quinta-feira, julho 16, 2009

Eu, pecador, me confesso

Eu, pecador, me confesso

RIO DE JANEIRO - Antes, no melhor das festas, se alguém duvidasse, a imprensa já era tida como quarto poder, uma instituição que exercia um poder paralelo. Na verdade, não é um poder, mas uma força. Com as novas técnicas de comunicação e com a sacralidade das fontes, ela se transformou no escoadouro dos descontentamentos (lícitos ou não), dos ressentimentos (pessoais ou grupais), das pressões e compressões de uma sociedade heterogênea que inclui desde índios e menores inimputáveis até políticos e empresários que podem roubar.
Esse caldo em ebulição seria a matéria que justificaria a existência e a expressão do Estado que, no caso brasileiro, antecedeu a Nação.
Abriu-se um vácuo e, nele, a força da comunicação encontrou o seu espaço. E o fez com exuberante boa vontade. Não é a vida nacional que pauta a imprensa. É a imprensa que pauta a vida nacional, através de seus órgãos mais excitáveis.
Dá a régua e o compasso. A classe política empacou, ataca e se defende a esmo, desarticuladamente, de acordo com a direção e a intensidade dos petardos que recebe.
Mas quem acusa a imprensa? Quem se atreve a mostrar e demonstrar que o gigante também tem, como todos os gigantes, os seus pés de barro? Há desconforto em todas as classes, juízes, militares, empresários e policiais em relação aos jornalistas. Eles se transformaram em detetives, em esmiuçadores de contas de luz e telefone, de depósitos bancários, declarações de Imposto de Renda, despesas nos postos de gasolina e nas agências dos Correios.
Estenderam sobre a sociedade uma teia assombrosa que absorve denúncias vindas de fontes anônimas, lembrando os comitês de salvação pública da Revolução Francesa que alimentaram de sangue a guilhotina nos anos do terror.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 9 de julho de 2009.

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terça-feira, junho 17, 2008

Vocabulário do jornalismo israelense

Vocabulário do jornalismo israelense

Yonatan Mendel

Há um ano, me candidatei à vaga de correspondente do jornal israelense Ma´ariv nos territórios ocupados. Falo árabe, lecionei em escolas palestinas e participei de muitos projetos judaico-palestinos. Na entrevista, o chefe perguntou como eu poderia ser objetivo. Eu havia passado tempo demais com os palestinos, e acabaria sendo tendencioso em favor deles. Não consegui o emprego. Minha entrevista seguinte foi no Walla.com, o site mais popular de Israel. Dessa vez, consegui o emprego e me tornei correspondente do Walla no Oriente Médio. Logo entendi o que Tamar Liebes, diretor do Instituto Smart de Comunicação da Universidade Hebraica de Jerusalém, quis dizer quando afirmou que "os jornalistas e editores se vêem como atores dentro do movimento sionista, e não como observadores críticos".

Isso não significa que o jornalismo israelense não seja profissional. A corrupção, as mazelas sociais e a desonestidade são perseguidas com louvável determinação por jornais, tevês e rádios. O fato de os israelenses terem sido informados do que o ex-presidente Moshe Katsav [que renunciou após ser acusado de estupro] fez ou deixou de fazer com suas secretárias prova que a mídia desempenha o papel de cão de guarda, mesmo sob risco de causar constrangimento nacional e internacional. O nebuloso contrato imobiliário de Ehud Olmert, os negócios da misteriosa ilha grega de Ariel Sharon, o romance secreto de Binyamin Netanyahu, a conta bancária secreta de Yitzhak Rabin nos Estados Unidos: tudo isso é livremente discutido na imprensa israelense.

Quando se trata de "segurança", não há tal liberdade. Só há "nós" e "eles", as Forças de Defesa de Israel, FDI, e "o inimigo". O discurso militar, o único discurso permitido, triunfa sobre qualquer outra narrativa. Não que os jornalistas israelenses cumpram ordens ou um código escrito: apenas preferem pensar coisas boas das suas forças de segurança.

Morte por engano

Na maioria das matérias sobre o conflito há duas partes em luta: as Forças de Defesa de Israel de um lado e os palestinos de outro. Quando um incidente violento é relatado, as FDI confirmam ou o Exército diz, mas os palestinos alegam: "Os palestinos alegaram que um bebê ficou gravemente ferido pelos disparos das FDI." Isso é alguma invenção? "Os palestinos alegam que colonos israelenses os ameaçaram." Mas quem são os palestinos? Todos os palestinos - cidadãos de Israel, habitantes da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, as pessoas em campos de refugiados de Estados árabes vizinhos e aquelas vivendo na diáspora - fazem a alegação? Por que então uma reportagem séria relata uma alegação feita pelos palestinos? Por que tão raramente há um nome, um departamento, uma organização ou uma fonte dessa informação? Será porque isso lhe daria um aspecto mais confiável?

Quando os palestinos não estão fazendo alegações, seu ponto de vista simplesmente não é ouvido. O Keshev (Centro para Proteção da Democracia em Israel) analisou como os principais canais de televisão e jornais israelenses cobriram as vítimas palestinas num determinado mês - dezembro de 2005. Foram encontradas 48 matérias sobre a morte de 22 palestinos. Apenas oito desses relatos, no entanto, traziam a versão das FDI e uma reação palestina. Nos outros quarenta exemplos, o fato foi relatado apenas do ponto de vista dos militares israelenses.

Outro exemplo: em junho de 2006, quatro dias depois de o soldado israelense Gilad Shalit ser seqüestrado no lado israelense da cerca de segurança de Gaza, segundo a imprensa israelense, Israel deteve cerca de sessenta integrantes do Hamas, entre os quais trinta membros eleitos do Parlamento e oito ministros do governo palestino. Numa operação bem planejada, Israel capturou e encarcerou o ministro palestino para Assuntos de Jerusalém, os ministros de Finanças, Educação, Assuntos Religiosos, Assuntos Estratégicos, Assuntos Domésticos, Habitação e Prisões, além dos prefeitos de Belém, Jenin e Qalqilya, o presidente do Parlamento palestino e um quarto dos seus integrantes. Que essas autoridades tenham sido tiradas de suas camas tarde da noite e transferidas para território israelense, provavelmente para servir (como Gilad Shalit) de moeda de barganha, não fez da operação um seqüestro. Israel nunca seqüestra. Israel detém.

O Exército israelense nunca mata ninguém intencionalmente, muito menos comete homicídio - uma situação a qual qualquer outra organização armada invejaria. Mesmo quando uma bomba de 1 tonelada é jogada sobre uma densa área residencial de Gaza, matando um homem armado e catorze civis inocentes, inclusive nove crianças, ainda assim não são mortes intencionais nem homicídios: são assassinatos dirigidos. Um jornalista israelense pode dizer que os soldados das FDI atingiram palestinos, ou que os mataram, ou que os mataram por engano, e que os palestinos foram atingidos, ou foram mortos ou mesmo que encontraram a morte (como se estivessem procurando), mas homicídio está fora de cogitação. A conseqüência, quaisquer que sejam as palavras usadas, foi a morte, nas mãos das forças de segurança israelenses, desde o início da segunda intifada, de 2 087 palestinos que nada tinham a ver com a luta armada.

Sangue nas mãos

As Forças de Defesa de Israel, tal como são mostradas na mídia israelense, têm outra estranha capacidade: a de nunca iniciar ou decidir um ataque, nem de lançar uma operação. As FDI simplesmente respondem. Elas respondem aos foguetes Qassam, respondem aos ataques terroristas, respondem à violência palestina. Isso torna tudo tão mais lógico e civilizado: as FDI são forçadas a lutar, a destruir casas, a balear palestinos e a matar 4 485 deles em sete anos, mas nenhum desses fatos é responsabilidade dos soldados. Eles estão enfrentando um inimigo abjeto, e reagem de acordo com seu dever. O fato de suas ações - toques de recolher, prisões, cercos por mar, tiros e mortes - serem a principal causa da reação palestina não parece interessar à mídia. Como os palestinos não podem responder, os jornalistas israelenses escolhem outro verbo de um léxico que inclui vingar, provocar, atacar, incitar, apedrejar e disparar os mísseis Qassam.

Entrevistando Abu-Qusay, porta-voz das Brigadas de Al-Aqsa em Gaza, em junho de 2007, perguntei a ele sobre a razão para disparar mísseis Qassam contra a cidade israelense de Sderot. "O Exército pode responder", disse eu, sem perceber que já estava influenciado. "Mas nós estamos respondendo aqui", disse Abu-Qusay. "Não somos terroristas, não queremos matar... estamos resistindo às contínuas incursões de Israel na Cisjordânia, aos seus ataques, ao seu cerco em nossas águas e ao fechamento das nossas terras." As palavras de Abu-Qusay foram traduzidas para o hebraico, mas Israel continuou entrando todas as noites na Cisjordânia, e os israelenses não viram mal nenhum nisso. Afinal de contas, era só uma resposta.

Numa época em que havia muitas incursões israelenses em Gaza, perguntei o seguinte aos meus colegas: "Se um palestino armado cruza a fronteira, entra em Israel, dirige até Tel Aviv e atira em pessoas nas ruas, ele será o terrorista, e nós seremos as vítimas, certo? Porém, se as FDI cruzam a fronteira, dirigem vários quilômetros Gaza adentro e começam a disparar contra os atiradores palestinos, quem é o terrorista e quem é o que resiste? Como é possível que os palestinos que vivem nos territórios ocupados nunca possam recorrer à autodefesa, enquanto o Exército israelense é sempre o defensor?" Meu amigo Shay, da editoria de arte, esclareceu as coisas para mim: "Se você for à Faixa de Gaza e atirar nas pessoas, você será um terrorista. Mas quando o Exército faz isso, é uma operação para deixar Israel mais seguro. É a implementação de uma decisão do governo!"

Outra distinção interessante entre "nós" e "eles" apareceu quando o Hamas exigiu a libertação de 450 prisioneiros ligados ao grupo, em troca do soldado Gilad Shalit. Israel anunciou que libertaria prisioneiros, mas não aqueles com sangue nas mãos. São sempre os palestinos - nunca os israelenses - que têm sangue nas mãos. Isso não quer dizer que os judeus não possam matar os árabes, mas eles não terão sangue nas mãos, e se forem presos serão soltos depois de poucos anos. Sem falar naqueles que têm sangue nas mãos e chegaram a primeiro-ministro. Somos não só mais inocentes quando matamos, como também mais suscetíveis quando feridos. Em geral, a descrição de um míssil Qassam que atinja Sderot será mais ou menos assim: "Um Qassam caiu ao lado de uma residência, três israelenses tiveram ferimentos leves e dez outros sofreram um choque." Não se deve minimizar tais males: um míssil atingindo uma casa no meio da noite de fato deve causar um grande choque. Deve-se lembrar, no entanto, que o choque só vale para os judeus. Os palestinos aparentemente são uma gente muito calejada.

Detenção administrativa

As Forças de Defesa de Israel, num outro motivo de inveja para todos os outros Exércitos, matam só as pessoas mais importantes. "Um membro de alto escalão do Hamas foi morto" é quase um coro na mídia israelense. Membros de baixo escalão do Hamas nunca foram achados ou nunca foram mortos. Shlomi Eldar, correspondente de uma estação de televisão na Faixa de Gaza, escreveu bravamente sobre esse fenômeno no livro Eyeless in Gaza [Sem Olhos em Gaza], de 2005. Quando Riyad Abu Zaid foi assassinado, em 2003, a imprensa israelense fez eco ao anúncio das FDI de que o homem seria o chefe da ala militar do Hamas em Gaza. Eldar, um dos poucos jornalistas investigativos de Israel, descobriu que o homem era apenas um secretário do clube de prisioneiros do Hamas. "Foi uma das muitas ocasiões em que Israel 'incrementou' um ativista palestino", escreveu Eldar. "Depois de todo assassinato, cada pequeno ativista é `promovido´ a grande."

Esse fenômeno pelo qual as declarações das FDI imediatamente se traduzem em reportagens é resultado tanto da falta de acesso à informação quanto da má vontade de jornalistas em provar que o Exército está errado, ou em mostrar soldados como criminosos. "As FDI estão agindo em Gaza" (ou em Jenin, ou em Tulkarm, ou em Hebron) é a expressão oferecida pelo Exército e adotada pela mídia. Por que dificultar a vida dos ouvintes? Por que lhes contar o que os soldados fazem, descrevendo o medo que geram, o fato de que eles vêm com armas e veículos pesados e esmagam a vida urbana, aumentando o ódio, a dor e o desejo de vingança?

Em fevereiro, para tentar conter os militantes que disparavam foguetes Qassam, Israel decidiu interromper a eletricidade em Gaza durante algumas horas por dia. Embora isso significasse, por exemplo, que a energia deixaria de chegar a hospitais, foi dito que "o governo israelense decidiu aprovar essa medida como outra arma não-letal". Outra coisa que os soldados fazem é limpar - khisuf. Em hebraico comum, khisuf significa expor algo oculto, mas no linguajar das FDI significa limpar uma área de esconderijos em potencial para atiradores palestinos. Durante a última intifada, escavadeiras israelenses D9 destruíram milhares de casas palestinas, arrancaram milhares de árvores e deixaram um rastro de milhares de estufas danificadas. É melhor saber que o Exército limpou a área do que enfrentar a realidade de que o Exército destrói as propriedades, o orgulho e a esperança dos palestinos.

Outra palavra útil é coroamento (keter, que também pode ser traduzida como "cerco"), eufemismo para um cerco no qual quem sair de casa se arrisca a ser baleado. Zonas de guerra são lugares onde os palestinos podem ser mortos, mesmo as crianças que não sabem que entraram numa zona de guerra. Crianças palestinas, aliás, tendem a ser promovidas a adolescentes palestinos, especialmente quando são acidentalmente mortas. Mais exemplos: postos avançados e isolados dos israelenses na Cisjordânia são chamados de postos ilegais, talvez em contraste com os assentamentos israelenses, que são aparentemente legais. Detenção administrativa significa prender pessoas que não foram levadas a julgamento e nem mesmo receberam acusação formal (em abril de 2003, havia 1.119 palestinos nessa situação). A OLP (Ashaf) é sempre citada por sua sigla, e nunca por seu nome completo, Organização para a Libertação da Palestina: Palestina é uma palavra que quase nunca é usada - há um presidente palestino, mas não um presidente da Palestina.

O que o público quer

"Uma sociedade em crise forja um novo vocabulário para si", escreveu David Grossman no livro The Yellow Wind [O Vento Amarelo], "e gradualmente uma nova linguagem emerge, cujas palavras não mais descrevem a realidade, mas tentam, em vez disso, escondê-la." Essa "nova linguagem" foi adotada voluntariamente pela mídia, mas se alguém precisar de um conjunto oficial de diretrizes ele pode ser encontrado no Relatório Nakdi, um documento redigido pelo órgão público Autoridade de Radiodifusão Israelense. Divulgado inicialmente em 1972, e atualizado três vezes desde então, o relatório se destinava a "esclarecer algumas das regras profissionais que regulam o trabalho de uma pessoa da imprensa". A proibição do termo Jerusalém Oriental era uma delas.

As restrições não se limitam à geografia. Em 20 de maio de 2006, a emissora mais popular da televisão israelense, o Canal 2, noticiou "outro assassinato dirigido em Gaza, um assassinato que pode atenuar os disparos dos Qassam" (376 pessoas já morreram em assassinatos dirigidos, sendo 150 delas civis que não eram alvos de assassinatos). Ehud Ya'ari, um conhecido correspondente israelense que cobre assuntos árabes, no estúdio, disse: "O homem que foi morto é Muhammad al Dahdouh, da Jihad Islâmica... Isso é parte da outra guerra, uma guerra para diminuir o número dos ativistas que disparam os Qassam." Nem Ya'ari nem o porta-voz das FDI se preocuparam em noticiar que quatro civis palestinos inocentes também foram mortos na operação, e que três outros ficaram feridos, inclusive uma menina de 5 anos chamada Maria, que ficará paralítica do pescoço para baixo. Esse "descuido", revelado pela jornalista israelense Orly Vilnai-Federbush, só mostra o quanto não sabemos sobre aquilo que julgamos saber.

Uma coisa interessante é que, desde que o Hamas tomou a Faixa de Gaza, um dos novos xingamentos na mídia israelense é Hamastão, palavra que aparece no noticiário "quente", a parte supostamente sagrada dos jornais, que deveria apresentar os fatos sem editorializá-los. O mesmo vale para movimentos como Hamas ou Hezbollah, descritos em hebraico como organizações, e não como partidos ou movimentos políticos. Intifada nunca recebe o seu significado árabe de "revolta"; e Al-Quds, que quando usada por políticos é uma palavra que se refere apenas aos "lugares sagrados de Jerusalém Oriental", ou a "Jerusalém Oriental", é entendida pelos correspondentes israelenses como Jerusalém, o que efetivamente implica uma determinação palestina em tomar a capital inteira.

Foi curioso observar as reações dos jornais ao assassinato de Imad Moughniyeh, na Síria, em fevereiro. Eles competiram entre si quanto à maneira de designá-lo: arquiterrorista, mestre-terrorista, maior terrorista da Terra. A imprensa israelense levou alguns dias para deixar de louvar os assassinos de Moughniyeh e começar a fazer o que deveria ter feito inicialmente: perguntar quais as conseqüências da morte dele. O jornalista Gideon Levy acha que essa é uma tendência israelense: "A cadeia de `chefes terroristas´ liquidados por Israel, de Ali Hassan Salameh a Abu Jihad, passando por Abbas Musawi e Yihyeh Ayash até o xeque Ahmed Yassin e Abdel Aziz Rantisi (todas elas "operações" que celebramos com grande pompa e circunstância por um doce e inebriante momento), até agora apenas provocou ataques duros e dolorosos de vingança contra Israel e os judeus mundo afora."

Repórteres israelenses especializados em assuntos árabes devem evidentemente falar árabe - muitos deles, de fato, estudaram o idioma nas escolas do aparato de segurança - e precisam conhecer a história e a política do Oriente Médio. E têm de ser judeus. Visivelmente, a mídia israelo-judaica prefere contratar jornalistas com um conhecimento mediano do idioma árabe a falantes nativos, pois estes seriam cidadãos palestinos de Israel. Aparentemente, jornalistas judeus são mais bem equipados que os árabes israelenses para explicar "o que os árabes pensam", quais são "os objetivos árabes" e "o que os árabes dizem". Talvez seja assim porque os editores sabem o que o seu público quer ouvir. Ou, mais importante, o que o público israelense prefere não ouvir.

Sem licença

Se as palavras ocupação, apartheid e racismo (sem falar em cidadãos palestinos de Israel, bantustões, limpeza étnica e Nakba ["catástrofe", a palavra com a qual os palestinos se referem à criação de Israel, em 1948]) estão ausentes do discurso israelense, os cidadãos de Israel podem passar a vida inteira sem saber com o que estão convivendo. Por exemplo, racismo (Giz'anut, em hebraico). Se o Parlamento israelense legisla que 13% das terras do país só podem ser vendidas para judeus, então ele é um Parlamento racista. Se em sessenta anos o país só teve um ministro árabe, então Israel tem tido governos racistas. Se, em sessenta anos de manifestações, balas de borracha e munição de verdade só foram usadas contra manifestantes árabes, então Israel tem uma polícia racista. Se 75% dos israelenses admitem que se recusariam a ter um árabe como vizinho, então é uma sociedade racista. Ao não reconhecer que Israel é um lugar onde o racismo molda as relações entre judeus e árabes, os judeus israelenses se tornam incapazes de lidar com o problema, ou mesmo com a realidade das suas próprias vidas.

A mesma negação da realidade está refletida na recusa ao termo apartheid. Devido à sua associação com a África do Sul branca, os israelenses acham muito duro usar a palavra. Isso não quer dizer que exatamente o mesmo tipo de regime vigore hoje nos territórios ocupados, mas um país não precisa ter bancos de praça "apenas para brancos" para ser um Estado que pratica o apartheid. Afinal, apartheid significa "separação", e, se nos territórios ocupados os colonos têm uma estrada, e os palestinos precisam usar estradas alternativas ou túneis, então é um sistema rodoviário de apartheid. Se o muro de separação construído sobre centenas de hectares de terra confiscada na Cisjordânia separa as pessoas (inclusive palestinos de ambos os lados do muro), então é um muro de apartheid. Se nos territórios ocupados há dois Judiciários, um para colonos judeus e outro para os palestinos, então é uma Justiça de apartheid.

Há também os próprios territórios ocupados. Notavelmente, não há territórios ocupados em Israel. O termo é ocasionalmente usado por algum colunista ou político de esquerda, mas no noticiário ele inexiste. No passado, foram chamados de territórios administrados, para esconder o fato real da ocupação. Foram então chamados de Judéia e Samaria. E, na grande imprensa israelense de hoje, são chamados de os territórios (Ha-Shtachim). O termo ajuda a preservar a noção de que os judeus são as vítimas, o povo que age apenas em autodefesa, a metade moral da equação, e que os palestinos são os agressores, os caras ruins, as pessoas que lutam por razão nenhuma. O exemplo mais simples explica isso: "Um cidadão dos territórios foi apanhado contrabandeando armas ilegais." Poderia fazer sentido que os cidadãos de um território ocupado tentassem resistir ao ocupante, mas não faz sentido se eles forem apenas dos territórios.

Os jornalistas israelenses não estão incrustados no aparato estatal de segurança, e nunca ninguém lhes pediu que fizessem seu público se sentir bem a respeito da política militar de Israel. As restrições às quais eles se submetem são observadas voluntariamente, quase inconscientemente - o que torna sua prática ainda mais perigosa. Apesar disso, a maioria dos israelenses acha que sua mídia é esquerdista demais, insuficientemente patriota e que não está do lado de Israel. E que a imprensa estrangeira é pior. Durante a última intifada, Avraham Hirchson, então ministro de Finanças, exigiu que as transmissões da CNN a partir de Israel fossem interrompidas, sob a alegação de que eram "transmissões distorcidas e programas tendenciosos que são nada mais que uma campanha de incitação contra Israel". Manifestantes israelenses pediram o fim da "cobertura indigna de confiança e provocadora do terror feita pela CNN", reclamando em seu lugar a cobertura da Fox News. Israelenses com até 50 anos são obrigados a prestar um mês de serviço militar reservista por ano. "O civil", disse certa vez Yigael Yadin, um dos primeiros chefes das FDI, "é um soldado com licença anual de 11 meses." Para a mídia israelense, não existe licença.


Texto do Observatório da Imprensa.


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terça-feira, outubro 16, 2007

Relembrando a Veja

"A Veja já fez bom jornalismo. Em 1997, quando completavam-se 30 anos de sua morte, ela contou de como a execução do homem Ernesto Guevara criou o mito do Che que morreu para nos salvar. Na época, a revista preocupava-se mais em compreender o mundo do que em doutrinar."

Este pequeno parágrafo veio do blog do Pedro Dória. O grifo é meu.

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sexta-feira, agosto 31, 2007

Os protestantes do século XXI



Lançamento do livro A mídia nas eleições de 2006, organizado pelo prof. Venício A. de Lima, da UnB e do Observatório Brasileiro de Mídia, se transforma em debate sobre porque a campanha da mída conservadora contra a reeleição de Lula não deu certo.

Data: 31/08/2007
Na noite de 30 de agosto, no Sindicato dos Jornalistas no Estado de S. Paulo, foi lançado o livro (Editora Fundação Perseu Abramo) A mídia nas eleições de 2006, organizado pelo professor Venício A. de Lima, da Universidade de Brasília e consultor do Observatório Brasileiro de Mídia. O livro tem apresentação do professor e mais 11 artigos de especialistas no setor, sobre o papel da mídia nas eleições presidenciais do ano passado. Acompanham o livro alguns anexos: as reportagens publicadas na época pela revista Carta Capital; as explicações do diretor executivo de jornalismo da Central Globo de Jornalismo, Ali Kamel; a carta do repórter Rodrigo Vianna, desligado da Globo naquela época, despedindo-se de seus colegas de trabalho (publicada em primeira mão, depois de circular em mensagens na internete, pela Carta Maior em reportagem de Bia Barbosa); e um mapa das votações no primeiro e no segundo turnos.

Além do prof. Venício, estiveram presentes ao lançamento os autores de artigos Renato Rovai, editor da revista Fórum, autor do capítulo “As muitas derrotas da mídia comercial tradicional”; Marcelo Coutinho, diretor executivo do Ibope Inteligência, co-autor de “Os usos das novas mídias na campanha presidencial de 2006; e Kjeld Jakobsen, presidente do Observatório Brasileiro de Mídia, autor de “A cobertura da míodia impressa aos candidatos nas eleições presidenciais de 2006”.

Além de debaterem o livro e seus artigos, os quatro presentes debateram, entre outras, a pergunta feita por Carta Maior sobre “porque em 2006 a campanha da mídia contra a reeleição de Lula não deu certo”. Carta Maior lembrou das vezes em que campanhas conservadoras na mídia “deram certo”: na eleição de 1989, no golpe de 1964, no de 1954 (revertido pelo suicídio do presidente Getúlio Vargas), até mesmo (como lembrou Rovai) na campanha pelas privatizações, durante o governo de FHC, quando criou-se um clima de que tudo o que era público e estatal eram necessariamente ruim.

Houve colocações muito variadas. Todos concordaram que este é um assunto ainda a ser estudado, e que é impossível dar uma explicação cabal e definitiva. Mas aventaram algumas hipóteses. O prof. Venício lembrou o papel das “lideranças intermediárias”, isto é, os líderes de associações de bairros, ongues, sindicatos, etc., que são, agora, “formadores de opinião” tão importantes quanto aqueles que tradicionalmente se julgam donos da “formação de opinião”, os editorialistas, colunistas de jornais, e comentaristas de tevê. Essas “lideranças intermediárias” têm acesso à internete e a uma série de informações alternativas, antes não ou pouco disponíveis, o que pode ter ajudado a contrabalançar o poder da mídia tradicional.

Kjeld Jakobsen lembrou que de fato a vida das pessoas mais pobres, e de um modo geral, melhorou sob o governo Lula, e que isso levou muitas pessoas a pensarem duas vezes antes de simplesmente aderirem à campanha da mídia contra o governo. Lembrou também que a mídia, de um modo geral, tornou-se mais uniformemente conservadora, descolando-se de muitos de seus leitores tradicionais. Lembrouy por exemplo do tempo em que muita gente de esquerda considerava A Folha de S. Paulo um jornal “oficiosamente” à esquerda no espectro do jornalismo brasileiro, e que isso hoje não acontece mais.

Renato Rovai trouxe à baila a idéia de que, além do contrabalanço de informação disponível, havia o fato de que em 2006, ao contrário de 1989, Lula era governo, e isso lhe dá um poder enorme de também gerar informação, além dos poderes inerentes ao Estado brasileiro. Em sua fala lamentou que o governo não tenha avançado mais no sentido de democratização da mídia, curvando-se à pauta do conservadorismo brasileiro neste campo. O jornalista Carlos Tibúrcio, também presente, respondeu, dizendo que era necessário analisar a “correlação de forças” para entender a posição do governo nestas questões.

Mas a nota mais original do debate ficou por conta de Marcelo Coutinho. Depois de dizer que era necessário reconhecer que, apesar de todas as deficiências, o nível de escolaridade no eleitorado brasileiro tinha aumentado muito de 20 anos para cá, lembrou a situação européia ao fim da Idade Média.

Disse que naquela época o quase monopólio de interpretação religiosa detido pela Igreja Católica Romana na Europa foi quebrado pelo protestantismo. E que para a quebra do monopólio foi fundamental a invenção da imprensa no século XV. Hoje, lembrou ele, estaríamos na mesma situação: a pretensão de monopólio de expressão da “opinião pública” por parte da mídia tradicional foi quebrada pela internete, embora o alcance desta esteja longe de ser universal. Mas tão importante quanto reconhecer essa quebra é reconhecer que os atores convencionais, mídia e partidos políticos, ainda não conseguiram responder de modo conveniente e consistente a esse novo quadro cultural, aferrando-se a seus princípios dogmáticos, tanto no plano das idéias quanto no das formulações.

“Internete é diálogo”, lembrou ele. De fato, algo que anda meio longe da nossa mídia convencional, que está menos para polifonia, mesmo que barroca, e muito mais para o uníssono (e ponhamos sono aí) do cantochão gregoriano (É só uma metáfora provocativa, pessoal. Eu adoro cantochão. Na Igreja ou no concerto, é claro, não na mídia).

Da Carta Maior.

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terça-feira, julho 24, 2007

Do Observatório da Imprensa: Os Ricos Também Apóiam Lula

Edição 441 de 10/7/2007
www.observatoriodaimprensa.com.br
URL do artigo: www.observatoriodaimprensa.com.br


NÚMERO-NOTÍCIA
Os ricos também apóiam Lula

Miguel Gomes Barbosa do Rosário

Senti falta, na imprensa, de mais detalhes da pesquisa do Ibope sobre o governo. Tem umas coisas bem interessantes, que desfazem mitos como aquele de que só os pobres apóiam Lula. Entre o grupo com estudo superior completo, os que aprovam Lula são 49%, contra 46% que desaprovam.

Lembrando, o total que aprova Lula é 66%, contra 30% que desaprovam. Uma diferença de 36%, ou seja, correspondente a mais de 70 milhões de habitantes. Em outros termos, mais de 120 milhões de cidadãos brasileiros aprovam Lula, contra 60 milhões que desaprovam.

Na pesquisa por renda mensal, a tabela do Ibope mostra que a faixa mais rica, que ganha acima de 10 salários mínimos, ou seja, mais de 4.000 por mês, também aprova Lula. Nesta faixa, 53% aprovam Lula, contra 41% que não aprovam. Uma diferença de 12%. Na realidade, Lula é aprovado em todas as faixas salariais, mas com maior intensidade entre os mais pobres. O que é extremamente saudável e um sinal de que o governo está no caminho certo. O estranho para um presidente de um país pobre seria o contrário: ser apoiado por ricos e detestado pelos pobres.

Confiança do povão

Há ainda um outro dado impressionante. O Ibope pergunta que nota o entrevistado daria à Lula, de 0 a 10. Sabe qual foi a nota mais votada? Adivinha? A nota 10. Apenas 6% deram nota 0, enquanto 20% deram nota 10. Imagine se os jornalões dessem a manchete: "Maioria dos brasileiros dá nota 10 a Lula".

Continuando. Na tabela de notas por segmento econômico, Lula também tem excelente performance entre os mais ricos. Entre os mais pobres, nem preciso dizer. O que pretendo aqui é desmistificar essa história de Lula fazer sucesso apenas entre os que ganham bolsa-família. Pois bem, entre os que ganham mais de 10 salários mínimos, ou mais de 4 mil reais por mês, 8% dão nota 10, contra somente 5% que dão nota zero. E, ainda falando dos ricos, 57% dão nota acima de 6.

O Ibope faz ainda uma outra pergunta, parecida. Você confia ou não no presidente Lula? Lula ganha em todos os segmentos sociais, inclusive nos que ganham acima de 10 salários mínimos - neste segmento, 47% confiam em Lula, contra 46% que não. Entre os mais pobres, Lula ganha esmagadoramente: 73% dizem confiar em Lula, contra 24% que não confiam. Quem freqüenta lugares populares, sabe como é difícil um político ganhar confiança do povão, sempre disposto a chamar todo mundo de ladrão.

Jornalões perdem o bonde

Quer mais?

O Ibope faz a seguinte pergunta: em relação ao primeiro mandato, o segundo mandato do presidente Lula está sendo: melhor, igual ou pior? Novamente, Lula leva a melhor em todos os segmentos econômicos. Entre os pobres, 83% acham que é igual ou melhor. Entre os ricos (que ganham mais de 4 mil por mês), 78% acham que está igual ou melhor, mesmo percentual registrado para o total dos entrevistados.

Calma, não acabou. A aprovação de Lula é avassaladora em todas as regiões do país, e não apenas Nordeste, como algumas chamadas jornalísticas sugerem. No Sul, Lula é aprovado por 52% dos brasileiros, contra 42% que não aprovam. No Sudeste, Lula é aprovado por 62%, contra 32% que desaprovam. Em todas as outras, a aprovação ainda é maior.

A conclusão é óbvia. Lula vem sendo apoiado entre pobres, classe média e ricos. Ou seja, os jornalões, que vendem para a classe média e os ricos, e que compraram uma briga totalmente intransigente e partidária contra o presidente Lula, estão perdendo o bonde da história. E assinantes.


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sábado, maio 26, 2007

Tabus, Censura, Auto-Censura, ...

Deu no blog Periferia do Império -> Deu no The New York Times: primeira capa com foto de soldados norte-americanos feridos no Iraque. Como diz o Periferia do Império, parece surrealismo, mas é a realidade, só em 23 de maio passado, após três do primeiro ataque, três anos de ocupação, mais de 3.000 soldados americanos mortos, mais de 64.000 iraquianos mortos entre civis e militares, segundo o saite Iraq Body Count, um dos grandes jornais norte-americanos coloca em sua capa uma foto de um resultado de um ataque de resistentes iraquianos.
O que será que a Sociedade Interamericana de Imprensa, a SIP, que sempre está tão preocupada com a liberdade de imprensa na Venezuela, por exemplo, diria sobre isso?


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segunda-feira, maio 07, 2007

Apagões

Apagão Aéreo, Apagão da imprensa, Apagão da oposição. Veja a seguir um texto de Paulo Henrique Amorim, muito afim...

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Da Agência Carta Maior: Apagão da Imprensa




DEBATE ABERTO

O apagão da imprensa

A CPI do Apagão Aéreo parece não ter empolgado jornais e revistas. Os meios de comunicação limitam-se a denunciar sua composição como expressão de farsa. Há um visível desencanto com a oposição parlamentar. Talvez possamos falar em um luto midiático.

O tom é de comedimento. A CPI do Apagão Aéreo parece não ter empolgado jornais e revistas semanais. Os meios de comunicação limitam-se a denunciar sua composição como expressão de farsa. Há um visível desencanto com o comportamento da oposição parlamentar. O pragmatismo de setores do PSDB não é compatível com o tipo ideal editado ao longo dos dois últimos anos? Talvez possamos, simplificando tema caro ao pensamento freudiano, falar em um luto midiático. Reação à perda de uma generalização abstrata, a um ente que seria o braço político de devaneios editoriais. Investimento libidinal sem contrapartida. Páginas e tempos perdidos.


Em tom de lamento, o jornalista Fernando Rodrigues registra, em seu blog, o ar nebuloso que marca o início da mais recente CPI instalada na Câmara Federal. Assinala que “A oposição ficou de mãos abanando. A base lulista tem 16 das 24 vagas da comissão.Houve uma patética tentativa do PSDB, que quis lançar um candidato para a presidência da CPI. Perdeu. O PFL desejava ir ao Supremo para dar uma embananada no processo, mas os tucanos foram contra. Por enquanto, a CPI está servindo para mostrar e explicitar mais uma vez o apagão da oposição no Congresso”.

A tristeza de Fernando é partilhada pela jornalista Eliane Cantanhêde, em sua coluna, na edição de sexta, 4 de maio, da Folha de S. Paulo. “Foi-se o tempo em que as CPIs eram lugar de honra para investigar e produzir efeitos” O choro prolonga-se por quase todos os articulistas da grande imprensa. Editoriais já não reproduzem o frenesi de outrora, quando tudo era contado com som e fúria, Embora o significado do esforço fosse ocultado com presteza.

O que será que não aprenderam com a história? Vamos tentar, nesse pequeno artigo, lançar luz sobre o passado recente. Iluminar o norte dos considerados “formadores de opinião". Pessoas de hábitos refinados e ética fluida precisam perceber que a realidade também escorre liquefeita.

Já deveríamos saber que, quando o senso comum da mídia se confunde com a opinião de setores supostamente esclarecidos, a lucidez está perdida. Se todo o processo histórico é reduzido à folhetinização de escândalos, ao espetáculo de comissões parlamentares e acareações sem sentido, a trama não guarda qualquer relação com moralização de costumes públicos ou preocupação efetiva com os rumos da política econômica.

As fraturas éticas e o aliancismo equivocado do Partido dos Trabalhadores serviram, nos dois últimos anos do primeiro mandato de Lula, como pretextos para a ofensiva de forças conservadoras a um governo que, apesar da agenda adotada, conseguiu reduzir a miséria de forma expressiva. Em 2004, segundo a FGV, a redução teria atingido 8%. Comparemos esses números com os obtidos pelo neoliberalismo que, por oito anos, balizou corações e mentes de tucanos e demos do ex-PFL. Não há registros dessa comparação em editorias de economia.

O triste foi ver a grita moralista unir reacionários conhecidos a esquerdistas combativos nas páginas de política. O que o método separou, o discurso uniu. O que os últimos ignoraram foi que ação política movida a ressentimentos e balizada pela moral privada não educa politicamente. Constrói atalhos para o retrocesso. A práxis de holofote é a única possível em tempos do que, com rara precisão, Zygmunt Bauman definiu como modernidade líquida? Essa é uma indagação que precisa ser respondida por atores que ocupam inequívoca centralidade no mundo contemporâneo. E não há como respondê-la sem definir a imprensa como lugar epistemológico.

Como destacou, à época, Marilena Chauí, “não é digno politicamente não colaborar com um governo que está sob ataque". No centro da peroração de seus detratores não havia qualquer preocupação com a qualidade institucional.

O móbil da burguesia patrimonialista e seu colosso midiático não era outro senão a velha luta de classes, a preservação de estruturas arcaicas que impedem a promoção da cidadania em uma sociedade fracionada.

Ser portador de uma agenda republicana é compreender a complexidade do momento. Render-se aos clamores de segmentos médios, expressos nas páginas dos jornais, não revela inteireza ética, mas oportunismo político e atração inequívoca pela ética do consumidor. Assim morrem as mariposas. E se reproduzem editores.

Não é nosso objetivo propor que se passe uma borracha em todos os erros cometidos. O transformismo da direção partidária, seu deslocamento das bases e alianças com legendas de direita foram um balde de água fria na militância forjada ao longo de 25 anos de luta. Mas não joguemos a criança fora junto com a água suja da bacia. Nesse período, o Partido dos Trabalhadores e suas bases sociais fizeram o país avançar politicamente como nenhuma outra força de esquerda havia logrado antes.

Seria sensato ignorar tal massa crítica e, por decreto, tal como fizeram tantos articulistas, falar em ciclo encerrado? Os críticos deveriam seguir as simplificações do discurso jornalístico ou buscar outros caminhos? Não seria mais correto tentar recompor a base de centro-esquerda do atual bloco de poder? Ao furor inquisitório não é prudente exercer a crítica dialética? Ainda mais quando sabíamos que, naquele estágio, a crise antecipou o processo sucessório. Um jornal não pode ser lido com o mesmo órgão que produz seus relatos: o fígado. Isso é elementar.

O oligarca e o publisher não estavam preocupados em apurar o “valerioduto” até as últimas conseqüências, muito menos financiamentos ilegais de campanha. Se o fizessem, veriam expostas suas próprias entranhas. O que o incomodava de fato, e acirrava seus ataques, eram números como os que o IBGE divulgou em meados de 2006. Dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio (PNAD) registravam recuperação do rendimento médio da população, em queda desde 1997. Não deu chamada em dobra superior.

O nível de ocupação atingiu 56,3%, o maior desde 1996. O Índice de Gini demonstrava queda na concentração de renda, com metade da população que ganhava os menores rendimentos obtendo ganho real de 3,2%.O melhor resultado nos últimos 24 anos. Adicionemos a isso o Bolsa-Família, programa de renda familiar básica, que atende a oito milhões de famílias. Notemos, ainda, que esse não era, como continua não sendo, um governo de esquerda, até por sua composição de origem. Por injunções várias, além do transformismo, não pôde assumir plenamente as velhas bandeiras. E, no entanto, desesperou, e ainda desespera, as forças conservadoras. Por que será?

A realidade mostrou como a persistência e o acirramento da crise levaram ao vazio político. Ocioso dizer quem pode dele se beneficiar. Basta lembrar quem lucrou com aumento de tiragem e/ou de audiência.

Aos lúcidos sobrou uma saída. Abandonar palavras de ordem vazias e adotar uma postura crítica. Bem distante do socialismo de salão. Bem longe dos distintos colunistas e seu público alvo: os inconformados da classe média que, perplexos e espumantes, vêem o país mudar, incorporando novos atores. Eis o filão ao qual se apegam Fernandos, Elianes, Mervais, Noblats, Doras e Josias. Uma trilha tão desgastada como repetida. Uma total ausência de plano de vôo.

http://www.agenciacartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3577&boletim_id=281&componente_id=5380

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terça-feira, maio 01, 2007

A Dor da Gente não sai no Jornal?

Da coluna do Carlos Brickmann, na edição 425 do Observatório da Imprensa:

O valor do pobre

Deve ser falha deste colunista, claro: não é possível que o silêncio da mídia seja tão absoluto diante de um caso tão grave. Mas, mesmo que este colunista não esteja pesquisando direito, cadê o barulho que devia estar ocorrendo?

Em 11 de fevereiro, um pedreiro de São José dos Campos (SP), Donizete de Paulo, brigou com a esposa e foi levado ao plantão do 1º Distrito Policial. Duas horas depois, foi encontrado morto na cela. Como no caso do jornalista Vladimir Herzog, embora não houvesse altura para tanto, morreu enforcado.

Não há falta de fontes para reportagem. Há o delegado de plantão, o delegado titular, o delegado seccional, o delegado geral, o secretário da Segurança. Há o presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB, o advogado Mário de Oliveira Filho, que está acompanhando o caso. Como explicar, então, o silêncio ensurdecedor sobre o caso? Vida e morte de gente pobre não vale reportagem?

http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=425CIR001

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quinta-feira, abril 12, 2007

Do Observatório da Imprensa: Imprensa e Polícia de Terceiro Mundo

Edição 422 de 27/2/2007
www.observatoriodaimprensa.com.br
URL do artigo: www.observatoriodaimprensa.com.br

SEGURANÇA PÚBLICA
Imprensa e polícia de terceiro submundo

Fernando Soares Campos

O Globo de domingo (25/2), chama, na primeira página: "Mulher de Mantega culpa economia pela violência". Porém, a matéria trata de uma sugestão que Eliane Mantega, psicanalista, mulher do ministro do Planejamento, teria feito, indicando medidas que poderiam amenizar a violência e a pobreza no nosso país: "O que é preciso é que o Brasil melhore a polícia e a economia, como forma de reduzir a pobreza e a violência."

Nesse caso, até que não seria desonesto dizer que a mulher do ministro "culpou" a polícia pela violência e responsabilizou a economia pela pobreza que assola o país há séculos. Entretanto, espero que, caso o ministro dos Esportes proponha maiores incentivos ao setor, como forma de contribuição para a paz social, O Globo não alegue que ele está culpando as atividades desportivas pela violência; pois foi isso que fez com a declaração da dra. Eliane Mantega em relação à política econômica do governo.

Relendo, na internet, matérias de diversos jornais sobre o caso do menino João Hélio, arrastado pelas ruas da Zona Norte do Rio de Janeiro, não encontrei qualquer especulação incisiva a respeito de investigações sobre quadrilhas receptadoras de carro roubado. Parece que os repórteres não se interessam em cobrar, insistentemente, do delegado Hércules Pires do Nascimento informações de como andam as investigações que levariam a polícia a possíveis compradores do Corsa sedan de propriedade da mãe da vítima.

Semana de "comoção"

Muitos desses carros são roubados por encomenda. Por que os ladrões foram presos tão rapidamente enquanto intrujões do ramo permanecem soltos e nada indica que se chagará a eles? Qual seria o destino do carro? Em que galpão seria desmanchado? A partir daquele crime, existem chances de desbaratar alguma quadrilha especializada no ramo automotivo?

Não temos resposta para essas questões, mas encontrei inúmeras referências enfáticas à "formação de quadrilha" por parte dos meliantes pés-de-chinelo que executaram o assalto, numa noite tenebrosa, e arrastaram uma criança por sete quilômetros, atravessando quatro bairros, numa área muito movimentada, sem ter passado por um só policial. Contudo, até que entendo este detalhe, pois a polícia, mais que qualquer cidadão, conhece o seu território, e, por isso mesmo, não deve estar disposta a se expor a um ambiente tão perigoso! Ainda mais àquelas horas da noite!

Alguém acredita que aqueles trouxas apresentados como únicos responsáveis pela tragédia agiam por conta própria? Ora, até trombadinha da Central conta com apoio "logístico"! Mas a população já teve sua semana de "comoção". Outra será produzida muito em breve; receptadores manterão seus negócios; e pés-de-chinelo estarão a postos no próximo sinal vermelho.

Calcula-se que apenas 8% dos homicídios cometidos no Brasil são apurados, e destes, apenas 2% vão a julgamento. Considerando-se que ocorrem cerca de 45 mil homicídios por ano no nosso país e... (Bom, deixa como está, não há mais o que se considerar. Quem ainda se indigna com as estatísticas que revelam o estado de guerra civil no nosso país, se quiser exercitar-se através de uma simples regra de três, pode fazer as contas e conferir os números da impunidade.)

Apenas em dez estados brasileiros, cerca de 30 mil policiais estão envolvidos em algum tipo de crime. A metade dos casos tem relação com de roubo de carros, de carga, seqüestro e tráfico de drogas.

Pressa estranha

Além de inconformado com a criminalidade alarmante a que estamos expostos, passíveis de nos tornarmos as próximas vítimas, já começo a me indignar com o clima de "comoção pública" promovido pela imprensa espetaculosa. Por que essa imprensa opinativa, cheia de adjetivações, se acomoda com informações oficiosas sobre investigações policiais, sem qualquer contestação?

Pode-se acreditar em tudo que autoridades policiais falam sobre a apuração de um crime de homicídio em tempo recorde com o inquérito concluído em nove dias? É estranho que um inquérito seja remetido à promotoria com algumas pendências, como, por exemplo, impressões digitais, mesmo dispondo de tempo suficiente para obter tais dados. Inquérito remetido pelo delegado e aceito pela promotoria. Tudo em o clima de "comoção pública". Por que tanta pressa? Isso só alimenta a "abrangente" cobertura midiática.

Impressões digitais não interessam

O delegado Hércules Pires do Nascimento espera a chegada de dois laudos técnicos até sexta-feira (23/2) para encaminhar o inquérito sobre a morte do menino João Hélio Fernandes Vieites, de 6 anos, ao Ministério Público (G1, o portal de notícias da Globo, 17/02/2007).

Laudo sobre morte de menino é entregue. Agora só falta laudo das impressões digitais. (...) O laudo vai ser mais uma prova a indicar se os três acusados estavam dentro do Corsa prata roubado da mãe de João, Rosa Fernandes Vieites. Mas, segundo o delegado Hércules Pires, caso a presença não seja constatada, será indiferente. "Já está provada a participação deles", declarou. (G1, 22/02).

Por que tanta pressa para entregar o laudo sem a confirmação das impressões digitais?

No dia seguinte saiu a confirmação da perícia:

O delegado da 30ª Delegacia de Polícia (Marechal Hermes) Hércules Nascimento afirmou hoje que o laudo das impressões digitais, recolhidas dentro do carro que arrastou o menino João Hélio Fernandes Vieites, 6 anos, não apresentou impressões dos suspeitos do crime. No entanto, segundo Nascimento, isso não afeta o inquérito, pois existem outras provas e testemunhas que comprovam a participação dos cinco acusados (Terra Notícias, 23/02).

O delegado garante que isso não faz diferença "para a condenação" dos acusados. Claro, doutor, isso faria diferença "para absolver" possível inocente acusado de participar de um crime cujos indiciados aparecem nas telas de todas as televisões e nas páginas de todos os jornais com os rostos escancaradamente arrebentados.

"Condenação vai ser rápida"

Carlos Eduardo Toledo Lima, 23 anos, suspeito de ter dirigido o carro, declara-se inocente. Ele afirma que estava com a namorada no momento do assalto. Seu irmão, de 16 anos, assumiu a participação e diz que Carlos é inocente. Diego Nascimento da Silva, 18 anos, confessou o crime. Esses três são apontados no inquérito como ocupantes do veículo roubado; outros dois são acusados de ter dado cobertura à fuga dos assaltantes.

Durante oito anos me relacionando com milhares de adolescentes infratores acautelados, só conheci um caso em que um irmão mais velho, adulto, envolveu um irmão consangüíneo, menor de idade, num homicídio: o assassinato de um jovem na Zona Sul do Rio, crime passional, uma disputa por namorada. Casos outros devem existir, mas são raros.

Normalmente, traficantes e bandidos não admitem que seus irmãos consangüíneos menores de idade participem de suas atividades criminosas. Isso é muito fácil de se constatar e facilmente compreensível. Pode ser que neste caso tenha ocorrido um desvio da "regra".

O caso João Hélio fará parte daqueles 2% de homicídios que vão a julgamento. Decorridas apenas 18 horas da execução do crime, foram efetuadas as prisões dos suspeitos; nove dias depois, o inquérito foi concluído e enviado à promotoria. Talvez até figure entre os inquéritos mais rápidos da história da polícia. "Acredito que a condenação vai ser rápida porque foi um crime de muita repercussão. Já combinamos com o Ministério Público que se tivermos mais evidências mandaremos em separado", garantiu o delegado (G1, 23/02).

Roubo, seqüestro e tráfico

"Não tivemos acesso ao processo. O direito do advogado deve ser preservado. Isto é inconstitucional. Já oficiamos à OAB. A família dos réus está em pânico, quer saber o que está acontecendo e a gente não consegue saber nada. Vamos tentar ver o inquérito no fórum", disse Celso Salles, um dos defensores dos suspeitos (G1, 23/02).

O promotor prometeu: "O julgamento dos quatro maiores de idade acusados da morte do menino João Hélio Fernandes - arrastado por um carro no Rio - deve acontecer em menos de três meses." É o que afirmou o promotor da 1ª Vara Criminal de Madureira, José Luís Ferreira Marques, nesta sexta-feira, (Correio Web com Agência Estado, 23/02).

Quem não está acostumado com tanta celeridade da Justiça, estranha! Se a imprensa apurar a questão das digitais, se batem apenas com as da proprietária do carro e seus familiares, e também se existem as de outras pessoas não identificadas (?) e protestar, com veemência, contra a inconstitucionalidade alegada pela defesa, também estranharei.

Repeteco: Apenas em dez estados brasileiros, cerca de 30 mil policiais estão envolvidos em algum tipo de crime. A metade dos casos tem relação com de roubo de carros, de carga, seqüestro e tráfico de drogas.

É isso que se pode chamar de polícia de terceiro submundo? E a imprensa?


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sábado, fevereiro 17, 2007

Explicações

Como é possível ver, as entidades envolvidas na denúncia, Cemig e Organizações Globo, se explicam. Claro que algo assim queima na Internet como rastilho de pólvora. Agora cabe às autoridades fiscalizadoras confirmar se está realmente tudo correto.

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Do Observatório da Imprensa: A Globo Manda Resposta

Edição 420 de 13/2/2007
www.observatoriodaimprensa.com.br
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MÍDIA & POLÍTICA
O governo mineiro e a Globo - uma resposta

Jorge Nóbrega

O Observatório da Imprensa publicou em 6/2 um artigo de Daniel Florêncio com a seguinte manchete: "Governador de Minas, Aécio Neves, paga US$269 milhões da dívida da Rede Globo de Televisão na compra da Light". [Nota do OI: A matéria em questão não ganhou manchete no Observatório e tinha o título "O governo mineiro e a Globo". O texto de Daniel Florêncio comentava matéria intitulada "Governador de Minas, Aécio Neves, paga US$269 milhões da dívida da Rede Globo de Televisão na compra da Light" publicada originalmente no site NovoJornal.]

O autor propaga a hipótese de que haveria um saldo na operação de compra da Light pela Rio Minas Energia, que teria sido destinado à amortização de dívida da Globo com credores estrangeiros.

Em respeito aos leitores deste OI, a Globo esclarece que:

1.

A Globo Comunicação e Participações nunca se envolveu em nenhuma negociação financeira ou societária com a Cemig, a Light, a Rio Minas Energia ou qualquer de suas subsidiárias.

2.

A dívida da Globo Comunicação e Participações S/A foi renegociada com seus credores em julho de 2005 e está sendo paga antes de seu prazo de vencimento. Os recursos para tal são originários da venda de alguns de seus ativos não estratégicos, da geração de caixa operacional da empresa e da emissão de bonds perpétuos.

3.

Todas essas operações de pagamento foram registradas no Banco Central, tornadas públicas em press releases e constam da contabilidade e do balanço da empresa, devidamente auditados por empresas independentes.

4.

Por último, o autor levanta a hipótese que "o povo mineiro teria financiado a Globo". Essa é a única afirmativa do delirante texto que resvala a verdade. É o povo mineiro, assim como a população brasileira em geral que, com sua audiência, sustenta a Globo (assim como os consumidores de outros países que prestigiam nossos produtos). E que permite que a Globo seja uma empresa saudável e lucrativa, em condições de gerar empregos, pagar impostos e atender suas obrigações.

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Do Observatório da Imprensa: A Cemig Manda Resposta

Edição 420 de 13/2/2007
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MÍDIA & POLÍTICA
A resposta da Cemig

Luiz Henrique Michalick

O Observatório da Imprensa, do último dia 6 de fevereiro, em artigo assinado por Daniel Florêncio, reproduz e comenta matéria do site noticioso Novo Jornal, de Belo Horizonte, onde são feitas acusações infundadas relativas à participação da Cemig na aquisição de parte do controle da Light, distribuidora de energia elétrica que atende à cidade do Rio de Janeiro.

Em primeiro lugar, gostaríamos de informar que a Cemig é uma empresa de economia mista, controlada pelo Governo de Minas, com mais de 130 mil acionistas particulares do Brasil e do exterior. As ações da Cemig são negociadas na Bovespa, Bolsa de Nova York e na Latibex, divisão da Bolsa de Madri.

Com 55 anos de existência, a Cemig é referência no setor de energia elétrica nacional e goza de prestígio internacional, não apenas por sua competência técnica, mas por suas ações de responsabilidade social e meio ambiente. A Cemig é a única empresa brasileira do setor elétrico incluída no Índice Dow Jones de Sustentabilidade.

Há dois anos, a Cemig, que originalmente sempre teve as suas ações ligadas a negócios dentro do Estado de Minas Gerais, tomou a decisão de expandir para outros estados. Dessa forma, a Empresa adquiriu o controle total da Usina de Rosal, na divisa do Rio de Janeiro com o Espírito Santo, e parte do controle da TBE, empresa que opera linhas de transmissão de grande porte no Norte e Sul do País, e da Light.

Cabe ressaltar que a participação da Cemig no capital da Rio Minas Energia-RME, consórcio formado para controlar e gerir a Ligth está fundamentada e regulamentada pelo inciso XX do artigo 37 da Constituição da República. Mesmo antes de tomar a decisão de expandir seus negócios, a Empresa já vinha participando, há mais de 10 anos, em consórcios para exploração de aproveitamentos hidrelétricos, em conjunto com a iniciativa privada como os das hidrelétricas de Igarapava, Funil, Porto Estrela e Aimorés entre outras.

A Cemig tem, ainda, esse tipo de parceria envolvendo, inclusive, estatais federais, como o caso de Furnas para a implantação e operação de linhas de transmissão e uma usina, Baguari, a ser iniciada ainda este ano.

A operação de aquisição da Light foi efetivada em 10 de agosto de 2006, quando a Rio Minas Energia S.A. - RME, empresa de participações societárias (holding), adquiriu da EDF International S.A. - EDFI, afiliada da Electricité de France - EDF, 79,39% de participação na Light S.A. A RME tem como sócios, além da Companhia Energética de Minas Gerais - CEMIG, a Andrade Gutierrez Concessões S.A., o Pactual Energia Participações S.A. e o Luce Brasil Fundo de Investimento em Participações ("Luce"), cada um com 25% do capital total. A participação equivalente da CEMIG no capital da Light é, portanto, de 19,85%.

A operação envolveu a compra de 100.719.912.442 ações ordinárias de emissão da Light, que representam 75,21% do capital total. A RME adquiriu, também, a totalidade das quotas representativas do capital social da Lidil Comercial Ltda, sociedade controlada 100% pela EDFI e que detém 5.584.685.447 ações ordinárias de emissão da Light, representativas de 4,17% do seu capital total, resultando na transferência total de 106.304.597.889 ações ordinárias de emissão da Light. Ou seja, não é verdade que a RME pagou por 79,38% e recebeu apenas 75,21% das ações, conforme informa erroneamente a matéria.

O preço total da aquisição foi de R$697.953.064,46, correspondente a US$319.809.871,91, pela compra de 106.304.597.889 ações ordinárias de emissão da Light, o que representou um preço aproximado de R$6,56, por lote de 1.000 ações. Em 10 de agosto de 2006, data da conclusão da operação, o lote de 1.000 ações da Light estava cotado na BOVESPA a R$ 15,70. Atualmente essas mesmas ações estão cotadas acima de R$ 20,00 mostrando que o mercado está acreditando na nova gestão da RME para recuperar a Light.

Portanto, o negócio envolvendo a compra do controle da Light foi feito dentro de toda a legalidade, sendo discutido e aprovado no Conselho de Administração da Cemig. Todas as informações foram divulgadas conforme a legislação em vigor e regulamentações emitidas pela CVM com o objetivo de dar a necessária transparência para o mercado.

Além disso, o contrato de compra e venda de ações, assinado em 28/03/2006 entre a RME e a EDFI, foi aprovado pela Agência Nacional de Energia Elétrica - ANEEL, pela Comissão de Privatização Francesa (Commission des Participations et des Transferts), pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES e outros credores, o que permitiu a conclusão da operação em 10 de agosto de 2006.

Tendo em vista os problemas que este tipo de informação, partindo principalmente de um site conceituado como o Observatório de Imprensa, podem causar à sua imagem e reputação e que a Cemig, em momento algum foi procurada para dar a sua versão, solicitamos que nos seja oferecido espaço para que possamos dar aos leitores a oportunidade de ter acesso à verdade dos fatos.


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quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Minas Preocupa?

"04.02.07 @ 10:48 O Poder Legislativo concedeu poderes especiais ao Governante, dando ampla liberdade para promover todo tipo de mudança na estrutura do Executivo. Nesses 30 dias após a posse, o Governo já decretou 60 leis delegadas e nenhuma delas está ao alcance do parlamento. Como isso aconteceu em Minas Gerais, e quem recebeu os poderes especiais foi o Aécio Neves, então não é autoritarismo nem ditadura: é democracia."

Este é um comentário do blog de Paulo Moreira Leite: http://blog.estadao.com.br/blog/paulo/?title=mandatos_longos_e_ditaduras_na_america_l&more=1&c=1&tb=1&pb=1#comments

Por tudo o que foi publicado antes, e por este comentário acima, parece que a situação em Minas Gerais preocupa.
Também preocupa o silêncio ensurdecedor a respeito de um negócio suspeito. A notícia publicada no Novo Jornal (http://www.novojornal.com.br/politica_noticia.php?codigo_noticia=1519 ), e divulgada no blog do Jean Scharlau (http://jeanscharlau.blogspot.com/2007/02/bomba-bomba-bomba-c-b-u-m.html ).

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Do Observatório da Imprensa: O Governo Mineiro e a Globo

Edição 419 de 6/2/2007
www.observatoriodaimprensa.com.br
URL do artigo: www.observatoriodaimprensa.com.br

MÍDIA & POLÍTICA
O governo mineiro e a Globo

Daniel Florêncio

O site noticioso NovoJornal, de Belo Horizonte, trouxe em 23/1/2007 a seguinte manchete "Governador de Minas, Aécio Neves, paga US$ 269 milhões de dívidas da Rede Globo de Televisão na compra da Light". Será?

Em investigação realizada pelo site, são revelados detalhes de um negócio em que o governo mineiro, com capital da Cemig, criou uma outra empresa, a RME - Rio Minas Energia Participações S/A, a qual comprou a Light "transferindo para os fundos credores da Rede Globo (...) um crédito em ações de US$ 269 milhões, através do pagamento feito a maior que a quantidade de ações adquiridas na Bovespa pela RME - Rio Minas Energia Participações S/A, na operação de compra".

Segundo o site, quando se analisa a compra da Light pela RME com documentos da Secretaria de Acompanhamento Econômico, do Ministério da Fazenda, percebe-se que, apesar de ter pago por 79,57% das ações da Light, a RME só adquiriu 75,40%. Tal operação, de acordo com o site, é utilizada por empresas particulares para esconder ou desviar lucros, tal como quando se compra nota fria. O saldo da operação seria o destinado à amortização da dívida da Globo para com credores estrangeiros.

Toda a negociação, aparentemente, envolveu a posse do ex-presidente da holding do Grupo Globo, Ronnie Vaz Moreira, como presidente da tal RME - Rio Minas Energia Participações S/A e como diretor-financeiro da Light. Em suma, o povo mineiro, sem saber, através de sua companhia elétrica estadual, financiou o salvamento do grupo Globo, para que este agisse em favor do governador mineiro Aécio Neves.

Nesse processo, a Cemig acabou por constituir sociedade com várias empresas particulares na RME, porém sua participação é de apenas 25%. Ainda de acordo com o site, "a irregularidade na constituição da empresa é tão grande e insanável que a Junta Comercial e a Receita Federal não conseguem explicar como isto ocorreu, prometendo pronunciar-se só depois de uma profunda e detalhada investigação".

Blindagem eficiente

Como os credores da Globo nos EUA já tinham entrado com pedido de falência contra a empresa em Nova York, o pagamento da dívida teve quer ser feito dentro da contabilidade da Globo, o que acabou "deixando rastro".

O site se alonga em detalhes exaustivos da operação e cita, inclusive, dados da Justiça norte-americana, a qual, embora busque explicações da origem do dinheiro da Globo para o pagamento do seu pedido de falência, deixa um vazio justamente ao não explicar qual o mecanismo de entrada desses recursos no caixa da Globo. Não explica o X da questão.

O site dá indícios e mostra evidências fortes que devem ser apuradas pelo poder público e pela mídia. A questão é: qual mídia? Se tal operação de salvamento da Globo através de artimanhas do mercado financeiro foi realmente articulada pelo governo de Minas, por dedução explica-se a eficiente blindagem e o quase apoio institucional que o governador Aécio Neves recebe da Globo.

A Globo, por meio de seus veículos, não noticiaria ou mobilizaria a opinião pública para uma irregularidade cometida para sanear suas dívidas. Ou noticiaria? Aparentemente, também não o fariam o Grupo Abril ou o Grupo Folha, pois, segundo matéria do mesmo site ("Aécio Neves entrega Copasa às multinacionais espanholas OHL, Agbar e Capital Group, para montar campanha à Presidência", ver aqui), em operação financeira dessa vez envolvendo a Copasa, o governo de Minas acabou cedendo capital da empresa para grupos econômicos com participação nos dois grupos de comunicação.

Cabe, no entanto, aos meios de comunicação não acusados e ao poder público apurarem as denúncias de uso de capital de empresas públicas e estratégicas para o financiamento de articulações e movimentações entre políticos e grupos de comunicação.

Sugiro a este Observatório e aos profissionais de mídia investirem na apuração dessas denúncias. Seria uma nova "Sociedade dos Amigos de Plutão"? Pode ser, mas deve ser investigado para se chegar a essa conclusão. Sendo as operações irregulares ou não, e tendo realmente ocorrido, poderia tratar-se de uma manobra para obter controle sobre o que é publicado nos meios de comunicação de maior alcance no país, sobre controle dos grupos Globo, Folha e Abril. Ao financiar com dinheiro público o saneamento das dívidas do Grupo Globo, Aécio Neves se tornaria parceiro. Sócio. Ao permitir que capital da Copasa se misture com capital de grupos estrangeiros dos quais fazem parte Folha e Abril, novamente Aécio se tornaria parceiro. Sócio. Em suma, se trataria de uso de dinheiro público para fins pessoais.

Projeto de poder

A crise financeira que assolou os veículos de comunicação, associada à atual transformação no mercado de capitais e à entrada no país de novos grupos investidores em telecomunicações e tecnologia, acabou por configurar um cenário em que o grupo com maior poder de barganha, leva. Não se trata de ideologia ou projeto político, mas pura e simples lógica de mercado. Quem paga mais, leva.

Como o atual governo não o fez através de financiamento oficial do BNDES, tão discutido alguns anos atrás, Aécio, segundo o NovoJornal, o teria feito através das ferramentas que tem à mão, dispondo de capital público, pertencente aos cidadãos mineiros, para, assim, aproximar-se daqueles que divulgam idéias e para levar a si próprio e a seu grupo político à presidência da República.

Desde o início de seu primeiro mandato ouve-se falar em cerceamento da imprensa pelo governo de Minas. Em todos os veículos. Mas, se confirmadas as denúncias apresentadas pelo site, a compra da "grande mídia" no país para o benefício, impulso da imagem e conseqüente chegada à presidência de Aécio Neves se mostrará não apenas como censura ou cerceamento de idéias, mas como um profundo e bem arquitetado projeto de chegada ao poder - não só do governador, mas de todo um complexo, poderoso e influente grupo político e econômico. Será?


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