segunda-feira, dezembro 27, 2010

Bancos, crimes e contravenção

Bancos, crimes e contravenções


O VEXAME da grande finança mundial não tem fim. Não obstante, o pessoal do dinheiro grosso continua por cima da carne seca, "business as usual". Ou, como escreveu Paul Krugman, que entende um pouquinho mais disso do que quase todos nós: "Os fundamentalistas do livre mercado estavam errados sobre tudo -mas agora dominam completamente a cena política [americana]" ("Quando os zumbis ganham", ontem, no "New York Times").
A começar pelo vexame mais divertido, a China reafirmou seu "compromisso" de ajudar os países quebrados ou semiquebrados da Europa. Os chineses estão comprando e vão comprar mais títulos da dívida de Grécia, Irlanda, Portugal e de outros países que foram para o vinagre ou estão à beira de ir para lá. Ou seja, a China empresta dinheiro para governos falidos da Europa, o que por sua vez ajuda a aliviar a situação de parte da banca europeia, pendurada na dívida desses países.
Por falar nisso, mais ou menos desde maio o Banco Central Europeu (BCE) financia esses bancos e governos quebrados -mais uma vez os bancos transferiram os riscos de sua incompetência para o público.
Note-se que bancos centrais não existem para financiar a dívida de governos, menos ainda de governos quebrados, o que é ainda mais escandaloso em se tratando do BCE, cheio de ares de ortodoxia e autoproclamado juiz da irresponsabilidade fiscal do mundo.
Mas, "princípios, princípios, negócios à parte". Se o BCE deixasse os juros da dívida grega, irlandesa e portuguesa (e espanhola, italiana...) explodirem, governos faliriam de vez, à vera. Haveria tumulto geral, mais bancos quebrados (aqueles que a Europa dizia serem "saudáveis" antes de a Irlanda ir à lona). O euro poderia entrar em colapso.
A novidade agora é a mãozinha interessada do novo império, a China, que ajuda o seu maior freguês. A China, sim, senhor, da heterodoxa economia ditatorial de mercado.

BANCOS DE CRIMES
A promotoria do Estado de Nova York acusa a Ernst & Young de ajudar o Lehman Brothers a cometer "maciça fraude contábil". O Lehman era o quarto maior banco de investimentos dos EUA. Quebrou em 2008 e quase arrastou o mundo com seus negócios ineptos com títulos imobiliários e excesso de endividamento. A promotoria de Nova York diz que a megaempresa de auditoria ajudou o bancão a esconder dívidas de dezenas de bilhões de dólares, enganando o mercado. Uma maquiagem de balanço, mais uma.
Lembre-se de outra onda de fraude sistêmica, a da bolha dos anos 1990, explodida em 2001. Com a ajuda de bancos de investimento, de agências de risco e de auditores (Arthur Andersen), empresas fraudavam o público e contratos. Foi o caso de Enron, WorldCom, Tyco, GlobalCrossing, Lucent e Adelphia, entre muitas outras. A fraude inflou a bolha, que inflou a fraude. Há mais.
O Deutsche Bank, maior banco da Alemanha, vai pagar US$ 553,6 milhões (R$ 935 milhões) a fim de evitar um processo criminal em que é acusado de ajudar americanos ricos a fraudar o Imposto de Renda.
Em fevereiro de 2009, o UBS, o maior banco da Suíça, admitiu que prestava serviços de fraude para clientes americanos e que fazia parte de uma quadrilha com o objetivo de fraudar a Receita dos EUA.

Texto de Vinicius Torres Freire, na Folha de São Paulo, de 22 de dezembro de 2010.

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terça-feira, novembro 30, 2010

Capitalismo ou crueldade?

Capitalismo ou crueldade?

LONDRES - A crise irlandesa, talvez mais que qualquer outra, é uma contundente demonstração de que há algo de profundamente errado no capitalismo de predominância financeira.
 
A Irlanda cresceu uma barbaridade de 1995 a 2007 (6% ao ano na média). Cresceu em boa medida ao amparo de um "boom" imobiliário. Aí veio a crise de 2008 e seus bancos quebraram, todos. Haviam financiado descuidadamente construtoras e compradores.
 
Consequência, para resumir a história: o governo estatizou os prejuízos da banca, mas manteve privados os lucros, o que é, de resto, história recorrente na crise de 2008. Contando todos os tipos de ajuda, inclusive as europeias, formaram uma colossal pilha de 286 bilhões (R$ 672 bilhões), uns 170% do PIB irlandês.
 
Cada cidadão doou aos bancos, involuntariamente, 63 mil. Uma barbaridade.
 
Claro que as contas públicas -déficit e dívida- estouraram sem contemplação. O déficit só das operações normais do governo já é brutal (12% do PIB). Contando a ajuda à banca, vai a incríveis 32%.
Agora vem a cobrança. Os próprios mercados que financiaram a farra elevam brutalmente o juro que exigem para rolar os títulos da dívida, ameaçam quebrar o país e, por extensão, danificar seriamente (ou fatalmente) o euro, a segunda moeda de reserva do planeta.
 
Os engenheiros de obra feita ainda ficam dizendo que os irlandeses é que são culpados, porque consumiram demais. É verdade, mas o capitalismo não é, essencialmente, consumo? Toda a propaganda, no mundo inteiro, pede, exige, insinua que bom sujeito não é quem não consome. Para consumir, é preciso renda e crédito, mais crédito que renda.
 
Os irlandeses foram, portanto, capitalistas até o mais fundo d'alma. Agora, o capitalismo ameaça devorar o bom aluno. Cruel.



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terça-feira, outubro 05, 2010

A crise política do ajuste europeu

Enquanto os sindicatos celebram o Dia Anti-Austeridade na Europa, os neoliberais europeus elevam a aposta:

A maior parte da imprensa descreveu as manifestações e greves europeias de quarta-feira em termos do exercício habitual dos trabalhadores nos transportes a irritarem viajantes com diminuições de velocidade no trânsito e grandes multidões a despejarem sua ira lançando fogos. Mas a história é muito mais profunda do que simplesmente uma reacção contra o desemprego e as condições da recessão económica. Estão em causa proposta da mudar drasticamente as leis e estruturas de como a sociedade europeia funcionará na próxima geração. Se as forças anti-trabalho tiverem êxito, elas fragmentarão a Europa, destruirão o mercado interno e tornarão aquele continente uma periferia. Este é o grau de seriedade do golpe de estado financeiro em curso. E está em vias de ficar muito pior – rapidamente. Como afirmou John Monks, responsável da Confederação Sindical Europeia: "Isto é o começo do combate, não o fim".

A Espanha recebeu maior parte da atenção, graças à sua greve de dez milhões (confirmadamente, a metade de toda a força de trabalho). Ao efectuar a sua primeira greve geral desde 2002, o trabalho espanhol protestou contra o seu governo socialista que utiliza a crise bancária (decorrente de maus empréstimos imobiliário e hipotecas com situação líquida negativa, não de custos laborais elevados) como uma oportunidade para mudar as lei e permitir às companhias e corpos governamentais despedirem trabalhadores à vontade e reduzir suas pensões e despesas públicas sociais a fim de pagar mais aos bancos. Portugal está a fazer o mesmo e parece que a Irlanda se seguirá – tudo isto nos países cujos bancos foram os prestamistas mais irresponsáveis. Os banqueiros estão a exigir que reconstruam suas reservas para empréstimos a expensas do trabalho, tal como no programa do presidente Obama aqui nos Estados Unidos, mas sem disfarces hipócritas.

O problema à escala da Europa na verdade está centrado na capital da União Europeia, Bruxelas. Eis porque os maiores protestos foram encenados ali. No mesmo dia em que os grevistas se manifestavam, a neoliberal Comissão Europeia (CE) delineava uma guerra completa contra o trabalho. Cinquenta a cem mil trabalhadores reuniram-se para protestar contra a proposta transformação de regras sociais pela campanha mais anti-trabalho desde a década de 1930 – ainda mais extrema do que os planos de austeridade impostos pelo FMI e o Banco Mundial ao Terceiro Mundo em tempos passados.

Os neoliberais têm o controle completo da burocracia e estão a ressuscitar o slogan de Margaret Thatcher, TINA: There Is No Alternative. Mas existe, naturalmente. Nas pequenas economias bálticas, partidos pro-trabalho deixaram claro que a alternativa ao encolhimento do governo é simplesmente repudiar as dívidas, retirar-se do Euro e romper os bancos. Isto é ou os bancos ou o trabalho – e a Europa acaba de perceber que isto é realmente um combate contra a morte económica. E o primeiro teste virá no sábado, quando a Letónia efectuar suas eleições parlamentares.

A Comissão Europeia está a utilizar a crise hipotecária da banca – e a desnecessária proibição de os bancos centrais monetizarem o défice orçamental dos governos – como uma oportunidade para multar governos e levá-los mesmo à bancarrota se não concordarem em baixar salários do sector público. Ela diz aos governos para tomar emprestado a juros junto aos bancos, ao invés de levantarem receita tributando-os tal como têm feito durante o meio século a seguir ao fim da II Guerra Mundial. E se os governos forem incapazes de conseguir dinheiro para pagar os juros, eles devem encerrar os seus programas sociais. E se este encerramento contrair a economia – e, portanto, receitas fiscais do governo – ainda mais, então o governo deve cessar ainda mais despesas sociais.

De Bruxelas à Letónia, planeadores neoliberais tem exprimido a esperança de que salários públicos mais baixos propagar-se-ão também ao sector privado. O objectivo é contrair suas economias para reduzir níveis salariais em 30 por cento ou mais – níveis em estilo depressão – na crença de que isto "deixará mais excedente" disponível para pagar em serviço de dívida. Os governos devem tributar o trabalho – não as finanças, seguros ou imobiliário (FIRE), impor novos impostos sobre o emprego e as vendas enquanto reduz pensões públicas e gastos públicos. A Europa está a ser transformada numa república de bananas.

Isto exige ditadura e o Banco Central Europeu (BCE) assumiu este poder [próprio] a um governo eleito. Ele é "independente" de controle político – celebrado como a "marca da democracia" pela nova oligarquia financeira de hoje. Mas como explicavam os diálogos de Platão, o que é a oligarquia senão o cenário político que se segue à democracia. Agora podemos esperar que a nova elite do poder se torne hereditária – pela abolição de impostos sobre o património, para começar – e se transforme numa aristocracia absoluta. "Junte-se ao combate contra o trabalho, ou nós o destruiremos", a CE está a dizer aos governos.

Podemos portanto esquecer as teorias económicas de Adam Smith, John Stuart Mill e da Era Progressiva, esquecer Keynes e esquecer as primitivas tradições sociais democráticas do século XX. A Europa está a entrar numa era regida pelo totalitarismo neoliberal. Isto era inevitável desde o ensaio geral chileno após 1973. Afinal de contas, ninguém pode ter "mercados livres" em estilo neoliberal sem controle totalitário. Foi disto que trataram as greves e manifestações de quarta-feira, afinal de contas. A guerra de classe da Europa está de volta – furiosamente!

Isto é suicídio económico, mas a UE está a impor a sua exigência de que os governos da Euro-zona mantenham seus défices orçamentais abaixo dos 3% do PIB – e sua dívida total abaixo dos 60% do PIB. Eles não devem arrecadar impostos sobre a riqueza, mas apenas sobre o trabalho e o que ele compra (via impostos sobre vendas). Mas ao mesmo tempo eles devem cortar salários e pensões, cortar na despesa pública e no emprego, e contrair a economia.

Quando um problema económico é tão economicamente destrutivo como este, ele só pode ser imposto através de chantagem económica. Na quarta-feira a UE aprovou uma lei para multar governo em até 0,2% do PIB por não "consertar" seus défices orçamentais através da imposição de austeridade fiscal. Países que tomam emprestado para empenhar-se em gastos contra-cíclicos de "estilo keynesiano" que elevem a sua dívida pública ao nível de 60% do PIB terão de reduzir o excesso em 5% ao ano – ou do contrário sofrer dura punição. E ao contrário dos bancos centrais por toda a parte do mundo, o banco central da Europa está proibido de monetizar governos com sector público. Estes governos devem tomar emprestado dos bancos, deixando estas instituições criarem a sua própria dívida com juros nos seus teclados de computador ao invés de terem os seus próprios bancos centrais a fazerem isso sem custos. A privatização financeira e o monopólio na criação de crédito que os governos cederam aos bancos estão agora a serem compensados – ao preço da ruptura da Europa.

Os membros não eleitos do Banco Central Europeu (BCE, independente da política democrática, não do controle por parte dos seus bancos comerciais membros) usurparam o poder de planeamento de governos eleitos. Obrigado para com o seu eleitorado, o sector financeiro, o BCE teve pouca dificuldade em convencer a comissão da UE a apoiar a nova captura oligárquica do poder. Ele ameaça multar estados da euro-área em até 0,1% do PIB por falhas na obediência às suas recomendações neoliberais – ostensivamente para "corrigir" desequilíbrios. Mas a realidade, naturalmente, é que toda "cura" neoliberal apenas torna as coisas piores.

Ao invés de encarar o aumento de níveis salariais e padrões de vida como uma pré-condição para produtividade do trabalho mais alta, a comissão da UE "monitorará" custos do trabalho com a presunção de que salários em ascensão prejudicam a competitividade ao invés de elevá-la. O vasto espectro deste lixo da teoria económica neoliberal está a ser trazido à luz. Se os membros do euro não podem desvalorizar suas divisas, então devem combater o trabalho – mas não tributar o imobiliário, as finanças ou outros sectores rentistas, não regular monopólios e não proporcionar serviços públicos que possam ser privatizados a custos muito mais altos. Não se considera que a privatização prejudica a competitividade – apenas o aumento de salários, sem quaisquer considerações quanto à produtividade.

Esta política economicamente destrutiva foi testada em todos os países bálticos, utilizando países como a Letónia como cobaias para ver quão longe o trabalho pode ser degradado antes de ele reagir politicamente. A Letónia deu rédea solta a políticas neoliberais impondo impostos uniformes (flat taxes) de 51% sobre os empregados, ao passo que o imobiliário é tributado em apenas 1%. Os salários do sector público foram reduzidos em 30%. A força de trabalho em idade laboral (20 a 35 anos) está a emigrar em multidões. As esperanças de vida estão a encurtar. As taxas de doenças estão em aumento. O mercado interno está a contrair-se e assim está a população da Europa – tal como aconteceu na década de 1930, quando o "problema da população" foi um afundamento da fertilidade e das taxas de natalidade (sobre em França). Isso é o que acontece nas depressões económicas.

O saqueio da Islândia pelos seus banqueiros veio primeiro, mas a grande notícia foi a Grécia. Quando aquele país entrou na sua actual crise fiscal, responsáveis da União Europeia recomendaram que emulasse a Letónia, a qual se apresenta como o perfeito representante da devastação económica neoliberal. A teoria básica é que como os membros do euro não podem desvalorizar a sua divisa, eles devem recorrer à "desvalorização interna": cortando salários, pensões e gastos sociais. Assim, enquanto a Europa entra em recessão ela segue precisamente o oposto da política keynesiana. É reduzindo salários, ostensivamente para "libertar" mais rendimento disponível para pagar as enormes dívidas que os europeus assumiram para comprar suas casas, pagar escolas (até agora proporcionadas gratuitamente em muitos países tais como a Letónia), transportes e outros serviços públicos que foram privatizados (com taxas drasticamente aumentadas – as quais os privatizadores justificam apontando as comissões financeiras enormemente inchadas que tiveram de pagar aos seus banqueiros e financiadores para comprar a infraestrutura sendo vendida por governos que os neoliberais impediam de tributar a riqueza).

O resultado é contracção económica. A Europa está a criar suicídio económico – e também suicídio demográfico e fiscal. Toda tentativa de "resolver" o problema desta contracção, em estilo neoliberal, só torna as coisas piores.

Os trabalhadores do sector público da Letónia tiveram seus salários cortados em 30 por cento ao longo do ano passado, e os seus banqueiros centrais disseram-me que estão à procura de novos cortes, na esperança de que isto reduza também os salários no sector privado. O que estes cortes estão a fazer, sem surpresa, é estimular a emigração – e também estão a destruir o mercado imobiliário, levando a incumprimentos, arrestos e uma fuga do país dos devedores. A emigração é encabeçada pelos trabalhadores mais jovens à procura de emprego na economia em contracção. Na verdade, as condições de trabalho na Letónia também acontecem ser as da maior parte da Europa neoliberalizada, o que é perigoso, desagradável e quase neo-feudal.

Em primeiro lugar, na véspera do Dia da Acção, houve o habitual congestionamento de transportes acompanhado por um concerto de buzinas em Riga, capital da Letónia, durante 10 minutos às 13 horas para informar o público que alguma coisa estava a acontecer. O que estava a acontecer de mais importante são as eleições parlamentares nacionais deste sábado (2 de Outubro), onde a coligação à esquerda, Centro Harmonia , está comprometida no estabelecimento de um sistema fiscal e de uma política económica alternativa às políticas económicas neoliberais que reduziram os salários e os padrões de trabalho tão drasticamente – juntamente com a infraestrutura pública – ao longo da última década.

Cerca de 10 mil lituanos compareceram a reuniões de protesto, desde a capital até cidades mais pequenas no âmbito da "Jornada dentro da Crise". Seis sindicatos independentes e o Centro Harmonia organizaram uma reunião de protesto no Parque Esplanada, em Riga, que atraiu 700 a 800 manifestantes, um número relativamente grande para uma cidade tão pequena. Outro protesto junto ao Gabinete de Ministros em que foi planeado e executado o programa de austeridade da Lituânia teve cerca de metade desse número.

Para destacar a questão económica, uma excursão em autocarro levou jornalistas às vítimas – escolas e hospitais que foram fechados, edifícios do governo cujos empregados viram os seus salários cortados e a força de trabalho reduzida. Multidões reuniram-se, relançando a ira expressa no ano passado, no frio de meados de Janeiro, quando lituanos manifestaram-se em protesto contra o início destes cortes.

Estas manifestações parecem ter ganho a simpatia do eleitorado para os sindicatos mais militantes, encabeçados pelas centenas de sindicatos individuais pertencentes à Associação Independente de Sindicatos. O outro grupo sindical – os Sindicatos Livres (LBAS) perderam a face ao concordarem em Junho de 2009 com a proposta do governo de cortes de 10% nas pensões (e, na verdade, de 70% para pensionistas trabalhadores). O tribunal constitucional da Lituânia em Dezembro último foi suficientemente independente para rejeitar estes cortes drásticos. E se o governo na verdade mudar neste sábado, o conflito entre a Revolução Neoliberal e os últimos poucos séculos de reforma progressiva clássica será tornado claro.

A Revolução Neoliberal procura alcançar na Europa o que foi alcançado nos Estados Unidos a partir de 1979, quando os salários reais pararam de subir. O objectivo é duplicar a fatia de riqueza relativa desfrutada pelos 1% mais ricos. Isto envolve reduzir a população à pobreza, romper o poder sindical e destruir o mercado interno como condição prévia para atribuir a culpa de tudo isto ao "Sr. Mercado", presumivelmente forças inexoráveis por trás da política, puramente "objectivo" ao invés de uma captura do poder político.

Não é realmente "o mercado" que está a promover esta austeridade económica destrutiva, é claro. O Centro Harmonia da Lituânia mostra que há um caminho muito mais fácil para cortar o custo do trabalho pela metade do que reduzir os salários. Simplesmente mudar o fardo fiscal para fora do trabalho e para dentro do imobiliário e dos monopólios (especialmente a infraestrutura privatizada). Isto deixará menos excedente económico para ser capitalizado em empréstimos bancários, reduzindo consequentemente o preço da habitação (o principal factor no custo de vida do trabalho), bem como o preço de serviços públicos (fazendo com que os proprietários tomem os seus retornos como um retorno como um retorno sobre capitais próprios ao invés de incorporar encargos de juros dentro do seu custo de fazer negócio). A dedutibilidade fiscal do juro será revogada – não há nada de intrinsecamente "ditado pelo mercado" neste subsídio fiscal por dívida alavancada.

Sem dúvida muitas economias pós-soviéticas serão obrigadas a retirar-se da área euro ao invés de verem uma fuga do trabalho e do capital. Elas continuam a ser o exemplo mais extremo do Experimento Neoliberal para verificar quanto uma população pode aguentar cortes nos seus padrões de vida antes de rebelar-se.


Texto visto no blog do Luís Nassif.

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quinta-feira, julho 08, 2010

Alguns números do consumo mundial em 2008

PÉ NO CONSUMO

A população mundial consumiu US$ 30,5 trilhões em bens e serviços em 2006, 28% a mais do que dez anos antes, diz o relatório "Estado do Mundo" que será divulgado, no Brasil, pelo Instituto Akatu pelo Consumo Consciente. A pesquisa mostra que em 2008 foram vendidos 68 milhões de veículos, 85 milhões de refrigeradores, 297 milhões de computadores e 1,2 bilhão de telefones celulares.

Esta nota é parte da coluna de Mônica Bérgamo, na Folha de São Paulo, de 30 de junho de 2010.


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sexta-feira, maio 28, 2010

Alemanha é fonte de desequilíbrio na Europa, diz ex-ministro

Alemanha é fonte de desequilíbrio na Europa, diz ex-ministro


CLAUDIA ANTUNES

DO RIO DE JANEIRO


A Alemanha - e não a Espanha, Portugal ou mesmo a Grécia - é a principal fonte de desequilíbrio estrutural na região do euro, afirma o economista alemão Heiner Flassbeck.


Flassbeck foi vice-ministro das Finanças de seu país em 1998 e 1999, quando foi implantada a moeda única europeia. Hoje, dirige a Divisão de Globalização e Estratégias de Desenvolvimento da Unctad (conferência da ONU para o comércio e o desenvolvimento), em Genebra.


Ele explica: ao praticar arrocho salarial nos últimos dez anos, com aumento real de apenas 4% no período, muito abaixo do crescimento da produtividade, a Alemanha passou a comprar menos e aumentou ainda mais a competitividade de seus produtos em relação aos dos demais países da zona do euro.


Como a moeda única impede que os vizinhos mexam no câmbio para estimular suas exportações, eles passaram a ter deficit comerciais e em conta-corrente (saldo de todo o dinheiro que entra e sai do país), enquanto a Alemanha acumula superavit.


Para Flassbeck, sem um movimento coordenado para sair desse impasse, "não haverá solução a longo prazo" para a união monetária.


Ele também afirma que os cortes de gastos já anunciados por alguns governos da região não podem ser generalizados porque provocarão deflação, maior risco imediato para as economias europeias.


O diretor da Unctad estará em São Paulo no início desta semana. Falará na Unicamp e participará de um debate fechado sobre "novo desenvolvimentismo" organizado pelo economista e ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira, colunista da Folha.


Ele falou por telefone, de Genebra. Abaixo, os principais trechos


FOLHA - Por que o pacote de resgate e os cortes de gastos anunciados na Europa nas últimas duas semanas não acalmaram os mercados?

HEINIR FLASSBECK - O que fizeram agora foi atacar o problema de curto prazo, mas o problema de médio e longo prazo na união monetária europeia é a diferença de competitividade entre a Alemanha, de um lado, e os países do sul da Europa.


Há tensões abertas entre a Alemanha e a França porque falta vontade ao governo alemão para resolver essa questão. Sem isso, não haverá solução de longo prazo para a área do euro.


FOLHA - O senhor diz que parte dessa diferença de competitividade vem da compressão dos salários na Alemanha, em comparação com os ganhos no sul. A Espanha cortou salários e congelou aposentadorias. É uma forma de resolver isso?

FLASSBECK - Não é a maneira correta. Se o problema não for atacado de modo coordenado, todo mundo cortará salários e isso levará à deflação, maior risco para a zona do euro, resultado mais provável neste momento e a principal razão da continuidade da inquietação.


¦Enquanto o governo alemão não reconhecer que há um problema, e enquanto não estiver disposto a conversar com seus empresários e sindicatos sobre como resolvê-lo, não haverá uma saída clara da crise.


FOLHA - O senhor defende que a Alemanha reduza a própria competitividade por meio de aumentos de salários?

FLASSBECK - Sim. A Alemanha cortou os salários dramaticamente e violou a meta comum de inflação [de 2% ao ano], praticando uma inflação próxima de zero.


Os dois estão relacionados e o custo unitário do trabalho [salário nominal menos produtividade, por unidade gerada do PIB] está abaixo da meta de inflação. A regra que deveria valer para todo mundo é que esse custo deveria estar sob a linha de 2%. Alguns ficaram acima disso, mas a Alemanha ficou muito abaixo.


Isso leva a uma situação insustentável, no mundo todo. O superavit [comercial] alemão está agora tão grande quanto o chinês.


FOLHA - A OCDE (grupo de 31 países industrializados) divulgou relatório sobre a economia francesa recomendando mais flexibilidade no mercado de trabalho e reforma da Previdência Social. É o oposto do que o senhor prescreve, não?

FLASSBECK - Isso é nonsense. A França é o único país europeu que entendeu as causas da crise. Se todos os países começarem a cortar salários, o resultado líquido e certo será deflação.


Essa recomendação reflete o pensamento econômico convencional, de que ter salários flexíveis, principalmente para baixo, resolve tudo. Foi o dogma que a Alemanha seguiu e que nos trouxe à situação atual.


FOLHA Não é uma contradição que se recomende políticas ortodoxas quando há apenas dois anos, quando a crise começou nos EUA, dizia-se que a ortodoxia estava morta?

FLASSBECK - Claro que não era verdade quando todos se proclamaram keynesianos. Agora começa a verdadeira batalha ideológica, sobre o que vamos fazer com o mercado de trabalho.


FOLHA - Mas o aumento da competição da China e dos EUA, que querem aumentar suas exportações, não é um desafio letal para o Estado de bem-estar europeu?

FLASSBECK - De modo nenhum. Enquanto tivermos aumento de produtividade, os salários podem aumentar. Sempre que fizermos o oposto, mais cedo ou mais tarde nossa taxa de câmbio aumentará, o que também diminui a competitividade.


Você não pode estar sempre ganhando competitividade em relação ao resto do mundo. Mais cedo ou mais tarde a taxa de câmbio vai reagir. Quando um país tem um grande deficit em conta corrente, normalmente deprecia sua moeda, e desse modo toda a competitividade que você ganhou [contra ele] vai embora.


Não há outro modo para o mundo todo aumentar seu bem-estar do que subindo os salários de acordo com a produtividade. Esta será a mensagem do nosso próximo relatório sobre comércio e desenvolvimento, que será divulgado em setembro. Se você quiser ser bem-sucedido, externa e internamente, é o mais importante.


FOLHA - Como responde ao argumento de que Europa tem alto nível de desemprego porque os salários são altos e o mercado de trabalho é pouco flexível?

FLASSBECK - É totalmente errado. No caso da Alemanha, houve só um efeito positivo do "dumping" salarial, que foi encher os vizinhos com suas exportações. Internamente, a política foi um desastre. Não houve aumento dos investimentos nem do consumo.


FOLHA - Antes dos pacotes de estímulo para contornar a crise financeira de 2008, não havia um problema fiscal na maioria dos países europeus. Agora este é apontado como o maior problema. Por quê?

FLASSBECK - Isso é parte da batalha ideológica. As pessoas agora dizem que o governo é o problema, e não que resolveria todos os problemas, como se dizia há dois anos. Mas os que devem ser culpados por toda a confusão em que estamos são os mercados financeiros.


Os neoclássicos querem usar esse argumento [do problema fiscal] para voltar à batalha e talvez serem os vitoriosos no final. Então declaram os governos falidos, o que é falso: nenhum governo neste momento está falido, e todos os problemas podem ser resolvidos.


Os mercados dizerem que não querem dar dinheiro aos governos é ridículo, porque tiveram dinheiro dos governos, através dos bancos centrais, e agora se recusam a pagar.


FOLHA - Como explica o fato de o governo americano, que tem um deficit orçamentário de 10% do PIB, maior do que média europeia de 6,8%, não estar fazendo cortes, como os países europeus?

FLASSBECK - Os americanos têm em mente o cenário japonês de deflação e sabem que é perigoso se você corta muito em pouco tempo. Para mim a mensagem correta é: não corte muito em pouco tempo, e corte com cuidado, de acordo com a situação de cada país. Isso foi reconhecido por Dominique Strauss-Kahn [diretor-gerente do FMI]. Em entrevista à TV francesa, ele disse que nem todos podem cortar [gastos] ao mesmo tempo.


FOLHA - A missão do Fed, o banco central americano, é tanto de manter sob controle a inflação quanto de preservar o emprego. O BCE só tem meta de inflação. O senhor defende mudar isso?

FLASSBECK - Minha posição desde o início é a de que o mandato do Fed é mais razoável do que a do BCE. Manter a inflação baixa é relativamente simples, se você não se importa com o resto da economia. Mas, pelo menos nos últimos dias, o BCE mostrou certa flexibilidade [ao começar a comprar dívida dos países em crise].


FOLHA - Como avalia a reação popular ao aperto fiscal na Grécia e em outros países?

FLASSBECK - O sentimento mais disseminado nas ruas é que esses cortes estão errados. Há algo de verdade nisso. Cortes orçamentários, aumento de impostos e redução de salários combinados podem levar ao desastre.


Em médio prazo, deve haver uma mudança de direção nos Orçamentos, mas é preciso dar tempo ao tempo. Não é possível fazer do dia para a noite e têm que haver uma diferenciação entre os países com superavit externo, como a Alemanha, e os outros.


FOLHA - E como vê o argumento de que países como Grécia, Espanha e Portugal têm vivido nos últimos anos acima de seus meios?

FLASSBECK - E um país grande tem vivido abaixo dos seus meios, que é a Alemanha. Se isso for reconhecido, temos uma base para uma discussão razoável.



Entrevista da Folha Online.


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terça-feira, maio 11, 2010

Cavalo de Troia na Europa

Cavalo de Troia na Europa

ONTEM FOI dia de brasileiros prestarem atenção à chatíssima crise da dívida grega. Que pode se tornar crise da dívida portuguesa, quiçá irlandesa ou espanhola. O intermitente churrasco grego serviu para impulsionar a "correção" da Bolsa. O Ibovespa fechou ontem 7,4% abaixo do pico do dia 8. A Bolsa estava carinha e, enfim, os juros vão subir, o que não é assim lá tão relevante no caso do mercado brasileiro, mas pega.
A Grécia mergulhara no vinagre na semana passada, quando pediu dinheiro ao FMI e à União Europeia. Como de hábito, as agências de classificação de risco comparecem ao campo de batalha a fim de matar os feridos. Degradaram ontem a nota de crédito do governo grego para "junk", investimento com razoável risco de levar calote. A dívida portuguesa também foi desacreditada.
Apesar de ineptas e cúmplices da bandalha que resultou na crise de 2007-09, as notas das agências são relevantes. Investidores podem ser impedidos, por motivos contratuais, de comprar títulos com nota de crédito "junk".
Se todas as maiores agências rebaixarem a Grécia para "junk", os títulos gregos não serviriam como garantia nem para negócios com o Banco Central Europeu. O problema é que bancos usam títulos gregos como garantia para empréstimos no BCE. Quando os papéis perdem valor, em tese os bancos têm de oferecer mais garantias.
O mercado passou a cobrar taxas de juros cada vez mais altas do governo grego. Cobra quase o dobro da taxa pedida para o Brasil, desde a semana passada. É a espiral da morte: o país já superendividado paga cada vez mais caro para refinanciar a dívida, que cresce mais. O rendimento dos papéis gregos ("juros") de dois anos ultrapassou bem o dos brasileiros e até os argentinos. Excetuado algum país obscuro, são agora os mais altos do mundo.
Se a Alemanha não abrir logo o cofrinho, os gregos terão de "reestruturar" a dívida (pagar mais tarde, quando puderem). Os alemães em tese bancariam 28% do empréstimo europeu à Grécia. Mas o governo alemão adia a decisão sobre a ajuda, muito impopular entre o eleitorado.
E daí?
Se a Grécia "reestrutura", dá um calote, bancos franceses e alemães, entre outros, perdem dinheiro e ficam com menos capital. Isso para não falar do medo -os seguros de crédito ficam mais caros, os juros sobem, e não apenas para os governos europeus. O caldo da economia do mundo rico pode voltar a entornar.
O novo pico da crise pode ser um faniquito do mercado. Pode não ser. Em tese, apenas a promessa de empréstimos tapa-buraco à Grécia deveria ter acalmado o ambiente. Com o dinheiro prometido por FMI e Europa, a Grécia poderia tapar buracos até o início do trimestre final do ano.
Mas rumores e palpites publicados na mídia financeira europeia dão conta de que o mercado quer um remendo de pelo menos ano e meio. O remendo também não garante o fim da novela. O governo grego precisa cortar sua despesa em pelo menos 12% do PIB até 2015. É um massacre. Virá recessão, corte de benefícios sociais e revolta, que já está nas ruas. Além do mais, os gregos vão precisar tomar empréstimos a juros de pai para filho, de modo a não voltar ao buraco. Está difícil.

Texto de Vinicius Torres Freire, na Folha de São Paulo, de 28 de abril de 2010.

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terça-feira, abril 06, 2010

"Garotas do Shopping" na Polônia

"Garotas do shopping" preocupam Polônia


Por DAN BILEFSKY


VARSÓVIA - Elas passam horas no shopping, vendendo seus corpos adolescentes em troca de jeans de grife, celulares ou até um par de meias.
A jovem cineasta Katarzyna Roslaniec viu pela primeira vez há três anos um grupo de "meninas do shopping", metidas em botas de látex até a coxa. Seguiu-as e conversou com elas. Nos seis meses seguintes, as adolescentes lhe contaram sobre suas vidas, sobre os homens -que chamam de "patrocinadores"-, sobre seu apreço por marcas caras, os pais ausentes, as gestações prematuras, os sonhos perdidos.
Roslaniec, 29, anotava os segredos em seu bloco, memorizando o jeito que elas temperavam sua fala com palavras como "fijer" ("derrotado"). Fofocou com elas na internet. Logo, contou, estava em contato com dezenas de "meninas do shopping".
O resultado é um filme de ficção sombriamente devastador, "Galerianki", que estreou no segundo semestre de 2009 na Polônia e gerou um debate sobre a decadência moral nesse país conservador e predominantemente católico, 20 anos após a queda do comunismo.
É difícil quantificar quantas "meninas do shopping" existem de fato, já que elas não se identificam como trabalhadoras do sexo e chamam seus clientes de "namorados" ou "benfeitores", mantendo a ilusão de que não são prostitutas. Mas assistentes sociais dizem que o fenômeno está crescendo, como efeito colateral da colisão da cultura consumista ocidental com a economia pós-comunista do Leste Europeu.
"Galerianki" narra a história de quatro adolescentes que fazem programas nos banheiros dos shoppings para sustentar seu vício em roupas. Virou tão "cult" que pais de toda a Polônia estão confiscando DVDs do filme, temendo que ele vire um manual de instruções.
A revelação de que meninas católicas, algumas de classe média, estão se prostituindo por uma echarpe Chanel ou um jantar japonês leva muitos no país a questionar se o materialismo não estaria poluindo a alma nacional.
Numa recente noite na Space, danceteria frequentada pelas "garotas do shopping", dezenas de adolescentes em roupas pretas e justas giravam ao som de um hip-hop polonês, acompanhadas por homens bem mais velhos, que lhes pagavam drinques de US$ 13. "A vida é cara em Varsóvia", disse Sylwia, 18, enquanto acariciava a perna de um homem de 31, que ela acabara de conhecer.
Roslaniec chama as "meninas do shopping" de filhas do capitalismo. "Os pais raramente estão em casa. Uma menina de 14 anos precisa de um sistema de valores que não pode ser moldado sem a orientação dos pais. O resultado é que elas vivem em um mundo onde não há emoções, apenas cálculos frios."


Texto do The New York Times, reproduzido na Folha de São Paulo, de 29 de março de 2010.


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domingo, setembro 13, 2009

Na Índia rural, um adeus hesitante à pobreza (ou uma conflituosa chegada do capitalismo)

Na Índia rural, um adeus hesitante à pobreza

KUILAPALAYAM, Índia — Outro dia, saí para passear com minha motocicleta e percebi que meu mundo havia mudado completamente. Dirigi por uma estrada de concreto que antes era uma trilha de terra. A estrada leva até o mar. Eu costumava enxergar o oceano do alto da estrada. Hoje, a visão foi suplantada por prédios de apartamentos, pousadas e lojas.
Quando eu era menino, a estrada era bordejada por campos de arroz verde-esmeralda. Hoje, não há mais um só arrozal, apenas o verde gritante —e rosas, vermelhos e laranjas— dos blocos de concreto que ocuparam seu lugar.
A região ao redor de onde moro já foi um povoado rural isolado. Ficava a cerca de 170 quilômetros, por uma estrada esburacada, da grande cidade mais próxima, Chennai, ou Madras como era chamada então. Cresci no campo, rodeado por cinco aldeias. Tive uma infância idílica, minha vida corria ao ritmo do mundo agrícola: carros de bois e arados manuais, bicicletas, moinhos de vento.
Mas, para os homens e mulheres que viviam nas aldeias, que ganhavam a vida com a terra erodida, era muito mais difícil. Suas existências eram limitadas pela pobreza.
As coisas começaram a mudar na década de 1990. Em 1991, o governo indiano, enfrentando uma crise econômica, liberalizou a economia. A moeda foi desvalorizada, as barreiras alfandegárias caíram, e o Estado afrouxou seu controle. Um país que havia sido conduzido pelo lema da autodependência —o governo costumava nos exortar: “Seja indiano, compre indiano”— uniu-se ao mundo.
De maneira gradual, quase imperceptível, as reformas iniciadas em Nova Déli escorreram para o sul da Índia rural. Os agricultores venderam seus carros de bois e começaram a ir para os campos em tratores vermelhos brilhantes. Eu vi as televisões a cores, e depois as antenas parabólicas, chegarem às casas das aldeias.
No final dos anos 1990, a estrada para Chennai foi transformada em rodovia. Turistas começaram a chegar até o litoral. O desenvolvimento foi, de modo geral, benigno para esta área. Criou nova riqueza, mais empregos, oportunidades.
No entanto, o desenvolvimento também perturbou os modos de vida existentes. Esgarçou o tecido social e cultural das aldeias.
Kuilapalayam, um vilarejo no início da estrada que leva à praia, teve pelo menos sete assassinatos nos últimos anos. Bandos de jovens percorrem a aldeia extorquindo dinheiro e efetuando vinganças. Antigamente, a panchayat, assembleia tradicional formada pelos anciãos da aldeia, teria controlado a violência. Mas a nova geração tem ideias modernas; eles não escutam os mais velhos, e os membros da panchayat estão impotentes, assustados demais para interferir.
Os moradores que não possuíam terra, que viram seus amigos enriquecerem, em geral não são tão otimistas sobre as mudanças. E parentes há muito esquecidos apareceram, talvez voltando das cidades, para reivindicar a propriedade da terra. Os jornais locais estão cheios de histórias violentas sobre disputas de propriedades.
O desenvolvimento é um fenômeno complexo. Antes de popularizar a expressão “destruição criativa”, o economista Joseph Schumpeter, da escola austríaca, burilou suas ideias sobre inovação e mudança descontínua em Teoria do Desenvolvimento Econômico. Mudança descontínua, destruição criativa, é o que estou vivendo todos os dias. Nas grandes cidades, o desenvolvimento econômico da Índia pode parecer muito simples. Os negócios prosperam, as classes médias e altas comemoram, e o país avança inexoravelmente.
Mas, no campo, um modo de vida está desaparecendo, e ninguém sabe o que ocupará seu lugar. As pessoas às vezes me perguntam como me sinto em relação ao desenvolvimento econômico da Índia. Eu lhes digo a verdade. Não sei. Digo que me sinto ambivalente sobre o fim de um mundo que conheci quando criança, uma transição que sei que é inevitável e provavelmente até desejável. Mas ainda não me reconciliei com ela.

Texto de Akash Kapur, no The New York Times, republicado na Folha de São Paulo, de 24 de agosto de 2009.


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domingo, maio 24, 2009

O gene estatal do grande capital no Brasil

O gene estatal da grande empresa

A LISTA DAS maiores empresas exportadoras do Brasil revela muito do que foi e ainda é a formação e a propriedade do grande capital no país. As três líderes na exportação são ou foram estatais, criadas pelo Estado quando não havia investimento privado em seus setores: Petrobras, Vale e Embraer (se algumas dessas empresas vieram a se tornar monopolistas ineficientes, ou quase isso, é outra história). Outras quatro das maiores exportadoras de 2008 são processadoras e "tradings" de commodities agrícolas (soja e outros grãos, álcool, açúcar, laranja, algodão). Trata-se de múltis como Bunge (4º lugar), ADM (5º), Cargill (8º) e Louis Dreyfus (13º), que tiveram a perspicácia, digamos, de investir nos frutos da produtiva agricultura tropical brasileira, outra iniciativa em grande parte tocada pelo Estado. Isto é, trata-se da pesquisa da Embrapa, da universidade e outros institutos públicos.
Sadia e Perdigão, ora fundidas ou algo assim, ocupavam respectivamente o 6º e o 11º lugar nesse ranking. A Sadia foi uma iniciativa privada "tout court", a princípio obra do pequeno empreendedorismo. A Perdigão, mais ou menos, mas mais adiante tornou-se paraestatal, digamos, de posse de fundos de pensão de estatais. Agora, o BNDES admite oficialmente o segredo de polichinelo de que vai comprar ações da futura nova empresa. O banco estatal vai assumir, pois, o papel de sócio que vai capitalizar a nova companhia, que começa abalada pela dívida deixada pelos desastrosos prejuízos da Sadia com aventuras cambiais.
Deixem-se de lado, por ora, a conveniência e a oportunidade da eventual participação do BNDES na Brasil Foods. Interessa aqui notar mais um caso da participação do Estado na criação, nas fusões e na ascensão de várias empresas "top" do país.
A maior produtora de carnes do mundo, a JBS-Friboi (21º do ranking), é tão grande devido em parte ao auxílio financeiro de seu sócio BNDES. O banco estatal é ainda sócio do frigorífico (e empresas de alimento) Bertin (26º). O BNDES também deu o "maior apoio" à compra da Aracruz (27º) pela Votorantim (sócia do banco estatal), parte de um grupo também prejudicado pelos derivativos cambiais catastróficos.
A Braskem (23º), petroquímica da Odebrecht, é sócia da Petrobras. A Suzano (22º) tem participação de um fundo de pensão paraestatal (Previ). Há outros "cases" de origens estatais. A ArcellorMittal (com empresas no 12º e 25º lugar) era a estatal Companhia Siderúrgica de Tubarão. A Alunorte (18º), foi um projeto da ditadura, da então estatal Vale com os japoneses (ainda é da Vale e sócios). A Samarco (8º), mineradora de ferro, é da Vale e da BHP.
Entre as outras 30 maiores exportadoras, que fizeram 43% do valor das exportações do país no ano passado, a maioria é de multinacionais (cinco montadoras de veículos, a Shell, a Motorola e a Caterpillar).
Certamente a capacidade empresarial privada transformou dinossauros estatais em empresas de ponta. Outras empresas da lista acima, muitas delas familiares, foram socorridas pelo Estado quando tropeçaram ou precisaram crescer. Mas, examinando o ranking da exportação, veem-se genes estatais em quase todos os pedigrees da grande empresa nacional -e até no das múltis.

Texto de Vinicius Torres Freire, na Folha de São Paulo, de 21 de maio de 2009.

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quarta-feira, março 04, 2009

Perdoar ou postergar dívidas?

Perdoar ou postergar dívidas?

A CRISE bancária de 2008 transformou-se, neste ano, em crise econômica e, em todo o mundo, a produção industrial cai e o desemprego aumenta, configurando uma clássica crise de demanda. É preciso, então, saber por que as famílias de repente reduziram o consumo, e as empresas, o investimento, e como agora reestimular a demanda. A primeira resposta a essas questões foi a de que os investidores e as famílias deixaram de investir porque os bancos, em crise, limitaram o crédito. Essa resposta, porém, é insuficiente para explicar uma redução tão violenta nas compras.
Uma segunda e sem dúvida boa resposta foi dizer que a demanda colapsou porque os investidores e as famílias perderam a confiança e decidiram limitar seus gastos adiáveis. Em outras palavras, em vez de continuarem a tomar emprestado para gastar, decidiram precaver-se diante do futuro incerto e não continuar a aumentar sua dívida. Mas o que nos conta Richard Koo em seu livro "The Holy Grail of Macroeconomics" (John Willey & Sons, 2008), a partir de seu estudo da depressão de 15 anos da economia japonesa, é que há uma terceira resposta: a demanda desmoronou porque as empresas e as famílias, além de pararem de se endividar, decidiram pagar suas dívidas. Em linguagem técnica, entraram em processo de desalavancagem.
Paulo Rabello de Castro, nesta página (25/2), estimulou que a desalavancagem já foi de US$ 10 trilhões, contra gastos adicionais do governo de US$ 5 trilhões. Richard Koo apresenta dados convincentes nesse livro para substanciar sua tese. Uma tese de enorme simplicidade, mas com consequências explosivas. Na medida em que os agentes econômicos logrem seu objetivo de pagar suas dívidas, a queda da demanda agregada ganha uma nova dimensão, obrigando os formuladores de política econômica a repensar todo o problema.
Sem dúvida, é preciso salvar os bancos e restabelecer a confiança; sem dúvida, é preciso reduzir a taxa de juros e aumentar a liquidez; sem dúvida, é preciso adotar uma decisiva política de expansão fiscal para aumentar o consumo e o investimento, mas é bem possível que todo esse esforço perca grande parte do seu efeito porque os agentes econômicos, em vez de aproveitar o estímulo fiscal para gastar, aproveitem-no para pagar dívidas.
Diante desse fato, que fazer além do que já está sendo feito? Os governos deverão colocar sua imaginação e sua inventividade a funcionar para perdoar ou alongar dívidas. Mas aliviar os devedores sem que os credores sejam punidos. O perdão parcial das dívidas dos pobres e o alongamento a juros baixos das dívidas da classe média e das empresas são soluções óbvias -são formas diretas de evitar o pagamento das dívidas; são uma forma muito mais eficiente de estimular a demanda do que isenções fiscais como aquelas que os republicanos lograram nos Estados Unidos. Não existem fórmulas simples de caminhar nessa direção, mas no pacote fiscal de Obama já existem previsões para aliviar a dívida dos devedores hipotecários.
Cada país terá que encontrar vários caminhos que levem nessa direção. Esses caminhos dependerão da criatividade e da coragem dos governantes e, na certa, terão um custo fiscal, mas o custo de uma depressão -de uma recessão prolongada e profunda- será sempre muito maior.

Texto de Luis Carlos Bresser-Pereira, na Folha de São Paulo, de 2 de março de 2009.


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segunda-feira, dezembro 29, 2008

O FMI na crise

O FMI na crise

O LEITOR vai me perdoar se o artigo sair meio pesado hoje. Estou realmente exaurido depois de dois meses de crise intensa aqui no FMI. Nunca emprestei tanto dinheiro na minha vida (espero que paguem). O meu complexo de brasileiro, devedor, subdesenvolvido e às vezes inadimplente deu os célebres "arrancos triunfais de cachorro atropelado" (Nelson Rodrigues).
Abro aqui um breve parêntese. Um leitor escreveu reclamando gentilmente da ausência de citações de escritores, de filósofos e, sobretudo, de Nelson Rodrigues. Prometi corrigir a falha e estou aqui cumprindo a promessa.
Fecho o parêntese e volto ao FMI. Neste mês de novembro, a diretoria do Fundo aprovou empréstimos de tipo "stand-by" no total de US$ 41,8 bilhões, com desembolsos concentrados no início dos programas. Nunca o Fundo emprestou tanto em tão pouco tempo. A Ucrânia recebeu US$ 16,4 bilhões, a Hungria, US$ 15,7 bilhões, o Paquistão, US$ 7,6 bilhões, e a Islândia, US$ 2,1 bilhões. Esse último caso é extraordinário: o setor bancário islandês detinha ativos equivalentes a quase 900% do PIB no final de 2007! A turma da bufunfa barbarizou -e levou o país à ruína.
É notável que, nessa nova leva, os primeiros clientes do FMI tenham vindo, em sua maioria, da periferia européia. Trata-se de uma região que apresenta vulnerabilidades evidentes: déficits elevados no balanço de pagamentos em conta corrente, forte dependência de crédito externo, reservas internacionais modestas, sistemas financeiros frágeis, entre outros problemas. A Islândia é a primeira economia desenvolvida da Europa a recorrer ao Fundo desde a década de 1970.
Esses empréstimos são apenas o começo, tudo indica. Há uma série de outros países iniciando contatos e buscando o apoio financeiro do Fundo. Como se sabe, o FMI vinha emprestando muito pouco nos últimos anos. Os países fugiam do Fundo como o diabo da cruz. Sem os juros pagos pelos devedores, o dinheiro começou a ficar curto e, no início deste ano, o Fundo teve que provar do próprio remédio, implementando um programa de ajustamento, com cortes de gastos e demissões.
Agora os demitidos talvez façam falta. Com a intensificação da crise desde setembro último, o Fundo voltou a ser procurado, ainda que com grande relutância. Regra geral, os países só se dispõem a aparecer aqui em último caso, quando as alternativas se esgotaram.
A direção do Fundo está consciente do "estigma" associado aos empréstimos da instituição e tem procurado enfrentar o problema. Acionou o mecanismo de emergência, que permite aprovar empréstimos em tempo muito curto. As condicionalidades dos novos empréstimos são mais focadas, voltadas sobretudo para a solução dos desequilíbrios de balanço de pagamentos e outros problemas macroeconômicos de curto prazo.
Há cerca de um mês, a diretoria aprovou uma nova linha de financiamento -a SLF ("short-term liquidity facility"), ainda não utilizada, que permite emprestar até 500% da quota do país por prazos curtos, mas sem as condicionalidades tradicionais (carta de intenções, critérios de desempenho e monitoramento). Essa nova linha só poderá ser acionada por países que tenham políticas econômicas basicamente sólidas, mas que estejam sofrendo problemas de liquidez provocados por choques na conta de capitais, o chamado contágio externo.
O dinossauro continua se movendo.

PAULO NOGUEIRA BATISTA JR. , 53, escreve às quintas-feiras nesta coluna. Diretor-executivo no FMI, representa um grupo de nove países (Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, República Dominicana, Suriname e Trinidad e Tobago).

Texto publicado na Folha de São Paulo, de 27 de novembro de 2008.

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Falta de memória

Falta de memória

É CADA VEZ mais evidente a enorme disfuncionalidade da excessiva liberdade deixada ao setor financeiro pela política monetária laxista (na teologia moral, "tendência a fugir ao dever e à lei, com base em razões pouco ou mal fundamentadas") dos Bancos Centrais. Uma das coisas mais surpreendentes é a memória curta dos mercados.
Em janeiro de 2002 (em resposta a uma série de escândalos), o Congresso americano aprovou a lei Sarbanes-Oxley, que fixou normas de proteção aos investidores. Pois bem, apenas três anos depois da lei e quatro anos depois do estouro da "bolha" de ativos (e do escândalo da Enron), o presidente Bush indicou em 2006 para "chairman" da Security and Exchange Commission, Christopher Cox, um congressista conhecido por sua fúria desregulatória. O próprio secretário do Tesouro, Paulson, empossado também em 2006, disse, em seu discurso de posse, que vinha para acabar com todo o resíduo de regulação que entravava a liberdade financeira produtora do desenvolvimento da economia real.
Completava-se, assim, mais um dos ciclos da dialética infernal de laxidão e controle produzidos pelas "bolhas" dos mercados de ativos e as fraudes ínsitas à sua história.
Agora é a vez de o G20 sugerir mais controle. O tempo se encarregará de corroê-lo à medida que a infinita imaginação dos agentes financeiros for descobrindo novos "produtos exóticos" que os Bancos Centrais só entenderão quando ocorrer a próxima crise. Mas por quê? Apenas porque é assim que funciona o sistema que trouxe os homens da Idade da Pedra à Idade da Informática nos últimos 250 anos...
O que talvez interesse agora é tentar adivinhar quanto durará a crise da economia real depois do acerto da economia financeira. A tarefa é impossível, mas o passado talvez nos dê algumas informações.
Se tomarmos a média das sete últimas crises sofridas pela economia dos EUA e fizermos uma uniformização do PIB nos "picos" igual a 100, encontramos que ela se agrava durante os primeiros dois ou três trimestres e inicia uma recuperação entre o quinto e sexto semestre (quando retorna ao "pico" = 100), a partir do qual volta a subir para completar outro ciclo.
Nessas condições, deve-se esperar que a redução da atividade e do emprego na economia mundial prossigam até setembro/outubro de 2009 e se inicie uma volta ao nível de atividade de 2007 que será atingido no segundo semestre de 2010. Esse parece ser o tempo no qual teremos de usar nosso mercado interno com inteligência e ousadia para sustentar um razoável crescimento e o nível de emprego.

Texto de Delfim Netto, na Folha de São Paulo, de 26 de novembro de 2008.


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Depois da torrente de dinheiro, o dilúvio dos juros?

A crise, Lula e a realidade

BRASÍLIA - Enquanto Lula manda seus ministros dizerem que o Brasil vai crescer 4% em 2009, no mundo real fica cada vez mais claro como está distante o fim da atual crise. O salvamento do Citibank é a demonstração acabada sobre a gravidade do momento. Pela concordância tácita, também indica a intenção de Barack Obama de utilizar a mesmíssima política do atual ocupante da Casa Branca: despejar toneladas de dinheiro público na economia.
George W. Bush titubeou em setembro. Sua equipe econômica piscou na hora de salvar o Lehman Brothers da falência. O banco evaporou. Depois, a crise foi ladeira abaixo.
Engenheiros de obras feitas no Brasil -e nos Estados Unidos- criticaram a decisão da equipe de Bush. O Lehman era muito grande para quebrar, disseram. Alguns desses críticos eram os mesmos que antes reclamavam dos socorros estatais a bancos privados -como ocorrera no início do ano com o Bear Stearns.
Depois da vacilada, a política econômica ficou clara como nunca.
Haverá dinheiro estatal de sobra para salvar tantos quantos forem os bancos ou empresas em dificuldades por causa de barbeiragens com derivativos e outros ativos tóxicos.
A lógica toda será usar a confiança ainda existente na maior reserva de valor do planeta: o dólar. Mais adiante, quando a inflação brotar por causa da emissão de moeda sem lastro, assistiremos à pior parte da crise, com uma brutal alta dos juros.
No Planalto, mesmo vendo a degradação do cenário, Lula parece comandar um bloco do auto-engano. Repete um mantra sobre a solidez do país. Fará uma propaganda na TV a respeito. Ou o petista enxerga o que ninguém vê ou prepara o país para uma das maiores decepções recentes ao longo do ano de 2009. A ver.

Texto de Fernando Rodrigues, na Folha de São Paulo, de 26 de novembro de 2008. Grifo do blogueiro.

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"Governança Corporativa"

Empresas desgovernadas

UMA CONVERSA que ficou bem desmoralizada nesta crise foi a da "governança corporativa". A conversa fiada é velha, assim como a da racionalidade do mercado, na qual até o bom economista-padrão não acredita mais faz duas décadas, embora não fale muito sobre o assunto quando discute política e esparge ideologia mercadista.
Um exemplo velho e até ingênuo de fraude sistêmica é o da bolha dos anos 1990, que estourou em 2001 e escancarou a baderna da contabilidade de grandes conglomerados.
Com o auxílio de bancos de investimento, de "analistas", de agências de risco e de auditores (Arthur Andersen), empresas fraudavam o público e contratos. O vexame maior foi o de Enron, WorldCom, Tyco, GlobalCrossing, Lucent, Adelphia, mas até empresas como a Xerox levaram multas de milhões e tiveram de reescrever seus balanços. A fraude inflou a bolha, que inflou a fraude. Não eram "casos isolados". Era "modus operandi". Era contumaz.
Agora vimos grandes instituições financeiras (Wall Street, a City e meia Suíça) e grandes empresas financistas (GE, GM etc.) esconderem em contas paralelas, de modo legal mas picareta, montes de papéis podres, lastreados em créditos ineptos, e/ou os cotarem de modo fantasista. "Falha de mercado"? "Alocação ineficiente de capital"? "Informação assimétrica"? Violação da "moralidade" que deveria fundar os mercados (na frase patética de Alan Greenspan e Robert Shiller)? O nome fica para depois. Mas o rolo não é casual ou localizado. É "sistêmico".
A "governança" chegaria depois ao Brasil. Mesmo com seu alto teor de conversa fiada, a difusão da idéia e até de alguma exigência prática de "governança" foi um avanço nesta selva. Desde 2003, a Bovespa fez o bom trabalho de exigir mínimos de publicidade, de controle das diretorias e de respeito a acionistas. A Bolsa até começou a tomar jeito de mercado de capitais. Houve propaganda marqueteira vulgar, sim, na onda de IPOs e de commodities que inflou o Ibovespa. Mas era alguma coisa.
Porém a crise revelou o quanto (muito) havia de impostura na "governança" brazuka também. O prejuízo cambial, o bafafá e a obscuridade dos casos Aracruz, Votorantim e Sadia, para ficar nos mais evidentes, são o escárnio da transparência.
Mostram ainda a inércia da CVM, que ao ritmo de cágado exige normas mais decentes de prestação de contas. Aliás, para a CVM o mercado brasileiro é mais limpinho que o dos EUA, onde financistas muita vez e outra são algemados -por aqui, isso não rola. Enfim, a bola passou sob as pernas do Banco Central, que não viu bancos armando a porcaria dos derivativos. Não tinham como fiscalizar? Sorry, para quem quer tanta autonomia, a desculpa não cola.
Agora há bancos estatais a auxiliar empresas. Pode ser útil. Ou não. Estatais não prestam contas da qualidade e do custo de seus créditos até que virem rombos, ao menos nos diz a história. Há muito subsídio e chororô por aí. Múltis que nadavam em lucros pedem socorro. Há o risco de empresas do cassino do câmbio taparem rombos com verba subsidiada. Há o estranho caso da Petrobras com a Caixa. Foi recriado o caldo de cultura em que a bactéria da desgovernança privada pode proliferar no dinheiro açucarado do governo.

Texto de Vinicius Torres Freire, na Folha de São Paulo, de 28 de novembro de 2008.

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quinta-feira, novembro 13, 2008

Banco imobiliário

Banco imobiliário

RIO DE JANEIRO - Não sei se ainda existe, mas sou do tempo em que havia um joguinho de dados chamado Banco Imobiliário. Distribuíam-se notas simbólicas de dinheiro entre cinco ou seis participantes e cada um ia atirando os dados num tabuleiro onde estavam marcados os hospitais, escolas, hotéis, restaurantes, usinas, ferrovias, aeroportos, navios, minas disso e daquilo etc.
À medida que cada jogador atingia uma casa, ficava dono do negócio respectivo. Quem depois caísse numa dessas empresas, pagava alguma coisa ao proprietário. Com a continuação dos lances, depois de muitas rodadas, um dos jogadores ficava dono de tudo e de todo o dinheiro circulante.
No sistema do capitalismo globalizado, a tendência é repetir o mesmo jogo. Não se trata de simples ganância, mas de sobrevivência empresarial. Não se pode prever, mas, sem mudança nas regras do jogo, fatalmente um determinado grupo ou mesmo um determinado indivíduo poderá ficar dono de todas as fontes de produção e riqueza.
As fusões, nacionais ou internacionais, são etapas deste processo. Não adianta louvá-las nem satanizá-las. São e serão necessárias para garantir a normalidade do capitalismo liberal, a menos que o capitalismo estatal intervenha violentamente e interrompa a cadeia.
A recente fusão de dois grandes bancos brasileiros criou um gigante. Tanto o Itaú como o Unibanco têm tradição no mercado cultural, mantendo entidades que se destacam na promoção das artes e patrocínios. O Itaú Cultural e o Instituto Moreira Salles criaram uma tradição e uma rotina que certamente serão ampliadas.
É bem verdade que, no dia-a-dia do cidadão comum, ao pagar suas contas e taxas, o sistema bancário continuará sendo a expressão mais truculenta do capitalismo que alguns chamam de selvagem.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 6 de novembro de 2008.

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quinta-feira, outubro 30, 2008

A Volks e o cassino

A Volks e o cassino

SÃO PAULO - Você abre o jornal de manhã e ousa percorrer a coleção sem fim de tragédias que é, hoje, o noticiário econômico. Lá na undécima página, fica sabendo que a Volkswagen vai conceder férias coletivas de dez dias para 1.800 funcionários da unidade de São José dos Pinhais (PR).
Aí, pensa, distraído: "Vixe, essa empresa está indo pro vinagre".
Que nada, companheiro. É justamente o contrário: pelo menos ontem, a Volks (a mundial) tornou-se a companhia de maior valor de capitalização no planeta (ou seja, o valor de todas as suas ações na Bolsa de Valores superou o de qualquer outra instituição, inclusive a portentosa Exxon).
Como é possível, se a indústria automobilística é a segunda maior vítima da crise global, logo atrás da construção/imóveis? Trata-se apenas de um exemplo "das distorções que se produzem hoje em dia nos mercados", diz Juan José Ruiz, o economista-chefe do Santander (na Espanha).
Se, em vez de distorções, falasse em cassino, estaria mais perto da realidade. Acontece que "hedge funds", esses que vão apostando em vários ativos, para defenderem-se de eventuais perdas em um deles, decretaram que as cotações da VW permaneceriam em queda. Aí vem a Porsche e anuncia que quer aumentar a sua fatia na Volks. O pessoal dos "hedge funds" correu desesperado para cobrir suas posições e cada ação da montadora voou dos 210 da sexta-feira para 1.005 em dado ponto de ontem.
Uma coisa, portanto, é a vida real, em que férias coletivas significam queda nas vendas. Outra coisa, bem diferente, é o cassino, em que férias coletivas nada significam. É por isso -entre outras mil razões- que, cada vez que vejo economista fingindo que faz análises lógicas sobre o mercado, levo a mão ao coldre.
Não que tenha um revólver, mas, nessas horas, dá vontade de ter.

Texto de Clóvis Rossi, na Folha de São Paulo, de 29 de outubro de 2008.

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quarta-feira, outubro 22, 2008

"Capitalismo encurralado"

"Capitalismo encurralado"

"CAPITALISMO encurralado" é o título da capa e do texto de abertura da "Economist" desta semana. Trata-se de um elogio à mais que centenária atitude liberal da revista britânica e ao "capitalismo". E de um panfleto que convoca companheiros de viagem para o bom combate de defender o "capitalismo" nestes tempos de "estatismo". E nós com isso? A "Economist" costumava ser a síntese jornalística mais inteligente e irônica da opinião da elite "liberal anglo-saxã", digamos. Nesta semana, a opinião da revista é uma síntese da vulgaridade intelectual que tem sido a reação do "establishment" à fúria popularesca contra financistas e, ainda, ao que passa por crítica no esquerdismo retrógrado.
Os conservadores se limitam a justificativas grosseiras para o desastre que provocaram e a um "cala-boca". Estão como a dizer: o Estado fará só uma manutenção do "capitalismo", que assim é, sempre o será e beneficia até crioulos, se dêem por felizes, não encham a paciência e levem as gorjetas. Calem a boca e nem lembrem que o economicismo faz água por muitos furos (furos tais como a eficiência dos mercados e a racionalidade dos agentes, que luminares da economia agora dizem ter falhado por "falta de moralidade").
Os conservadores do museu da esquerda, por sua vez, acreditam que se abriu uma janela de oportunidade para reocuparem o Estado, uma chance de restauração estatista e de barragem contra inovações econômicas, não de uma possibilidade de mudanças sociais democráticas.
Por que "capitalismo" entre aspas? "Capitalismo" é conceito grande demais até para livros, que dirá para revistas e modestos artigos de jornal. Mas a revista diz que, na última década, o "capitalismo" deve (sic) ter elevado a renda per capita da humanidade como "nunca antes", o que nem é verdade nem faz muito sentido. A "Economist" comete ainda a imprudência de citar a contribuição da China para tal progresso -a China, que bancou boa parte do descalabro econômico americano e é aquele modelo de liberdade política e econômica.
Enfim, de qual "capitalismo" se trata? Existem, na verdade, mercados mais ou menos livres pelo mundo: EUA, França, Suécia, Coréia, China, Brasil. No que diferem e se parecem tais Estados, sociedades e mercados? A pergunta é crucial, pois revela a possibilidade de alternativas, presentes e futuras, que o "cala-boca" conservador quer reprimir.
A crítica grosseira ao "estatismo", que "tolhe a liberdade", quer é calar a crítica da dominação e da distribuição desigual de poder (e liberdades) em sistemas em que é grande a desigualdade econômica. Centrar o debate na "necessidade de regulação" parece mais uma disputa grupal sobre quem vai mandar, burocratas ou financistas, danem-se as liberdades. Tal atitude tanto menospreza o problema de quão difícil é regular como apaga o conflito sobre distribuição de poder e oportunidades, em sistemas regulados ou não. Enfim, a "Economist" sintetizou a propaganda do status quo: a ideologia do "fim da história" e sua tentativa de reprimir sugestões alternativas de como tornar os indivíduos mais livres diante do poder econômico e do poder do Estado, os quais, aliás, costumam ser a mesma coisa.

Texto de Vinicius Torres Freire, na Folha de São Paulo de 17 de outubro de 2008.

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Crise expõe perigo de fortalecimento da direita, diz Hobsbawm

O britânico Eric Hobsbawm, considerado um dos historiadores mais influentes do século 20, disse à BBC nesta terça-feira que o maior perigo da atual crise financeira mundial é o fortalecimento da direita.

“A esquerda está virtualmente ausente. Assim, me parece que o principal beneficiário deste descontentamento atual, com uma possível exceção – pelo menos eu espero – nos Estados Unidos, será a direita”, disse Hobsbawn, em entrevista à Rádio 4.

O historiador marxista comparou o atual momento “ao dramático colapso da União Soviética” e ao fim de “uma era específica”.

“Agora sabemos que estamos no fim de uma era e não se sabe o que virá pela frente.”

Hobsbawn diz não acreditar que a linguagem marxista, que lhe serviu de norte ao longo de toda sua carreira, será proeminente politicamente, mas intelectualmente, “a análise marxista sobre a forma com a qual o capitalismo opera será verdadeiramente importante”.

Abaixo, os principais trechos da entrevista.

Muitos consideram o que está acontecendo como uma volta ao estadismo e até do socialismo. O senhor concorda?

Bem, certamente estamos vivendo a crise mais grave do capitalismo desde a década de 30. Lembro-me de um título recente do Financial Times que dizia: O capitalismo em convulsão. Há muito tempo não lia um título como esse no FT.

Agora, acredito que esta crise está sendo mais dramática por causa dos mais de 30 anos de uma certa ideologia “teológica” do livre mercado, que todos os governos do Ocidente seguiram.

Porque como Marx, Engels e Schumpter previram, a globalização - que está implícita no capitalismo -, não apenas destrói uma herança de tradição como também é incrivelmente instável: opera por meio de uma série de crises.

E o que está acontecendo agora está sendo reconhecido como o fim de uma era específica. Sem dúvida, a partir de agora falaremos mais de (John Maynard) Keynes e menos de (Milton) Friedman e (Friedrich) Hayek.

Todos concordam que, de uma forma ou de outra, o Estado terá um papel maior na economia daqui por diante.

Qualquer que seja o papel que os governos venham a assumir, será um empreendimento público de ação e iniciativa, que será algo que orientará, organizará e dirigirá também a economia privada. Será muito mais uma economia mista do que tem sido até agora.

E em relação ao Estado como redistribuidor? O que tem sido feito até agora parece mais pragmático do que ideológico...

Acho que continuará sendo pragmático. O que tem acontecido nos últimos 30 anos é que o capitalismo global vem operando de uma forma incrivelmente instável, exceto, por várias razões, nos países ocidentais desenvolvidos.

No Brasil, nos anos 80, no México, nos 90, no sudeste asiático e Rússia nos anos 90, e na Argentina em 2000: todos sabiam que estas coisas poderia levar a catástrofes a curto prazo. E para nós isto implicava quedas tremendas do FTSE (índice da bolsa de Londres), mas seis meses depois, recomeçávamos de novo.

Agora, temos os mesmos incentivos que tínhamos nos anos 30: se não fizermos nada, o perigo político e social será profundo e ainda mais depois de tudo, da forma com a qual o capitalismo se reformou durante e depois da guerra sob o princípio de “nunca mais” aos riscos dos anos 30.

O senhor viu esses riscos se tornarem realidade: estava na Alemanha quando Adolf Hitler chegou ao poder. O senhor acredita que algo parecido poderia acontecer como conseqüência dos problemas atuais?

Nos anos 30, o claro efeito político da Grande Depressão a curto prazo foi o fortalecimento da direita. A esquerda não foi forte até a chegada da guerra. Então, eu acredito que este é o principal perigo.

Depois da guerra, a esquerda esteve presente em várias partes da Europa, inclusive na Inglaterra, com o Partido Trabalhista, mas hoje isso já não acontece.

A esquerda está virtualmente ausente, Assim, me parece que o principal beneficiário deste descontentamento atual, com uma possível exceção – pelo menos eu espero – nos Estados Unidos, será a direita.

O que vemos agora não é o equivalente à queda da União Soviética para a direita? Os desafios intelectuais que isto implica para o capitalismo e o livre mercado são tão profundos como os desafios enfrentados pela direita em 1989?

Sim, concordo. Acredito que esta crise é equivalente ao dramático colapso da União Soviética. Agora sabemos que acabou uma era. Não sabemos o que virá pela frente.

Temos um problema intelectual: estávamos acostumados a pensar até então que havia apenas duas alternativas: ou o livre mercado ou o socialismo. Mas, na realidade, há muito poucos exemplos de um caso completo de laboratório de cada uma dessas ideologias.

Então eu acho que teremos de deixar de pensar em uma ou em outra e devemos pensar na natureza da mescla. E principalmente até que ponto esta mistura será motivada pela consciência do modelo socialista e das conseqüências sociais do que está acontecendo.

O senhor acredita que regressaremos à linguagem do marxismo?

Desde a crise dos anos 90, são os homens de negócio que começaram a falar assim: “Bem, Marx predisse esta globalização e podemos pensar que este capitalismo está fundamentado em uma série de crises”.

Não acredito que a linguagem marxista será proeminente politicamente, mas intelectualmente a natureza da análise marxista sobre a forma com a qual o capitalismo opera será verdadeiramente importante.

O senhor sente um pouco recuperado depois de anos em que a opinião intelectual ia de encontro ao que o senhor pensava?

Bem, obviamente há um pouco a sensação de schadenfreude (regozijo pela desgraça alheia).

Sempre dissemos que o capitalismo iria se chocar com suas próprias dificuldades, mas não me sinto recuperado.

O que é certo é que as pessoas descobrirão que de fato o que estava sendo feito não produziu os resultados esperados.

Durante 30 anos os ideólogos disseram que tudo ia dar certo: o livre mercado é lógico e produz crescimento máximo. Sim, diziam que produzia um pouco de desigualdade aqui e ali, mas também não importava muito porque os pobres estavam um pouco mais prósperos.

Agora sabemos que o que aconteceu é que se criaram condições de instabilidades enormes, que criaram condições nas quais a desigualdade afeta não apenas os mais pobres, como também cada vez mais uma grande parte de classe média.

Sobretudo, nos últimos 30 anos, os benefíciários deste grande crescimento têm sido nós, no Ocidente, que vivemos uma vida imensuravelmente superior a qualquer outro lugar do mundo.

E me surpreende muito que o Financial Times diga que o que se espera que aconteça agora é que este novo tipo de globalização controlada beneficie a quem realmente precisa, que se reduza a enorme diferença entre nós, que vivemos como príncipes, e a enorme maioria dos pobres.

Texto da BBC Brasil.

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terça-feira, outubro 21, 2008

Pânico inútil

Pânico inútil

É CADA VEZ mais evidente que Paulson e Bernanke cometeram um erro catastrófico na sua avaliação das conseqüências da quebra do Lehman Brothers.
Supondo que a violação do princípio do "grande demais para falir" interromperia a cadeia de desconfiança que se instalara nos mercados, eles puseram em marcha um processo que está longe de poderem controlar. Sua propagação está cobrando um preço gigantesco, que será pago pela economia real de todos os países do mundo. Graças aos abusos, à fértil imaginação que dispensa a moralidade e aos equívocos da política monetária (que durante longos anos não teve a humildade de conformar-se com a teoria), o sistema financeiro, que deveria servir à economia real (a do PIB e do emprego), ameaça destruí-la.
Os agentes financeiros estavam desconfiados com a crise do "subprime". E os cidadãos estavam assustados com a queda dos preços dos imóveis (que representam 1/3 de sua "riqueza"). Nesse quadro de profunda ansiedade, a quebra do Lehman promovida pela autoridade foi o epicentro de um terremoto financeiro mundial, que, na escala logarítmica Richter, foi superior a 9, ou seja, altamente destrutivo.
A história vai julgar duramente a competência de Bernanke, um excelente economista e historiador da crise de 1929, e a argúcia de Paulson, um profissional treinado que presidiu durante anos a Goldman Sachs. Vai ser muito difícil entender como a "boa" teoria somada à "boa" prática terminou em tal desastre.
Por outro lado, é fácil entender o comportamento aleatório (não irracional, como dizem alguns economistas) dos aplicadores. Ele lembra os estouros das boiadas quando assustadas por um estalo.
O mesmo acontece com os violentos terremotos: não sabendo onde encontrar abrigo, corre-se em qualquer direção. Trata-se pura e simplesmente de um estado de pânico. Todos querem sair e descobrem que a ampla porta de entrada (a ilusão vendida pela "ciência" dos bancos de investimento, que haviam descoberto como medir o risco e oferecer retorno garantido) é agora uma minúscula abertura de saída, onde vão amargar o custo de terem acreditado no milagre do máximo lucro com o mínimo de risco.
Não existe abrigo seguro. Todos vão pagar um preço pela irresponsabilidade de poucos, e uns poucos, de sangue frio e financeiramente líquidos, vão ficar ainda mais ricos.
Se você não tem nem sangue-frio nem liqüidez, fique quieto e espere.
Um dia a confiança voltará, como voltou depois das dezenas de crises do passado. Não fuja de casa para morrer na rua...

Texto de Delfim Netto, na Folha de São Paulo, de 15 de outubro de 2008.


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Lamentações

"Nós lamentamos"

NOVA YORK - O momento mais simbólico e patético da atual crise até agora foi a aparição pública ontem, logo cedo, do presidente dos EUA, George W. Bush, e de seu secretário do Tesouro (ministro da Fazenda), Henry Paulson.
Constrangidos, envergonhados e em posição explícita de genuflexão ideológica, os dois admitiram a necessidade de usar dinheiro público para comprar ações de bancos privados. O governo norte-americano torrará US$ 250 bilhões, só para começar, na compra de participação acionária em grandes instituições financeiras do país.
Mas as falas de Bush e Paulson foram além da capitulação. Ambos fizeram questão de reafirmar a crença no capitalismo. Por mais paradoxal que possa soar, essas declarações de fidelidade ao modelo liberal têm grande relevância: impedem a conclusão epidérmica, já presente aqui e ali, sobre uma possível falência inexorável ou reforma completa do sistema monetário e financeiro internacional. Não há indicações de uma coisa nem de outra num horizonte próximo.
Duas frases são úteis para guardar na parede da memória. Bush afirmou não haver a "intenção de tomar o lugar do livre mercado, mas de preservar o livre mercado". Paulson veio depois, compungido e explícito sobre seus atos: "Nós lamentamos por tomar essas medidas. As medidas de hoje não são as que nós gostaríamos de tomar, mas as medidas de hoje são as que nós devemos adotar para restaurar a confiança no nosso sistema financeiro".
Em resumo, os governos dão agora, mas cobrarão de volta mais tarde. Os banqueiros ficarão mais ricos? Possivelmente. Haverá regras novas? Algumas, sempre preservando a liberdade para o sistema bancário descobrir brechas e aumentar seus lucros. E daqui a alguns anos enfrentaremos todos outra crise parecida. Ou pior.

Texto de Fernando Rodrigues, na Folha de São Paulo, de 15 de outubro de 2008.

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