quarta-feira, setembro 23, 2009

A Edição Digital da Folha de São Paulo e um Susto

A Edição Digital da Folha de São Paulo e um Susto


Quem quer que acompanhe este blog, e acredito que não sejam muitos, sabe que ele é um tremendo tributário da Folha de São Paulo, pois aqui são copiados muitos textos que fazem sentido para o blogueiro oriundos de lá.

O Dr. Luiz Carlos Bresser-Pereira, por exemplo, é figurinha fácil por aqui. O escritor e jornalista Carlos Heitor Cony também.

Sou assinante do portal da Folha, o Universo Online – UOL, há alguns anos já. E, portanto, tenho acesso aos conteúdos do jornal. Desta forma, acabo usando parte do conteúdo para preencher os vazios aqui do blog.

Na semana passada a Folha de São Paulo iniciou a chamada edição digital do jornal. Seguindo o exemplo de outros jornais, como O Globo, ou o Zero Hora aqui de Porto Alegre, a edição digital mimetiza o formato de uma página de jornal na Internet. Assim temos reproduzida integralmente a edição. Antes só havia o formato em html1 .

Pois o surgimento da edição digital me deu um susto. Pensei que não haveria mais o formato tradicional. E o formato digital tornava muito mais difícil copiar conteúdo. Explica-se: com o formato em html, para que a cópia de um conteúdo seja feita, basta que se selecione o conteúdo desejado, se copie da origem, e se cole no destino (“copy and paste”, ou “editar: copiar – editar: colar” é um procedimento muito comum em tempos de computação ubíqua). Já a edição digital é feita com uma formatação especial, com software da Adobe®. Não há a facilidade de selecionar, copiar e colar conteúdo. Haveria uns passos extras, tipo “fotografar” todo o conteúdo da tela na notícia de interesse, copiar esta imagem da tela em algum programa de edição de imagem, e consequentemente ter a notícia arquivada como uma imagem, para, em seguida, utilizar algum outro programa de reconhecimento de escrita em imagem, para extrair o texto. Como nem sempre, estes softwares de reconhecimento de escrita funcionam com precisão de 100%, mais uma correção ortográfica seria necessária. Entendido? A edição digital torna muito mais difícil a cópia de conteúdo. Pessoalmente, soa impossível, impraticável. Eu mesmo já ia desistindo, até descobrir que a versão antiga continua existindo.

Ou seja, por enquanto vai continuar havendo textos dos senhores Bresser-Pereira e Cony por aqui. Mas no futuro, quem sabe?

Este blog corre o risco de passar a ter muito menos conteúdo.

E, talvez, este blogueiro tenha que se tornar mais operoso.



1HTML, ou “Hyper Text Markup Language”, ou ainda “linguagem de marcação de hiper texto” é, como diz o nome, uma linguagem que serve para dar às paginas na Internet a formatação com que elas se apresentam nos navegadores.

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terça-feira, agosto 11, 2009

Sobre Battisti e o Supremo Tribunal Federal

Comentei antes que a Folha resolveu suplementar a notícia da extradição do major uruguaio Manuel Juan Cordeiro Piacentini, com o futuro julgamento do italiano Cesare Battisti.

Não tenho opinião formada sobre o italiano.

Me parece que a revista CartaCapital e seu diretor de redação Mino Carta militam pela punição do italiano porque vêem a necessidade desta punição em vista dos crimes que ele cometeu na Itália. Segundo a revista, crimes de sangue, e sem a motivação política que o italiano alega.

Quanto à Folha de São Paulo, me parece que o jornal apenas quer constranger o Ministro Tarso Genro, da Justiça.

Papel curioso exerce o Ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, que foi capaz de conceder dois habeas corpus em 48 horas ao banqueiro Daniel Dantas (banqueiro já condenado em primeira instância por corrupção ativa de um delegado da Polícia Federal), denunciador do “estado policial” brasileiro, mas que resolveu reter preso Battisti após a concessão de refúgio a este, pelo Ministro da Justiça. Me parece outra tentativa, como faz a Folha de São Paulo, de constranger o Ministro da Justiça e, por extensão, o Presidente da República.


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quarta-feira, junho 10, 2009

As fixações de parte da mídia

A revista CartaCapital desta semana (edição 549, de 10 de junho de 2009) comenta a transferência do jogador Kaká, do Milan da Itália, para o espanhol Real Madrid. Na sua página 28 informa que a transferência custará ao Real Madrid 65 milhões de euros e que Kaká receberá 9,5 milhões de euros por um contrato de cinco anos. A revista conclui a informação com a seguinte frase: “Os fundadores da Igreja Renascer devem estar exultantes”. A informação sobre Kaká pelo jeito não é importante em si mesma, deve ser só pela ligação do jogador com a referida igreja. A Igreja Renascer é uma das fixações da CartaCapital.

O jornal Folha de São Paulo, de hoje, 9 de junho de 2009, em meio a cobertura sobre recente acidente aéreo com o vôo AF447 da Air France que vitimou mais de 200 pessoas, resolve falar sobre um certo sensor da aeronave que serve para que os computadores de bordo confiram a velocidade. A fabricante Airbus está recomendando a troca destes sensores. Segundo a Folha, a TAM é a única companhia de aviação brasileira que opera com aviões da Airbus, e a empresa informou que já trocou todos os sensores de sua frota de 125 aviões Airbus. Então a Folha informa que a TAM é também a responsável pela manutenção do avião presidencial. Na frase da Folha: “Ela é também responsável pela manutenção do avião presidencial, o Aerolula.”. Uma das fixações do pessoal da Folha é chamar o avião presidencial de Aerolula. Provavelmente acham que o presidente não legará o avião ao próximo mandatário (a) eleito (a).


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segunda-feira, maio 11, 2009

Carta aberta à Folha

Carta aberta à Folha

DR. ROSINHA, CLÁUDIO DIAZ, PEDRO SIMON e ALOIZIO MERCADANTE

ESTE JORNAL , em editorial de 14/4, com o agressivo título "Cabide parlamentar", acusa o Congresso de "ilimitada desfaçatez" por estar estudando a implantação de quatro vagas para a representação dos brasileiros que vivem no exterior e de 75 vagas, a partir de 2014, para o Parlamento do Mercosul.
Lamentamos que a Folha se refira ao Congresso Nacional em termos tão ofensivos. Ademais, como a proposta de criação da representação direta para o Parlamento do Mercosul vem sendo discutida em conjunto com políticos da Argentina, do Paraguai e do Uruguai, a ofensa se estende aos legisladores desses países.
Os parlamentares do Mercosul não estão agindo com desfaçatez. Na realidade, estão só tentando cumprir o previsto no Protocolo Constitutivo do Parlamento do Mercosul. Esse protocolo, assinado pelos Poderes Executivos, é um compromisso internacional ratificado pelos Estados-partes do Mercosul. Ele prevê, em seu artigo 6º, que "os parlamentares serão eleitos pelos cidadãos dos respectivos Estados-partes, por meio de sufrágio direto, universal e secreto".
Assim, a atual fase do Parlamento do Mercosul, na qual os parlamentares são designados a partir de seus Legislativos nacionais, representa uma "primeira etapa de transição", que terá de terminar, conforme o protocolo, em 31/12/10.
Agregue-se que o protocolo também determinou que a proposta com o número de parlamentares por país para que se estabeleça a representação direta teria de ser aprovada no Parlamento até 31/12/07. O Paraguai, inclusive, já realizou eleições diretas para eleger seus representantes.
Portanto, essa discussão, longe de ser oportunista, está muito atrasada. E está atrasada por um motivo: havia resistências a que o Brasil tivesse um número maior de representantes. Essas resistências estavam sendo duramente negociadas. Elas só foram vencidas na reunião do último dia 28, na qual acordou-se que, no período entre 2010 e 2014, o Brasil, em consonância com a austeridade que a crise demanda, terá só 37 parlamentares.
Os "mercocéticos" talvez considerem que o Mercosul e seu Parlamento não têm relevância. Discordamos. Hoje, o Mercosul tem grande importância para todos os países do bloco. Se incluirmos também os Estados que participam de sua área de livre comércio, veremos que o Mercosul foi responsável, em 2008, por cerca de 19% das exportações brasileiras, ao passo que os EUA responderam por 14%. Saliente-se que essa corrente de comércio regional é fortemente superavitária para o Brasil, tendo gerado, no ano passado, US$ 14,4 bilhões de saldo positivo, mais da metade do saldo total (US$ 24,8 bilhões).
Mas a importância maior do Mercosul é estratégica, política e social, o que implica paciente criação de cidadania comum, a qual consolidará o bloco. Para tanto, o Parlamento do Mercosul é fundamental.
Esse jovem Legislativo regional vem elaborando propostas relativas ao enfrentamento conjunto da crise, ao reconhecimento de títulos e diplomas, à livre circulação de trabalhadores, à harmonização da legislação trabalhista e previdenciária, bem como a outros temas substanciais. O Parlamento já é também um relevante órgão mediador de conflitos bilaterais, como o relativo a Itaipu.
O fato de haver conflitos comerciais no Mercosul não obsta a criação de um Parlamento regional inspirado no Parlamento Europeu. Pelo contrário: a experiência europeia mostra que a criação de instituições supranacionais contribui para a superação dos conflitos.
Considere-se, além disso, que os processos de integração regionais não podem prescindir de instituições democráticas multilaterais que os consolidem no interesse do cidadão comum. Assim, a construção do Parlamento do Mercosul faz parte de uma tendência de paulatina implantação de cidadanias multinacionais.
Por último, lamentamos que a Folha se oponha aos avanços democráticos regionais com base em mensuração precipitada e exagerada dos seus custos financeiros. O funcionamento das instituições democráticas infelizmente gera custos. Ditaduras, não. Ditaduras são, desse ponto de vista estreito, baratas. Basta um ditador com desfaçatez absoluta. Não são necessários os Legislativos. Não precisa nem de imprensa livre.
É claro que, nesse caso, somos forçados a renunciar a certos "luxos democráticos". Como poder escrever editoriais ofensivos ao Congresso Nacional e aos Legislativos de países vizinhos. Essa liberdade, a Folha certamente concordará, não tem preço.


FLORISVALDO FIER , o Dr. Rosinha, 58, médico e servidor público, é deputado federal (PT-PR).
CLÁUDIO DIAZ , 55, veterinário e pecuarista, é deputado federal (PSDB-RS).
PEDRO SIMON , 79, advogado e professor, é senador da República (PMDB-RS).
ALOIZIO MERCADANTE , 54, economista e professor, é senador da República (PT-SP).
Os autores assinam o texto em nome dos congressistas integrantes da Representação Brasileira no Parlamento do Mercosul.

Publicada na Folha de São Paulo, de 30 de abril de 2009.

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terça-feira, abril 21, 2009

Márcio Aith, uma observação irrelevante

A respeito do “post” anterior, é dito que o texto fiscalista da Folha de São Paulo, é de Márcio Aith.

Pelo que me parece, Márcio Aith trabalhava na Folha de São Paulo, e foi contratado pela revista Veja. Luís Nassif comenta como ele acabou envolvido nas digamos questões da revista Veja, com Daniel Dantas.

Pelo jeito resolveu voltar à velha casa.


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Ah, este fiscalismo!...

Ah, este fiscalismo!...


A Folha de São Paulo desta segunda-feira, 20 de abril, dá ampla divulgação a um estudo produzido pelo economista Alexandre Marinis, da consultoria Mosaico, estudo este produzido a pedido da própria Folha.


A reportagem, assinada por Márcio Aith, informa que o Governo Federal economizou 40 bilhões de reais com juros nos últimos anos, mas acrescentou 40 bilhões de reais à folha de pagamentos, e mais 26,7 bilhões de reais ao custeio da máquina administrativa. A seguir vem a analogia, informando que o aumento de gastos seria o equivalente a seis vezes o gasto com o programa Bolsa-Família. Ainda segundo a notícia, o governo contratou 300 mil servidores (metade deles militares), e aumentou salários. Então a folha cita a opinião do economista: "O problema desses números é a irreversibilidade. O próximo presidente não terá a opção de reverter esses aumentos, mesmo que parcialmente, para programas sociais mais eficientes."


Muito bem. O governo aumentou a quantidade de funcionários, e aumentou salários.


O governo anterior contratou menos, se contratou. Em compensação se encheu de “terceirizados”, que tinham salários arrochados, e, possivelmente, empregadores enriquecidos, e também de “consultores”. Mesmo assim a dívida pública aumentou de forma exponencial entre 1995 e 2002.


Por outro lado, vimos muitas operações da Polícia Federal nestes últimos oito anos, mais do que estávamos acostumados a ver em governos anteriores. Vimos a ação dos diplomatas brasileiros, nos pleitos brasileiros, e nos diversos fóruns internacionais. Temos visto fiscalização do Ministério do Trabalho liberar trabalhadores mantidos em situação análoga à escravidão (havia no governo anterior, mas parece que neste há mais), sendo que tivemos o assassinato de fiscais durante este governo, ou seja, estes funcionários pagaram com sua vida por causa da função que exerciam. Ora, tudo isto custa dinheiro. Ou alguém espera que policiais federais, ou fiscais do ministério do trabalho, ou da receita-previdência vão trabalhar motivados com salários achatados? Sem contar, que, na verdade, na Receita Federal, por exemplo, faltam fiscais para a ampla gama de portos, aeroportos e pontos de fronteira seca que precisariam ser fiscalizados.


Felizmente o jornal anotou uma resposta do governo: “O governo tem dito que os reajustes e as contratações fazem parte de uma estratégia para recuperar a eficiência do Estado, após uma década de reformas liberais malsucedidas. A equipe econômica alega ainda que o custo de contratações e reajustes é compatível com o aumento da receita tributária no período.” Não sei se satisfaz a equipe de redação da Folha, mas é o que há a ser dito.


É bom que os jornais fiscalizem os gastos do governo, mas seria melhor se procurassem verificar também se o gasto foi bem ou mal feito. Aumentar salários, segundo o critério da Folha, parece que é sempre negativo, e despesas crescentes de custeio também.


Aqui no Rio Grande do Sul temos um governo preocupado, parece que quase exclusivamente, em manter o rigor fiscal. O que temos: governadora impopular, funcionários insatisfeitos, escolas (e presídios) caindo aos pedaços. É isso o que a Folha quer para todo o país?

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segunda-feira, abril 06, 2009

Folha de São Paulo ganha prêmio de direitos humanos

A Folha de São Paulo recebeu a Medalha Chico Mendes de Resistência, pela reportagem que falou da senhora Márcia Jacintho.

Esta senhora teve o filho assassinado por dois policiais militares na favela em que moravam, no Rio de Janeiro. Ela conseguiu coletar evidências e obter na justiça a condenação dos policiais que assassinaram seu filho.

A premiação foi para o repórter Ítalo Nogueira, da Sucursal do Rio de Janeiro do jornal.

A matéria foi publicada em 6 de setembro de 2008. Ela foi copiada aqui no blog, e está disponível: aindaamoscaazul.blogspot.com/2008/09/me-coragem.html .


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sexta-feira, março 20, 2009

SARNEY É RECEBIDO COM GRITOS DE "REI" EM VISITA AO AMAPÁ (E IRÁ SE ENCONTRAR COM GILMAR MENDES LÁ)

REDUTO ELEITORAL: SARNEY É RECEBIDO COM GRITOS DE "REI" EM VISITA AO AMAPÁ

Com direito a discurso em carro de som e gritos de "ei, ei, ei, Sarney é nosso rei", o presidente do Senado chegou na noite de quarta ao Amapá, onde tem domicílio eleitoral, para as comemorações do Dia de São José, padroeiro do Estado. No aeroporto, foi recebido com fogos de artifício e bandinha. Hoje, deve se encontrar com o presidente do STF, Gilmar Mendes, para o tradicional equinócio, quando os raios solares incidem sobre a linha do Equador, que cruza Macapá.

A notícia é da Folha de São Paulo, de 20 de março de 2009.

Estamos mais próximos do equinócio. Se estivéssemos no solstício,de dezembro, eu acharia que os presidentes do judiciário e do legislativo estavam realizando uma celebração Apolo ou de Hélios, religiosa, talvez celebrando-se a si mesmos como deuses, como alguns imperadores romanos chegaram a pensarem de si próprios. :)


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terça-feira, março 17, 2009

Reconhecendo erros

De empastelamentos a reconhecimento de erros

Não faz muito tempo, alguém que discordasse das opiniões expressas por um jornal podia juntar uma turba e destruí-lo fisicamente.
A isso se chamava "empastelamento". Este jornal, quando era "Folha da Manhã" e "Folha da Noite", foi vítima de tal agressão em 1930.
No sábado, dia 7 passado, um grupo de 300 pessoas (segundo o jornal) ou pelo menos 450 (de acordo com os organizadores) realizaram manifestação de protesto em frente à Folha.
Elas se diziam indignadas com editorial publicado em 17 de fevereiro com menção à ditadura brasileira (1964-1985), chamada de "ditabranda".
O ato, com número de participantes que evidencia tanto o poder de convocação dos promotores do evento quando a importância do jornal, foi pacífico. A Folha o noticiou no domingo e deu na íntegra manifesto lido ali.
Faz muito pouco tempo, veículos de comunicação nunca reconheciam seus erros. A Folha foi o primeiro no Brasil a ter seção fixa para eles.
No domingo, pela primeira vez que eu tenha memória, um jornal admitiu erro de opinião. Foi a Folha, neste episódio.
Isso demonstra como avançou a relação entre imprensa e sociedade neste país.
A propósito, leitores registram que a "Nota da Redação" em resposta a carta de Fábio Konder Comparato em 20 de fevereiro continha erro factual.
É verdade: ela dizia que Comparato não havia "até hoje" manifestado repúdio a ditaduras de esquerda como a de Cuba. Em 1º de junho de 2004, o "Painel do Leitor" publicou carta dele com críticas ao regime cubano.

Texto do ombudsman, Carlos Eduardo Lins da Silva, da Folha de São Paulo, de 15 de março de 2009.

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domingo, março 08, 2009

São tempos curiosos: A Folha de São Paulo e seus tiros no pé

A Folha de São Paulo, em seu editorial no dia 17, onde o jornal criticava a iniciativa do presidente Chávez, na Venezuela, para possibilidades de reeleições ilimitadas para cargos executivos, afirmando que isso seria um caminho para a ditadura, e, em contraponto, chamou de "ditabranda" a ditadura militar que vigorou no Brasil entre 1964 e 1985. Além dessa "bola fora", quando os professores Fabio Konder Comparatto e Maria Victória Benevides escreveram para reclamar do termo "ditabranda", o jornal disse que a indignação de ambos era cínica e mentirosa porque eles nunca teriam manifestado tal indignação contra Cuba, por exemplo. Segundo tiro no pé.

Houve reação através na Internet. Foi aberta uma petição on line , onde até este sábado já havia mais de 7.000 assinaturas. Blogues, fóruns e comunidades em redes sociais pela Rede, deram ampla repercussão ao assunto, condenando tanto o uso do termo "ditabranda", quanto a reação ofensiva às cartas dos professores Comparatto e Benevides. Por fim, neste sábado, dia 7, houve um ato popular diante da sede do jornal na cidade de São Paulo.

E afinal, neste domingo, a Folha acabou por noticiar a si mesma , quando noticiou a manifestação, e comentou que o uso do termo foi um erro : "O uso da expressão "ditabranda" em editorial de 17 de fevereiro passado foi um erro. O termo tem uma conotação leviana que não se presta à gravidade do assunto. Todas as ditaduras são igualmente abomináveis." Embora continue afirmando que a ditadura brasileira produziu menos vítimas diretas que suas congêneres no Cone Sul. Pode ter sido mesmo, mas isso não a faz menos ditadura.

Foi bom que a Folha visse que ela sozinha já não fala por toda a opinião pública.

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sábado, fevereiro 28, 2009

A Folha de São Paulo, a Ditadura e o Cinismo

A Folha de São Paulo, a Ditadura e o Cinismo

Pois no dia 17 passado, o jornal Folha de São Paulo publicou um editorial em que, para insinuar que o presidente Hugo Chávez é um ditador, chama o que houve no Brasil entre 1964 e 1985, de "ditabranda". Abaixo o trecho do editorial da Folha de São Paulo.

"Outra diferença em relação ao referendo de 2007 é que Chávez, agora vitorioso, não está disposto a reapresentar a consulta popular. Agiria desse modo apenas em caso de nova derrota. Tamanha margem de arbítrio para manipular as regras do jogo é típica de regimes autoritários compelidos a satisfazer o público doméstico, e o externo, com certo nível de competição eleitoral.
Mas, se as chamadas "ditabrandas" -caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições e os controles democráticos por dentro, paulatinamente."

Quem escreve os editoriais da Folha de São Paulo está devendo uma definição de "ditabranda". Talvez seja uma ditabranda aquela em que os governantes de plantão matam, digamos, menos de mil pessoas. Assim, como a regime de 1964-1985 executou cerca de 400 a 500 , é uma ditabranda. Os generais argentinos que mataram cerca de 30.000 pessoas criaram uma ditadura. O general Suharto, da Indonésia, que nos dias seguintes ao seu golpe que depôs Sukarno, na década de 1960, matou mais de 500.000, sem contar mortos e torturados até sua queda no final dos anos 1990 criou uma grande ditadura.

Não contente com isso, no dia 20, quando os professores Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato contestaram o disparate do editorial da Folha, provavelmente os mesmos editorialistas resolveram dizer que a indignação dos professores era mentirosa e cínica, acredito que pelo fato destes professores não condenarem o regime cubano. Mas me parece que não é necessário condenar Cuba e Fidel Castro para dizer que a ditadura do Brasil, foi, bem, uma ditadura.

Sim, porque ditabrandas não existem. 400 mortos pelo regime é muita gente! Milhares de pessoas perderam seus direitos políticos, centenas foram exilados, ou se exilaram porque não sentiam segurança que a sua integridade física estaria assegurada.

Aí, no painel do leitor da Folha, houve diversas manifestações de indignação, além da dos professores acima mencionados. Mas me chamou a atenção a dos "solidários" à direção da Folha.

Por exemplo, o senhor Edmar Damasceno Fonseca, de Belo Horizonte, com correspondência publicada no painel no dia 21, declarou:

"Em relação à "Nota da Redação" em resposta às cartas do senhor Comparato e da senhora Benevides, advirto a Folha de que, apesar de correta, a referida nota despertará a fúria da militância esquerdista. Logo a Redação receberá mais um exemplar da mais profícua produção intelectual da esquerda brasileira: os abaixo-assinados."

No mesmo sentido vai a correspondência do sr. Carlos Eduardo Cunha, também publicada dia 21, de São Paulo, quando afirma que, "Aqui não houve culto a personalidade, embora tenha havido violência e injustiças. Aqui não houve milhões de mortos nem fuga em massa para o exterior. Todos esses regimes se enquadram na definição de ditadura, mas as cores e a profundidade da falta de liberdade foram completamente diferentes."

Pessoalmente este blogueiro acredita que Cuba é sim, uma ditadura. Há restrições ao direito de ir e vir, não há liberdade de expressão, há prisão de opositores ao regime. Mas a questão não é sobre Cuba. É sobre Brasil. Veja que o leitor Edmar Fonseca afirma que a nota da redação declarando que a indignação dos professores era mentirosa e cínica é "correta".

E me chamou a atenção também a carta do capitão-de-mar-e-guerra reformado Paulo Marcos G. Lustoza, do Rio de Janeiro, publicada no painel do leitor do dia 20. O capitão Lustoza declara que:

"Com certeza o leitor Sérgio Pinheiro Lopes não entendeu o neologismo "ditabranda", pois se referia ao regime militar que não colocou ninguém no "paredón" nem sacrificou com pena de morte intelectuais, artistas e políticos, como fazem as verdadeiras ditaduras. Quando muito, foram exilados e prosperaram no estrangeiro, socorridos por companheiros de esquerda ou por seus próprios méritos. Tivemos uma ditadura à brasileira, com troca de presidentes, que não vergaram uniforme e colocaram terno e gravata, alçando o país a ser a oitava economia do mundo, onde a violência não existia na rua, ameaçando a todos, indistintamente, como hoje. Só sofreu quem cometeu crimes contra o regime e contra a pessoa humana, por provocação, roubo, sequestro e justiçamentos. O senhor Pinheiro deveria agradecer aos militares e civis que salvaram a nação da outra ditadura, que não seria a "ditabranda"."

Eu diria que está enganado o capitão Lustoza. Tivemos uma ditadura aqui. Os militares e civis golpista de 1964 quebraram a ordem constitucional, depuseram o presidente eleito democraticamente, cassaram colegas (isto é, outros militares que não compartilhavam as idéias dos golpistas), cassaram parlamentares e juízes, cancelaram eleições, e mataram sim, diversos opositores. Se não houve paredón, como ele afirma, houve as masmorras da operação OBAN, e dos CODI-DOI's , onde a tortura era prática de interrogatório. Na luta de constra-insurgência do Araguaia, as forças armadas executaram guerrilheiros que estavam presos e desarmados, além de enterrá-los em lugares incertos e não sabidos (muitos desses corpos até hoje não foram encontrados, impedindo familiares de promoverem os atos fúnebres cabíveis, e poderem chorar os seus entes queridos mortos). Vladimir Herzog provavelmente entra na conta de "provocador", contra o regime. Ele foi prestar depoimento à Polícia do Exército e no dia seguinte foi encontrado morto. Ou talvez o capitão acredite que Herzog se suicidou mesmo.

E por um pequeno detalhe, podemos lembrar que os generais argentinos, aqueles que mataram 30.000, que sequestraram crianças cujas mães eles assassinaram, também "trocaram presidentes, e colocaram terno e gravata", como ele diz.

Uma ditadura usará a força e a repressão contra opositores que ela tiver que usar para manter o controle social da nação. Para os militares brasileiros, o preço foi a morte de menos de 500 pessoas, para os uruguaios 3.000, para os argentinos 30.000 . Mas em qualquer caso, é uma ditadura. O resto é cinismo, como fez a Folha com seu neologismo bastardo, ou os defensores da "benignidade" do regime militar brasileiro pelas suas "relativamente poucas" mortes e prosperidade econômica.

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quinta-feira, janeiro 29, 2009

Chocar sem morbidez (as crianças mortas em Gaza)

Quando é preciso chocar sem morbidez

DESDE O CASO da morte de Isabella Nardoni, em abril, o ombudsman não recebia tantas mensagens sobre um mesmo assunto numa semana, como nesta, de Ano-Novo, sobre o conflito entre Israel e palestinos.
Como é natural, com grande carga de emoção em todas e clara divisão entre as que veem no jornal proteção para um ou outro lado.
Dois leitores se queixaram de fotos de crianças mortas. Zuleika Haddad perguntou: "Por que a Folha precisa estampar foto de uma menina de 4 anos em seu funeral?". Geraldo Pietragalla Filho argumentou que as fotos "em nada contribuem para a compreensão dessa guerra insana; são manifestações mórbidas".
A morbidez deve ser evitada a todo custo, e o jornal precisa tomar muito cuidado com isso. Não acho que tenha esbarrado nela por enquanto.
Imagens fotográficas chocantes podem servir a propósitos humanitários e ajudar a manter vivos na memória coletiva horrores inomináveis e, com isso, dificultar a ocorrência de similares.
Como as dos prisioneiros dos campos de concentração de Auschwitz e Dachau, das deformidades provocadas em crianças pela poluição na baía de Minamata, das torturas impostas a prisioneiros iraquianos por soldados dos EUA em Abu Ghraib, dos efeitos de bombas de napalm sobre civis sul-vietnamitas, como a garota Kim Phuc, na foto acima, feita por Nick Ut, em 1972.
Não é agradável ver essas cenas. Mas às vezes é indispensável.
Quanto à cobertura em palavras do que vem ocorrendo em Gaza, a Folha começou muito mal. No sábado, enquanto os primeiros ataques aéreos ocorriam e prenunciavam o que viria, o jornal circulava com a avaliação de que a expectativa era a de que as tensões arrefecessem depois de Israel ter permitido a chegada de medicamentos e alimentos a Gaza.
Foi o contrário que ocorreu. Nunca é bom para um jornal antecipar algo e ocorrer o oposto. Mas faz parte dos riscos desta atividade.
O importante é que a Folha entendeu logo a importância dos fatos e melhorou muito ao longo da semana no seu acompanhamento. Na segunda, já estava na fronteira de Israel com Gaza seu enviado especial, que tem oferecido ao leitor o que só um jornalista do próprio veículo consegue fazer: mostrar os acontecimentos da perspectiva de real interesse do público específico.
A preocupação com o equilíbrio tem sido ostensiva. Sempre saem artigos em defesa dos dois lados em espaço comparável, descrevem-se as condições de vida dos habitantes das duas áreas (apesar da proibição à entrada de jornalistas estrangeiros em Gaza), o texto de Adrian Hamilton, do "Independent", na sexta, sobre as causas do conflito, é exemplarmente isento.
Ainda falta muito a fazer, inclusive analisar com mais profundidade as posições do governo brasileiro e suas pretensões. Não será possível agradar a todos os leitores. Mas o caminho que o jornal vem seguindo é o certo.

Texto do Ombudsman da Folha de São Paulo, Carlos Eduardo Lins e Silva, em sua coluna de 4 de janeiro de 2009.

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E por falar em Mário Magalhães - Opiniões sobre os ouvidores da Folha

Nos anos em que conheço mais de perto a Folha de São Paulo, já vi uns poucos ouvidores, ou “ombudsman”, como eles são chamados. São mais ou menos uns dez anos acompanhando a Folha, desde que assinei com o UOL para prover acesso à Internet em casa.

Dois se destacaram. Mário Magalhães pela agudeza da crítica foi um destaque positivo. Casualmente ele foi um dos poucos que não teve o contrato como ouvidor estendido, pois a Folha queria mudar os termos da atuação do cargo entre um mandato e outro. Mário Magalhães não aceitou.

Sucedeu-o Carlos Eduardo Lins e Silva, que não chega a ser um mau ouvidor. Muitos talvez digam até que ele é muito bom. Este blogueiro acha sua coluna domingueira em geral bastante burocrática, alguma vez beirando o enfadonho. E acho muito interessante, talvez irônico, que o ouvidor atue como pedagogo do leitor, indicando livros e filmes relacionados aos assuntos abordados na coluna. Bom para estudantes de comunicação e jornalismo. Não é o meu caso.


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terça-feira, abril 08, 2008

A Despedida de Mário Magalhães como Ombudsman da Folha

Despedida


NO ANO QUE passou, quando as noites de domingo se insinuavam, e tantas famílias saíam para o último passeio do fim de semana, a minha sabia que ficaríamos em casa -ou pelo menos não iríamos todos. Era hora de eu começar a longa e solitária jornada madrugada adentro para terminar de esquadrinhar jornais e revistas.
De manhã, com as olheiras a denunciar o sono roubado, leria as edições do dia e escreveria a mais encorpada crítica semanal, a da segunda-feira. Hoje à noite, se alguém me chamar, terá companhia.
Esta é a 51ª e derradeira coluna dominical que escrevo como ombudsman da Folha. Assumi em 5 de abril de 2007, e o meu mandato se encerrou anteontem. Embora o estatuto autorize a renovação por mais dois períodos, não houve acordo com a direção do jornal para a continuidade.
A Folha condicionou minha permanência ao fim da circulação na internet das críticas diárias do ombudsman. A reivindicação me foi apresentada há meses. Não concordei. Diante do impasse, deixo o posto. Oitavo jornalista a ocupar a função, torno-me o segundo a não prosseguir por mais um ano. Todos foram convidados a ficar. Sou o primeiro a ter como exigência, para renovar, o retrocesso na transparência do seu trabalho.
A crítica da quinta foi a última que circulou na Folha Online, com acesso a não-assinantes da Folha e do UOL.
A partir de agora, os comentários produzidos pelo ombudsman durante a semana só poderão ser conhecidos por audiência restrita, de funcionários do jornal e da empresa, que os recebe por correio eletrônico. Os leitores perdem o direito. Era assim nos primórdios do cargo, criado em 1989. A internet engatinhava.
Como se constata no site www.folha.com.br/ombudsman, desde 2000 as críticas vão ao ar. Por oito anos, os leitores puderam monitorar a atividade cotidiana de quem tem a atribuição de representá-los.
Não poderão mais.

Regras
O comando da Folha esgrimiu um argumento para a decisão: no ambiente de concorrência exacerbada do mercado jornalístico, idéias e sugestões do ombudsman são implementadas por outros diários.
De fato, isso ocorre.
E continuará a ocorrer.
Quase 20 anos atrás, as críticas ainda denominadas internas eram distribuídas em papel à Redação.
Acabavam nas bancadas de outros jornais. Um deles veiculou publicidade alardeando elogio do ombudsman.
Com a difusão por e-mail, será ainda mais difícil conter a distribuição irregular das anotações do ouvidor. Eventuais interessados, se bem articulados, terão como lê-las. Que segredo sobrevive a centenas de destinatários?
Já os leitores ditos comuns, os que fazem a fortuna de toda empreitada jornalística de sucesso, serão barrados. A medida não resolve o problema a cuja solução se propõe, mas prejudica quem é alheio a ele.
A não-renovação do mandato é legítima, respeita a Constituição do jornal. Sua direção tem a prerrogativa de convidar ou não o ombudsman a permanecer. E de estabelecer as normas. Não há quebra de contrato, e sim respeito.
No meu caso, haveria mudança de regra no meio da gestão, composta de um a três mandatos. Regras, como a Folha recomenda, devem ser estabelecidas antes do jogo.

Autópsia
Não é praxe dos jornais impressos do mundo inteiro compartilhar na rede o que muitos deles chamam de memorando interno do ouvidor.
Assim como, na conferência da Organização dos Ombudsmans de Notícias, com participantes de 13 países, não encontrei quem digitasse todo santo dia, como fazemos aqui, uma crítica ou memorando.
A Folha deu um passo ousado na imprensa brasileira ao nomear um ombudsman. Radicalizou e tornou públicas as críticas antes limitadas à Redação. Mais do que as colunas dominicais, essa espécie de parecer se destina a uma autópsia das edições. Em minúcias, identifica suas fraquezas, sem desprezar as virtudes. Expõe as vísceras do jornal.
O desafio do ombudsman é ser a melhor síntese possível dos interesses dos leitores. A eles interessa que o jornal seja bom. Nas críticas, o ombudsman busca contribuir para que o jornal do dia seguinte seja melhor que o da véspera.
Essa confluência faz do ombudsman um benefício potencial ao leitor e ao jornal.
Mesmo com as críticas vetadas aos leitores, a Folha não perderá a primazia em transparência no jornalismo nacional. As colunas de domingo persistirão, e a publicação de um artigo como este expressa tolerância com o pensamento divergente. Quantos jornais o imprimiriam, se o objeto de análise fossem eles?

Regressão
A despeito desse cenário, a restrição imposta configura regressão na transparência. O projeto editorial da Folha diagnostica "um jornalismo cada vez mais crítico e mais criticado". Reconhece que "o leitor fiscaliza a pauta de compromissos" do jornal.
O ombudsman deve ser um instrumento dos leitores. Se 80% dos pronunciamentos semanais ficam inacessíveis (as críticas de segunda a quinta; não escrevo às sextas), reduz-se a fiscalização dos leitores sobre aquele cuja atribuição é batalhar em nome deles.
Essa peleja não implica, em um exemplo, advogar o alinhamento do jornal com partidários ou opositores das pesquisas com células-tronco embrionárias, mas incentivar o equilíbrio no noticiário e nos espaços de controvérsia.
O ombudsman incapaz de zelar pela manutenção da transparência do seu ofício carece de autoridade para combater pela transparência do jornal. Como cobrar o que se topou diminuir?
A tendência mundial é de expansão da transparência das organizações jornalísticas. A novidade da Folha aparece na contramão.

Agradecimentos
A crítica diária é valiosa como instrumento de diálogo entre os leitores e o ombudsman. O que ele pensa disso e daquilo? Por vezes, a resposta se encontra nos apontamentos do dia. Na semana passada, foi possível conferir se eu perguntei à Folha quem lhe forneceu o dossiê do momento. A resposta significaria romper o compromisso de sigilo com a fonte. Um ministro disse que eu perguntei. Não é verdade.
Se fosse responder aos leitores sem a chance de lhes remeter à crítica on-line, não sei se daria conta do atendimento. Em 1991, primeiro ano do qual sobreviveu estatística, houve 3.748 contatos com o ombudsman. Em 2007, o recorde de 13.374.
Em janeiro, fevereiro e março de 2008, registraram-se marcas inéditas. O salto de 24% na comparação com idêntico trimestre do ano anterior projeta resultado anual superior a 16.500, sem considerar o impacto de eventos como eleição e Olimpíada.
O vigor do Departamento de Ombudsman é manifestação da mudança de comportamento de cidadãos e consumidores de notícias: a fé nos relatos jornalísticos dá lugar ao ceticismo; troca-se a submissão a versões pela leitura crítica; a passividade, por cobrança. Essa é a principal característica do jornalismo do século 21. Merece ser saudada pela sociedade e pelos jornalistas.
Na chegada, eu pensava ter muito a dizer. Ao partir, sei que tenho muito a ouvir.
Gostaria de ter falado de outros assuntos, dos anúncios de prostituição aos interesses cruzados do jornal. Fica para outra vez.
Pelo ano em que fui feliz, agradeço à confiança que a direção da Folha depositou em mim. Tive liberdade para escrever o que quis. Uma executiva me disse que o jornal precisava de um "ombudsman crítico". Tentei desempenhar escrupulosamente a missão.
Sou muito grato à minha supersecretária, Rosângela Pimentel, e ao meu assistente, o futuro jornalista Carlos Murga. Na Secretaria de Redação, devo a Suzana Singer e Alba Bruna Campanerut.
Na editoria de Arte, a Fábio Marra e Julia Monteiro. Ao colocar a coluna no papel e me salvar de vexames maiores, Vanessa Alves coordenou um time talentoso e generoso.
Minha gratidão maior é para quem me deu lições inestimáveis -hoje à noite, em casa ou na rua, não esquecerei o brinde aos leitores da Folha.

Esta despedida está na Folha de São Paulo, de 6 de abril de 2008 (para assinantes).

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terça-feira, outubro 02, 2007

Elio Gaspari: E se Mares Guia fosse um sindicalista?

E se Mares Guia fosse um sindicalista?

O silêncio dos tucanos diante do seu mensalão mostra o oportunismo com que manipulam a moralidade alheia

SE O MINISTRO da Articulação Política do governo fosse um petista saído do movimento sindical, o céu já teria desabado sobre Brasília.
Imagine-se um companheiro metido numa reunião para definir a arrecadação da caixinha eleitoral de um candidato que acabou derrotado na eleição de 1998. Some-se um empréstimo pessoal feito por esse mesmo petista ao candidato, depois de sua derrota. Walfrido Mares Guia fez tudo isso, mas o tucanato trata o assunto com um silêncio retumbante, indicador do oportunismo com que manipula a moralidade alheia.
Mares Guia não é um sindicalista, mas próspero empresário; não está no ABC, mas na plutocracia mineira; não se meteu na campanha dos companheiros, mas na do então governador Eduardo Azeredo, que viria a ser presidente do PSDB. Sua praia é outra, a do tucanato que considera falta de educação tratar das maracutaias do andar de cima.
A principal gracinha propagada pelos defensores de Eduardo Azeredo é a teoria do "não sabia". Se ele não sabia que sua campanha era azeitada por recursos tungados à Viúva e entregues a Marcos Valério, qualquer tentativa de associá-lo à roubalheira é injusta. Afinal, Lula diz que não sabia das mesmas trambicagens, praticadas quatro anos depois pela direção do PT com o mesmo Marcos Valério. Nas palavras da assessoria do tucano: "As questões financeiras da campanha não foram de [sua] responsabilidade".
Seria um caso clássico de dois pesos e duas medidas. Todavia, o argumento é falso. Para que fosse verdadeiro, precisaria aparecer um empréstimo pessoal de R$ 511 mil, feito por Lula junto a um petista amigo que participou da coordenação de sua campanha. (Em 2003, Paulo Okamotto, atual presidente do Sebrae, pagou uma conta de R$ 29 mil de Lula, mas não esteve na banca petista de 2002.) Isso não permite sugerir que Lula não sabia dos malfeitos de Delúbio Soares, ou que não sabe de onde veio o dinheiro de Okamotto. Indica apenas que não se acharam as suas impressões digitais. No caso de Azeredo, elas estão lá, no empréstimo de Mares Guia.
Quando um petista é confrontado com as mutretas de seus companheiros, se enraivece e atribui a referência a algum tipo de conspiração elitista. Quando um tucano fica na mesma situação, ofende-se e corre para a blindagem do silêncio. Assim desconversou-se em 2000, quando apareceram as planilhas da segunda campanha de FFHH. Elas indicavam um caixa clandestino de pelo menos R$ 8 milhões. Uma parte desse dinheiro passara pela destilaria de Marcos Valério, cuja tecnologia financeira foi adquirida pelo PT na eleição seguinte.
Vice-governador de Eduardo Azeredo, ministro de Lula, Mares Guia é uma encruzilhada de gentilezas. Foi na sua vizinhança (e de Lula) que se disparou a demissão do engenheiro Dimas Toledo de uma diretoria de Furnas. Essa foi a faísca que incendiou os sentimentos do deputado Roberto Jefferson e a crise do mensalão.
O PT já buscou a indulgência de seus crentes com a teoria do "fizemos-o-que-todo-mundo-faz". A novidade no desdobramento das investigações do mensalão tucano está na paralisia mental do PSDB.
O comando tucano diz que vai discutir a situação de Azeredo. Vai nada. Se falasse sério, teria feito isso há dois anos. Correm atrás do prejuízo que poderá advir de uma denúncia do procurador-geral da República contra o ex-governador.

Da Folha de São Paulo (para assinantes).

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terça-feira, julho 31, 2007

Jânio de Freitas: Cansei de 'Basta!'

JÂNIO DE FREITAS

Cansei de "basta!"

O que mais deseja a riqueza do país, além das condições inigualáveis que o governo Lula lhe proporcionou?

O ODOR EXALADO pelo movimento "Cansei", ainda que nem todos os seus fundadores tenham propósitos precisamente iguais, é típico do golpismo que sempre foi a vocação política mais à vista na riqueza, não importa se cansada ou não. A fonte de onde surge não lhe nega a natureza pressentida: um escritório de negócios em São Paulo, tal como se identificaria nos primórdios de todos os golpes e tentativas de golpe desde 1944/1945, pelo menos.
Também denominada "Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros" -batismo que os padrinhos relegaram, por considerarem o apelido "Cansei" mais representativo dos seus propósitos- o que a iniciativa sugere, de fato, é uma interrogação.
O que mais deseja a riqueza brasileira, além das condições inigualáveis que o governo Lula lhe proporcionou? O fim da inflação, o emudecimento do sindicalismo e das reivindicações sociais; concessões transgênicas para todos os tipos de grandes empresas e negócios, Bolsa farta e imposto baixinho ou a zero; e, sobretudo, a transferência gratuita de um oceano de dinheiro dos cofres públicos para os da riqueza privada, por intermédio dos juros recordistas concedidos pelo próprio governo aos títulos de sua emissão. Ainda não basta?
O que deseja a riqueza não pode ser a correção das deformidades socioeconômicas, institucionais e políticas que refreiam o Brasil, enquanto países do seu aparente status desenvolvem-se a níveis exuberantes. É da não-correção que vem grande parte das facilidades pelas quais a riqueza se multiplica sem cessar: a fraqueza ética do Congresso, a corrupção administrativa que só tem o corrupto e não o corruptor, as eleições movidas a marketing endinheirado, e por aí.
Além disso, nunca se viu a riqueza movendo-se, de fato, por correções e reformas a serviço do interesse do país. Os seus lobbies e outros meios só se movem, historicamente, por alterações que privilegiem os interesses da própria riqueza privada. Assim é a história parlamentar e administrativa do Brasil, para dizer o mínimo, do último meio século.
O governo Lula deu e dá à riqueza privada a situação que a ela deu o "milagre econômico" da ditadura, porém, agora sem os inconvenientes produzidos pela força. A quem vive no Brasil em nível de primeiríssimo mundo, conviria, portanto, demonstrar um pouco mais de compostura. Se não para aparentar recato que lhe falte, por um grão a mais de esperteza.
"Cansei" -e daí? Vai fazer ou, pelo menos, propõe o quê, de objetivo, prático e necessário? Disse um dos "cansados": "Queremos despertar em cada indivíduo o que ele pode fazer para mudar o país". Pois façam isso no seu próprio movimento. Sem que, para tanto, o seu alegado cansaço exale sentidos que, intencionais ou não, negados ou não, vão até onde não devem.



Da Folha de São Paulo: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc3107200705.htm

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sexta-feira, maio 25, 2007

Diário Oficial do PSDB

Para conferir porque o jornal Folha de São Paulo é o diário oficial dos tucanos, confira o sítio do Luiz Carlos Azenha.

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