quarta-feira, junho 10, 2009

As fixações de parte da mídia

A revista CartaCapital desta semana (edição 549, de 10 de junho de 2009) comenta a transferência do jogador Kaká, do Milan da Itália, para o espanhol Real Madrid. Na sua página 28 informa que a transferência custará ao Real Madrid 65 milhões de euros e que Kaká receberá 9,5 milhões de euros por um contrato de cinco anos. A revista conclui a informação com a seguinte frase: “Os fundadores da Igreja Renascer devem estar exultantes”. A informação sobre Kaká pelo jeito não é importante em si mesma, deve ser só pela ligação do jogador com a referida igreja. A Igreja Renascer é uma das fixações da CartaCapital.

O jornal Folha de São Paulo, de hoje, 9 de junho de 2009, em meio a cobertura sobre recente acidente aéreo com o vôo AF447 da Air France que vitimou mais de 200 pessoas, resolve falar sobre um certo sensor da aeronave que serve para que os computadores de bordo confiram a velocidade. A fabricante Airbus está recomendando a troca destes sensores. Segundo a Folha, a TAM é a única companhia de aviação brasileira que opera com aviões da Airbus, e a empresa informou que já trocou todos os sensores de sua frota de 125 aviões Airbus. Então a Folha informa que a TAM é também a responsável pela manutenção do avião presidencial. Na frase da Folha: “Ela é também responsável pela manutenção do avião presidencial, o Aerolula.”. Uma das fixações do pessoal da Folha é chamar o avião presidencial de Aerolula. Provavelmente acham que o presidente não legará o avião ao próximo mandatário (a) eleito (a).


Marcadores: , , , ,

terça-feira, dezembro 11, 2007

Os vigilantes da democracia


Os vigilantes da democracia

Em uníssono, governo e mídia dos Estados Unidos condenaram o governo de Hugo Chávez. Sem direito à defesa, e sem contestação. O resto é silêncio.

O governo e a principal mídia nos Estados Unidos tomaram partido ou pelo menos se declararam árbitros nom processo interno venezuelano, ao participar, opinar e criticar o referendo sobre a reforma constitucional.
Em novembro apareceram pelo menos 15 editoriais nos periódicos mais importantes, sem contar os que foram publicados no dia do plebiscito, uma série de artigos de opinião e de comentários na mídia norte-americana. O governo de George Bush não escondeu sua participação no debate venezuelano. Especialistas reconhecidos em matéria de transparência, direitos humanos e outros elementos-chave nos processos democráticos, como o ex-secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, puseram à disposição a sua sabedoria.

O aparente consenso editorial e político aqui [nos EUA] foi o de que o referendo representou não só uma tentativa do presidente Hugo Chávez de concentrar o poder, mas também de enfraquecer e até de abolir a democracia na Venezuela.

No dia do referendo o New York Times, o jornal mais influente desta nação, publicou um editorial, “Dizendo não a Chávez”, em que insta o povo venezuelano a votar contra as reformas constitucionais. Argumentando que Chávez se dedicou à acumulação de poder “explorando a riqueza petroleira de seu país para comprar o apoio popular, indica que há sinais “esperançosos” de que o eleitorado poderia recusar “seu plano para se converter em presidente vitalício. Os opositores convocaram um voto massivo no “não”. Para o bem da democracia ferida na Venezuela, os votantes deveriam atender esse chamado”.

O Los Angeles Times advertiu que o referendo sobre as 69 emendas constitucionais “mudaria o governo, de uma democracia, em algo que se parece muito a uma ditadura à cubana”. Disse o editorial: “um triunfo de Chávez seria uma derrota para a América Latina, os Estados Unidos e sobretudo para a Venezuela”. “Não há nada que os Estados Unidos possa ou deva fazer para prevenir tudo isso. O destino da Venezuela está nas mãos dos venezuelanos. Mas pagarão caro se tomarem a decisão errada no domingo”, era a conclusão.

Duas semanas antes do referendo, o Washington Post publicou sua posição editorial, com a manchete: “O golpe do Sr. Chávez”. Afirmou que as modificações constitucionais completariam a transformação da Venezuela “numa ditadura”. Afirmou que é alentador que tanta gente naquele país não esteja disposta a “ceder sua liberdade sem lutar por ela”.

De fato, até pequenos jornais em cidades como Evansville, Indiana, decidiram publicar sua opinião sobre o assunto. “Salvando a Venezuela”, é o título do editorial que caracterizava o voto como algo que efetivamente decidiria se o país se converteria numa “ditadura do tipo cubano”, com “Chávez no papel de Castro”. Concluía o Evansville Courier: “para o bem de todos, particularmente deles, esperemos que os venezuelanos votem “não” no domingo”.

Vários comentaristas e colunistas abordaram o tema, a maioria desse mesmo jeito. Por exemplo, o colunista Roger Cohen, do New York Times, escreveu que “o caudilho enfeitado de petróleo na América Latina se põe a sério sobre governar a vida, assim como Franco e Castro”. Diante disso conclamava a que os venezuelanos seguissem o exemplo do rei Juan Carlos e dissessem a Chávez que se cale.

Talvez a voz mais surpreendente – simplesmente porque estava retirada em silêncio, pelo resultado desastroso de suas políticas e pelas críticas de suas manipulações que violavam a Constituição norte-americana e as leis internacionais – foi a do Secretário de Defesa Donald Rumsfeld, que, no Washington Posto, decidiu oferecer uma série de “receitas” para enfrentar as “ameaças” do momento.

Num artigo chamado “A maneira inteligente de derrotar tiranos como Chávez”, Rumsfeld lamenta que “o mundo está dizendo pouco e fazendo menos enquanto o presidente Hugo Chávez desmantela a Constituição da Venezuela, silencia sua mídia independente e confisca a propriedade privada”, e adverte que ele representa uma ameaça além-fronteiras.

É interessante lembrar – como esses jornais não fizeram agora – que no golpe contra Chávez, em 2002, todos eles comemoraram. A organização independente Fairness and Accuracy in Reporting (FAIR) recorda que no dia 13 de abril de 2002 o New York Times declarou que a “renúncia” de Chávez implicava que “a democracia venezuelana já não estava ameaçada por um quase-ditador”. Na mesma semana o Chicago Tribune comentou: “nem todos os dias a democracia se beneficia por uma intervenção militar para afastar um presidente eleito”. O Los Angeles Times reprovou o golpe, mas observou que a Venezuela seria beneficiada se ele ensinasse a Chávez a ser “mais plural”. Tanto o Post como o New York Times asseguraram que Washington não tinha posto sua mão no golpe, embora não se tivessem ainda detalhes, e desde então os seus próprios repórteres têm afirmado o contrário.

O governo de Bush não escondeu sua “preocupação” com o processo político venezuelano. O porta-voz do Departamento de Estado, Sean McCormack, assegurou esperar que a contagem de votos “manifestasse a vontade do povo venezuelano”. Estava preocupado porque “não havia observadores em campo”. “Então o mundo exterior de fato não terá muitas informações sobre os procedimentos no dia da votação, mas também no momento da contagem”.

Mas no ato a embaixada da Venezuela lembrou num comunicado que 39 países enviaram missões e que haveria centenas de observadores internacionais e nacionais. Argumentou que “ao contrário das eleições nos Estados Unidos, nós, os venezuelanos, contamos sempre com um amplo sistema de auditoria e com a verificação imediata do voto através da papeleta eleitoral”.

Também os meios da mídia outorgaram ampla cobertura às manifestações da oposição (e muito menos àquelas pelo “sim”), e alguns dos âncoras não esconderam sua preferência pelo “não”.

Pelo que parece, a vitalidade do debate venezuelano contagiou alguns políticos e a mídia daqui [dos Estados Unidos]. Quem sabe seja um sinal esperançoso de que aplicarão o mesmo entusiasmo na defesa de uma democracia que padece de deterioração em sua credibilidade, em sua participação e em sua transparência: a daqui [norte-americana].

Texto publicado originalmente na Agência Carta Maior.

Marcadores: , , ,

sexta-feira, outubro 05, 2007

O (Des) encontro da mídia com a periferia

Depois de mais de uma década de boicote à grande imprensa, Mano Brown, maior nome das periferias brasileiras, foi ao encontro da mídia. Esta semana esteve no Roda Viva, da TV Cultura, o mais prestigiado (um dos únicos) programa de debates da televisão aberta

O rapper foi autêntico. Emitiu opiniões controversas e diretas que quase nunca (ou nunca) são defendidas nos grandes meios de comunicação do país.

Defendeu traficantes, camelôs e torcida organizada. Cuba, socialismo, os evangélicos e o candomblé.

Apontou pontos fortes e fracos da política de combate à pobreza. Defendeu as cotas para negros nas universidades - "isto é o mínimo", disse.

Defendeu o presidente Lula e a conduta dele diante dos últimos casos de corrupção. Defendeu o líder sem-terra José Rainha, a ex-prefeita Marta Suplicy e os seus CEUs.

Atacou a Ambev. Atacou a pinga 51. Desdenhou do governador de São Paulo, José Serra. Desdenhou da Nike e da Adidas.

Rechaçou o papel de herói. Expôs fragilidades próprias. Manteve o controle das ações. Foi respeitoso, e impôs respeito.

Por sua vez, a banca de entrevistadores não foi contundente. Parecia não estar num bom dia. Sofrer de algum tipo de paralisia momentânea e coletiva. Estar, de alguma maneira, menos potente. "Ta suave até agora, tô até estranhando", notou o próprio Brown.

Estavam lá jornalistas e estudiosos de gabarito, que já haviam participado do programa e de outros debates com desenvoltura.

São nomes representativos da imprensa de comportamento e cultural, do jornalismo de opinião conservadora e da TV Pública, da cobertura social e policial. Também da psicanálise e das letras - neste último caso, o único entrevistador oriundo da periferia.

A bancada não acusou Brown de ser generalista na sua crítica a policiais. Não o acusou de fazer apologia ao crime. Não o questionou sobre o tumulto da Virada Cultural, em São Paulo.

Não o questionou claramente sobre o que pensa das elites. Nem sobre o que pensa da classe média, da mídia e de uma política de segurança possível.

Esteve tímida e constrangida. Teve medo do líder dos Racionais MC's. E demonstrou pouco conhecimento dos valores da periferia, sem admiti-lo.

A cada declaração desconcertante de Brown se sucedia um silêncio pesado, tensão, desconforto. "O que vocês chamam de traficante, chamo de comerciante, o cara que comercializa cocaína". Ou: "O dono da 51 não tira cadeia. A Ambev não tira cadeia. Se você tomar quatro latas de cerveja, você vira super-homem na Marginal", disse o rapper.

Ou ainda: "os nossos amigos, da nossa família, do nosso parceiro, das caras que estão lado a lado, muitas vezes é o traficante", disparou.

Brown pronunciou idéias e palavras estranhas aos ouvidos de todos cuja maior fonte de informação sobre a periferia é a mídia. Simpáticas ou antipáticas, são impressões tiradas do ângulo da periferia. E este ângulo não tem espaço cativo na nossa grande imprensa.

Acredito que a falta de pegada dos entrevistadores esteja ligada ao divórcio entre boa parte da cobertura jornalística e os bairros periféricos das grandes cidades. É até clichê afirmar que a favela só está nas páginas policiais dos jornais.

Os órgãos de imprensa não cobrem bem as áreas habitadas por populações cujo poder de consumo não atinge a faixa de público procurada por seus anunciantes. Quando o fazem, é com o ângulo de quem é de fora.

Salvo importantes exceções, como o trabalho do repórter André Caramante e de outros observadores que vivem o dia-a-dia das comunidades - eles fizeram falta ao programa.

A grande imprensa (refiro-me ao jornalismo, e não ao entretenimento) fala cada vez menos com a periferia. Já faz um tempo que estes moradores deixaram de levar esta mídia em conta. Isso é fruto de um distanciamento imenso.

Representantes de comunidades e a mídia da periferia provavelmente estariam mais à vontade para questionar Brown. As idéias propagadas pela cultura rap estão longe de ser unanimidade no seu habitat. Perdeu-se a chance de conhecer mais a fundo o que pensa esta liderança.

Um encontro verdadeiro entre a mídia e a periferia será benéfico para a sociedade. Isso acontecerá quando representantes das comunidades forem presença generalizada nas redações. E quando as demandas e expressões periféricas tiverem a cobertura que merecem.

Este processo já está em curso. Por enquanto, a grande mídia está de fora. Cada vez mais isolada, paralisada e com medo.


Ricardo Kauffman no Terra Magazine, também visto nas Leituras e Opiniões do Luis Favre.

Marcadores: , , ,

sábado, setembro 29, 2007

Bobagens e Inutilidades - 1

Andei lendo a revista IstoÉ, emprestada por um amigo. Não chega a ser assim uma Brastemp, mas é muito, mas muito mesmo, menos editorializada do que a Veja.
Foi a edição de 5 de setembro passado. Capa com o operador Marcos Valério na capa.
A revista dá bastante voz a Marcos Valério, que aproveita para jogar bastante coisa no ventilador.
Possivelmente seja o ponto de partida do barulho em torno do "mensalão tucano" (alguns jornalistas amenizam para "mensalão mineiro", isenção total. Uma rádio aqui em Porto Alegre chamava o dossiê Anti-Serra, o dos "aloprados" de "dossiê Cuiabá, isenção total), em torno do Senador Eduardo Azeredo, então candidato a governador.
A IstoÉ já foi assunto do Observatório da Imprensa, por crises na redação, demissões, não pagamento de salários, etc. Crise econômica numa empresa capitalista de notícias que os jornalistas acham que não é notícia.
Mas com toda a crise, está com uma qualidade editorial melhor que a Veja.
Opinião deste blogueiro, sujeita a contestação, ora pois!


Marcadores: , , , ,

sexta-feira, setembro 07, 2007

Do Terra Magazine: Atuação da mídia no mensalão beneficia corruptores

O estardalhaço da mídia em torno dos 40 denunciados pelo STF no caso do mensalão, além de passar a idéia de que já houve condenação de pessoas ainda não julgadas pela Justiça, contribui para manter na sombra os corruptores. A julgar pela cobertura jornalística, é mais importante dissecar os casos daqueles que teriam recebido dinheiro irregularmente do que investigar a fundo as fontes pagadoras, eventualmente beneficiárias de milhões de reais em recursos e outros bens públicos transferidos irregularmente.

O retorno excepcional da corrupção para a empresa privada, por exemplo, é superior ao de qualquer investimento convencional. Aqui e em outros países, o resultado do suborno chega a ser de mil a um milhão de vezes maior que o desembolso realizado.

Os capitalistas aventureiros da Era Dourada dos Estados Unidos, por exemplo, em vez de investir 250 mil dólares em uma empresa que poderia construir umas poucas milhas de ferrovias, preferiam, com o mesmo dinheiro, comprar a maioria de um comitê importante e um número suficiente de parlamentares em troca de milhões em empréstimos públicos, imensuráveis áreas de terra e uma sucessão de privilégios equivalentes, no total, a centenas de milhões de dólares. Por baixo, um custo-benefício de 1.000.000%, se considerarmos um benefício de 100 milhões de dólares como resultado da propina de 250 mil dólares.

A prática, típica do faroeste capitalista, continua em voga hoje, como mostra o caso da Enron. Em matéria de cálculo do custo-benefício da propina, ninguém superou a gigante americana do setor de energia, que afundou em 2001 em meio às suas próprias trapaças. A empresa desenvolveu um software para calcular a relação custo-benefício do suborno oferecido em troca de leis, regulamentações, concessões e outras vantagens sugadas do Estado.

O suborno não é, entretanto, o único modo de o empresário fazer com que o dinheiro do contribuinte vá parar no seu cofre. Os lobbies e as contribuições de campanha são instrumentos eficazes para atingir esse objetivo. O laboratório Glaxo Wellcome investiu 1,2 milhão de dólares em contribuições de campanha para estender por 19 meses a validade da patente do Zantac, no valor de um bilhão de dólares, com um retorno líquido de 83.333%. A indústria de cigarros desembolsou 30 milhões de dólares em contribuições em troca de isenções tributárias no montante de 50 bilhões de dólares. Retorno: 167.000%. Como contrapartida de contribuições de campanha, as empresas de telecomunicações obtiveram gratuitamente concessões para a TV digital no valor de 70 bilhões de dólares, com a taxa recorde de 1.400.000%.(1) A corrupção praticada pelos negócios privados, antes de ser um problema da ética dos negócios, é uma imposição da lógica inexorável da acumulação capitalista. O mesmo é possível dizer de inúmeras outras práticas empresariais transgressoras das leis. Fraudes, roubos, corrupção, irregularidades contábeis, reduções fictícias de valores de ativos, crimes tributários não são exclusividades de firmas marginais. Os escândalos empresariais dos anos 90 mostram que são corriqueiras também entre ícones do mundo dos negócios como Citigroup, J.P. Morgan Chase, Enron, WorldCom, Bank of America, Bankers Trust, Bank of New York, Halliburton, Global Crossing, Arthur Andersen e mais de uma centena de outros grandes grupos.

Os escândalos do Banco Nacional, do Comind, da Encol, da Mesbla, do Mappin, da Construtora Senap de Sérgio Naya, entre outros, mostram que, nesta área, o Brasil está sintonizado com o resto do mundo.

As revelações de corrupção agitam a mídia, mas o seu peso específico dentre todas as transgressões cometidas por empresas é reduzido. A corrupção gera algo em torno de US$ 30 bilhões por ano no mundo. Os demais crimes empresariais, a exemplo de subfaturamento, superfaturamento, transferência de preços abusiva e transações falsas, somam cerca de US$ 700 bilhões por ano. É quase 70% de todo o dinheiro sujo global, que inclui o produto do tráfico de drogas, falsificação de produtos e de moedas, tráfico humano, comércio ilegal de armas, contrabando, jogo ilegal, extorsão e também a famigerada corrupção.

Neste terreno minado, a situação do país, em que pese o trabalho incansável de funcionários públicos zelosos que trabalham nos órgãos de fiscalização e de repressão, é agravada pela condescendência de grande parte da mídia e da sociedade em relação ao crime empresarial. Os exemplos não se limitam aos casos acima mencionados. As propinas pagas em 1994 aos deputados federais que votaram a emenda da reeleição e a acusação feita ao mesmo governo, de aceitar suborno da empresa americana Raytheon, que teria estreitas relações com a Casa Branca e o Pentágono e venceu a francesa Alsthom para instalar o bilionário sistema de radar na Amazônia, são um marco mundial no campo das práticas não convencionais de empresas, políticos e governantes. Contam-se nos dedos os que ainda se lembra desse caso gravíssimo.

O mesmo é possível dizer sobre o maior escândalo financeiro do país, o do Banestado, que em 2004 apontou 91 políticos, empresários, banqueiros, autoridades e celebridades envolvidos em transferências ilegais para o exterior de mais de 150 bilhões de reais, entre 1996 e 2002. Note-se que o escândalo do Banestado tem o mesmo tamanho do da concessão da TV digital nos Estados Unidos.

Em que pesem as evidências sobre a centralidade das empresas no fenômeno da corrupção, muitas pessoas continuarão vendo no Estado a matriz do problema. Uma parte dessas pessoas é vítima de uma ilusão de ótica: os donos do dinheiro capturaram a máquina pública há tanto tempo que isso já é visto como normal.

(1) Os exemplos constam do livro Wealth and Democracy, de Kewin Phillips, escritor, comentarista de televisão e ex-assessor do presidente Richard Nixon.

Carlos Drummond é jornalista. Coordena o Curso de Jornalismo da Facamp e é doutor em Economia pela Unicamp

Terra Magazine

Marcadores: , , , , ,

sexta-feira, agosto 31, 2007

Os protestantes do século XXI



Lançamento do livro A mídia nas eleições de 2006, organizado pelo prof. Venício A. de Lima, da UnB e do Observatório Brasileiro de Mídia, se transforma em debate sobre porque a campanha da mída conservadora contra a reeleição de Lula não deu certo.

Data: 31/08/2007
Na noite de 30 de agosto, no Sindicato dos Jornalistas no Estado de S. Paulo, foi lançado o livro (Editora Fundação Perseu Abramo) A mídia nas eleições de 2006, organizado pelo professor Venício A. de Lima, da Universidade de Brasília e consultor do Observatório Brasileiro de Mídia. O livro tem apresentação do professor e mais 11 artigos de especialistas no setor, sobre o papel da mídia nas eleições presidenciais do ano passado. Acompanham o livro alguns anexos: as reportagens publicadas na época pela revista Carta Capital; as explicações do diretor executivo de jornalismo da Central Globo de Jornalismo, Ali Kamel; a carta do repórter Rodrigo Vianna, desligado da Globo naquela época, despedindo-se de seus colegas de trabalho (publicada em primeira mão, depois de circular em mensagens na internete, pela Carta Maior em reportagem de Bia Barbosa); e um mapa das votações no primeiro e no segundo turnos.

Além do prof. Venício, estiveram presentes ao lançamento os autores de artigos Renato Rovai, editor da revista Fórum, autor do capítulo “As muitas derrotas da mídia comercial tradicional”; Marcelo Coutinho, diretor executivo do Ibope Inteligência, co-autor de “Os usos das novas mídias na campanha presidencial de 2006; e Kjeld Jakobsen, presidente do Observatório Brasileiro de Mídia, autor de “A cobertura da míodia impressa aos candidatos nas eleições presidenciais de 2006”.

Além de debaterem o livro e seus artigos, os quatro presentes debateram, entre outras, a pergunta feita por Carta Maior sobre “porque em 2006 a campanha da mídia contra a reeleição de Lula não deu certo”. Carta Maior lembrou das vezes em que campanhas conservadoras na mídia “deram certo”: na eleição de 1989, no golpe de 1964, no de 1954 (revertido pelo suicídio do presidente Getúlio Vargas), até mesmo (como lembrou Rovai) na campanha pelas privatizações, durante o governo de FHC, quando criou-se um clima de que tudo o que era público e estatal eram necessariamente ruim.

Houve colocações muito variadas. Todos concordaram que este é um assunto ainda a ser estudado, e que é impossível dar uma explicação cabal e definitiva. Mas aventaram algumas hipóteses. O prof. Venício lembrou o papel das “lideranças intermediárias”, isto é, os líderes de associações de bairros, ongues, sindicatos, etc., que são, agora, “formadores de opinião” tão importantes quanto aqueles que tradicionalmente se julgam donos da “formação de opinião”, os editorialistas, colunistas de jornais, e comentaristas de tevê. Essas “lideranças intermediárias” têm acesso à internete e a uma série de informações alternativas, antes não ou pouco disponíveis, o que pode ter ajudado a contrabalançar o poder da mídia tradicional.

Kjeld Jakobsen lembrou que de fato a vida das pessoas mais pobres, e de um modo geral, melhorou sob o governo Lula, e que isso levou muitas pessoas a pensarem duas vezes antes de simplesmente aderirem à campanha da mídia contra o governo. Lembrou também que a mídia, de um modo geral, tornou-se mais uniformemente conservadora, descolando-se de muitos de seus leitores tradicionais. Lembrouy por exemplo do tempo em que muita gente de esquerda considerava A Folha de S. Paulo um jornal “oficiosamente” à esquerda no espectro do jornalismo brasileiro, e que isso hoje não acontece mais.

Renato Rovai trouxe à baila a idéia de que, além do contrabalanço de informação disponível, havia o fato de que em 2006, ao contrário de 1989, Lula era governo, e isso lhe dá um poder enorme de também gerar informação, além dos poderes inerentes ao Estado brasileiro. Em sua fala lamentou que o governo não tenha avançado mais no sentido de democratização da mídia, curvando-se à pauta do conservadorismo brasileiro neste campo. O jornalista Carlos Tibúrcio, também presente, respondeu, dizendo que era necessário analisar a “correlação de forças” para entender a posição do governo nestas questões.

Mas a nota mais original do debate ficou por conta de Marcelo Coutinho. Depois de dizer que era necessário reconhecer que, apesar de todas as deficiências, o nível de escolaridade no eleitorado brasileiro tinha aumentado muito de 20 anos para cá, lembrou a situação européia ao fim da Idade Média.

Disse que naquela época o quase monopólio de interpretação religiosa detido pela Igreja Católica Romana na Europa foi quebrado pelo protestantismo. E que para a quebra do monopólio foi fundamental a invenção da imprensa no século XV. Hoje, lembrou ele, estaríamos na mesma situação: a pretensão de monopólio de expressão da “opinião pública” por parte da mídia tradicional foi quebrada pela internete, embora o alcance desta esteja longe de ser universal. Mas tão importante quanto reconhecer essa quebra é reconhecer que os atores convencionais, mídia e partidos políticos, ainda não conseguiram responder de modo conveniente e consistente a esse novo quadro cultural, aferrando-se a seus princípios dogmáticos, tanto no plano das idéias quanto no das formulações.

“Internete é diálogo”, lembrou ele. De fato, algo que anda meio longe da nossa mídia convencional, que está menos para polifonia, mesmo que barroca, e muito mais para o uníssono (e ponhamos sono aí) do cantochão gregoriano (É só uma metáfora provocativa, pessoal. Eu adoro cantochão. Na Igreja ou no concerto, é claro, não na mídia).

Da Carta Maior.

Marcadores: , , , , , ,

quinta-feira, agosto 23, 2007

Assessor do Presidente Pode Estar Envolvido em Desvio de Verbas no Congresso

Calma! Isso não aconteceu. Esta manchete é ficcional. É apenas um exercício de imaginação se tivesse acontecido no governo federal o que aconteceu recentemente no governo do Rio Grande do Sul.
Uma assessora da governadora Yeda Crusius, Santa Izabel Paludo, foi indiciada no desvio de verbas da Assembléia Legislativa estadual, no chamado "escândalo do selo", aonde um funcionário da Assembléia, Ubirajara Macalão, teria superfaturado compra de selos, e desviado parte destes selos. Santa Izabel, antiga funcionária da Assembléia, estava lotada no Gabinete da Governadora, e é ligada ao PHS - Partido Humanista da Solidariedade, pequena agremiação que faz parte da base de apoio à governadora.

Veja mais no RS Urgente, ou no Diário Gauche.



Marcadores: , , , , , ,

terça-feira, julho 24, 2007

Do Observatório da Imprensa: Os Ricos Também Apóiam Lula

Edição 441 de 10/7/2007
www.observatoriodaimprensa.com.br
URL do artigo: www.observatoriodaimprensa.com.br


NÚMERO-NOTÍCIA
Os ricos também apóiam Lula

Miguel Gomes Barbosa do Rosário

Senti falta, na imprensa, de mais detalhes da pesquisa do Ibope sobre o governo. Tem umas coisas bem interessantes, que desfazem mitos como aquele de que só os pobres apóiam Lula. Entre o grupo com estudo superior completo, os que aprovam Lula são 49%, contra 46% que desaprovam.

Lembrando, o total que aprova Lula é 66%, contra 30% que desaprovam. Uma diferença de 36%, ou seja, correspondente a mais de 70 milhões de habitantes. Em outros termos, mais de 120 milhões de cidadãos brasileiros aprovam Lula, contra 60 milhões que desaprovam.

Na pesquisa por renda mensal, a tabela do Ibope mostra que a faixa mais rica, que ganha acima de 10 salários mínimos, ou seja, mais de 4.000 por mês, também aprova Lula. Nesta faixa, 53% aprovam Lula, contra 41% que não aprovam. Uma diferença de 12%. Na realidade, Lula é aprovado em todas as faixas salariais, mas com maior intensidade entre os mais pobres. O que é extremamente saudável e um sinal de que o governo está no caminho certo. O estranho para um presidente de um país pobre seria o contrário: ser apoiado por ricos e detestado pelos pobres.

Confiança do povão

Há ainda um outro dado impressionante. O Ibope pergunta que nota o entrevistado daria à Lula, de 0 a 10. Sabe qual foi a nota mais votada? Adivinha? A nota 10. Apenas 6% deram nota 0, enquanto 20% deram nota 10. Imagine se os jornalões dessem a manchete: "Maioria dos brasileiros dá nota 10 a Lula".

Continuando. Na tabela de notas por segmento econômico, Lula também tem excelente performance entre os mais ricos. Entre os mais pobres, nem preciso dizer. O que pretendo aqui é desmistificar essa história de Lula fazer sucesso apenas entre os que ganham bolsa-família. Pois bem, entre os que ganham mais de 10 salários mínimos, ou mais de 4 mil reais por mês, 8% dão nota 10, contra somente 5% que dão nota zero. E, ainda falando dos ricos, 57% dão nota acima de 6.

O Ibope faz ainda uma outra pergunta, parecida. Você confia ou não no presidente Lula? Lula ganha em todos os segmentos sociais, inclusive nos que ganham acima de 10 salários mínimos - neste segmento, 47% confiam em Lula, contra 46% que não. Entre os mais pobres, Lula ganha esmagadoramente: 73% dizem confiar em Lula, contra 24% que não confiam. Quem freqüenta lugares populares, sabe como é difícil um político ganhar confiança do povão, sempre disposto a chamar todo mundo de ladrão.

Jornalões perdem o bonde

Quer mais?

O Ibope faz a seguinte pergunta: em relação ao primeiro mandato, o segundo mandato do presidente Lula está sendo: melhor, igual ou pior? Novamente, Lula leva a melhor em todos os segmentos econômicos. Entre os pobres, 83% acham que é igual ou melhor. Entre os ricos (que ganham mais de 4 mil por mês), 78% acham que está igual ou melhor, mesmo percentual registrado para o total dos entrevistados.

Calma, não acabou. A aprovação de Lula é avassaladora em todas as regiões do país, e não apenas Nordeste, como algumas chamadas jornalísticas sugerem. No Sul, Lula é aprovado por 52% dos brasileiros, contra 42% que não aprovam. No Sudeste, Lula é aprovado por 62%, contra 32% que desaprovam. Em todas as outras, a aprovação ainda é maior.

A conclusão é óbvia. Lula vem sendo apoiado entre pobres, classe média e ricos. Ou seja, os jornalões, que vendem para a classe média e os ricos, e que compraram uma briga totalmente intransigente e partidária contra o presidente Lula, estão perdendo o bonde da história. E assinantes.


Marcadores: , , , ,

domingo, julho 22, 2007

Marco Aurélio Garcia

Vale qualquer coisa para tentar atingir o presidente Lula, até se escandalizar com um gesto supostamente obsceno do assessor da presidência Marco Aurélio Garcia, captado sorrateiramente enquanto este assistia ao Jornal Nacional em seu gabinete.
Interpretaram que com o tal gesto o assessor dizia que a empresa aérea é que iria, vamos dizer assim, se dar mal. Acho que não. Embora eu não possa falar pelo assessor, acho que foi algo como um desabafo, e acho que ele se referia àqueles que estão tentando a todo custo , digamos de novo, fazer o governo se dar mal, com a tragédia acontecida em Congonhas esta semana.

Abaixo, o fradim, personagem do Henfil, que gostava de usar o tal gesto obsceno, pescado via Diário Gauche.

Marcadores: , , , , , , , ,

sexta-feira, julho 20, 2007

Pequena Mídia : Por quê vê-se tão pouco essas imagens na televisão?

sábado, julho 14, 2007

Ainda a RCTV e a TV por Assinatura - Brasil e Venezuela

O Correio do Povo desta quinta-feira, dia 12 de julho, publica uma notinha curiosa, ainda tendo a RCTV como assunto. Informa o jornal que a RCTV continuará transmitindo sua programação via TV por assinatura, como aliás, era previsto, enquanto continua procurando meios legais de recuperar sua concessão na TV aberta. A notinha conclui informando que "só 30% da população tem acesso à TV por assinatura".
Há duas coisas interessantes aqui. A primeira e mais evidente é que a RCTV não foi fechada, como alguns apregoam. Continua a transmitir, seja por canais por assinatura, seja via Internet.
A segunda é que me parece que ainda que "só 30% da população" venezuelana tenha acesso à TV por assinatura, isto é muito mais que no Brasil. Números podem mentir muito, mas vou usar alguns aqui para não deixar a discussão no vazio. O sítio da Associação Brasileira de TV por Assinatura - ABTA informa que no final do ano passado havia cerca de 4,7 milhões de assinaturas de TV no Brasil e mais 1,1 milhão de assinatura de acesso à Internet provido por operadoras associadas à ABTA. E segundo o sítio do IBGE, no Brasil há algo próximo de 52 milhões de residências. Segundo estes números, numa análise primária, só um pouco mais de 10% da população brasileira tem acesso à TV por assinatura.

Marcadores: , , , , , , , ,

sexta-feira, julho 13, 2007

Teologia Neoliberal ou Teologia de Mercado - 2

Já que falamos no governo FHC, não custa lembrar que naquele governo, uma desregulamentação mal conduzida do fornecimento de energia elétrica levou ao apagão elétrico de 2001, aqui no Brasil. Que obrigou os brasileiros a terem que economizar energia elétrica, e pagar sobre-taxa de energia (!) para compensar as distribuidoras pelo consumo menor que o previsto quando foi feita a privatização parcial da distribuição de energia elétrica. Nesse caso, o mercado aceitou uma ajudinha do governo para manter a sua margem de lucro.
Não sei, mas acredito que não haja registro de apresentador do Jornal da Globo na época condenando a desregulamentação e privatização do fornecimento de energia, que causou prejuízos aos consumidores.

Marcadores: , , , ,

quinta-feira, junho 21, 2007

TV na Venezuela

O blog Na Periferia do Império informa que a TV estatal venezuelana, da "ditadura" de Hugo Chávez promoveu discussão entre estudantes a favor e contra o governo, mais os policiais encarregados da possível repressão às manifestações. Inclusive indicando linques, onde vídeos da discussão podem ser vistos (na verdade, este blogueiro teve grande dificuldade de entender o espanhol dos venezuelanos).
Possivelmente a TV estatal venezuelana está copiando as idéias da TV brasileira onde estudantes a favor e contra o governo estão continuamente debatendo, discutindo. As nossas televisões estão continuamente mostrando todos os lados e todas as opiniões a respeito da ocupação da USP.

Marcadores: , , , ,

quinta-feira, junho 07, 2007

O Incrível Exército Blogoleone

A partir desta semana, por convite do Jean Scharlau, estou colaborando com o blog O Incrível Exército Blogoleone, junto com um monte de gente que já fazia parte do Sistema de Muvuca na Internet, o SIVUCA. Provavelmente toda esta gente está à minha esquerda politicamente, mas como fui convidado, estou lá. Confira!

Marcadores: , , , , ,

quinta-feira, abril 05, 2007

Alimentando a Paranóia

Recentemente este blog comentou texto do jornalista Paulo Henrique Amorim indicando a leitura de texto do jornal espanhol El País sobre a crise aérea de sexta-feira passada. O texto era recomendado porque o El País tinha uma ênfase diferente dos grandes jornais brasileiros (O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, O Globo, ...) . A ênfase do El País era basicamente favorável ao governo Lula.
Pois o UOL - Universo Online possui uma área chamada Mídia Global (para assinantes do UOL) onde são traduzidos e republicados textos de grandes jornais e revistas, como o The New York Times, o Le Monde, a Der Spiegel, e, inclusive, o El País. Mas o UOL não traduziu este texto do El País que tratou de uma crise do governo Lula, com um viés positivo ao governo.
O UOL pertence ao grupo Folha, que por sua vez também é dono do jornal Folha de São Paulo.
A não tradução e republicação do texto do El País foi descuido, ou determinação?

Marcadores: , , , , ,

terça-feira, abril 03, 2007

SIVUCA

Sempre lembrando: existe o SIVUCA - Sistema de Muvuca na Internet, que se destina a combater o PUM - Pensamento Único da Mídia.
O jornalista Mino Carta não faz parte do SIVUCA, mas no seu blog, ele comenta exemplos do PUM.

Marcadores: , , , , , , ,

Controle de Aviação Civil

O Paulo Henrique Amorim dá uma dica, para quem estiver cansado da cobertura que a grande mídia brasileira está dando da crise de aviação desde sexta-feira. Ele recomenda consultar o que diz o Clarín, de Buenos Aires, por exemplo. Também recomenda o sítio do jornal espanhol El País.
Tais coberturas certamente destoarão do que diz a grande (grande?) mídia brasileira, onde se fala muito em "motim", "quebra de hierarquia", "indisciplina", "crise militar", e outras coisas semelhantes.
Vale lembrar, como fez o Sérgio Leo, que o brigadeiro Bueno, que esteve no comando da Aeronáutica de setembro a dezembro de 2006, e, junto com o ministro Waldir Pires, não solucionou o problema. Agora o brigadeiro Saito, que também está há cerca de três meses no comando da Aeronáutica, também não deu uma solução, e tentou uma não solução, ou seja, deter os controladores que são militares. Como não havia pessoal suficiente para substituir os detidos, foi necessário voltar atrás. Simples assim.

Marcadores: , , , , , ,

quinta-feira, março 22, 2007

Editorial Correio do Povo, 21 de março de 2007.

O texto abaixo foi recebido via por correio eletrônico. O título da mensagem era "Editorial Correio do Povo". Quando o li, pensei com os meus botões "puxa vida!, Quem diria?". Tive que conferir. Eu assino o Correio do Povo, mas geralmente não leio os editoriais, até porque me parece que o jornal, pelo menos até agora, é muito ligado ao agronegócio.

Muitos blogueiros, simpáticos à esquerda, ou simplesmente contrários às notícias veiculas pela grande mídia, se juntaram no Coletivo Sivuca - O Sistema de Muvuca na Internet, justamente para combater o PUM, ou Pensamento Único da Mídia. A princípio, parece que o Correio do Povo, destoou do PUM.

Por outro lado, pode ser que apenas bancos estatais de fato dêem apoio ao agronegócio, e esta seja uma outra explicação possível.



Editorial - A RAZÃO DOS BANCOS PRIVADOS

Correio do Povo - ed. 21.03.2007

Defensores da privatização dos bancos públicos ressurgem, de tempos em tempos, querendo tirar a poeira da carcomida tese que o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial geraram e não conseguem impor nos países de onde emanam suas políticas. Nos Estados Unidos, há bancos públicos municipais. Na Alemanha, os bancos públicos são cooperativados. Há infindáveis exemplos de países cujos governos não abrem mão do poder decisório de estabelecer linhas de crédito específicas, sem entrar em choque com instituições privadas, que não surgiram nem estão vocacionadas para o mesmo fim.

Pode alguém hoje imaginar o desenvolvimento do país sem o Banco do Brasil? Ou aplicação de iniciativas sociais, sobretudo na área da habitação, sem a Caixa Econômica Federal? A mesma pergunta cabe em relação ao Banrisul, cuja atividade, desde 1928, tem impulsionado o crescimento do Rio Grande do Sul. Os setores da produção clamaram e o então governador Getúlio Vargas atendeu, criando o mecanismo de crédito rural e hipotecário. A partir daí, os ciclos de prosperidade tiveram no Banrisul a grande alavanca. Basta comparar o volume de créditos concedidos pelo nosso banco público com os privados em linhas emergenciais, diante de secas ou inundações, quando são dilatados prazos para o pagamento e praticados juros menores, além de incontáveis projetos nas áreas de saúde, educação e fomento industrial.

Os defensores da privatização se apegam ao argumento de quebras de bancos públicos. É de perguntar se o mesmo não ocorreu também com os privados em nosso país e no exterior? Esses fatos fizeram com que o controle se tornasse mais rígido, corrigindo distorções. O Banrisul, por exemplo, que se mantém sadio, tem fiscalização permanente do Tribunal de Contas do Estado, do Banco Central, da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), da auditoria interna, exercida por profissionais de carreira, cujo maior interesse é manter a integridade da instituição, mais a auditoria externa, escolhida conforme critérios reconhecidos internacionalmente. Não é pouco para vasculhar tudo.

Portanto, com resultados positivos que consecutivas gestões apresentam e a função insubstituível no Estado, a privatização do Banrisul só pode sensibilizar aos que se distanciam do interesse público.

O saite do Correio do Povo (para assinantes): http://www.correiodopovo.com.br .

Marcadores: , , ,

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Do Observatório da Imprensa: Silêncio sobre as Comissões de Comunicação

Edição 421 de 20/2/2007
www.observatoriodaimprensa.com.br
URL do artigo: www.observatoriodaimprensa.com.br

MÍDIA & CONGRESSO NACIONAL
O silêncio sobre as Comissões de Comunicação

Venício A. de Lima

O Correio Braziliense de quinta-feira (15/2) deu manchete de capa de quase meia página para a nova composição das Comissões Temáticas Permanentes da Câmara dos Deputados. O título era "Doadores emplacam seus deputados nas comissões da Câmara" e o subtítulo anunciava que "Políticos que tiveram campanha financiada por empreiteiras, mineradoras e outras empresas garantiram vaga nas seções que definirão projetos de lei a serem votados. Nomeações atendem aos interesses de grupos econômicos".

As matérias internas nas páginas 2 e 3 detalhavam a relação dos nomes de alguns integrantes de comissões, o valor das contribuições de campanha e os respectivos doadores cujos interesses privados estão vinculados aos temas nelas tratados. São relacionados nominalmente deputados de seis comissões: Agricultura, Seguridade Social e Família, Finanças e Tributação, Minas e Energia, Viação e Transportes e Desenvolvimento Urbano.

Figurinhas carimbadas

As graves acusações do Correio Braziliense provocaram protestos veementes de alguns deputados e o novo presidente da Câmara declarou que a Procuradoria Parlamentar iria verificar se cabe alguma medida judicial contra os jornalistas que assinam a matéria. "Um jornalista não tem autoridade para fazer insinuações sem prova", disse ele.

Ao ter entre seus financiadores legais um determinado grupo empresarial, o deputado estaria necessariamente submetendo sua ação parlamentar aos interesses desse grupo? A questão do financiamento das campanhas eleitorais é um dos objetos de discussão da inadiável reforma política que certamente o Congresso Nacional retomará na atual legislatura.

Vale registrar, no entanto, que estranhamente não constou da reportagem do Correio Braziliense a relação dos deputados e seus respectivos doadores da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI). No caso dessa Comissão podem, de fato, existir situações de conflito de interesse. Tem sido assim ao longo dos anos. E não só em relação aos doadores de campanha, mas sobretudo em relação aos membros titulares e suplentes da CCTCI que são, eles próprios, concessionários dos serviços públicos de radiodifusão.

Essa condição, inclusive, diferencia os membros concessionários da CCTCI de outros parlamentares que eventualmente tenham recebido doações de campanha de grupos empresariais com interesse direto em sua atuação parlamentar. Na CCTCI, o interesse é também do próprio deputado concessionário.

Uma rápida leitura da relação dos membros da nova CCTCI revelará que lá estão figurinhas carimbadas como, por exemplo, Eunício de Oliveira (PMDB-CE), Jader Barbalho (PMDB-PA), José Rocha (PFL-BA), Vic Pires Franco (PFL-PA) e Paulo Bornhausen (PFL-SC), com sabidas ligações com a radiodifusão.

Um leque impressionante

Não seria de interesse público que o levantamento do Correio Braziliense tivesse também incluído a CCTCI?

É ainda interessante registrar que passou praticamente despercebido da grande mídia a criação pelo plenário do Senado Federal, em 7/2, da nova Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (CCTICI), desmembrada da antiga Comissão de Educação, onde existia uma Subcomissão Permanente de Cinema, Teatro, Música e Comunicação Social.

Compete à nova Comissão opinar, dentre outros temas, sobre proposições pertinentes à política nacional de ciência, tecnologia, inovação, comunicação e informática; organização institucional do setor; propriedade intelectual; comunicação, imprensa, radiodifusão e televisão; outorga e renovação de concessão, permissão e autorização para serviços de radiodifusão sonora e de sons e imagens; regulamentação, controle e questões éticas referentes à pesquisa e desenvolvimento científico e tecnológico, inovação tecnológica, comunicação e informática, além de outros assuntos correlatos. Sem dúvida, um leque impressionante de temas do setor.

Vínculos com a radiodifusão

Houve protestos contra a criação da CCTICI. O senador Flávio Arns - que acabou sendo membro da comissão - chegou a afirmar que a iniciativa "fazia parte da negociação de cargos ocorrida no início desta legislatura". Entidades como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a Associação Nacional de Biossegurança e a Associação Brasileira de Propriedade Industrial também protestaram. Temem que o desmembramento provoque "o esvaziamento e a desarticulação dos temas que estão em andamento na atual Comissão de Educação".

O novo presidente dessa comissão é o senador Wellington Salgado (PMDB-MG), suplente do atual ministro das Comunicações, Hélio Costa. E o vice-presidente é o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), de conhecidas ligações com a Rede Record de televisão. Entre seus membros estão também senadores sabidamente vinculados à radiodifusão como Sérgio Zambiasi (PTB-RS), Maria do Carmo Alves (PFL-SE), José Agripino (PFL-RN), João Tenório (PSDB-AL), Flávio Arns (PT-SC), Eduardo Azeredo (PSDB-MG), Romero Jucá (PMDB-RR), Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN) e Mão Santa (PMDB-PI).

O compromisso da mídia

É sempre interessante constatar como a grande mídia evita falar sobre si mesma ou tratar de questões a ela diretamente relacionadas. Neste caso, comportamento ainda mais curioso, de vez que o Congresso Nacional, desde a Constituição de 1988, é co-responsável com o Poder Executivo pelas concessões e renovações de concessões de radiodifusão, além de formular e decidir diretamente sobre as políticas públicas do setor de comunicações.

O primeiro compromisso da mídia e de seus jornalistas é com o interesse público. É isso mesmo, não é? Ou não é?



Marcadores: , , ,