terça-feira, dezembro 08, 2009

O Império, O Império da Lei, e o Golpe

GOLPE TOLERADO

Em editorial, o "NYT" lamenta como, após "começar forte, o governo Obama hesitou" em Honduras. Questiona Thomas Shannon, indicado embaixador no Brasil, por ter saído dizendo que os EUA aceitariam as eleições sob controle golpista. Cobra investigação interna do golpe e a volta das "liberdades civis, inclusive liberdade de imprensa". Afirma que, "até lá, os EUA não devem restaurar a ajuda a Honduras", nem a OEA aceitar o país:
"Os militares de Honduras e de toda a região precisam saber que golpes não serão tolerados."

OLIGARQUIAS
A "New Yorker" vai além e afirma que "a humilhação do governo Obama foi completa" em Honduras, com a recusa do retorno de Manuel Zelaya. Em longo texto, mostra como o Departamento de Estado cedeu aos republicanos e aos conservadores do próprio governo. E concentra fogo em Thomas Shannon, que acertou com os republicanos a aceitação do pleito, sob regime golpista, antes de viajar a Honduras. Foi uma "reação fingida dos EUA" e:
"Militares irrequietos e oligarquias nervosas, através de toda a América Latina, tomaram nota disso."

OPORTUNIDADES
Por outro lado, Peter Romero, que foi subsecretário de Estado de Bill Clinton para a América Latina, assina o artigo "Grande desafio, grande oportunidade", no "Miami Herald". Defende o golpe como defesa da democracia e sugere haver "uma dúzia de países, na América Latina, onde o cenário de Honduras poderia se reproduzir".
Propõe pronta ação para "apoiar os nossos amigos, isolar os agitadores populistas e restaurar o consenso democrático que definiu os interesses estratégicos dos EUA nas Américas desde o fim da Guerra Fria".

Trecho da coluna Toda Mídia, na Folha de São Paulo, de 7 de dezembro de 2009. Grifos do blogueiro.

É bom saber que continua havendo gente nos Estados Unidos, como este senhor Peter Romero citado acima, que diz que democracia é só quando os líderes são considerados amigos e alinhados com os interesses dos Estados Unidos.

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segunda-feira, dezembro 07, 2009

Honduras: Pleito serve para golpe de Estado ser legitimado

Pleito serve para golpe de Estado ser legitimado

CLAUDIA ANTUNES
DA SUCURSAL DO RIO

Considerando padrões mínimos, a eleição de ontem em Honduras não foi livre nem limpa, por ao menos três motivos que antecedem o pleito e que independem de se constatar ou não casos de fraude propriamente dita na votação:
1) O virtual estado de exceção a que o país está submetido, com militarização das maiores cidades, repressão a apoiadores do presidente deposto Manuel Zelaya e uso de métodos coercitivos, diretos ou indiretos, para promover a ida às urnas;
2) O alijamento do processo político de parte da população que apoia Zelaya e sua consequente incapacidade de fiscalizar as instituições que impulsionam o processo eleitoral;
3) A ausência de regras equânimes de publicidade, com a censura ou o fechamento dos meios de comunicação que se opuseram à deposição do presidente eleito.
Hoje, na ausência de observadores internacionais neutros, vai começar uma discussão continental interminável sobre se a eleição pode ser ou não considerada democrática.
A esta altura, é provável que os fatores mencionados acima acabem minimizados, a fim de que se conclua o processo acelerado de legitimação do projeto dos golpistas, que sempre foi usar a eleição para fechar a página do curto período em que o poder no país ameaçou escapar das mãos do pequeno grupo que o controla há décadas.
Talvez menos por convicção que pela fraqueza diante da ala conservadora da opinião pública e do Congresso americanos, a Casa Branca provocou essa situação ao recuar da resolução da OEA (Organização dos Estados Americanos) que havia endossado e que pedia a restituição "incondicional" de Zelaya.
A princípio, para evitar a ratificação do golpe, Óscar Árias foi chamado a negociar um acordo que contemplasse os dois lados. Mas logo ficou claro que o presidente costa-riquenho não era um mediador imparcial, o que estimulou os golpistas a fincar pé contra a saída negociada.
Árias vem repetindo que as eleições que marcaram as transições democráticas ao fim do ciclo de ditaduras militares na América Latina também foram sob regimes de força -argumento duplamente falacioso.
O importante naqueles casos não foram somente as eleições, como se convocadas pelo arbítrio de ditadores cansados, mas o fato de elas terem sido parte de acordos políticos que garantiram, entre outras coisas, a equanimidade e a limpeza do processo eleitoral.
E não havia naquele período a Carta Democrática, instrumento que permitiu a unânime condenação inicial dos países da OEA ao golpe. O documento é o mesmo que impede que a ditadura de partido único de Cuba se reincorpore à entidade. Ele distingue as relações intrarregionais, no seu aspecto de rejeição ao golpismo, das relações que os mesmos integrantes da OEA têm com as tantas autocracias que há no mundo.
A vitória do fato consumado em Honduras mina a Carta em seu patamar mais básico, o veto à deposição não democrática de autoridades eleitas, o que no futuro deverá ser lamentado.

Texto publicado na Folha de São Paulo, de 30 de novembro de 2009.

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Um golpe (de estado) de sucesso! Honduras, os Estados Unidos e o restante da América

Instabilidade

No topo das buscas pelo Yahoo News, com Bloomberg, "Brasil desapontado e frustrado com EUA". O assessor Marco Aurélio Garcia falou em "decepção" e relatou carta de Obama a Lula, justificando o apoio à eleição sob governo golpista, em Honduras.
Manchete no Terra, o embaixador brasileiro à OEA acrescentou que os EUA "se deram conta do isolamento e pediram ideias", daí a sugestão de adiamento, recusada. E agora "não dá para fazer nada".
De Madri, o "Valor" ouviu o diplomata espanhol destacado para a América Latina, que previu "instabilidade" pós-eleição e prometeu "reação conjunta" da Espanha com Brasil, Argentina e os demais.



"OLD-FASHIONED COUP"

Sob o título "Um golpe à moda antiga", a "New Yorker" dá oito páginas a Honduras. William Finnegan relata que no "golpe clássico" não faltou nem carta de renúncia forjada. Destaca como o país é ligado militar e comercialmente aos EUA, que reagiu e depois "mudou de posição". Agora, acrescenta o jornalista no site:
"A maioria dos países segue firme no princípio de que golpes simplesmente não são aceitáveis, nem eleições sem condições livres e justas. Mas com os EUA parece que os golpistas vão conseguir o que queriam."

ELEIÇÃO NÃO VAI LIMPAR

A "Time" também traz longa reportagem de Honduras, "Na América Central, golpes ainda vencem a mudança". Diz que "é improvável que qualquer nação -exceto talvez os EUA- reconheça o vitorioso do dia 29". Destaca declaração de Christopher Sabatini, da Americas Society, de Nova York, de que "não se pode usar eleição para limpar a sujeira após um golpe, isso só ameaça retroceder a democracia da América Central em décadas".
A "Economist", em nota, posta que a eleição "não deve resolver a crise iniciada por um golpe militar".

"Ou foram terrivelmente incompetentes ou foram terrivelmente cínicos. Em ambos os casos, sua credibilidade está muito deteriorada."
Do analista KEVIN CASAS-ZAMORA , do Instituto Brookings, tido como próximo a Obama, sobre a atuação do Departamento de Estado dos EUA em Honduras, na Reuters.

Trechos da coluna Toda Mídia, na Folha de São Paulo, de 25 de novembro de 2009.

Como já tinha sido possível perceber, o golpe de Honduras se encaminha para um sucesso absoluto, com um presidente inconveniente para a oligarquia deposto, e um novo representante da oligarquia eleito em eleições realizadas sob governo golpista.


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segunda-feira, setembro 21, 2009

Comparação com transições dos anos 90 é falaciosa - sobre o golpe em Honduras e as velhas ditaduras militares latino americanas

Comparação com transições dos anos 90 é falaciosa

CLAUDIA ANTUNES
DA SUCURSAL DO RIO

É imperfeita, no mínimo, a comparação feita à Folha pelo presidente da Costa Rica, Óscar Arias, entre processos de pacificação e/ou democratização na América Latina no final dos anos 80 e início dos 90 e o debate atual sobre o reconhecimento ou não de um futuro governo hondurenho, caso não haja acordo até as eleições para a volta do presidente deposto.
A frase de Arias para defender que não se boicote o governo eleito -"Foi com Pinochet que se realizaram eleições e foi com regimes de força na América Central que houve eleições"- não corresponde de fato ao que houve naquela época.
Em nenhum dos exemplos um "regime tirânico" convocou votação, ditando regras, e seu resultado foi considerado legítimo não apenas por outros países, mas principalmente por todas ou a maioria das correntes políticas domésticas.
Ao contrário. Se for possível, no futuro, traçar paralelo com o caso hondurenho, ele virá do fato de que as eleições que fizeram parte da pacificação da América Central e da democratização do Chile resultaram de acordos entre forças internas, com concessões mútuas e sob pressão ou mediação externa.
Em segundo lugar, o contexto é diferente, já que os regimes citados por Arias vieram de conflitos inscritos na lógica da Guerra Fria. O que estava em questão na época era a superação das marcas desse período.
A ideia de que eleições livres e limpas devem ser referência para reconhecimento de governos só foi sacramentada neste hemisfério em 2001, com a Carta Democrática da Organização dos Estados Americanos.
Finalmente, há diferenças entre os processos citados de paz, mesmo dentro da própria América Central, que tornam generalizações arriscadas.
Em El Salvador, um governo eleito em pleito contestado e apoiado pelos militares assinou acordo mediado pela ONU que, em 1992, determinou a reintegração dos ex-rebeldes, expurgos nas Forças Armadas e uma Comissão Verdade. As primeiras eleições pós-conflito ocorreram em 1994.
Na Guatemala, o acordo entre governo e guerrilheiros só veio em 1996, também com mediação da ONU e Comissão Verdade. Nos quase 40 anos de guerra civil, o país teve governos eleitos em votações irregulares e ditaduras militares. Nenhum teve problema duradouro de reconhecimento formal.
Na Nicarágua, eleições realizadas pelos sandinistas em 1984 foram reconhecidas por observadores internacionais, mas não pelos EUA nem pela oposição conservadora, que boicotou o pleito. Acordo entre o governo e os contra, em 1987, levou à formação da União Nacional Opositora, vitoriosa nas eleições de 1990.
O caso chileno foi o único em que eleições foram divisor de águas nas transições citadas por Arias. Elas ocorreram depois de pressão dos EUA para que o general Augusto Pinochet realizasse, em 1988, referendo sobre seu mandato previsto na Carta outorgada por ele, e no qual foi derrotado.
O pleito de 1989 foi precedido de acordo político: Pinochet reteve parte do poder, mas os exilados voltaram e houve reformas constitucionais, incluindo o fim do banimento de partidos marxistas.
Como mediador da crise hondurenha, Arias trouxe à luz um debate que é intenso nos bastidores. Mas argumentos mais convincentes devem partir do contexto de hoje e do caso específico de Honduras.

Texto publicado na Folha de São Paulo, de 4 de setembro de 2009.

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quinta-feira, agosto 20, 2009

Rachas (em Honduras)

RACHAS


A agência americana Associated Press despachou e o "New York Times" postou os primeiros "rachas no apoio local" ao governo instalado em Honduras. Elvin Santos, um dos favoritos à eleição presidencial, declarou à televisão hondurenha: "Eu vou para todos os cantos do país para explicar que eu não tomei, de maneira nenhuma, parte nos eventos de 28 de junho", dia do golpe.

Trecho da coluna toda Mídia, na Folha de São Paulo, de 7 de agosto de 2009.

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Generais de Honduras tentam se explicar

Generais hondurenhos explicam seu papel na derrubada do presidente

Ginger Thompson
Em Tegucigalpa (Honduras)

Ao longo do último mês, a exibição constante de imagens do governo na televisão e na primeira página dos jornais tenta transmitir aos hondurenhos que este país não experimentou um golpe militar.

Na terça-feira, entretanto, os telespectadores poderiam ser perdoados por pensar que foi exatamente isso o que aconteceu.

Os cinco generais no comando das forças armadas hondurenhas fizeram uma rara aparição em rede nacional de televisão para explicar seu papel na derrubada no final de junho do presidente Manuel Zelaya, assim como para responder às acusações de que agiram em defesa da elite do país.

Em uma linguagem que frequentemente pendia para o tom de confissão, eles repetiram que não tomaram partido na luta política que polarizou o país, mas sim obedeceram a lei. E disseram estar confiantes de que a história os julgaria como patriotas pelas suas ações.

Mas quanto mais falavam, mais mostravam o quanto estavam preocupados com o dano causado à sua imagem por suas ações, assim como mais claro se tornou que continuam exercendo um importante papel na política hondurenha, quase três décadas após o término da ditadura militar.

"Eles nos chamam de golpistas", disse o general Romeo Vásquez Velásquez, o chefe das forças armadas. "Se é o que somos, nós teríamos declarado estado de emergência e teríamos detido todos aqueles que estavam causando confusão."

Mas os problemas têm se acumulado para os militares desde que Zelaya foi detido e conduzido a um avião que deixava o país, há cinco semanas. Ele foi detido sob acusação de estar tentando modificar a Constituição visando prolongar seu mandato.

Os oficiais militares estão se sentindo cada vez mais isolados, à medida que aqueles que apoiam Zelaya os acusam de traidores e aqueles que apoiam o atual regime, liderado por Roberto Micheletti, se distanciam da decisão de expulsar o presidente.

"No final, há uma chance de que os todos os civis se beijem e façam as pazes, e os militares fiquem com a fama de bandidos", disse um alto oficial militar do Ministério da Defesa, falando sob a condição de anonimato devido à posição delicada das forças armadas.

Na manhã de terça-feira, os militares se defenderam. Por uma hora e meia, os cinco generais em uniforme de camuflagem disseram que suas ações visavam defender a Constituição de um presidente que ameaçava rasgá-la. Sentados em um cenário escuro, os generais se descreveram como homens de origem humilde e disseram que, por isso mesmo, nunca agiriam contra os mais vulneráveis.

O programa no qual apareceram, "Frente a Frente", foi transmitido enquanto cresce a pressão internacional sobre o governo de Roberto Micheletti para permitir o retorno de Zelaya ao poder. As mais recentes críticas vieram de Felipe Calderón, o presidente do México, que Zelaya visitou na terça-feira.

Durante a visita, Zelaya disse estar preparado para assinar um acordo proposto, forjado após duas rodadas de negociações mediadas pelo presidente da Costa Rica, Óscar Arias. O acordo autorizaria o retorno de Zelaya à presidência, mas com poderes significativamente limitados.

Micheletti, entretanto, com forte apoio dos líderes empresariais do país, sua comunidade religiosa e dos dois maiores partidos políticos, rejeitou o plano de Arias, dizendo que a única forma de permitir o retorno de Zelaya ao país seria para este responder à Justiça.

Gabo Jalil, o vice-ministro da Defesa do atual governo, disse em uma entrevista que grupos internacionais de direitos humanos fizeram acusações infundadas de uso pelas forças armadas de estratégias de "esquadrão da morte" contra os oponentes de Micheletti.

Ao mesmo tempo, disse outro funcionário do Ministério da Defesa, os oficiais responsáveis pela decisão de embarcar Zelaya em uma avião para a Costa Rica em 28 de junho poderiam enfrentar acusações de abuso de autoridade, porque suas ordens eram de conduzir o presidente derrubado a julgamento.

Edmundo Orellana, que foi o ministro da Defesa de Zelaya, alertou contra ver os militares como vítimas. Ele disse temer que a aparição dos generais na terça-feira sinalize que as forças armadas, estimuladas por sua ação contra Zelaya, decidiram assumir um papel de maior peso em um governo sem reconhecimento internacional e com apenas um controle tênue de suas instituições domésticas.

Enquanto a crise prossegue, as repartições mais importantes do governo e os hospitais públicos estão sob guarda militar. As forças armadas colocaram barreiras ao longo das estradas por todo o país. E se posicionou para ajudar a polícia a lidar com os protestos pró-Zelaya, que têm perturbado o dia a dia deste país.

"Eles são a pedra angular do governo", disse Orellana sobre os militares. "Sem o apoio deles a coisa toda ruiria e Micheletti sabe disso."

Os generais lamentaram na terça-feira a morte de dois manifestantes, mas rejeitaram as acusações de que eram "assassinos" como sendo parte de uma estratégia para manchar sua imagem. Apesar das forças armadas já terem sido consideradas um instrumento de repressão da campanha de Washington contra o comunismo, os oficiais disseram que elas se transformaram na segundo instituição mais confiável do país, atrás da Igreja Católica.

Os generais disseram que ao removerem Zelaya, eles não agiram no interesse de qualquer "oligarquia". Zelaya, eles disseram, se tornou uma ameaça à democracia hondurenha, não apenas por ter desobedecido as decisões da Justiça, mas também por ter aliado Honduras ao presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

Como se seguisse um manual da Guerra Fria, o general Miguel Ángel García Padget disse que as forças armadas impediram os planos de Chávez de espalhar o socialismo pela região. "A América Central não era o objetivo desse comunismo disfarçado de democracia", ele disse. "Este socialismo, comunismo, chavismo, chame como quiser, visa o coração dos Estados Unidos."

Tradução: George El Khouri Andolfato

Texto do The New York Times, no UOL.

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terça-feira, julho 21, 2009

A direita latina contra-ataca ante a hesitação de Obama

A direita latina contra-ataca ante a hesitação de Obama

"Distração" dos Estados Unidos permite que a situação golpista em Honduras se cristalize e incentiva setores conservadores em outros países da América Central

IMMANUEL WALLERSTEIN

O GOVERNO de George W. Bush foi o momento da maior onda de vitórias dos partidos à esquerda do centro na América Latina, em mais de dois séculos. O governo de Barack Obama corre o risco de ser o momento da vingança da direita na região.
O motivo pode ser o mesmo: a combinação entre o declínio do poderio americano e a posição central que os EUA ainda mantêm na política mundial. Os EUA são incapazes de se impor, mas ainda assim são vistos como aliados necessários por quase todo o mundo.
O que aconteceu em Honduras? O país vem sendo há muito tempo um dos mais seguros pilares das oligarquias latino-americanas -uma classe dominante arrogante e insubmissa, com estreitas conexões com os EUA, em um país que abriga uma grande base militar americana. As Forças Armadas do país são cuidadosamente recrutadas de maneira a evitar qualquer contágio por oficiais com simpatias populistas.
Como oriundo da classe dominante, a expectativa era a de que Zelaya continuasse a jogar o jogo como os presidentes hondurenhos sempre jogaram. Mas, em vez disso, sua posição política começou a ganhar tons esquerdistas. Zelaya empreendeu programas internos que, na verdade, faziam alguma coisa pela vasta maioria da população -construção de escolas em regiões rurais remotas, aumento no salário mínimo, criação de clínicas de saúde. Após dois anos, aderiu à Alba, a organização de cooperação internacional fundada pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez.
Depois, ele propôs realizar um plebiscito sobre a opinião da população quanto à possível convocação de uma Assembleia Constituinte. A oligarquia berrou que isso era uma tentativa de mudar a Constituição para que Zelaya pudesse disputar um segundo mandato. Mas, como o plebiscito seria realizado na mesma data em que a eleição de seu sucessor, a alegação era claramente falsa.
Por que, então, o Exército conduziu um golpe de Estado, com apoio da Corte Suprema, do Legislativo e da Igreja Católica? Dois fatores foram decisivos: a opinião desses grupos sobre Zelaya e sua opinião sobre os EUA. Para a oligarquia hondurenha, Zelaya traiu sua classe e por isso merece ser punido, para servir como exemplo.
E quanto aos EUA? Quando o golpe aconteceu, alguns dos mais ruidosos comentaristas de esquerda da blogosfera o definiram como "golpe de Obama". Mas isso ignora a realidade. Nem Zelaya, nem seus partidários nas ruas, nem Chávez e nem Fidel Castro analisam a situação de maneira tão simplista. Todos eles percebem a diferença entre Obama e a direita americana (políticos ou comandantes militares) e expressaram repetidamente uma análise muito mais balanceada.
Parece bastante claro que a última coisa que o governo Obama desejava era um golpe como esse. O golpe, na verdade, foi uma tentativa de forçar Obama a uma atitude. E essa posição foi sem dúvida encorajada por importantes figuras da direita americana, entre as quais Otto Reich, o americano de origem cubana que assessorava Bush sobre a política regional. Foi algo parecido com a tentativa do presidente Mikhail Saakashvili, da Geórgia, de forçar uma ação dos EUA, ao invadir a Ossétia do Sul. Aquela também foi uma ação empreendida com a conivência da direita dos EUA. Mas não funcionou porque os soldados da Rússia impediram.
Obama está vacilando desde o golpe em Honduras. E por enquanto a direita hondurenha e dos EUA está contente por ter conseguido reverter a política americana. Bastam algumas de suas declarações mais absurdas como prova. O chanceler hondurenho apontado após o golpe, Enrique Ortez, afirmou que Obama era "um negrinho que não sabe nada de nada". O embaixador dos EUA protestou contra o insulto, e Ortez terminou transferido a outro posto.
A direita dos EUA é mais polida, mas não menos feroz. O senador republicano Jim DeMint, a deputada de origem cubana Ileana Ros-Lethinen e o advogado conservador Manuel Estrada vêm insistindo em que o golpe era justificado porque, na verdade, não foi um golpe, e sim uma defesa da Constituição hondurenha. E Jennifer Rubin, uma blogueira de direita, publicou um post intitulado "Obama está errado, errado, errado sobre Honduras".
A direita hondurenha está tentando ganhar tempo, até que se encerre o mandato de Zelaya. Caso consigam realizar esse objetivo, terão vencido. E as direitas guatemalteca, salvadorenha e nicaraguense estão assistindo a tudo, ansiosas por promover golpes contra os governos de seus países.
A esquerda chegou ao poder na América Latina devido ao momento econômico propício e à distração dos EUA. Agora, a distração continua, mas o momento econômico é pior. E a esquerda leva a culpa por estar no poder, ainda que na verdade haja pouco que os governos de esquerda possam fazer quanto à economia mundial.
Será que os EUA podem fazer algo mais com relação ao golpe? Bem, é evidente que sim. Primeiro, Obama poderia oficialmente classificar o golpe como golpe. Isso faria com que passasse a valer a lei americana que dispõe que toda a assistência dos EUA a Honduras seja suspensa. Ele poderia retirar o embaixador americano do país.
Poderia dizer que não há nada a negociar, em lugar de insistir em "mediação" entre o governo legítimo e os líderes do golpe.
Por que não faz tudo isso? É simples. Há pelo menos quatro outros itens de grande urgência em sua agenda: a confirmação de Sonia Sotomayor para a Suprema Corte; a confusão no Oriente Médio; sua necessidade de aprovar ainda neste ano seu pacote de saúde; e a pressão pela abertura de um inquérito sobre os atos ilegais do governo Bush. Lamento, mas Honduras ocupa o quinto lugar.
Assim, Obama vacila. E ninguém ficará satisfeito. Zelaya pode ser restituído ao seu posto, mas talvez só daqui a três meses. Tarde demais. Melhor ficar de olho na Guatemala.

IMMANUEL WALLERSTEIN, pesquisador sênior na Universidade Yale, é autor de "O Declínio do Poder Americano" (Contraponto). Este artigo foi distribuído pela Agence Global.

Texto publicado na Folha de São Paulo, de 16 de julho de 2009.

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sexta-feira, julho 10, 2009

José Simão Vê uma manifestação a favor do golpe de estado em Honduras

“E Honduras, hein? Honduras parece aula de geografia: Honduras, capital Tegucigalpa! E eu vi uma manifestação a favor do golpista, que eles chamam de oposição. Oposição shopping center: só tinha mauricinho e loira farmácia de jeans e salto alto. Oposição Miami! É mole?
É mole, mas sobe! Ou como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! “

Na coluna dele, na Folha de São Paulo, de 10 de julho de 2009.

Eu não vi esta manifestação referida pelo Zé Simão, mas se parece tanto com as manifestações da oposição a Chávez na Venezuela...


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quarta-feira, julho 08, 2009

Ecos de um 11 de setembro

Ecos de um 11 de setembro


JOHANN HARI
DO "INDEPENDENT"


O FANTASMA do outro 11 de setembro, muito mais sangrento, voltou a rondar a América Latina. Na manhã de domingo, um batalhão de soldados forçou a entrada no palácio presidencial de Honduras. As tropas cercaram a cama na qual o presidente democraticamente eleito, Manuel Zelaya, dormia e cutucaram o peito dele com metralhadoras. Os soldados ordenaram que o presidente se levantasse e o levaram a um avião militar. Zelaya foi deixado de pijamas em uma pista de pouso na Costa Rica e instruído a não voltar mais a seu país.
Em Honduras, os generais bloquearam as redes telefônicas, a internet e o funcionamento dos canais internacionais de TV. Ministros do governo foram detidos e espancados. Quem saísse de casa depois das 21h correria o risco de ser abatido a tiros. Tanques e gás lacrimogêneo foram utilizados contra os manifestantes que saíram às ruas.
Para a América Latina, foi uma reprise do 11 de setembro que marca a história da região. Naquele dia, em 1973, no Chile, o presidente socialista Salvador Allende foi forçado a deixar seu gabinete por um bombardeio. Suicidou-se. Foi substituído por um líder que se descrevia como "fascista", o general Augusto Pinochet, que promoveu o "desaparecimento" de dezenas de milhares de inocentes.
A desculpa oficial para assassinar a democracia chilena foi a de que Allende era "comunista". Não era. Na verdade, foi morto porque estava ameaçando os interesses de grandes corporações americanas e chilenas ao transferir o controle da riqueza e da terra para o povo.
Honduras é um pequeno país na América Central com apenas sete milhões de habitantes, mas iniciou um programa de promoção autônoma da democracia. Em 2005, Zelaya disputou a Presidência prometendo que ajudaria a maioria pobre da população do país. Eleito, elevou o salário mínimo em 60%, decretou que a exploração da mão de obra não seria mais aceita e que "os ricos precisam pagar sua parte".
A minúscula elite no topo, que controla 45% da riqueza do país, se horrorizou. Estão acostumados a que Honduras seja dirigida para e por eles.
É inevitável que as pessoas que sempre estiveram por cima contra-ataquem para manter seus privilégios. Em 2002, a oligarquia venezuelana conspirou com o governo de George W. Bush para raptar Hugo Chávez. Um levante do povo conduziu-o de volta ao poder. Agora, estão tentando a mesma coisa em Honduras.
A aliança entre militares e empresários inventou uma desculpa que vem sendo repetida por inocentes úteis no mundo ocidental. Os generais alegam que derrubaram Zelaya e detiveram seus ministros para salvar a democracia.
E eis como isso aconteceu. Honduras conta com uma Constituição redigida em 1982, pela oligarquia, sob a supervisão da ditadura militar que estava se encerrando. O texto dispõe que o presidente só possa servir por um mandato, enquanto as Forças Armadas continuam permanentes e "independentes", o que garantiria que continuassem a exercer o poder real sobre o país.
Zelaya acreditava que isso representasse um obstáculo à democracia e propôs um referendo que determinaria se o povo deseja eleger uma Assembleia Constituinte e criar uma nova Carta. O novo texto reduziria o poder das Forças Armadas e talvez até permitisse que o presidente disputasse a reeleição.
A Corte Suprema hondurenha, no entanto, decidiu que era inconstitucional promover um referendo cujo resultado teria aplicação compulsória a menos de um ano da data da nova eleição presidencial. Por isso, Zelaya propôs um referendo cujo resultado não tivesse aplicação compulsória. Os militares, temerosos do veredicto do povo, decidiram intervir.
Mas houve progressos com relação aos dias de 1973, ou até mesmo aos de 2002. Os golpes contra Allende e Chávez foram apoiados pela agência de Inteligência dos EUA (CIA) e pela Casa Branca. Mas, desta vez, Barack Obama declarou que "acreditamos que o golpe não tenha sido legal e que Zelaya continua a ser o presidente de Honduras", chamando o golpe de "um terrível precedente".
A face mais feia da oligarquia latino-americana está agora sozinha contra o mundo, demonstrando seu desprezo pela democracia e pelo povo. Seus líderes lutam por preservar o continente como era no passado, com toda a riqueza destinada a eles, sob a mira das metralhadoras.
Hoje, Zelaya disse que tentaria retornar ao país que o elegeu, para retomar o posto que lhe é devido. Seu sucesso ou fracasso nessa empreitada nos dirá se os filhos das lixeiras têm motivo para esperança e se a fumaça do 11 de setembro mais mortífero já se dispersou.


Tradução de PAULO MIGLIACCI

Texto publicado na Folha de São Paulo, de 5 de julho de 2009.

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quinta-feira, julho 02, 2009

De JohnKennedy@com para Obama@gov (Elio Gaspari a respeito do golpe de estado em Honduras)

De JohnKennedy@com para Obama@gov

BARACK,
Não repita meus erros. Rompa com os golpistas de Honduras. Se eles não devolverem a Presidência a Manuel Zelaya, chame de volta nossos 550 militares que servem na base de Soto Cano, suspenda todos os programas de ajuda. Mostre a esse palhaço do Hugo Chávez que os Estados Unidos são os verdadeiros defensores da democracia na América Latina. Só depois de ter chegado aqui é que percebi que fui eu quem disparou o ciclo de golpes latino-americanos dos anos 60 e 70. Acho que foram uns 20. Acabamos invadindo a República Dominicana e quase desembarcamos no Brasil.
Se você quiser saber o dia em que acendemos o pavio, confira: 30 de julho de 1962. Tinham acabado de instalar o sistema de gravação de minhas conversas no Salão Oval e tive uma reunião de meia hora com o Lincoln Gordon, que era embaixador no Rio. Nela, combinamos que a carta do golpe militar entraria no baralho das nossas alternativas para o Brasil.
Eu acabara de amarelar numa crise com os militares peruanos. Duas semanas antes, eles haviam deposto o presidente Manuel Prado, um aristocrata admirável, e cancelado as eleições que escolheriam seu sucessor. Minha reação foi imediata. Rompi relações com os generais, chamei o embaixador a Washington. Fiquei isolado. A Europa se fez de boba, e a OEA rachou. Mandei sinais de paz aos generais e eles marcaram uma eleição para junho de 1963. Acertei? Coisa nenhuma, cinco anos depois, o novo presidente foi derrubado por um general esquerdista. Tiraram-no do palácio vestindo pijama e mandaram-no para o exílio. Um dos argumentos a favor do reconhecimento da junta peruana foi o de que desencorajaríamos os militares brasileiros. Eu achava que o golpe no Brasil poderia vir em três meses.
Numa época em que víamos no Fidel Castro El Gran Satan, incentivamos e toleramos esses generais. Os latino-americanos que acreditaram no compromisso dos Estados Unidos com a democracia foram iludidos.
Faça o que eu não fiz. Mostre que só há um caminho para os golpistas de Honduras: reinstalar Zelaya no palácio. Se você não fizer isso, prepare-se para lidar com o próximo golpe e o próximo general, cada um pior que o outro.
No dia 3 de outubro de 1963, exatamente em Honduras, um coronel (Oswaldo López Arellano, consumado ladravaz) derrubou o presidente Villeda Morales e eu resolvi tentar de novo. Suspendi as relações diplomáticas e cortei a ajuda. O coronel nem se abalou. Previu que em seis meses nós mudaríamos de ideia. Estava certo. Até hoje meu sucessor leva a má fama de ter reconhecido o governo do coronel. É uma injustiça, pois eu tinha planejado fazer isso logo que retornasse da minha viagem a Dallas.
Toda vez que vejo um garoto com uma camiseta do Che Guevara, me dou conta de que o sonho democrático da América Latina foi jogado fora durante o meu governo. Veja o paradoxo: como eles acreditaram numa coisa que não era verdadeira, colocaram fé em algo verdadeiramente falso, o romantismo do Che. Por aqui, só quem o acompanha é o Mao Tsé-tung que, como ele, tem horror a banho. O Ho Chi Minh vira a cara quando o vê e o Stálin diz que ele devia ter feito cinema.
Despeço-me com uma indiscrição: minha mulher calça 40 e adora a Michelle porque ela também tem pés grandes (41).
Com a torcida e o respeito do
John Kennedy

Texto de Elio Gaspari, na Folha de São Paulo, de 1o. de junho de 2009.


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Angeli e o golpe em Honduras

Crise política em Honduras

Presidente detona crise militar em Honduras

Após destituição de chefe das Forças Armadas por divergências sobre consulta popular, país vive tensão e rumores de golpe de Estado

Mandatário, que quer saber opinião da população sobre Constituinte sem respaldo legal, se nega a cumprir ordem de restituir general

DA REDAÇÃO

A confrontação entre o presidente de Honduras, Manuel Zelaya, e o Congresso e a Corte Suprema do país em torno da destituição do chefe do Estado Maior das Forças Armadas abriu grave crise política em meio a acusações do governo de que seus oponentes prepararam um golpe de Estado.
Ontem, a Corte Suprema do país centro-americano considerou "ilegal" a destituição do chefe do Estado Maior das Forças Armadas, general Romeo Vásquez, determinada no dia anterior por Zelaya. A decisão também foi revertida pelo Congresso, com apoio do divido Partido Liberal, do presidente.
O presidente reiterou que manterá a demissão. A pedido de Zelaya, o Conselho Permanente da OEA (Organização dos Estados Americanos) tratará o tema em reunião hoje.
O pano de fundo do choque entre os Poderes em Honduras é a determinação de Zelaya de realizar uma pesquisa de opinião nacional que abriria caminho para seu projeto de convocar uma Assembleia Constituinte. A Carta vigente é 1982.
Se a população se disser favorável a uma nova Carta na consulta, o governo incluiria, então, uma "quarta urna" na eleição geral de novembro. Além de elegerem presidente, deputados e prefeitos, os hondurenhos votariam em um referendo sobre a Constituinte.
A Justiça e as autoridades eleitorais disseram que a pesquisa é ilegal. Baseado nessa decisão, o general Romeo Vásquez se recusou a dar apoio logístico à pesquisa, a ser realizada no domingo pelo IBGE local na forma de um referendo não vinculante. Pela recusa, foi destituído por Zelaya.
O presidente diz que a Constituição atual não reflete as necessidades do país, mas seus críticos sugerem que o objetivo do malabarismo jurídico é introduzir a reeleição na Constituição, hoje proibida. Zelaya deixa o cargo em janeiro.
Ontem, ele prometeu levar à frente a consulta e, acompanhado por centenas de apoiadores, entrou em uma instalação da Força Aérea hondurenha para retirar urnas e cédulas da pesquisa. O Ministério Público havia ordenado a apreensão do material.
"Não querem deixar que o povo seja consultado", disse Zelaya, que acusou a Corte Suprema do país de "criar um Estado militar e um Estado civil".
Zelaya é um neoaliado do presidente venezuelano, Hugo Chávez. Do Partido Liberal, alinhado à elite econômica do país, ele liderou a adesão de Honduras à chavista Alba (Aliança Bolivariana para as Américas) em 2008, provocando temor no empresariado de que vá promover estatizações.
Enquanto se afastava de sua base tradicional, aproximou-se de sindicatos e movimento indígena e ganhou simpatia de parte dos 70% de pobres do país ao aumentar em 60% o salário mínimo desde 2006.
Jornais locais davam conta ontem de uma correria a supermercados e postos de gasolina por conta da crise política.


Com agências internacionais

Notícia publicada na Folha de São Paulo, de 26 de junho de 2009.

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terça-feira, maio 12, 2009

Os generais cripto-golpistas

Os generais cripto-golpistas


Notícia da Folha Online dá conta que o general-de-exército (e portanto o mais graduado oficial de carreira do exército) Paulo César de Castro, na cerimônia de sua passagem para a reserva resolveu enaltecer o golpe de 1964 e criticar a política de cotas implementada pelo Governo Federal.


O texto escrito por Mário Magalhães informa que o general utilizou-se de termo tais como "arautos da sarna marxista", ou que o inimigo "astuto e insidioso" segue em ação.


Além disso, declarou que foi admitido no Colégio Militar “em concurso, sem que jamais me tivesse sido exigida a cor da pele dos meus pais, avós e demais ascendentes ou me tivessem acenado para integrar qualquer tipo de cotas fossem elas quais fossem". Talvez o posicionamento claramente conservador do general explique a virtual inexistência de generais (ou almirantes, ou brigadeiros) negros, ou mulatos, entre as nossas forças armadas. Já faz cerca de 20 anos que um negro, o general Colin Powell se tornou comandante militar do exército americano. Quando será que fato semelhante acontecerá no Brasil?


O fato de um general que chama pessoas que pensam diferente dele de “sarna” ou “inimigo astuto e insidioso” ter sido até então chefe do Departamento de Educação e Cultura do Exército demonstra que em 2064 haverá militares, e, provavelmente algumas vivandeiras, celebrando a “revolução democrática de 1964”, com comandantes indo a missas de celebração do mesmo evento. O rompimento da legalidade constitucional, as cassações, os exílios, as torturas e os assassinatos continuarão a ser motivo de orgulho.


Em março o general Luiz Cesário Filho também, em sua cerimônia de passagem à reserva, exaltou o golpe.


Então parece que está assim: enquanto fazem carreira, os senhores generais ficam quietinhos, e fingem que obedecem a ordem civil e legal do país. Quando passam à reserva, exaltam o golpismo e denunciam o governo a que serviram como comunista, talvez “sarna marxista”. Tal comportamento me parece de covardes e/ou vira-casacas.


P.S. A notícia diz que “Castro foi ovacionado por centenas de pessoas, destacadamente oficiais da ativa, da reserva (podem ir a uma eventual guerra) e reformados (não podem).” Não detalha se por determinado trecho, ou pelo conjunto do discurso. Ou seja, o pessoal parece coeso. Vale repetir: em 2064 haverá militares, e, provavelmente algumas vivandeiras, celebrando a “revolução democrática de 1964”, com comandantes indo a missas de celebração do mesmo evento. O rompimento da legalidade constitucional, as cassações, os exílios, as torturas e os assassinatos continuarão a ser motivo de orgulho.

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quarta-feira, dezembro 24, 2008

Duas ou três coisas sobre o AI-5

Duas ou três coisas sobre o AI-5

NA ALTURA da quinta ou sexta pergunta, a repórter me confessou que tinha apenas 28 anos, nascera depois daqueles tempos que ela considerava heróicos, quando a juventude e a sociedade em geral lutavam contra a tirania de um regime ditatorial.
Nas novas gerações, é comum este sentimento que beira a nostalgia por um tempo glorioso em que os bons e os maus estavam separados, os maus torturando os bons, os bons combatendo o bom combate da justiça e da liberdade.
A lembrança dos 40 anos da decretação do AI-5 provocou uma enxurrada de reportagens, documentários, mesas-redondas e quadradas, análises profundas e rasas daquela sexta-feira, 13, de um ano que realmente acabou.
Acontece que a história é um processo praticamente sem começo nem fim, os momentos se sucedem interligados, sem que se possa atribuir a uma data ou a um acontecimento a responsabilidade de gerar uma era na crônica da humanidade.
Para facilitar as coisas, sobretudo na mídia, destaca-se um ou outro episódio representativo de um tempo: os idos de março, a tomada da Bastilha, a batalha de Waterloo, a invasão da Normandia. Isto no plano da grande história. Na pequena história, os eventos são mais modestos, mesmo assim criam um painel que serve de referência para as gerações mais próximas.
Para quem viveu o período chamado de "anos de chumbo", a realidade não tem nada de heróica e muito menos de definitiva em termos históricos. Foi, como disse, um momento em que os desafios ideológicos, sociais e econômicos ganharam contornos explícitos. Em linhas gerais, a sociedade aprovou a ruptura da legalidade em 1964, embora sobrassem resíduos do Estado de direito que não foram aproveitados: habeas corpus, congresso aberto, liberdade de imprensa para aqueles que quisessem se manifestar.
Quatro anos mais tarde, a situação era diferente. Um largo escalão dos "revolucionários" de 64, jornais de peso e tradição liberal, políticos afoitos como Carlos Lacerda (que se considerava o delfim do movimento anterior), sofreu a decepção do segundo ato institucional que prorrogou o mandato de Castelo Branco e cancelou o calendário eleitoral do ano seguinte.
Aproveitando as brechas da legalidade que o primeiro ato não suprimiu, grandes parcelas da população se organizaram em movimentos de protesto contra as arbitrariedades do regime, o congresso estava aberto, habeas corpus eram concedidos, críticas e denúncias apareciam na mídia e nas ruas.
Veio então o AI-5. Em menor escala, repetiu-se o apoio da sociedade à medida de força, mas a reação foi engrossada por aqueles que esperavam maravilhas da quartelada de 64 e morreram na praia. O grau da repressão foi aumentado, nem por isso a sociedade deixou de dormir tranqüila. A luta contra a tirania não foi apoteótica como hoje se pensa. Os mártires tombados foram chorados postumamente, o "milagre brasileiro" enganava a realidade com estatísticas forjadas, o Brasil era o limite, "ame-o ou deixe-o", o último que apagasse as luzes do aeroporto.
O grande teste foi em 1970, na campanha pelo tricampeonato de futebol no México. Os que combatiam o regime queriam que o povo não tomasse conhecimento da seleção nacional. Seria uma traição à causa, um apoio afetivo e efetivo ao governo ditatorial que vivia então sua fase mais truculenta. Não deu pé. Tivemos uma festa verde-amarela, cores oficiais do regime.
Com o aumento da violência, mais chagas foram abertas na carne dos que se revoltavam contra o arbítrio. Mas nenhuma ditadura sobrevive tanto tempo sem o apoio tácito ou operacional da sociedade. Hoje, devido às numerosas celebrações daqueles anos, as novas gerações acreditam que tudo foi heróico e belo na luta contra a ditadura. A nostalgia se justifica. Como herança maldita daqueles tempos, o divisor de águas não é mais a justiça social e a liberdade. A repórter que me entrevistava, apesar de nostálgica pelo clima exaltado daquela época, me perguntou qual a banda que eu mais apreciava, o que achava do Marcelo Camelo e se eu já tinha comprado o ingresso para o show de Madonna.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 19 de dezembro de 2008.


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sexta-feira, dezembro 12, 2008

Dias da (de) História

Dias da história

A PROMETIDA reunião do Conselho de Defesa Nacional na quinta 11, já para dar por aprovado o Plano Estratégico de Defesa, confere a esta semana uma coerência só comparável à do Carnaval.
Foi providencial, assim, a inserção do novo evento entre a quarta 10, dedicada aos 60 anos da Declaração dos Direitos Humanos e à decisão judicial sobre ou contra as reservas indígenas, e o sábado 13, dos 40 anos do Ato Institucional nº 5, o AI-5 que se iguala ao DOI-Codi como criações maiores da ditadura militar.
Eis, pois, uma semana de grandes temas do segmento militar e, portanto, dele estendidos ao país.
Nada a estranhar na presença da Declaração dos Direitos Humanos entre esses temas. Em qualquer parte do mundo, militares são os maiores especialistas em direitos humanos. Tal como, por exemplo, os médicos e os bombeiros são especialistas no que combatem.
Há quem atribua a prioridade às polícias, também em todo o mundo, mas é um equívoco de visão parcial. Polícias, quando reprimem parte da criminalidade, servem a uma outra concepção de direitos humanos, não policial nem militar.
Quase incompreensível, sim, é o anti-indigenismo tão difundido entre militares do Exército à proporção em que ostentam mais estrelas. Por aí se entende a ausência, na memória militar brasileira, dos tributos devidos a Cândido Rondon, o mais brasileiro e de vida mais heróica entre os militares históricos. Jamais lembrado para a merecida altitude de patrono, atribuída aos que comandaram outros em lutas de morte.
O anti-indigenismo brotado do pós-Segunda Guerra, ou nos últimos 60 anos, é um confuso coquetel. Em doses variáveis, é feito de preconceito étnico, concepções primárias de segurança nacional, interesses mal percebidos do capital internacional dedicado à exploração de riquezas naturais, idem em relação a grandes explorações agrícolas e, como tempero, os subprodutos da Guerra Fria. Bem apropriado, portanto, a uma regra da história: o indígena paga sempre.
Servidor da ditadura no cerne mesmo em que foi elaborada e conduzida, seu ex-ministro Rondon Pacheco abriu as esperadas memórias pelo aniversário do AI-5. Com o destaque de uma revelação: o general Médici, tão logo assumiu o poder, quis revogar o AI-5, faltando-lhe apoio militar para fazê-lo.
A história é flexível e amaciável, e a hora é oportuna para os que se têm dedicado a fazê-lo sobre seu percurso pela ditadura. Se Médici, chefe do SNI convocado para a Presidência, considerasse as monstruosidades do AI-5 dispensáveis, bastaria incluir a revogação nas condições apresentadas à junta militar, que nele encontrava a opacidade aceita por todos os gostos das casernas. Além de não o fazer, como general-presidente foi autor, co-autor ou avalista em tudo o que compôs o crescente despotismo baseado no AI-5.
É uma semana muito proveitosa, esta.

Coluna de Jânio de Freitas, na Folha de São Paulo, de 9 de dezembro de 2008.

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terça-feira, outubro 14, 2008

Brilhante Ustra condenado

Juiz condena Ustra por seqüestro e tortura

Coronel reformado contesta as acusações, diz que ação contraria Lei da Anistia e deve recorrer ao Tribunal de Justiça

Coronel torna-se o primeiro oficial condenado em ação declaratória por seqüestro e tortura; decisão não prevê indenização nem punição


LILIAN CHRISTOFOLETTI
DA REPORTAGEM LOCAL

Por decisão do juiz Gustavo Santini Teodoro, da 23ª Vara Cível de São Paulo, de primeira instância, o coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra tornou-se o primeiro oficial condenado na Justiça brasileira em uma ação declaratória por seqüestro e tortura durante o regime militar (1964-1985).
A sentença, publicada ontem, é uma resposta ao pedido de cinco pessoas da família Teles que acusaram Ustra, um dos mais destacados agentes dos órgãos de segurança dos anos 70, de seqüestro e tortura em 1972 e 1973.
O coronel reformado, que nega a prática de tortura, pode recorrer da decisão ao Tribunal de Justiça (TJ). Em sua defesa, Ustra disse que a ação contraria a Lei da Anistia (1979), que significou o perdão dos crimes cometidos durante a ditadura.
A condenação de Ustra ocorre cerca de duas semanas depois de o TJ paulista rejeitar uma segunda ação movida contra Ustra, desta vez por tortura e morte de um jornalista.
Na decisão de ontem, o juiz Santini argumentou que a anistia refere-se só a crimes, e não a demandas de natureza civil, como é o caso da ação declaratória, que não prevê indenização nem punição, mas o reconhecimento da Justiça de que existe uma relação jurídica entre Ustra e os Teles, relação que nasceu da prática da tortura.
E foi isso que o juiz reconheceu na ação iniciada pelo casal Maria Amélia de Almeida Teles e César Teles; pelos filhos Janaína e Édson; e por Criméia, irmã de Maria Amélia.
Acusados de subversão, o casal e Criméia, que estava grávida, foram presos no DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna), comandado por Ustra, que usava o codinome "Tibiriçá". Com 5 e 4 anos, Janaína e o irmão foram levados para o presídio como uma forma de pressão.

Casa dos horrores
Na decisão, o juiz afirmou que, pela descrição das testemunhas, o DOI-Codi era "uma casa dos horrores, razão pela qual o réu não poderia ignorar o que ali se passava".
As testemunhas, que estiveram presas junto com os Teles, disseram que Ustra comandava as sessões de tortura com espancamento, choques elétricos e tortura psicológica. Das celas, relatam que ouviam gritos e choros dos presos.
"Não é crível que os presos ouvissem os gritos dos torturados, mas não o réu [Ustra]. Se não o dolo, por condescendência criminosa, ficou caracterizada pelo menos a culpa, por omissão quanto à grave violação dos direitos humanos fundamentais dos autores", afirmou o magistrado.
"É uma decisão excelente. O juiz atendeu a nosso pedido de justiça, de dar nomes aos torturadores", disse Maria Amélia.
Ex-presos políticos devem se reunir hoje no antigo prédio do DOI-Codi, em São Paulo, que reúne arquivos do regime militar e exposição de obras de arte.

Texto da Folha de São Paulo, de 10 de outubro de 2008.

Oficial nega conivência com tortura

DA REPORTAGEM LOCAL

O coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-comandante do DOI-Codi, declarou em juízo que não cometeu nem foi conivente com atos de tortura praticados durante o regime militar.
O militar pode recorrer da decisão ao Tribunal de Justiça de São Paulo, que é um órgão de segundo grau.
Durante o processo, o militar argumentou que eventuais crimes cometidos em 1972 ou em 1973, como relata a família, não poderiam mais ser punidos pois já estariam prescritos (prazo em que alguém pode ser responsabilizado) e que a ação deveria ser contra a União, e não contra um servidor.
Por meio de seus advogados, Ustra disse ainda que a ação movida contra ele fere a Lei da Anistia, de 1979, que beneficiaria os agentes dos órgãos de segurança pública que combateram movimentos armados durante o regime.
Em entrevistas anteriores, o militar classificou as acusações de "mentiradas" e de invenções para prejudicá-lo. Afirmou ainda que, por "essas coisas que esse povo faz [relatos de sevícias], aquele negócio todo, tem horas que a gente desiste de viver".

O outro lado, na Folha de São Paulo, de 10 de setembro de 2008.

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terça-feira, outubro 07, 2008

Clássicos da ditadura

Clássicos da ditadura

RIO DE JANEIRO - Foi anteontem, há 40 anos, na final de um festival da canção. A vitoriosa "Sabiá" estava sendo vaiada por 15 mil bocas no Maracanãzinho -e aplaudida por, se tanto, 10 por cento disso. A malta não se conformava com que a guarânia de Geraldo Vandré, "Caminhando", com sua letra explosiva, perdesse para "aquela modinha" de Tom Jobim e Chico Buarque.
Alguém soltou dois sabiás quando o aturdido Tom e a dupla Cynara e Cybele entraram para cantar. A intenção era boa, mas as pobres aves voaram em direção às luzes e, desorientadas, deram uma rasante sobre a platéia -foram capturadas e despedaçadas. Naquela noite, os sabiás eram a alienação, o conformismo, a passividade diante da ditadura.
Vandré, pouco antes, tentara consolar o público com uma frase de efeito: "A vida não se resume a festivais" -embora estes fizessem grande parte da sua, porque ele disputava dois ou três por ano. Nelson Rodrigues, assistindo pela TV, constatou que o rosto de Vandré, em close, não disfarçava o travo pela derrota. "Fosse outro", escreveu Nelson, "ligaria empolgado para a mãe: "Mamãe! Mamãe! Tirei o segundo lugar!'".
Ao contrário do que a posteridade daria a entender, os estudantes de 1968 não saíam às ruas cantando "Caminhando" ou qualquer outra. Quem cantava nas passeatas era a borracha da polícia nas costas dos rapazes e moças -e alguns destes, que às vezes se cantavam mutuamente depois que a passeata terminava e o perigo passara.
Mas a ditadura durou o suficiente para fazer da cantiga de Vandré um clássico do panfleto, assim como a linda "Sabiá" se tornaria o hino dos exilados. A música popular tinha essa força -fornecia-nos a trilha sonora e, com isso, nos fazia acreditar que éramos os astros e estrelas dos nossos próprios filmes.

Texto de Ruy Castro, na Folha de São Paulo, de 1º. de outubro de 2008.


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terça-feira, setembro 16, 2008

Fórmula para o Caos, livro de Moniz Bandeira sobre o golpe de 1973 no Chile

1:

Livro sobre golpe mostra a solidão de Allende

"Fórmula para o Caos", de Moniz Bandeira, narra experiência socialista no Chile dos 70

Às vésperas do golpe há 35 anos, acossado pela direita e com sua base política dividida, presidente havia decidido chamar plebiscito

CLAUDIA ANTUNES
EDITORA DE MUNDO

Ao tomar posse no mês passado, encerrando 61 anos de domínio do Partido Colorado no Paraguai, o ex-bispo Fernando Lugo citou o presidente socialista do Chile derrubado no golpe militar ocorrido há 35 anos. "Nunca nos esqueçamos de Salvador Allende", disse.
A esquerda católica fazia parte da Unidade Popular de Allende, embora minoritária frente ao PS e ao PC marxistas, e a conclamação de Lugo reforça a idéia de que o 11 de setembro chileno permanece como o símbolo mais trágico e controvertido da Guerra Fria na América do Sul -mesmo com o socialismo que Allende se propôs a implantar pela via pacífica fora do horizonte político.
E é como um "herói trágico" que ele emerge de "Fórmula para o Caos", livro que o historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira, prolífico estudioso das relações entre os EUA e a América Latina, lança nesta semana pela editora Civilização Brasileira. A obra, cujo título foi tirado de memorando da CIA sobre as operações anti-Allende, será publicada também no Chile.
Ao final de um relato minucioso de 644 páginas, Moniz Bandeira descreve um presidente fadado a decidir sozinho, enquanto era acossado pela direita, solapado pela Democracia Cristã e minado em sua posição legalista pelas divisões em sua base política. A União Soviética, onde fora buscar ajuda econômica, deixou claro que não bancaria uma nova Cuba.
Allende havia tomado a decisão de convocar um plebiscito sobre suas reformas -disposto a renunciar se fosse derrotado- quando o golpe foi desfechado e ele se matou no Palácio de la Moneda sob bombardeio.

"Inviável"
Em 4 de setembro, terceiro aniversário da eleição de Allende, 800 mil chilenos (numa população de 10 milhões em todo o país) tinham saído às ruas de Santiago para apoiar o governo, que enfrentava o segundo locaute prolongado de caminhoneiros e empresários.
Mas, com parte significativa do PS, partido ao qual pertencia, apoiando a proposta do MIR (Movimento de Esquerda Revolucionária) de substituir os Poderes constitucionais pelo "poder popular" organizado nos bairros pobres, no campo e nas fábricas, o homem com quem Allende buscou conselhos, segundo a narrativa de Moniz Bandeira, foi o general Carlos Prats.
Pouco antes, a saída de Prats do Ministério da Defesa e do comando do Exército, sob pressão da oficialidade, acabara com o último empecilho aos golpistas. Exilado na Argentina, ele viria a ser morto em 1974 pela Dina, a polícia política do seu sucessor à frente do Exército, Augusto Pinochet.
Em entrevista à Folha da Alemanha, onde mora, Moniz Bandeira disse que pretendeu escrever um livro "na medida do possível objetivo", diferente de "quase todos os livros sobre Allende e o golpe, que são partidários, ideológicos".
O historiador parte do pressuposto de que a proposta da Unidade Popular de adotar um modelo "vinho e empanadas" de revolução estava destinada ao fracasso. "[Karl] Marx dizia que o socialismo é inviável como via de desenvolvimento, sobretudo num país atrasado como o Chile, em que 70% da produção era de cobre e 70% dos alimentos tinham de ser importados. Era um país vulnerável, ainda mais na esfera de influência dos EUA", diz.
"Minha idéia é sair do lugar comum de que a CIA fez tudo, ou de que o Brasil fez tudo. O projeto era inviável."

Polêmica
Entre os que participaram da experiência, é uma conclusão que poucos verbalizaram. O antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997), que assessorou Allende no Chile depois de ser exilado pelo golpe de 1964 que derrubou João Goulart (do qual era chefe da Casa Civil), atribuiu à radicalização do MIR e do PS o desfecho do processo.
O cientista político Theotonio dos Santos, que também esteve exilado em Santiago, escreveu por ocasião dos 30 anos do golpe que o erro de Allende foi insistir em manter mecanismos de economia de mercado quando se aguçaram os choques com os capitalistas: "A derrota não é uma prova de que a vitória era impossível".
Moniz Bandeira, que é parlamentarista, também analisa o golpe sob o prisma do embate entre Executivo e Legislativo, segundo a sua premissa de que, nas Repúblicas latino-americanas, o Exército foi instado a atuar como "poder moderador". Allende ficou nas mãos de Forças Armadas com fortes ligações com os EUA e majoritariamente anticomunistas.
O processo chileno -desde o maciço financiamento americano, no início dos anos 60, ao democrata-cristão Eduardo Frei, no marco da Aliança para o Progresso- é entremeado no livro por capítulos sobre os golpes militares de 1971 na Bolívia e de 1973 no Uruguai.
Allende não tinha maioria parlamentar. Foi eleito em 1970 com pouco mais de 36% dos votos, os demais divididos entre os candidatos da direita e da Democracia Cristã. No pleito legislativo de 1973, a votação da Unidade Popular aumentou para quase 44%, sem permitir, no entanto, que o governo rompesse o impasse no Congresso.

2:

Historiador usou arquivos do Itamaraty

DA EDITORA DE MUNDO

Para traçar a história do governo Allende e suas ramificações regionais e hemisféricas, Moniz Bandeira teve acesso a documentos inéditos do arquivo do Itamaraty, que mostram os telegramas enviados pelo embaixador brasileiro em Santiago, Antônio Câmara Canto, um simpatizante dos golpistas, ao governo do general Emílio Garrastazu Médici.
Além da torcida pela derrubada de Allende, os documentos indicam que o Brasil se envolveu diretamente já perto do golpe. Primeiro, ajudando conspiradores ligados ao grupo de extrema-direita Pátria e Liberdade, que planejava isolar o sul chileno do resto do país, na hipótese de que houvesse guerra civil.
Depois, o Brasil reconheceu rapidamente o regime militar, lhe deu ajuda financeira e enviou agentes para interrogar os brasileiros presos em seguida ao golpe -eram mais de 1.200 no país, na época, dos quais pelo menos seis foram mortos.
Também houve, segundo o livro, assessoria à oposição chilena de empresários brasileiros, entre eles Glaycon de Paiva, um dos fundadores do IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais). Ele teria recomendado a versão chilena das Marchas da Família com Deus pela Liberdade, em que mulheres de classe média e alta saíam batendo panelas.
O livro também é baseado nos documentos sobre o envolvimento do governo de Richard Nixon (1969-1974) na preparação do golpe e no financiamento da oposição, incluindo tanto os do Relatório Church, da comissão que investigou o caso no Congresso americano, quanto os desclassificados posteriormente pela ONG National Security Archive.
Está lá a famosa frase de Henry Kissinger, secretário de Estado de Nixon, de que os EUA não poderiam "deixar um país se tornar marxista só porque seu povo é irresponsável". O próprio título do livro é tirado de um memorando do agente Henry Heckscher, chefe da estação da CIA em Santiago.
Moniz Bandeira também usou fontes secundárias e relatos do período feitas por seus protagonistas. Entrevistou alguns deles, incluindo Roberto Thieme, genro de Pinochet e dirigente do Pátria e Liberdade. "Ele me contou que oficiais do alto comando da Marinha lhes deram os planos de atentados terroristas praticados pelo grupo, como o grande blecaute que atingiu todo o Chile, em 1973", comenta o historiador. (CA)

Textos da Folha de São Paulo, de 8 de setembro de 2008: 1 e 2.


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terça-feira, agosto 26, 2008

Carta Aberta: Uma visão dos livros de Élio Gaspari sobre a ditadura militar (1964-1985)

Carta Aberta: Uma visão dos livros de Élio Gaspari sobre a ditadura militar (1964-1985)

Cara professora,

Como a senhora sabe, ou talvez presuma, estou lendo a série de livros do jornalista Élio Gaspari, sobre o nosso recente ciclo militar. Já li A Ditadura Envergonhada(1) e A Ditadura Escancarada(2). No momento estou lendo A Ditadura Derrotada(3). Ainda estou no início.

Élio Gaspari não se utiliza de nenhuma metodologia que academicamente chamássemos de histórica, e, na verdade, ele mesmo se isenta disso. Ainda no início de A Ditadura Envergonhada, ele explica que não pretende nem mesmo escrever uma “história da revolução de 1964”(1-GASPARI, p.20), mas as histórias de Ernesto Geisel, que ele chama de “o sacerdote”, e Golbery do Couto e Silva, que ele chama de “o feiticeiro”. Para isso, ele escreveu dois volumes a título de “preâmbulo”. E estes dois livros, para mim, se tornaram obras de referência obrigatória, pela sua narrativa dos eventos entre 1964 e 1974. Os livros são uma alentada crônica desde o golpe de 1964 (o “Movimento”, ou a “Revolução, ou ainda a “Redentora”) até mais ou menos o final do governo Médici. Com especial destaque para a guerrilha, e a tortura nos quartéis.

Eu ouvi alguém falar que a narração de Gaspari é tão rica que chega a contar as pausas que a tropa enviada para combater o batalhão do general Mourão Filho fez para respirar. Claro que isso é uma brincadeira, e de maneira nenhuma o livro chega a tamanho detalhismo. Assim, volto a afirmar que o conjunto destes livros é fundamental para o estudo do período, podendo se constituir em obras para consulta, qual manuais de história que vez por outra somos obrigados a consultar para saber “o que aconteceu na história”.

Dito isto, posso dizer que a proposta do autor, Gaspari, sobre a tortura é que ela se constituiu numa política oficiosa do regime. Assim, se no texto do Martins Filho (4) , o general Geisel informa que a tortura “pode ter existido”, e esta também parece a posição do coronel Jarbas Passarinho, Gaspari informa sobre a tortura nos primeiros dias da ditadura, ainda no governo Castelo Branco. Ali, talvez a tortura pudesse ser vista como um “espasmo de violência”, num momento de sedimentar o golpe, e extravasar radicalismos, rescaldos da tal “primeira operação limpeza”. Ele cita as reportagens do então jornalista Márcio Moreira Alves sobre a tortura, e a viagem de Geisel pelo Nordeste para verificar as condições dos presos políticos (A Ditadura Envergonhada, pág. 147 e seguintes). Segundo o livro, de fato, as torturas aparentemente pararam, mas o governo não puniu qualquer responsável pelo acontecido. Foi como se sinalizasse algo como “eu sei o que vocês fizeram, agora basta; se isto voltar a acontecer haverá punições”.

A situação muda de figura a partir do governo Costa e Silva, com a radicalização do movimento estudantil, o início da luta armada, e do Ato Institucional nº 5. Um marco é a “aula” sobre tortura ministrada pelo então tenente Aílton Joaquim, para uma platéia de cerca de 100 pessoas, na 1ª Companhia do Batalhão de Polícia do Exército, no Rio de Janeiro, com direito a projeção de slides sobre as “técnicas”, e exposição e uso de presos políticos como cobaias (2 - GASPARI, pág. 359 e seguintes). O livro A Ditadura Envergonhada termina com uma frase triste: “O exército brasileiro tinha aprendido a torturar” (pág. 362).

O livro A Ditadura Escancarada é iniciado com a seguinte frase: “ Escancarada, a ditadura firmou-se. A tortura foi o seu instrumento extremo de coerção e o extermínio, o último recurso da repressão política que o Ato Institucional nº 5 libertou das amarras da legalidade.” (pág.14).

A seguir, na página 21, cita uma parte de uma apostila chamada “Interrogatório”, editada pelo Centro de Informações do Exército, o CIE. “ Será necessário, freqüentemente, recorrer a métodos de interrogatório, que, legalmente, constituem violência”. “[...] Se o prisioneiro tiver de ser apresentado a um tribunal para julgamento, tem de ser tratado de forma a não apresentar evidências de ter sofrido coação em suas confissões.”

Em seguida, na página seguinte, o autor fala na Medalha do Pacificador, oferecida como recompensa a muitos torturadores. Esta condecoração era oferecida pelo Exército como reconhecimento de atos de bravura, ou serviços relevantes prestados, a militares e civis. O capitão Aílton, citado acima, recebeu a condecoração. O delegado Sérgio Paranhos Fleury, torturador reconhecido, e de triste memória, também.

E mais, na mesma página 22: “Quando ela (a 'tigrada', qualificativo dado pelo ex-ministro Delfim Netto, significando o grupo de policiais e militares que enfrentou a luta armada, e para prevalecer sobre ela usou a tortura e o assassinato. O termo é vastamente utilizado por Élio Gaspari em seus livros) mostra que pode fazer algo que o governo nega e condena, não se pode mais saber por onde passa a linha que separa o que lhe é permitido daquilo que lhe é proibido. O porão ganha o privilégio de uma legitimidade excepcional. A mentira oficial é o reverso da covardia da tortura. Através dela os hierarcas sinalizam um medo de assumir a responsabilidade por atos que apóiam e recompensam.”

A partir da página 162, de maneira ilustrativa, ele passa a contar o caso do jovem Chael Charles Schreier. Jovem, estudante de medicina, abandonou o curso, e entrou para a luta armada, militando na VAR-Palmares. Em 1969, após confronto com policiais do DOPS, Chael foi preso com alguns companheiros, e entregues à Polícia do Exército, no Rio de Janeiro. Moído pela tortura, Chael morreu, e foi encaminhado ao Hospital Central do Exército. Os oficiais-médicos do Hospital não aceitaram receber o cadáver como “vivo”, e o diretor do Hospital mandou que fosse feita a autópsia do morto. A certidão de óbito declarou 53 marcas de pancada, hemorragia na cabeça, e sangue em todos os espaços do abdômen. Intestino rompido. Tórax deprimido, com dez costelas quebradas. Em dezembro a revista Veja publicou que “o presidente não admite torturas”. O ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, declarou que se atos de tortura chegassem ao conhecimento do ministério, os responsáveis seriam punidos. Na semana seguinte, a revista publicou o atestado de óbito de Chael. Segundo Gaspari, o então tenente-coronel Luiz Helvécio da Silveira Leite, enviou carta ao ministro da Justiça. O ministro mudou o seu discurso, adaptando-o à linha dura. E ninguém foi punido por um caso de morte sob tortura registrado por oficiais-médicos do Exército.

Num capítulo intitulado “A Gangrena”, a partir da página 359, o autor conta o caso do Capitão Aílton Guimarães Jorge, o mesmo que atualmente é um dos líderes da contravenção no Rio de Janeiro, e patrono de escola de samba. Em 1971 ele era capitão no 2º batalhão da Polícia do Exército, no Rio de Janeiro. Na Polícia do Exército, combatera a subversão, e foi ferido em um tiroteio, o que lhe valeu a Medalha do Pacificador. Contudo, resolveu se tornar protetor de contrabandistas. A Polícia Federal e o SNI investigaram e juntaram evidências do envolvimento do capitão com as ilegalidades. Assim, o coronel Aloysio Alves Borges, foi incumbido pelo comandante do I Exército, general Sylvio Frota, de resolver a situação. O coronel prendeu oficiais e sub-oficiais envolvidos com o contrabando, e obteve uma série de confissões, arrancadas sob coação (isto é, sob tortura). A Justiça Militar recusou o processo porque os réus afirmaram em juízo terem assinado suas confissões sob coação. Gaspari resumiu assim, o final do caso:

Para que o coronel Aloysio Alves Borges construísse toda a trama denunciada em seu IPM tirando de sua cabeça cada história e cada detalhe, seria necessário que tivesse raro talento de ficcionista. O que ele informou era verdade, mas reconstituíra os delitos através de um processo que violentara os direitos dos acusados e ofendera o rito da Justiça. A idéia de que a confissão é suficiente como prova e de que obtê-la pela violência anula o esforço da investigação, era estranha a ele, ao réus, ao DOI e ao regime. Agia-se com uma noção exclusiva de poder outorgando-se não só o direito de punir delinqüentes da forma que parecesse adequada, como também a prerrogativa de fechar os olhos quando se julgasse conveniente. [...]. O STM achou justo desconsiderar as confissões obtidas no DOI, mas esqueceu-se de determinar a investigação das torturas. O capuz da Justiça Militar estava torto: cego para a esquerda, enxergava à direita. Milhares de pessoas passaram pelos DOIs, mas a quadrilha de contrabandistas da PE foi o único grupo confesso na instrução policial integralmente absolvido em todas as instâncias.

Por fim, gostaria de terminar com mais uma citação. Esta do início do volume chamado A Ditadura Derrotada. Neste caso, Gaspari cita Georges Pinot, jurista francês, que estivera no Brasil na década de 1970, a pedido do Secretariado Internacional dos Juristas Católicos, investigando denúncias de tortura. As palavras dele: “A tortura, no Brasil, não é nem pode ser o resultado de excessos individuais; nem é, nem pode ser considerada, uma reação exagerada a atos terroristas para derrubar um regime em dificuldade que, por seu lado, provoca o famoso 'ciclo da violência'. Isso não sucede, porque já não existe luta armada no Brasil. A tortura é manifestação e necessidade de modelo político num contexto jurídico e socioeconômico”. Me parece que a citação resume até onde pude ler o próprio pensamento do autor, Gaspari, a respeito do assunto.

NOTAS:

1. GASPARI, Elio. A Ditadura Envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

2. GASPARI, Elio. A Ditadura Escancarada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

3. GASPARI, Elio. A Ditadura Derrotada. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

4. MARTINS FILHO, João. A guerra da memória: a ditadura militar nos depoimentos de militantes e militares.

Varia História, Belo Horizonte, n.28, p. 178-201, 2003.


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sábado, agosto 23, 2008

A Grande Ausente

A Grande Ausente

Final de semestre da disciplina de História do Brasil. Passamos o semestre estudando o Brasil quase contemporâneo, revendo a história política do país a partir da reinstitucionalização acontecida em 1946, com a redemocratização, a deposição de Getúlio Vargas, chegando até os estertores da ditadura militar que dirigiu o país entre 1964 e 1985.

Nesta última aula a professora decidiu que a turma deveria promover um seminário, tentando resgatar junto a seus pais ou avós o que eles lembravam que havia acontecido no Brasil, quando dos governos militares. Para completar, foi solicitado aos alunos que trouxessem objetos representativos deste mesmo período. A memorabilia incluiu revistas, livros, discos, moedas, fotos, uma série de pequenas coisas que resgatavam um pouco dos anos 1960, 1970 e 1980.

Quando cada aluno e aluna teve oportunidade de expor o que tinha conseguido resgatar com seus parentes, apenas dois expuseram histórias de como a ditadura afetou efetivamente suas famílias. Talvez fosse melhor dizer que uma aluna teve condições de dizer que a mãe dela era uma pessoa que vivia com medo durante a ditadura, que a vida era afetada pelas ameaça sempre presente da prisão arbitrária, quando não do seqüestro clandestino e desaparecimento.

O outro aluno tinha o pai por militar, mas de nacionalidade uruguaia. E o pai se recusava a comentar sobre o que havia acontecido, ou o que ele fizera durante um período em que, o Brasil, e também o Uruguai (e também o Chile, e também a Argentina) foram dirigidos por regimes de exceção.

A regra entre os alunos era que o pai, ou a mãe, ou o avô, se sentiam indiferentes ao regime. Cada um estava preocupado com a sobrevivência de cada dia. A política era algo que não interessava, coisa para a qual estas pessoas não tinham tempo.

Por ser um aluno um pouco mais velho que os demais (digamos que a minha idade seja aproximadamente o dobro da faixa etária geral da turma), eu pude lembrar de minha infância nos anos 1970, dos álbuns de figurinhas, e da inflação. Relembrei que a minha mãe afirmava que votava normalmente na ARENA (Aliança Renovadora Nacional, o partido de suporte ao governo durante o regime militar), pois, segundo ela, a ARENA dera “tranqüilidade ao país”. Além disso, o regime militar havia dado aos trabalhadores férias proporcionais e o Fundo de Garantia (o FGTS). É estranho pensar isso. Antes destas “generosidades” da parte do governo militar, os trabalhadores recebiam estabilidade no emprego quando completassem dez anos de trabalho, e tinham direito a férias após um ano de trabalho. Mas pessoas com empregos precários, como era o caso do meu pai, um pedreiro, normalmente eram demitidas antes que completassem um ano de serviço para que o empregador não precisasse pagar férias ao trabalhador. Dez anos no mesmo emprego para conseguir estabilidade então, era um sonho distante, talvez inalcançável.

Eu nunca soube as preferências eleitorais de meu pai. Sei que em geral ele não gostava de soldados e de policiais, embora em particular pudesse se dar muito bem com algum, quando calhasse de tê-lo por vizinho. Isso eu pude testemunhar.

Quando pude conversar com minha irmã sobre aqueles dias, fiquei sabendo ela sempre votara no MDB (Movimento Democrático Brasileiro, a oposição consentida no regime). Nós nunca falamos muito sobre isso, mas o regime cassou-lhe o direito de eleger o presidente da república no auge da juventude dela. Ela também comentou comigo que ela havia tido a oportunidade de trabalhar com um senhor aposentado da Secretaria de Segurança do RS, que ali trabalhara entre o final dos anos 1960 e início dos 1970, e este senhor informara a ela que era comum os agentes do DOPS fotografarem os manifestantes de oposição daquela época para posterior abertura de processos e possível prisão por “dano à ordem pública”. Era medida preventiva ficar afastado de passeatas e protestos, para evitar ser confundido com “agitadores”.

Algum colega trouxe as suas próprias lembranças. Dele, me chamou a atenção de sua presença no Comício das Diretas, em Porto Alegre. Foi em 1984. E eu estive neste comício. Bem como passei, ao final de uma aula noturna, pela vigília que se fazia na Esquina Democrática, quando da votação da então chamada “Emenda Dante de Oliveira”, que pretendia emendar a constituição outorgada pelos militares, e restabelecer as eleições diretas para presidente da república. A Emenda ganhou maioria de votos, mas não a quantidade de votos necessária para emendar a constituição. Não custa lembrar que na liderança do governo naquela época, trabalhando para que a emenda não fosse aprovada estava o deputado gaúcho Nelson Marchezan.

Enfim, os mais jovens nasceram após o fim do regime militar, ou pouco antes do seu fim. Se não eram bebês na segunda metade da década de 1980, eram crianças na mais tenra idade. Os mais maduros, como é o meu caso, só tomaram consciência da ditadura, quando esta já estava se desmanchando. E vejo, após este semestre de estudos, o quão pouco eu sabia sobre este passado.

Fiquei mais ou menos como Renato Russo, que em determinada canção da Legião Urbana, dizia que “tenho Hanna Barbera, (...) tenho Guanabara, e Modelos Revell”. Certamente os desenhos da dupla William Hanna e Joseph Barbera acompanharam a minha infância pela TV. Eu não cheguei a entender a questão da Guanabara, a não ser depois de adulto, e os Modelos Revell eram “kits” para modelismo, para montar miniaturas automóveis, aviões ou navios. Eu nunca tive um, mas me lembro vivamente das propagandas nos livros de histórias em quadrinhos falando dos produtos Revell. Acho que eu imaginava como seria bom ter um.

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