domingo, outubro 03, 2010

A pizza e o strogonoff

A pizza e o strogonoff

EM BRASÍLIA, o clima tem sido denso de fofocas, expressão popular que os comentaristas políticos, sérios, conspícuos, traduzem por "tensão". E aqui entre nós, as tensões têm sido muitas e graves: quebra de sigilo na Receita Federal, escândalos na Casa Civil, longuíssima e inútil discussão no Supremo Tribunal Federal sobre a lei da Ficha Limpa, nepotismo diversificado e, menos recente, o mensalão envolvendo parlamentares, prisão de políticos, desentupido tráfico de influência, corrupção em várias modalidades e por aí vai.
Como se não bastassem as tensões brasílicas, fatos e versões vindos de outras praças fazem o rei, o clero e o povo ficarem assanhados: previdência social deficitária, restrições à liberdade de imprensa, possibilidade de um segundo turno, Tiririca garantindo que terá 1 milhão de votos, o último debate na TV seria sangrento e decisivo, o diabo.
O mais interessante é que, em Brasília, todo mundo é bem-informado. E ninguém fica realmente alarmado. Sou do tempo em que o Rio era a capital federal, e uma fofoca na rua do Ouvidor, um incidente no Golden Room do Copacabana Palace ou uma dor de barriga mais virulenta no líder do governo faziam o país estremecer, os tanques desciam da Vila Militar, o líder da oposição subia à tribuna no grande expediente e declarava, aos berros ou em prantos, que o país estava à beira do caos, a pátria finalmente precipitada no abismo.
Os jornais tiravam edições extras, os editorialistas desciam o pau em cima do governo ou da oposição (conforme a linha editorial do próprio) e, ao fim da tarde, à hora da ave-maria, o cardeal vinha ao rádio pedir cordura e paz à família brasileira tão gravemente ameaçada pelas forças do mal.
No dia seguinte, tudo continuava em paz, o desarmamento dos espíritos funcionara durante a noite, mas sempre ficava um tanque enguiçado, aí pelas alturas da avenida Brasil. As velhas máquinas de guerra não aguentavam a barra, as saídas intempestivas, a desoras, para salvar o regime e as instituições. Entupiam-se os carburadores, quebravam-se molas, rompiam-se esteiras, o ministro do Exército aproveitava a ocasião e solicitava mais verbas para o reaparelhamento das Forças Armadas, mesmo sem qualquer perspectiva de guerra no horizonte pátrio. Uma simples e pacífica viagem do Realengo à Praça Mauá provocava terríveis baixas em nosso bélico equipamento.
Em Brasília não tem nada disso. O clima é tenso, a dívida é alta, os juros altíssimos, ninguém sabe onde está a saída -e parece que ninguém quer sair de lugar nenhum. Mas, à noite, vão todos aos coquetéis, às recepções e às homenagens a isso ou àquilo. A capital federal é, de longe, a cidade que mais importância dá a essas reuniões provincianas, onde depois dos discursos e canapés com palito espetando as azeitonas, serve-se um jantar dançante à base de "Moonlight Serenade", o foco de luz multicolorido passeando pelo salão para dar clima de musical da Metro dos anos 50.
Não se trata de saudosismo nem de patriotismo deficiente. Mas prefiro os tempos das crises mais cruas, que traziam o Regimento Sampaio para acampar na praça da República, faziam os rádios tocar os dobrados militares de praxe, os jornais vendiam mais e tudo terminava deixando no ar a necessidade de uma nova crise para consertar as coisas.
Nada se resolvia, todos permaneciam nas posições em que estavam. Não é necessário citar "O Leopardo" de Lampedusa: é preciso de vez em quando agitar as coisas para que tudo continue como sempre.
Naquele tempo, a pizza ainda não havia entrado no mercado, de maneira que tudo terminava em strogonoff, iguaria então recente e que estava em moda. Era, segundo se dizia na época, de particular estima das esposas dos oficiais do Estado-Maior.
Havia até mesmo uma teoria sociológica para explicar o apego dos militares pelos cargos públicos: provado uma vez, o strogonoff subia ao patamar de símbolo do poder. Rasgavam a Constituição para terem direito permanente ao prato que só era servido na boate Vogue, trazido para nossas plagas pelo barão von Stuckart, barão não sei de onde, acho que do império austríaco.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 1º de outubro de 2010.

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sexta-feira, junho 11, 2010

Retórica e subdesenvolvimento

Retórica e subdesenvolvimento

ACONTECEM COISAS por aí. Na vida de qualquer um, o imprevisto faz parte do previsto, mesmo assim há espaço para algumas surpresas.
No meu tempo de repórter, esse insistente escriba teve certa vez um dia atribulado. Depois de comparecer à inauguração de escola pública, almoçar com um embaixador, entrevistar um policial e escrever um texto sobre o Afeganistão, foi obrigado a assistir a uma sessão no Instituto dos Advogados, quando seria entregue o prêmio de Direitos Humanos a um causídico e jornalista.
Já estava na idade e no tempo de não mais ficar surpreendido com nada, mas esta dose foi para nenhum leão botar defeito. Começa que os nobres advogados, cobras dos cobras nas lides e letras jurídicas, não conseguiram chegar a um acordo a respeito do nome do professor Albert Sabin, presente à cerimônia na qualidade de parente do homenageado.
Luminares do direito, de jurisprudência firmada e formada ao longo de inatacáveis vidas públicas, chamaram o descobridor da vacina Sabin de tudo, menos de Albert Sabin.
Ouvi, pela ordem, os nomes: Alberto Sabino, Roberto Sábio, Albert Saban, Albert Sá e, para coroar, num esforço de imaginação criadora, um advogado de foro carioca se referiu ao grande sábio ali presente como Albert Louis Pasteur!
Depois dessa, eu deveria ficar tranquilo para os restos de meus dias na face da Terra. Mas -como sempre- estava mal informado. Ouvi diversos oradores, inclusive alguns professores de direito da Venezuela, do Peru, da Colômbia e da Argentina, que a América Latina nada tinha a aprender a respeito dos Direitos Humanos.
Citaram datas, congressos, simpósios, reuniões, atas e pareceres provando que bem antes da Revolução Francesa, da Carta Magna, séculos antes da Declaração Universal dos Direitos do Homem, antes do liberalismo americano, enfim, antes da própria noção de que cada ser humano tem direito a nascer, viver e morrer em paz, já os juristas latino-americanos haviam lavado a égua.
Para que não pairassem dúvidas, foram mencionadas as atas, pareceres e congressos nos quais os juristas da América Latina estabeleciam a prioridade básica do homem: ter direito a ser homem.
Ouvi os discursos, prestei esforçada atenção a cada orador e, de repente, eu me senti numa casa de loucos. Impossível que eméritos magistrados, homens que escreveram 50, 80, 120 tomos de saber jurídico, ignorassem a realidade a que me habituei, a que todos nós estamos habituados.
Sou homem de poucas palavras e muitos silêncios. Fiquei tranquilo no meu canto, mas vez por outra tive vontade de dar um grito. Afinal, com raríssimas exceções, os países latino-americanos são exatamente os que mais constantemente, os que mais violentamente, agridem os direitos humanos. Isso está na cara, tão na cara que isso não precisa ser provado.
No entanto, os nobres cultores da ciência jurídica dão-se por bem pagos e gratificados: eles fizeram, à sua maneira, a obrigação que lhes competia: as atas existem mesmo e provam que, de acordo com resoluções, parágrafos e alíneas, nenhum cidadão latino-americano seria privado de seu direito de homem.
Recordei uma conferência da OEA a que assisti, em Punta del Este, na qual foi proposta a expulsão de Cuba. Ouvi o chanceler do Haiti pronunciar um discurso de muitas horas.
Foi o parecer decisivo para que os membros da OEA, com exceção do Brasil e da Argentina, votassem pela exclusão de Cuba da organização, sob o pretexto de que desrespeitava criminosamente os direitos humanos, adotando os fuzilamentos e as torturas aos que combatiam o regime de Fidel Castro.
Num francês impecável, o representante de Papa Doc na reunião tornou desnecessário o discurso de Foster Dulles, que havia solicitado aquela assembleia para punir Cuba, que foi defendida tibiamente por Che Guevara
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O Haiti ganhou no peito e no verbo, Cuba foi expulsa da comunidade e Papa Doc, um dos maiores tiranos do século 20, soltou foguetes de alegria, louvando o sucesso de seu chanceler. Nesse dia memorável, descobri que o mal da América Latina não é o subdesenvolvimento. É a retórica.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 28 de maio de 2010. Destaques do blogueiro.


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terça-feira, janeiro 19, 2010

Lata de lixo da história

A lata de lixo da história


O regime totalitário que durou 21 anos tem muitos culpados e poucos inocentes




NA ÉPOCA , não acompanhei em detalhes o julgamento da viúva de Mao Tse Tung em Pequim. Não é o meu gênero. Não curto viúvas e, em matéria de Oriente, guardo progressiva distância. Cito Buñuel: "O Oriente não me interessa. Nunca fui além de Viena". Bem, eu já estive mais longe, pisei, com meus pés de Lins de Vasconcelos, areias do deserto e cidades mongólicas, mas deixa para lá. Não gosto do Oriente, é um direito meu e pronto. Mesmo assim, andei recentemente por lá, visitei a Grande Muralha e a Cidade Proibida, mas em feitio de turista banal, para me provar que não sou ortodoxo em nada, sobretudo em se tratando de terras e povos.
Mas o julgamento de Pequim não deixou de ser um fato importante na história do nosso tempo. O passado é de hoje: em 1968, no mesmo ano em que havia passeatas no Rio, houve aquela bagunça em Paris e em outras cidades europeias. A impressão era uma só: o jovem tomava o poder. Na China, a Revolução Cultural foi cantada em prosa e verso, mais verso do que prosa. Nada seria como antes depois do poder jovem.
Por meio do julgamento da viúva de Mao, soubemos que houve torturas cometidas em nome da juventude, houve injustiças e, sobretudo, 100 mil de chineses de todas as idades foram assassinados e outros 100 mil desapareceram. A Anistia Internacional não se preocupou muito com isso, afinal, num país de 900 milhões de habitantes (população aproximada na época) 100 mil ou 200 mil pessoas não são nada em termos estatísticos.
Mas não era bem isso que desejava comentar. Torturas, injustiças, mortes e perseguições são complicadores (a palavra foi lançada pelos tecnocratas, e é bom que a aproveite) da aventura humana na face da Terra. O que me dá um arrepio na carne é a precariedade dos valores que sustentam determinada ideologia, determinado regime político.
No Brasil, quando surgiu o movimento de 1964, saí por aí como um Dom Quixote mal informado, dando patadas e cusparadas na turma que tomou o poder. Não me arrependo das patadas nem do cuspe que lancei. Afinal, eu procurava falar por mim mesmo, ofendido estava pela violência dos fatos, mas sem entrar no mérito de suas respectivas causas. Como disse Otto Maria Carpeaux, sem dar razão aos vencidos, eu criticava os vencedores.
Fico pensando nos milhares de mortos da China, assassinados em nome de uma verdade revolucionária que não durou 12 anos. Ninguém dará à vida novamente esses mortos, hoje tidos como vítimas de um regime criminoso. Meia dúzia de ex-mandatários, entre os quais a própria sra. Mao Tse Tung, pagaram pelo pato.
Evidente que existem muitos outros culpados. Mas nem assim valeu a pena matar tanta gente em nome do erro. E agora pergunto: será que o julgamento também não foi um erro? Juízes de hoje não poderão ser julgados amanhã e irem todos para a lata de lixo da história?
Bem, cada vez que penso nisso, fico mais tranquilo pelo fato de, sem ter feito realmente nada, já pertencer por vontade própria à citada lata do lixo. Para sair dela, seria necessário optar por uma verdade, e eu abomino a verdade que justifica o assassinato, a tortura, a mentira.
Não tenho muitos motivos para ser um homem tranquilo. Muito pelo contrário. Considero a tranquilidade plena uma forma de estupidez. Mas, ao menos nesse ponto, prefiro ser estúpido e tranquilo.
A lata de lixo da história é muito mais ampla, nela cabe muita gente, boa e má. Na verdade, creio que os piores estão dentro dela. É um consolo besta, mas óbvio: é preferível ir para a lata do lixo do que merecer cinco linhas na enciclopédia, anunciando à posteridade nossos equívocos e nossa miséria.
Saindo da China e voltando ao Brasil, temos uma lata de lixo assombrosa, tamanho família, mas nela cabe ainda muita gente. Discutimos agora a Lei da Anistia, o governo está dividido, a sociedade parece dividida também. Há que haver latas de lixo diferenciadas para papéis, vidros, plásticos, todas talvez não darão para manter limpa a nossa consciência cívica. O regime totalitário que durou 21 anos e promoveu torturas, exílios, desaparecimentos e mortes tem muitos culpados e poucos inocentes.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 15 de janeiro de 2010.


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segunda-feira, janeiro 18, 2010

Conflitos e repressão

Conflitos e repressão

RIO DE JANEIRO - Parece piada, mas não é. Na crise aberta no governo por causa da Lei da Anistia, os bombeiros de plantão descobriram um modo de aliviar as tensões. Apelaram para a semântica: onde se lê "repressão política" leia-se "conflitos políticos".
Vamos com calma. No período da ditadura (1964-1985), houve as duas coisas. Houve conflitos, mas relativamente poucos, pontuais, quando as forças do regime atuavam militarmente contra os bolsões de resistência que contestavam a ordem em vigor, uma ordem totalitária e acima das leis e dos direitos humanos.
Agora, repressão houve -e foi muito pior, porque durou muito e atingiu a sociedade como um todo. Enquanto os conflitos se limitavam à eterna luta dos azuis e vermelhos, os prós e os contra a ditadura, a repressão foi uma cortina de chumbo que isolou a nação de seus direitos básicos, como a de ter opinião e poder expressá-la.
Dou exemplos: no Araguaia e em outros lugares, houve conflito, bandidos contra mocinhos, conforme a posição de cada um. Mas o desaparecimento do deputado Rubem Paiva, o assassinato de Vladimir Herzog e de toda a cúpula do Partido Comunista não foram episódios militares, mas ações coordenadas da repressão mais feroz de nossa história.
Para efeito histórico, no período do regime totalitário houve as duas coisas: os conflitos e a repressão. Do ponto de vista militar, a guerrilha do Araguaia poderia ser considerada um conflito entre forças antagônicas, embora não proporcionais. Mas o arsenal de regulamentos, portarias, avisos e prisões que o regime despejou contra a sociedade foi uma repressão generalizada que afetou toda uma geração, inclusive a dos neutros.
Repito: os conflitos foram pontuais e isolados. A repressão castrou por 21 anos as esperanças de todos.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 14 de janeiro de 2010. Em tempos de “controvérsia” sobre violações de direitos humanos, “conflitos” e “repressão” durante a ditadura militar brasileira (1964-1985).


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sexta-feira, janeiro 15, 2010

Distorção

Distorção profissional

RIO DE JANEIRO - Acompanho com algum interesse a crise aberta dentro do governo a respeito da Lei da Anistia. As posições estão definidas, o único indefinido até agora é o presidente da República. Nos tempos do velho PT, embora com poder decisório, ele mantinha suas hesitações para ganhar tempo e manter o partido em rédeas curtas.
Desta vez, não se trata de um partido cuja hegemonia precisa ser mantida. É mais do que um Estado: é uma nação.
Um ponto parece pacífico: o Estado, para o bem da nação, precisa abrir os porões do regime militar de 1964 a 1985. Não se trata de punir indivíduos, de saber a identidade e o CPF dos assassinos de Vladimir Herzog e de tantos outros, os que montaram a farsa de seu suicídio e de centenas de outros que estão desaparecidos ou oficialmente mortos.
Os militares que deram o golpe e mantiveram a ditadura são os principais responsáveis pelo que se convencionou chamar de "regime de exceção". Foram eles que tomaram o Estado por meio da força e mantiveram a nação refém do arbítrio e da repressão. Precisamos saber como uma classe, destinada pela Constituição a defender a nação, decide empolgar o Estado e fazer dele o carrasco da sociedade.
Que venha a verdade, que ela seja ensinada nos currículos das escolas militares, mostrando que nem sempre o Estado é o defensor da nação, mas seu servo incondicional.
Vivemos um tempo em que se tornou banal o pedido de desculpas públicas. A igreja o fez, a propósito da Inquisição e de Galileu. Agora mesmo o governador do DF pediu desculpas pelo seu delito pessoal. A melhor forma de os militares pedirem perdão à sociedade é admitir os erros do passado e garantirem que a distorção profissional não mais se repetirá.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 12 de janeiro de 2010.


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quarta-feira, dezembro 23, 2009

Natal sob o AI-5

Uma noite de Natal

RIO DE JANEIRO - Desde o dia 13 está ali, na cela do Batalhão de Guardas, tendo Joel Silveira como companheiro, e um cartaz na parede com o lema: "A guarda morre, mas não se rende". Joel colocou por cima a página inteira de um jornal com a cara do Papai Noel. O bom velhinho sorri estupidamente, com suas bochechas coloridas, mas não dá para salvar nem alegrar a noite de Natal que se aproxima.
Os advogados dos dois, dele e do Joel, haviam negociado uma visita dos parentes, mulheres e filhas, mas o comando da região militar vetou a visita aos presos do AI-5. Deviam ser comunistas e não mereciam o Natal dos homens de boa vontade que acreditavam em Deus e no Natal.
A noite caiu, a lâmpada empoeirada que pendia do teto não lembrava luz, lembrava calor, o verão daquele ano fora terrível. Para abreviar a noite, resolveram dormir mais cedo, mas a porta de repente se abriu e entraram dois soldados com duas bandejas. O comandante do batalhão, um homem distinto, que parecia não ter nada a ver com a prisão da qual era carcereiro, mandava uma garrafa de vinho nacional -que o Joel classificou como vagabundo, mas bebeu-o todo. Evitei me contaminar com o vinho dos vencedores.
Havia passas, um pedaço de panetone e uvas, que pareciam boas. Lembrei o verso de André Eloy Blanco: "Madre, son acidas las uvas de la ausência". As uvas do cárcere também são ácidas, mesmo assim, provei uma. Não estava tão ácida assim, mas amargou aqui dentro.
Depois do vinho, Joel começou a cantar o "Noite Feliz" e me convidou para fazer o mesmo. Eu não havia bebido nada e detesto de coração a canção natalina. Fiquei só ouvindo a voz desafinada do meu companheiro dizendo que um pobrezinho havia nascido em Belém. Parece que para nosso bem.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 22 de dezembro de 2009.


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segunda-feira, setembro 28, 2009

O mal pela raiz

O mal pela raiz

RIO DE JANEIRO - Ouvi dizer -ou li em qualquer canto- que circula ou já foi aprovado, na Comissão de Justiça de uma das Casas do Congresso Nacional, projeto que cuida da pedofilia e de crimes afins, que são muitos e envolvem sedução, suborno, violência e patologias diversas.
Na Antiguidade, em países islâmicos, parece que cortavam a mão dos ladrões. Não sei se castravam os pedófilos, mas parece que a onda tanto cresceu que já tem gente pensando nisso. Uma coisa é tratar clinicamente o portador de uma tara abominável, prendê-lo se for o caso, usar todo o rigor da lei para punir o culpado de crime tão nefando.
Outra é mutilá-lo fisicamente. Na farmacologia universal já existem remédios e tratamentos para certos desvios de comportamento, inclusive de comportamento sexual. Sempre ouvi dizer que, nos navios onde a tripulação passa muitos meses ao mar, era ministrada a dose diária de uma substância que inibia a libido -os comandantes não queriam confusão a bordo.
O mesmo ouvi dizer dos conventos e clausuras religiosas. Vivi dez anos num seminário e, pelo que me concerne, só tive exacerbada minha crise de adolescente saudável. Meu inibidor era são Luiz Gonzaga, padroeiro da castidade dos jovens, inclusive dos seminaristas, como ele. Visitei sua cela, no "Gesú", em Roma, havia um crucifixo esquálido, nenhuma foto da Sophia Loren ou da Gina Lollobrigida.
Bem verdade que depois recuperei o tempo perdido, mas isso já cheira a sacanagem. Voltemos aos pedófilos e aos projetos de curá-los por lei ou por fármacos específicos. Sou contra. Para o crime em si já existe uma legislação a qual deve ser mais severa. Nada de mutilação física, como a castração, ou clínica. Criminoso deve ser penalizado, severamente, conforme o caso.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 17 de setembro de 2009.


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quarta-feira, setembro 09, 2009

Liberdade de imprensa

Liberdade de imprensa

RIO DE JANEIRO - A Associação Nacional de Jornais está comemorando 30 anos de existência e denunciou 31 casos de violação à liberdade de imprensa no Brasil. Devem ser casos na maioria recentes, uma vez que, no período da ditadura, mesmo nos últimos anos do regime totalitário, simplesmente não havia liberdade de imprensa e não havia o que violentar.
Tenho alguns anos nas costas como profissional. Eu próprio já fui enquadrado na Lei de Segurança Nacional e na extinta Lei de Imprensa. Sou dos poucos jornalistas que, além de ser proibido de escrever certas matérias, foi condenado e cumpriu pena. Apesar disso, sempre fiz uma distinção quando se fala em liberdade de imprensa.
Uma pessoa ou entidade que processe um jornal ou um jornalista, uma vez que se sentiu prejudicado por uma informação ou comentário, tem o direito de recorrer à Justiça. Afinal, vivemos ou pretendemos viver num Estado de Direito. Temos os códigos Penal e Civil, que regulam a matéria, sem necessidade de uma lei específica. Cabe à Justiça administrar este Estado de Direito, que inclui a prerrogativa de um cidadão recorrer toda vez que se sinta difamado, caluniado etc. É evidente que cabem recursos no trânsito da Justiça, uma corte superior por confirmar ou reformar a sentença anterior. Elementar.
Acho exagerado o fervor de certos setores da imprensa em reclamar de processos ou de sentenças da Justiça, considerando violação de uma liberdade a qual todos têm direito, desde que não fira direito de terceiros.
Afinal, a imprensa não é uma vestal inatacável, acima de qualquer valor da sociedade. Ela está sujeita ao Estado de Direito, que dá liberdade a qualquer cidadão, jornalista ou não. O fato de um juiz aceitar um processo não é uma violação.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 20 de agosto de 2009.

Ah, a preguiça!... Ou as prioridades a outras atividades, ou a falta de tempo... São as desculpas que nos damos para deixar de fazer algumas coisas.

No dia 19, a mesma Folha de São Paulo que publica Carlos Heitor Cony dava informações sobre a reunião da ANJ – Associação Nacional de Jornais recentemente acontecida. Mereceu destaque a condenação das restrições impostas pela justiça à publicação de determinadas notícias.

É certo que alguns juízes extrapolam, pelo que me parece, proibindo veículos sequer de citarem o nome de alguns demandantes sob pena de multas. Mas é certo também que quem se sinta ofendido, ou ache que teve sua privacidade invadida, tem o direito de ir à justiça pleitear proteção ou reparação.

Membros da ANJ têm feito muito barulho sobre restrições impostas sobre a divulgação de processo envolvendo Fernando Sarney, filho do Senador José Sarney, mas não os ouço comentar os processos movidos por membros da família Maiorana contra o jornalista Lúcio Flávio Pinto, em Belém do Pará. A família Maiorana é dona do jornal O Liberal de Belém do Pará, jornal este membro da ANJ.

Parece aquela historinha do pimenta nos olhos dos outros...


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terça-feira, setembro 01, 2009

Liberdade de Opinião

Liberdade de opinião

RIO DE JANEIRO - Muitos colegas e leitores estão estranhando o fato de mais uma vez eu estar remando contra a maré, embarcando no que consideram uma canoa furada, não fazendo parte da união nacional e do consenso da mídia sobre o caso Sarney.
Os mais comedidos argumentam que, sendo eu colega do próprio na Academia Brasileira de Letras, deveria me dar como impedido de comentar o assunto. Citam o caso do juiz que, sendo amigo de Sarney, censurou um jornal sem se dar como impedido. Acontece que o juiz não deu uma opinião. Deu uma sentença, que tem poder de justiça e, conforme o caso, de polícia. Tal poder não tenho nem pretendo ter.
Mal e porcamente tenho o direito de dar opiniões que não precisam ser necessariamente aceitas pelos outros. Em 1964, durante quase um mês, dei minha opinião sobre o golpe daquele ano, contrariando a unanimidade da mídia de então. Fui expulso do Sindicato de Jornalistas da então Guanabara. E o presidente da ABI recusou atender ao pedido do meu advogado para depor a meu favor no processo que me foi movido pelo então ministro da Guerra, Arthur da Costa e Silva.
Com as duas entidades da classe me considerando um energúmeno, fui condenado pelo delito de opinião -naquela ocasião como agora não tinha o poder de justiça e polícia, aliás, nunca tive poder algum.
O caso que está agitando a política nacional e a mídia está seguindo o trânsito legal e democrático. O Supremo Tribunal, em outra ocasião, determinou que recortes de jornal não fazem prova de atos ilícitos. A Comissão de Ética e mais tarde o plenário do Senado têm todos os elementos para punir culpados ou o culpado. Atender o pedido de emprego de uma neta não é crime previsto no Código Penal de nenhum país regulado por leis e não por ressentimentos.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 9 de agosto de 2009.

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quarta-feira, agosto 26, 2009

Biografia e biografado

Biografia e biografado

RIO DE JANEIRO - Sempre ouvi dizer que o senador José Sarney é um homem de sorte, que nasceu virado para a Lua. Chegou à Presidência da República de forma inesperada, mas legal. E muita coisa aconteceu com ele, provando que a sorte sempre esteve a seu lado. É supersticioso, entra nos aviões sempre com o pé direito, faz sinal-da-cruz quando o aparelho sobe e pousa, sai de um lugar pela mesma porta da entrada, enfim, tem dado certo para ele.
Agora mesmo, quando um tsunami invade sua praia, com a mídia consensualmente contra a sua permanência na presidência do Senado, ele tem uma prova do quanto é querido pelos formadores de opinião e pelos profissionais da sua área, que é a política. Nunca um cidadão deste país teve tanta gente preocupada com a sua biografia.
Nos últimos dias, o que mais se lê e ouve é que Sarney tem uma biografia invejável e deve renunciar à presidência do Senado para não prejudicá-la. Essa preocupação com a biografia de um político é deveras comovente (perdoem o "deveras", prometo não mais usá-lo).
Tem-se a impressão de que não estão dando importância ao cargo, mas à pessoa que o exerce. Para honrar sua biografia, Sarney deveria renunciar para que a vida nacional volte à sua normalidade moral, política e administrativa.
Acontece que Sarney tem o direito de administrar a própria biografia, que é dele, e não dos outros. A Comissão de Ética analisará as denúncias contra ele e encaminhará sua decisão ao plenário que o elegeu e que poderá destituí-lo da presidência.
Para um político com a sua biografia, e que chegou ao mais alto posto da carreira republicana, ser mantido ou não no cargo atual é irrelevante. A renúncia seria o reconhecimento de que desmereceu de sua biografia.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 6 de agosto de 2009.


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quarta-feira, agosto 19, 2009

A primeira pedra

A primeira pedra

NÃO PARECE : justamente agora, quando pensávamos em desafios da era moderna, ecologia, internet, conquista espacial, somos obrigados a viver e conviver com velhas palavras e usanças que julgávamos desativadas para sempre. Uma delas, que voltou ao cartaz com força total, é nepotismo. Em sua origem latina teria duplo sentido, pois tanto pode significar alguma coisa relativa a um neto ou a um sobrinho, enfim, a um descendente. Sem querer deitar uma erudição que não tenho, lembro um caso do mais deslavado nepotismo, também um dos mais escandalosos: foi o daquele papa (Pio 4º) que nomeou seu sobrinho para o Sacro Colégio, ou seja, fez um jovem, quase um menino, tornar-se cardeal.
Tratava-se do nosso doméstico São Carlos, padroeiro involuntário de uma antiga escola de samba e do morro homônimo aqui no Rio. No calendário religioso, é venerado como São Carlos Borromeu (alguns grafam Borromeo), por sinal, meu santo onomástico, embora não lhe tenha nenhuma devoção. Seu corpo está hoje na cripta do Duomo de Milão, cidade onde foi bispo e herói. Morreu de peste, tentando salvar as vítimas da epidemia que assolava a sua cidade.
O seu irmão Frederico foi importante personagem do romance italiano mais famoso, "I Promessi Sposi" (Os noivos) de Manzoni, uma espécie de Alexandre Dumas com menos imaginação e melhor estilo. Carlos foi canonizado, é santo de trânsito mundial e, pelo menos no que lhe toca e concerne, justificou em parte a escolha do tio. Foi realmente um exemplo de pastor que deu a vida por suas ovelhas.
Mesmo assim, a exceção não confirma a regra. Se o nepotismo fizesse santos por aí afora não seria, como é, uma das pragas dos governos autoritários e paternalistas. Justiça seja feita aos governos militares dos quais ficamos livres; houve muita corrupção, muita leviandade no trato dos cargos e dos dinheiros públicos, sobretudo muita violência e muita tortura, mas não houve, realmente, um caso escancarado de filho ou um sobrinho em evidência.
Evidente que, nos escalões inferiores, ser parente de um general contava ponto no funcionalismo da nação, que era a espinha dorsal do nosso mercado de trabalho.
Pelo que se saiba, ninguém chegou ao primeiro escalão pelo fato de ser filho ou sobrinho do principal governante. Já no finalzinho do regime, o último general de plantão (João Figueiredo) se empenhou pela nomeação de um irmão teatrólogo para cargo de segundo escalão no Rio de Janeiro, presidente da Funarj ou coisa assim.
Já comentei em crônica da página 2 a onda moralista que atacou a mídia e alguns setores da sociedade quanto ao nepotismo específico dos atuais senadores. Moralismo suspeito, que lembra, pela virulência, os piores momentos da velha UDN, cujos principais líderes berravam nas manchetes dos jornais: "Somos um povo decente governado por ladrões". No passado, Getúlio nomeara um Vargas para chefe de polícia -foi a gota d'água que o derrubou em 1945. Levando em conta a situação da época, foi dose.
Nos quadros funcionais de todas as casas do Legislativo, Senado, Câmara, Assembleias estaduais e Câmaras municipais, um exame superficial nas folhas de pagamento mostrará a concentração massiva de parentes dos senadores, deputados federais, estaduais, vereadores. Mesmo com a proibição legal, os representantes do povo em seus diferentes níveis colocam parentes na cota dos colegas.
Foi assim que uma filha de FHC parou no gabinete de um senador onde podia trabalhar em casa, alegando que o Senado é uma bagunça.
Um senador estreante declarou que já empregou mais de 5.000 pessoas em sua vida pública. Lula perguntou a Eduardo Suplicy se em 18 anos de Senado ele não sabia de nada. O próprio Lula, nos quatro anos em que foi deputado, usou as passagens aéreas a que teria direito para levar sindicalistas do ABC a Brasília. Na ocasião, seriam eles uma espécie de cabos eleitorais do futuro presidente da República.
Evidente que o abuso não justifica o uso. Mas a grita, as gravações da PF e o espaço da mídia dedicados ao pedido de um emprego para o namorado da neta de um senador me pareceram redundantes. Quando os fariseus de sempre quiseram apedrejar a pecadora, foram desafiados na base: quem nunca pecou atire a primeira pedra.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 31 de julho de 2009.


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terça-feira, julho 28, 2009

Até quando?

Até quando?

RIO DE JANEIRO
- Com a queda de Getulio Vargas em 1945, por deliberação dos militares que depuseram o ditador, o poder foi entregue ao presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro José Linhares.
Naquele tempo e como parte ainda hoje, o funcionalismo público em seus vários graus (federal, estadual e municipal) era a espinha dorsal do mercado de trabalho brasileiro.
Linhares nomeou muita gente, inclusive parentes, o que fez o Barão de Itararé reclamar: "Não são Linhares, são milhares".
Quando Juscelino nomeou um parente com o nome de sua família para importante cargo em estatal, o "Correio da Manhã" publicou o editorial mais curto da imprensa mundial: "O presidente da República nomeou um Kubitschek. Este nome não nos é estranho".
O nepotismo é hoje condenado e com razão, mas na escala dos crimes institucionais, é venial, como a gula, a preguiça e a soberba em relação aos pecados mortais, como o homicídio e o roubo.
Ao visitar José Alencar no hospital, Lula encontrou-se com o senador Eduardo Suplicy e reclamou: "Você está há 18 anos no Congresso e não sabia de nada?!" Não somente Suplicy, mas centenas de congressistas nesses últimos anos nada sabiam do que se passava nos porões da Câmara ou do Senado.
A onda moralista que a mídia desencadeou contra o Senado e em especial contra determinado senador lembra a virulência udenista que, expressando a indignação das grandes parcelas da classe média, criaram as condições objetivas para o movimento militar de 1964. Lembro uma foto publicada do guarda-roupa da mulher de João Goulart com a legenda: "Até quando vamos suportar isso?"

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 26 de julho de 2009.

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terça-feira, julho 21, 2009

"No Bonde"

No bonde da história

RIO DE JANEIRO - "Somos um povo decente governado por ladrões!" Esta manchete foi repetida algumas vezes por um jornal do Rio, no tumultuado ano de 1954, que teve seu clímax em 24 de agosto, dia em que um presidente da República que não era ladrão se matou.
Alunas de um curso de comunicação me perguntaram por que a imprensa não impede a onda de corrupção oficial que as assusta, uma delas estava tratando os papéis para ir embora definitivamente, enojada da vida nacional.
Como sempre, respondi que era a pessoa menos indicada para responder a qualquer pergunta sobre política e moral, apenas que, na faixa etária em que elas estavam, eu também pensara em dar o fora, mas por outros motivos. Anos mais tarde, peguei meus trapinhos e fui parar em Havana, não aguentando a citada "vida nacional".
Mesmo assim, lembrei que a corrupção, aqui e em qualquer lugar, nasceu lá atrás, quando o Criador mandou que todos, homem e mulher inclusive, crescessem e se multiplicassem. Esta multiplicação deu no que deu. Arrependido, o Criador não deu uma entrevista exclusiva para a "Veja". Foi bem mais radical e eficiente: abriu as cataratas do céu e inundou a Terra, só salvando um justo e os animais, um de cada espécie.
Não adiantou. As filhas de Noé embebedaram o pai e deste incesto nascemos todos. Em tempos mais românticos, quando todos andavam em bondinhos puxados por burros, um cidadão ergueu a voz e começou a citar as bandalheiras da vida nacional da época. Suando de indignação, depois de lembrar casos de nepotismo, fraude eleitoral, compras superfaturadas do governo e rombos no orçamento federal, levantou-se do banco e perguntou a todos: "Afinal, senhores, aonde estamos?" O poeta e historiador Luiz Edmundo, lá atrás, respondeu: "No bonde!"

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 14 de julho de 2009.


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sexta-feira, julho 17, 2009

Velórios de vida e morte e uma ínfima lição de filosofia

Velórios de vida e morte

NUNCA FUI de curtir velórios. Na realidade, detesto ir a qualquer compromisso social: batizados, casamentos, aniversários, noites de autógrafos, estreias teatrais. Dos enterros, sobretudo, procuro conservar a máxima distância. Costumo romper relações sociais com os amigos que morrem, fico na saudade e fico bastante. Cerimônias festivas ou fúnebres, só mesmo quando não dá para arranjar uma desculpa posterior, ou quando sou apanhado em flagrante.
Acontece que esse horror aos enterros tem agora uma justificativa: é que a plebe está aproveitando a ocasião para fazer festanças. Não sei se foi sempre assim, mas a mania propagou-se e não poupa defunto, ilustre ou não. No enterro do Glauber Rocha, por exemplo, foram feitas e ditas tantas besteiras que por pouco o Glauber não se levantava e dava banana do caixão.
Aos poucos, os velórios estão ficando parecidos com noites de autógrafos, festivais disso ou daquilo, shows promocionais de lançamentos musicais, exposições de variadas artes. Tudo bem, espetáculo é espetáculo, o show deve continuar -dizem os entendidos. Para o velório de Michael Jackson, o mais recente em escala mundial, distribuíram (ou venderam) 17 mil ingressos, com direito a barraquinhas de pipoca e cachorro quente nas imediações. Até do Camboja veio equipe de tevê para gravar a cerimônia.
Muitas vezes o evento fúnebre é aproveitado para declarações de princípios, que muitas vezes não são os mesmos do falecido. Lembro o velório do Mário Pedrosa, um sujeito curioso, papa absoluto da nossa crítica de artes plásticas, que apesar dos 80 anos dava a impressão de ter quinze. Sua trajetória na cultura nacional foi marcada pela dignidade, pela paixão, pela pureza. A exaltação que colocava na política tornou-se até anedótica.
Sofreu exílios, prisões, mas foi em frente. Abriu clareiras em nosso feudo acadêmico e tal como Otto Maria Carpeaux, que ficou enjoado da literatura e nos últimos anos de vida só pensava em política, Mário Pedrosa chutou a arte para corner e meteu os peitos na participação política, que para ele era uma forma de viver superior à arte.
Mas nem Mário Pedrosa foi grande o bastante para que o pessoal ficasse calado em seu velório. O que houve de bobagem daria para encher uma biblioteca. Cito apenas o exemplo: um psiquiatra nativo (parece que nascido em Minas, mas era nativo assim mesmo) disse que havia aprendido com Mário que "não há socialismo sem liberdade nem liberdade sem socialismo".
Bem, não conheci a obra toda de Mário para conferir. De qualquer forma, creio que o psiquiatra se excedeu. A primeira parte de sua afirmação é válida. O socialismo tende à liberdade. Abolindo o lucro, ele estabelece uma relação entre a sociedade e o Estado, e entre os indivíduos entre si, desvinculada de qualquer interesse que não o social.
O lucro, no sistema capitalista, fatalmente gera compartimentos econômicos que transformam cada setor numa gaiola da qual só se sai pela droga, pelo roubo ou pela competição doentia, tornando-se selvagem.
Agora, quanto à segunda parte ("não há liberdade sem socialismo") a besteira é primária. Liberdade faz parte da "essentia" humana. O socialismo, como qualquer outro "ismo!", é "acidens". Ou seja, acidente.
Não estou aqui para ensinar lógica aristotélica de graça, mas confundir um valor essencial com um valor acidental é burrice que não pode ser atribuída nem ao Mário nem a ninguém. A liberdade não foi criada pelo ser humano, pela sociedade humana. Tal como a consciência, ela é um valor em si, uma categoria "apta inesse pluribus", ou se quiserem, universal.
Já o socialismo, como o tribalismo, o teosofismo, o catolicismo, o canibalismo, o fascismo, o filatelismo, o escotismo e o feminismo são bolações humanas, feitas pelo homem e para uma espécie de homem, são acidentais e incidentais. Algumas prestam, outras nem tanto e muitas são perniciosas. A liberdade é apenas como a vida e a morte. Um valor absoluto que se conquista durante a vida e em alguns casos só se ganha depois da morte.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 10 de julho de 2009.


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quinta-feira, julho 16, 2009

Eu, pecador, me confesso

Eu, pecador, me confesso

RIO DE JANEIRO - Antes, no melhor das festas, se alguém duvidasse, a imprensa já era tida como quarto poder, uma instituição que exercia um poder paralelo. Na verdade, não é um poder, mas uma força. Com as novas técnicas de comunicação e com a sacralidade das fontes, ela se transformou no escoadouro dos descontentamentos (lícitos ou não), dos ressentimentos (pessoais ou grupais), das pressões e compressões de uma sociedade heterogênea que inclui desde índios e menores inimputáveis até políticos e empresários que podem roubar.
Esse caldo em ebulição seria a matéria que justificaria a existência e a expressão do Estado que, no caso brasileiro, antecedeu a Nação.
Abriu-se um vácuo e, nele, a força da comunicação encontrou o seu espaço. E o fez com exuberante boa vontade. Não é a vida nacional que pauta a imprensa. É a imprensa que pauta a vida nacional, através de seus órgãos mais excitáveis.
Dá a régua e o compasso. A classe política empacou, ataca e se defende a esmo, desarticuladamente, de acordo com a direção e a intensidade dos petardos que recebe.
Mas quem acusa a imprensa? Quem se atreve a mostrar e demonstrar que o gigante também tem, como todos os gigantes, os seus pés de barro? Há desconforto em todas as classes, juízes, militares, empresários e policiais em relação aos jornalistas. Eles se transformaram em detetives, em esmiuçadores de contas de luz e telefone, de depósitos bancários, declarações de Imposto de Renda, despesas nos postos de gasolina e nas agências dos Correios.
Estenderam sobre a sociedade uma teia assombrosa que absorve denúncias vindas de fontes anônimas, lembrando os comitês de salvação pública da Revolução Francesa que alimentaram de sangue a guilhotina nos anos do terror.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 9 de julho de 2009.

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quarta-feira, julho 15, 2009

A cassação de JK

A cassação de JK

RIO DE JANEIRO - Com algum atraso, vou lembrar o 45º aniversário da cassação de Juscelino Kubitschek, em junho de 1964. Logo após o golpe daquele ano, os militares cassaram o presidente em exercício, João Goulart, e um ex-presidente, Jânio Quadros. Inicialmente, JK foi poupado.
Desde fevereiro do mesmo ano ele fora lançado e homologado pelo PSD como candidato na próxima sucessão presidencial, marcada para o ano seguinte. Seria o "JK-65", tido como uma barbada eleitoral.
As forças no poder, tanto no setor militar como no empresarial, queriam fazer de Carlos Lacerda, o mais ostensivo propagador do golpe, não apenas um candidato, mas o presidente da República. Era necessário limpar o terreno para isso, tirando JK da jogada.
Em São Paulo, que na época gozava a fama (merecida) de ser a locomotiva do Brasil, teve início um movimento para cobrar a cassação do candidato pessedista. Castello Branco, que havia prometido manter o calendário eleitoral e o jogo democrático, foi pressionado pelo então ministro da Guerra, Costa e Silva, para ir conversar com a cúpula da conspiração. Castello reclamou que os empresários paulistas ameaçavam boicotar o plano econômico elaborado por Octavio Gouveia Bulhões e Roberto Campos, que daria régua e compasso para a economia nacional. Foi feita a exigência: que Castello cassasse JK. Todos os ministros assinariam o ato, menos Roberto Campos.
No avião de volta para Brasília, Costa e Silva convenceu Castello de que era necessária a cassação, caso contrário, a chamada revolução não se consolidaria. Em carta a JK, o cardeal-arcebispo de São Paulo, dom Carlos Carmelo Vasconcelos Mota, seu amigo desde os tempos de Diamantina, entregou o que sabia: "Presidente, aqui está a cabeça da hidra".

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 5 de julho de 2009.

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sexta-feira, julho 03, 2009

Quartel de Abrantes

Quartel de Abrantes

RIO DE JANEIRO - Não deixa de ser um avanço, por sinal, relevante. O premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, fortemente pressionado pelos últimos acontecimentos no Oriente Médio, voltou atrás em sua posição radical e admitiu pela primeira vez a criação de um Estado palestino.
Na concepção do líder israelense, o novo Estado não teria direito a possuir Forças Armadas nem mesmo um espaço aéreo soberano, como têm os outros Estados. Seria um simulacro de Estado -e, na realidade, continuaria a ser o que é.
Dentro da nascente geopolítica de região, o terrorismo palestino não seria mais terrorismo, mas ações de uma guerra permanente. Mudariam o nome e a classificação, mas a natureza do conflito permaneceria a mesma, com dois povos lutando entre si por um pedaço de chão, um chão sagrado para ambos.
Para os palestinos, um Estado nos moldes preconizados por Netanyahu não resolveria a questão. Mesmo possuindo um novo status reconhecido pela comunidade internacional, os radicais do Hamas não abririam uma trégua na luta por destruir o Estado judeu. Não mais seria um grupo terrorista, mas um Estado terrorista, que só deporia armas aniquilando o inimigo.
Em todo o caso, a simples aceitação de um Estado palestino por parte de Israel coloca a situação num patamar racional. Tal como uma parcela da Autoridade Palestina abandonou a teoria de que deveria jogar todos os judeus no mar, o reconhecimento de Israel por uma Palestina independente facilitaria novas rodadas pela paz na região. Seria o fim possível de um bom começo.
Do contrário, uma solução intermediária como a proposta pelo premiê de Israel faz com que a situação continue por muitos anos ainda como naquele quartel de Abrantes, onde tudo fica como antes.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 16 de junho de 2009.

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quarta-feira, maio 06, 2009

Uma toga em questão

Uma toga em questão

RIO DE JANEIRO - Sem entrar no mérito técnico do problema -se acaso houve algum-, acredito que já é hora de avisarem ao presidente do Supremo Tribunal Federal que ele não está agradando. E não é de agora essa constatação nacional. Basta abrir sua suculenta página no Google para tomarmos conhecimento de sua carreira polêmica -à falta de classificação mais apropriada, ressalte-se o caráter polêmico de sua personalidade pública.
Desde a sua indicação para o STF, desde a sua passagem pela AGU, em tudo o que fez ou deixou de fazer causou irritação e pasmo, sobretudo nos meios jurídicos do país. Prestou serviços também polêmicos ao governo de Fernando Henrique Cardoso e provocou até mesmo pedidos de impeachment, que não foram adiante devido ao rolo compressor que ele próprio ajudou a criar durante o tucanato.
Impressionante a sua mania de dar opinião sobre qualquer assunto, antecipando inclusive juízos sobre causas que não chegaram a ser processadas, contrariando a tradição secular segundo a qual um juiz só se manifesta nos autos.
Impressionante também a sua gula pela visibilidade. Disse bem o ministro Joaquim Barbosa: o presidente do STF está na mídia, vulgarizando o Poder Judiciário -ou destruindo-o, segundo a acusação feita em alto som no plenário daquele tribunal e divulgada à saciedade pela televisões.
Os oito ministros que assinaram nota de solidariedade ao presidente daquela corte tiveram o propósito saudável de preservar a instituição de uma crise que pode ter desdobramentos imprevisíveis.
A opinião pública, estarrecida com o escândalo das passagens às famílias de alguns congressistas, ficou sabendo que até mesmo no Judiciário a lama respingou numa toga que, apesar de preta, deve permanecer imaculada.


Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 26 de abril de 2009.

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domingo, maio 03, 2009

Transparência

Transparência

RIO DE JANEIRO - Não faz muito, exigia-se dos homens públicos e particulares um mínimo de honestidade. Noel Rosa perguntava num samba famoso: "Onde está a honestidade?". Parece que até hoje ninguém respondeu. Preferiram mudar a pergunta, substituindo a honestidade por ética. A rigor, não se sabe exatamente o que seja a ética, uma extensão da moral ou um conceito subjetivo que varia de situação para situação, de profissão para profissão (a deontologia) ou mesmo de fuso horário para fuso horário.
Diante de tantas dificuldades, elegeu-se um novo conceito de honestidade, de ética e de moralidade: a transparência. Vejo na TV o senador Heráclito Fortes, que fisicamente nada tem de transparente, garantir que o Senado será transparente e -por extensão- que a vida pública nacional também o será. Alvíssaras, meu capitão, que avistei terras de Espanha, areias de Portugal!
Mesmo assim, continuo preocupado. Com a opacidade reinante, são feitas coisas extraordinárias. É fácil imaginar o que poderá ser feito quando todos serão transparentes como os fantasmas, podendo atravessar paredes. Quanto mais transparentes, mais invisíveis ficarão.
Em criança, participei de reunião em que foi lançada a ideia de sermos transparentes. Quais seriam as nossas prioridades se ficássemos sem matéria visível, podendo ir a qualquer canto, fazer qualquer coisas sem sermos descobertos?
A maioria veio com planos hediondos, saber o que os pais faziam quando ficavam trancados no quarto, outros queriam ver as meninas mais em evidência tomando banho. Um deles queria invadir a confeitaria Indiana, celebrada por suas coxinhas de galinha.
Já naquele tempo, meu grande anseio era aproveitar a transparência para não existir, ficar fazendo nada, mas transparentemente.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 31 de março de 2009. De um fino senso de humor.

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quarta-feira, abril 08, 2009

Marcito

Marcito

RIO DE JANEIRO - "Pendurada a espada, os velhos marechais deveriam recolher-se a particulares limbos de glória, cercados da ternura de suas famílias e do silêncio de seus concidadãos. Pendurada a espada, os velhos marechais deveriam cristalizar-se como estátuas dignas, merecedoras do respeito dos que por elas passam, mas sem perturbar o fluxo de vida que lhes corre nos pés. Ao fim de uma vida árida e dura, o silêncio é o que lhes convém. E à nossa paciência também".
Este é o final da crônica de Marcio Moreira Alves publicada no "Correio da Manhã" de 7 de maio de 1964, em cima do golpe daquele ano. Marcito comentava uma entrevista do marechal Odílio Denys, um dos esteios do poder militar que se instalava no país. Em dezembro de 1968, como deputado federal, faria o discurso que serviria de pretexto para o AI-5.
Já não falava diretamente aos marechais, mas aos cadetes de maneira geral, relembrando de certa forma a greve das mulheres de Atenas que se negavam aos covardes da ocasião.
Quando seu primo, Afonso Arinos, telefonou-me para dar a notícia de sua morte, eu já perdera o prazo de mudar minha crônica de domingo. Gostaria de escrever mais e melhor sobre a amizade que nos uniu, nas redações, nas celas da PE, no dia a dia de uma convivência em que conheci um dos homens mais puros e possuídos no seu amor à justiça.
O golpe de 64 contou com o apoio da sociedade e da mídia. Marcito foi a brilhante exceção que, após uma tarefa profissional em Recife, escreveu a série mais tarde publicada em livro: "Torturas e Torturados".
Foi um divisor de águas. A partir das denúncias de Marcito, ninguém teria o direito de ignorar o que se passava e que aumentou com o tempo e o modo.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 7 de abril de 2009.

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