Segunda-feira, Fevereiro 01, 2010

Sobre o Golpe em Honduras e a posse de Porfírio Lobo

O GOLPE PERFEITO
A Reuters noticiou a saída de Manuel Zelaya, em título, como "vitória dos líderes do golpe". O espanhol "El País", também no título, falou em "o golpe perfeito", destacando que o chefe militar da ação foi anistiado e o presidente "de fato" virou "deputado vitalício".
O britânico "Guardian" destacou, também no título, "o golpe infeliz", dizendo que "a oposição ao golpe perdeu, mas também todos os hondurenhos", com a economia abalada pelos sete meses de conflito.




O FIM
O "NYT", sem abrir mão de citar "o golpe de 28 de junho" no texto, publicou que a saída de Zelaya e a posse de Porfírio Lobo "apontam para um fim na crise política". De qualquer maneira, "o país permanece dividido".




UM NOVO COMEÇO
O "WSJ" concentrou seu enunciado em Lobo, que "chama para um novo início" em Honduras. Entre frases sobre "conciliação", o novo presidente prometeu, como querem os EUA, instalar uma "comissão da verdade".


Trechos da coluna Toda Mídia, na Folha de São Paulo, de 29 de janeiro de 2010.


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A Democracia Americana é uma ficção útil

Democracy in America Is a Useful Fiction

por Chris Hedges*, no
Common Dreams, por indicação do Marco Aurélio

As forças corporativas, bem antes da decisão da Suprema Corte no processo Cidadãos Unidos vs. Comissão Eleitoral Federal [nessa decisão, a maioria da Suprema Corte dos Estados Unidos reduziu os limites para as doações financeiras das corporações no processo político], deram um golpe de estado em câmera lenta. O golpe acabou. Perdemos. A decisão é apenas mais uma tentativa judicial de reduzir os mecanismos de controle corporativo. Expõe o mito de uma democracia em funcionamento e o triunfo do poder corporativo. Mas não altera o quadro político. O estado corporativo está firmemente cimentado em seu lugar.

A ficção da democracia permanece útil, não apenas para as corporações, mas para nossa classe liberal falida. Se a ficção for seriamente desafiada, os liberais serão forçados a considerar a resistência, o que não será prazeroso, nem fácil. Enquanto a fachada democrática existir, os liberais podem se engajar em posturas morais vazias que requerem pequeno sacrifício ou compromisso. Eles podem ser os líderes auto-indicados do Partido Democrata, agindo como se fossem parte do debate e se sentindo vingados com seus gritos de protesto.

Muito do protesto expresso sobre a decisão da Suprema Corte é ultraje daqueles que preferem essa coreografia. Enquanto ela existir, eles não precisam se preocupar em como combater o que o filósofo político Sheldon Wolin chama de nosso sistema de "totalitarismo invertido".

Ele representa "a chegada ao período do poder corporativo e da desmobilização política da cidadania", escreveu Wolin em seu livro Democracia Inc. O totalitarismo invertido difere das formas clássicas de totalitarismo, que giram em torno de um líder demagógico ou carismático, e encontra sua expressão no anonimato do estado corporativo.

As forças corporativas por trás do totalitarismo invertido não fazem como os movimentos totalitários clássicos, que anunciam a substituição de estruturas decadentes por estruturas revolucionárias. O totalitarismo invertido supostamente honra a política eleitoral, a liberdade e a Constituição. Mas faz isso de forma tão corrupta e manipuladora das ferramentas do poder que torna a democracia impossível.

Totalitarismo invertido não é conceituado como uma ideologia, nem é tema de políticas públicas. Ele avança através de "autoridades e cidadãos que muitas vezes parecem não se dar conta das consequências de suas ações ou inações", Wolin escreve. Mas é tão perigoso quanto as formas clássicas do totalitarismo. Em um sistema de totalitarismo invertido, como a decisão da Suprema Corte ilustra, não é necessário reescrever a Constituição, como regimes fascistas ou comunistas fazem. É suficiente explorar os meios de poder legítimos através da interpretação legislativa ou judicial.

Essa exploração assegura que grandes contribuições de campanha das corporações sejam protegidas como "direito à liberdade de expressão" sob a Primeira Emenda [da Constituição dos Estados Unidos]. Assegura que a atividade lobista organizada e pesadamente financiada pelas grandes corporações seja interpretada como protegida pelo direito da população de peticionar ao governo. Aqueles que dentro das corporações cometem crimes podem evitar a cadeia pagando grandes somas de dinheiro ao governo enquanto, de acordo com a interpretação judicial, não "admitem qualquer crime". Existe uma palavra para isso. É chamado corrupção.

As corporações tem 35 mil lobistas em Washington e milhares mais em capitais estaduais para dar dinheiro, formatar e escrever leis. Elas usam os chamados comitês de ação política para obter de seus empregados e acionistas dinheiro para dar a candidatos amigáveis. O setor financeiro, por exemplo, gastou mais de 5 bilhões de dólares em campanhas políticas, ações de influência política ou lobistas na década passada, o que resultou em profunda desregulamentação, o furto de consumidores, o derretimento financeiro global e a pilhagem subsequente do Tesouro dos Estados Unidos.

Os Fabricantes e Pesquisadores Farmacêuticos dos Estados Unidos gastaram 26 milhões de dólares no ano passado e companhias como a Pfizer, Amgen e Eli Lilly deram dezenas de milhões mais para comprar os dois partidos. Essas corporações fizeram da assim chamada reforma do sistema de saúde uma lei que vai nos forçar a comprar produtos defeituosos e predatórios.

A indústria de gás e petróleo, a indústria do carvão, os empreiteiros da Defesa e as companhias de telecomunicações bloquearam a busca por energia sustentável e orquestraram a constante erosão das liberdades civis. Políticos defendem as corporações e promovem atos superficiais de teatro político para manter a ficção de que o estado democrático está vivo.

Não existe instituição nacional que possa ser caracterizada como democrática. Os cidadãos, em vez de participar do poder, podem ter opiniões virtuais sobre questões pré-determinadas, uma forma de fascismo participativo tão sem sentido quando votar no "American Idol" [o Big Brother dos Estados Unidos].

Emoções de massa são estimuladas nas chamadas "guerras culturais". Isso nos permite assumir posições emocionais em questões que são inconsequentes para a elite política.

Nossa transformação em um império, como aconteceu com Atenas e Roma, viu a tirania que praticamos no estrangeiro se transformar na tirania que praticamos em casa. Nós, como todos os impérios, fomos destruídos pelo nosso próprio expansionismo. Nós utilizamos armas de terrível poder destruidor, subsidiamos o desenvolvimento delas com bilhões de dólares de dinheiro público e somos os maiores vendedores de armas do mundo. E a Constituição, como Wolin nota, é usada "para servir aos aprendizes do poder, não como a consciência deles".

"O totalitarismo invertido inverte as coisas", Wolin escreve. "É política o tempo todo, mas largamente despotilizada. Disputas partidárias são ocasionalmente apresentadas em público e há a constante disputa entre facções de partidos, grupos de interesse, competidores corporativos e grupos de mídia rivais. E há, naturalmente, o momento culminante das eleições nacionais, quando a atenção da Nação é exigida para fazer a escolha entre personalidades, em vez de alternativas de poder. O que está ausente é o político, o compromisso de encontrar onde fica o bem comum no meio dos interesses bem financiados, altamente organizados e que com um mar de dinheiro vivo praticam a subversão do governo representativo e da administração pública".

Hollywood, a indústria de notícias e a televisão, todas controladas por corporações, se tornaram instrumentos do totalitarismo invertido. Eles censuram ou fazem ridículo daqueles que criticam ou desafiam as estruturas corporativas. Eles saturam as ondas com controvérsias fabricadas, seja [o escândalo envolvendo o golfista] Tiger Woods ou a disputa entre [os apresentadores de TV] Jay Leno e Conan O'Brien.

Eles manipulam imagens para nos fazer confundir sensações com conhecimento, que foi como Barack Obama se tornou presidente. E o controle interno empregado pelo Departamento de Segurança da Pátria, os militares e a polícia sobre qualquer forma de dissidência interna, junto com a censura da mídia corporativa, fazem pelo totalitarismo invertido o que as tropas de choque e as fogueiras de livros fizeram pelos regimes totalitários clássicos.

"Parece um replay da experiência histórica que a distorção praticada pela mídia de hoje tenha como alvo consistente as sobras do liberalismo", Wolin escreveu. "Faz-me lembrar que um elemento comum do totalitarismo do século 20, seja Fascismo ou Stalinismo, era a hostilidade em relação à esquerda. Nos Estados Unidos, a esquerda é considerada espaço exclusivo de liberais, ocasionalmente a "ala esquerda do Partido Democrata", nunca de democratas".

Liberais, socialistas, sindicalistas, jornalistas e intelectuais independentes, muitos dos quais um dia foram vozes importantes de nossa sociedade, foram silenciados ou foram alvo de eliminação dentro da universidade, da mídia e do governo controlados pelas corporações. Wolin, que foi professor em Berkeley e mais tarde em Princeton, é um dos mais importantes filósofos políticos do país. Ainda assim seu novo livro foi virtualmente ignorado. Também é por isso que Ralph Nader, Dennis Kucinich e Cynthia McKinney, assim como intelectuais como Noam Chomsky, não fazem parte de nosso discurso nacional.

A uniformidade de opiniões é reforçada pelas emoções orquestradas pelo nacionalismo e pelo patriotismo, que descrevem os dissidentes como "fracos" ou "não patriotas". O cidadão "patriota", com medo de perder emprego e de possíveis ataques terroristas, dá apoio ao monitoramento indiscriminado e ao estado militarizado. Isso significa não questionar o 1 trilhão de dólares em gastos relacionados à defesa. Isso significa manter as agências militares e de inteligência acima do governo, como se não fizessem parte dele. Os mais poderosos instrumentos do poder e do controle estatais foram removidos das discussões públicas.

Nós, como cidadãos imperiais, somos ensinados a desprezar a burocracia governamental; ainda assim, ficamos como carneiros diante dos agentes da Segurança da Pátria em aeroportos e ficamos mudos quando o Congresso permite que nossa correspondência e nossas conversas sejam monitoradas e arquivadas. Estamos sob maior controle estatal do que em qualquer outra época da História americana.

A linguagem cívica, patriótica e política que usamos para nos descrever permanece a mesma. Demonstramos lealdade aos mesmos símbolos nacionais e iconografia. Encontramos nossa identidade coletiva nos mesmos mitos nacionais. Continuamos a deificar os Pais Fundadores. Mas os Estados Unidos que celebramos é uma ilusão. Não existem. Nosso governo e nosso judiciário não tem soberania. Nossa imprensa oferece diversão, não informação. Nossos órgãos de segurança e poder nos mantém tão domesticados e amedrontados quanto a maioria dos iraquianos. O capitalismo, como entendeu Karl Marx, quando elimina o governo se torna uma força revolucionária. E essa força revolucionária, melhor descrita como totalitarismo invertido, está nos mergulhando em um estado de neo-feudalismo, guerra perpétua e repressão severa. A decisão da Suprema Corte é parte de nossa transformação, pelo estado corporativo, de cidadãos em prisioneiros.

*Chris Hedges escreve para a Truthdig.com. Ele é autor dos livros War Is A Force That Gives Us Meaning, What Every Person Should Know About War e American Fascists: The Christian Right and the War on America. Seu livro mais recente é Empire of Illusion: The End of Literacy and the Triumph of Spectacle.


Texto visto no Vi o Mundo.


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Sexta-feira, Janeiro 29, 2010

A "ocupação eterna" interessa a Israel

Porque a "ocupação eterna" interessa a Israel

Atualizado em 24 de janeiro de 2010 às 08:55 | Publicado em 24 de janeiro de 2010 às 08:42

Lieberman+Barak: animal bicéfalo

E uma 'universidade da ocupação'

23/1/2010, Uri Avnery, Gush Shalom [Grupo da Paz], Telavive


Parece ser governo de Benjamin Netanyahu. Mas não é.

Netanyahu jamais passou de vendedor ambulante de remédios. Aquele tipo que se vê nos filmes western americanos, que vende elixires que curam tudo: de gripe a tuberculose, de ataques cardíacos a miolo mole. A principal arma desse tipo de vendedor é a língua: uma catarata de palavras que inventa castelos no ar, libera bolhas luminosas e silencia qualquer dúvida.

Desde a eleição, há quase um ano, seu maior (literalmente) feito foi ter conseguido montar um gabinete: 30 ministros e um punhado de deputados, a maioria dos quais incapazes de produzir uma dúvida criativa sobre coisa alguma, alguns encarregados de ministérios para os quais foram os candidatos menos qualificados que se poderia imaginar. Dali em diante, Netanyahu só se ocupou na tarefa para a qual tem talento especial: sobreviver no mundo político.

Nesse zoológico governamental, a única criatura realmente importante chama-se [Avigdor] Lieberman, o-Barak-que-fala, o Lieberman-Barak – um monstro bicéfalo que mantém aterrorizados todos os demais animais. Esse monstro bicéfalo é 50% Lieberman, 50% Barak, 0% humano.

Quando Lieberman pela primeira vez apareceu em cena, muitos o olharam com desprezo. Tal ser, decidiram, não teria futuro na política israelense.

Por dez anos esteve sob investigação policial suspeito de prática de corrupção, de ter recebido dinheiro de misteriosas fontes estrangeiras e outros crimes.

Não bastasse, é a figura menos israelense que se possa imaginar, aos olhos de muitos israelenses. Então foi rotulado como “imigrante novo”, embora tenha imigrado há mais de 30 anos. Muitos israelenses “lêem” sua linguagem corporal e seu modo de agir e de ser como flagrantemente “não-israelenses”, um tipo de homem que “não é um de nós”. Como, então, os israelenses, de repente, elegeram tal figura?

Lieberman é colono e vive em Nokdim, uma colônia exclusiva para judeus próxima de Belém; os colonos de Nokdim não são populares em Israel. É racista declarado, odeia árabes e despreza a paz, homem cujo projeto declarado é “limpar Israel”, o que significa tirar de lá todos os árabes. Sim, há em Israel (como em todos os países) muito racismo latente, em parte inconsciente, mas esse racismo não é ostentado. Em Israel sempre foi impensável que os israelenses algum dia elegessem um racista declarado.

As últimas eleições puseram fim a essa certeza. O partido de Lieberman obteve 15 votos no Parlamento, dois a mais que o partido de Barak, e tornou-se a terceira força no Parlamento. Não poucos “verdadeiros” jovens israelenses, muitos Sabras votaram em Lieberman. Viram aí um bom destino para seus votos de protesto.

O establishment não pareceu muito chocado. OK, era apenas um voto de protesto. Em todas as campanhas eleitorais em Israel sempre aparece uma lista eleitoral de última hora, que some no dia seguinte, como o pé de hera do profeta Jonas. Onde andarão hoje todos aqueles candidatos?

Mas Lieberman não é o general Yigael Yadin, que criou o partido Dash, ou Tommy Lapid, líder do Shinui. É homem de poder brutal, sem qualquer tipo de escrúpulo, homem sempre rápido a apelar – nas palavras de Joseph Goebbels – aos instintos mais primitivos das massas.

Já se vê em Israel uma coalizão dos insatisfeitos com os furiosos, como a Bíblia diz de David, ao fugir do rei Saul: “E todos os homens que estavam em dificuldades, ou com dívidas, ou insatisfeitos também foram, e Davi se tornou o chefe deles” (1 Samuel 22:2). O grupo original de Lieberman é a comunidade de russos emigrados da ex-URSS que não foram absorvidos na sociedade israelense e que continuam a viver num gueto espiritual e social. Outros se juntam a eles: os colonos, os judeus orientais que se sentem traídos pelo partido Likud, jovens para os quais Lieberman manifesta abertamente o que eles só pensam em segredo: que os árabes devem ser expulsos do Estado e de todo o país.

Os ares não-israelenses de Lieberman são, em certo sentido, uma vantagem para ele. Alguém bem pouco israelense pode ser o líder ideal de um campo no qual se reúnem os que são movidos pelo ódio contra as “elites”, a Corte Suprema, a polícia, a imprensa e outros pilares da democracia israelense.

O fato de ser objeto de investigações policiais, também, o eleva aos olhos desse tipo de público. Crêem que esteja sendo perseguido pelas elites hipócritas. Nem a nuvem escura de suspeita que sempre acompanha Lieberman impediu Netanyahu de dar-lhe controle completo sobre dois ministérios – o ministério que controla a polícia interna e o ministério da Justiça, os dois ministérios aos quais compete preservar a lei, e que, hoje, estão entregues aos lacaios de Lieberman.

Esse perigo é terrível e não se o deve subestimar. Outros líderes históricos dessa mesma cepa, também foram ridicularizados, vistos como palhaços, antes de chegarem ao poder e a desgraça estar completa.

Mas a segunda cabeça do monstro Barak-Lieberman é ainda mais perigosa que a primeira. A metade Lieberman do monstro representa perigo futuro; a metade [Ehud] Barak do monstro representa perigo imediato e real.

Essa semana, Barak fez algo que obriga a acender mais um alarme vermelho. Atendendo a pedido de Lieberman, Barak promoveu a Escola da Colônia em Ariel ao status de universidade.

Ao contrário de Lieberman (que é “estrangeiro”), Barak é nascido no epicentro do Israel “dos velhos tempos”. Foi criado num kibutz, foi comandante no comando de elite do Estado-maior israelense, fala hebraico perfeito, com o sotaque ‘certo’. Como ex-comandante do Estado-maior e atual ministro da Defesa, Barak representa a elite do mais poderoso setor em Israel: o exército.

Lieberman ainda não conseguiu ferir de morte toda e qualquer possibilidade de fazer-se a paz, senão em discursos. Barak está agindo. Uma vez o chamei de “criminoso de paz”, como variedade de “criminoso de guerra”; hoje, já faz jus aos dois títulos.

O golpe fatal com que Barak feriu de morte as chances de paz aconteceu depois da conferência de Camp David em 2000. Relembrando, para atualizar: quando foi eleito em 1999 com ampla maioria, na onda de entusiasmo no campo da paz, e com a ajuda de slogans declaradamente pacifistas (“Mais Educação, Menos Colônias!”), Barak induziu os presidentes Bill Clinton e Yasser Arafat a reunirem-se em conferência com ele.

Com mistura típica de arrogância e ignorância, Barak acreditava que, se oferecesse aos palestinos a chance de fundar um Estado, eles abririam mão de todas as demais exigências. O que ofereceu então foi de fato mais do que seus antecessores haviam oferecido, mas ainda muito menos do que o mínimo que os palestinos poderiam cogitar de aceitar. E a conferência fracassou.

Na volta de Camp David, Barak não fez o comunicado de praxe (“Avançamos muito e as conversações continuarão”), nem algum jamais acontecido “Desculpem, errei, não tinha nem ideia do que se discutiria lá”. Em vez disso, Barak cunhou um mantra que, incansavelmente repetido depois, se tornou o centro de um consenso nacional, como se fosse verdade indiscutível:

“Levantei cada pedra que encontrei na estrada da paz. / Ofereci aos palestinos tudo que poderiam desejar. / Rejeitaram tudo. / Não temos parceiros para a paz.”

Essa declaração, feita pelo líder do partido Trabalhista, que se intitula “líder do campo da paz”, foi golpe mortal contra as forças da paz em Israel – que tanto haviam esperado de Barak. A vasta maioria dos israelenses creem hoje, de todo o coração, que “não temos parceiros para a paz”. E assim Barak abriu caminho para a ascensão ao poder, de Ariel Sharon e Benjamin Netanyahu.

Durante todo o seu governo, Barak só fez criar e ampliar colônias exclusivas para judeus. Sob suas ordens, o Oficial Comandante do Comando Central autorizou a instalação de uma estação de rádio exclusiva para os colonos judeus (mais tarde convertida em rede nacional, depois que o Grupo da Paz perdeu longa luta de oposição à ampliação dessa rádio). Nesse ponto, também agiu “como um Lieberman”. A decisão de criar a universidade Ariel exclusiva para colonos judeus encaixa-se nesse padrão.

“Mas...calma lá” – dirão as almas sensíveis. “O que tem isso a ver com Barak? Barak é ministro da Defesa, não é ministro da Educação!”

Ariel é Território Ocupado. Nos Territórios Ocupados, o exército é o único poder soberano. Barak manda no exército. A ordem para converter o Colégio Ariel, numa colônia exclusiva para judeus, em universidade Ariel exclusiva para judeus foi ordem dada por Barak ao comandante do exército em Ariel. Como disse Yossi Sarid, ex-ministro da Educação, “a Universidade Ariel é a única universidade civil, no mundo democrático, criada pelo exército”.

Em Israel, uma instituição acadêmica tem de percorrer longo caminho e satisfazer vários requisitos antes de receber status de universidade pelas autoridades competentes. Há inúmeras escolas em Israel muito mais bem qualificadas que o Colégio Ariel, e que aspiram à promoção ao status de universidades. Mas, nos Territórios Ocupados, basta que um general ordene.

Esse fato lança luz sobre fato que é invenção sem precedentes, criação completamente israelense: a Ocupação Eterna.

Regimes de ocupação são, pela própria natureza, situação precária, temporária. Há ocupação quando um dos lados em guerra conquista território do adversário. O poder ocupante passa então a governar territórios ocupados, mas deve respeitar legislação internacional específica, até o final da guerra – quando se espera que o acordo de paz decida quanto ao futuro do território ocupado.

Guerras podem durar anos, até muitos anos, mas a ocupação não se torna ‘eterna’, a menos, é claro, que alguém aceite a ideia de uma guerra eterna. Aí está: vários governos israelenses estão convertendo tanto a ocupação quanto a guerra, em situação normal, permanente.

Por quê? No início da ocupação da Palestina, o ministro da Defesa, Moshe Dayan, descobriu que a ocupação é, de fato, uma situação perfeita! Pelas suas contas, a ocupação daria à potência ocupante poder absoluto, sem qualquer dever em relação à população que viva na área ocupada, sem que nada obrigue a respeitar quaisquer direitos!

Se Israel decidisse anexar os territórios, algo teria de ser feito com os seres humanos que lá viviam. A coisa poderia complicar… Os habitantes de Jerusalém Leste, por exemplo, formalmente anexada por Israel em 1967, não ganharam a cidadania israelense; são apenas “residentes”. De fato, há muitos anos os governos israelenses temem que o mundo não reconheça como “Estado democrático”, uma Israel na qual 1/3 da população não tem qualquer tipo de direitos.

A situação de 'ocupação eterna' resolve todas essas dificuldades. Quem viva nos territórios ocupados não tem, de fato, absolutamente direito algum – nem direitos nacionais, nem direitos civis, nem direitos humanos. O governo de Israel constrói colônias exclusivas para judeus onde bem queira – o que também é expressamente proibido pelas leis internacionais. Assim como implanta colônias, agora decidiu implantar também uma universidade exclusiva para judeus. (...)

O governo espanhol já declarou boicote ao Colégio Ariel e cancelou sua participação num concurso de arquitetura que a Espanha patrocina. Espero que mais governos e instituições acadêmicas sigam esse exemplo e boicotem a nova “universidade da ocupação eterna”.

Claro, o animal bicéfalo Lieberman+Barak, não se incomoda; as duas cabeças são indiferentes a boicotes. Mas se a comunidade acadêmica israelense não se erguer contra esse tipo de prostituição dos ideais acadêmicos – a criação de uma universidade exclusiva para colonos judeus, patrocinada pelo exército de ocupação na Palestina – bem pode ser o caso de que todas as universidades do mundo devessem boicotar todas as universidades israelenses.

Texto visto no Vi o Mundo.

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Não vai dar no Jornal Nacional: Aparece uma vala comum na Colômbia com 2 mil cadáveres

Os corpos sem identificação foram depositados pelo Exército a partir de 2005

do jornal espanhol Público, sugerido por um leitor anônimo

por Antonio Albiñana, Bogotá, 26/01/2010

No pequeno povoado de Macarena, região de Meta, 200 quilômetros ao sul de Bogotá, uma das zonas mais quentes do conflito colombiano, está sendo descoberta a maior vala comum da história recente da América Latina, com uma cifra de cadáveres enterrados sem identificação, que poderia chegar a 2.000 segundo diversas fontes e os próprios residentes. Desde 2005 o Exército, cujas forças de elite estão baseadas nos arredores, depositou atrás do cemitério local centenas de cadáveres com a ordem para que fossem enterrados sem nome.

Trata-se do maior túmulo de vítimas de um conflito de que se tem notícia no continente. Seria preciso ir ao Holocausto nazista ou à barbárie de Pol Pot no Camboja para encontrar algo desta dimensão.

O jurista Jairo Ramírez é o secretário do Comitê Permanente pela Defesa dos Direitos Humanos na Colômbia e acompanhou uma delegação de parlamentares ingleses ao lugar faz algumas semanas, quando começou a se descobrir a magnitude da cova de Macarena. "O que vimos foi estarrecedor", declarou ao Público. "Infinidade de corpos e na superfície centenas de placas de madeira de cor branca com a incrição NN e com datas desde 2005 até hoje".

Desaparecidos

Ramírez acrescenta: "O comandante do Exército nos disse que eram guerrilheiros, baixas em combate, mas as pessoas da região dizem que são líderes sociais, camponeses e defensores comunitários que desapareceram sem deixar rastro".

Enquanto a Promotoria anuncia investigações "a partir de março", depois das eleições legislativas e presidenciais, uma delegação parlamentar espanhola integrada por Jordi Pedret (PSOE), Inés Sabanés (IU), Francesc Canet (ERC), Joan-Josep Nuet (IC-EU), Carles Campuzano (CiU), Mikel Basabe (Aralar) e Marian Suárez (Eivissa pel Canví) chegou ontem à Colômbia para estudar o caso e fazer um informe para o Congresso e a Eurocâmara. Para investigar a situação da mulher como vítima e os sindicalistas (somente em 2009 foram assassinados 41), também vão trabalhar em outras regiões do país.

Mais de mil covas

O horror de Macarena trouxe de volta o debate sobre a existência de mais de mil covas comuns de cadáveres sem identificar na Colômbia. Até o final do ano passado, os legistas haviam contados cerca de 2.500 cadáveres, dos quais haviam conseguido identificar 600 para entregar os corpos a seus familiares.

A localização destes cemitérios clandestinos foi possível graças a declarações dos chefes de médio escalão dos paramilitares desmobilizados, anistiados pela controvertida Lei de Justiça e Paz que garante a eles pena simbólica em troca da confissão de seus crimes.

A últimas destas declarações foi de John Jairo Rentería, o Betún, que acaba de revelar à Promotoria e aos familiares das vítimas que ele e seus sequazes enterraram "mais ou menos 800 pessoas" na fazenda Villa Sandra, em Porto Asís, região de Putumayo. "Era preciso esquartejar as pessoas. Todas as Autodefesas [grupo paramilitar] tinham que aprender isso e muitas vezes se fazia com as pessoas vivas", confessou o chefe paramilitar ao promotor de Justiça e Paz.

Notícia do Vi o Mundo.


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Quinta-feira, Janeiro 28, 2010

A Ascensão do Kibutz Capitalista

A ascensão do kibutz capitalista

Tobias Buck

As fazendas coletivas de Israel eram originalmente baseadas em ideais socialistas e igualitários. Hoje, muitas se transformaram em grandes empresas privadas

Situado em meio às colinas na região central de Israel, o Kibutz Nachshon é um aglomerado de casas simples à sombra de pinheiros e cercadas por jardins e plantações. A calma da metade do dia é quebrada apenas ocasionalmente, quando um trator se dirige de forma barulhenta para um silo de grãos ou quando crianças passam a caminho da creche.

Para um visitante casual, Nachshon passou os últimos quatro anos em meio a uma revolução social e econômica que varreu grande parte dos ideais socialistas e práticas igualitárias que marcaram este experimento em vida comunal. Os prédios e campos ainda são os mesmos, as inclinações esquerdistas ainda estão ali, assim como um senso de solidariedade. Mas em termos práticos, as vidas de moradores do kibutz como Jane Ozeri mudaram até ficarem irreconhecíveis.

Ozeri, 55 anos, chegou do Reino Unido a Nachshon há 30 anos, atraída pela mistura única de socialismo e sionismo do movimento kibutz. "Eu me apaixonei por toda esta ideia de todos serem iguais, de todos cuidando uns dos outros", ela recorda.

Ao mesmo tempo, ela trabalhava sempre que o kibutz precisava dela: na cozinha comunal, nos campos, no galinheiro ou na escola. Moradores do kibutz como ela não recebiam salário, apenas um magro estipêndio mensal que era "mais como um trocado". Em troca, a comunidade fornecia moradia gratuita, alimento, educação, roupas, atendimento de saúde, transporte e até cigarros. Se Ozeri quisesse visitar sua família no Reino Unido, a assembleia do kibutz discutia os méritos de seu caso e então votaria pelo pagamento ou não de sua passagem.

Hoje, Ozeri possui um cartão de visita que a identifica como "coordenadora global de vendas" da Aran Packaging, uma empresa que produz embalagens para líquidos para a indústria alimentícia. Localizada no kibutz e de propriedade de seus membros, a empresa conta com vendas de quase US$ 40 milhões por ano e envia seus produtos para 35 países ao redor do mundo. Ozeri recebe um salário do qual pode fazer uso livre, mas que também é consideravelmente mais alto do que aquele que é pago aos operários na linha de montagem e aos trabalhadores no campo. Ela diz que a divisão salarial na Aran é semelhante ao de outras empresas do setor privado.

A igualdade, antes no centro da ideologia do kibutz, também foi violada de outras formas. Tarefas que costumavam ser realizadas pelos moradores do kibutz independentemente de seu grau de escolaridade e formação -como lavar os pratos- são hoje realizadas por empregados contratados de fora da comunidade.

As posturas em relação aos negócios também mudaram radicalmente. Nos anos 80, os membros do Nachshon votaram contra um plano para abertura de um posto de gasolina na estrada próxima, porque forçaria os moradores orgulhosos do kibutz a "servirem" os motoristas.

Hoje, muitos dos moradores de kibutz não apenas possuem negócios prósperos -inclusive na indústria de turismo- que funcionam exatamente como outras empresas privadas, como também decidiram abraçar o mercado de capital: 22 empresas de kibutz estão atualmente listadas nas bolsas de valores de Tel Aviv, Nova York e Londres. Com vendas anuais no valor de US$ 10 bilhões de dólares (cerca de R$ 18,2 bilhões), as empresas de kibutz representam cerca de 10% da produção industrial de Israel.

A agricultura ainda é importante para a maioria dos moradores dos kibutzim, apesar de que menos do que durante seus primórdios. De fato, a mudança para a indústria que teve início nos anos 60 e 70 foi um fator importante que persuadiu os moradores dos kibutzim a mudarem de ideia: eles perceberam que uma fábrica, diferente de uma fazenda, é difícil de ser dirigida de modo igualitário. Resumindo, alguém tinha que dirigir e alguém tinha que permanecer na linha de montagem.

Mas a transformação do kibutz de bastião socialista em cooperativa capitalista é, acima de tudo, um reflexo de uma mudança muito mais ampla na sociedade israelense. À medida que o país começou a prosperar durante os anos 80, os israelenses começaram cada vez mais a abandonar o etos socialista frugal que dominou os primeiros anos do Estado.

Foi um desdobramento que não deixou os kibutzim intocados. "O kibutz nunca foi isolado da sociedade", diz Shlomo Getz, diretor do Instituto para Pesquisa do Kibutz, na Universidade de Haifa. "Ocorreu uma mudança de valores em Israel e uma mudança de padrão de vida. Muitos moradores de kibutz agora queriam as mesmas coisas que seus amigos de fora do kibutz."

Ozeri diz: "As pessoas queriam mais controle sobre suas próprias vidas e economias. Elas queriam tomar suas próprias decisões, ter seu próprio carro e seu próprio telefone. É muito difícil viver nesta forte vida comunal. É cansativo".

Enquanto essas tendências sociais ganhavam força, o movimento kibutz recebeu um golpe de nocaute de uma direção diferente. Buscando uma diversificação longe da agricultura, mais e mais moradores começaram a se interessar pela indústria, montando empresas que -frequentemente sobrecarregadas pela falta de experiência administrativa e de capital- davam enormes prejuízos.

O resultado foi uma crise de dívida, um resgate por parte do governo em 1985 e todo um reexame da filosofia econômica do kibutz.

"A sociedade israelense sempre viu os moradores de kibutz como uma elite. Mas agora eles eram considerados um mero grupo de interesse que dependia do dinheiro do Estado", diz Getz.

A resposta para o dilema -e para as dificuldades financeiras das comunidades- veio na forma da privatização -um processo que começou lentamente nos anos 90 e vem ganhando força desde então.

Nachshon, por exemplo, finalmente decidiu abandonar o coletivismo em 2006. Em um chamado "kibutz privatizado", os membros podem fazer uso livre de seus salários, mas em troca eles têm que pagar por todos os bens e serviços que o kibutz antes costumava fornecer gratuitamente.

Com frequência cada vez maior, os moradores descobriram que preferiam preparar sua própria comida, lavar sua própria roupa e ter seu próprio carro do que fazer uso das instalações comunais. Até mesmo o refeitório -antes o coração de cada comunidade, onde os membros costumavam se reunir, comer e conversar diariamente- se tornou vítima da privatização: em alguns kibutzim, a frequência caiu tanto que o refeitório foi totalmente abandonado.

Omer Moav, um ex-morador de kibutz que agora ensina economia na Royal Holloway University de Londres e presta consultoria ao ministro das Finanças de Israel, argumenta que o movimento kibutz estava destinado a fracassar. Ele funcionou, ele diz, apenas enquanto seus membros desfrutavam de um padrão de vida comparável, se não melhor, ao da média israelense. "As pessoas respondem a incentivos. Nós ficamos felizes em trabalhar arduamente para nossa própria qualidade de vida, nós gostamos de nossa independência", ele diz. "Tudo se trata da natureza humana -e um sistema socialista como o kibutz não se encaixa na natureza humana."

Mas nem todo o velho etos do kibutz desapareceu. Casas, terras e instalações de produção, por exemplo, ainda são mantidos coletivamente. Todos os kibutzim privatizados operam uma chamada "rede de proteção", que faz uso de contribuições individuais para assegurar que os membros tenham um padrão de vida mínimo -mas não mais igual. E apesar de seu número estar caindo rapidamente, dos 262 kibutzim existentes em Israel atualmente, cerca de 65 ainda funcionam do modo tradicional, enquanto 188 foram totalmente, e nove parcialmente, privatizados.

Mas poucos discordariam do resumo de Ozeri para a transformação. Em grande parte, ela diz, "nós agora somos iguais a todo mundo".

Tradução: George El Khouri Andolfato

Texto do Financial Times, reproduzido no UOL.


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Quarta-feira, Janeiro 27, 2010

Vestígios da Operação Condor na fronteira da Argentina com o Brasil

Escavações revelam detalhes da repressão na Operação Condor

Antiga fazenda na fronteira com a Argentina foi um centro de detenção clandestino para opositores de ditaduras nos anos 70

Local passou a ser usado em 1976 para que suspeitos de atuar em grupos de esquerda pudessem ser interrogados, torturados e executados

ANA FLOR
ENVIADA ESPECIAL A URUGUAIANA (RS)

Novas escavações em uma fazenda na fronteira entre Brasil e Argentina trouxeram à tona detalhes das atividades da repressão no fim dos anos 70 na chamada Operação Condor -ação das ditaduras militares dos países da América do Sul.
A Estância La Polaca, a 15 km de Paso de Los Libres (Argentina) e às margens do rio Uruguai, foi um centro de detenção clandestino para onde eram levados opositores das ditaduras. Em dezembro, a Justiça argentina determinou nova busca de corpos no local. Acredita-se que lá possam estar enterrados militantes de esquerda.
Antiga fazenda de gado, La Polaca é um local sem moradores. Sua existência como centro de detenção foi confirmada em 2005, pelo depoimento de um ex-agente de inteligência do Exército argentino, Carlos Waern. O local começou a ser usado em 1976. Para lá eram levadas pessoas suspeitas de pertencer a grupos de resistência que passavam por Uruguaiana -fronteira binacional- para ir a Brasil, Argentina e Uruguai.
Segundo a pesquisadora Sabrina Steinke, da PUC-RS, de 1976 a 1978 várias fazendas foram tomadas por empréstimo na Argentina. Serviam de prisão onde os detidos eram interrogados, torturados e executados. "A prisão clandestina de estrangeiros na Argentina mostra que esses centros não serviam apenas ao governo argentino, mas sua manutenção estava relacionada à Condor."
La Polaca surgiu na contraofensiva da ditadura argentina para deter montoneros, grupo de origem peronista que tentou fazer um levante contra o regime no país no final dos anos 70. Ao menos dois deles foram detidos pela Argentina em Uruguaiana -procedimento ilegal que a Condor tornou rotineiro.
A partir de 1978, a Argentina passou a usar os presos, depois de torturados, como "marcadores". Tornavam-se informantes da repressão e, levados à ponte onde fica a fronteira de Libres e Uruguaiana, delatavam companheiros da esquerda que tentavam cruzar de ônibus.
Lorenzo Ismael Viñas e Jorge Oscar Adur, detidos em Uruguaiana em 26 de junho de 1980, teriam sido identificados por marcadores. O desaparecimento dos dois em solo brasileiro, reconhecido pelo Brasil, é investigado pela Procuradoria da República de Uruguaiana, que pretende denunciar os responsáveis criminalmente.
Segundo depoimentos, Adur teria passado por La Polaca.

Copa
La Polaca e os outros centros podem ter sido usados para esconder do mundo a repressão no país durante a Copa de 1978. Com o campeonato, foi necessário tirar presos ou sessões de interrogação de Buenos Aires.
Em documento obtido pelo Movimento de Justiça e Direitos Humanos de Porto Alegre, a polícia argentina pede ajuda ao Brasil para "localizar e deter montoneros" que eram uma ameaça para a "tranquilidade" da Copa do Mundo. "A busca dessas pessoas, consideradas inimigas do governo, era feita em conjunto e sistematicamente", afirma Jair Krischke, presidente do movimento.

Ministério Público investiga dois desaparecimentos na fronteira

DA ENVIADA A URUGUAIANA (RS)

Com base em uma ação da Justiça italiana que responsabiliza militares sul-americanos pelo desaparecimento de militantes de esquerda de origem italiana durante as ditaduras militares, o Ministério Público Federal investiga o sumiço de duas pessoas em Uruguaiana.
No único inquérito aberto no país para apurar criminalmente ações do regime militar, o procurador da República da cidade, Ivan Cláudio Marx, solicitou à Polícia Federal a investigação do desaparecimento do ítalo-argentino Lorenzo Ismael Viñas e do padre argentino Jorge Oscar Adur.
Os dois sumiram no mesmo dia, em ônibus diferentes, quando cruzavam a fronteira entre Paso de Los Libres (Argentina) e Uruguaiana.
Os crimes ocorreram por conta da Operação Condor. O caso de Viñas, por ser de origem italiana, faz parte do processo do país europeu. A Justiça da Itália indiciou 13 militares brasileiros. Em 2007, o país pediu ajuda ao Brasil para que os acusados ainda vivos fossem julgados. Entre eles, responsáveis à época pelo SNI (Serviço Nacional de Informações) e um ex-secretário de Segurança do Rio Grande do Sul.
Tanto o caso de Viñas quanto o de Adur foram reconhecidos pelo governo brasileiro, que pagou indenização às famílias.

Notícias da Folha de São Paulo, de 25 de janeiro de 2010: 1 e 2.

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Terça-feira, Janeiro 26, 2010

Do Chile ao Brasil

Do Chile ao Brasil

A DITADURA liderada pelo general Pinochet no Chile manteve controle estrito sobre o processo de transição para a democracia, durante a década de 1980. No Brasil, pode-se dizer que os militares conseguiram manter relativo controle do processo até a eleição indireta de Tancredo Neves à Presidência, em 1985. Mas não depois disso.
Para derrotar Pinochet, os mais variados partidos de oposição fizeram um grande acordo para as eleições presidenciais de 1989. Foi um movimento que ficou conhecido como "Concertación" e que se manteve no poder por 20 anos. Até a derrota do último domingo, com a eleição do candidato de direita Sebastián Piñera.
O Brasil da redemocratização foi marcado por pelo menos dez anos de disputa selvagem entre grupos e partidos políticos, sem que nenhum deles conseguisse se impor sobre os demais. Até que a coalizão do Plano Real conseguiu impor um modelo de desenvolvimento para o país. E, como consequência, estabeleceu o PT como o líder do segundo polo do sistema político.
O curioso é que, apesar dessa polarização a partir de 1994, também o Brasil acabou por construir a sua Concertación. Os 16 anos de Lula e FHC representam o estabelecimento de um acordo de base extenso e detalhado entre os dois polos da política brasileira. A tal ponto que vai ser difícil ver reais diferenças entre as campanhas de Serra e de Dilma, por exemplo.
No último domingo, a Concertación no Chile foi derrotada duplamente. Em primeiro lugar, por Marco Enriquez-Ominami, candidato de 36 anos que alcançou nada menos que 20% dos votos no primeiro turno das eleições presidenciais. Saído do interior da Concertación, Ominami posicionou-se à esquerda do candidato da situação.
Sua votação mostrou que o modelo chegou a seu limite.
A Concertación chilena foi derrotada também porque sua estratégia de longo prazo para neutralizar a direita se esgotou. A ideia de incorporar seletivamente ao grande acordo temas e grupos da direita deixou de funcionar. O eleitorado optou pela polarização e acabou dando a vitória a uma direita que ainda mantém laços e bases importantes no período Pinochet.
Ao dizer que nas eleições de 2010 não haverá candidaturas truculentas, Lula apenas colocou em palavras a Concertación brasileira. Também usa todo o seu poder para manter essa Concertación sob a forma curiosa da polarização PT-PSDB. Pode ser que ainda dure algum tempo. Mas o fato é que, se não fizer nada para mudar, a Concertación brasileira estará se preparando tanto para o seu Ominami como para o seu Piñera.

Texto de Marcos Nobre, na Folha de São Paulo, de 19 de janeiro de 2010.


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Segunda-feira, Janeiro 25, 2010

Democracia no Haiti

O Brasil deve defender a democracia no Haiti

MARK WEISBROT

MUITO TEMPO antes do terremoto, a situação do Haiti já era comparável à de muitos sem-teto nas ruas de grandes cidades dos EUA: pobres demais e negros demais para ter os mesmos direitos concretos que outros cidadãos.
Em 2002, quando um golpe militar que teve o apoio dos EUA afastou temporariamente o governo eleito da Venezuela, a maioria dos governos no hemisfério reagiu rapidamente e ajudou a forçar o retorno do governo democrático. Mas, dois anos mais tarde, quando o presidente haitiano democraticamente eleito, Jean-Bertrand Aristide, foi sequestrado pelos Estados Unidos e levado de avião para o exílio na África, a reação foi fraca.
Diferentemente dos dois séculos de saque e pilhagem do Haiti desde sua fundação graças a uma revolta de escravos em 1804, da ocupação brutal por fuzileiros navais dos EUA entre 1915 e 1934 e das incontáveis atrocidades cometidas sob ditaduras auxiliadas e apoiadas por Washington, o golpe de 2004 não pode ser relegado ao esquecimento, visto como nada mais que "história antiga". Aconteceu há apenas seis anos e é diretamente relacionado ao esforço de ajuda e reconstrução que o presidente Obama está propondo agora.
Os Estados Unidos, ao lado de Canadá e a França, conspiraram abertamente durante quatro anos para derrubar o governo eleito do Haiti, cortando quase toda a ajuda internacional ao país com o objetivo de destruir sua economia e torná-lo ingovernável. Eles conseguiram.
Para aqueles que se indagam por que não existem instituições governamentais haitianas para ajudar com os esforços de socorro e ajuda às vítimas do terremoto, essa é uma das grandes razões. Ou o porquê de haver 3 milhões de pessoas amontoadas na área atingida pelo terremoto.
A política dos EUA ao longo dos anos também ajudou a destruir a agricultura haitiana, por exemplo, ao forçar a importação de arroz americano subsidiado e eliminar milhares de plantadores de arroz haitianos.
O primeiro governo democrático de Aristide foi derrubado após apenas sete meses, em 1991, por oficiais militares e esquadrões da morte que, mais tarde, se descobriu estarem a soldo da Agência Central de Inteligência dos EUA. Agora Aristide quer retornar a seu país, algo que a maioria dos haitianos reivindica desde sua derrubada.
Mas os EUA não o querem ali. E o governo Preval, que é completamente dependente de Washington, decidiu que o partido de Aristide -o maior do Haiti- não será autorizado a concorrer nas próximas eleições (previstas originalmente para fevereiro).
O medo que Washington tem da democracia no Haiti talvez explique o porquê de os Estados Unidos agora estarem enviando 10 mil soldados e priorizando a "segurança", em lugar das necessidades de vida ou morte dos milhares de pessoas que precisam de atendimento médico urgente.
Na manhã de domingo, o mundialmente renomado grupo humanitário Médicos Sem Fronteiras queixou-se que um avião transportando sua unidade hospitalar móvel foi obrigado pelos militares americanos a mudar de rota, passando primeiramente pela República Dominicana. Isso custaria 24 horas cruciais e um número desconhecido de vidas.
Essa ocupação militar por tropas dos EUA vai suscitar outras preocupações no hemisfério, dependendo de quanto tempo elas permanecerem -assim modo como a ampliação recente da presença militar dos Estados Unidos na Colômbia vem sendo recebida com insatisfação e desconfiança consideráveis.
Organizações não governamentais vêm levantando outras questões sobre a reconstrução proposta: compreensivelmente, querem que a dívida remanescente do Haiti seja cancelada e que sejam feitas doações ao país, e não empréstimos (o FMI propôs um empréstimo de US$ 100 milhões). As necessidades da reconstrução chegarão a bilhões de dólares.
Será que Washington vai incentivar o estabelecimento de um governo que funcione? Ou vai impedi-lo, canalizando a assistência por meio de ONGs e assumindo ele próprio várias outras funções, devido a sua oposição de longa data à autonomia do Haiti?
O Brasil não segue a linha de Washington na América do Sul nem, mais recentemente, o fez em Honduras, "quintal" dos Estados Unidos -onde o governo brasileiro defendeu em vão a restauração da democracia após o golpe de 28 de junho, e a administração Obama, não.
Por que não defender a democracia também para o Haiti, mesmo que Washington seja contra?


MARK WEISBROT, doutor em economia pela Universidade de Michigan, é codiretor do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas, em Washington ( www.cepr.net ). Tradução de Clara Allain .

Texto publicado na Folha de São Paulo, de 19 de janeiro de 2010.

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Quinta-feira, Janeiro 21, 2010

Cuba e Alemanha

Revolução Cubana e Alemanha reunificada

DOIS LIVROS do historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira acabam de ter nova edição: "A Reunificação da Alemanha" e "De Marti a Fidel". O título do primeiro livro é autoexplicativo; o do segundo é uma análise da Revolução Cubana até hoje.
O que há de comum entre os livros é o fato de os dois países terem vivido a experiência do estatismo ou do socialismo real; o que há de diferente é o fato de que, na antiga Alemanha Oriental, como nos demais países do Leste Europeu, não há mais comunismo, enquanto em Cuba o regime autoritário continua forte. Como explicar esse fato?
Moniz Bandeira naturalmente não se coloca essa questão, mas é possível perceber sua atitude favorável a Cuba e contrária à experiência comunista na Alemanha. No prefácio à segunda edição de "De Marti a Fidel", ele ressalta a violência dos EUA em relação ao regime cubano, as tentativas explícitas de sua desestabilização e, depois que Fidel Castro, doente, se afastou do governo, o número de vezes que a diplomacia e o sistema de inteligência americano "mataram" Fidel e o regime. Por que essa diferença de atitude?
Há uma diferença fundamental entre os países do Leste Europeu e Cuba. Naqueles países, inclusive na Alemanha Oriental, não houve uma revolução de independência nacional após a Segunda Guerra Mundial, mas sua submissão forçada ao imperialismo da União Soviética, enquanto, em Cuba, o imperialismo anterior e posterior à revolução foi sempre dos EUA, e a Revolução Cubana foi uma revolução de libertação nacional, que, depois, buscou se associar à União Soviética.
Isso faz uma imensa diferença, porque os europeus, ao se livrarem do comunismo, estavam se livrando também de uma potência imperial vizinha, enquanto os cubanos, se decidirem terminar sua experiência de socialismo real, provavelmente alienarão sua independência real aos Estados Unidos. A "democracia" significará o retorno ao poder das elites anticastristas de Miami.
Entretanto o fracasso do sistema comunista na Europa oriental, como o colapso da União Soviética, foi também um fracasso econômico. O sistema planejado revelou-se incapaz de coordenar com eficiência sistemas econômicos que já haviam ultrapassado o estágio da industrialização pesada e requeriam a criatividade e a inovação que só os mercados garantem. Conforme afirma Moniz Bandeira no final de seu livro sobre Cuba, "o que a Revolução Cubana promoveu, não obstante alguns dos seus feitos, como a melhoria dos níveis de saúde, baixando significativamente a mortalidade infantil, e a eliminação do analfabetismo, foi a socialização da pobreza".
Não será esse fato que levará também a experiência cubana ao fracasso? É possível. No momento, os cubanos estão apostando na via chinesa, ou seja, na abertura para o capitalismo antes da abertura para a democracia. Na China, a estratégia foi bem-sucedida; em Cuba, as condições são muito diferentes e as resistências ao aumento das desigualdades que essa opção representará são grandes, mas é preciso aguardar.
O que é certo é que os cubanos não querem novamente se subordinar aos EUA e às elites cubanas corruptas e autoritárias que os americanos apoiam. Querem o desenvolvimento econômico e a democracia e sabem que a dependência em relação ao vizinho não é o melhor caminho nessa direção. Será o chinês? Ou haverá uma alternativa de desenvolvimento independente, mas democrática? Apenas os próprios cubanos poderão responder a tais perguntas.

Texto de Luiz Carlos Bresser-Pereira, na Folha de São Paulo, de 18 de janeiro de 2010.


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A Força Unilateral do Bem

Assim o Comando Militar Sul dos Estados Unidos propagandeia sua própria atuação em 2009

"Virtualmente todos os povos com vizinhos mais fracos atacaram e saquearam os vizinhos e quando possível os subjugaram, às vezes os dizimaram. Competição por poder e riqueza sempre esteve interligada com as outras forças que movem a História". Victor Kiernan em Impérios e Exércitos Coloniais, 1815-1960.

por Luiz Carlos Azenha

Diz-se, nos Estados Unidos, que a política externa de Washington é ditada pelas necessidades domésticas do ocupante da Casa Branca. É verdade.

O presidente Barack Obama acaba de resgatar George W. Bush das trevas para encarregá-lo, ao lado de Bill Clinton, de liderar uma campanha nacional para levantar fundos e dirigir a aplicação do dinheiro no Haiti.

Os Estados Unidos são o único país do mundo com o poder logístico suficientemente sofisticado para atender aos milhões de haitianos que tiveram as vidas completamente devastadas por um terremoto. Dispõem de alta tecnologia, de Forças Armadas numerosas e do poder político necessário para deslocá-las para qualquer parte do mundo.

O constrangimento a que o Brasil foi submetido nas últimas horas é natural em circunstâncias extraordinárias como as atuais. Washington pode deslocar com facilidade 10 mil soldados para o Haiti em algumas horas, mais do que todo o contingente da Missão de Estabilização das Nações Unidas, a Minustah, presente no país.

O Exército americano dispõe de tradutores, de equipamento e de provisões para cumprir todas as tarefas necessárias em um desastre como o do Haiti, ou pelo menos cumprí-las melhor que uma tropa da ONU que fala diversos idiomas, tem dificuldades para se comunicar em francês com os haitianos ou não dispõe de um porta-aviões com aeronaves que facilitam o transporte.

Mais do que isso, é preciso considerar que o Pentágono passou a enfatizar as ações humanitárias para dar cobertura ao seu envolvimento na política interna de seus vizinhos de Hemisfério.

Durante o governo de George W. Bush, houve um deslocamento da política externa dos Estados Unidos dos diplomatas do Departamento de Estado para os militares e os formuladores do Pentágono, com grande ênfase em ações humanitárias. Os fuzileiros navais desembarcariam não mais para trocar governos ou matar a população civil, mas em nome de salvá-las de desastres naturais, ecológicos, caos social ou outras emergências do gênero.

Os dois maiores projetos militares dos Estados Unidos para a América Latina são apresentados com um tom humanitário e/ou policial: o combate ao narcotráfico na Colômbia e a Iniciativa Mérida, no México.

Para combater as consequências da desigualdade social resultante da política de governos que tiveram o apoio dos Estados Unidos, Washington não prega reformas econômicas ou sociais, nem o atendimento das demandas políticas da população local. Propõe uma política salvacionista, que aprofunda a dependência das elites locais da benesse dos Estados Unidos.

Podem chamar de imperialismo com outro nome. É este o sentido da oposição dos Estados Unidos a Hugo Chávez: o presidente venezuelano representa o ressurgimento do nacionalismo na América Latina e a pregação dele em defesa da soberania local se contrapõe diretamente ao controle dos Estados Unidos sobre o hemisfério que é extensão do território estadunidense.

Embora Washington tenha se "distraído" durante o governo Bush com aventuras militares no Oriente Médio, razão pela qual concordou em dividir com o Brasil algumas das atribuições de patrulhar a América Latina, os formuladores da política externa americana se deram conta de que é preciso assumir o controle regional, especialmente num quadro de escassez de recursos energéticos, da invasão de sua zona de influência por paises como a China e a Rússia e da ascensão de um modelo alternativo expresso por Chávez-Morales-Correa.

Chávez está sentado sobre gigantescas reservas de petróleo. Morales, sobre gigantescas reservas de gás. Correa desmantelou uma base militar importante para os Estados Unidos na costa da América do Sul.

É nesse quadro que devemos entender o comportamento dos Estados Unidos em Honduras, na ampliação de sua presença militar na Colômbia e agora, diante do terremoto no Haiti.

A proposta do presidente francês Nicolas Sarkozy de uma reunião entre Brasil, França e Estados Unidos para discutir o futuro do Haiti foi descartada por Washington em um primeiro momento.

Para se contrapor ao controle dos Estados Unidos sobre a América Latina o Brasil tem tentado atrair a França para uma parceria militar estratégica. A França, além de ter um território ultramarino na América do Sul, a Guiana Francesa, tem interesses no Caribe (Martinica, Guadaloupe, San Martin) e uma história (trágica) no Haiti.

Para além dessas considerações geopolíticas, no entanto, é preciso considerar a política doméstica dos Estados Unidos.

Barack Obama, depois de aprovar uma reforma do sistema de saúde que reduziu a sua aprovação interna junto ao eleitorado, especialmente depois de ter usado bilhões em dinheiro público para resgatar os bancos -- 117 bilhões de dólares, pelas contas da Casa Branca --, precisa urgentemente de "vitórias políticas" que sustentem a coalizão que pode levá-lo à reeleição.

No Haiti, ele só tem a ganhar. Primeiro, por se tratar de uma ação humanitária que poderá reconstruir a imagem dos militares dos Estados Unidos diante do mundo ocidental -- depois dos desastres que resultaram da invasão do Iraque e do escândalo da tortura em Guantánamo e outras instalações.

Segundo, pela demonstração de interesse pelo destino de milhões de negros como ele, Obama, embora seja conveniente esquecer aqui que eles são vítimas de regimes políticos que tiveram pleno endosso dos Estados Unidos -- Papa Doc e Baby Doc, os ditadores do Haiti, foram anticomunistas sanguinários que serviram quando foi preciso conter a "infecção" cubana.

O presidente "populista" e "autoritário" do Haiti, Jean Bertrand Aristide, foi uma espécie de Hugo Chávez antes-da-hora: foi eleito justamente quando as políticas neoliberais propostas por Washington como saída para a América Latina estavam no auge. Talvez isso ajude a explicar porque ele curte exílio na África do Sul e o partido dele foi banido no Haiti.

Ao resgatar George W. Bush das trevas, Obama agora pode posar de "caminho do meio" diante do eleitorado dos Estados Unidos, como homem que não guarda ressentimentos, que coloca o interesse humanitário acima das disputas políticas. Num quadro político altamente polarizado como é o dos Estados Unidos hoje, o presidente fica bem na fita tanto com republicanos moderados quanto com a centro-esquerda do Partido Democrata da qual havia se afastado para salvar os banqueiros. Coloca os pés firmemente no centro político, entre George W. Bush e Bill Clinton, onde estão os independentes sem os quais jamais conseguirá se reeleger.

Obama resgata George W. Bush da mesma forma que resgata os haitianos e será o caudatário da gratidão de ambos. Através dos dois ex-presidentes, que com certeza levantarão milhões de dólares para aplicar no Haiti, os Estados Unidos farão esse resgate dentro de um modelo político e econômico aceitável para seus próprios interesses.

Nesse momento, não interessa a Washington atuar através da ONU ou de supostos parceiros. Faz muito mais sentido para o governo dos Estados Unidos, tão castigado nos últimos anos pelo recurso unilateral à força para matar, saquear e controlar outros povos, agir agora como uma força unilateral do bem.

O futuro do Haiti pertence ao Clinton-Bush Fund e ao Comando Militar Sul dos Estados Unidos.

PS: Para quem quer ajudar o Haiti a melhor forma de fazê-lo agora é através de doações em dinheiro para órgãos vinculados às Nações Unidas, como essa conta da Caixa Econômica Federal.

Texto do Vi o Mundo.

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Bolsa Família: uma obra para a história

Prestes a deixar o cargo – para ser candidato a candidato ao governo de Minas Gerais pelo PT – o Ministro do Desenvolvimento Social Patrus Ananias deixa em seu currículo a montagem do mais bem sucedido programa social do país – depois do SUS (Sistema Único de Saúde) -, o Bolsa Família, considerado o mais bem sucedido programa de massificação de políticas sociais já tentado no mundo.

Levará algum tempo para se produzir a obra definitiva sobre o programa, os desafios iniciais, a consolidação do corpo técnico, a montagem das redes com movimentos sociais, prefeituras, demais ministérios, para o feito de levar políticas compensatórias a 50 milhões de pessoas, 12 milhões de famílias, um quarto da população brasileira.

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Antes do Bolsa, os teóricos de políticas sociais se dividiam em duas linhas. De um lado os focalistas, especialistas em indicadores e estatísticas que centravam seus estudos na identificação dos segmentos mais necessitados da população. De outro lado, os universalistas, defensores das políticas sociais universais.
Havia uma dissonância invencível entre eles. As técnicas estatísticas são fundamentais para se conseguir otimizar a aplicação dos recursos. Mas o discurso focalista era utilizado para impedir a ampliação dos gastos sociais.

Por outro lado, os universalistas, embora mais generosos na distribuição de recursos, tendiam a considerar que qualquer forma de controle e acompanhamento prejudicaria os objetivos finais dos programas sociais.

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Oriundo dos movimentos sociais, mas com uma passagem executiva como prefeito de Belo Horizonte, Patrus soube juntar o que de melhor havia nas duas linhas.

Dos focalistas trouxe o maior nome – o técnico do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômico Aplicadas) Ricardo Paes de Barros, referência internacional – e as técnicas para hierarquizar a pobreza, permitindo chegar de forma mais eficiente nos segmentos de miséria absoluta. Dos universalistas, trouxe a convicção de que políticas sociais têm que ser universais – mas sem abdicar da ciência dos indicadores e acompanhamentos.

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O passo seguinte foi definir as prioridades dos programas sociais. O MDS toca vários programas, do Bolsa Família aos Benefícios Continuados (como aposentadoria para idosos). Mas o desafio maior, o ponto inicial de qualquer política social, é o atendimento da mais básica das necessidades, a fome. Esse foi o foco, que fez com que o programa substituísse seu antecessor, o desastrado Fome Zero.

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O desafio seguinte era montar a rede de parceiros, para garantir a estrutura mais enxuta possível na sede. O programa é tocado por 1.500 pessoas, estrutura mínima para a população atendida.

Na ponta recorreu-se aos movimentos sociais e, especialmente, às prefeituras – incumbidas de cadastrar os beneficiários. Para prevenir fraudes, foram montados convênios com Ministérios Públicos Federal e Estaduais, visando a criminalização das fraudes. Depois, tratou-se de fortalecer os conselhos municipais e regionais.

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Ainda há um longo caminho pela frente. Mas caminha-se para a constituição de uma rede social, um processo em construção, que tornará o programa irreversível.

Coluna do Luís Nassif.


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