terça-feira, setembro 21, 2010

Pronto para brilhar?

Pronto para brilhar?

Hoje é o bicentenário da Revolução Mexicana. Duzentos anos atrás, em 16 de setembro de 1810, na aldeia de Dolores, Estado de Guanajuanato, o padre local, Miguel de Hidalgo, lançou seu famoso "grito de la independencia", que mobilizou a população indígena e mestiça pobre da mais importante colônia espanhola do Novo Mundo em um levante contra a elite branca dominante, formada por descendentes de espanhóis.
A revolta não demorou a ser reprimida. Hidalgo foi capturado e executado. Sua cabeça decepada foi colocada em exibição, pendurada num paiol de grãos em Guanajuanato, onde centenas de pessoas que procuravam refúgio contra os rebeldes de Hidalgo haviam sido massacradas.
A independência do México só foi obtida em 1821. E, mesmo assim, a estabilidade se provou difícil de conquistar.
Daqui a algumas semanas, o México celebrará o centenário da revolução de 1910, outro sangrento período de conflitos e guerra civil. Quanto a isso, a história mexicana oferece forte contraste com a do Brasil.
A chegada do príncipe regente, de sua mãe louca e da família real à Bahia, no final de 1807, seguida pelo estabelecimento da corte portuguesa no Rio de Janeiro, um ano mais tarde, deu continuidade e estabilidade ao Brasil, evitou disputas quanto à legitimidade e salvou o país dos sangrentos tumultos e dos conflitos étnicos e sociais que caracterizaram com tamanha intensidade as primeiras décadas de independência da América espanhola.
É curioso, portanto, que, neste momento de celebração, o ex-ministro do Exterior mexicano Jorge Castañeda, agora professor da Universidade de Nova York, tenha publicado um artigo na edição de setembro/outubro da revista "Foreign Affairs" no qual afirma que o Brasil (bem como China, Índia e África do Sul) não estão "prontos para brilhar".
Ele argumenta que "colocar potências emergentes no leme pode prejudicar a governança mundial".
Castañeda critica o Brasil por não respeitar os direitos humanos em sua política externa. Menciona a posição brasileira quanto a Cuba e Venezuela. Alega que o Brasil "não merece confiança no que tange à não proliferação nuclear". Acrescenta que "há quem especule que o Brasil esteja preparando as bases para retomar o seu programa nuclear". Afirma que há contradições na abordagem do Brasil quanto à poluição.
A política externa não teve papel importante nesta campanha presidencial. Mas essas declarações apontam para alguns dos dilemas reais que o novo governo brasileiro precisará enfrentar no ano que vem.

Texto de KENNETH MAXWELL, Tradução de PAULO MIGLIACCI, publicado na Folha de São Paulo, de 16 de setembro de 2010.

Curiosamente o texto me parece bastante inconclusivo. Quando introduz as colocações de Castañeda no texto, eu imaginei que Maxwell iria contestá-las ou, talvez, confirmá-las, mas ele evita qualquer posição e termina abruptamente com uma frase anódina sobre a política externa do presidente a ser eleito em outubro.

É difícil querer mensurar a violência aos grupos sociais. Talvez devamos medir pela quantidade de gente morta ou mutilada? Nesse caso o desenvolvimento histórico do Brasil talvez não seja tão violento quanto o do México, mas certamente houve crises e rupturas por aqui, inclusive durante o processo de independência política.


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sexta-feira, junho 11, 2010

Retórica e subdesenvolvimento

Retórica e subdesenvolvimento

ACONTECEM COISAS por aí. Na vida de qualquer um, o imprevisto faz parte do previsto, mesmo assim há espaço para algumas surpresas.
No meu tempo de repórter, esse insistente escriba teve certa vez um dia atribulado. Depois de comparecer à inauguração de escola pública, almoçar com um embaixador, entrevistar um policial e escrever um texto sobre o Afeganistão, foi obrigado a assistir a uma sessão no Instituto dos Advogados, quando seria entregue o prêmio de Direitos Humanos a um causídico e jornalista.
Já estava na idade e no tempo de não mais ficar surpreendido com nada, mas esta dose foi para nenhum leão botar defeito. Começa que os nobres advogados, cobras dos cobras nas lides e letras jurídicas, não conseguiram chegar a um acordo a respeito do nome do professor Albert Sabin, presente à cerimônia na qualidade de parente do homenageado.
Luminares do direito, de jurisprudência firmada e formada ao longo de inatacáveis vidas públicas, chamaram o descobridor da vacina Sabin de tudo, menos de Albert Sabin.
Ouvi, pela ordem, os nomes: Alberto Sabino, Roberto Sábio, Albert Saban, Albert Sá e, para coroar, num esforço de imaginação criadora, um advogado de foro carioca se referiu ao grande sábio ali presente como Albert Louis Pasteur!
Depois dessa, eu deveria ficar tranquilo para os restos de meus dias na face da Terra. Mas -como sempre- estava mal informado. Ouvi diversos oradores, inclusive alguns professores de direito da Venezuela, do Peru, da Colômbia e da Argentina, que a América Latina nada tinha a aprender a respeito dos Direitos Humanos.
Citaram datas, congressos, simpósios, reuniões, atas e pareceres provando que bem antes da Revolução Francesa, da Carta Magna, séculos antes da Declaração Universal dos Direitos do Homem, antes do liberalismo americano, enfim, antes da própria noção de que cada ser humano tem direito a nascer, viver e morrer em paz, já os juristas latino-americanos haviam lavado a égua.
Para que não pairassem dúvidas, foram mencionadas as atas, pareceres e congressos nos quais os juristas da América Latina estabeleciam a prioridade básica do homem: ter direito a ser homem.
Ouvi os discursos, prestei esforçada atenção a cada orador e, de repente, eu me senti numa casa de loucos. Impossível que eméritos magistrados, homens que escreveram 50, 80, 120 tomos de saber jurídico, ignorassem a realidade a que me habituei, a que todos nós estamos habituados.
Sou homem de poucas palavras e muitos silêncios. Fiquei tranquilo no meu canto, mas vez por outra tive vontade de dar um grito. Afinal, com raríssimas exceções, os países latino-americanos são exatamente os que mais constantemente, os que mais violentamente, agridem os direitos humanos. Isso está na cara, tão na cara que isso não precisa ser provado.
No entanto, os nobres cultores da ciência jurídica dão-se por bem pagos e gratificados: eles fizeram, à sua maneira, a obrigação que lhes competia: as atas existem mesmo e provam que, de acordo com resoluções, parágrafos e alíneas, nenhum cidadão latino-americano seria privado de seu direito de homem.
Recordei uma conferência da OEA a que assisti, em Punta del Este, na qual foi proposta a expulsão de Cuba. Ouvi o chanceler do Haiti pronunciar um discurso de muitas horas.
Foi o parecer decisivo para que os membros da OEA, com exceção do Brasil e da Argentina, votassem pela exclusão de Cuba da organização, sob o pretexto de que desrespeitava criminosamente os direitos humanos, adotando os fuzilamentos e as torturas aos que combatiam o regime de Fidel Castro.
Num francês impecável, o representante de Papa Doc na reunião tornou desnecessário o discurso de Foster Dulles, que havia solicitado aquela assembleia para punir Cuba, que foi defendida tibiamente por Che Guevara
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O Haiti ganhou no peito e no verbo, Cuba foi expulsa da comunidade e Papa Doc, um dos maiores tiranos do século 20, soltou foguetes de alegria, louvando o sucesso de seu chanceler. Nesse dia memorável, descobri que o mal da América Latina não é o subdesenvolvimento. É a retórica.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 28 de maio de 2010. Destaques do blogueiro.


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segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Sobre o Golpe em Honduras e a posse de Porfírio Lobo

O GOLPE PERFEITO
A Reuters noticiou a saída de Manuel Zelaya, em título, como "vitória dos líderes do golpe". O espanhol "El País", também no título, falou em "o golpe perfeito", destacando que o chefe militar da ação foi anistiado e o presidente "de fato" virou "deputado vitalício".
O britânico "Guardian" destacou, também no título, "o golpe infeliz", dizendo que "a oposição ao golpe perdeu, mas também todos os hondurenhos", com a economia abalada pelos sete meses de conflito.




O FIM
O "NYT", sem abrir mão de citar "o golpe de 28 de junho" no texto, publicou que a saída de Zelaya e a posse de Porfírio Lobo "apontam para um fim na crise política". De qualquer maneira, "o país permanece dividido".




UM NOVO COMEÇO
O "WSJ" concentrou seu enunciado em Lobo, que "chama para um novo início" em Honduras. Entre frases sobre "conciliação", o novo presidente prometeu, como querem os EUA, instalar uma "comissão da verdade".


Trechos da coluna Toda Mídia, na Folha de São Paulo, de 29 de janeiro de 2010.


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terça-feira, dezembro 08, 2009

O Império, O Império da Lei, e o Golpe

GOLPE TOLERADO

Em editorial, o "NYT" lamenta como, após "começar forte, o governo Obama hesitou" em Honduras. Questiona Thomas Shannon, indicado embaixador no Brasil, por ter saído dizendo que os EUA aceitariam as eleições sob controle golpista. Cobra investigação interna do golpe e a volta das "liberdades civis, inclusive liberdade de imprensa". Afirma que, "até lá, os EUA não devem restaurar a ajuda a Honduras", nem a OEA aceitar o país:
"Os militares de Honduras e de toda a região precisam saber que golpes não serão tolerados."

OLIGARQUIAS
A "New Yorker" vai além e afirma que "a humilhação do governo Obama foi completa" em Honduras, com a recusa do retorno de Manuel Zelaya. Em longo texto, mostra como o Departamento de Estado cedeu aos republicanos e aos conservadores do próprio governo. E concentra fogo em Thomas Shannon, que acertou com os republicanos a aceitação do pleito, sob regime golpista, antes de viajar a Honduras. Foi uma "reação fingida dos EUA" e:
"Militares irrequietos e oligarquias nervosas, através de toda a América Latina, tomaram nota disso."

OPORTUNIDADES
Por outro lado, Peter Romero, que foi subsecretário de Estado de Bill Clinton para a América Latina, assina o artigo "Grande desafio, grande oportunidade", no "Miami Herald". Defende o golpe como defesa da democracia e sugere haver "uma dúzia de países, na América Latina, onde o cenário de Honduras poderia se reproduzir".
Propõe pronta ação para "apoiar os nossos amigos, isolar os agitadores populistas e restaurar o consenso democrático que definiu os interesses estratégicos dos EUA nas Américas desde o fim da Guerra Fria".

Trecho da coluna Toda Mídia, na Folha de São Paulo, de 7 de dezembro de 2009. Grifos do blogueiro.

É bom saber que continua havendo gente nos Estados Unidos, como este senhor Peter Romero citado acima, que diz que democracia é só quando os líderes são considerados amigos e alinhados com os interesses dos Estados Unidos.

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segunda-feira, dezembro 07, 2009

Honduras: Pleito serve para golpe de Estado ser legitimado

Pleito serve para golpe de Estado ser legitimado

CLAUDIA ANTUNES
DA SUCURSAL DO RIO

Considerando padrões mínimos, a eleição de ontem em Honduras não foi livre nem limpa, por ao menos três motivos que antecedem o pleito e que independem de se constatar ou não casos de fraude propriamente dita na votação:
1) O virtual estado de exceção a que o país está submetido, com militarização das maiores cidades, repressão a apoiadores do presidente deposto Manuel Zelaya e uso de métodos coercitivos, diretos ou indiretos, para promover a ida às urnas;
2) O alijamento do processo político de parte da população que apoia Zelaya e sua consequente incapacidade de fiscalizar as instituições que impulsionam o processo eleitoral;
3) A ausência de regras equânimes de publicidade, com a censura ou o fechamento dos meios de comunicação que se opuseram à deposição do presidente eleito.
Hoje, na ausência de observadores internacionais neutros, vai começar uma discussão continental interminável sobre se a eleição pode ser ou não considerada democrática.
A esta altura, é provável que os fatores mencionados acima acabem minimizados, a fim de que se conclua o processo acelerado de legitimação do projeto dos golpistas, que sempre foi usar a eleição para fechar a página do curto período em que o poder no país ameaçou escapar das mãos do pequeno grupo que o controla há décadas.
Talvez menos por convicção que pela fraqueza diante da ala conservadora da opinião pública e do Congresso americanos, a Casa Branca provocou essa situação ao recuar da resolução da OEA (Organização dos Estados Americanos) que havia endossado e que pedia a restituição "incondicional" de Zelaya.
A princípio, para evitar a ratificação do golpe, Óscar Árias foi chamado a negociar um acordo que contemplasse os dois lados. Mas logo ficou claro que o presidente costa-riquenho não era um mediador imparcial, o que estimulou os golpistas a fincar pé contra a saída negociada.
Árias vem repetindo que as eleições que marcaram as transições democráticas ao fim do ciclo de ditaduras militares na América Latina também foram sob regimes de força -argumento duplamente falacioso.
O importante naqueles casos não foram somente as eleições, como se convocadas pelo arbítrio de ditadores cansados, mas o fato de elas terem sido parte de acordos políticos que garantiram, entre outras coisas, a equanimidade e a limpeza do processo eleitoral.
E não havia naquele período a Carta Democrática, instrumento que permitiu a unânime condenação inicial dos países da OEA ao golpe. O documento é o mesmo que impede que a ditadura de partido único de Cuba se reincorpore à entidade. Ele distingue as relações intrarregionais, no seu aspecto de rejeição ao golpismo, das relações que os mesmos integrantes da OEA têm com as tantas autocracias que há no mundo.
A vitória do fato consumado em Honduras mina a Carta em seu patamar mais básico, o veto à deposição não democrática de autoridades eleitas, o que no futuro deverá ser lamentado.

Texto publicado na Folha de São Paulo, de 30 de novembro de 2009.

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Um golpe (de estado) de sucesso! Honduras, os Estados Unidos e o restante da América

Instabilidade

No topo das buscas pelo Yahoo News, com Bloomberg, "Brasil desapontado e frustrado com EUA". O assessor Marco Aurélio Garcia falou em "decepção" e relatou carta de Obama a Lula, justificando o apoio à eleição sob governo golpista, em Honduras.
Manchete no Terra, o embaixador brasileiro à OEA acrescentou que os EUA "se deram conta do isolamento e pediram ideias", daí a sugestão de adiamento, recusada. E agora "não dá para fazer nada".
De Madri, o "Valor" ouviu o diplomata espanhol destacado para a América Latina, que previu "instabilidade" pós-eleição e prometeu "reação conjunta" da Espanha com Brasil, Argentina e os demais.



"OLD-FASHIONED COUP"

Sob o título "Um golpe à moda antiga", a "New Yorker" dá oito páginas a Honduras. William Finnegan relata que no "golpe clássico" não faltou nem carta de renúncia forjada. Destaca como o país é ligado militar e comercialmente aos EUA, que reagiu e depois "mudou de posição". Agora, acrescenta o jornalista no site:
"A maioria dos países segue firme no princípio de que golpes simplesmente não são aceitáveis, nem eleições sem condições livres e justas. Mas com os EUA parece que os golpistas vão conseguir o que queriam."

ELEIÇÃO NÃO VAI LIMPAR

A "Time" também traz longa reportagem de Honduras, "Na América Central, golpes ainda vencem a mudança". Diz que "é improvável que qualquer nação -exceto talvez os EUA- reconheça o vitorioso do dia 29". Destaca declaração de Christopher Sabatini, da Americas Society, de Nova York, de que "não se pode usar eleição para limpar a sujeira após um golpe, isso só ameaça retroceder a democracia da América Central em décadas".
A "Economist", em nota, posta que a eleição "não deve resolver a crise iniciada por um golpe militar".

"Ou foram terrivelmente incompetentes ou foram terrivelmente cínicos. Em ambos os casos, sua credibilidade está muito deteriorada."
Do analista KEVIN CASAS-ZAMORA , do Instituto Brookings, tido como próximo a Obama, sobre a atuação do Departamento de Estado dos EUA em Honduras, na Reuters.

Trechos da coluna Toda Mídia, na Folha de São Paulo, de 25 de novembro de 2009.

Como já tinha sido possível perceber, o golpe de Honduras se encaminha para um sucesso absoluto, com um presidente inconveniente para a oligarquia deposto, e um novo representante da oligarquia eleito em eleições realizadas sob governo golpista.


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quarta-feira, novembro 25, 2009

Guerra Fria entre nós: II - Voz da América, para difundir os valores dos Estados Unidos e semear divisão entre os latino americanos

Noticioso dos EUA mira bolivarianos

Voz da América, bancada por governo americano, amplia presença na região

Pelo menos 17 jornalistas latino-americanos já foram treinados para o serviço em Washington; porta-voz diz que ideia é "ampliar diálogo"

SÉRGIO DÁVILA
DE WASHINGTON

A Voz da América, o serviço noticioso internacional bancado pelo governo americano, está ampliando sua presença nos chamados países bolivarianos, comandados por líderes de esquerda que fazem do discurso anti-EUA a base de sua política externa. A prioridade, segundo a direção do órgão, é a região andina (Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela) e a América Central, principalmente Honduras e Nicarágua.
Nesse conjunto se encontram os críticos mais contundentes de Washington -o venezuelano Hugo Chávez, o boliviano Evo Morales, o equatoriano Rafael Correa e o nicaraguense Daniel Ortega- e os dois principais aliados dos EUA na região, o colombiano Álvaro Uribe e o peruano Alan García. Em Honduras, Manuel Zelaya vinha se distanciando dos americanos até ser deposto por golpe em junho.
A decisão de aumentar o alcance veio depois de três membros do conselho que regula o serviço terem visitado ambas as regiões no meio do ano. A Voz da América é controlada pelo Board of Broadcasting Governors (BBG), que comanda todos os serviços civis de transmissões internacionais do governo, como a Rádio e TV Martí, voltada para a população cubana, e a TV Al-Hurra, dirigida ao Oriente Médio.
Seus oito membros, quatro republicanos e quatro democratas, são indicados pelo presidente e tendem a ter um perfil mais conservador. Na semana passada, Barack Obama enviou sua lista de indicados para aprovação no Senado. Entre eles está a jornalista Dana Perino, a última porta-voz do republicano George W. Bush.
Parte já dos novos esforços de ampliação, 17 jornalistas freelancers latino-americanos foram levados a Washington no mês passado para treinamento. No próximo mês, outros jornalistas de Argentina, Bolívia, Panamá e Haiti começarão a ser treinados sobre como cobrir a epidemia da gripe A. "Temos de contribuir para ampliar o diálogo", disse a porta-voz Joan Mower, ao "El Nuevo Herald".
A divisão de fala espanhola da Voz da América conta hoje com 21 funcionários e um orçamento para 2009 de US$ 3,1 milhões. A audiência nos cinco países andinos mais Cuba, segundo Mower, é de 1,9 milhão de adultos.

Notícia da Folha de São Paulo, de 23 de novembro de 2009.


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Guerra Fria entre nós: I - Escola das Américas, a velha escola para ensinar a realizar golpes de estado e torturar adversários

Escola que formou golpistas é alvo de protestos

DE WASHINGTON

Centenas de pessoas protestaram no sábado em frente ao Instituto de Cooperação para a Segurança Hemisférica (Whinsec, na sigla em inglês), entidade de formação de militares latino-americanos subordinada ao Pentágono e baseada em Fort Benning, no Estado americano da Geórgia. A manifestação foi organizada pela SOA Watch e reuniu estudantes e sobreviventes de torturas de regimes militares da região.
A ocasião foram os 20 anos do massacre de seis padres jesuítas espanhóis por militares em El Salvador. No mesmo dia, foi divulgada a indicação da ONG e de seu fundador, padre Roy Bourgeois, para concorrer ao Prêmio Nobel da Paz de 2010 -dezenas de personalidades e instituições são indicadas todos os anos por um grupo de pessoas escolhidas pelo Parlamento norueguês; o premiado de 2009 é Barack Obama.
A SOA Watch tira seu nome das iniciais da School of Americas, a Escola das Américas, que funcionou entre 1946 e 2001, antecessora do Whinsec que formou mais de 60 mil militares latino-americanos. Segundo a ONG, ali estudaram membros de pelo menos 11 regimes militares na América Latina, Brasil incluído.
Dois deles participaram do golpe que derrubou o presidente de Honduras, Manuel Zelaya, em 28 de junho último. São o chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, general Romeo Vásquez, aluno em 1976 e em 1984, segundo a SOA, e o general Luis Prince Suazo, comandante da Força Aérea, que estudou lá em 1996.
Zelaya destituiu Vásquez do cargo dias antes de ser derrubado, porque o militar se recusou a cumprir ordem executiva para organização de enquete junto à população sobre mudança na Constituição hondurenha. O levantamento, segundo opositores de Zelaya, abriria caminho para sua reeleição, o que é proibido pela atual Carta do país. O militar foi restituído pelo Congresso após o golpe.
Bourgeois visitou Honduras recentemente e fez denúncias de casos de desrespeito a direitos humanos.
(SÉRGIO DÁVILA)

Notícia da Folha de São Paulo, de 23 de novembro de 2009.


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terça-feira, setembro 22, 2009

Na base da desconfiança - Obama e a América Latina

Na base da desconfiança

A RELAÇÃO entre Barack Obama e a América Latina começou de forma promissora. Antes de mais nada, pelo simples fato de ele não se chamar George W. Bush. Mas também pelos seus primeiros passos relativos à região, notadamente a abordagem da questão cubana, com uma abertura ao diálogo, o levantamento de algumas restrições e, ainda que relutantemente, a adesão ao consenso que garantiu a revogação da suspensão da ilha da OEA.
Mas, nesse caso, a primeira impressão não foi a que ficou. Um outro pequeno país centro-americano, Honduras, foi a primeira pedra no sapato da relação EUA-América Latina. É verdade que Obama não hesitou em dar apoio retórico ao derrocado Manuel Zelaya. Mas é verdade também que não passou muito disso. Duras sanções econômicas, que poderiam dobrar o regime golpista, não vieram e, com a campanha eleitoral para eleger o sucessor de Zelaya já iniciada, se vierem agora, já não devem vingar.
Já abalada pelo imbróglio hondurenho, a imagem de Obama entre seus pares sul-americanos sofreu outro baque com a negociação para ampliar a presença militar americana na Colômbia. A tática de Obama de simplesmente dizer que as bases não serão americanas, mas sim bases colombianas para uso americano, e que servirão só para o combate ao narcotráfico exclusivamente dentro da Colômbia não bastou para acalmar a desconfiança regional. Como disse Hugo Chávez, "os EUA podem até jurar ao Vaticano", mas a América do Sul não tem motivos para acreditar.
Enquanto isso, Lula, que sob Bush ocupou o vácuo deixado pelos EUA na região, pode até ser "o cara" para Obama, mas não conseguiu do americano as garantias jurídicas que pede para assegurar o "bom uso" das bases ou mesmo a aceitação do convite para que ele discutisse o tema com seus colegas sul-americanos durante a próxima Assembleia Geral da ONU. Tampouco conseguiu, por ora, que os EUA apertem o cerco a Honduras.
Assim, o efeito da lua de mel com Obama e sua história de vida única, como já acontece dentro dos EUA, também vai pouco a pouco se diluindo na vizinhança. Por enquanto, o democrata ainda recebe uma espécie de habeas corpus: Chávez e seus aliados dizem que o "império" continua fazendo e acontecendo na região, mas à revelia de Obama, e não por causa dele. Mas o legado de Bush não servirá de álibi eterno.
Obama, desnecessário dizer, tem problemas muito mais urgentes do que a América Latina, como as guerras, a economia e a reforma de saúde, que consome sua popularidade. Mas terá de lidar com o tema se quiser que continue existindo a família feliz das Américas que celebrou a cúpula de abril, em Trinidad e Tobago, como um "ponto de inflexão" nas relações regionais.

Texto de Rodrigo Rötzsch, na Folha de São Paulo de 2 de setembro de 2009.


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segunda-feira, setembro 21, 2009

Comparação com transições dos anos 90 é falaciosa - sobre o golpe em Honduras e as velhas ditaduras militares latino americanas

Comparação com transições dos anos 90 é falaciosa

CLAUDIA ANTUNES
DA SUCURSAL DO RIO

É imperfeita, no mínimo, a comparação feita à Folha pelo presidente da Costa Rica, Óscar Arias, entre processos de pacificação e/ou democratização na América Latina no final dos anos 80 e início dos 90 e o debate atual sobre o reconhecimento ou não de um futuro governo hondurenho, caso não haja acordo até as eleições para a volta do presidente deposto.
A frase de Arias para defender que não se boicote o governo eleito -"Foi com Pinochet que se realizaram eleições e foi com regimes de força na América Central que houve eleições"- não corresponde de fato ao que houve naquela época.
Em nenhum dos exemplos um "regime tirânico" convocou votação, ditando regras, e seu resultado foi considerado legítimo não apenas por outros países, mas principalmente por todas ou a maioria das correntes políticas domésticas.
Ao contrário. Se for possível, no futuro, traçar paralelo com o caso hondurenho, ele virá do fato de que as eleições que fizeram parte da pacificação da América Central e da democratização do Chile resultaram de acordos entre forças internas, com concessões mútuas e sob pressão ou mediação externa.
Em segundo lugar, o contexto é diferente, já que os regimes citados por Arias vieram de conflitos inscritos na lógica da Guerra Fria. O que estava em questão na época era a superação das marcas desse período.
A ideia de que eleições livres e limpas devem ser referência para reconhecimento de governos só foi sacramentada neste hemisfério em 2001, com a Carta Democrática da Organização dos Estados Americanos.
Finalmente, há diferenças entre os processos citados de paz, mesmo dentro da própria América Central, que tornam generalizações arriscadas.
Em El Salvador, um governo eleito em pleito contestado e apoiado pelos militares assinou acordo mediado pela ONU que, em 1992, determinou a reintegração dos ex-rebeldes, expurgos nas Forças Armadas e uma Comissão Verdade. As primeiras eleições pós-conflito ocorreram em 1994.
Na Guatemala, o acordo entre governo e guerrilheiros só veio em 1996, também com mediação da ONU e Comissão Verdade. Nos quase 40 anos de guerra civil, o país teve governos eleitos em votações irregulares e ditaduras militares. Nenhum teve problema duradouro de reconhecimento formal.
Na Nicarágua, eleições realizadas pelos sandinistas em 1984 foram reconhecidas por observadores internacionais, mas não pelos EUA nem pela oposição conservadora, que boicotou o pleito. Acordo entre o governo e os contra, em 1987, levou à formação da União Nacional Opositora, vitoriosa nas eleições de 1990.
O caso chileno foi o único em que eleições foram divisor de águas nas transições citadas por Arias. Elas ocorreram depois de pressão dos EUA para que o general Augusto Pinochet realizasse, em 1988, referendo sobre seu mandato previsto na Carta outorgada por ele, e no qual foi derrotado.
O pleito de 1989 foi precedido de acordo político: Pinochet reteve parte do poder, mas os exilados voltaram e houve reformas constitucionais, incluindo o fim do banimento de partidos marxistas.
Como mediador da crise hondurenha, Arias trouxe à luz um debate que é intenso nos bastidores. Mas argumentos mais convincentes devem partir do contexto de hoje e do caso específico de Honduras.

Texto publicado na Folha de São Paulo, de 4 de setembro de 2009.

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terça-feira, setembro 15, 2009

Deixemos Obama em paz

Deixemos Obama em paz

TODAS AS semanas, se não todos os dias, leio na imprensa lamentos de que o presidente Barack Obama não está interessado na América Latina ou então apelos para que ele se interesse. São lamentos e apelos de quem espera que os EUA "ajudarão" os países latino- -americanos. Respeito essa opinião ou essa esperança, mas definitivamente não partilho dela. O Brasil e os demais países da região não têm o menor interesse em que o grande país do Norte volte suas atenções para o Sul, porque esse país jamais os ajudou; pelo contrário, com muita frequência, interveio de forma imperialista a fim de garantir seus interesses ou os interesses de suas empresas instaladas na região. Vejo também críticas à política externa do Brasil porque estaríamos nos aliando a países "não democráticos", como Bolívia e Paraguai. Críticas na imprensa americana que são reproduzidas e ampliadas na grande imprensa conservadora dos países latino-americanos. De repente, as elites conservadoras, que sempre se caracterizaram pela dependência em relação aos EUA, tornam-se "nacionalistas" em relação a esses países que são muito pobres. Ora, por serem pobres e pela consequente falta de uma sociedade civil organizada, de boas instituições e de um Estado capaz, esses países são muito difíceis de governar. Países nos quais a exclusão foi muito forte e existiu por muito tempo. Países cujos governos nacionalistas e de esquerda buscam agora refundar a respectiva república por meio da integração dos pobres e dos excluídos na democracia possível -na democracia que países e sociedades tão heterogêneas e Estados tão fracos podem construir.
Finalmente, sabemos como foram desastrosas as políticas neoliberais do Consenso de Washington. Não levaram ao desenvolvimento, mas a crises financeiras e ao aumento da desigualdade nos países que se submeteram a elas. Há algumas semanas vimos mais um golpe militar na América Latina, e, não obstante os protestos do governo americano, parece claro que houve ao menos a aquiescência dos EUA. Como houve sua participação ativa na tentativa de derrubar o presidente Hugo Chávez, em 2002. Agora, leio que em 1971 o Brasil conspirou com os EUA para derrubar o presidente do Chile, Salvador Allende. Uma conspiração que foi "vitoriosa" dois anos depois. É isso o que esperam os críticos da política externa brasileira? É esse tipo de aproximação que esperam aqueles que lamentam a falta de atenção de Obama pela América Latina? Que o Brasil se associe ao imperialismo americano agora, como fez no regime militar? Que o Brasil adote as políticas neoliberais que fracassaram na América Latina e nos próprios EUA, mas continuam a ser recomendadas pelas agências internacionais controladas pelos norte- -americanos?
Ou então talvez esses lamentadores estejam querendo que o Brasil se associe aos EUA como o fez o México? Qual foi o resultado dessa associação? Taxas de crescimento muito baixas, grande aumento da criminalidade e das drogas e, agora, nesta crise, uma brutal queda do PIB. Definitivamente, o presidente Obama é sábio em deixar a América Latina de lado. Ele é uma esperança para os EUA e para o mundo. Os governos dos países pobres não ameaçam seu país. Tanto para ele, portanto, como para nós, latino-americanos, é melhor que não se interesse pela América Latina. Deixemos Barack Obama em paz. Essa é a melhor maneira de promover os interesses comuns que a região tem com os EUA.

Texto de Luiz Carlos Bresser-Pereira, na Folha de São Paulo, de 24 de agosto de 2009.


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sexta-feira, setembro 04, 2009

Águas Turvas - Os Estados Unidos e a América Latina

Águas turvas

TRÊS DESDOBRAMENTOS recentes na América Latina revelam o perigo da continuada desatenção dos EUA à região.
O primeiro foi a conferência de cúpula anual entre os três líderes da América do Norte realizada em Guadalajara, México (Nafta). O segundo foi a reunião dos líderes sul-americanos em Quito, Equador (Unasul). O terceiro é a crise que continua em Honduras.
A conferência de cúpula anual entre o presidente Felipe Calderón, o presidente Barack Obama e o primeiro-ministro Stephen Harper não resultou em grandes novidades. Mas elas tampouco eram esperadas. No entanto, as questões em jogo continuam a ser muito contenciosas. Envolvem a disputa corrente sobre o acesso de caminhões mexicanos aos Estados Unidos, bloqueada devido à influência do sindicato dos caminhoneiros norte-americanos, o Teamsters.
E também envolvem a contenciosa questão da imigração, no momento um assunto quente entre o Canadá e o México. Novas leis de imigração são essenciais, concordou o presidente Obama, mas alertou que não se deveria esperar novidades quanto a isso neste ano.
A conferência de cúpula sul-americana no Equador foi mais contenciosa, ainda que o presidente colombiano, Álvaro Uribe, não tenha comparecido. A controvérsia, no caso, girava em torno do acordo entre Estados Unidos e Colômbia que concede às Forças Armadas norte-americanas acesso a sete bases militares na Colômbia.
O motivo original do arranjo foi o cancelamento de um tratado entre os EUA e o Equador, mas o presidente Hugo Chávez rompeu o protocolo e fez da questão uma séria queixa. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva apoiou a ideia de uma nova conferência em Buenos Aires, que daria ao presidente Obama a oportunidade de defender o acordo entre Estados Unidos e Colômbia, algo que é bastante improvável que ele faça.
Enquanto isso, a crise em Honduras continua. O presidente Obama declarou, na conferência de cúpula da Guadalajara, que "aqueles que argumentam em favor de maior envolvimento dos Estados Unidos em Honduras são os mesmos que se queixavam da intervenção norte-americana na América Latina".
Bem, não exatamente. Os latino-americanos são unânimes em seu apoio a Manuel Zelaya, o presidente hondurenho derrubado. A vacilação de Washington agravou a situação em Honduras e permitiu que a política interna norte-americana influenciasse fortemente na situação.
O governo dos Estados Unidos certamente enfrenta muitos problemas prementes, mas a falta de atenção à América Latina tem um preço.


KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Texto publicado na Folha de São Paulo, de 13 de agosto de 2009.


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terça-feira, julho 21, 2009

Honduras, Etc.

HONDURAS ETC.
O risco de violência em Honduras ocupou os sites, ontem no Brasil. E o espanhol "El País" deu o artigo "América Latina, a democracia abre fogo", dizendo que "os acontecimentos de Guatemala, Peru e Honduras tiram credibilidade da democracia liberal e reforçam popularidade de Chávez". O golpe hondurenho, de resistência ao venezuelano, acabou elevando sua "legitimidade em toda a região".

Trecho da Coluna Toda Mídia, na Folha de São Paulo, de 21 de julho de 2009.

São amostras dos “liberais” latino-americanos.

Na Guatemala se utilizaram de um assassinato de um jornalista e uma gravação em vídeo para tentar depor o presidente eleito. No Peru se tentou entregar partes da Amazônia à exploração mineral contra a vontade das comunidades indígenas dali. E em Honduras este golpe de estado.


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A direita latina contra-ataca ante a hesitação de Obama

A direita latina contra-ataca ante a hesitação de Obama

"Distração" dos Estados Unidos permite que a situação golpista em Honduras se cristalize e incentiva setores conservadores em outros países da América Central

IMMANUEL WALLERSTEIN

O GOVERNO de George W. Bush foi o momento da maior onda de vitórias dos partidos à esquerda do centro na América Latina, em mais de dois séculos. O governo de Barack Obama corre o risco de ser o momento da vingança da direita na região.
O motivo pode ser o mesmo: a combinação entre o declínio do poderio americano e a posição central que os EUA ainda mantêm na política mundial. Os EUA são incapazes de se impor, mas ainda assim são vistos como aliados necessários por quase todo o mundo.
O que aconteceu em Honduras? O país vem sendo há muito tempo um dos mais seguros pilares das oligarquias latino-americanas -uma classe dominante arrogante e insubmissa, com estreitas conexões com os EUA, em um país que abriga uma grande base militar americana. As Forças Armadas do país são cuidadosamente recrutadas de maneira a evitar qualquer contágio por oficiais com simpatias populistas.
Como oriundo da classe dominante, a expectativa era a de que Zelaya continuasse a jogar o jogo como os presidentes hondurenhos sempre jogaram. Mas, em vez disso, sua posição política começou a ganhar tons esquerdistas. Zelaya empreendeu programas internos que, na verdade, faziam alguma coisa pela vasta maioria da população -construção de escolas em regiões rurais remotas, aumento no salário mínimo, criação de clínicas de saúde. Após dois anos, aderiu à Alba, a organização de cooperação internacional fundada pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez.
Depois, ele propôs realizar um plebiscito sobre a opinião da população quanto à possível convocação de uma Assembleia Constituinte. A oligarquia berrou que isso era uma tentativa de mudar a Constituição para que Zelaya pudesse disputar um segundo mandato. Mas, como o plebiscito seria realizado na mesma data em que a eleição de seu sucessor, a alegação era claramente falsa.
Por que, então, o Exército conduziu um golpe de Estado, com apoio da Corte Suprema, do Legislativo e da Igreja Católica? Dois fatores foram decisivos: a opinião desses grupos sobre Zelaya e sua opinião sobre os EUA. Para a oligarquia hondurenha, Zelaya traiu sua classe e por isso merece ser punido, para servir como exemplo.
E quanto aos EUA? Quando o golpe aconteceu, alguns dos mais ruidosos comentaristas de esquerda da blogosfera o definiram como "golpe de Obama". Mas isso ignora a realidade. Nem Zelaya, nem seus partidários nas ruas, nem Chávez e nem Fidel Castro analisam a situação de maneira tão simplista. Todos eles percebem a diferença entre Obama e a direita americana (políticos ou comandantes militares) e expressaram repetidamente uma análise muito mais balanceada.
Parece bastante claro que a última coisa que o governo Obama desejava era um golpe como esse. O golpe, na verdade, foi uma tentativa de forçar Obama a uma atitude. E essa posição foi sem dúvida encorajada por importantes figuras da direita americana, entre as quais Otto Reich, o americano de origem cubana que assessorava Bush sobre a política regional. Foi algo parecido com a tentativa do presidente Mikhail Saakashvili, da Geórgia, de forçar uma ação dos EUA, ao invadir a Ossétia do Sul. Aquela também foi uma ação empreendida com a conivência da direita dos EUA. Mas não funcionou porque os soldados da Rússia impediram.
Obama está vacilando desde o golpe em Honduras. E por enquanto a direita hondurenha e dos EUA está contente por ter conseguido reverter a política americana. Bastam algumas de suas declarações mais absurdas como prova. O chanceler hondurenho apontado após o golpe, Enrique Ortez, afirmou que Obama era "um negrinho que não sabe nada de nada". O embaixador dos EUA protestou contra o insulto, e Ortez terminou transferido a outro posto.
A direita dos EUA é mais polida, mas não menos feroz. O senador republicano Jim DeMint, a deputada de origem cubana Ileana Ros-Lethinen e o advogado conservador Manuel Estrada vêm insistindo em que o golpe era justificado porque, na verdade, não foi um golpe, e sim uma defesa da Constituição hondurenha. E Jennifer Rubin, uma blogueira de direita, publicou um post intitulado "Obama está errado, errado, errado sobre Honduras".
A direita hondurenha está tentando ganhar tempo, até que se encerre o mandato de Zelaya. Caso consigam realizar esse objetivo, terão vencido. E as direitas guatemalteca, salvadorenha e nicaraguense estão assistindo a tudo, ansiosas por promover golpes contra os governos de seus países.
A esquerda chegou ao poder na América Latina devido ao momento econômico propício e à distração dos EUA. Agora, a distração continua, mas o momento econômico é pior. E a esquerda leva a culpa por estar no poder, ainda que na verdade haja pouco que os governos de esquerda possam fazer quanto à economia mundial.
Será que os EUA podem fazer algo mais com relação ao golpe? Bem, é evidente que sim. Primeiro, Obama poderia oficialmente classificar o golpe como golpe. Isso faria com que passasse a valer a lei americana que dispõe que toda a assistência dos EUA a Honduras seja suspensa. Ele poderia retirar o embaixador americano do país.
Poderia dizer que não há nada a negociar, em lugar de insistir em "mediação" entre o governo legítimo e os líderes do golpe.
Por que não faz tudo isso? É simples. Há pelo menos quatro outros itens de grande urgência em sua agenda: a confirmação de Sonia Sotomayor para a Suprema Corte; a confusão no Oriente Médio; sua necessidade de aprovar ainda neste ano seu pacote de saúde; e a pressão pela abertura de um inquérito sobre os atos ilegais do governo Bush. Lamento, mas Honduras ocupa o quinto lugar.
Assim, Obama vacila. E ninguém ficará satisfeito. Zelaya pode ser restituído ao seu posto, mas talvez só daqui a três meses. Tarde demais. Melhor ficar de olho na Guatemala.

IMMANUEL WALLERSTEIN, pesquisador sênior na Universidade Yale, é autor de "O Declínio do Poder Americano" (Contraponto). Este artigo foi distribuído pela Agence Global.

Texto publicado na Folha de São Paulo, de 16 de julho de 2009.

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sexta-feira, julho 10, 2009

José Simão Vê uma manifestação a favor do golpe de estado em Honduras

“E Honduras, hein? Honduras parece aula de geografia: Honduras, capital Tegucigalpa! E eu vi uma manifestação a favor do golpista, que eles chamam de oposição. Oposição shopping center: só tinha mauricinho e loira farmácia de jeans e salto alto. Oposição Miami! É mole?
É mole, mas sobe! Ou como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! “

Na coluna dele, na Folha de São Paulo, de 10 de julho de 2009.

Eu não vi esta manifestação referida pelo Zé Simão, mas se parece tanto com as manifestações da oposição a Chávez na Venezuela...


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terça-feira, maio 05, 2009

O esquecimento que destrói tudo

O esquecimento que destrói tudo

Sergio Ramírez
Cartagena das Índias (Colômbia)

Não há nada pior do que o esquecimento, diz o escritor Lyonel Trouillot enquanto admiramos o anoitecer que avança como uma leve névoa sobre Porto Príncipe, sentados no terraço do Ibo Lele, um hotel cujo glamour perdido é testemunhado por fotos das estrelas de Hollywood penduradas nas paredes do bar, rostos que não dizem mais nada nem ao cinéfilo mais fiel. O poeta Jorge Castera nos acompanha à mesa, e os dois sofrem, com humor, as feridas abertas do seu país. Rir das feridas abertas é uma forma de não esquecer.

O esquecimento. Entre os jovens, ninguém mais lembra quem foi Francoise "Papa Doc" Duvalier, o médico rural que se proclamou presidente vitalício do Haiti e passou o trono ao seu filho, um adolescente de 136 kg de peso, "Baby Doc" Duvalier, ambos frios assassinos que mataram milhares de pessoas em nome do seu santo poder, mantido graças aos seus capangas, os Tonton Macutes (Bicho Papão), que também caíram no esquecimento.

Eu comento com eles que na Nicarágua, os jovens também não sabem que existiu a dinastia Somoza e que durou meio século, mas, além disso, as pesquisas mostram que uma porcentagem alta dos maiores de 40 anos sente saudades do último Somoza e pensa que ele foi um grande presidente, enquanto muitos jovens nem imaginam que para derrubar a Somoza foi necessário uma revolução.

A risada de Trouillot brilha como o fio de uma alegre faca. O próprio Papa Doc escreveu um "Catecismo da Revolução" com orações que deveriam ser feitas a ele e a sua esposa Simone. Para a sua esposa, uma Saudação Angelical, como se ela fosse a Virgem Maria. Para ele, um Pai Nosso, e o declama: "Doutor nosso que está para sempre no Palácio Nacional, abençoado seja o seu nome pelas presentes e futuras gerações. Seja feita a sua vontade, tanto em Porto Príncipe como nas outras províncias. Dê-nos um novo Haiti, e não perdoe nunca a ofensas antipatrióticas que a cada dia proferem contra a nossa pátria. Deixe-os cair em tentação sob o peso das suas babas venenosas, e não os libere de mal nenhum, amém".

O que me chama a atenção, digo, é que Duvalier acreditasse estar promovendo uma revolução. Uma revolução negra, diz Castera, a sustentação filosófica dele sempre foi a raça. A supremacia negra, como ao longo da história do Haiti, desde a independência. A filosofia transformada em crime, e as crenças religiosas manipuladas à sua vontade.

Papa Doc acreditava, ou queria que acreditassem, que ele era a encarnação do espírito do Baron Samedi, o deus da morte no vodu, invisível e onipresente, que percorre os cemitérios à noite sempre vestido de rigoroso preto, como o próprio Papa Doc se vestia, para celebrar rituais noturnos com os cadáveres dos seus inimigos.

Um militar que tinha sido seu aliado rebelou-se contra ele. Quando foi preso, teve a sua cabeça decepada e enviada ao Palácio Nacional conservada em gelo. Papa Doc a colocou sobre a sua mesa de trabalho e fazia perguntas ao além sobre o destino do seu governo. Para neutralizar as suas relações com os espíritos, os inimigos do governo desenterraram o cadáver do seu pai e o cobriram de excrementos.

Eu conto aos meus companheiros sobre a cabeça de Pedrón Altamirano, um assessor de Sandino, assassinado por ordem do velho Somoza. A sua cabeça foi levada a Manágua dentro de um saco de cal viva para ser exposta no quartel do Campo de Marte por vários dias, quando já cheirava mal. Eu relatei esse fato no meu romance ¿Te dio miedo la sangre? (Sentiu medo do sangue?)

Jean Bertrand Aristide, o sacerdote salesiano duas vezes presidente e duas vezes derrubado, não caiu no esquecimento e, exilado na África do Sul, surge nas conversas como um fantasma inquieto. Pergunto sobre Aristide. A noite chegou e se enche com o canto dos coquís, pequenos sapinhos que cantam na escuridão.

"O autoritarismo, a concentração do poder em um único homem que acaba por acreditar que está predestinado foi um mal constante no Haiti desde a independência", diz Trouillot. "Há frases retiradas dos discursos de Duvalier e de Aristide que são idênticas. Ambos têm a mesma origem, vieram da pobreza, do desamparo, mas as suas respostas foram messiânicas e erradas". A única coisa que eu posso responder é que se colocamos um espelho na frente do rosto do Haiti, o reflexo me devolve a imagem da Nicarágua.

Atrás de cada líder que surge na história estão os espíritos para erguê-lo ou derrotá-lo. No dia 11 de setembro de 1988, o padre Aristide rezava uma missa na humilde igreja de San Juan Bosco quando os Tonton Macutes entraram à sua procura e mataram dezenas de fiéis, mas ele conseguiu fugir. A mão divina já estava sobre a sua cabeça protegendo-o, e depois o perdeu.

O branco edifício do Palácio Nacional, coroado por três cúpulas e que parece iluminado por um brilho sobrenatural, exerce um encantamento imperioso sobre aqueles que passam pelas suas portas como presidentes. Eles se sentem indefesos, e tecem mecanismos de poder que os leva ao fracasso; assim, o padre Aristide inventou as milícias, chamadas de As Quimeras, para que o defendessem. Mas esses grupos de jovens armados acabaram matando pelas ruas os inimigos da sua revolução.

Os espíritos dos cemitérios vodu são os únicos que têm boa memória e não se esquecem de repetir a história com a sua mão implacável.

Texto publicado no Terra Magazine.

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terça-feira, março 17, 2009

Cúpula de milionários

CÚPULA DE MILIONÁRIOS

No alto da home page do espanhol "El País", ontem, "Cúpula de milionários na Colômbia", mais a explicação "Os homens mais ricos da América Latina se reúnem com as suas famílias na cidade de Cartagena para analisar o impacto da crise em seus negócios". Abrindo o texto, "poucas vezes o aeroporto de Cartagena viu aterrissar tanto avião privado".
De início, "pretendia-se manter em segredo os nomes dos 15 magnatas", mas vazou. O anfitrião é o colombiano Julio Santo Domingo. Entre os presentes, "o venezuelano Gustavo Cisneros, os argentinos Paolo Rocca, Federico Braun e Alfredo Román e os chilenos Andrónico Luksic e Alvaro Saieh. Também estão os brasileiros João Roberto Marinho, David Feffer e Antonio Moreira Salles".

Trecho da Coluna Toda Mídia, de Nelson de Sá, na Folha de São Paulo, de 11 de março de 2009.

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quinta-feira, janeiro 29, 2009

A América Latina vai bem

A América Latina vai bem, obrigado

LULA E BARACK Obama conversaram por 25 minutos e, segundo a narrativa do Planalto, Nosso Guia não pronunciou a palavra Cuba. Como diria Rick (Humphrey Bogart) no aeroporto de Casablanca: "Luiz, esse é o começo de uma bonita amizade". Cuba não é um problema brasileiro, é um problema americano e Obama sabe que precisará descascar esse abacaxi. Ele não tem medo do comunismo de museu da Ilha, o que os americanos temem é uma fuga em massa de cubanos para Miami. A América Latina não é parte desse problema, é parte da solução.
A região vive um período de paz, progresso e diversidade. Completam-se em março 32 anos do golpe militar argentino, o último do gênero. (Noves fora o fracassado putsch dos grã-finos de Caracas, estimulado pela Casa Branca em 2002.)
A agenda Brasil-Estados Unidos não tem contencioso. Tem avenidas para um melhor entendimento, dos biocombustíveis ao meio ambiente.
Isso não quer dizer que os demônios estejam quietos. Basta um pouco de contorção intelectual para se considerar a América Latina um continente em ebulição, com o chavismo venezuelano, a mística indígena boliviana, o esquerdismo de Rafael Correa e, quem sabe, a ingenuidade do paraguaio Fernando Lugo. Todos eleitos, dois deles confirmados nos mandatos por referendos populares.
É interessante observar que a turma do contorcionismo estava calada e contente quando Alfredo Stroessner governava o Paraguai, Augusto Pinochet, o Chile, e os generais açougueiros, a Argentina.
A encrenca que Bush deixou para Obama está alhures. Imagine-se um cenário no qual houvesse um país latino-americano metido com o narcotráfico, gastando uma receita de US$ 716 milhões, enquanto fatura US$ 4 bilhões no comércio de drogas. Esse país existe e não é a Bolívia do companheiro Evo, mas o protetorado americano do Afeganistão, governado pela cleptocracia de Hamid Karzai. Sob as armas de Bush, o Afeganistão tornou-se o provedor de 90% do ópio consumido no mundo. O narcotráfico carrega metade do PIB do país. Lá os Estados Unidos vivem a guerra externa mais longa de sua história e o companheiro Obama quer manter 60 mil soldados no pedaço. Os narcotraficantes são seus aliados. (Registro necessário: em 1989, havia generais americanos planejando uma intervenção militar na Amazônia, com o propósito de erradicar o tráfico de cocaína. Meses depois, Saddam Hussein invadiu o Kuwait e eles mudaram de assunto.)
Outro bom aliado dos Estados Unidos são os militares paquistaneses, com um arsenal de cem bombas atômicas. O risco dessas armas serem atiradas contra a Índia é muito menor que a possibilidade de algumas delas acabarem nas mãos de terroristas. O dono do programa nuclear paquistanês tornou-se contrabandista de tecnologia e vendeu o caminho das pedras para a Coreia do Norte. Ajudou o Irã e foi apanhado em 2003, entregando centrífugas à Líbia.
Comparada com essas regiões (e essas agendas), a América Latina é um balneário. Evo Morales e Hugo Chávez expulsaram os embaixadores americanos. E daí? Chávez será um valente no dia em que parar de vender petróleo aos americanos. O antiamericanismo verbal não faz mal a ninguém e, com Obama, arrisca sair de moda. É preferível ter Evo Morales por inimigo do que Hamid Karzai como amigo.

Texto de Elio Gaspari, na Folha de São Paulo, de 28 de janeiro de 2009.

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Cerco à OEA

Cerco à OEA se delineia há tempos

NEWTON CARLOS
ESPECIAL PARA A FOLHA

A OEA (Organização dos Estados Americanos) naufraga num mar de alternativas regionais cujo acento maior é a exclusão dos EUA. É o caso da proposta de uma nova organização de países da América Latina e do Caribe, que se junta a outras iniciativas do mesmo teor, como o Grupo do Rio e a Unasul.
Washington já fora avisada por instituições acadêmicas americanas de que a OEA corre o risco de perder vigência.
Seria a quebra do mais importante elo da cadeia de ações coletivas envolvendo América Latina e EUA, com predominância histórica dos americanos. A OEA chegou a ser chamada de ministério das colônias dos EUA.
O primeiro golpe foi dado com o Grupo do Rio, inspirado no fracassado Grupo de Contadora. Em 1984, países latino-americanos se reuniram na ilha panamenha de Contadora para encontrar soluções para a guerra na América Central, que se tornara sangrenta com aberta intervenção americana.
Uma OEA sem os EUA? Contadora chegou a concluir um texto de proposta de paz. Mas sofreu operação de bloqueio conduzido por Constantine Menge, na época o encarregado da América Latina no Conselho de Segurança Nacional dos EUA.
A revista "Current History" divulgou documentos que estabeleciam como "estratégia do governo Reagan" impedir negociações de paz na América Central.
O único que importava era derrubar os sandinistas na Nicarágua e com isso, na visão reaganiana, traçar uma "linha de contenção do comunismo em território americano". Deu no escândalo de contrabando de armas para o Irã e num quase impeachment de Reagan.
O Grupo do Rio procura resgatar o espírito de Contadora. Ou buscar soluções latino-americanas para problemas da América Latina. Cuba formalizou seu ingresso na cúpula na Bahia, o que marca mais distância da OEA.
Bush ainda tentou resgatar algo dessas relações empoeiradas em benefício próprio, com o seu "Pathways for Prosperity", um discurso sobre os caminhos para a prosperidade. Foi lançado em setembro ante representações de alto nível de apenas 11 países latino-americanos, nem todos presidentes. Em pouco tempo não se falava mais nisso.

Texto da Folha de São Paulo, de 18 de dezembro de 2008.

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sexta-feira, novembro 21, 2008

O legado de George W. Bush para a América Latina

Pablo Calvi
De Nova Iorque

Quando se analisa o legado político dos dois mandatos de George W. Bush em termos de política externa na América Latina é necessário recorrer a um conceito cunhado por cientistas políticos norte-americanos e que indica uma inesgotável criatividade: benign neglect, ou, negligência benigna, remete a uma situação na qual uma sistemática falta de interesse culmina num cenário claramente positivo.

É claro que nos últimos oito anos, América Latina foi posta de lado na agenda prioritária do Executivo norte-americano. Claro que esta situação, somada ao interesse quase exclusivo de George W. Bush pelo Oriente Médio, resultou num fortalecimento institucional na América Latina. Graças, justamente, à falta de intervenção na região estamos hoje falando de mais de 20 anos de democracia ininterrupta, explica Maria Victoria Murillo, analista e professora de Ciência Política da Universidade de Columbia, em Nova Iorque.

"As intervenções norte-americanas foram sempre negativas e o que ocorreu nos últimos anos comprova isso", diz Murillo. "As democracias estão num momento excelente na região, as instituições mostram-se mais sólidas e há mostras de que isto continuará assim por muito tempo. Há 30 ou 40 anos, ninguém poderia imaginar que as coisas estariam assim tão bem".

A surpresa tem a ver não apenas com a estabilidade institucional na região, que desde os anos 80 vem trabalhando em diferentes processos de consolidação.

"Curiosamente, Bush foi o presidente com mais interesse pessoal pela América Latina e uma das provas disso é que em sua primeira viagem como presidente ele foi para o México", recorda a analista. "Desde que era governador do Texas, sempre mostrou-se próximo à América Latina. Mas a pauta do Oriente Médio o manteve quase que completamente distraído", exceto por algumas claras exceções, pontua Murillo.

Patricio Navia, cientista político e professor da Universidade de Nova Iorque (NYU) converge com a analista de Columbia. Para Navia, "durante os últimos 8 anos, Estados Unidos e América Latina se ignoraram um ao outro, mas isso permitiu ir deixando para trás uma história complexa de intervenções indesejadas. Agora a agenda está muito mais limpa para poder reconstruir relações que vão além do livre comércio sem que pese a herança da Guerra Fria".

De fato, a disputa silenciosa iniciada com o fim da Segunda Guerra Mundial teve conseqüências sumamente nocivas para a região. Desde intervenções em temas de política interna até reiteradas invasões, os Estados Unidos não deixaram de marcar território nas frágeis e circunstanciais democracias latino-americanas, amparando, inclusive, vários regimes totalitários nos casos em que considerou haver risco ideológico de uma iminente ascensão da esquerda.

"Se recapitularmos, desde Noriega (Manuel Noriega, líder militar que governou o Panamá entre 1983 e 1989) que os EUA não invadem nenhum país da América Latina", assinala Murillo. "E se comparamos com os últimos 100 anos, isto é muito interessante. Claro que há problemas, sobretudo econômicos, porém, parece que os países da região estão passando por um grande momento institucional".

Para ambos analistas, a negligência benigna de Bush teve, entretanto, dois pontos questionáveis. O primeiro foi o apoio ao golpe institucional na Venezuela, em 2002. Com Otto Reich como Secretário de Estado para Assuntos Hemisféricos, Bush deu continuidade à política de intervenção regional que começou com Reagan, a qual Bush Pai seguiu quase ao pé da letra. "Mas a mudança ocorreu assim que Bush integrou ao seu gabinete o diplomata Thomas Shannon", explica Murillo. "Basicamente a partir desse momento, a América Latina teve liberdade de agir como quisesse".

O segundo erro foi a política antidrogas aplicada na Colômbia, por causa da pouca eficiência apresentada na hora de limitar a entrada de cocaína nos Estados Unidos, o que acabou deslocando a produção e o tráfico para países como México e Brasil.

Dos países que mais se beneficiaram, Navia sugere que, sem dúvida, foram aqueles que conseguiram firmar acordos de livre comércio com o gigante do norte. "Muito embora este tema se complicará daqui pra frente", antecipa.

"Acho que o acordo com a Colômbia tem menos de 50% de possibilidades de ser aprovado com Obama", confirma Murillo.

Para os dois analistas, um dos temas que mais mudará na agenda do Executivo será a relação com Cuba. "As restrições para viagens e remessas de dinheiro cairão assim que Obama assumir o governo", vaticina a professora da Columbia. "E tudo que tenha a ver com decretos, e tudo o que puder ser feito para melhorar as relações entre os dois países, sairá rápido. O bloqueio está apoiado numa lei e seguramente tardará mais", assegura.

"Na nova administração, a ênfase terá que ser a consolidação das instituições e a democracia", adianta Navia. "Porque já não há mais espaço para avançar em acordos de livre comércio, dado que a maioria deles já foi assinada e os países da região que não assinaram não estão interessados em fazê-lo".


Texto do Terra Magazine.


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