entre Coreia e Japão e para impulsionar brilhantes relações bilaterais futuras", assinala. Seul também qualificou positivamente o compromisso japonês de realizar cooperação humanitária relacionada com o colonialismo e devolver patrimônios culturais sul-coreanos tomados durante a colonização, entre eles os documentos reais da Dinastia de Joseon (1392-1910).

Seul expressou ainda seu desejo que as relações entre Coreia do Sul e Japão sigam avançando sobre a base de uma correta percepção e reflexão desse passado histórico "infeliz".


Do Terra, via blog do Luís Nassif.

Marcadores: , , , ,

segunda-feira, agosto 02, 2010

O dia a dia do gueto de Varsóvia, segundo suas vítimas

Vítimas do nazismo registraram em papel os crimes perpetrados na Polônia


Jan Friedmann


Cerca de 50 homens e mulheres no Gueto de Varsóvia escolheram uma forma especial de resistência. Em um arquivo secreto, eles documentaram seu caminho para a morte para futuras gerações, narrando os crimes dos nazistas enquanto eram perpetrados.

David Graber tinha 19 anos quando rabiscou às pressas sua carta de despedida. “Eu adoraria experimentar o momento em que este grande tesouro for descoberto e o mundo for confrontado com a verdade”, ele escreveu.

Enquanto soldados alemães revistavam as ruas no lado e fora, Graber e seu amigo Nahum Grzywacz enterraram 10 caixas de metal no porão de uma escola primária na Rua Nowolipki, no gueto judeu de Varsóvia. Era 2 de agosto de 1942.

As caixas foram desenterradas mais de quatro anos depois. Àquela altura, Graber e Grzywacz já estavam mortos há muito tempo, assassinados como quase todos seus aproximadamente 50 colaboradores. Apenas três sobreviveram ao terror nazista. Eles forneceram a informação que levou à recuperação das caixas.

O tesouro enterrado consistia de cerca de 35 mil pedaços de papel que um grupo de cronistas reuniu e utilizou para documentar o modo como, durante a Segunda Guerra Mundial, a ocupação alemã privou os judeus de Varsóvia de seus direitos, os atormentou e, finalmente, os matou nos campos de extermínio. “Esses materiais contam uma história coletiva de declínio constante e humilhação sem fim, intercalada por muitas histórias de heroísmo discreto e sacrifício próprio”, escreve o historiador americano Samuel Kassow. Seu livro, “Quem Escreverá Nossa História?: Os Arquivos Secretos do Gueto de Varsóvia”, que agora está sendo publicado em tradução em alemão, lança uma nova luz sobre essa fonte excepcional.

Textos apavorantes

Os judeus também reuniram documentos e escreveram diários por toda a parte na Europa durante o Holocausto, mas o arquivo de Varsóvia é a coleção mais abrangente e descritiva de todas. A capital polonesa era lar da maior comunidade judaica da Europa, que se transformou em ímã para muitos cientistas e escritores talentosos. Como uma autora escreveu, ela esperava que seu relato seria “inserido sob a roda da história como uma cunha”. Contribuições como a dela transformariam o arquivo clandestino naquele que provavelmente é o corpo de textos mais apavorante já escrito a respeito sobre o Holocausto.

O grupo chamava a si mesmo de Oyneg Shabes, ou “Alegria do Sábado”, porque costumava se reunir nas tardes de sábado, a partir de novembro de 1940. O principal pensador do grupo, que incluía um grande número de intelectuais, jornalistas e professores, era Emanuel Ringelblum, um historiador nascido na Galícia em 1900. Ele escreveu uma dissertação de doutorado na Universidade de Varsóvia sobre a história dos judeus da cidade antes de 1527, e fazia parte da organização judaica de autoajuda “Aleynhilf”.

Duas semanas antes do estouro da Segunda Guerra Mundial, Ringelblum participou do Congresso Sionista Mundial em Genebra, como enviado do partido marxista Poalei Zion. Os outros delegados lhe disseram que era perigoso demais voltar para a Polônia e pediram para que permanecesse na Suíça, mas Ringelblum queria estar com sua esposa Yehudis e seu filho de nove anos, Uri. Ele mal tinha chegado em casa quando tropas alemãs invadiram a Polônia e capturaram Varsóvia logo depois.

Em outubro de 1940, as autoridades de ocupação decretaram que todos os judeus seriam transferidos para um distrito residencial separado. Trabalhadores então construíram um muro de três metros ao redor da área. Os alemães também transferiram os judeus do interior próximo para o gueto de Varsóvia. Logo, meio milhão de pessoas estava vivendo em uma área de apenas quatro quilômetros quadrados.

Ringelblum e seus companheiros do Oyneg Shabes reconheceram rapidamente a dimensão do drama e começaram a documentá-lo para a posteridade. Eles reuniram decretos, cartazes, cartões de ração, cartas, diários e desenhos –documentos de horror em iídiche, alemão e polonês.

Um dos documentos especificava a distribuição média diária de calorias para 1941, segundo a qual os alemães receberiam 2.613 quilocalorias, os poloneses receberiam 699 e os judeus apenas 184. Os moradores do gueto tinham que contrabandear alimentos para sobreviver. O arquivo usava salários e preços no mercado negro para realizar pesquisa de mercado e preparar cálculos de amostra para uma família de quatro.

Questionários e concursos de redação

Como etnólogos, os narradores saíram para investigar seu ambiente, cientistas estudando seu próprio meio. Eles distribuíam questionários padronizados e conduziam centenas de entrevistas com refugiados e pessoas à beira da fome.

Entre 1940 e 1942, cerca de 100 mil morreram de fome, exposição a temperaturas frias e doenças. Em novembro de 1941, Ringelblum, descrevendo as mortes ao seu redor, escreveu: “A coisa mais terrível é olhar para as crianças congelando... Hoje, ao anoitecer, eu ouvi o gemido de um garotinho de três ou quatro anos. Provavelmente amanhã eles encontrarão seu pequeno cadáver”.

O arquivo realizou um concurso de redação para encorajar as crianças traumatizadas a contar suas histórias. Uma menina de 15 anos descreveu como sua mãe morreu ao seu lado: “Durante a noite, eu a senti ficando fria e rígida. Mas o que eu poderia ter feito? Eu fiquei deitada lá até o amanhecer, ainda agarrada ao seu corpo, até que um vizinho me ajudou a tirar o corpo dela da cama e colocá-la no chão.”

Do lado de fora, os moradores corriam constantemente o risco de serem detidos por um policial alemão e então serem espancados ou baleados. Os moradores do gueto até mesmo tinham um nome para uma rua particularmente perigosa, feito um gargalo: “Dardanelos”.

Evidência contrabandeada do programa de extermínio

Em 1942, os narradores começaram a receber notícias dramáticas de outras partes do país. Refugiados contavam sobre fuzilamentos em massa e sinagogas incendiadas. Um refugiado contou aos narradores como a SS tinha usado gás para matar pessoas em vagões de trem em Chelmno, a oeste de Varsóvia.

As mortes em escala industrial tinham começado, levando muitos a se perguntarem quando o “Inferno dos Judeus Poloneses”, como diz o título de um dos documentos no arquivo, chegaria a Varsóvia. Vários oficiais alemães tinham prometido ao líder do conselho judeu, Adam Czerniakow, que o Gueto de Varsóvia seria poupado. Mas em 22 de julho de 1942, o oficial alemão da SS, Herman Höfle, anunciou que o “reassentamento” tinha começado. Poucos dias depois, os ajudantes dos arquivistas enterraram a primeira das caixas de metal.

A Gestapo e a polícia judaica reuniram os moradores e os levaram para o “ponto de transbordo”, onde começaram os transportes para o campo de extermínio de Treblinka. Uma proclamação particularmente cínica, datada de 29 de julho, atraía os judeus famintos com a promessa de que aqueles que fossem voluntariamente ao ponto receberiam uma ração de três quilos de pão e um quilo de marmelada. Em um esforço para enganar aqueles que foram deixados para trás, os deportados eram forçados a enviar para casa cartões postais tranquilizadores dos campos de extermínio.

Os arquivistas já tinham começado a estudar o Holocausto enquanto ele estava em pleno andamento. Em vários casos, eles conseguiram contrabandear evidência do programa de extermínio para o exterior, inclusive para a “BBC” em Londres. Ringelblum esperava, em vão como se revelou, que seu grupo tinha “concluído uma tarefa histórica e talvez salvo centenas de milhares do extermínio”.

O gueto foi rapidamente esvaziado. Segundo uma estatística no arquivo, 99% de todas as crianças já tinham sido deportadas em novembro de 1942. Ainda havia 60 mil pessoas vivendo na área residencial, a maioria homens que trabalhavam nas oficinas. Muitos entregaram suas reflexões pessoais ao arquivo, documentos de grande poder emocional.

Abraham Lewin, um professor, descreveu como sua esposa caiu nas mãos dos capangas “Houve um eclipse solar e ficou completamente escuro. Minha Luba foi detida em um bloqueio de estrada. Eu ainda vejo um brilho de esperança diante dos meus olhos. Talvez ela seja poupada. Caso contrário, o que Deus pode impedir?”

Levante reprimido

Outro professor, Natan Smolar, lamentou sua “única e amada filha Ninkele”, cujo terceiro aniversário a família tinha recém celebrado. “Havia tantos brinquedos, havia tanto barulho e diversão, tanta alegria e gritaria das crianças. E hoje Ninkele se foi, sua mãe se foi, assim como minha irmã Etl.”

Aqueles que permaneceram no gueto foram atormentados por sentimentos de culpa. Eles se queixavam de que “os judeus se deixaram levar como ovelhas para o abate”. Um homem escreveu: “Se todos tivéssemos escalado o muro do gueto e tomado as ruas de Varsóvia, armados com facas, machados ou mesmo pedras –então eles talvez teriam matado 10 mil ou 20 mil, mas nunca 300 mil!”

Restaram poucos documentos sobre a resistência armada que acabou ocorrendo, em abril de 1943. Os alemães reprimiram brutalmente o levante. O líder da brigada da SS, Jürgen Stroop, mandou incendiar os prédios, um atrás do outro, e explodiu a principal sinagoga. Em 16 de maio de 1943, ele relatou: “A antiga área residencial judaica de Varsóvia não existe mais”.

Àquela altura, o historiador Ringelblum e sua família já tinham fugido para o setor não-judeu de Varsóvia. Ele passou os últimos poucos meses de sua vida junto a outros 40 homens, mulheres e crianças em um porão de sete por cinco metros sob uma estufa que pertencia a um comerciante de verduras polonês. Dia após dia, Ringelblum ficava sentado na ponta de uma longa mesa, entre fileiras de beliches, cercado por seus livros e listas.

O esconderijo foi descoberto em março de 1944, quando a namorada do polonês o traiu após eles se separarem. Ringelblum foi levado para a notória prisão de Pawiak, onde seus captores o torturaram na esperança de que ele revelaria detalhes sobre combatentes da resistência judaica. Então os alemães mataram a tiros o narrador de seus crimes, juntamente com sua família e os outros prisioneiros.

Seis dias antes de seu esconderijo ser descoberto, Ringelblum escreveu a um amigo sobre seu arquivo: “Se nenhum de nós sobreviver, pelo menos isto restará”.

Tradução: George El Khouri Andolfato


Texto do Der Spiegel, republicado no UOL.

Marcadores: , , ,

terça-feira, junho 22, 2010

Sobre Luiz Gama - Filho da tortura

Ode ao filho da tortura

CÁSSIO SCHUBSKY

Com sua pena afiada e cirúrgica, Darcy Ribeiro foi ao ponto, ao descrever a escravidão no Brasil como uma "máquina de moer carne humana". Séculos de sevícias não se esquecem facilmente. Índios dizimados e enterrados em todos os recantos do país impedem que se transforme a história do Brasil num conto de fadas de concórdia e fantasia. Sertanejos de Canudos. Trabalhadores de Eldorado do Carajás. Presos do Carandiru.
Ironia do destino nos armou o centenário da Revolta da Chibata. Em 1910, os marinheiros, em plena República, estrugiram contra a sanha dos açoites impingidos como castigo aos trabalhadores do mar, sob o comando da Marinha.
Agora, em 2010, cem anos depois, ministros do Supremo Tribunal Federal transformaram a fundamentação histórica de seus julgados sobre anistia a torturadores da ditadura em história da carochinha, ao fabularem um brasileiro pacífico e cordato, amigo do acordo, a justificar a impunidade. Sejam feitas as ressalvas aos preclaros ministros Carlos Ayres Britto e Enrique Ricardo Lewandowski.
A história tem mesmo o condão de nos pregar peças... Pois em 21 de junho celebram-se os 180 anos de nascimento de Luiz Gonzaga Pinto da Gama (1830-1882). "A quem a história não esqueceu", mas que vinha recebendo diminuto reconhecimento. Ressaltem-se esforços recentes para trazer à tona os feitos obumbrados de Gama.
Caso do embaixador Rubens Ricupero e do professor Fábio Konder Comparato, por meio de artigos e discursos; ou da pesquisadora Lígia Fonseca Ferreira, com várias obras publicadas; e do historiador e advogado trabalhista Nelson Câmara, que lança agora um livro ("O Advogado dos Escravos"), desvelando os dotes de causídico de Gama, que conseguiu, rábula, a libertação de centenas de escravos, com bem articulados habeas corpus.
Filho da negra liberta Luiza Mahin e de um fidalgo português de identidade desconhecida, o baiano Luiz Gama foi vendido como escravo pelo pai, com dez anos de idade.
Ainda jovem, conquistou a liberdade. Maçom, ativista político, abraçou, com fervor, as causas da abolição e da República, atuando na loja América, com pares como Castro Alves, Rui Barbosa e Joaquim Nabuco. Impedido de estudar direito nas Arcadas, fez-se advogado por si mesmo.
Poeta, jornalista, educador e tribuno, articulou seus afazeres em prol da libertação dos escravos. Seu estilo ferino rendeu-lhe reprimendas várias. Funcionário da polícia paulista, foi exonerado.
Fustigou a magistratura, com picardia, por não respeitarem muitos dos juízes as leis em vigor, que proibiam o tráfico e a própria escravidão, como demonstrou Luiz Gama na Justiça. Poeta engajado, advogado atilado, jornalista cáustico e percuciente, seus escritos e seus exemplos são legados de um tempo que não acabou: a tortura no Brasil continua impune, corroendo delegacias e presídios. Legiões de desesperados mínguam prostrados na marginalidade no campo e na cidade.
Em afronta às leis em vigor, a começar da Lei Maior -nossa pisoteada Constituição cidadã.

CÁSSIO SCHUBSKY, 44, editor e historiador, é organizador do livro "Clóvis Beviláqua, um Senhor Brasileiro" (Editora Lettera.doc).

Texto publicado na Folha de São Paulo, de 16 de junho de 2010.


Marcadores: , ,

sexta-feira, junho 18, 2010

Como surgiu o povo judeu?

Como surgiu o povo judeu?

Após 60 anos recém-completos, a historiografia de Israel amadureceu muito pouco e, aparentemente, não evoluirá em curto prazo. Porém, os fatos revelados por novas pesquisas sobre o passado judaico e sionista colocam para todo historiador honesto questões fundamentais, ainda que surpreendentes numa primeira abordagem

Qualquer israelense sabe que o povo judeu existe desde a entrega da Torá1 no monte Sinai e se considera seu descendente direto e exclusivo. Todos estão convencidos de que os judeus saíram do Egito e se fixaram na Terra Prometida, onde edificaram o glorioso reino de Davi e Salomão, posteriormente dividido entre Judéia e Israel. E ninguém ignora o fato de que esse povo conheceu o exílio em duas ocasiões: depois da destruição do Primeiro Templo, no século VI a.C., e após o fim do Segundo Templo, em 70 d.C.

Foram quase 2 mil anos de errância desde então. A tribulação levou-os ao Iêmen, ao Marrocos, à Espanha, à Alemanha, à Polônia e até aos confins da Rússia. Felizmente, eles sempre conseguiram preservar os laços de sangue entre as comunidades, tão distantes umas das outras, e mantiveram sua unicidade.

As condições para o retorno à antiga pátria amadureceram apenas no final do século XIX. O genocídio nazista, porém, impediu que milhões de judeus repovoassem naturalmente Eretz Israel, a terra de Israel, um sonho de quase 20 séculos.

Virgem, a Palestina esperou que seu povo original regressasse para florescer novamente. A região pertencia aos judeus, e não àquela minoria desprovida de história que chegou lá por acaso. Por isso, as guerras realizadas a partir de 1948 pelo povo errante para recuperar a posse de sua terra foram justas. A oposição da população local é que era criminosa.

De onde vem essa interpretação da história judaica, amplamente difundida e resumida acima?

Trata-se de uma obra do século XIX, feita por talentosos reconstrutores do passado cuja imaginação fértil inventou, sobre a base de pedaços da memória religiosa judaico-cristã, um encadeamento genealógico contínuo para o povo judeu. Claro, a abundante historiografia do judaísmo comporta abordagens plurais, mas as concepções essenciais elaboradas nesse período nunca foram questionadas.

Paralisia unilateral

Quando apareciam descobertas suscetíveis de contradizer a imagem do passado linear, elas praticamente não tinham eco. Como um maxilar solidamente fechado, o imperativo nacional bloqueava qualquer espécie de contradição ou desvio em relação ao relato dominante. E as instâncias específicas de produção do conhecimento sobre o passado judeu contribuíram muito para essa curiosa paralisia unilateral: em Israel, os departamentos exclusivamente dedicados ao estudo da “história do povo judeu” são bastante distintos daqueles da chamada “história geral”. Nem o debate de caráter jurídico sobre “quem é judeu” preocupou esses historiadores: para eles, é judeu todo descendente do povo forçado ao exílio há 2 mil anos.

Esses pesquisadores “autorizados” tampouco participaram da controvérsia trazida pela revisão histórica do fim dos anos 1980. A maioria dos atores desse debate público veio de outras disciplinas ou de horizontes extra-universitários, inclusive de fora de Israel: foram sociólogos, orientalistas, lingüistas, geógrafos, especialistas em ciência política, pesquisadores em literatura e arqueólogos que formularam novas reflexões sobre o passado judaico e sionista. Dos “departamentos de história judaica” só surgiram rumores temerosos e conservadores, revestidos por uma retórica apologética baseada em idéias preconcebidas.

Ou seja, após 60 anos recém-completos, a historiografia de Israel amadureceu muito pouco e, aparentemente, não evoluirá em curto prazo. Porém, os fatos revelados pelas novas pesquisas colocam para todo historiador honesto questões fundamentais, ainda que surpreendentes numa primeira abordagem.

Considerar a Bíblia um livro de história é uma delas. Os primeiros historiadores judeus modernos, como Isaak Markus Jost e Léopold Zunz, não encaravam o texto bíblico dessa forma no começo do século XIX: a seus olhos, o Antigo Testamento se apresentava como um livro de teologia constitutivo das comunidades religiosas judaicas depois da destruição do Primeiro Templo. Foi preciso esperar até 1850 para encontrar historiadores como Heinrich Graetz, que teve uma visão “nacional” da Bíblia. A partir daí, a retirada de Abraão para Canaã, a saída do Egito e até o reinado unificado de Davi e Salomão foram transformados em relatos de um passado autenticamente nacional. Desde então, os historiadores sionistas não deixaram de reiterar essas “verdades bíblicas”, que se tornaram o alimento cotidiano da educação israelense.

Mas eis que, ao longo dos anos 1980, a terra treme, abalando os mitos fundadores. Novas descobertas arqueológicas contradizem a possibilidade de um grande êxodo no século XIII antes da nossa era. Da mesma forma, Moisés não poderia ter feito os hebreus saírem do Egito nem tê-los conduzido à “terra prometida” pelo simples fato de que, naquela época, a região estava nas mãos dos próprios egípcios! Aliás, não existe nenhum traço de revolta de escravos no reinado dos faraós nem de uma conquista rápida de Canaã por estrangeiros.

O exílio de poucos

Tampouco há sinal ou lembrança do suntuoso reinado de Davi e Salomão. As descobertas da década passada mostram a existência de dois pequenos reinos: Israel, o mais potente, e a Judéia, cujos habitantes não sofreram exílio no século VI a.C. Apenas as elites políticas e intelectuais tiveram de se instalar na Babilônia, e foi desse encontro decisivo com os cultos persas que nasceu o monoteísmo judaico.

E o exílio do ano 70 d.C. teria efetivamente acontecido? Paradoxalmente, esse “evento fundador” da história dos judeus, de onde a “diáspora” tira sua origem, não rendeu sequer um trabalho de pesquisa. E por uma razão bem prosaica: os romanos nunca exilaram povo nenhum em toda a porção oriental do Mediterrâneo. Com exceção dos prisioneiros reduzidos à escravidão, os habitantes da Judéia continuaram a viver em suas terras mesmo após a destruição do Segundo Templo.

Uma parte deles se converteu ao cristianismo no século IV, enquanto a maioria aderiu ao Islã durante a conquista árabe do século VII. E os pensadores sionistas não ignoravam isso: tanto Yitzhak ben Zvi, futuro presidente de Israel, quanto David ben Gurion, fundador do país, escreveram sobre isso até 1929, ano da grande revolta palestina. Ambos mencionam, em várias ocasiões, o fato de que os camponeses da Palestina eram os descendentes dos habitantes da antiga Judéia2.

Mas, na falta de um exílio a partir da Palestina romanizada, de onde vieram os judeus que povoaram o perímetro do Mediterrâneo desde a Antigüidade? Por trás da cortina da historiografia nacional se esconde uma surpreendente realidade histórica: do levante dos macabeus, no século II a.C., à revolta de Bar Kokhba, no século II d.C., o judaísmo foi a primeira religião prosélita. Nesse período, a dinastia dos hasmoneus converteu à força os idumeus do sul da Judéia e os itureus da Galiléia, anexando-os ao “povo de Israel”. Partindo desse reino judeu-helenista, o judaísmo se espalhou por todo o Oriente Médio e pelo perímetro mediterrâneo. Assim, no primeiro século de nossa era surgiu o reinado judeu de Adiabena, no território do atual Curdistão, e a ele seguiram-se alguns outros com as mesmas características.

Os escritos de Flávio Josefo são apenas um dos testemunhos do ardor prosélito dos judeus: de Horácio a Sêneca, de Juvenal a Tácito, vários escritores latinos expressaram seu temor sobre a prática da conversão, autorizada pela Mixná e pelo Talmude3.

A expansão para o leste europeu

No começo do século IV, o êxito da religião de Jesus não colocou fim à expansão do judaísmo, mas empurrou seu proselitismo para as margens do mundo cultural cristão. Cem anos depois, surgiu o vigoroso reino judeu de Himiar, onde atualmente está o Iêmen. Seus descendentes mantiveram a fé judaica após a expansão do Islã e preservam-na até os dias de hoje. Da mesma forma, os cronistas árabes nos contam sobre a existência de tribos berberes judaizadas: contra a pressão árabe sobre a África do Norte no século VII, surgiu a figura lendária da rainha judia Dihya-el-Kahina. Em seguida, esses berberes judaizados participaram da conquista da península Ibérica e estabeleceram ali os fundamentos da simbiose particular entre judeus e muçulmanos, característica da cultura hispano-arábe.

A conversão em massa mais significativa ocorreu, no entanto, entre o mar Negro e o mar Cáspio, no imenso reino Cazar do século VIII. A expansão do judaísmo do Cáucaso até as terras que hoje pertencem à Ucrânia engendrou várias comunidades que seriam expulsas para o Leste Europeu pelas invasões mongóis do século XIII. Lá, os judeus vindos das regiões eslavas do sul e dos atuais territórios alemães estabeleceram as bases da grande cultura ídiche4.

Esses relatos sobre as origens plurais dos judeus figuram, de forma mais ou menos hesitante, na historiografia sionista até o início dos anos 1960. Depois disso, foram progressivamente marginalizados e, por fim, desapareceram totalmente da memória pública israelense. Afinal, os conquistadores de Jerusalém em 1967 deveriam ser os descendentes diretos de seu reinado mítico, e não de guerreiros berberes ou cavaleiros cazares. Com isso, os judeus assumiram a figura de éthnos específico que, depois de 2 mil anos de exílio e errância, voltava para a sua capital.

E os defensores desse relato linear e indivisível não mobilizam apenas o ensino de história: eles convocam igualmente a biologia. Desde os anos 1970, uma sucessão de pesquisas “científicas” israelenses se esforça para demonstrar, por todos os meios, a proximidade genética dos judeus do mundo inteiro. A “pesquisa sobre as origens das populações” representa hoje um campo legítimo e popular da biologia molecular, e o cromossomo Y masculino ganhou um lugar de honra ao lado de uma Clio judia na busca desenfreada pela unicidade do “povo eleito”.

Essa concepção histórica constitui a base da política identitária do Estado de Israel e é exatamente seu ponto fraco. Ela se presta efetivamente a uma definição essencialista e etnocentrista do judaísmo, alimentando uma segregação que mantém a distância entre judeus e não-judeus.

Israel, 60 anos depois de sua fundação, não aceita conceber-se como uma república que existe para seus cidadãos. Quase um quarto deles não é considerado judeu e, de acordo com o espírito de suas leis, esse Estado não lhes pertence. Ao mesmo tempo, Israel se apresenta como o Estado dos judeus do mundo todo, mesmo que não eles não sejam mais refugiados perseguidos, e sim cidadãos com plenos direitos, vivendo como iguais nos países onde residem. Em outras palavras, um etnocentrismo sem fronteiras serve de justificativa para uma severa discriminação ao invocar o mito da nação eterna, reconstituída para se reunir na “terra dos antepassados”.

Escrever uma nova história judaica, para além do prisma sionista, não é tarefa fácil. A luz que se refrata ao passar por esse prisma se transforma, insistentemente, em cores etnocêntricas. Mas, se os judeus sempre formaram comunidades religiosas em diversos lugares e elas foram, com freqüência, constituídas pela conversão, obviamente não existe um éthnos portador de uma mesma origem, de um povo errante que teria se deslocado ao longo de 20 séculos.
Sabemos que o desenvolvimento de toda historiografia e, de maneira geral, da modernidade passa pela invenção do conceito de nação, que ocupou milhões de seres humanos nos séculos XIX e XX. Recentemente, porém, esses sonhos começaram a ruir. Cada vez mais pesquisadores analisam, dissecam e desconstroem os grandes relatos nacionais e, principalmente, os mitos da origem comum, caros aos cronistas do passado. Certamente os pesadelos identitários de ontem darão espaço, amanhã, a outros sonhos de identidade. Assim como toda personalidade é feita de identidades fluidas e variadas, a história também é uma identidade em movimento


1 Texto fundador do judaísmo, a Torá é composta pelos cinco primeiros livros da Bíblia, ou Pentateuco: Gênese, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.
2 Cf. David ben Gurion e Yitzhak ben Zvi, Eretz Israel no passado e no presente (1918, em ídiche), Jerusalém, Yitzhak ben Zvi, 1980 (em hebraico), e Yitzhak ben Zvi, Nossa população no país (em hebraico), Varsóvia, O Comitê Executivo da União da Juventude e o Fundo Nacional Judeu, 1929.
3 A Mixná, considerada como a primeira obra de literatura rabínica, foi concluída no século II d.C. O Talmude sintetiza o conjunto dos debates rabínicos referindo-se à lei, aos costumes e à história dos judeus. Há dois Talmudes: o da Palestina, escrito entre os séculos III e V, e o da Babilônia, concluído no fim do século V.
4 Falado pelos judeus da Europa oriental, o ídiche é uma língua eslavo-alemã com palavras vindas do hebraico.

*Shlomo Sand é historiador, professor da Universidade de Tel-Aviv e autor de Comment le peuple juif fut inventé (Como foi inventado o povo judeu), Paris, Fayard, 2008.

Texto publicado originalmente pelo Le Monde Diplomatique Brasil.

Mas aqui no Ainda a Mosca Azul, este texto foi visto no Opera Mundi.

Marcadores: , , ,

quinta-feira, maio 20, 2010

Conservadorismo à brasileira...

Manual do bom conservador

COMECEI depressa a ler o livro, que é curto, mas perdi a coragem de continuar. Só depois de uma pausa consegui retomá-lo. Foi escrito por José de Alencar nos anos 1867-68 e nunca mais foi republicado.

Reaparece agora em edição de bolso, à venda até em bancas de jornal. E devia ser leitura obrigatória no currículo do secundário, tal a sua capacidade de sintetizar a mentalidade brasileira no que tem de mais conservador, de mais atrasado, de mais duro.

Trata-se das "Cartas a Favor da Escravidão" (editora Hedra), que o célebre romancista endereçou, sob pseudônimo, ao imperador dom Pedro 2º. É sempre fácil, sem dúvida, acusar de insensibilidade e falta de lucidez um texto escrito em outra época.

Mas o que mais importa é ver de que modo o livro de José de Alencar expressa hábitos de pensamento que, até hoje, fazem parte do arsenal reacionário.

Veja, por exemplo, a crítica de Alencar às pressões de países como Inglaterra e França para que acabasse a escravidão por aqui. “Como assim?”, pergunta Alencar. “Que direito têm as potências estrangeiras de interferir num assunto brasileiro? Filantropia e indignação moral são expedientes hipócritas dos europeus. De resto, não temos culpa pela escravidão.”

"Não fomos nós, povos americanos, que importamos o negro da África para derrubar matas e laborar a terra; mas aqueles que hoje nos lançam o apodo e o estigma por causa do trabalho escravo." Alencar continua: "O filantropo europeu, entre a fumaça do bom tabaco de Havana e da taça do excelente café do Brasil, se enleva em suas utopias humanitárias (...) Em sua teoria, a bebida aromática, a especiaria, o açúcar e o delicioso tabaco são o sangue e a medula do escravo. Não obstante, ele os saboreia".

É típico. Nossa inocência está sempre fora de dúvida. Não se pode exigir de um país tão "jovem" que assuma responsabilidade pelo que faz. O fim da escravidão, diz Alencar, virá a seu tempo. Ainda é cedo para querer isso no Brasil. "A raça africana tem apenas três séculos e meio de cativeiro. Qual foi a raça europeia que fez nesse prazo curto a sua educação?"

Sim, porque a escravidão educa o negro. É nessa "escola de trabalho e sofrimento" que um povo "adquire a têmpera necessária para conquistar o seu direito e usar dele".

Cabe considerar também, diz Alencar, que esse processo educativo é mais lento no Brasil do que, por exemplo, no norte dos Estados Unidos. Lá, graças ao espírito industrioso dos anglo-saxões, o negro rapidamente se transformou num "operário ao qual só faltava o espírito do lucro". Mas nós, brasileiros, somos diferentes. "A raça latina é sobretudo artística (...) Outros elementos, que não o cômodo e o útil, impelem o caráter ardente dessa família do gênero humano: ela aspira sobretudo ao belo e ao ideal."

Como diz a ótima introdução do historiador Tâmis Parron, deve-se fazer uma justiça a José de Alencar: ele não compactua com as teses da época sobre a inferioridade racial dos negros. O problema, como sempre, é "de educação", "despreparo". Mantenha-se, portanto, a escravidão. Aliás, de que escravidão exatamente se está falando? "Um espírito de tolerância e generosidade, próprio do caráter brasileiro, desde muito transforma sensivelmente a instituição. Pode-se afirmar que não temos já a verdadeira escravidão, porém um simples usufruto da liberdade."

As relações entre senhor e escravo "adoçaram" por aqui, diz Alencar, repetindo várias vezes o verbo que faria tanto sucesso na obra de Gilberto Freyre. Seja como for, o escravismo é uma "instituição". E "as instituições dos povos são coisa santa, digna de toda veneração. Nenhum utopista, seja ele um gênio, tem o direito de profaná-las".

Senhores utopistas, fiquem avisados. O que se pretende, ilusoriamente, em nome do progresso, dos direitos humanos etc., contradiz a realidade social. Transformá-la, ainda mais tão cedo, é uma insensatez. Há de preferir-se a realidade, é claro. Desde que se esteja do lado certo do chicote.

Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo, de 28 de abril de 2010.


Marcadores: ,

quinta-feira, abril 08, 2010

Para Demóstenes Torres, sobre a escravidão no Brasil e os problemas dos negros por aqui

Mais um e-meio do além, de Elio Gaspari.


De Cazemiro@edu para Demóstenes.Torres@gov


ILUSTRE SENADOR Demóstenes Torres,


Quem lhe escreve é Cazemiro, um Nagô atrevido. Faço-o porque li que o senhor, um senador, doutor em leis, sustenta que a escravidão brasileira foi uma instituição africana. Referindo-se aos 4 milhões de negros trazidos para o Brasil, vosmicê disse o seguinte: "Lamentavelmente, não deveriam ter chegado aqui na condição de escravos, mas chegaram..."

Vou lhe contar o meu caso. Eu cheguei ao Rio de Janeiro em julho de 1821 a bordo da escuna Emília, junto com outros 354 africanos. O barco era português e o capitão, também. Fingia levar fumo para o Congo, mas foi buscar negros na Nigéria e, na volta, acabou capturado pela Marinha inglesa. Desde 1815, um tratado assinado por Portugal e Grã Bretanha proibia o tráfico de escravos pela linha do Equador.

Quando a Emília atracou no Rio, fomos identificados pelas marcas dos ferros. A minha, no peito, parecia um arabesco. Viramos "africanos livres". Livres? Não, o negro confiscado a um traficante era privatizado e concedido a um senhor, a quem deveria servir por 14 anos. O Félix Africano, resgatado em 1835, penou 27 anos. Doutor Demóstenes, essa lei era brasileira.

A turma da Emília trabalhou na iluminação das ruas e no Passeio Público. Algumas mulheres tornaram-se criadas. A gente se virou, senador. Havia senhores que compravam negros mortos, trocavam nossas identidades e não nos liberavam. As marcas a ferro nos ajudaram.

Alguns de nós conseguiram juntar dinheiro. Como estávamos sob a supervisão dos juízes ingleses, em 1836 compramos lugar num barco. Dos 354 que chegaram, talvez 60 retornaram à África.

Como doutor em leis, vosmicê sabe que o Brasil se comprometeu a acabar com todo o tráfico em 1830. Entre 1831 e 1856 chegaram 760 mil negros, os confiscados devem ter sido 11 mil, ou 1,5%. Aquela propriedade da Marinha, na Marambaia, onde às vezes o presidente brasileiro descansa, era um viveiro de escravos contrabandeados. Não apenas a escravidão do Império era uma instituição brasileira, como assentava-se no ilícito, no contrabando.

Outro dia eu encontrei o Mahommah Baquaqua, mais conhecido nos Estados Unidos do que no Brasil. Ele foi capturado no Benin, lá por 1840, vendido a um padeiro em Pernambuco e revendido no Rio ao capitão do navio "Lembrança".

Em 1847, o barco fez uma viagem ao porto de Nova York e lá o Baquaqua fugiu. Teve a proteção dos abolicionistas, razoável cobertura jornalística, estudou e escreveu um livro contando sua história (inédito em português, imagine). Fazia tempo que eu queria perguntar ao Baquaqua por que, em suas memórias, não contou que, de acordo com as leis brasileiras, o seu cativeiro era ilegal. Ele diz que esqueceu, mas que, se tivesse lembrado, não faria a menor diferença.

Senador Demóstenes, a escravidão foi brasileira, assim como é brasileira uma certa dificuldade para lidar com os negros livres. Eu que o diga.

Axé,

Cazemiro

P.S.: Há uma referência ao caso da Emília no artigo "A proibição do tráfico atlântico e a manutenção da escravidão", da professora Beatriz Gallotti Mamigonian, publicado recentemente na coletânea de ensaios "O Brasil Imperial". Que Xangô apresse a publicação de seu livro sobre os "africanos livres" no Brasil.


Publicado na Folha de São Paulo, de 7 de abril de 2010.


Marcadores: , ,