sábado, outubro 16, 2010

Diálogo Chinês

Diálogo chinês

O governo chinês está dando sinais muito interessantes de que deseja um diálogo mais adequado com o setor privado externo, que o ajudou e continua a ajudar a construir sua economia.
Este sente-se permanentemente ameaçado pela intensa discriminação que sofre na competição interna promovida por empresas estatais, principalmente em relação à apropriação de suas tecnologias.
Agora mesmo, a Ford e a Toyota, que desejam participar da indústria de carros elétricos na China (que deverá ser a maior do mundo), só poderão fazê-lo se se dispuserem a ceder gratuitamente a tecnologia (baterias, controles, motores etc.) que já desenvolveram (e que custaram milhões de dólares) às três empresas estatais chinesas que serão criadas para conquistar o mundo. Quem quiser aceita. Quem não quiser não precisa entrar.
A tecnologia será contrabandeada do mesmo jeito!
No dia 22 de setembro, o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, reuniu-se no Waldorf Astoria de Nova York com uma dezena de grandes empresários americanos investidores na economia do seu país para uma conversa mediada por Henry Kissinger. O diálogo foi franco e respeitoso.
Jiabao, delicadamente, fez ouvidos de bom mercador. Ele sabe o poder que tem a potencialidade do mercado interno chinês. Todos se queixaram, mas ninguém disse que sairá.
Em outra reunião, no mesmo dia, Wen disse tranquilamente que a China não busca "intencionalmente" os enormes superávits com os EUA e acrescentou que "não existe base para uma valorização drástica do yuan". E, em tom humilde, lamentou: "Vocês não sabem quantas empresas chinesas faliriam. Haveria sérias perturbações. Apenas o primeiro-ministro chinês (ele mesmo) sente essa pressão".
O pequeno problema é o seguinte: por que tantas empresas faliriam se houvesse a valorização do yuan se elas não estivessem vivendo sob a proteção do subsídio da desvalorização intencionalmente produzida pelo próprio governo?
A China, obviamente, não é uma economia de mercado, e sua organização é sustentada por um Estado-indutor apoiado numa competente burocracia (com grau normal de corrupção). O aparelhamento desse Estado pelo Partido Comunista Chinês se fez na tradição milenar.
No século 2 antes de Cristo, um imperador criou uma universidade para cooptar funcionários por concursos públicos, criar competência profissional e promovê-los pelo mérito. Ela tem objetivos claros.
Quem quiser aceitar suas regras fica, quem não quiser vai embora! Ela tem consciência do enorme poder de atração de seu mercado interno. Quem está disposto a perder as oportunidades que ele oferece?

Texto de Antonio Delfim Netto, na Folha de São Paulo, de 13 de outubro de 2010.


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quinta-feira, setembro 30, 2010

Os óbitos eminentes do pós-eleição

Repartição de renda faz sua última eleição

Wanderley Guilherme dos Santos| Do Rio
30/09/2010

Registro dois óbitos iminentes: o da eficácia eleitoral da política de redistribuição de renda e o do poder desestabilizador da grande mídia. São movimentos dessa natureza que brazilianistas e a nova direita chic, os comunistas nostálgicos, não antecipam. Há quem acredite que nada mudou no Brasil desde a Primeira Missa. Outros, que mudou para pior desde a Primeira República. São ecos do passado, nutridos pela lerdeza real com que o país tem resolvido alguns problemas clássicos da modernidade. A urbanização custou a chegar, assim como a industrialização e a transformação da estrutura ocupacional. Argentina, Chile e Uruguai brilhavam com taxas européias de urbanização e alfabetização (nada de industrialização, é bem verdade) quando o mundo era campestre e a poesia e o romance, bucólicos. Em um par de décadas, contudo, a urbanização e a transformação ocupacional brasileiras bateram recordes históricos, deixando na rabeira não só a América do Sul, mas China, Índia e, em alguns aspectos, a Rússia, inventando ao longo da travessia um eleitorado de 136 milhões de votantes, indomável a qualquer elite leninista e, cada vez mais, insubmissa ao comando coronelista. A poda das oligarquias hereditárias ocorre de Norte a Sul do país. Por fim, descobriu-se uma classe média (próxima de 90 milhões de pessoas) quase do tamanho do Japão. Dezenas de milhões de "japoneses", digamos assim, falando português, mas com igual apetite consumista, invadiram as lojas de eletrodomésticos, de roupas, agências de viagens, aviões, hotéis e, até mesmo, as revendedoras de automóveis japoneses propriamente ditos. Não há nostalgia que suporte isso sem virar ressentimento. Mas, a contragosto, será nesse depósito que a história obrigará os conservadores a colher votos no futuro.

Do berço ao túmulo, a população brasileira passou a ser assistida por complexa rede de políticas sociais institucionalmente inéditas, em grande parte, e incomparáveis em sua cobertura. Multidões foram extraídas à miséria e à pobreza em prazo mínimo, se confrontado aos quase cem anos que o sistema social europeu exigiu para ser elaborado e implementado. Evidentemente, nossos séculos preguiçosos legaram tal espetáculo de carências que a profunda subversão de prioridades operada pela era Lula não está senão a meio caminho da empreitada em seus efeitos estruturais. Metas ainda por atingir, ocasionais gestões deficientes, equívocos de formulação inicial de alguns programas fazem parte da história real do período e comparecem na queda de braço das argumentações eleitorais. Mas não é nesse discurso ao tele-espectador que se encontra o coração da matéria.

Grande parte das políticas sociais em curso dispensa intermediários. Os atingidos têm acesso direto aos benefícios, extinguindo-se o pedágio de gratidão que deveriam pagar aos agentes executivos das ações distributivas. A fruição dos bens sociais a que têm direito independe de conexão com algum doador individualizado, subordinando-se tão somente ao vínculo formal com a apropriada agência de implementação. O funcionamento do sistema, naturalmente, claudica aqui e ali e a eficiência da máquina não é uniforme. Isso tende a melhorar. E tende a melhorar na exata medida em que os beneficiados deixam de aceitar o serviço ou o bem como favor (a cavalo dado não se olham os dentes) e a entendê-lo como obrigação do Estado. Nessa mesma medida o voto-gratidão ou se transforma em voto-confiança ou migra. Em breve a população brasileira sentirá a rede social em expansão (volume e qualidade) como estado da natureza, solo sobre o qual se desloca sem prévia licença de autoridade política a que deva lealdade. Certamente que o eleitorado, sobretudo o mais antigo, preserva um estoque de confiança nas lideranças que deram origem à re-fundação do pacto político original. Mas a simples lembrança daquele momento pode se tornar insuficiente para a renovação da confiança. E é assim que deve ser.

Parte considerável da nova classe média tende ao conservadorismo por entender com absoluta lucidez que existem limites à mobilidade social ascendente e que mudanças, dadas certas circunstâncias, serão, provavelmente, para pior. É sociológica e economicamente impossível que a totalidade das pessoas que alcançaram ou venham a alcançar em breve o topo salarial ou de posição em algum ramo do comércio, serviços ou ocupação industrial, se transfiram para um patamar acima na estratificação social, dando início a nova trajetória ascendente. A maioria das moças e rapazes que, recém alfabetizados ou saídos de escolas profissionalizantes, encontram vagas em abundância como atendentes, vendedoras, caixas, recepcionistas etc., irão se aposentar na mesma profissão ou em profissão aparentada. Algumas chegarão a supervisora ou gerente de filial; pouquíssimas a postos de direção. Grandes agregados sociais não costumam pular dois degraus na estratificação, independente da orientação dos governos e dos sociólogos de boa vontade. A ascensão inter-geracional é outra história. Em uma geração, porém, o jovem que se entusiasmava com o fervilhante trânsito social é o mesmo adulto maduro que, seguro em sua posição atual e aposentadoria próxima, teme promessas de solavancos sociais. O mais provável é que o solavanco o desaloje. Alguns chamam o fenômeno de "aversão ao risco", mas podemos chamá-lo, sem ofensa, de "potencial de votos conservadores". Em próximas eleições, o aceno da consolidação de conquistas feitas pode ser tão ou mais atraente do que prometida alvorada de grandes transformações.

E eis que o poder desestabilizador da grande mídia parece agônico. Poder que detinha menos em função do jornalismo político investigativo, exacerbado em períodos eleitorais, e mais pelas ilações que faz, os olhos que a liam e os ouvidos que as ouviam. Acusar a mídia de omitir informações, procede, com frequência, mas é trivial. Negar os resultados reais do jornalismo investigativo é tolo e inútil. O mesmo leitor que recusa o exagero aceita o fato comprovado. E o que importa, em primeiro lugar, são os fatos comprovados. Culpa cabe ao governo, ao atual, aos anteriores e a todos os que vierem depois, por entregarem seus eleitores e apoiadores aos embaraços de se verem expostos aos resultados de uma política negligente de recrutamento de pessoal para cargos de absoluta relevância e respeitabilidade. Não é aceitável, em nenhum governo, que ocupantes de cargos de confiança estejam a salvo para operar sem sistemático escrutínio da legalidade e lisura de seus atos. Os órgãos de segurança do governo devem ser responsabilizados pelas constantes provas de incompetência que vêm dando. Um aparato estatal oligárquico, historicamente destituído de capacidade operacional para implementar políticas de grande envergadura - por isso mesmo obrigado a recrutar rapidamente quadros capazes, mediante concursos e funções de confiança - está especialmente sujeito a ser penetrado por funcionários cuja idoneidade ainda está para ser comprovada. O cuidado com o funcionamento da engrenagem governamental deve ser permanente e habilidoso, antes que meramente burocrático. Não é o governo que se torna vulnerável. Isso pode passar. São os seus eleitores que se envergonham e gaguejam, pagando enorme preço em estima social pela confiança que depositaram em governantes, e que a transferiram à desonra. Por isso, não é a grande mídia a responsável. Ao contrário, deve-se ao jornalismo investigativo de boa fé a fiscalização que órgãos governamentais deixam escapar e que a desídia de uma oposição de nariz arrebitado não exercita.

Referia-me ao jornalismo investigativo de boa fé. As ilações editoriais pertencem a outro departamento. Fora da temperatura eleitoral, não há pessoa de bom senso suscetível à idéia de que o presidente Luiz Inácio, ou qualquer outro presidente normal, tenha montado um governo para saquear o país ou promover o nepotismo como política oficial. Não haveria recursos, tempo e sequer mão de obra para, ao mesmo tempo, reduzir espetacularmente a miséria, redistribuir renda e estimular o desenvolvimento econômico. A transferência de significado dos reais ilícitos administrativos para deliberadas intenções políticas se deve ao exercício do poder desestabilizador da grande mídia. Não consta de nenhuma apuração jornalística nem faz qualquer sentido no contexto geral das eleições. Mas é recorrente no Brasil. Assim aconteceu em 1950, 1954, 1960, 1964, no século passado, e em 2002 e 2006, no atual. Ao contrário de épocas pretéritas, todavia, suspeito que esse poder desestabilizador agoniza e, por isso, esperneia.

Tudo começou, creio, com a decisão do então presidente Fernando Henrique Cardoso de criar o Ministério da Defesa, entregando seu comando a um civil. O grande economista Inácio Rangel sorriria ao verificar que, mais uma vez, teria que ser um membro da elite a tomar medidas bastante ousadas. Fernando Henrique, candidato preferencial que fora da oficialidade militar, fez, sem susto, o que Lula, certamente, não teria condições de fazer, à época. Firmou-se constitucional precedente e a sucessão de ministros naturalizou a condição civil do cargo. Despreocupado com problemas de soberania, contudo, Fernando Henrique levou as Forças Armadas à mesma dieta do resto do funcionalismo público e das instituições do Estado, fazendo-as raquíticas, quando não as esfacelando. Outra vez, coube agora ao ex-espantalho Lula, comprometido com a recuperação do povo e da soberania nacional, re-incorporar as Forças Armadas à sociedade e integrá-las em projeto comum. Hoje, nem o Exército nem as demais forças militares estão em busca de identidade, como diria o sociólogo Edmundo Campos, distinta da identidade dos demais segmentos do país. Não obstante resquícios de privilégios, preconceitos e temores herdados de passado nem tão remoto, o entendimento entre as instituições civis e militares se manifesta na total discrição e profissionalismo com que os responsáveis pelos comandos armados têm agido de tempos para cá. Na verdade, o que está fugindo ao poder desestabilizador da grande mídia são os olhos e ouvidos militares. Ela nunca interpretou, fora raros momentos, o sentimento da maioria da população, valham as sucessivas derrotas de seus candidatos como recibo da afirmativa. Mas vociferava aboletada em tanques. Hoje, resta-lhe o potencial para assassinatos de caráter - algo ainda terrivelmente assustador. Tímidas tentativas de se aconchegarem aos bivaques, entretanto, diria o marechal Castelo Branco, têm sido apenas patéticas.

A influência dos meios de comunicação nos processos eleitorais é inteiramente normal em democracias. Inevitável, ademais. Perigoso é quando, além da malícia retórica, o poder desestabilizador busca se realizar, irresponsável, pela mão de terceiros. Isso, parece, está fora de cogitação. A propósito, em 2012 o opúsculo "Quem Dará o Golpe no Brasil?" completará cinquenta aninhos.

E para não dizer que não falei de flores: o poder desestabilizador se concentra, hoje, nesse fóssil institucional que é a Justiça Eleitoral.

Wanderley Guilherme dos Santos integra a Academia Brasileira de Ciências/Universidade Candido Mendes


Texto visto no blog do Luís Nassif. O parágrafo destacado é por conta do blogueiro.

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terça-feira, agosto 17, 2010

BNDES, transparência e pseudo subsídios

BNDES, transparência e pseudo subsídios

Antonio Corrêa de Lacerda

A atuação do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) tem sido alvo de uma série de questionamentos, especialmente no que se refere a um alegado subsidio embutido nos empréstimos ao setor privado.

O foco tem sido nos aportes realizados pelo Tesouro Nacional ao banco, envolvendo nos últimos dois anos um montante de R$ 180 bilhões. Como a taxa de juros cobrada pelo BNDES aos empréstimos é pela TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo), atualmente em 6% ao ano e a divida pública é regida principalmente Selic (Taxa básica de juros, definida pelo Copom-Comite de Politica Monetária), hoje em 10,75%, a diferença se configuraria em um subsidio ao setor privado.

No entanto, a questão não é assim tão simples. Aparentemente haveria na operação uma diferença de 4,75 pontos percentuais que se configuraria em um subsidio da ordem de R$ 8 bilhões ao ano, a ser coberto pelas contas publicas. Mas, o raciocínio aqui tem que ser dinâmico e não estático. Mais econômico do que contábil.

O primeiro ponto a ser destacado é que trata-se de empréstimos de longo prazo, de 30 ou mais anos. É muito pouco provável que a diferença atual, entre Selic e TJLP prevaleça nesse longo período. A tendência é que elas se aproximem, pois as taxas de juros básicos devem ser reduzidas.

Segundo, vale analisar o papel dos bancos públicos. Eles existem como atividade de fomento, financiando investimentos em infraestrutura, indústria e agropecuária, algo que os bancos privados nem sempre estão dispostos a fazê-lo. Outro aspecto importante é que, no mundo cada vez mais globalizado, nossas empresas concorrem com outras, que tem condições de financiamento incomparavelmente mais favoráveis.

Empresas sulcoreanas e chinesas, por exemplo, contam com financiamentos públicos a custo praticamente zero e tem as suas atividades apoiadas com subsídios e incentivos porque são vistas como estratégicas para o desenvolvimento e inserção internacional destes países.

A questão é que as altas taxas de juros praticadas no mercado doméstico brasileiro inibem os investimentos produtivos. Elas são um verdadeiro convite ao ócio. Porque alguém investiria na produção para ganhar menos do que receberia adquirindo títulos da dívida publica, sem muito esforço e quase sem risco. Os próprios bancos privados tendem a não se interessar por operações de crédito, porque é muito mais cômodo e seguro financiar o Estado. No Brasil, os bancos públicos também têm a função de corrigir parcialmente essa anomalia.

Mas, as contas públicas também são favorecidas com o resultado das operações realizadas pelos bancos públicos. Primeiro porque há um efeito multiplicador dos investimentos, que vamos considerar, de forma conservadora, da ordem de 2 vezes. Os R$ 180 bilhões adicionais de capacidade de empréstimos do BNDES geram potencialmente R$ 360 bilhões de atividade econômica, que propiciam uma receita tributária da ordem de R$ 72 bilhões, considerando, também de forma bastante conservadora, um carga tributária média de 20%.

O segundo aspecto é que a atividade do BNDES é lucrativa. Somente em 2009 gerou o lucro liquido de R$ 6,7 bilhões, depois do pagamento de Imposto de Renda. O Tesouro Nacional é beneficiário de grande parte desse lucro, na forma de dividendos.

Um terceiro ponto, de difícil mensuração é o custo da não realização de investimentos. O BNDES praticamente dobrou a sua participação no financiamento de investimentos na infraestrutura e indústria nos últimos quatro anos, de 21%, em 2005, para quase 40% do total, em 2009. Se não houvesse o apoio dos bancos públicos muitos projetos não seriam realizados, especialmente na infraestrutura, representando uma restrição ao crescimento da atividade, do emprego, da renda e da receita tributária. Algo danoso para o país.

Ou seja, não há subsidio nas operações do BNDES, nem no conceito clássico da OMC (Organização Mundial do Comercio), porque os juros praticados, embora mais baixos do que a média do mercado brasileiro ainda estão muito acima dos concorrentes internacionais, nem representam ônus para as contas publicas, uma vez que a receita gerada para o governo, supera em muito o custo implícito na operação.

A crise internacional deveria ter ressaltado o papel crucial desempenhado pelos bancos públicos no Brasil, que representaram um importante instrumento de política macroeconômica anticíclica. Foi um determinante contraponto à escassez de crédito de financiamento e, portanto, um dos principais fatores que diferenciaram a economia brasileira de outros países em desenvolvimento que não puderam contar com instrumentos equivalentes.

Não deixa de ser curioso observar que os defensores da ora, do erário público e da transparência, no que se refere ao suposto subsidio dos empréstimos públicos ao setor privado, jamais tenham proposto o mesmo procedimento para o custo de financiamento da dívida pública. Os juros reais mais elevados do mundo geram uma despesa pública anual de 5,5% do PIB (Produto Interno Bruto), algo próximo de R$ 160 bilhões ao ano. Uma transferência enorme renda de toda a sociedade para o setor financeiro e os rentistas, extremamente vulnerável às ?expectativas? de inflação e de juros, que acabam influenciando fortemente as decisões do Copom !

Antonio Corrêa de Lacerda é professor-doutor do departamento de economia da PUC-SP e ex-presidente do Cofecon ? Conselho Federal de Economia e da Sobeet.


Texto publicado no Valor Online, reproduzido no blog do Luís Nassif.


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sexta-feira, junho 11, 2010

Retórica e subdesenvolvimento

Retórica e subdesenvolvimento

ACONTECEM COISAS por aí. Na vida de qualquer um, o imprevisto faz parte do previsto, mesmo assim há espaço para algumas surpresas.
No meu tempo de repórter, esse insistente escriba teve certa vez um dia atribulado. Depois de comparecer à inauguração de escola pública, almoçar com um embaixador, entrevistar um policial e escrever um texto sobre o Afeganistão, foi obrigado a assistir a uma sessão no Instituto dos Advogados, quando seria entregue o prêmio de Direitos Humanos a um causídico e jornalista.
Já estava na idade e no tempo de não mais ficar surpreendido com nada, mas esta dose foi para nenhum leão botar defeito. Começa que os nobres advogados, cobras dos cobras nas lides e letras jurídicas, não conseguiram chegar a um acordo a respeito do nome do professor Albert Sabin, presente à cerimônia na qualidade de parente do homenageado.
Luminares do direito, de jurisprudência firmada e formada ao longo de inatacáveis vidas públicas, chamaram o descobridor da vacina Sabin de tudo, menos de Albert Sabin.
Ouvi, pela ordem, os nomes: Alberto Sabino, Roberto Sábio, Albert Saban, Albert Sá e, para coroar, num esforço de imaginação criadora, um advogado de foro carioca se referiu ao grande sábio ali presente como Albert Louis Pasteur!
Depois dessa, eu deveria ficar tranquilo para os restos de meus dias na face da Terra. Mas -como sempre- estava mal informado. Ouvi diversos oradores, inclusive alguns professores de direito da Venezuela, do Peru, da Colômbia e da Argentina, que a América Latina nada tinha a aprender a respeito dos Direitos Humanos.
Citaram datas, congressos, simpósios, reuniões, atas e pareceres provando que bem antes da Revolução Francesa, da Carta Magna, séculos antes da Declaração Universal dos Direitos do Homem, antes do liberalismo americano, enfim, antes da própria noção de que cada ser humano tem direito a nascer, viver e morrer em paz, já os juristas latino-americanos haviam lavado a égua.
Para que não pairassem dúvidas, foram mencionadas as atas, pareceres e congressos nos quais os juristas da América Latina estabeleciam a prioridade básica do homem: ter direito a ser homem.
Ouvi os discursos, prestei esforçada atenção a cada orador e, de repente, eu me senti numa casa de loucos. Impossível que eméritos magistrados, homens que escreveram 50, 80, 120 tomos de saber jurídico, ignorassem a realidade a que me habituei, a que todos nós estamos habituados.
Sou homem de poucas palavras e muitos silêncios. Fiquei tranquilo no meu canto, mas vez por outra tive vontade de dar um grito. Afinal, com raríssimas exceções, os países latino-americanos são exatamente os que mais constantemente, os que mais violentamente, agridem os direitos humanos. Isso está na cara, tão na cara que isso não precisa ser provado.
No entanto, os nobres cultores da ciência jurídica dão-se por bem pagos e gratificados: eles fizeram, à sua maneira, a obrigação que lhes competia: as atas existem mesmo e provam que, de acordo com resoluções, parágrafos e alíneas, nenhum cidadão latino-americano seria privado de seu direito de homem.
Recordei uma conferência da OEA a que assisti, em Punta del Este, na qual foi proposta a expulsão de Cuba. Ouvi o chanceler do Haiti pronunciar um discurso de muitas horas.
Foi o parecer decisivo para que os membros da OEA, com exceção do Brasil e da Argentina, votassem pela exclusão de Cuba da organização, sob o pretexto de que desrespeitava criminosamente os direitos humanos, adotando os fuzilamentos e as torturas aos que combatiam o regime de Fidel Castro.
Num francês impecável, o representante de Papa Doc na reunião tornou desnecessário o discurso de Foster Dulles, que havia solicitado aquela assembleia para punir Cuba, que foi defendida tibiamente por Che Guevara
.
O Haiti ganhou no peito e no verbo, Cuba foi expulsa da comunidade e Papa Doc, um dos maiores tiranos do século 20, soltou foguetes de alegria, louvando o sucesso de seu chanceler. Nesse dia memorável, descobri que o mal da América Latina não é o subdesenvolvimento. É a retórica.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 28 de maio de 2010. Destaques do blogueiro.


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segunda-feira, janeiro 04, 2010

Impressões entre a marolinha e o navio

A marolinha e o navio

SÃO PAULO - O jornal "O Estado de S. Paulo" publicou na capa da sua edição do último domingo uma foto muito ilustrativa. Centenas de pessoas estão acomodadas ao redor de uma grande piscina. São famílias, homens, mulheres, crianças. Trajes de banho, óculos escuros, drinques, celulares e máquinas fotográficas na mão, elas dirigem sua atenção sorridente a uma cena que a imagem não mostra: a legenda nos informa que todos ali acompanham um concurso de drag queen.
O conjunto lembra um pouco o Piscinão de Ramos, a praia artificial que Garotinho instalou na zona norte do Rio em 2001. Mas aqui estamos a bordo de um navio, num dos muitos cruzeiros pela costa brasileira que movimentam o turismo, cujo crescimento está ancorado na ascensão da classe C. No ano da marolinha, Lula levou o Piscinão de Ramos para passear em alto mar.
Trata-se, é claro, de uma boa notícia. O naviozão brega é um entre outros vários símbolos de inclusão que a realidade nos mostra. No auge do Real, sob Fernando Henrique, falava-se com orgulho do aumento do número de pessoas com acesso à dentadura. É só uma impressão, mas repare nas ruas se hoje não existe, entre os mais pobres, muita gente usando aparelho dentário.
TV de tela plana, celular com câmera, carro usado, passagem aérea mais barata que viagem de ônibus -são ícones de consumo da era Lula. A contrapartida são aeroportos cheios, trânsito demais nas ruas -o país que se descobre maior e mais apertado. A velha classe média vê seus privilégios e sonhos de exclusividade frustrados pelos emergentes. Ao mesmo tempo, a violência urbana e a desagregação social em cidades como São Paulo e Rio projetam uma grande sombra de ameaças sobre as esperanças de todos.
Para onde vai afinal o navio brasileiro? A imagem sugere que estamos na rota da americanização sem escola. Muita gente ainda vai cair no mar, mas podia ser bem pior.

Coluna de Fernando de Barros e Silva, na Folha de São Paulo, de 30 de dezembro de 2009.


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quinta-feira, novembro 19, 2009

Reflexões de um ex-vira-lata

Reflexões de um ex-vira-lata

ANTONIO PATRIOTA , até recentemente embaixador brasileiro aqui em Washington, reclamou comigo: "Para de falar em complexo de vira-lata! O Brasil passou dessa fase". Talvez o nosso embaixador tenha razão. O Brasil vem ganhando autoconfiança com uma rapidez surpreendente.
Nas recentes reuniões do G20, em Londres e Pittsburgh, e na última reunião anual do FMI, em Istambul, o Brasil bateu um bolão. Somos subdesenvolvidos? Sim. Temos equipes pequenas? Sim, muito menores do que as dos países desenvolvidos. E, no entanto, as delegações brasileiras têm sido das mais atuantes e -correndo o risco de soar presunçoso- acrescento: das mais influentes.
A aliança Bric (Brasil, China, Índia e Rússia) vem sendo fundamental. Mas não é só isso. O Brasil, em si mesmo, tem tido um papel cada vez maior. Há um fator que nos ajuda enormemente: a imagem favorável do país no exterior. A cotação do Brasil está muito alta. Do Brasil como economia, do Brasil como ator na cena internacional, do Brasil como nação cultural.
Bem sei, leitor, que o brasileiro está longe de compartilhar uma visão tão positiva. Talvez porque esteja mais perto do Brasil e conheça melhor as nossas mazelas. Talvez porque o complexo de vira-lata ainda esteja mais vivo do que imagina o embaixador Patriota.
Faço ainda outra ressalva: existe provavelmente um certo economicismo na forma como os países são vistos internacionalmente. O chamado mercado (um dos codinomes da turma da bufunfa) só se interessa pelos indicadores econômicos e financeiros. Não quer nem saber da péssima distribuição de renda, dos problemas sociais, dos níveis ainda elevados de pobreza e de miséria.
Ora, os indicadores econômicos brasileiros têm ficado, em geral, acima do esperado. Até 2007-2008, os nossos detratores (quase sempre brasileiros) diziam: "O Brasil está navegando uma onda internacional favorável".
Veio então a maior crise internacional desde a Grande Depressão. A torcida adversária (brasileira, em geral) começou a salivar intensamente, aguardando o colapso. Não aconteceu. O Brasil sofreu os efeitos da crise, claro. Mas menos do que se esperava. A recuperação brasileira também começou mais cedo do que o previsto. Basta dizer uma coisa: no meio dessa crise mundial, o Brasil anunciou um empréstimo de US$ 10 bilhões ao FMI.
O meu complexo de vira-lata deu arrancos triunfais de cachorro atropelado (para combinar dois bordões do Nelson Rodrigues em uma única frase). Quis o destino ou o acaso que coubesse a mim, logo a mim -devedor nato, hereditário e até inadimplente-, ser o diretor-executivo pelo Brasil no Fundo exatamente nessa conjuntura. Qualquer um dos meus antecessores -Alexandre Kafka, Murilo Portugal ou Eduardo Loyo- desempenharia o papel de credor com mais categoria e convicção.
Só tenho uma coisa a dizer em meu favor: apesar de credor neófito, acho que preservo uma identificação autêntica com os devedores do FMI. Sei o que significa ser devedor dessa instituição e, dentro do que posso, empresto a minha voz aos países em crise, especialmente os pequenos e oprimidos (mesmo aos brancos de olhos azuis). Foi o que tentei fazer pela Islândia, por exemplo, que passou ontem pela Diretoria-Executiva do FMI.
Dizem que os mulatos podem ser os piores racistas. Que os cristãos-novos são os mais fervorosos. Que um credor neófito pode ser o mais linha-dura. Vamos tentar desmentir esses ditados.


PAULO NOGUEIRA BATISTA JR. , 54, escreve às quintas-feiras nesta coluna. É diretor-executivo no FMI, onde representa um grupo de nove países (Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, República Dominicana, Suriname e Trinidad e Tobago), mas expressa seus pontos de vista em caráter pessoal.

Texto publicado na Folha de São Paulo, de 29 de outubro de 2009.


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quarta-feira, outubro 07, 2009

A cara do Brasil

Em meu livro “Os Cabeças de Planilha”, a partir da observação do dia a dia da economia, procurei desenvolver a tese de como se daria o estalo, o processo que deflagraria a percepção de desenvolvimento nacional e que pudesse vitaminar todo o organismo econômico, tal como ocorreu no governo JK.

Pensava em algo assim:
  1. O país vai desenvolvendo, ano a ano, um conjunto cada vez mais amplo de setores modernos.
  2. Quando esses avanços são percebidos no seu todo – e por todos os setores -, deflagra-se o movimento modernizador, desperta-se o chamado “espírito animal” na economia.
  3. Em algum momento, algum evento político ou econômico daria o tiro de partida, despertando o país para essa nova realidade.
  4. Ganharia o galardão de Estadista o político que conseguisse mostrar que o país é composto pela soma de todas as partes, o mercado, o sistema financeiro, as políticas sociais, os movimentos sociais, o agronegócio, a indústria, os cientistas, os gestores, as multinacionais, as pequenas e micro empresas e se transformasse na síntese, conduzindo.
*** A Constituição de 1988 permitira grandes avanços sociais. O governo Collor fizera o trabalho sujo de desmonte do modelo anterior, de redução da dívida pública para patamares civilizados e deixara plantadas as sementes de programas de qualidade, da abertura gradativa da economia. Mesmo aos trambolhões, o governo Itamar Franco manteve a chama da responsabilidade social que emergiu com a Constituinte.
*** FHC pegou o país pronto, uma conjuntura internacional extraordinariamente favorável (com o reposicionamento das multinacionais no mundo), o PSDB tornou-se o pólo de atração de quadros técnicos dos melhores – PUC Rio, FGV São Paulo, FEA. FHC tinha preparo, história, acesso aos movimentos de esquerda e aos empresários, à academia e à política. Todos os grupos modernizadores, plantados nos anos anteriores, convergiram automaticamente para sua candidatura, em 1994. Mais que isso, tinha a espoleta política capaz de deflagrar a auto-estima nacional: um plano de estabilização bem sucedido. Naqueles primeiros anos, o país regurgitava o novo. Estudos eram tirados das gavetas, por todos os cantos havia a esperança da inovação, da mudança de hábitos, da modernização.
*** Foi essa oportunidade histórica que FHC jogou no lixo. O que explica esse desperdício? Em parte, porque sua única obsessão era o chamado controle do Estado – a criação de oportunidades de enriquecimento para novos grupos, através da privatização. Mas, muito, por conta da extrema falta de compromisso com o país. Era apenas um deslumbrado com o poder. De imediato afastou do Palácio os dois tucanos que poderiam impulsionar o governo – Sérgio Motta e José Serra.
*** Com o tempo, conseguiu descaracterizar completamente não apenas seu governo, mas o próprio PSDB. Tirou do partido a vitalidade inicial, a busca do novo, a visão de conjunto e pragmática sobre o país, a ponto de descaracterizar completamente o próprio José Serra – cuja submissão intelectual e emocional a FHC um dia ainda será objeto de análises mais aprofundadas.

Em busca do tempo perdido – 1

A inação de FHC gerou quinze anos de atraso ao país. Só agora se retoma a trilha perdida, por conta da intuição de Lula. Não é por outro motivo que o ex-Ministro Delfim Netto – que não é de gastar elogio à toa – declarou dia desses que Lula salvou o capitalismo brasileiro. Não se trata de mera retórica. Depois das cabeçadas iniciais, Lula conseguiu entender muito melhor do que FHC a lógica do Estadista.
Em busca do tempo perdido – 2

O caminho passava pela conciliação da nação em torno dos novos valores do desenvolvimento. Ao contrário de FHC – que encontrou o país pronto – Lula precisou construir seu próprio caminho. O primeiro desafio consistia em desarmar seu próprio partido – um amálgama de várias tendências e de vários estilos políticos. Depois das cabeçadas iniciais, quando bateu no fundo do poço – o episódio dos chamados “mensaleiros” – começou a virada.
Em busca do tempo perdido – 3

A crise ajudou a domar as áreas mais radicais do partido. Quem não se enquadrou saiu para montar partidos mais à esquerda. Dentro do governo, Lula abriu espaço para o agronegócio (através do Ministério da Agricultura), para a agricultura familiar (através do Ministério do Desenvolvimento Agrário), para o mercado (através do Banco Central) e para os movimentos sociais (através do Ministério da Integração Social).
Em busca do tempo perdido – 4

Ao mesmo tempo em que imprimia uma política econômica muito ortodoxa, pouco a pouco foi montando a área desenvolvimentista do governo, com o eixo BNDES-Ministério da Fazenda. Demorou para implementar a nova política? Para muitos, demorou. Mas aguardou o tempo político. Quando eclodiu a crise mundial, veio a oportunidade para a mudança na política econômica. Aproveitou-se com um senso de oportunidade único.
Em busca do tempo perdido – 5

No plano político, projetou a imagem de um pacificador inesperado, tendo em conta seu histórico de lutas sindicais pesadas. Apesar de alvo da mais inclemente campanha de mídia que um presidente jamais encarou – mais acirrada e prolongada que a própria campanha do impeachment – jamais radicalizou suas críticas ou se valeu do poder do príncipe para pedir a cabeça de jornalistas – o oposto de alguns adversários.
Em busca do tempo perdido – 6

Por tudo isso, a herança bendita de Lula não foi FHC. Foi o movimento pela qualidade, o pensamento desenvolvimentista, os mercadistas, os que construíram o agronegócios e os movimentos sociais. Em suma, essa grande confluência de setores e fatores que compõem o Brasil moderno. O sindicalista semi-alfabetizado soube entender a complexidade do país muito mais do que o sociólogo consagrado.

Texto do Luís Nassif, no Último Segundo.


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quarta-feira, setembro 23, 2009

Lição de nacionalismo e política (e, diríamos ainda, economia)

Lição de nacionalismo e política

O PRESIDENTE Lula, em entrevista ao "Valor Econômico", deu uma lição de nacionalismo e do que significa a política em uma sociedade democrática. Em relação ao primeiro ponto, Lula declarou-se nacionalista, cobrou dos empresários que também o sejam, e disse que há tempos vem demandando que a Vale construa usinas siderúrgicas no Brasil em vez de exportar apenas minério de ferro. Suas palavras: "Tenho cobrado sistematicamente da Vale a construção de usinas siderúrgicas no país. Todo mundo sabe o que a Vale representa para o Brasil. É uma empresa excepcional, mas não pode se dar ao luxo de exportar apenas minério de ferro (...). Os empresários têm tanta obrigação de ser brasileiros e nacionalistas quanto eu!". Acrescentaria, e com mais ênfase, que os economistas também deveriam ser tão patrióticos ou nacionalistas quanto reclama o presidente.
A política de não exportar bens primários, mas bens manufaturados com mais elevado valor adicionado per capita, é mais antiga do que a Sé de Braga. Os grandes reis mercantilistas ingleses, no final do século 15 (sic), já adotavam a política industrial de proibir a exportação de lã para que fosse exportado apenas o tecido fabricado com a lã. Os chineses, recentemente, impuseram imposto à exportação de aço porque querem exportar os bens acabados produzidos com o aço. Dessa forma, além de criarem empregos, criam empregos com maior conteúdo tecnológico, que pagam maiores salários, e assim seu desenvolvimento econômico se acelera. Enquanto isso, nossos economistas nos dizem que o problema deve ser deixado por conta do mercado. Dessa forma, mesmo quando exportamos aço, exportamos principalmente o aço bruto, e estamos concordando em exportar soja em grãos para os chineses que não querem comprar o óleo de soja!
E a lição de política? Em primeiro lugar, Lula revelou, em vários momentos, respeito por FHC, Marina Silva e José Serra. Segundo, defendeu de forma oportuna o Congresso: "O Congresso é a única instituição julgada coletivamente. Mas se não houve sessão você fala: "Deputado vagabundo que não trabalha". E nunca cita os que estiveram lá, de plantão, o tempo inteiro. Quando era constituinte, eu ficava doido porque ficava trabalhando até as duas, três horas da manhã (...). Se vocês não gostam de política, acham que todo político é ladrão, que não presta, não renunciem à política. Entrem vocês na política porque, quem sabe, o perfeito que vocês querem está dentro de vocês".
O presidente tem razão. A política é muito importante, afeta nossas vidas, e deve ser prestigiada e ser adotada como profissão pelos melhores dentre nós. O Brasil precisa dramaticamente de bons políticos, e, felizmente, conta com um bom número deles. De homens e de mulheres dotados de espírito público, de compromisso com a nação, que, sem deixar de defender seus interesses legítimos, defendam também os do Brasil. Mas quando lemos os jornais, quando conversamos com os amigos, parece que ninguém presta. Definitivamente, não é verdade. É verdade que nosso país não conta com um Estado e com uma política como aqueles que existem nos países escandinavos, mas é também verdade que, considerado o grau de desenvolvimento econômico e cultural do Brasil, temos um nível de organização do Estado, de qualidade das instituições, e de compromisso de muitos políticos com a cidadania e o bem público que considero acima da média. Precisamos, sem dúvida, da crítica, mas não à custa de desmoralizarmos o que já conquistamos.

Texto de Luis Carlos Bresser-Pereira, na Folha de São Paulo, de 21 de setembro de 2009.


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quarta-feira, setembro 16, 2009

Evitar o desastre (o Brasil e seus desafios)

Evitar o desastre

A CRISE atual vai muito além de Sarney ou da Receita Federal. Sua gravidade se estende a ásperas discussões sobre câmbio, metas de inflação e regulamentação do pré-sal, geralmente apresentadas como puramente técnicas.
A valorização do real frente ao dólar, por exemplo, provoca reação de pânico no campo dos economistas heterodoxos. Projetam uma sensível perda de competitividade do país, veem a produção nacional em risco e prescrevem algum tipo de controle cambial. Economistas ortodoxos desfilam tabelas para provar a ineficácia de propostas de controle cambial. Defendem com afinco o sistema de metas atual, propondo ajustes e uma redução da meta de inflação a ser perseguida pelo Banco Central. Heterodoxos contra-atacam, dizendo que a atual meta é adequada para permitir que o país tenha um crescimento próximo do razoável.
E por aí vai. Mas o fato é que o próprio sistema de metas de inflação brasileiro está em crise. Ele teve um papel estabilizador da economia e da política enquanto as taxas de crescimento econômico foram medíocres e as taxas de juros permaneceram altas. Quando essas condições se inverteram, o modelo mostrou limites que não parecem poder ser resolvidos com pequenos ajustes.
Não são mudanças superficiais. Hoje o produtor que não consegue competir ficou também sem a compensação financeira dos juros estratosféricos de antes. Quem quer emprego e inflação baixa está à mercê de um cruel cabo de guerra no câmbio. E a exploração das jazidas do pré-sal tende a gerar um fluxo de divisas de fato destrutivo se mantido o câmbio flutuante em sua versão atual.
Com os governos FHC e Lula e uma boa ajuda do pré-sal e da crise econômica, o Brasil mudou de patamar no cenário mundial, o que é certamente positivo. Só que isso exige também um novo ajuste interno e externo, que, por enquanto, aparece apenas em forma de crise.
A crise política está travando a solução da crise do sistema de gerenciamento macroeconômico e vice-versa. E a solução, se vier, chegará apenas com as eleições de 2010.
O mais grave é que o atual ponto de convergência entre as duas crises está posto justamente no debate da regulamentação do pré-sal. Pressões de governadores por royalties de petróleo são apenas um exemplo de uma regulamentação que prejudicará o país por décadas.
Em um momento de impasse estrutural como esse, todos os esforços devem estar dirigidos para evitar o desastre. Para começar, isso significa exigir um debate longo e aprofundado sobre como explorar e utilizar a riqueza do pré-sal.

Texto de Marcos Nobre, na Folha de São Paulo, de 1º. de setembro de 2009.


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sexta-feira, julho 03, 2009

O enigma Argentina

O argentino gosta de rompantes; o brasileiro, da conciliação. Há quem veja no estilo brasileiro a contemporização excessiva, como comprova as relações de Fernando Henrique Cardoso e de Lula com o coronelismo e com os diversos segmentos empresariais e sociais.

Mas em todos os episódios relevantes na vida de ambos os países, a radicalização argentina sempre foi mais perniciosa que a contemporização brasileira.

O populismo peronista foi infinitamente pior do que o de Vargas; o neoliberalismo de Martinez de Hoz um desastre, em contraposição à visão institucional de Campos e Bulhões; o militarismo argentino uma tragédia, enquanto o militarismo brasileiro permitia consolidar o processo de substituição de importações; o pacto mercadista de Domingo Cavallo um desastre amplo, o de FHC um sucesso; a reação dos Kirchner um conflito permanente, enquanto Lula procurava amenizar resistências.

O que seria essa tragédia argentina, que faz o país continuar sacando em cima do capital acumulado nos últimos 15 anos do século 19 - onde pela única vez surgiu uma geração na elite argentina capaz de pensar o futuro?

O que seria? O predomínio excesso de Buenos Aires sobre as demais províncias? O fato das elites argentinas terem cortado muito cedo as raízes culturais com o país? A diferença estaria em um homem - Vargas construindo o futuro, Peron pensando apenas o poder? Como o Brasil semi-rural dos anos 40 e 50, sem muitos quadros técnicos, conseguiu criar uma visão de futuro que passou ao largo da sociedade muito mais sofisticada do vizinho? Eram meia dúzia de técnicos participando das Comissões MIstas, do Encontro de Chanceleres, montando Planos Salte e outros que ajudaram a diagnosticar a economia.

Nos anos 40, os judeus financistas, expulsos pela Guerra, procuravam abrigo no Brasil; mas deixavam seus recursos na Argentina. Certamente por contar com um mercado financeiro mais sofisticado. Estaria nessa possibilidade ampla, de tirar e colocar recursos no país, nesse rentismo antecipado, nessa possibilidade fácil para a internacionalização do capital local, a explicação para a Argentina ter perdido o bonde?

Naqueles anos, após a moratória do início dos anos 30, o grande capital brasileiro veio para a economia real; o da Argentina se internacionalizou.

Eis aí um dos grandes enigmas para começar a entender melhor processos de desenvolvimento na América Latina.

Do blog do Luís Nassif.

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quarta-feira, maio 28, 2008

Grau de Investimento

Grau de investimento

A PROMOÇÃO da economia brasileira, do mais elevado "rating" da agência Standard & Poor's entre as classificadas como aplicações "especulativas" para o mais baixo "rating" das classificadas como aplicações de "investimento", era esperada havia algum tempo. O Brasil inicia uma caminhada que, se não ocorrer uma tragédia, acabará no último degrau da virtude, que é o "rating" AAA.
Para atingi-lo faltam-nos, entretanto, nove promoções! O avanço suscitou risível fogueira de vaidades pela disputa reivindicatória da sua paternidade. Pode-se procurar muitas causas para o fato. O que parece evidente, entretanto, é que a mudança que agora motivou a decisão da agência foi a recuperação do nosso crescimento entre 2004 e 2007, como se vê na tabela abaixo, onde se registra o crescimento do PIB real de Brasil, Índia e China.

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Apenas como "memória", registramos o crescimento dos mesmos países no período 1971-80, quando a primeira crise do petróleo destruiu o equilíbrio interno e externo de todos os emergentes que dependiam fortemente da sua importação. É bom lembrar, também, que o Brasil foi o primeiro deles a restabelecer o equilíbrio externo (1984), com uma imensa desvalorização cambial e uma profunda recessão.
Infelizmente, a nossa dívida só foi renegociada em 1994, o que atrasou o aproveitamento daquele fato.
A verdade é que nunca deixamos de melhorar nossas instituições com a inteligente superação do regime autoritário e sua consolidação na Constituição de 1988. Quando olhamos para a China (que a S&P classifica como o "rating" A) e para a Índia (que já tem há algum tempo o nosso mesmo "rating" BBB-), não podemos deixar de reconhecer algumas vantagens. Temos autonomia energética e alimentar (que elas não têm) e temos um regime político aberto (a Índia também). Não temos os problemas lingüísticos étnicos, religiosos e de fronteiras que praguejam aqueles sociedades. Já estamos urbanizados e temos uma densidade demográfica razoável.
Mesmo em matéria de inflação, levamos hoje uma pequena vantagem, com a chinesa andando às voltas de 9%, a indiana, em torno de 6% e a nossa, em 5%.
Isso mostra que devemos nos alegrar, mas não levar muito a sério o carimbo das agências de "ratings", porque elas não têm quem lhes dê o seu "rating". Temos crescido pouco por culpa e obra dos governos que deixaram de pensar o Brasil 25 anos à frente!

Texto de Antonio Delfim Netto, na Folha de São Paulo, de 21 de maio de 2008.

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sexta-feira, dezembro 21, 2007

Erro impede que Brasil suba no ranking do IDH

A ONU escolheu o Brasil como palco para apresentar ao mundo seu novo Relatório de Desenvolvimento Humano, mas cometeu, involuntariamente, uma injustiça com os anfitriões do evento. Graças a um erro metodológico, o país caiu no ranking da qualidade de vida do mundo - mas deveria ter subido.

O relatório divulgado hoje, com dados de 2005, mostra que o Brasil atingiu exatamente a "nota" mínima (0,800 numa escala de zero a um) para entrar no clube países de "alto desenvolvimento humano". A nota em questão é o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), adotado pela Organização das Nações Unidas para medir e comparar o progresso social em diferentes países.

De 2004 para 2005, o IDH do Brasil subiu de 0,792 para 0,800 - evidência de que houve avanços nos quesitos renda, educação e longevidade. Mas, no ranking oficial, o país caiu da posição 69 para a 70. Sinal de que outros países melhoraram mais? Nada disso.

Terra Magazine revisou as contas da ONU e descobriu uma distorção. Os cálculos foram feitos com base no "PIB velho" do país, ou seja, não levaram em conta a mudança de metologia do IBGE, promovida em março deste ano, que revelou um país mais rico - ou menos pobre - do que se imaginava (leia aqui). O FMI já cometeu esse erro (leia aqui), mas depois se corrigiu (leia aqui).

Leia também:
» IDH correto pode variar de 0,802 a 0,808

A ONU também não atualizou os dados sobre analfabetismo - nesse caso, porém, o procedimento afetou a nota de quase todos os países, e não apenas do Brasil.

Com base no recálculo do PIB, Terra Magazine já havia anunciado há oito meses a entrada do Brasil no (atenção, leitores: ativar sensores de ironia) "primeiro mundo da área social" (leia aqui).

Mas qual é o IDH correto? Aí há números para todos os gostos, de acordo com a metodologia empregada (leia aqui). Na pior das hipóteses, o índice sobe para 0,802. Na melhor delas, salta para 0,808 e nos coloca na honrosa posição de 64º melhor lugar do mundo para se viver (desativar sensores de ironia).

A salada metodológica é uma evidência de que o ranking do IDH não deve ser encarado como verdade absoluta - alguém aí acredita que dados estatísticos da Islândia e da Serra Leoa são colhidos com o mesmo rigor científico? (Antes que nos acusem de preconceito, esclarecemos que são, respectivamente, o primeiro e o último colocados na lista.)

Tomemos como outro exemplo o curioso desempenho de Rússia, Índia e China, três países que, juntamente com o Brasil, formam o chamado grupo dos Brics, estrelas do mundo emergente. Apesar de seu fantástico crescimento econômico, a China permaneceu na mesma posição nos dois últimos rankings anuais (81ª). Rússia e Índia, por sua vez, caíram (de 65ª para 67ª e de 126ª para 128ª).

Não se trata aqui de desmoralizar o IDH, mas essas evidências mostram que o índice é muito mais útil para avaliar a evolução de um país ao longo do tempo (mesma metodologia, mesma qualidade dos dados) do que para comparar diferentes nações (infinidade de metodologias, diferenças na confiabilidade das informações).

E o que exatamente a evolução dessa nota revela sobre o Brasil? E o que não revela? Vamos por partes:

1) Brasileiros estão vivendo mais

Um dos fatores avaliados para definir a qualidade de vida de um país é a longevidade - mais exatamente, a expectativa de vida ao nascer, ou a projeção do número médio de anos que irão viver os cidadãos nascidos em um determinado ano. Segundo o Pnud, órgão da ONU que calcula o IDH, os brasileiros tinham em 2005 uma expectativa de vida ao nascer de 71,7 anos. Em 2004, eram 70,8 anos, e, em 2000, 67,7 anos. Esse aumento da longevidade é um indicativo de melhoras no acesso a alimentação, saúde e saneamento.

2) Brasileiros têm mais acesso à educação

Também pesam no cálculo do IDH a taxa de alfabetização de adultos e a taxa de escolarização, que mede o percentual de pessoas matriculadas no nível de ensino adequado para sua idade. No Brasil, de 2004 para 2005, o analfabetismo caiu de 11,4% para 11% - mas, curiosamente, essa evolução não foi registrada no relatório do Pnud. O relatório captou, porém, uma queda no percentual de pessoas em idade escolar fora das escolas e universidades (de 14% para 12,5%).

A ressalva é que ambos os dados são meramente quantitativos - ou seja, o índice não diz nada a respeito das diferenças entre os países no quesito qualidade do ensino, por exemplo.

3) Renda de brasileiros aumenta

Por fim, também a renda influi no cálculo do IDH. Mais especificamente, a renda per capita com base na paridade do poder de compra (PPC). Esse índice serve para comparar o poder aquisitivo em diferentes países, e leva em conta não apenas a renda, mas os preços de uma cesta de produtos - afinal, não dá no mesmo, em termos de poder de compra, receber um salário de US$ 1.000 nas já citadas Islândia e Serra Leoa.

Mesmo levando em conta apenas o "PIB velho", o relatório do IDH mostra que a renda dos brasileiros aumentou, entre 2004 e 2005, de US$ 8.195 PPC para US$ 8.402 PPC.

O que o IDH não mostra é a forma como a renda é distribuída - dois países com a mesma renda per capita podem ser completamente distintos se, em um deles, a elite abocanha a maior parte da riqueza.

E o Brasil, apesar de ter reduzido a desigualdade nos últimos anos, continua sendo um dos campeões da concentração de renda. Em 2005, os 10% mais ricos abocanhavam 44,8% do PIB, e os 10% mais pobres, apenas 0,9%.

(Observação: Terra Magazine alertou há mais de um mês o escritório do PNUD em Nova York sobre a possibilidade de erro no IDH do Brasil. O alerta foi feito por email, no dia 23 de outubro)

Texto do Terra Magazine.


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segunda-feira, julho 02, 2007

"Zé Roberto Se Despede" é Apócrifo

Segundo a coluna do Hiltor Mombach, no Correio do Povo deste sábado, 30 de junho, o texto que circula na Internet, e que foi colocado aqui neste blog. Este blogueiro recomendou o acolhimento da "despedida" com parcimônia, pois se era verossímil, também manifestava o rancor de certa classe média louca para emigrar, e cujos filhos vez por outra espancavam desafetos.
No esclarecimento de Zé Roberto, os filhos nem vieram com ele da Alemanha, mas o mais velho, que tem 7 anos, foi alfabetizado em português, e é fluente no idioma (e sendo criado na Alemanha, provavelmente falará como um "nativo" os dois idiomas).
Pois é. É isso. Mais uma falsa atribuição na Internet.

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segunda-feira, junho 25, 2007

Luiz Gonzaga Belluzzo: A Controvérsia sobre Desindustrialização - Folha de São Paulo, 08/04/2007

LUIZ GONZAGA BELLUZZO

A controvérsia sobre desindustrialização

Há forte declínio da parcela da indústria manufatureira no PIB e no emprego, revelando "desindustrialização precoce"

AS RAZÕES e os efeitos da continuada valorização do real dividem os economistas. A rapaziada do "senta que o leão é manso" argumenta que a notória melhoria dos "fundamentos" vem instigando o apetite dos investidores por ativos brasileiros. Melhor ainda, submetida à concorrência externa, a indústria brasileira atirou ao mar as ineficiências e muitas empresas já flexionam os músculos para um novo período de expansão, os custos alinhados às exigência do mercado internacional. A comprovação da façanha é atestada pelo aumento das importações e da produção doméstica de bens de capital.
O jornal "Valor" do fim de semana, edição que foi às bancas na quinta-feira, dia 5, registra reparos à visão otimista do movimento cambial. A reportagem mostra que os setores intensivos em mão-de-obra já ganham a companhia dos segmentos industriais intensivos em tecnologia, como automóveis, eletrodomésticos e eletroeletrônicos, na retaguarda da corrida competitiva.
Esquenta a controvérsia sobre a desindustrialização. Descontados os que acham que a indústria brasileira vai bem, obrigado, e está pronta para saltar na jugular dos competidores, não escasseiam os que sugerem ser até desejável, na nova divisão internacional do trabalho promovida pela liderança sino-americana, que o Brasil se (re) transforme num exportador de produtos intensivos em recursos naturais.
Primário-exportador, sim, mas de primeira classe. Aí está a febre do etanol para desmentir os pessimistas. A história do capitalismo já registrou períodos relativamente longos de termos de troca favoráveis aos produtores de commodities, mas não há notícia de que tenham sido sustentáveis.
O economista inglês Bob Rowthorn realizou um cuidadoso estudo sobre o fenômeno da "desindustrialização". Os testes realizados com um painel de 18 países, no período 1963-1994, revelam que os países em desenvolvimento apresentam tendência à queda da participação da indústria no emprego e no PIB (Produto Interno Bruto), a partir de US$ 9.000 de renda per capita (a preços constantes de 1986).
O Brasil ainda não atingiu essa marca. Os dados do PIB recentemente publicados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram uma estrutura setorial de economia madura. Há um forte declínio da participação da indústria manufatureira no PIB e no emprego, revelando o que se pode qualificar de "desindustrialização precoce". Há fortes indícios, ademais, de que a valorização do real está promovendo o rompimento dos nexos inter-industriais das principais cadeias de produção.
A estrutura industrial brasileira pode ser comparada a uma nebulosa em que sobressaem algumas grandes e médias empresas em cada setor. Elas têm conseguido resistir, até agora, graças à racionalização e à especialização, bem como à elevação do coeficiente de insumos importados. No futuro, alguém haverá de compreender por que a modernização empresarial dos últimos 15 anos levou ao enfraquecimento estrutural da indústria manufatureira.


LUIZ GONZAGA BELLUZZO, 64, é professor titular de Economia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Foi chefe da Secretaria Especial de Assuntos Econômicos do Ministério da Fazenda (governo Sarney) e secretário de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo (governo Quércia).

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quarta-feira, junho 13, 2007

Bresser-Pereira: Desindustrialização e Doença Holandesa - Folha de São Paulo, 09/04/2007

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA

Desindustrialização e doença holandesa

Está na hora de o agronegócio começar a discutir como neutralizar a doença holandesa

HÁ UMA euforia perigosa em torno do agronegócio e, em especial, do etanol. Embora os avanços que o país vem alcançando nessa área sejam notáveis e nos devam orgulhar, isso não deve nos conduzir à perda da capacidade de análise sobre as conseqüências eventualmente desastrosas de políticas nacionais e internacionais favorecendo esse setor.
Quando nos defrontamos com qualquer problema, o princípio do equilíbrio é fundamental. Temo, porém, que o estejamos esquecendo quando colocamos todas as nossas esperanças na produção baseada em recursos naturais e, em conseqüência, adotamos uma política de taxa de câmbio que está desindustrializando o país, quando a posição equilibrada seria a de garantir o crescimento equilibrado dos dois setores.
A economia brasileira vem enfrentando, desde o início dos anos 1990, grave processo de desindustrialização. Tal fenômeno explica, em boa parte, a quase estagnação da economia, já que, nos últimos cinco anos, a expansão das exportações brasileiras de commodities não a compensa. Economistas ligados ao agronegócio negam o fenômeno da desindustrialização e sua causa principal, a apreciação da taxa de câmbio provocada pela doença holandesa, ou maldição dos recursos naturais, com o argumento de que nos últimos cinco anos as exportações de manufaturados continuaram fortes. Mas seus argumentos são modestos.
Primeiro porque a base de comparação não pode ser o ano de 2000, mas 1990-92, quando a economia brasileira perdeu as formas históricas de neutralização da doença holandesa, que lhe haviam permitido, entre 1930 e 1980, alcançar taxas extraordinariamente altas de crescimento econômico. Segundo porque não percebem que a apreciação do câmbio está inviabilizando as atividades industriais com alto valor agregado per capita e reduzindo a indústria brasileira a uma indústria maquiladora que continua a exportar, mas com decrescente conteúdo tecnológico.
Não bastasse o câmbio, a política externa brasileira vem insistindo em avançar com as negociações da Rodada Doha, nas quais o grande objetivo brasileiro é obter a redução dos subsídios com os quais a Europa e os Estados Unidos protegem sua agricultura.
Esse é um objetivo meritório, mas é preciso saber a que custo. Recentemente, na Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), depois de uma patética exposição de um economista sobre os grandes objetivos do agronegócio em relação à redução de subsídios na OMC (Organização Mundial do Comércio), a negociadora norte-americana, Susan Schwab, chefe do USTr (equivalente ao Ministério do Comércio Exterior dos Estados Unidos), respondeu com toda a frieza que sim, seu país estava disposto a estudar algumas das reivindicações feitas, mas em troca seria necessário que setores estratégicos da indústria brasileira reduzissem substancialmente as suas modestas tarifas aduaneiras.
Ou seja, o que os Estados Unidos e a Europa querem, em troca de algumas concessões na área da agricultura -concessões que, afinal, não são essenciais para o desenvolvimento do setor-, é que aprofundemos ainda mais uma desindustrialização que está em marcha desde 1990-92.
O problema que o Brasil enfrenta não é o de escolher entre a indústria de transformação e o agronegócio.
As sinergias entre os dois setores são enormes. Além disso, foi-se o tempo em que a agricultura era uma atividade tradicional, com baixo valor agregado per capita, de forma que o desenvolvimento econômico implicava a transferência da mão-de-obra dela para a indústria. Hoje, a agricultura brasileira é empresarial e de alto nível tecnológico e gerencial -é uma prova da capacidade científica e empresarial dos brasileiros. Isso, porém, não justifica que aceitemos uma política de taxa de câmbio que inviabilize um dos parceiros -a indústria de transformação.
Mesmo que transformemos o Brasil em um grande canavial, não conseguiremos apenas com o agronegócio dar emprego digno a todos os brasileiros que estão desempregados ou semi-empregados. Está na hora de seus representantes se juntarem aos da indústria de transformação e começarem a discutir como neutralizar a doença holandesa, que é a grande ameaça que paira sobre a economia brasileira.


LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA, 72, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda, da Reforma do Estado, e da Ciência e Tecnologia, é autor de "As Revoluções Utópicas dos Anos 60".
Internet: www.bresserpereira.org.br

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