terça-feira, agosto 31, 2010

Última edição impressa do "JB" circula hoje

A última edição impressa do "Jornal do Brasil", um dos mais antigos diários do país, circula hoje. A partir de amanhã, o jornal terá apenas uma versão on-line.

Criado em abril de 1891 pelo escritor Rodolfo Dantas, o "JB" ajudou a definir os rumos da imprensa brasileira.

Por sua Redação passaram jornalistas como Janio de Freitas, Marcos Sá Corrêa e Zózimo Barroso do Amaral, além de escritores que assinavam colunas regulares, a exemplo de Manuel Bandeira, Clarice Lispector e Carlos Drummond de Andrade.

O jornal vivia há décadas em crise financeira, com dívidas trabalhistas crescentes e queda na circulação.

Atualmente, na gestão do empresário Nelson Tanure, que arrendou o uso da marca por 60 anos, tinha dificuldade para manter seu custo operacional (cerca de R$ 3 milhões por mês) diante da queda na circulação e de um passivo estimado em R$ 100 milhões em dívidas.

Tanure já tinha feito outras incursões pela mídia. Em 2002, comprou os direitos de publicação da revista "Forbes", no Brasil, que um ano depois rompeu o contrato.

Em 2003, arrendou o jornal econômico "Gazeta Mercantil", que também tinha grande passivo e deixou de funcionar no ano passado.

Em 2008, o "Jornal do Brasil" tinha uma tiragem média de 95 mil exemplares diários. Este ano, caiu para 20 mil.

Tanure não quis comentar o fim da circulação.

Para a versão digital, o jornal pretende manter uma equipe de 150 jornalistas e profissionais da área comercial e administrativa.

Em comunicado a seus leitores, o jornal diz que se tornará o primeiro veículo 100% digital do país. A versão on-line para assinantes custará R$ 9,90 mensais.

Hoje, ao meio-dia, no centro da cidade, o Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro fará um ato contra o fim da versão impressa, com a participação de ex-funcionários do "JB".

HISTÓRIA

O jornal nasceu como um veículo monarquista em pleno regime republicano. Chegou a ser empastelado no primeiro ano por sua cobertura favorável a D. Pedro 2º. Nessa época, tinha em seus quadros nomes como Joaquim Nabuco e Rui Barbosa.

Em 1959, realizou uma revolucionária reforma gráfica e editorial. Além da diagramação mais limpa e moderna, passou a trazer um noticiário claro e objetivo.


Texto do BOL Notícias.

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terça-feira, setembro 01, 2009

Novo Jornalismo

NOVO JORNALISMO

Zarpou da Califórnia com destino a uma zona de calmaria ao norte do Havaí um navio com a equipe do projeto Kaisei. Eles vão em busca do "Lençol de Lixo do Pacífico" uma área do tamanho do Estado do Amazonas, transformada em depósito de sujeira flutuante pelas correntes marítimas.
Na equipe viaja a repórter Lindsey Hoshaw, uma moça formada por Stanford que organizou um projeto de cobertura, colocou-o no sítio Spot.Us e pediu ajuda. Conseguiu US$ 6.000. O "New York Times" entrou no lance, oferecendo cerca de US$ 700 caso decida comprar fotografias. Se publicar um texto, pagará mais. Também aderiram os fundadores do eBay e da CraigList, um megaportal de anúncios classificados.
O Spot.Us expõe projetos de reportagens relacionados com a área e os interesses de San Francisco. Aceita doações individuais que raramente chegam a cem dólares e devolve o dinheiro se o serviço não é entregue. Salvo no caso de empresas jornalísticas, não recebe cheques com valor superior a 20% do valor do projeto.

O texto é parte da coluna de Elio Gaspari na Folha de São Paulo, de 9 de agosto de 2009.

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sábado, maio 16, 2009

Web "mata" correspondente estrangeiro

Web "mata" correspondente estrangeiro

Distraído pela internet, repórter pode deixar de testemunhar

ANAND GIRIDHARDAS

VERLA, Índia - É uma mudança importante no mundo: os correspondentes estrangeiros não cobrem mais um lugar para benefício exclusivo de seus leitores alhures. Na era da internet, cobrimos cada lugar em benefício de todos os lugares, e os "reportados" estão entre os mais ávidos consumidores daquilo que reportamos.
Segundo dados do serviço Google Trends, as frases "new york times india" e "washington post india" são pesquisadas oito vezes mais na Índia do que nos EUA, proporcionalmente ao total de buscas em cada país. Analogamente, "new york times china" é uma frase mais intensamente pesquisada em Pequim do que em Nova York.
A dinâmica se aplica a países de Brasil a Rússia. E o livro "O Mundo É Plano", em que Thomas Friedman cita a transformação de Bangalore para explicar o mundo do século 21, é procurado com mais regularidade na Índia do que nos EUA. A internet permite, em quase todos os lugares, ver como o mundo exterior nos vê, em tempo real.
Liguei para Roger Cohen, veterano correspondente, hoje colunista do "New York Times", para saber a respeito de um mundo em extinção.
Cohen começou na agência Reuters em 1979, época em que os correspondentes vagavam durante dias; os editores não sabiam onde eles estavam, e não havia como localizá-los.
Seu trabalho lentamente se filtrava nas discussões de Washington ou Paris, e ajudava a informar o debate; na época, naturalmente, isso poderia voltar aos países cobertos. Alguns jornais, inclusive o "New York Times", vendiam pequenas tiragens de edições internacionais em dezenas de cidades estrangeiras. Emigrantes recortavam artigos para parentes no antigo país. Governos monitoravam a cobertura da imprensa estrangeira.
Mas as vastas populações sobre as quais os correspondentes estrangeiros escreviam em geral permaneciam alheias ao que estava sendo dito delas. E, mesmo que soubessem, não era fácil responder, exceto por cartas às sedes dos jornais, as quais, pelo que contam os correspondentes, quase nunca chegavam às sucursais.
Comecei 26 anos depois de Cohen, e a minha geração de correspondentes nunca sentirá falta de retorno. A edição on-line do jornal está disponível em quase todos os lugares. Pessoas em países distantes nos leem como qualquer outro jornal. Outros chegam até os nossos sites por meio de mecanismos de busca.
Então os "reportados" sabem o que estamos dizendo. Comentam nosso trabalho em seu blog ou no Facebook; acham nosso e-mail com alguns toques no teclado; apontam erros pelo site. Pela minha experiência como correspondente na Índia, a maior parte dessa atividade vem de dentro do país. A cobertura está disponível universalmente, mas é acompanhada com mais paixão pelos que estão sendo cobertos.
Os leitores "daqui" são melhores vigilantes do que os leitores "de lá". Eles notam erros que um editor ocidental não notaria. E também freiam o impulso de fazermos relatos "exóticos". Certas lentes para ver um país vendem bem no exterior: a pobreza da Índia; a repressão na China. Mas um batalhão de blogueiros está ansioso por apontar o que for óbvio e banal, e nos mantêm em alerta.
Peter Foster, correspondente em Pequim do "Telegraph", de Londres, escreveu num e-mail que o seu blog "abriu uma inestimável discussão/diálogo com os leitores", mas que ele também nota altos níveis de nacionalismo e "sarcasmo" nessas respostas.
Luke Harding, chefe da sucursal de Moscou do jornal britânico "The Guardian", sugeriu que o sarcasmo provocado pela sua cobertura da guerra do ano passado na Geórgia parecia organizado. "Suspeito -mas não posso provar- que haja atualmente um novo quadro de blogueiros profissionais trabalhando anonimamente para o Kremlin, e presumivelmente para outros governos", escreveu ele num e-mail.
Além do mais, há uma tradição de as fontes dizerem a correspondentes estrangeiros aquilo que não diriam a um jornalista ou funcionário local. Frequentemente é assim que um registro histórico sobre guerras e genocídios é montado: por pessoas sussurrando no ouvido de alguém que irá logo embora. Os sussurros podem minguar na era da web.
Na década de 1990, Cohen narrou, pessoalmente, os horrores que acompanhavam a dissolução da Iugoslávia. Hoje, correspondentes que fazem tal trabalho podem ver seu tempo interrompido pela profusão de opiniões e imagens on-line, e do uso do Twitter no local, que se multiplica e exige atenção. Mas ficar a par do bochicho da internet não é a mesma coisa que ouvir um testemunho. "Em vez de olhar para uma aldeia ou morro bósnio, ou de estar numa sala com um grupo de sobreviventes de campo de concentração, você teria estado simplesmente olhando para uma tela", disse Cohen. "Não lamento nem um pouco que isso não existisse na época", acrescentou.

Texto do The New York Times, republicado na Folha de São Paulo, de 11 de maio de 2009.


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segunda-feira, abril 27, 2009

O avanço do jornalismo clickstream

O avanço do jornalismo clickstream

Andrew Currah

"A redação estava elétrica", me disse um editor após a descoberta de Shannon Matthews, 9 anos, que esteve desaparecida por 24 dias em fevereiro de 2008. "Minutos após a publicação da história, nós assistimos os cliques subirem como um jorro de petróleo. Em apenas uma hora, nós recebemos 60 mil acessos!"

À medida que jornais e empresas de radiodifusão avançam online, elas estão encontrando novas formas de julgar o que torna grande uma história. Usando as mais recentes tecnologias de "análise da Internet", os editores agora podem monitorar os rastros do "clickstream" - (fluxo de cliques) uma medição do que seus usuários optam por ler, assistir e compartilhar. As redações agora contam com telas planas gigantes suspensas do teto e pequenos aparelhos de mesa que inundam seus funcionários com um fluxo impiedoso de estatísticas da internet. Nunca antes o jornalismo de mercado foi tão visível.

Este admirável mundo novo tem aspectos positivos. As empresas de mídia podem oferecer precisamente propagandas "comportamentais" dirigidas, permitindo aos seus clientes visarem mensagens a grupos bem definidos de usuários. Alguns estão até mesmo utilizando ferramentas de neurociência para medir as fundações subconscientes do clickstream - explorando dados biométricos (atividade das ondas cerebrais, monitoramento dos olhos e resposta da pele) para avaliar a eficácia dos formatos das propagandas online. Em um momento de redução dos orçamentos publicitários, essas inovações podem salvar a pele do setor de mídia.

A nova tecnologia também ajuda as organizações de notícias a aprender como seus clientes gostam de receber suas notícias. A feroz concorrência online está promovendo melhores sites (por meio de vídeos, mapas interativos ou novos mundos virtuais), criando novas formas de interação com o público (por meio de blogs e murais de mensagens) e novos estilos de texto (organizados em torno de hiperlinks e "metadados semânticos"). Também as está forçando a compartilhar e colaborar: no início de março, o "The Guardian" anunciou que estava dando livre acesso para terceiros a toda sua infraestrutura digital. Mais importante, o clickstream fornece aos editores o retorno que os ajuda a reembalar notícias importantes, porém menos populares - como histórias do Afeganistão - para o maior público possível. Isso poderia tornar conteúdo de utilidade pública mais acessível - e todas as notícias mais envolventes e relevantes.

Mas há um lado sombrio óbvio. Em sua sede por retorno, os sites de notícias agora apresentam rankings provocantes, classificando as histórias por "mais clicadas" ou "mais enviadas por e-mail". Com algumas exceções, os rankings são dominados por aquelas que envolvem os aspectos mais bizarros, mais idiossincráticos da existência humana, às custas de assuntos sérios porém abstratos, como o desenvolvimento internacional ou o meio ambiente.

A ironia disso não passou desapercebida pela revista satírica "The Onion", que publicou uma história (piada) em 2007 alegando que a lista das "mais encaminhadas por e-mail" estava "fazendo em pedaços a redação do 'New York Times'". Sob pressão para "produzir artigos com estas qualidades mágicas de 'clicar e enviar'", alegava o artigo, os repórteres ganhadores do Prêmio Pulitzer tinham "pedido transferência para a estação de Viagem e Casa & Jardim", onde o perfil digital deles provavelmente cresceria mais.

Mas esses assuntos, na verdade, são muito sérios. Enquanto os números de circulação dos jornais caem acentuadamente, especialmente nos mercados locais e regionais, é lógico que os publishers se aconcheguem sob o guarda-chuva das histórias populares. Ao refletir os interesses do público, eles podem atrair milhões de olhares e mais anunciantes. Este processo, por sua vez, estreita artificialmente o noticiário em torno de um punhado de histórias "principais" - como Shannon Matthews ou a situação difícil de Jade Goody. Também é mais fácil (e mais barato) rechear seu conteúdo com material pronto das agências de notícias ou de boletins de imprensa. Histórias que precisam ser encontradas, desenvolvidas e verificadas por uma rede internacional permanente de jornalistas são caras em comparação. E o clickstream também pode enviar um forte sinal de fadiga. Isto foi especialmente verdadeiro durante a guerra em Gaza. Enquanto a guerra se arrastava, o tráfego na internet por histórias de Gaza caiu acentuadamente. O conhecimento de que este assunto aparentemente importante afastava os leitores colocou pressão sobre os editores para reduzirem a cobertura do conflito tanto em seus jornais quanto online.

Hoje, apenas um punhado de publishers parece imune a estas tentações -principalmente aqueles cujos custos são subsidiados, como "The Guardian" (via o Scott Trust) e a "BBC" (via a taxa de licença britânica), ou cujo modelo de negócios se apóia no fornecimento de uma análise especializada, como o "Financial Times". A maioria, por outro lado, está exposta a uma mudança sem precedente na demanda por notícias.

Os riscos de seguir cegamente o público estão claros aqui. Como Paul Starr argumentou recentemente no "New Republic", os jornalistas há muito são "nossos olhos no Estado, nossa proteção contra os abusos privados, nossos sistemas de alarme cívico". As novas tecnologias oferecem ótimas oportunidades mas, se mal usadas, podem colocar em risco o futuro da sociedade civil.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Texto da Prospect Magazine, no UOL.

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segunda-feira, dezembro 01, 2008

Sobre sindicatos, diplomas e ouvidorias

Sobre sindicatos, diplomas e ouvidorias

Dioclécio Luz

A discussão sobre a exigência do diploma para exercer a profissão de jornalista merece um outro ponto de vista, não longe dessa arenga, claro. Quero refletir sobre as mudanças da modernidade (ou pós-isso) e o papel dos sindicatos e da sua federação.

Um dos elementos-chaves das mudanças é o fato da era Gutenberg estar se extinguindo ou, pelo menos, deixando de ser o foco da comunicação. Traduzindo: as notícias já não precisam de tinta e papel para circular. Desconfio (porque não tenho a numerologia) que a maior parte dos fatos ou acontecimentos (como diria Mouillaud) já está na internet; a notícia já não precisa virar jornal ou revista para ser notícia. E tem mais - atenção, irmãos de fé! - boa parte do que circula como informação não é produzido por jornalistas.

Enfim, estamos apenas no começo de algo que se avizinha maior que o tsunami. Todo mundo vai virar fonte, todo mundo vai produzir notícia, todo mundo é notícia. A única saída é fechar a internet e proibir as pessoas de falarem, fotografarem e escreverem. Ou então, estabelecer: só pode fazer notícia, escrever notícia, distribuir notícia quem fizer um curso superior de Jornalismo. Não vai ser fácil estabelecer esta censura. Com a ágora cibernética mundial, misto de clube de amigos e espaço de xingamento planetário, lugar onde se pode saber o que ocorre na Eslovênia ou na Manchúria antes dos jornais, todo mundo vai querer escrever, mostrar sua foto, fazer "reportagens", fazer-se de jornalista, pelo menos.

Enunciadores se transformam em um só

A internet está pondo em xeque a imprensa. Como dizer o que já foi dito? Como mostrar o que já foi mostrado? E, do ponto de vista ideológico, como manter o pensamento único se todo mundo agora tem acesso a outras fontes, isto é, o "pensamento único" se tornou apenas o pensamento um? Hoje é corrente que qualquer pessoa tem acesso a várias versões do mesmo fato; são versões que se contrapõem ou se somam aquilo que foi dito em tom maior.

E não é de agora. Quando os Estados Unidos resolveram invadir o Iraque, a grande imprensa mundial (e os clones nacionais) reproduziu os releases do Departamento de Estado norte-americano garantindo que Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa. Mas quem tinha um computador e acesso à internet sabia que era mentira, tratava-se de um saque, um roubo. Quando os grandes veículos e seus pequeninos repórteres instalados em Nova York ou Bagdá disseram que não havia armas de destruição em massa, o sujeito lá em Quixeramobim, Ceará, no seu barraco, onde pega mui rudimentarmente a internet, falou baixinho: "Ôxe, mas eu já sabia disso..." Ele e boa parte do mundo.

Este é apenas um exemplo de como a grande imprensa (e nossos valores guerreiros da notícia) deveria pensar duas vezes antes de espalhar uma mentira, ou pelo menos uma meia verdade (o que dá no mesmo). O que não está acontecendo.

Vamos considerar, como Nelson Traquina, que a "teoria conspiratória" de Noam Chomsky seja uma espécie de teoria hipodérmica ideológica sobre os profissionais. Isto é, a tese de Chomsky de que os jornalistas obedecem aos patrões que, por sua vez, impõem interesses ideológicos e de Estado, estaria furada. Acontece, porém, que há algo na notícia e em quem traz a notícia - o jornalista - que nos sugere Chomsky. Quando os enunciadores se transformam em um só - pelo querer ou não do patrão - é porque tem algo muito troncho na categoria dos jornalistas. E isto é assunto para os sindicatos. Qual a posição do sindicato, ou da Fenaj, quando o jornalista mente, engana a sociedade? Parece que nenhuma.

Objeto de uso restrito

Com a multiplicação das fontes, é sabido que a grande imprensa (burguesa, capitalista, cada vez mais um partido político, como quiserem tratar) continua cometendo seus grandes crimes; fazendo suas grandes bobagens; distribuindo seus grandes xingamentos... E a sociedade não tem muitas opções para reagir. Conta-se nos dedos da mão esquerda os poucos espaços de análise e crítica da mídia. Aqui tem o Observatório da Imprensa, e acolá o recifense Fopecom, mais adiante alguns sítios acadêmicos, mais uma ou outra ONG... e pronto. Acabou. Por que os sindicatos não entram nessa? Corporativismo?

Os sindicatos têm grandes desafios neste momento. Desafios do lado de fora e do lado de dentro.

O que farão os sindicatos dos jornalistas e a Fenaj diante do fato de que pedreiros e marceneiros, motoristas de caminhão, garis, estão fazendo rádiojornalismo em rádios comunitárias? Vão denunciar à Polícia Federal? À KGB? À CIA? Ou apenas ao Ministério do Trabalho? Em todas as boas rádios comunitárias há essa realidade: o rádiojornalismo, ou seja lá o que for, acontece. Isto é crime? Se for, a quadrilha hoje deve superar 50 mil meliantes. Dentro de um ano esse número vai dobrar. E vai sempre aumentar. Haja presídios para botar tanta gente.

Ironias a parte, se a Fenaj e os sindicatos defendem tanto a liberdade de expressão e a democracia na comunicação, não podem limitar o direito a liberdade de expressão ou o fazimento da democracia (como diria Darcy Ribeiro) a uns poucos, aos da entidade, aos da corporação, aos ricos e belos que conseguiram obter um diploma. Isto é, a democracia ou a comunicação não podem ser objeto de uso restrito daqueles que dominam determinado campo (Bourdieu).

Governador sem crítica alguma

O jornalismo comunitário está crescendo apesar das botinadas estatais, da legislação, do governo Lula. E ele não descarta o jornalista formado. É isso que os sindicatos (incluindo alguns de radialistas que desprezam quem faz rádio comunitária e defendem o patrão) dos jornalistas não perceberam. O jornalismo no Brasil dará um grande salto quando jornalistas formados se unirem aos jornalistas (ou repórteres) não formados para fazer comunicação.

Esta é a primeira sugestão.

A segunda é: os sindicatos e a Fenaj não podem ficar omissos diante das barbaridades cometidas contra a sociedade pela grande imprensa. Minha proposta é de que cada sindicato de jornalistas tenha uma ouvidoria para avaliar a atuação dos jornalistas. E que essa ouvidoria aja de forma honesta e objetiva em defesa dos interesses maiores, com ampla divulgação dos erros e acertos da categoria. Devemos ser corporativos com os interesses maiores da sociedade, e não dos coleguinhas que abusam do seu poder e do crachá de jornalista para defender patrão, seu dinheiro, sua armações e até sua má-fé - coisas, aliás, que acontecem em todas as categorias.

Se já tivéssemos ouvidorias funcionando no Brasil, certamente alguns jornalistas de projeção nacional não estariam cometendo as baixarias que cometem hoje. E melhor ainda seria seu efeito nas localidades.

Por exemplo, 99% dos jornais (e jornalistas) do Distrito Federal não conseguem publicar uma linha de crítica ao atual governador José Roberto Arruda. Não se trata do autor deste artigo ser contra ou a favor de Arruda, mas de defender o jornalismo. Porque não é preciso ser crítico de jornalismo para perceber que Arruda ainda não chegou à perfeição divina e, portanto, deve cometer seus erros. O que aparece nos jornais de Brasília, porém, é coisa de outro mundo: é Arruda inaugurando obras, Arruda obtendo recursos, Arruda defendendo a cidade.

Isto é jornalismo? Qual a opinião da sociedade sobre esse jornalismo? Talvez o jornalista esteja sendo pressionado. Talvez seja uma opção sua. Mas caberia ao sindicato denunciar a verdade.

Arrogância é ardil dos medrosos

No interior do país, as coisas são mais dantescas. Lá, o poder local (executivo, judiciário, legislativo) muitas vezes não aceita uma imprensa crítica; pelo contrário, é comum o executivo financiar uma imprensa servil. O que o sindicato diz disso? Nada? Pois a sociedade precisa exatamente é de uma instituição que receba as suas críticas ao mau jornalismo, às falcatruas, às aberrações da profissão.

Com as ouvidorias nos sindicatos, a sociedade poderia questionar o papel do jornalismo e do jornalista, tornando-se um apoio para o cidadão e para a cidadã, hoje desprotegidos, à mercê do poder local que domina a imprensa.

Por princípio um ente autônomo, o sindicato dos jornalistas tem todas as condições de exercer esta função. Na verdade, em alguns sindicatos existe um "comitê de ética" ou de "liberdade de expressão". Mas é um apêndice limitado do sindicato, ele não supre a carência da sociedade de aliados na luta contra o jornalismo de má qualidade, que não é questão de ter ou não diploma.

A criação de ouvidorias nos sindicatos dos jornalistas romperia as barreiras estabelecidas entre os pretensos arautos da verdade e da decência, colocaria no seu devido lugar o jornalismo ruim, faria com que nós, jornalistas, nos aproximássemos mais do nosso público (Wolton revela que poucos jornalistas estão interessados em saber como é seu público), aprendendo sobre realidade, gente, povo, sociedade, pessoas, seres humanos, cidadania... Essas coisas que uma boa parte da categoria despreza. Com as ouvidorias em funcionamento, estaríamos abrindo um debate com a sociedade sobre o jornalismo e os jornalistas. Ah, sim, poucos têm coragem de fazer isso. Entendo: a arrogância é o ardil maior dos medrosos.

Texto do Observatório da Imprensa.

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quarta-feira, outubro 01, 2008

Ótima idéia de Haddad

O ministro da Educação, Fernando Haddad, teve uma excelente idéia: liberar o exercício da profissão de jornalismo para todos que possuam diploma de ensino superior em qualquer área. Este blog defende que todo brasileiro alfabetizado possa excercer a profissão, mas isto os dinossauros da Fenaj não aceitam de maneira alguma. Assim, a idéia de Haddad pode ser um avanço, embora também vá provocar arrepios nos defensores do canudo exclusivo (que poderia ter outros usos, aliás bem mais apropriados, a julgar pelo que escrevem tantos diplomados). E antes que alguém pergunte, o autor destas Entrelinhas está na profissão desde 1994 e graças ao bom Deus não tem deproma de jornalista. É formado em História pela Universidade de São Paulo e fez 3 anos de Administração Pública na Fundação Getúlio Vargas, curso que abandonou para trabalhar na redação da Folha de S. Paulo, onde aprendeu o que precisava para seguir na carreira como jornalista.

Texto do Blog Entrelinhas.

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quinta-feira, abril 24, 2008

Do Blog do Gilmar da Rosa: Roendo as Unhas

Roendo as unhas


O jornalista Luis Eduardo Amaral que assina a coluna Roendo as unhas no Correio do Pampa, semanário local além de outros seis jornais na região aborda nesta semana as “verdades” que circulam em nosso meio e o comportamento de alguns “colegas” seus, de diplomas, exclusões e festas ocorridas por estas bandas. O Amaral é um fazendeiro de direita, mas não é tartufo. Tem posição e as defende abertamente. Publico um tópico de sua coluna desta semana em que fui citado pelo jornalista. Diz ele:

Mais Verdades III

Enquanto repórteres, colunistas e radialistas fogem da verdade para não perderem o emprego, ou atrapalhar a captação de anúncios, a conquista de cargos públicos ou a eleição de algum amigo, a verdade em Livramento tem nome, sobrenome e nenhum diploma de doutor ou jornalismo. É Gilmar da Rosa, uma revelação entre os blogs de nossa região. Um homem sem papas na língua e um sujeito de muita coragem. E todos sabem que a minha ideologia é completamente contrária a dele. Ele é um socialista, diria extrema esquerda. E acredito que esquerda e a direita são classificações para placas de trânsito e para atletas de futebol. No entanto ele fala da política santanense sem medo de sofrer represálias...E sofre. Fala da imprensa (inclusive critica esta minha coluna vez em quando) sem medo de ser criticado ...e é criticado. Certo é que este jornal, Gilmar e eu não seremos tão cedo homenageados por órgãos públicos comandados por políticos de caráter duvidoso ou por prêmios comprados, mas somos diariamente homenageados por nossos leitores e por nossas consciências.

Fiz questão de publicar este tópico do jornalista Luis Eduardo Amaral para demonstrar que valores éticos e morais não têm ideologia. Dignidade, hombridade, retidão e decência são qualidades inerentes aos homens e mulheres de bem e honrados. O Amaral mesmo sendo direitoso, sempre foi um bom companheiro para as “rodas etílicas de discussões”. Aliás, a próxima é por conta dele. Clique no link vermelho acima ou acesse www.roendoasunhas.com.br.



Texto do Blog do Gilmar da Rosa.


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quarta-feira, outubro 24, 2007

Entreveros

Jornalista não briga, polemiza.

A polêmica mais recente do jornalismo pátrio envolveu Alberto Dines, do Observatório da Imprensa, e Reinaldo Azevedo, da Veja. Ao comentar um artigo do apresentador Luciano Huck – que descobriu estarrecido que no Brasil existem assaltantes que andam armados, podem matar e apreciam relógios da marca Rolex –, Dines chamou Azevedo, que também escreveu sobre o assunto, de “cão de guarda”. Putz! A resposta foi desproporcional – uma catadupa de ofensas. O furibundo articulista de Veja chamou Dines de “canalha de cabelos brancos, cadela velha do oficialismo, cadáver adiado, moleque, velhaco”, para concluir com uma frase lapidar: “O seu traseiro é gordo, polpudo e merece ter estampada a sola do sapato”.

***

É impressionante a agressividade que domina o jornalismo brasileiro de opinião, seja em colunas de jornais, revistas ou blogues. A raiva e a irracionalidade imperam. O cenário está dividido entre os contrários e os favoráveis ao governo – mais aqueles do que estes. Direita e esquerda. Brancos e negros. Ricos e pobres. Estabelecida esta premissa, vale tudo para fazer valer a sua posição, com destaque para as meias verdades (e também mentiras inteiras) e as ofensas pessoais. Muitos adjetivos e poucos substantivos. Mais grave é que os (de)formadores de opinião estão tentando espraiar este clima de briga de marginais de rua para os demais segmentos da sociedade. E estão conseguindo. A seguir assim, esta bomba de ódio tem hora certa para explodir: a próxima eleição presidencial.

Estão chocando o ovo da serpente, agindo da mesma forma que alguns dirigentes de futebol irresponsáveis, que através de declarações insuflam os piores sentimentos dos torcedores e depois se mostram aturdidos e surpresos com a irrupção da violência nos campos de futebol.

***

Não concordo com a maioria das coisas que Dines escreveu nos últimos tempos, mas ele tem o meu respeito, por tudo o que já fez para dignificar o jornalismo e a favor da democracia em nosso país. Neste caso específico, tem também a minha solidariedade. Sensatamente, não respondeu a Azevedo no mesmo diapasão. Afinal, quem gosta da sordidez do esgoto são os ratos e as baratas.

Via Toca do Jens.


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sábado, maio 26, 2007

Tabus, Censura, Auto-Censura, ...

Deu no blog Periferia do Império -> Deu no The New York Times: primeira capa com foto de soldados norte-americanos feridos no Iraque. Como diz o Periferia do Império, parece surrealismo, mas é a realidade, só em 23 de maio passado, após três do primeiro ataque, três anos de ocupação, mais de 3.000 soldados americanos mortos, mais de 64.000 iraquianos mortos entre civis e militares, segundo o saite Iraq Body Count, um dos grandes jornais norte-americanos coloca em sua capa uma foto de um resultado de um ataque de resistentes iraquianos.
O que será que a Sociedade Interamericana de Imprensa, a SIP, que sempre está tão preocupada com a liberdade de imprensa na Venezuela, por exemplo, diria sobre isso?


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Rádio Pirata

Vez por outra, a Rede Globo, através de sua emissora de TV, nos seus jornais nacionais, isto é, o jornal Hoje, o próprio Jornal Nacional, e o Jornal da Globo denuncia "rádios piratas", que, além de ocuparem indevidamente o espectro de ondas de rádio regulamentado pelo Ministério das Comunicações e pela Agência Nacional de Telecomunicações, podem interferir no controle de vôos realizado pelos aeroportos Brasil afora. A Rede Brasil Sul de Telecomunicações - RBS, afiliada da Rede Globo, aqui em Porto Alegre costuma repetir as denúncias sobre as "rádios piratas".
Pois o blog RS Urgente informa, via blog Alma da Geral, que por sua vez viu no saite Rede Abraço, que há um memorando do Cindacta I, de Brasília, informando a interferência no controle aéreo de um sinal da Rede Globo, talvez uma repetidora regional. O memorando se encerra com um pedido de providências urgente à ANATEL para que seja solucionado o problema.
Por vezes, estas rádios que são acusadas de piratas são apenas rádios comunitárias que, por um motivo ou outro, possuem um transmissor mais potente enviando seu sinal além do regulamentado, eventualmente sem saber que estão irregulares. O Alma da Geral questiona, ironicamente, "seria a Globo uma simples rádio comunitária, então?".
A propósito, acredito que esta notícia não será veiculada em nenhum telejornal da Rede Globo. Normalmente os editores de meios de comunicação dizem que o que acontece nos meios de comunicação não é notícia, nem é de interesse público.

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quinta-feira, maio 24, 2007

Manifestações de 23 de Maio de 2007

Por acaso, calhou da televisão estar sintonizada no Jornal da Globo, no momento do noticiário nacional. E lá vem o Sr. William Waack com a velha cantilena: "baderneiros", "violentos", "defensores de privilégios".
Nestas manifestações de 23 de maio, no Pará, a Via Campesina e o Movimento dos Atingidos por Barragens ocuparam a usina hidrelétrica de Tucuruí, inclusive a sala principal de controle, e o Sr. Waack informa que os manifestantes inclusive brincavam com a série de botões que controlam a usina. Mas curiosamente, a usina não parou de funcionar e fornecer energia. O Jornal da Globo relembrou que a Via Campesina foi responsável pela depredação da fazenda da Aracruz Celulose usada para pesquisas.
Todo aquele papinho de, com pouca sutileza, criminalizar movimentos sociais e reivindicatórios.

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sexta-feira, maio 18, 2007

Jornalistas Processam Político

Nota rápida publicada hoje, 17 de maio, no jornal Correio do Povo: o ex-governador e ex-candidato a presidente da república Anthony Garotinho foi condenado pela Justiça a indenizar os jornalistas Paulo Motta e Maia Menezes, do jornal O Globo. Os jornalistas acionaram o ex-governador acusando-o de perseguidor, ofensivo e calunioso, quando ele lançou acusações contra os jornalistas, por meio de programas que rádio, quando os jornalistas lançaram reportagens denunciando problemas nos programas sociais do governo do Estado do Rio de Janeiro, quando Garotinho era governador. Segundo a nota do Correio do Povo, o ex-governador deve pagar uma indenização de 35 mil reais para cada jornalista, mais correções.
Ou seja, jornalistas podem processar políticos.

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Manchetes Que Nunca Veremos (2): "83% da População Aprova o Governo Lula"

Esta seria uma manchete velha. São conclusões possíveis a partir daquela pesquisa CNT/Sensus divulgada há um mês atrás. Estou aproveitando o gancho do "post" anterior.
Neste caso, 83,8% é total dos entrevistados que consideram o governo Lula ótimo, bom ou regular. Como muitas escolas aprovam alunos com conceitos semelhantes a estes, está feita a associação.
Esta é muitas outras manchetes possíveis a partir daquela pesquisa são alvo de especulação do Luiz Carlos Azenha, em seu sítio, o Vi o Mundo.

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Manchetes Que Nunca Veremos (1): "Governo Yeda Expulsa Dell do Rio Grande"

Até porque para anunciar uma manchete assim, seria necessário distorcer bastante a verdade. Mas silenciosamente a montadora de computadores Dell implantou uma fábrica no estado de São Paulo, e deve transferir para lá a maior parte da sua operação brasileira. Segundo a empresa, lá ela estará próxima do principal mercado brasileiro, no próprio estado de São Paulo, e logisticamente bem posicionada, próxima ao aeroporto internacional de Viracopos, em Campinas.
Mas qual seria a manchete se tal evento acontecesse em um governo dirigido pelo PT?


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domingo, março 25, 2007

Pouco Comparecimento à Missa em Homenagem de Adolescente de Favela Morta por Bala Perdida - Folha de São Paulo, 13/03/2007

Missa de Alana leva poucas pessoas à Candelária

DA SUCURSAL DO RIO

A missa de sétimo dia de Alana Ezequiel, que faria hoje 13 anos e foi morta por uma bala perdida no morro dos Macacos (zona norte do Rio) durante confronto entre policiais e traficantes, não teve a mesma atenção da população que ganhou a de João Hélio Fernandes, 6, há um mês.
As cadeiras vazias da igreja da Candelária (centro), com capacidade para mil pessoas, causaram constrangimento aos cerca de 80 presentes.
"Às vezes as pessoas têm outro sentimento para essas vítimas [de família pobre]. É decepção atrás de decepção. A sociedade põe a culpa nas autoridades, mas não entende o seu papel. Isso aqui deveria estar lotado", disse Cleide Prado, mãe de Gabriela Prado, morta em 2003 por uma bala perdida.
Organizadora da missa, Patrícia Oliveira, da Rede de Movimentos Contra a Violência, desabafou: "Quem não sabia que ia acontecer isso? O objetivo era este mesmo: mostrar a diferença." Também não havia moradores do morro dos Macacos. "É a primeira vez que a gente faz uma missa na Candelária, marco da alta sociedade do Rio. Talvez eles tenham se acanhado", disse Oliveira. À noite, haveria uma missa numa igreja no acesso à favela.
A missa de João Hélio, arrastado preso ao cinto de segurança do carro dos pais, reuniu centenas de pessoas no local.
Os pais dele, Rosa Cristina Fernandes e Elson Lopes Vieites, foram à missa ontem, assim como Tico Santa Cruz, vocalista da banda Detonautas, cujo guitarrista Rodrigo Silva Netto foi morto em junho.
O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, e o comandante-geral da PM, Ubiratan Ângelo, também compareceram. Ao consolar a faxineira Edna Ezequiel, 31, mãe de Alana, Beltrame foi cobrado: "Quero saber de onde veio a bala". Ele ficou em silêncio.

Mais balas
Duas mulheres foram atingidas por balas perdidas ontem, na Cidade de Deus (zona oeste). Não havia operação policial.
Aparecida Gonçalves de Oliveira, 32, atingida na mão, e Cristiane Barbosa, 19, na perna, não correm risco de morte.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1303200732.htm


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Ruy Castro: Longe da Mídia - Folha de São Paulo, 12/03/2007

RUY CASTRO

Longe da mídia

RIO DE JANEIRO - Faz hoje dez dias que a menina Gabrielli Cristina Eichholz, de 1 ano e 7 meses, foi encontrada estuprada, estrangulada e agonizante, dentro da pia batismal nos fundos de um templo da Igreja Adventista do Sétimo Dia, em Joinville, Santa Catarina. Numa sala ao lado, transcorria um culto religioso. Gabrielli morreu pouco depois.
O caso provocou comoção e revolta em Joinville. Mas, apesar de seu forte conteúdo simbólico -a inocência da menina, a inacreditável violência, a pia batismal-, esse crime, ainda que hediondo, não teve maior dimensão. Você provavelmente soube dele por algum jornal ou telejornal de segunda-feira última. Depois, mesmo que se interessasse pelo assunto, não soube mais nada. A mídia nacional abandonou a história.
O fato é que, até agora, ninguém o convidou para uma passeata pela paz, em protesto contra o assassinato de Gabrielli. Ninguém lhe ofereceu uma tarja negra para usar a caminho do trabalho, em sinal de luto pela morte dela. E, embora tenham acontecido vários jogos de futebol durante a semana em seu Estado, nenhum deles guardou um minuto de silêncio em memória da menina.
Da mesma forma, Gabrielli não foi matéria de capa em nenhuma revista semanal. Juristas, pedagogos, cronistas e donas-de-casa ainda não escreveram sobre ela nas páginas de opinião dos jornais. E, por enquanto, nenhum filósofo propôs o suplício lento ou a pena de morte para seu assassino -o qual, aliás, não sabemos quem é ou se já foi encontrado.
Não houve missa de sétimo dia por Gabrielli em nenhuma cidade do país que não Joinville. Sendo assim, pode-se dizer que não deverá haver missa de trigésimo dia.
Gabrielli foi morta em Joinville e lá foi enterrada, longe da mídia e do Brasil. Mas, ainda assim, no Brasil.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1203200705.htm

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quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Do Observatório da Imprensa: Silêncio sobre as Comissões de Comunicação

Edição 421 de 20/2/2007
www.observatoriodaimprensa.com.br
URL do artigo: www.observatoriodaimprensa.com.br

MÍDIA & CONGRESSO NACIONAL
O silêncio sobre as Comissões de Comunicação

Venício A. de Lima

O Correio Braziliense de quinta-feira (15/2) deu manchete de capa de quase meia página para a nova composição das Comissões Temáticas Permanentes da Câmara dos Deputados. O título era "Doadores emplacam seus deputados nas comissões da Câmara" e o subtítulo anunciava que "Políticos que tiveram campanha financiada por empreiteiras, mineradoras e outras empresas garantiram vaga nas seções que definirão projetos de lei a serem votados. Nomeações atendem aos interesses de grupos econômicos".

As matérias internas nas páginas 2 e 3 detalhavam a relação dos nomes de alguns integrantes de comissões, o valor das contribuições de campanha e os respectivos doadores cujos interesses privados estão vinculados aos temas nelas tratados. São relacionados nominalmente deputados de seis comissões: Agricultura, Seguridade Social e Família, Finanças e Tributação, Minas e Energia, Viação e Transportes e Desenvolvimento Urbano.

Figurinhas carimbadas

As graves acusações do Correio Braziliense provocaram protestos veementes de alguns deputados e o novo presidente da Câmara declarou que a Procuradoria Parlamentar iria verificar se cabe alguma medida judicial contra os jornalistas que assinam a matéria. "Um jornalista não tem autoridade para fazer insinuações sem prova", disse ele.

Ao ter entre seus financiadores legais um determinado grupo empresarial, o deputado estaria necessariamente submetendo sua ação parlamentar aos interesses desse grupo? A questão do financiamento das campanhas eleitorais é um dos objetos de discussão da inadiável reforma política que certamente o Congresso Nacional retomará na atual legislatura.

Vale registrar, no entanto, que estranhamente não constou da reportagem do Correio Braziliense a relação dos deputados e seus respectivos doadores da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI). No caso dessa Comissão podem, de fato, existir situações de conflito de interesse. Tem sido assim ao longo dos anos. E não só em relação aos doadores de campanha, mas sobretudo em relação aos membros titulares e suplentes da CCTCI que são, eles próprios, concessionários dos serviços públicos de radiodifusão.

Essa condição, inclusive, diferencia os membros concessionários da CCTCI de outros parlamentares que eventualmente tenham recebido doações de campanha de grupos empresariais com interesse direto em sua atuação parlamentar. Na CCTCI, o interesse é também do próprio deputado concessionário.

Uma rápida leitura da relação dos membros da nova CCTCI revelará que lá estão figurinhas carimbadas como, por exemplo, Eunício de Oliveira (PMDB-CE), Jader Barbalho (PMDB-PA), José Rocha (PFL-BA), Vic Pires Franco (PFL-PA) e Paulo Bornhausen (PFL-SC), com sabidas ligações com a radiodifusão.

Um leque impressionante

Não seria de interesse público que o levantamento do Correio Braziliense tivesse também incluído a CCTCI?

É ainda interessante registrar que passou praticamente despercebido da grande mídia a criação pelo plenário do Senado Federal, em 7/2, da nova Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (CCTICI), desmembrada da antiga Comissão de Educação, onde existia uma Subcomissão Permanente de Cinema, Teatro, Música e Comunicação Social.

Compete à nova Comissão opinar, dentre outros temas, sobre proposições pertinentes à política nacional de ciência, tecnologia, inovação, comunicação e informática; organização institucional do setor; propriedade intelectual; comunicação, imprensa, radiodifusão e televisão; outorga e renovação de concessão, permissão e autorização para serviços de radiodifusão sonora e de sons e imagens; regulamentação, controle e questões éticas referentes à pesquisa e desenvolvimento científico e tecnológico, inovação tecnológica, comunicação e informática, além de outros assuntos correlatos. Sem dúvida, um leque impressionante de temas do setor.

Vínculos com a radiodifusão

Houve protestos contra a criação da CCTICI. O senador Flávio Arns - que acabou sendo membro da comissão - chegou a afirmar que a iniciativa "fazia parte da negociação de cargos ocorrida no início desta legislatura". Entidades como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a Associação Nacional de Biossegurança e a Associação Brasileira de Propriedade Industrial também protestaram. Temem que o desmembramento provoque "o esvaziamento e a desarticulação dos temas que estão em andamento na atual Comissão de Educação".

O novo presidente dessa comissão é o senador Wellington Salgado (PMDB-MG), suplente do atual ministro das Comunicações, Hélio Costa. E o vice-presidente é o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), de conhecidas ligações com a Rede Record de televisão. Entre seus membros estão também senadores sabidamente vinculados à radiodifusão como Sérgio Zambiasi (PTB-RS), Maria do Carmo Alves (PFL-SE), José Agripino (PFL-RN), João Tenório (PSDB-AL), Flávio Arns (PT-SC), Eduardo Azeredo (PSDB-MG), Romero Jucá (PMDB-RR), Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN) e Mão Santa (PMDB-PI).

O compromisso da mídia

É sempre interessante constatar como a grande mídia evita falar sobre si mesma ou tratar de questões a ela diretamente relacionadas. Neste caso, comportamento ainda mais curioso, de vez que o Congresso Nacional, desde a Constituição de 1988, é co-responsável com o Poder Executivo pelas concessões e renovações de concessões de radiodifusão, além de formular e decidir diretamente sobre as políticas públicas do setor de comunicações.

O primeiro compromisso da mídia e de seus jornalistas é com o interesse público. É isso mesmo, não é? Ou não é?



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