Diplomatas foram enganados por modos "cordiais" de Saddam na Guerra do Golfo
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Porque política é um assunto muito chato mas é fundamental. Início: 06/04/2006.
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Ativistas assumem a função de jornalistas e os jornais os censuram
“Como de costume, os árabes sabiam”, escreveu Robert Fisk sobre o vazamento pelo site WikiLeaks de 391.832 documentos secretos dos EUA sobre a Guerra do Iraque. Como também sabia, minúcias e estatísticas à parte, quem duvidou da palavra de Washington e Londres e buscou informação além dos grandes órgãos da mídia ocidental.
Os EUA diziam não fazer “contagem de corpos”. Pois os documentos vazados detalham 109.032 mortes, 66.081 das quais civis – e é um balanço parcial. Revelam pelo menos 14 assassinatos de civis pelos mercenários da Xe (ex-Blackwater). Iraquianos torturaram e mataram centenas de prisioneiros entregues pelos comandantes estadunidenses, sob seus olhos complacentes. Abusos nas prisões dos EUA prosseguiram após as revelações de Abu Ghraib. De 832 pessoas abatidas em postos de controle dos EUA, apenas 120 eram supostos insurgentes: os demais incluíam famílias e crianças. Vídeos retratam helicópteros a liquidar friamente inimigos rendidos ou civis indefesos. Manuais de tortura.
E barbaridades também do outro lado, como mulheres e meninos com síndrome de Down ou outros problemas mentais usados como mulheres-bomba e homens-bomba: um médico vendeu à Al-Qaeda uma lista de pacientes como esses. A guerra como é, sem edição da CNN e Fox News.
Um precedente foram os “Papéis do Pentágono”, 14 mil páginas de estudos secretos sobre a Guerra do Vietnã vazados pelo analista militar Daniel Ellsberg. Publicado em 1971 pelo New York Times, depois pelo Washington Post, revelou ações secretas que incluíam bombardeios aéreos do Laos, ainda oficialmente neutro, e ataques contra o território do Vietnã do Norte. Os dois jornais enfrentaram uma batalha judicial contra o governo Nixon, que tentou proibir a publicação. Agentes da Casa Branca tentaram desmoralizar Ellsberg, roubando os arquivos de seu psiquiatra e drogando-o para fazê-lo parecer louco. Ellsberg foi processado por traição e absolvido, enquanto seus algozes, punidos por arrombamento. A epopeia gerou o documentário O Homem Mais Perigoso da América, de Judith Erlich e Rick Goldsmith.
É um sinal de decadência da imprensa escrita e da mídia dos EUA que, desta vez, a denúncia só tenha sido possível por intermédio de um site mantido por uma ONG quase clandestina, perseguida pelo Pentágono e pela Casa Branca. Mais grave ainda é que os jornais que protagonizaram o vazamento de 1971 procuram minimizar as revelações ou desmoralizar os responsáveis por sua divulgação, desempenhando o papel que há 40 anos foi de Nixon e seus capangas. E a mídia mais conservadora quer que os responsáveis pelo vazamento sejam executados ou caçados como terroristas, nada menos.
Ao se referir aos arquivos, o New York Times produziu como manchete um primor de contorcionismo: “Detidos se deram pior nas mãos de iraquianos, dizem os arquivos”. E as análises do material, de cuja veracidade ninguém duvida, foram acompanhadas por uma minuciosa tentativa de assassinato da reputação do WikiLeaks e seu editor-chefe, o australiano Julian Assange.
O artigo de John Burns – um dos jornalistas integrados nas tropas, entusiasta da ocupação – retrata Assange pela visão de detratores e “ex-camaradas” que “o estão abandonando pelo que consideram um comportamento errático e autoritário, um certo delírio de grandeza não acompanhado da consciência de que os segredos digitais que revela podem ter um preço em carne e sangue”. De assassinos, torturadores e colaboracionistas, presume-se, embora o WikiLeaks tenha tido muito mais cuidado com suprimir seus nomes do que o Pentágono com evitar os massacres e torturas que protagonizaram. Põe em dúvida sua saúde mental com o empenho do Nixon de 1971: cita detratores segundo os quais “ele não está no seu juízo perfeito” e boatos sobre sua vida pessoal, provavelmente armados pela CIA – como o de que teria violentado duas suecas, acusação pouco verossímil e retirada pelas supostas vítimas.
Em agosto, nas páginas do Washington Post, o comentarista Marc Thiessen afirmou, depois do primeiro vazamento de documentos sobre o Afeganistão, que o WikiLeaks “não é organização noticiosa, mas empresa criminosa” e exigiu que Assange fosse preso antes de “causar mais dano à segurança nacional”. Ante o fato consumado, o editorial fez de conta que não tinha a menor importância: “Os documentos demonstram que a verdade sobre o Iraque já havia sido contada”, mas critica “o enfoque impulsivo e politicamente motivado de Assange, que produz pouca luz, mas causa grandes danos”.
Foram ignoradas as cobranças de investigação da ONU, da Anistia Internacional e do vice-primeiro-ministro britânico Nick Clegg, entre outros. O título mais destacado foi “Papéis do WikiLeaks apoiam alegações de Bush sobre o papel do Irã na Guerra do Iraque” – embora, na verdade, os documentos mostrem que as evidências são mais vagas e ambíguas do que o Pentágono deu a entender.
A CNN fez uma entrevista com Assange que ele interrompeu, indignado com os jornalistas que questionavam boatos sobre sua vida pessoal em vez das informações sobre mais de 100 mil mortes. O editorial da Fox News diz que os funcionários do WikiLeaks precisam ser considerados “combatentes inimigos” e submetidos a “ações não judiciais”. Pede que seus fundos sejam congelados, como se faz com organizações terroristas e que o site seja derrubado pelos hackers do Pentágono. Seu noticiário destacou um deputado que pediu pena de morte para o analista militar Bradley Manning, de 22 anos, preso como suspeito de parte dos vazamentos – ou seja, de ter feito o papel de Ellsberg.
Fora dos EUA foram mais comuns matérias relatando a cumplicidade dos militares com a tortura e os pedidos de investigação, mas viu-se pouca investigação do vasto material além dos pontos destacados pelo próprio WikiLeaks, cuja existência está em risco. O site Moneybookers, que coletava grande parte das doações que lhe eram destinadas, encerrou-lhe a conta, aparentemente a pedido de Washington. O governo sueco negou visto de permanência a Assange, provavelmente pelo mesmo motivo. O jornalismo investigativo nunca foi mais frágil.
Texto da CartaCapital.
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Ambiguidades preocupantes permanecem no Iraque
Anne Nivat
Nos últimos sete anos como jornalista, fui frequentemente ao Iraque. Sempre ando com proteção e fico com famílias em suas casas, tentando me misturar o máximo possível.
A cada visita, encontro um país diferente. Após a carnificina de 2006 e 2007, o Iraque ficou paralisado de medo. Agora, apesar de continuar havendo uma violência esporádica, a segurança em geral melhorou a ponto de o presidente Obama declarar formalmente o fim do papel de combate dos EUA, e as próprias autoridades iraquianas assumirem a responsabilidade por manter a ordem.
Hoje, as pessoas não usam mais capacetes e máscaras de gás quando fazem compras nos mercados de Bagdá. Em todos os bairros, mesmo os mais perigosos, as crianças saem à tardinha para brincar, e os idosos sentam-se nas calçadas em cadeiras de plástico, como costumavam fazer antes da guerra.
O transporte público, apesar de nem sempre confiável, está sendo reativado. As estudantes não precisam mais ir para a escola ou universidade em vans especiais com cortinas nas janelas.
Mas o ambiente que encontrei em minha mais recente viagem em maio foi cheio de paradoxos. Hoje, o Iraque é um país de paz triste e ambiguidades preocupantes.
Muitas pessoas com quem conversei admitiram que a liberdade da opressão assassina do regime de Saddam foi “produzida nos EUA”. Mas há também um amplo ressentimento com a morte e destruição causados pela guerra norte-americana. Muitos expressaram um cansaço diante da ocupação de sete anos – junto com uma apreensão diante da partida dos americanos.
Poucas pessoas expressaram fé na democracia, seus líderes ou em sua própria capacidade de construir um futuro livre e próspero. Pior, o cenário parece aleijado por uma apatia de anestesiar a mente. Vi o mesmo desânimo paralisante e disseminado na Tchetchênia, no Afeganistão e em outras guerras que cobri como repórter free-lance, na maior parte para a mídia francesa.
Espera-se que os piores horrores que os iraquianos sofreram tenham ficado para trás –mas como podem continuar com suas vidas quando chegaram à conclusão que as batalhas que viveram de nada serviram?
O fato é que resta um enorme vão entre o que o Ocidente quer para o Iraque e o que muitos iraquianos compreendem desses objetivos ocidentais.
Muitas pessoas com quem conversei nunca levaram a sério o desejo americano de estabelecer uma democracia, em grande parte porque simplesmente não tinham familiaridade com o conceito. Para muitos, a palavra democracia se tornou sinônimo de incompetência e corrupção. Eles não têm a menor ideia do que a guerra custou ao Ocidente em termos de dinheiro, vidas e angústia política. Além disso, muitos não dão a mínima.
Em Kirkuk, cidade rica em petróleo onde árabes, curdos e turcos estão lutando pelo poder, visitei um casal turco que conheço há sete anos. Adeeb, engenheiro de petróleo de 55 anos falou diretamente: “Os americanos introduziram distinções em nosso povo que não havia antes. Instituíram quotas de acordo com nossa seita religiosa. Como resultado, a pouca disciplina que tínhamos foi substituída por uma espécie de caos baseado em valores supostamente ‘democráticos’. Se isso que é democracia, então ninguém quer.”
Adeeb parecia ter esquecido que, no regime anterior, suas opções eram muito limitadas por causa de sua etnia. Saddam Hussein nunca hesitou em agir contra qualquer seita ou grupo étnico que julgasse ser uma ameaça e periodicamente fazia operações violentas de opressão. Em 1988, ele usou armas químicas contra os curdos na cidade de Halabja, em um ataque que matou milhares de pessoas. Após a primeira guerra do Golfo, ele massacrou os xiitas marsh, destruindo sua sociedade e sua forma de vida.
Ainda assim, o desapontamento no Iraque pós-Saddam é amplo, independentemente da geração ou status social. Algumas pessoas não apenas expressam abertamente a nostalgia pela ordem da era Saddam, mas fazem dos EUA um alvo fácil de todas as queixas. Sob Saddam, as ruas eram limpas, lembra-se Adeeb. Hoje, carneiros se alimentam do lixo empilhado.
Na cidade de Najaf, Mohammed, comerciante de 35 anos, lamentou que os filhos tivessem que frequentar classes em turnos porque o mesmo prédio está sendo usado para abrigar três escolas diferentes. Em Fallujah, capital da rebelião sunita em 2004, Muamer, professor de 25 anos que lutou contra os americanos, reclamou que sua seita –que estava no topo na era de Saddam - foi “esquecida”.
A mulher de Adeeb, Nidret, ensina inglês em uma escola de ensino fundamental de Kirkuk. Com o passar dos anos, ela se tornou cada vez mais tradicional e religiosa e passou a adotar uma abordagem menos cosmopolita aos valores ocidentais.
“Somos um país ocupado, e os invasores não nos respeitam”, disse ela. “Você pode imaginar, meus alunos nem querem mais aprender inglês. Eles dizem que é a língua de nosso inimigo, das pessoas que estão nos matando sem motivo, então não querem saber.”
A palavra “respeito” é repetida inúmeras vezes, como um mantra. Adnan, 50, que foi oficial militar e membro do Baath, partido governante de Saddam, desapareceu após a queda do ditador e depois ressurgiu como gerente de uma ONG que se dedica a fornecer água potável para sua cidade natal xiita no Sul, também sente que não é respeitado pelos “invasores”.
Ele diz que a vida era melhor com Saddam, em parte porque não viu nenhuma melhora concreta para ele ou para sua família. Ele votou em Ayad Allawi, xiita secular vencedor das eleições há cinco meses, que ainda não sabe se vai se tornar primeiro-ministro. “Precisamos de um homem de ferro”, diz Adnan, “alguém que compreenda que o Iraque só vai se desenvolver novamente se respeitarmos a disciplina, o controle e o Estado de direito”.
Muitos iraquianos estão convencidos de que precisam desenvolver seu país por si mesmos mas não assumem qualquer responsabilidade pelos problemas de hoje. Sua passividade gerou cinismo, claramente ilustrado pela incapacidade dos legisladores recém eleitos do país de alcançar um acordo político. São essas as pessoas que devem encontrar as soluções, não os americanos.
Um argumento usado para justificar a decisão do presidente George W. Bush de entrar em guerra foi que a derrubada de Saddam pavimentaria o caminho para a volta dos exilados iraquianos, muitos deles profissionais altamente qualificados que forneceriam uma base para a renovação e organização da sociedade. Porém, mesmo esses iraquianos bem formados que voltaram para ajudar o país agora são vistos pelos locais com forte ressentimento, como se tivessem “voltado nas malas dos americanos”.
“Onde eles estavam quando agente estava sofrendo? Como podem querer nos guiar agora, quando não compartilharam nosso sofrimento por tantos anos?”, pergunta Fawsia, 68, professor aposentado de inglês e francês que mora em Bagdá.
Essa atitude também é comum no Afeganistão e na Tchetchênia. Quem colaborou com os “invasores” não pode ajudar a melhorar a situação porque são tratados como traidores.
Duvido que esse ressentimento será superado no Iraque, a não ser que haja uma reconciliação profunda – algo que ainda não foi alcançado em nenhum desses países. O desespero e a desorganização são os verdadeiros inimigos, e eles não podem ser derrotados por meios militares. Talvez no Ocidente devamos compreender que é preciso mais tempo para apagar o que a guerra provoca –destruição e desespero - do que para impor o que supostamente deveria trazer: um sistema democrático.
Tradução: Deborah Weinberg
Texto do International Herald Tribune, reproduzida no UOL.
Comentário: o texto de Anne Nivat foi realmente produzido para leitores dos Estados Unidos. Em momento nenhum ela parece demonstrar capacidade de empatia, isto é, se colocar no lugar dos cidadãos iraquianos e tentar pensar como eles.
Logo no início do texto ela fala em “ um amplo ressentimento com a morte e destruição causados pela guerra norte-americana”. Como ela escreve para leitores dos Estados Unidos, ela não descreve o que aconteceu como “invasão norte-americana”. Guerra deve soar melhor a ouvidos norte-americanos. Além disso, cada vez que usa a palavra invasores, a palavra está entre aspas, o que demonstra que, ou ela não acredita que houve uma invasão, ou ela não quer se comprometer com uma palavra que talvez ela ache forte.
Em nenhum momento ela se refere às mentiras das “armas de destruição de massa” utilizadas como justificativa para invasão. O discurso da senhora Nivat é o de que o intento de derrubar Saddam Hussein fosse o motivo da invasão desde o início (como se não continuassem existindo ditadores mundo afora).
De alguma maneira, me parece que a repórter quer justificar a presença dos Estados Unidos no Iraque, e demonstrar que o Iraque é melhor agora do que no tempo de Saddam. Pode até ser que seja, mas parece que muitos cidadãos iraquianos não concordam. E eles deveriam ter direito à opinião deles.
Além disso talvez fosse bom lembrar que enquanto foi interessante para os governantes dos Estados Unidos, eles ajudaram Saddam Hussein, inclusive lhe fornecendo armamentos, que, como a repórter fala, ele usou contra parte de seu próprio povo. Depois, causaram empobrecimento do povo iraquiano, por conta do embargo que impuseram ao país em retaliação pelo Iraque ter invadido o Kuwait.
As ambiguidades não estão apenas na situação do Iraque, mas também na forma da repórter descrever os acontecimentos.
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Ocupação do Iraque completa seis anos fora de foco
Violência diminuiu, mas problemas persistem; com crise, governo e opinião pública nos EUA deixam conflito em segundo plano
ANDREA MURTA
DE NOVA YORK
A ocupação do Iraque pelos EUA, iniciada com um ataque na madrugada de 20 de março de 2003 com bombas e mísseis ao sul de Bagdá, completa hoje seis anos. Mas desta vez, após tantos protestos e atenção da mídia, a crise econômica ofuscou a guerra no noticiário, e a data parece quase esquecida.
Em dois discursos em Los Angeles ontem, o presidente dos EUA, Barack Obama, não citou o aniversário, concentrando-se na economia. Tampouco houve perguntas da plateia a respeito. Em manchetes dos principais jornais, blogs e TVs, nada de destaque ao Iraque. E Bagdá tampouco fez cerimônias sobre a ocasião.
A ausência foi notável, já que, pelo horário de Washington, a guerra começou na noite de 19 de março de 2003.
Não é só a recessão que causou o desprestígio. Ajudou na obliteração das notícias do front o declínio da violência, creditado pelo Pentágono ao aumento das tropas no Iraque a partir de 2006 e à aliança com milícias sunitas.
Além disso, é uma estratégia de Obama transferir atenção, assim como tropas e recursos, do Iraque ao Afeganistão. A ação no Iraque já custou US$ 657 bilhões aos cofres públicos americanos (segundo valores aprovados pelo Congresso). Com as mudanças, Obama projeta reduzir os gastos, contando com US$ 144 bilhões deste ano fiscal, US$ 130 bilhões em 2010 e US$ 50 bilhões depois.
Os números trazem notícias relativamente boas. As média diária de mortes de civis iraquianos em ataques e confrontos é hoje 10. É mais do que no início da guerra, mas menos do que o pico de 72 em 2006, segundo o site Iraq Body Count.
Os saldo total, porém, bate em 91 mil. No caso dos militares americanos, as baixas chegam a 4.259. E, se a violência diminuiu significativamente em Bagdá, a insurgência sunita continua forte no norte do país.
De toda forma, o Iraque não está estável. O país enfrenta dificuldades políticas e econômicas, e o risco de as disputas desembocarem em mais violência não está fora do quadro.
"O processo político é cheio de tensões e contradições, e a situação no Iraque vai se deteriorar se não progredirmos politicamente", disse o legislador sunita Osama al Nujafi à Associated Press. Na economia, uma complicação recente é a crise no Orçamento: cortes severos foram necessários depois que o preço do barril de petróleo caiu do pico de US$ 150 em meados de 2008 para US$ 50.
Ante o quadro, o Exército dos EUA espera sair do Iraque sem deixar o país no caos. A ideia é tirar as tropas de combate até setembro de 2010 e todos os soldados até o fim de 2011.
Para muitos iraquianos, é pouco. "O Iraque nunca vai ver a estabilização até que todas as tropas de ocupação saiam. Não vimos nenhuma mudança do último aniversário até agora", disse Salah al Obeidi.
Texto da Folha de São Paulo, de 20 de março de 2009.
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Iraque veta licença, e mercenários da Blackwater têm que deixar país
TIMOTHY WILLIAMS
DO "NEW YORK TIMES", EM BAGDÁ
A Blackwater Worldwide, empresa de segurança cujos guardas mataram 17 civis em uma movimentada rua de Bagdá em 2007, não receberá licença do governo iraquiano para operar no país. Com a decisão, os diplomatas americanos no Iraque, que usam seguranças particulares, terão de buscar outras formas de proteção. Não se sabe quando a Blackwater terá de deixar o Iraque, mas é provável que ela continue em operação até pelo menos o segundo trimestre, quando um comitê conjunto dos governos de Iraque e EUA deve apresentar propostas de regras para as empresas privadas que operam em território iraquiano, informaram as autoridades. Bagdá já havia tentado expulsar a Blackwater anteriormente, mas os funcionários americanos que trabalham no país e dependem dos seguranças pesadamente armados disseram não ter alternativa a manter o contrato com a empresa.
Ao contrário de muitas das demais firmas que prestam serviços de segurança no Iraque, a Blackwater vinha operando sem licença do governo iraquiano, embora tivesse solicitado uma recentemente. "Eles apresentaram seu pedido e nós o rejeitamos", disse Alaa al Taia, funcionário do Ministério do Interior iraquiano.
"Não há mais necessidade de renovar seu contrato porque nossas forças de segurança são capazes de realizar as missões que a empresa conduzia. O retrospecto dessa empresa tem muitas máculas, especificamente o envolvimento na morte de número tão alto de civis."
Uma funcionária da Embaixada dos EUA em Bagdá disse que a decisão estava sendo estudada. As empresas de segurança que operam no Iraque perderam sua imunidade contra processos em tribunais iraquianos em 31 de dezembro, como parte de um acordo assinado por EUA e Iraque para permitir a permanência das tropas americanas no país.
A questão da imunidade era prioridade para o governo iraquiano desde o 16 de setembro de 2007, quando seguranças da Blackwater que cruzavam a praça Nisoor, em Bagdá, em um comboio de veículos, abriram fogo contra civis, aparentemente por acreditarem que tinham sido alvo de tiros. No mês passado, cinco seguranças foram acusados de homicídio culposo nos EUA e alegam inocência. Outro segurança colabora com a acusação.
Anne Tyrrell, porta-voz da Blackwater, declarou ontem que a empresa ainda não foi notificada. "Se proceder, respeitaremos as leis do Iraque e seguiremos as instruções de nossos clientes no governo americano, para cumprirmos os contratos e as regras iraquianas." Mais tarde, o presidente da Blackwater, Gary Jackson, disse à Associated Press que, assim que a empresa receber ordem para deixar o Iraque, ela removerá seus cerca de mil empregados em 72 horas.
Tradução de PAULO MIGLIACCI
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DA REDAÇÃO
O premiê iraquiano, Nuri al Maliki, cobrou ontem dos Estados Unidos um cronograma de retirada das tropas americanas. "A idéia é chegar a um acordo sobre a retirada ou estabelecer um cronograma", disse Maliki, em meio a negociações sobre a permanência das tropas dos EUA após o fim do atual mandato da ONU, em dezembro.
É a primeira vez que Bagdá pede um calendário para o fim da presença estrangeira em território iraquiano, uma idéia que os EUA voltaram a rejeitar categoricamente ontem.
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