quarta-feira, dezembro 22, 2010

Diplomatas foram enganados por modos "cordiais" de Saddam na Guerra do Golfo

Diplomatas foram enganados por modos "cordiais" de Saddam na Guerra do Golfo

Bernhard Zand

Der Spiegel

Uma declaração inábil da embaixadora americana no Iraque provocou a primeira Guerra no Golfo? Os cabogramas americanos vazados mostram que os diplomatas fracassaram em perceber os sinais de que Saddam Hussein estava se preparando para invadir o Kuait e que pintavam seu regime sob luz consistentemente favorável nos anos que antecederam o conflito.

Na manhã de 25 de julho de 1990, o ditador iraquiano Saddam Hussein telefonou para a embaixadora americana no Iraque, April Glaspie. Foi o primeiro encontro dela com Saddam e durou duas horas. E provavelmente entrará para a história como um dos incidentes mais controversos na diplomacia americana.

Naquela noite, Glaspie enviou por cabograma seu relatório sobre a conversa para Washington. Ela o resumiu sob o título: “Mensagem de amizade de Saddam ao presidente Bush”.

Apenas oito dias depois, estourou a guerra quando as tropas de Saddam invadiram o Kuait. A invasão provocou um conflito que duraria mais de 15 anos e terminaria nem mesmo com a morte de Saddam Hussein.

É o pesadelo de todo diplomata. O que transcorreu exatamente no encontro de Glaspie com o presidente iraquiano?

Saddam estava sob pressão em meados dos anos 90. Ele se queixou à embaixadora americana de que os oito anos de guerra com o Irã tinham deixado seu país esgotado e altamente endividado. Ainda pior, o vizinho Kuait estava deliberadamente mantendo baixos os preços do petróleo –tão baixos, de fato, que seu país tinha sido obrigado a cortar as pensões que pagava às viúvas e órfãos.

“A esta altura”, declarou o relatório de Glaspie, “o intérprete e um dos tomadores de notas começaram a chorar”.

Saddam então passou para a questão da disputa de fronteira do Iraque com o Kuait. A conversa se tornou técnica, e ele até mesmo começou a recitar uma lista de distâncias em quilômetros. “A embaixadora”, Glaspie escreveu falando de si mesma, “disse que tinha servido por 20 anos no Kuait; naquela época, como agora, nós não tomamos nenhuma posição a respeito dessas questões árabes”.

Poucas semanas depois, os iraquianos romperam todo protocolo diplomático divulgando uma transcrição resumida da conversa. Nunca antes os Estados Unidos pesaram tão cuidadosamente as palavras de um de seus diplomatas. Nunca antes uma única sentença foi tão discutida quanto à da embaixadora Glaspie.

Os críticos dizem que a resposta dela “confundiu” Saddam Hussein, que ela foi ambígua e vaga demais. Saddam pode ter pensado que os Estados Unidos não interviriam caso atacasse o Kuait. Assim, eles afirmam, Glaspie teve um papel decisivo no início da guerra. Seus defensores dizem que esta crítica é imprópria. Eles apontam que Glaspie disse a Saddam o que qualquer diplomata em sua posição teria dito.

A controvérsia persiste até hoje. Mas novos despachos diplomáticos, recém divulgados pelo WikiLeaks, agora revelam o que os embaixadores americanos em Bagdá informaram a Washington entre 1985 e 1990. Eles mostram o ambiente político no qual Glaspie atuava, a posição americana a respeito de Saddam Hussein na época e o que levou à sentença fatídica dela.

Os Estados Unidos romperam as relações diplomáticas com o Iraque após o conflito entre árabes e israelenses de 1967. A embaixada americana foi reaberta em 1984 e, desde o início, um assunto dominava os relatos dos diplomatas americanos estacionados em Bagdá: o Irã.

Na época, as tropas de Saddam lutavam contra as dos revolucionários do Irã desde as montanhas do Curdistão até o Rio Shatt al Arab, e era bem óbvio de que lado estava a simpatia americana: Washington queria a vitória de Saddam.

Glaspie chegou ao Iraque no final de 1987. Na época ela tinha 46 anos e tinha vasta experiência nos países árabes. Washington certamente não enviou uma novata para Bagdá.

Visão estreita

Uma das primeiras viagens dela foi para se encontrar com os cristãos no norte, cuja situação ela considerou satisfatória. Qualquer “reassentamento” que tenha ocorrido acabou semanas antes. Ela descreveu o governador de Saddam na província de Mosul como “impecavelmente agradável” e seu chefe de segurança como “prestativo e compassivo”. De fato, para onde quer que olhasse, ela estava surpresa em quanto dinheiro o governo iraquiano tinha gasto com sua minoria cristã. Um mosteiro foi reformado e “vários novos vilarejos” –marcados como “vilarejos modelo Saddam”– foram construídos.

Tudo aquilo poderia ser verdade, mas representava uma visão deliberadamente estreita do Iraque no início de 1988. Pois enquanto a embaixadora Glaspie estava visitando Mosul, o primo de Saddam, Ali Hassan al Majid (que viria a ser conhecido como “Ali Químico”), bombardeava os curdos no norte do Iraque, a apenas 250 quilômetros de distância, com gás venenoso. Em 16 e 17 de março de 1988, 10 semanas após a visita, um destino semelhante ocorreu à cidade de Halabja. Cerca de 5 mil pessoas foram mortas ali nesses dois dias, com mais centenas morrendo posteriormente de modo doloroso, devido aos efeitos das armas químicas usadas contra elas.

Não é que a embaixada americana em Bagdá não sabia nada desses ataques. Em meados de fevereiro, Abd al Rahman Qassemlu, um líder curdo iraniano que ficou ao lado de Saddam contra Teerã, foi a Bagdá. Após uma reunião com o ditador, ele também passou na embaixada americana. Ele avisou que não queria nem dinheiro e nem armas. “É claro que sempre é possível ter mais, mas temos o suficiente”, ele disse, segundo um despacho da embaixada.

Ele então narrou o que estava se passando no norte. O relatório disse que o chefe de seu departamento político “perguntou a Qassemlu qual era sua reação diante da campanha iraquiana de destruição das aldeias curdas. Qassemlu reconheceu que a ‘maioria’ das aldeias foi destruída, mas parecia sem nenhuma emoção sobre o assunto”, notou o relatório.

Qassemlu disse aos americanos precisamente quem culpava pelos ataques assassinos ocorridos no norte: “Saddam. Ele está encarregado de tudo”.

Desde cedo, os relatórios americanos começaram a mencionar os temores iraquianos de que os Estados Unidos poderiam abandonar o Iraque por laços mais estreitos com Teerã. Em um cabograma para Washington, escreveu Glaspie: “Nós tranquilizamos os iraquianos no alto escalão e por diferentes canais de que não contemplamos uma ‘inclinação’ em qualquer direção”.

Colaboração excelente

Perto do fim da guerra Irã-Iraque, no segundo trimestre de 1988, os cabogramas da embaixada americana falavam de um crescente otimismo dentro do Iraque. Os diplomatas informaram uma colaboração excelente nos bastidores.

Quando a guerra Irã-Iraque finalmente acabou após oito anos e quase meio milhão de mortos, Glaspie colocou a palavra “vitória” entre aspas; mas assim que a celebração passou, os relatos novamente passaram a se concentrar na ameaça iraniana que criou o elo primário entre o regime de Saddam e os Estados Unidos –passando por cima de todas as queixas sobre assassinatos, armas químicas e violações de direitos humanos. “Nós duvidamos que os iraquianos sejam ingênuos a ponto de acreditarem que qualquer regime clerical no Irã, mesmo após a morte de Khomeini, renunciará à revolução ou a seus elementos integrais, o expansionismo e a interferência nos assuntos internos de outros países, principalmente do Iraque.”

Mas então, no início dos anos 90, “nuvens escuras” se formaram sobre o relacionamento do Iraque com os Estados Unidos, nas palavras do próprio Saddam, falando em uma coletiva de imprensa após uma visita do presidente do Egito, Hosni Mubarak. Saddam atribuiu a deterioração a uma suposta interferência de um “lobby sionista” na política americana. Isso preocupou a embaixadora americana? Ela se preocupou com a escolha de palavras do ditador iraquiano?

Não. Ela apenas enviou para casa um relatório intitulado “Saddam explica e defende”. No despacho, Glaspie falou sobre a posição de Saddam como “talvez derivando de seu antigo esforço para promover um senso de identidade para os ‘iraquianos’ –um senso que ele frequentemente se lembra de carecer quando era menino”. Sua avaliação do presidente iraquiano em abril de 1990 foi a seguinte: “Saddam não está fazendo pose. Ele está genuinamente preocupado com Israel e com o Irã”.

Em maio daquele ano, os chefes de Estado da Liga Árabe se reuniram em Bagdá, tendo como fundo as ameaças de Saddam contra o Kuait e os Emirados Árabes Unidos. De novo, Glaspie elogiou os esforços de Saddam. Ela disse que ele “deu um passo à frente” e reuniu os árabes, apesar de que no “menor denominador comum”.

‘Liderança intelectual’

Ela realmente não viu as nuvens de tempestade se formando no horizonte? No início de junho, Glaspie enviou um cabograma a Washington com o título –aparentemente sem ironia– “Liderança Intelectual”. Ela disse que Saddam tinha passado recentemente muitas horas com um grupo de seis homens finalizando uma nova Constituição. A embaixadora pediu ao Departamento de Estado para anotar os nomes dos homens, porque esse projeto era “importante”, como se Saddam estivesse seriamente pensando na Constituição iraquiano apenas dois meses antes de suas tropas invadirem o Kuait, se de fato esse notório conspirador e mestre da espionagem alguma vez tenha levado uma Constituição a sério em sua vida.

A julgar por seus memorandos, a embaixadora sabia muito pouco sobre as dúvidas perturbadoras que alguns membros do círculo interno de Saddam tinham a respeito de seus planos de invasão cada vez mais concretos. Os rumores de que ele estava sob pressão internamente foram desprezados por Glaspie como meras invenções por parte do Irã e dos exilados iraquianos. E ela rejeitou explicitamente um relatório da embaixada americana no Kuait, que dizia que o comportamento errático de Saddam sugeria “pressões internas e instabilidade de seu regime” –o que, olhando para trás, parece altamente provável. O embaixador em Bagdá insistiu que Saddam era motivado por muitas coisas, mas rumores de golpe não eram um deles.

Isso foi seguido por dois parágrafos que levantam sérias dúvidas a respeito da objetividade de Glaspie em relação ao regime de Saddam: “Nós não estamos sugerindo”, ela escreve, “que não existam algumas ‘ações disciplinares’ ocasionais aqui. Por exemplo, o adc (nota do editor: o ajudante de ordens) curdo de longa data do presidente, Sabah Mizra, sem dúvida rasurou seu livro de notas neste ano. Ele foi preso e pode estar morto”.

E de qualquer forma, ela acrescentou, Saddam está apenas tentando “melhorar o bem-estar dos cidadãos. O partido não tem dificuldade em mobilizar milhares de árabes (não curdos) iraquianos para saudar seu presidente”.

Em junho de 1990, a emissora de televisão americana “ABC” transmitiu uma entrevista que a jornalista Diane Sawyer fez com Saddam Hussein, após mediação da embaixada americana. Os iraquianos ficaram furiosos, porque a conversa de três horas foi editada para 20 minutos. De novo, Glaspie pediu pela compreensão tanto do secretário pessoal de Saddam quanto de Washington. Ela disse que Saddam não estava “jogando a toalha”. Ele estava defendendo sua “nova política de disponibilidade à imprensa ocidental (‘Le Figaro’ é o próximo) e sua disposição de permitir que o público iraquiano o visse e ouvisse sem cortes e sem retoques”.

A entrevista de Sawyer também apareceu na conversa contenciosa de Glaspie com Saddam, em 25 de julho. Glaspie escreveu, se referindo a si mesma, “a embaixadora disse que assistiu ao programa de Diane Sawyer e o considerou barato e injusto. Mas a imprensa americana trata todos os políticos sem gentileza –este é o nosso modo”.

Saddam “cordial, razoável e até mesmo caloroso”

Se o seu comentário sobre a neutralidade americana nas disputas de fronteira árabes fizeram Saddam decidir invadir o Kuait é uma pergunta que talvez apenas o próprio Saddam poderia responder com certeza. Mas os despachos diplomáticos que vazaram mostram que Glaspie e seu antecessor viam o regime de forma extremamente favorável desde o início, fizeram vista grossa para os crimes amplamente conhecidos de Saddam e foram tão influenciados pela inimizade mútua com o Irã a ponto de serem negligentemente não críticos. Essa atitude certamente influenciou a reunião fatídica de Glaspie com Saddam.

A postura do presidente foi “cordial, razoável e até mesmo calorosa”, começa seu relato da reunião. Ele termina concluindo que ele sem dúvida era sincero ao “buscar um acordo pacífico” para o conflito com o vizinho Kuait. Entre eles se encontra parágrafo após parágrafo listando o suposto egoísmo do Kuait e os sacrifícios e intenções pacíficas dos iraquianos.

Saddam Hussein sem dúvida enganou a embaixadora americana, apesar de que também em seu próprio detrimento. Mas ela particularmente não dificultou para ele.

A embaixada enviou mais quatro despachos para Washington antes do início da guerra. Um começa com a crença equivocada de que Saddam estava realmente respondendo às tentativas de mediação mais recentes tentadas pelo presidente do Egito, Hosni Mubarak, mas termina com a análise etnológica que diz mais a respeito dos motivos para a guerra do que muitas avaliações posteriores:

“É difícil exagerar a profundidade do sentimento antikuaitiano no Iraque. Este é um fundo extremamente importante para as tensões atuais. E a antipatia é velha e profunda –não algo estimulado pela mídia para a ocasião.”

“Os kuaitianos que chegam ao Iraque com bolsos cheios de dinares iraquianos (comprados com cotação do mercado negro que é menos que um décimo da taxa de câmbio oficial) e que gastam ostentosamente, não são de classe média educada –estes vão para a Europa. O Iraque recebe o equivalente ao ‘lixo branco pobre’, a classe média baixa, que pode ser vista em grande número em Basra na sexta-feira e nos resorts de verão do norte, frequentemente bêbada, às vezes desordeira, e geralmente apostando em cassinos fora isso vazios. Ela também vai para Bagdá em grande número, fornecendo clientela para as boates baratas e para as garotas de programa.”

“Os iraquianos sentem profundamente que os kuaitianos são grandes sovinas vivendo ostentosamente enquanto o Iraque, que fez sacrifícios terríveis durante a guerra, ainda está sofrendo.”

Quatro dias depois, a embaixadora Glaspie voou para Washington. Sete dias depois, em 2 de agosto de 1990, as tropas iraquianas invadiram o Kuait.

Naquele dia, o vice de Glaspie, Joseph Wilson, que ficou famoso 13 anos depois como o marido da espiã desmascarada da CIA, Valerie Plame, enviou ao Departamento de Estado a mensagem mais breve que a embaixada em Bagdá já tinha enviado: “Nós tentamos repetidamente, desde 0630 local, contatar os altos funcionários diplomáticos, incluindo o ministro Aziz. O subsecretário Hamdun aparentemente não está em casa, já que ninguém atende seu telefone de casa (...) A embaixada enviou uma equipe de gestão de crise”.

Saddam tinha atacado. E da noite para o dia, ele passou de aliado americano por quase 10 anos a inimigo mortal. Tudo o que antes parecia certo, repentinamente estava errado.

Tradução: George El Khouri Andolfato



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quinta-feira, novembro 04, 2010

Sinais trocados: a mídia censora

Papéis trocados: a mídia censora

Ativistas assumem a função de jornalistas e os jornais os censuram

“Como de costume, os árabes sabiam”, escreveu Robert Fisk sobre o vazamento pelo site WikiLeaks de 391.832 documentos secretos dos EUA sobre a Guerra do Iraque. Como também sabia, minúcias e estatísticas à parte, quem duvidou da palavra de Washington e Londres e buscou informação além dos grandes órgãos da mídia ocidental.
Os EUA diziam não fazer “contagem de corpos”. Pois os documentos vazados detalham 109.032 mortes, 66.081 das quais civis – e é um balanço parcial. Revelam pelo menos 14 assassinatos de civis pelos mercenários da Xe (ex-Black­water). Iraquianos torturaram e mataram centenas de prisioneiros entregues pelos comandantes estadunidenses, sob seus olhos complacentes. Abusos nas prisões dos EUA prosseguiram após as revelações de Abu Ghraib. De 832 pessoas abatidas em postos de controle dos EUA, apenas 120 eram supostos insurgentes: os demais incluíam famílias e crianças. Vídeos retratam helicópteros a liquidar friamente inimigos rendidos ou civis indefesos. Manuais de tortura.

E barbaridades também do outro lado, como mulheres e meninos com síndrome de Down ou outros problemas mentais usados como mulheres-bomba e homens-bomba: um médico vendeu à Al-Qaeda uma lista de pacientes como esses. A guerra como é, sem edição da CNN e Fox News.

Um precedente foram os “Papéis do Pentágono”, 14 mil páginas de estudos secretos sobre a Guerra do Vietnã vazados pelo analista militar Daniel Ellsberg. Publicado em 1971 pelo New York Times, depois pelo Washington Post, revelou ações secretas que incluíam bombardeios aéreos do Laos, ainda oficialmente neutro, e ataques contra o território do Vietnã do Norte. Os dois jornais enfrentaram uma batalha judicial contra o governo Nixon, que tentou proibir a publicação. Agentes da Casa Branca tentaram desmoralizar Ellsberg, roubando os arquivos de seu psiquiatra e drogando-o para fazê-lo parecer louco. Ellsberg foi processado por traição e absolvido, enquanto seus algozes, punidos por arrombamento. A epopeia gerou o documentário O Homem Mais Perigoso da América, de Judith Erlich e Rick Goldsmith.
É um sinal de decadência da imprensa escrita e da mídia dos EUA que, desta vez, a denúncia só tenha sido possível por intermédio de um site mantido por uma ONG quase clandestina, perseguida pelo Pentágono e pela Casa Branca. Mais grave ainda é que os jornais que protagonizaram o vazamento de 1971 procuram minimizar as revelações ou desmoralizar os responsáveis por sua divulgação, desempenhando o papel que há 40 anos foi de Nixon e seus capangas. E a mídia mais conservadora quer que os responsáveis pelo vazamento sejam executados ou caçados como terroristas, nada menos.

Ao se referir aos arquivos, o New York Times produziu como manchete um primor de contorcionismo: “Detidos se deram pior nas mãos de iraquianos, dizem os arquivos”. E as análises do material, de cuja veracidade ninguém duvida, foram acompanhadas por uma minuciosa tentativa de assassinato da reputação do WikiLeaks e seu editor-chefe, o australiano Julian Assange.

O artigo de John Burns – um dos jornalistas integrados nas tropas, entusiasta da ocupação – retrata Assange pela visão de detratores e “ex-camaradas” que “o estão abandonando pelo que consideram um comportamento errático e autoritário, um certo delírio de grandeza não acompanhado da consciência de que os segredos digitais que revela podem ter um preço em carne e sangue”. De assassinos, torturadores e colaboracionistas, presume-se, embora o WikiLeaks tenha tido muito mais cuidado com suprimir seus nomes do que o Pentágono com evitar os massacres e torturas que protagonizaram. Põe em dúvida sua saúde mental com o empenho do Nixon de 1971: cita detratores segundo os quais “ele não está no seu juízo perfeito” e boatos sobre sua vida pessoal, provavelmente armados pela CIA – como o de que teria violentado duas suecas, acusação pouco verossímil e retirada pelas supostas vítimas.
Em agosto, nas páginas do Washington Post, o comentarista Marc Thiessen afirmou, depois do primeiro vazamento de documentos sobre o Afeganistão, que o WikiLeaks “não é organização noticiosa, mas empresa criminosa” e exigiu que Assange fosse preso antes de “causar mais dano à segurança nacional”. Ante o fato consumado, o editorial fez de conta que não tinha a menor importância: “Os documentos demonstram que a verdade sobre o Iraque já havia sido contada”, mas critica “o enfoque impulsivo e politicamente motivado de Assange, que produz pouca luz, mas causa grandes danos”.

Foram ignoradas as cobranças de investigação da ONU, da Anistia Internacional e do vice-primeiro-ministro britânico Nick Clegg, entre outros. O título mais destacado foi “Papéis do WikiLeaks apoiam alegações de Bush sobre o papel do Irã na Guerra do Iraque” – embora, na verdade, os documentos mostrem que as evidências são mais vagas e ambíguas do que o Pentágono deu a entender.

A CNN fez uma entrevista com Assange que ele interrompeu, indignado com os jornalistas que questionavam boatos sobre sua vida pessoal em vez das informações sobre mais de 100 mil mortes. O editorial da Fox News diz que os funcionários do WikiLeaks precisam ser considerados “combatentes inimigos” e submetidos a “ações não judiciais”. Pede que seus fundos sejam congelados, como se faz com organizações terroristas e que o site seja derrubado pelos hackers do Pentágono. Seu noticiário destacou um deputado que pediu pena de morte para o analista militar Bradley Manning, de 22 anos, preso como suspeito de parte dos vazamentos – ou seja, de ter feito o papel de Ellsberg.

Fora dos EUA foram mais comuns matérias relatando a cumplicidade dos militares com a tortura e os pedidos de investigação, mas viu-se pouca investigação do vasto material além dos pontos destacados pelo próprio WikiLeaks, cuja existência está em risco. O site Moneybookers, que coletava grande parte das doações que lhe eram destinadas, encerrou-lhe a conta, aparentemente a pedido de Washington. O governo sueco negou visto de permanência a Assange, provavelmente pelo mesmo motivo. O jornalismo investigativo nunca foi mais frágil.


Texto da CartaCapital.

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sábado, agosto 14, 2010

Ambiguidades preocupantes permanecem no Iraque

Ambiguidades preocupantes permanecem no Iraque


Anne Nivat



Nos últimos sete anos como jornalista, fui frequentemente ao Iraque. Sempre ando com proteção e fico com famílias em suas casas, tentando me misturar o máximo possível.


A cada visita, encontro um país diferente. Após a carnificina de 2006 e 2007, o Iraque ficou paralisado de medo. Agora, apesar de continuar havendo uma violência esporádica, a segurança em geral melhorou a ponto de o presidente Obama declarar formalmente o fim do papel de combate dos EUA, e as próprias autoridades iraquianas assumirem a responsabilidade por manter a ordem.


Hoje, as pessoas não usam mais capacetes e máscaras de gás quando fazem compras nos mercados de Bagdá. Em todos os bairros, mesmo os mais perigosos, as crianças saem à tardinha para brincar, e os idosos sentam-se nas calçadas em cadeiras de plástico, como costumavam fazer antes da guerra.


O transporte público, apesar de nem sempre confiável, está sendo reativado. As estudantes não precisam mais ir para a escola ou universidade em vans especiais com cortinas nas janelas.


Mas o ambiente que encontrei em minha mais recente viagem em maio foi cheio de paradoxos. Hoje, o Iraque é um país de paz triste e ambiguidades preocupantes.


Muitas pessoas com quem conversei admitiram que a liberdade da opressão assassina do regime de Saddam foi “produzida nos EUA”. Mas há também um amplo ressentimento com a morte e destruição causados pela guerra norte-americana. Muitos expressaram um cansaço diante da ocupação de sete anos – junto com uma apreensão diante da partida dos americanos.


Poucas pessoas expressaram fé na democracia, seus líderes ou em sua própria capacidade de construir um futuro livre e próspero. Pior, o cenário parece aleijado por uma apatia de anestesiar a mente. Vi o mesmo desânimo paralisante e disseminado na Tchetchênia, no Afeganistão e em outras guerras que cobri como repórter free-lance, na maior parte para a mídia francesa.


Espera-se que os piores horrores que os iraquianos sofreram tenham ficado para trás –mas como podem continuar com suas vidas quando chegaram à conclusão que as batalhas que viveram de nada serviram?


O fato é que resta um enorme vão entre o que o Ocidente quer para o Iraque e o que muitos iraquianos compreendem desses objetivos ocidentais.


Muitas pessoas com quem conversei nunca levaram a sério o desejo americano de estabelecer uma democracia, em grande parte porque simplesmente não tinham familiaridade com o conceito. Para muitos, a palavra democracia se tornou sinônimo de incompetência e corrupção. Eles não têm a menor ideia do que a guerra custou ao Ocidente em termos de dinheiro, vidas e angústia política. Além disso, muitos não dão a mínima.


Em Kirkuk, cidade rica em petróleo onde árabes, curdos e turcos estão lutando pelo poder, visitei um casal turco que conheço há sete anos. Adeeb, engenheiro de petróleo de 55 anos falou diretamente: “Os americanos introduziram distinções em nosso povo que não havia antes. Instituíram quotas de acordo com nossa seita religiosa. Como resultado, a pouca disciplina que tínhamos foi substituída por uma espécie de caos baseado em valores supostamente ‘democráticos’. Se isso que é democracia, então ninguém quer.”


Adeeb parecia ter esquecido que, no regime anterior, suas opções eram muito limitadas por causa de sua etnia. Saddam Hussein nunca hesitou em agir contra qualquer seita ou grupo étnico que julgasse ser uma ameaça e periodicamente fazia operações violentas de opressão. Em 1988, ele usou armas químicas contra os curdos na cidade de Halabja, em um ataque que matou milhares de pessoas. Após a primeira guerra do Golfo, ele massacrou os xiitas marsh, destruindo sua sociedade e sua forma de vida.


Ainda assim, o desapontamento no Iraque pós-Saddam é amplo, independentemente da geração ou status social. Algumas pessoas não apenas expressam abertamente a nostalgia pela ordem da era Saddam, mas fazem dos EUA um alvo fácil de todas as queixas. Sob Saddam, as ruas eram limpas, lembra-se Adeeb. Hoje, carneiros se alimentam do lixo empilhado.


Na cidade de Najaf, Mohammed, comerciante de 35 anos, lamentou que os filhos tivessem que frequentar classes em turnos porque o mesmo prédio está sendo usado para abrigar três escolas diferentes. Em Fallujah, capital da rebelião sunita em 2004, Muamer, professor de 25 anos que lutou contra os americanos, reclamou que sua seita –que estava no topo na era de Saddam - foi “esquecida”.


A mulher de Adeeb, Nidret, ensina inglês em uma escola de ensino fundamental de Kirkuk. Com o passar dos anos, ela se tornou cada vez mais tradicional e religiosa e passou a adotar uma abordagem menos cosmopolita aos valores ocidentais.


“Somos um país ocupado, e os invasores não nos respeitam”, disse ela. “Você pode imaginar, meus alunos nem querem mais aprender inglês. Eles dizem que é a língua de nosso inimigo, das pessoas que estão nos matando sem motivo, então não querem saber.”


A palavra “respeito” é repetida inúmeras vezes, como um mantra. Adnan, 50, que foi oficial militar e membro do Baath, partido governante de Saddam, desapareceu após a queda do ditador e depois ressurgiu como gerente de uma ONG que se dedica a fornecer água potável para sua cidade natal xiita no Sul, também sente que não é respeitado pelos “invasores”.


Ele diz que a vida era melhor com Saddam, em parte porque não viu nenhuma melhora concreta para ele ou para sua família. Ele votou em Ayad Allawi, xiita secular vencedor das eleições há cinco meses, que ainda não sabe se vai se tornar primeiro-ministro. “Precisamos de um homem de ferro”, diz Adnan, “alguém que compreenda que o Iraque só vai se desenvolver novamente se respeitarmos a disciplina, o controle e o Estado de direito”.


Muitos iraquianos estão convencidos de que precisam desenvolver seu país por si mesmos mas não assumem qualquer responsabilidade pelos problemas de hoje. Sua passividade gerou cinismo, claramente ilustrado pela incapacidade dos legisladores recém eleitos do país de alcançar um acordo político. São essas as pessoas que devem encontrar as soluções, não os americanos.


Um argumento usado para justificar a decisão do presidente George W. Bush de entrar em guerra foi que a derrubada de Saddam pavimentaria o caminho para a volta dos exilados iraquianos, muitos deles profissionais altamente qualificados que forneceriam uma base para a renovação e organização da sociedade. Porém, mesmo esses iraquianos bem formados que voltaram para ajudar o país agora são vistos pelos locais com forte ressentimento, como se tivessem “voltado nas malas dos americanos”.


“Onde eles estavam quando agente estava sofrendo? Como podem querer nos guiar agora, quando não compartilharam nosso sofrimento por tantos anos?”, pergunta Fawsia, 68, professor aposentado de inglês e francês que mora em Bagdá.


Essa atitude também é comum no Afeganistão e na Tchetchênia. Quem colaborou com os “invasores” não pode ajudar a melhorar a situação porque são tratados como traidores.


Duvido que esse ressentimento será superado no Iraque, a não ser que haja uma reconciliação profunda – algo que ainda não foi alcançado em nenhum desses países. O desespero e a desorganização são os verdadeiros inimigos, e eles não podem ser derrotados por meios militares. Talvez no Ocidente devamos compreender que é preciso mais tempo para apagar o que a guerra provoca –destruição e desespero - do que para impor o que supostamente deveria trazer: um sistema democrático.


Tradução: Deborah Weinberg



Texto do International Herald Tribune, reproduzida no UOL.


http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/herald/2010/08/04/ambiguidades-preocupantes-permanecem-no-iraque.jhtm



Comentário: o texto de Anne Nivat foi realmente produzido para leitores dos Estados Unidos. Em momento nenhum ela parece demonstrar capacidade de empatia, isto é, se colocar no lugar dos cidadãos iraquianos e tentar pensar como eles.


Logo no início do texto ela fala em “ um amplo ressentimento com a morte e destruição causados pela guerra norte-americana”. Como ela escreve para leitores dos Estados Unidos, ela não descreve o que aconteceu como “invasão norte-americana”. Guerra deve soar melhor a ouvidos norte-americanos. Além disso, cada vez que usa a palavra invasores, a palavra está entre aspas, o que demonstra que, ou ela não acredita que houve uma invasão, ou ela não quer se comprometer com uma palavra que talvez ela ache forte.


Em nenhum momento ela se refere às mentiras das “armas de destruição de massa” utilizadas como justificativa para invasão. O discurso da senhora Nivat é o de que o intento de derrubar Saddam Hussein fosse o motivo da invasão desde o início (como se não continuassem existindo ditadores mundo afora).


De alguma maneira, me parece que a repórter quer justificar a presença dos Estados Unidos no Iraque, e demonstrar que o Iraque é melhor agora do que no tempo de Saddam. Pode até ser que seja, mas parece que muitos cidadãos iraquianos não concordam. E eles deveriam ter direito à opinião deles.


Além disso talvez fosse bom lembrar que enquanto foi interessante para os governantes dos Estados Unidos, eles ajudaram Saddam Hussein, inclusive lhe fornecendo armamentos, que, como a repórter fala, ele usou contra parte de seu próprio povo. Depois, causaram empobrecimento do povo iraquiano, por conta do embargo que impuseram ao país em retaliação pelo Iraque ter invadido o Kuwait.


As ambiguidades não estão apenas na situação do Iraque, mas também na forma da repórter descrever os acontecimentos.



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sexta-feira, março 20, 2009

Iraque: 6 anos de ocupação

Ocupação do Iraque completa seis anos fora de foco

Violência diminuiu, mas problemas persistem; com crise, governo e opinião pública nos EUA deixam conflito em segundo plano

ANDREA MURTA
DE NOVA YORK

A ocupação do Iraque pelos EUA, iniciada com um ataque na madrugada de 20 de março de 2003 com bombas e mísseis ao sul de Bagdá, completa hoje seis anos. Mas desta vez, após tantos protestos e atenção da mídia, a crise econômica ofuscou a guerra no noticiário, e a data parece quase esquecida.
Em dois discursos em Los Angeles ontem, o presidente dos EUA, Barack Obama, não citou o aniversário, concentrando-se na economia. Tampouco houve perguntas da plateia a respeito. Em manchetes dos principais jornais, blogs e TVs, nada de destaque ao Iraque. E Bagdá tampouco fez cerimônias sobre a ocasião.
A ausência foi notável, já que, pelo horário de Washington, a guerra começou na noite de 19 de março de 2003.
Não é só a recessão que causou o desprestígio. Ajudou na obliteração das notícias do front o declínio da violência, creditado pelo Pentágono ao aumento das tropas no Iraque a partir de 2006 e à aliança com milícias sunitas.
Além disso, é uma estratégia de Obama transferir atenção, assim como tropas e recursos, do Iraque ao Afeganistão. A ação no Iraque já custou US$ 657 bilhões aos cofres públicos americanos (segundo valores aprovados pelo Congresso). Com as mudanças, Obama projeta reduzir os gastos, contando com US$ 144 bilhões deste ano fiscal, US$ 130 bilhões em 2010 e US$ 50 bilhões depois.
Os números trazem notícias relativamente boas. As média diária de mortes de civis iraquianos em ataques e confrontos é hoje 10. É mais do que no início da guerra, mas menos do que o pico de 72 em 2006, segundo o site Iraq Body Count.
Os saldo total, porém, bate em 91 mil. No caso dos militares americanos, as baixas chegam a 4.259. E, se a violência diminuiu significativamente em Bagdá, a insurgência sunita continua forte no norte do país.
De toda forma, o Iraque não está estável. O país enfrenta dificuldades políticas e econômicas, e o risco de as disputas desembocarem em mais violência não está fora do quadro.
"O processo político é cheio de tensões e contradições, e a situação no Iraque vai se deteriorar se não progredirmos politicamente", disse o legislador sunita Osama al Nujafi à Associated Press. Na economia, uma complicação recente é a crise no Orçamento: cortes severos foram necessários depois que o preço do barril de petróleo caiu do pico de US$ 150 em meados de 2008 para US$ 50.
Ante o quadro, o Exército dos EUA espera sair do Iraque sem deixar o país no caos. A ideia é tirar as tropas de combate até setembro de 2010 e todos os soldados até o fim de 2011.
Para muitos iraquianos, é pouco. "O Iraque nunca vai ver a estabilização até que todas as tropas de ocupação saiam. Não vimos nenhuma mudança do último aniversário até agora", disse Salah al Obeidi.

Texto da Folha de São Paulo, de 20 de março de 2009.


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segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Blackwater proibida de continuar operando no Iraque

Iraque veta licença, e mercenários da Blackwater têm que deixar país

TIMOTHY WILLIAMS
DO "NEW YORK TIMES", EM BAGDÁ

A Blackwater Worldwide, empresa de segurança cujos guardas mataram 17 civis em uma movimentada rua de Bagdá em 2007, não receberá licença do governo iraquiano para operar no país. Com a decisão, os diplomatas americanos no Iraque, que usam seguranças particulares, terão de buscar outras formas de proteção. Não se sabe quando a Blackwater terá de deixar o Iraque, mas é provável que ela continue em operação até pelo menos o segundo trimestre, quando um comitê conjunto dos governos de Iraque e EUA deve apresentar propostas de regras para as empresas privadas que operam em território iraquiano, informaram as autoridades. Bagdá já havia tentado expulsar a Blackwater anteriormente, mas os funcionários americanos que trabalham no país e dependem dos seguranças pesadamente armados disseram não ter alternativa a manter o contrato com a empresa.
Ao contrário de muitas das demais firmas que prestam serviços de segurança no Iraque, a Blackwater vinha operando sem licença do governo iraquiano, embora tivesse solicitado uma recentemente. "Eles apresentaram seu pedido e nós o rejeitamos", disse Alaa al Taia, funcionário do Ministério do Interior iraquiano.
"Não há mais necessidade de renovar seu contrato porque nossas forças de segurança são capazes de realizar as missões que a empresa conduzia. O retrospecto dessa empresa tem muitas máculas, especificamente o envolvimento na morte de número tão alto de civis."
Uma funcionária da Embaixada dos EUA em Bagdá disse que a decisão estava sendo estudada. As empresas de segurança que operam no Iraque perderam sua imunidade contra processos em tribunais iraquianos em 31 de dezembro, como parte de um acordo assinado por EUA e Iraque para permitir a permanência das tropas americanas no país.
A questão da imunidade era prioridade para o governo iraquiano desde o 16 de setembro de 2007, quando seguranças da Blackwater que cruzavam a praça Nisoor, em Bagdá, em um comboio de veículos, abriram fogo contra civis, aparentemente por acreditarem que tinham sido alvo de tiros. No mês passado, cinco seguranças foram acusados de homicídio culposo nos EUA e alegam inocência. Outro segurança colabora com a acusação.
Anne Tyrrell, porta-voz da Blackwater, declarou ontem que a empresa ainda não foi notificada. "Se proceder, respeitaremos as leis do Iraque e seguiremos as instruções de nossos clientes no governo americano, para cumprirmos os contratos e as regras iraquianas." Mais tarde, o presidente da Blackwater, Gary Jackson, disse à Associated Press que, assim que a empresa receber ordem para deixar o Iraque, ela removerá seus cerca de mil empregados em 72 horas.


Tradução de PAULO MIGLIACCI


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quarta-feira, julho 09, 2008

IRAQUE: Premiê pede retirada das forças dos EUA

IRAQUE: Premiê pede retirada das forças dos EUA


DA REDAÇÃO

O premiê iraquiano, Nuri al Maliki, cobrou ontem dos Estados Unidos um cronograma de retirada das tropas americanas. "A idéia é chegar a um acordo sobre a retirada ou estabelecer um cronograma", disse Maliki, em meio a negociações sobre a permanência das tropas dos EUA após o fim do atual mandato da ONU, em dezembro.
É a primeira vez que Bagdá pede um calendário para o fim da presença estrangeira em território iraquiano, uma idéia que os EUA voltaram a rejeitar categoricamente ontem.


Com agências internacionais
Texto da Folha de São Paulo, de 8 de julho de 2008. Interessante o segundo parágrafo. Se os Estados Unidos alegaram que invadiram o Iraque para apreender armas de destruição em massa, que descobriu-se não existirem; e em seguida passaram a justificar sua invasão com a necessidade da deposição de Saddam Hussein, já deposto e enforcado; agora que o atual governo do Iraque, eleito com ajuda dos Estados Unidos (há mesmo quem chame o atual governo do Iraque de "governo fantoche"), pede ao invasor e ocupante que se retire, os Estados Unidos "rejeitam categoricamente" a proposta?

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terça-feira, abril 01, 2008

Guerra Natural

A invasão dos EUA ao Iraque completa agora cinco anos. A guerra no Afeganistão já tem mais de seis. A proposta de orçamento militar do governo Bush para 2009 é de US$ 515 bilhões, um recorde na seqüência de aumentos reais de seus dois mandatos. Isso sem contar os créditos suplementares já aprovados para sustentar as duas guerras, um valor superior ao próprio orçamento proposto. Descontada a inflação, é um orçamento anual próximo do que foi gasto durante a Segunda Guerra Mundial. A política social mais agressiva proposta pelas candidaturas democratas diz respeito à universalização da saúde. Custaria a cada ano entre US$ 50/65 bilhões (Barack Obama) e US$ 110 bilhões (Hillary Clinton). Para proteger os proprietários mais pobres da crise imobiliária, Hillary Clinton propõe um fundo de crédito de US$ 1 bilhão. Obama prevê US$ 10 bilhões. Por aí já se vê o quanto essas duas guerras são decisivas também do ponto de vista do Orçamento dos EUA. Só que não são mais um tema central da campanha presidencial. As duas candidaturas democratas prometeram muito vagamente "trazer as tropas de volta". Não falam em prazos nem em números. O indicado republicano fala de sucesso e de vitória. O conservadorismo dos anos Bush pode ter sido neutralizado no momento. Mas os efeitos de seu governo serão sentidos por muito tempo ainda. E uma das armadilhas é justamente a da necessidade de orçamentos militares crescentes. A invenção da chamada guerra preventiva vem junto com ocupações longas e custosas. O grande êxito de Bush foi o de ter conseguido tornar naturais as guerras que promoveu. Lê-se todos os dias sobre bombas e mortes no Iraque e no Afeganistão como se lê sobre um terremoto em um lugar distante e desconhecido. O complexo militar dos EUA aprendeu bem a lição do Vietnã. Com um exército profissionalizado e estratégias para minimizar ao máximo as baixas, não é mais só o caso de entrar para vencer militarmente. Hoje, a superioridade tecnológica garante isso com relativa facilidade. O segredo é entrar em uma guerra para não sair. Nessa lógica, é fundamental manter frentes militares permanentes. Além de deixarem patente para o resto do mundo o próprio poderio, os Estados Unidos garantem com isso "campos de teste e de treinamento" para tropas e armamentos. Bush precisou do cataclismo do 11 de Setembro para instituir essa nova estratégia bélica. Vai ser preciso mais do que uma eleição presidencial nos EUA para conseguir desmontar a idéia de que guerras são coisas naturais.

Da Folha de São Paulo, visto no Depósito do Maia.

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quinta-feira, setembro 27, 2007

Blackwater permanece no Iraque

Segundo notícia publicada no jornal Correio do Povo deste domingo, por pressão do governo dos Estados Unidos (a empresa "militar privada" faz a segurança do corpo diplomático dos Estados Unidos naquele país ocupado), o governo do Iraque deve manter a permissão da empresa para continuar operando "de forma limitada" no país.
Uma pena.


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terça-feira, setembro 18, 2007

Iraque - II

O mesmo jornal Correio do Povo, na edição desta terça-feira, 18 de setembro, informa que o governo do Iraque resolveu cassar a licença de funcionamento da empresa Blackwater para funcionar no território iraquiano.
A Blackwater é uma "companhia militar privada" (antigamente este tipo de empreendimento era chamado de mercenários), e era utilizada pelo governo dos Estados Unidos como segurança privada, para seus funcionários no exterior. Uma segurança privada muito particular, cujos funcionários podem utilizar rifles de assalto. O governo iraquiano proibiu as atividades da empresa, justamente porque seus funcionários estiveram envolvidos em um tiroteio que matou 8 civis iraquianos, quando faziam a segurança de um comboio com funcionários civis dos Estados Unidos.
Os mercenários, ou funcionários de companhias militares privadas, formam o segundo maior contingente estrangeiro armado no Iraque. Estima-se a sua presença em cerca de 50.000 homens.

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Iraque - I

O jornal Correio do Povo noticiou uma epidemia de cólera no norte do Iraque, na sua edição de domingo.
O cólera é uma doença que ataca o sistema digestivo, e se propaga em ambientes com falta de infra-estrutura sanitária.

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sábado, maio 26, 2007

Tabus, Censura, Auto-Censura, ...

Deu no blog Periferia do Império -> Deu no The New York Times: primeira capa com foto de soldados norte-americanos feridos no Iraque. Como diz o Periferia do Império, parece surrealismo, mas é a realidade, só em 23 de maio passado, após três do primeiro ataque, três anos de ocupação, mais de 3.000 soldados americanos mortos, mais de 64.000 iraquianos mortos entre civis e militares, segundo o saite Iraq Body Count, um dos grandes jornais norte-americanos coloca em sua capa uma foto de um resultado de um ataque de resistentes iraquianos.
O que será que a Sociedade Interamericana de Imprensa, a SIP, que sempre está tão preocupada com a liberdade de imprensa na Venezuela, por exemplo, diria sobre isso?


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segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Helicópteros Viram Alvo no Iraque

O Correio do Povo deste domingo, 11 de fevereiro, comenta a queda de seis helicópteros no Iraque nos últimos dias. Segundo a notícia, mais de 60 aparelhos já teriam sido abatidos desde o início da invasão em 2003.
Alguns dos aparelhos derrubados seriam modelos já defasados, com sistemas de defesa obsoletos. Mas alguns já eram máquinas mais modernas, com sofisticados sistemas anti-mísseis. Assim, é aventada a hipótese de que a resistência à ocupação tenha tido acesso a mísseis com tecnologia ainda mais moderna, como mísseis russos, ou iranianos.
Curiosamente a notícia não especula sobre coisas mais prosaicas, como, por exemplo, o helicóptero de uma "empresa de segurança privada" derrubado possivelmente por tiros de metralhadora de grosso calibre, como já foi divulgado neste blog.

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Farsa?...

Pequena nota no Correio do Povo deste sábado, dia 10 de fevereiro, informa que a ligação entre a Al-Qaeda e o regime de Saddam Hussein, um dos argumentos para justificar a invasão ao Iraque pelos Estados Unidos, foi arquitetada pelo escritório do então sub-secretário de defesa Douglas Feith, e nunca foi confirmada.
A notinha cita o nome do auditor do Pentágono autor da denúncia, Thomas Gimble, e termina com uma declaração do senador Carl Levin, presidente da Comissão das Forças Armadas, dizendo que "este relatório é uma condenação devastadora dos serviços de Feith".

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sábado, fevereiro 03, 2007

Guerra no Iraque

A Guerra do Iraque entra no seu 4º ano.
A edição de 24 de janeiro passado da Folha de São Paulo informa que "um helicóptero civil que pertencia a uma empresa de segurança dos Estados Unidos foi abatido ontem no centro de Bagdá. As cinco pessoas a bordo morreram. A aeronave foi derrubada com rajadas de metralhadora PKC sobre uma região sunita densamente povoada." E chamam a atenção nesta nota duas coisas. Uma a precisão de informarem que o helicóptero foi abatido com tiros de metralhadora PKC, o que me fez ir procurar que tipo de arma era esta. E descobri. Veja na foto abaixo. (URL da foto: http://www.strategypage.com/militaryforums/480-1773.aspx )
A outra coisa é que, normalmente, quando falam em "empresa de segurança" é um eufemismo para uma companhia de mercenários que pode ser regulamentada sob a legislação dos Estados Unidos. Isto permite, por exemplo, que os "funcionários" destas empresas andem, nos territórios em que isto lhes é permitido, com fuzis automáticos. Aqui no Brasil, por exemplo, só soldados das forças armadas, e as policiais (e estes com algumas restrições) podem portar fuzis legalmente. No início da ocupação americana no Iraque, causou certa comoção quando um grupo de "civis" americanos foram emboscados, se não me engano, em Fallujah, e mortos, e seus corpos carbonizados. E ainda os restos mortais deles foram pendurados numa ponte. O grupo de "civis" eram "funcionários" de uma "empresa de segurança".

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