segunda-feira, dezembro 27, 2010

Bancos, crimes e contravenção

Bancos, crimes e contravenções


O VEXAME da grande finança mundial não tem fim. Não obstante, o pessoal do dinheiro grosso continua por cima da carne seca, "business as usual". Ou, como escreveu Paul Krugman, que entende um pouquinho mais disso do que quase todos nós: "Os fundamentalistas do livre mercado estavam errados sobre tudo -mas agora dominam completamente a cena política [americana]" ("Quando os zumbis ganham", ontem, no "New York Times").
A começar pelo vexame mais divertido, a China reafirmou seu "compromisso" de ajudar os países quebrados ou semiquebrados da Europa. Os chineses estão comprando e vão comprar mais títulos da dívida de Grécia, Irlanda, Portugal e de outros países que foram para o vinagre ou estão à beira de ir para lá. Ou seja, a China empresta dinheiro para governos falidos da Europa, o que por sua vez ajuda a aliviar a situação de parte da banca europeia, pendurada na dívida desses países.
Por falar nisso, mais ou menos desde maio o Banco Central Europeu (BCE) financia esses bancos e governos quebrados -mais uma vez os bancos transferiram os riscos de sua incompetência para o público.
Note-se que bancos centrais não existem para financiar a dívida de governos, menos ainda de governos quebrados, o que é ainda mais escandaloso em se tratando do BCE, cheio de ares de ortodoxia e autoproclamado juiz da irresponsabilidade fiscal do mundo.
Mas, "princípios, princípios, negócios à parte". Se o BCE deixasse os juros da dívida grega, irlandesa e portuguesa (e espanhola, italiana...) explodirem, governos faliriam de vez, à vera. Haveria tumulto geral, mais bancos quebrados (aqueles que a Europa dizia serem "saudáveis" antes de a Irlanda ir à lona). O euro poderia entrar em colapso.
A novidade agora é a mãozinha interessada do novo império, a China, que ajuda o seu maior freguês. A China, sim, senhor, da heterodoxa economia ditatorial de mercado.

BANCOS DE CRIMES
A promotoria do Estado de Nova York acusa a Ernst & Young de ajudar o Lehman Brothers a cometer "maciça fraude contábil". O Lehman era o quarto maior banco de investimentos dos EUA. Quebrou em 2008 e quase arrastou o mundo com seus negócios ineptos com títulos imobiliários e excesso de endividamento. A promotoria de Nova York diz que a megaempresa de auditoria ajudou o bancão a esconder dívidas de dezenas de bilhões de dólares, enganando o mercado. Uma maquiagem de balanço, mais uma.
Lembre-se de outra onda de fraude sistêmica, a da bolha dos anos 1990, explodida em 2001. Com a ajuda de bancos de investimento, de agências de risco e de auditores (Arthur Andersen), empresas fraudavam o público e contratos. Foi o caso de Enron, WorldCom, Tyco, GlobalCrossing, Lucent e Adelphia, entre muitas outras. A fraude inflou a bolha, que inflou a fraude. Há mais.
O Deutsche Bank, maior banco da Alemanha, vai pagar US$ 553,6 milhões (R$ 935 milhões) a fim de evitar um processo criminal em que é acusado de ajudar americanos ricos a fraudar o Imposto de Renda.
Em fevereiro de 2009, o UBS, o maior banco da Suíça, admitiu que prestava serviços de fraude para clientes americanos e que fazia parte de uma quadrilha com o objetivo de fraudar a Receita dos EUA.

Texto de Vinicius Torres Freire, na Folha de São Paulo, de 22 de dezembro de 2010.

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terça-feira, novembro 30, 2010

Capitalismo ou crueldade?

Capitalismo ou crueldade?

LONDRES - A crise irlandesa, talvez mais que qualquer outra, é uma contundente demonstração de que há algo de profundamente errado no capitalismo de predominância financeira.
 
A Irlanda cresceu uma barbaridade de 1995 a 2007 (6% ao ano na média). Cresceu em boa medida ao amparo de um "boom" imobiliário. Aí veio a crise de 2008 e seus bancos quebraram, todos. Haviam financiado descuidadamente construtoras e compradores.
 
Consequência, para resumir a história: o governo estatizou os prejuízos da banca, mas manteve privados os lucros, o que é, de resto, história recorrente na crise de 2008. Contando todos os tipos de ajuda, inclusive as europeias, formaram uma colossal pilha de 286 bilhões (R$ 672 bilhões), uns 170% do PIB irlandês.
 
Cada cidadão doou aos bancos, involuntariamente, 63 mil. Uma barbaridade.
 
Claro que as contas públicas -déficit e dívida- estouraram sem contemplação. O déficit só das operações normais do governo já é brutal (12% do PIB). Contando a ajuda à banca, vai a incríveis 32%.
Agora vem a cobrança. Os próprios mercados que financiaram a farra elevam brutalmente o juro que exigem para rolar os títulos da dívida, ameaçam quebrar o país e, por extensão, danificar seriamente (ou fatalmente) o euro, a segunda moeda de reserva do planeta.
 
Os engenheiros de obra feita ainda ficam dizendo que os irlandeses é que são culpados, porque consumiram demais. É verdade, mas o capitalismo não é, essencialmente, consumo? Toda a propaganda, no mundo inteiro, pede, exige, insinua que bom sujeito não é quem não consome. Para consumir, é preciso renda e crédito, mais crédito que renda.
 
Os irlandeses foram, portanto, capitalistas até o mais fundo d'alma. Agora, o capitalismo ameaça devorar o bom aluno. Cruel.



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terça-feira, outubro 05, 2010

A crise política do ajuste europeu

Enquanto os sindicatos celebram o Dia Anti-Austeridade na Europa, os neoliberais europeus elevam a aposta:

A maior parte da imprensa descreveu as manifestações e greves europeias de quarta-feira em termos do exercício habitual dos trabalhadores nos transportes a irritarem viajantes com diminuições de velocidade no trânsito e grandes multidões a despejarem sua ira lançando fogos. Mas a história é muito mais profunda do que simplesmente uma reacção contra o desemprego e as condições da recessão económica. Estão em causa proposta da mudar drasticamente as leis e estruturas de como a sociedade europeia funcionará na próxima geração. Se as forças anti-trabalho tiverem êxito, elas fragmentarão a Europa, destruirão o mercado interno e tornarão aquele continente uma periferia. Este é o grau de seriedade do golpe de estado financeiro em curso. E está em vias de ficar muito pior – rapidamente. Como afirmou John Monks, responsável da Confederação Sindical Europeia: "Isto é o começo do combate, não o fim".

A Espanha recebeu maior parte da atenção, graças à sua greve de dez milhões (confirmadamente, a metade de toda a força de trabalho). Ao efectuar a sua primeira greve geral desde 2002, o trabalho espanhol protestou contra o seu governo socialista que utiliza a crise bancária (decorrente de maus empréstimos imobiliário e hipotecas com situação líquida negativa, não de custos laborais elevados) como uma oportunidade para mudar as lei e permitir às companhias e corpos governamentais despedirem trabalhadores à vontade e reduzir suas pensões e despesas públicas sociais a fim de pagar mais aos bancos. Portugal está a fazer o mesmo e parece que a Irlanda se seguirá – tudo isto nos países cujos bancos foram os prestamistas mais irresponsáveis. Os banqueiros estão a exigir que reconstruam suas reservas para empréstimos a expensas do trabalho, tal como no programa do presidente Obama aqui nos Estados Unidos, mas sem disfarces hipócritas.

O problema à escala da Europa na verdade está centrado na capital da União Europeia, Bruxelas. Eis porque os maiores protestos foram encenados ali. No mesmo dia em que os grevistas se manifestavam, a neoliberal Comissão Europeia (CE) delineava uma guerra completa contra o trabalho. Cinquenta a cem mil trabalhadores reuniram-se para protestar contra a proposta transformação de regras sociais pela campanha mais anti-trabalho desde a década de 1930 – ainda mais extrema do que os planos de austeridade impostos pelo FMI e o Banco Mundial ao Terceiro Mundo em tempos passados.

Os neoliberais têm o controle completo da burocracia e estão a ressuscitar o slogan de Margaret Thatcher, TINA: There Is No Alternative. Mas existe, naturalmente. Nas pequenas economias bálticas, partidos pro-trabalho deixaram claro que a alternativa ao encolhimento do governo é simplesmente repudiar as dívidas, retirar-se do Euro e romper os bancos. Isto é ou os bancos ou o trabalho – e a Europa acaba de perceber que isto é realmente um combate contra a morte económica. E o primeiro teste virá no sábado, quando a Letónia efectuar suas eleições parlamentares.

A Comissão Europeia está a utilizar a crise hipotecária da banca – e a desnecessária proibição de os bancos centrais monetizarem o défice orçamental dos governos – como uma oportunidade para multar governos e levá-los mesmo à bancarrota se não concordarem em baixar salários do sector público. Ela diz aos governos para tomar emprestado a juros junto aos bancos, ao invés de levantarem receita tributando-os tal como têm feito durante o meio século a seguir ao fim da II Guerra Mundial. E se os governos forem incapazes de conseguir dinheiro para pagar os juros, eles devem encerrar os seus programas sociais. E se este encerramento contrair a economia – e, portanto, receitas fiscais do governo – ainda mais, então o governo deve cessar ainda mais despesas sociais.

De Bruxelas à Letónia, planeadores neoliberais tem exprimido a esperança de que salários públicos mais baixos propagar-se-ão também ao sector privado. O objectivo é contrair suas economias para reduzir níveis salariais em 30 por cento ou mais – níveis em estilo depressão – na crença de que isto "deixará mais excedente" disponível para pagar em serviço de dívida. Os governos devem tributar o trabalho – não as finanças, seguros ou imobiliário (FIRE), impor novos impostos sobre o emprego e as vendas enquanto reduz pensões públicas e gastos públicos. A Europa está a ser transformada numa república de bananas.

Isto exige ditadura e o Banco Central Europeu (BCE) assumiu este poder [próprio] a um governo eleito. Ele é "independente" de controle político – celebrado como a "marca da democracia" pela nova oligarquia financeira de hoje. Mas como explicavam os diálogos de Platão, o que é a oligarquia senão o cenário político que se segue à democracia. Agora podemos esperar que a nova elite do poder se torne hereditária – pela abolição de impostos sobre o património, para começar – e se transforme numa aristocracia absoluta. "Junte-se ao combate contra o trabalho, ou nós o destruiremos", a CE está a dizer aos governos.

Podemos portanto esquecer as teorias económicas de Adam Smith, John Stuart Mill e da Era Progressiva, esquecer Keynes e esquecer as primitivas tradições sociais democráticas do século XX. A Europa está a entrar numa era regida pelo totalitarismo neoliberal. Isto era inevitável desde o ensaio geral chileno após 1973. Afinal de contas, ninguém pode ter "mercados livres" em estilo neoliberal sem controle totalitário. Foi disto que trataram as greves e manifestações de quarta-feira, afinal de contas. A guerra de classe da Europa está de volta – furiosamente!

Isto é suicídio económico, mas a UE está a impor a sua exigência de que os governos da Euro-zona mantenham seus défices orçamentais abaixo dos 3% do PIB – e sua dívida total abaixo dos 60% do PIB. Eles não devem arrecadar impostos sobre a riqueza, mas apenas sobre o trabalho e o que ele compra (via impostos sobre vendas). Mas ao mesmo tempo eles devem cortar salários e pensões, cortar na despesa pública e no emprego, e contrair a economia.

Quando um problema económico é tão economicamente destrutivo como este, ele só pode ser imposto através de chantagem económica. Na quarta-feira a UE aprovou uma lei para multar governo em até 0,2% do PIB por não "consertar" seus défices orçamentais através da imposição de austeridade fiscal. Países que tomam emprestado para empenhar-se em gastos contra-cíclicos de "estilo keynesiano" que elevem a sua dívida pública ao nível de 60% do PIB terão de reduzir o excesso em 5% ao ano – ou do contrário sofrer dura punição. E ao contrário dos bancos centrais por toda a parte do mundo, o banco central da Europa está proibido de monetizar governos com sector público. Estes governos devem tomar emprestado dos bancos, deixando estas instituições criarem a sua própria dívida com juros nos seus teclados de computador ao invés de terem os seus próprios bancos centrais a fazerem isso sem custos. A privatização financeira e o monopólio na criação de crédito que os governos cederam aos bancos estão agora a serem compensados – ao preço da ruptura da Europa.

Os membros não eleitos do Banco Central Europeu (BCE, independente da política democrática, não do controle por parte dos seus bancos comerciais membros) usurparam o poder de planeamento de governos eleitos. Obrigado para com o seu eleitorado, o sector financeiro, o BCE teve pouca dificuldade em convencer a comissão da UE a apoiar a nova captura oligárquica do poder. Ele ameaça multar estados da euro-área em até 0,1% do PIB por falhas na obediência às suas recomendações neoliberais – ostensivamente para "corrigir" desequilíbrios. Mas a realidade, naturalmente, é que toda "cura" neoliberal apenas torna as coisas piores.

Ao invés de encarar o aumento de níveis salariais e padrões de vida como uma pré-condição para produtividade do trabalho mais alta, a comissão da UE "monitorará" custos do trabalho com a presunção de que salários em ascensão prejudicam a competitividade ao invés de elevá-la. O vasto espectro deste lixo da teoria económica neoliberal está a ser trazido à luz. Se os membros do euro não podem desvalorizar suas divisas, então devem combater o trabalho – mas não tributar o imobiliário, as finanças ou outros sectores rentistas, não regular monopólios e não proporcionar serviços públicos que possam ser privatizados a custos muito mais altos. Não se considera que a privatização prejudica a competitividade – apenas o aumento de salários, sem quaisquer considerações quanto à produtividade.

Esta política economicamente destrutiva foi testada em todos os países bálticos, utilizando países como a Letónia como cobaias para ver quão longe o trabalho pode ser degradado antes de ele reagir politicamente. A Letónia deu rédea solta a políticas neoliberais impondo impostos uniformes (flat taxes) de 51% sobre os empregados, ao passo que o imobiliário é tributado em apenas 1%. Os salários do sector público foram reduzidos em 30%. A força de trabalho em idade laboral (20 a 35 anos) está a emigrar em multidões. As esperanças de vida estão a encurtar. As taxas de doenças estão em aumento. O mercado interno está a contrair-se e assim está a população da Europa – tal como aconteceu na década de 1930, quando o "problema da população" foi um afundamento da fertilidade e das taxas de natalidade (sobre em França). Isso é o que acontece nas depressões económicas.

O saqueio da Islândia pelos seus banqueiros veio primeiro, mas a grande notícia foi a Grécia. Quando aquele país entrou na sua actual crise fiscal, responsáveis da União Europeia recomendaram que emulasse a Letónia, a qual se apresenta como o perfeito representante da devastação económica neoliberal. A teoria básica é que como os membros do euro não podem desvalorizar a sua divisa, eles devem recorrer à "desvalorização interna": cortando salários, pensões e gastos sociais. Assim, enquanto a Europa entra em recessão ela segue precisamente o oposto da política keynesiana. É reduzindo salários, ostensivamente para "libertar" mais rendimento disponível para pagar as enormes dívidas que os europeus assumiram para comprar suas casas, pagar escolas (até agora proporcionadas gratuitamente em muitos países tais como a Letónia), transportes e outros serviços públicos que foram privatizados (com taxas drasticamente aumentadas – as quais os privatizadores justificam apontando as comissões financeiras enormemente inchadas que tiveram de pagar aos seus banqueiros e financiadores para comprar a infraestrutura sendo vendida por governos que os neoliberais impediam de tributar a riqueza).

O resultado é contracção económica. A Europa está a criar suicídio económico – e também suicídio demográfico e fiscal. Toda tentativa de "resolver" o problema desta contracção, em estilo neoliberal, só torna as coisas piores.

Os trabalhadores do sector público da Letónia tiveram seus salários cortados em 30 por cento ao longo do ano passado, e os seus banqueiros centrais disseram-me que estão à procura de novos cortes, na esperança de que isto reduza também os salários no sector privado. O que estes cortes estão a fazer, sem surpresa, é estimular a emigração – e também estão a destruir o mercado imobiliário, levando a incumprimentos, arrestos e uma fuga do país dos devedores. A emigração é encabeçada pelos trabalhadores mais jovens à procura de emprego na economia em contracção. Na verdade, as condições de trabalho na Letónia também acontecem ser as da maior parte da Europa neoliberalizada, o que é perigoso, desagradável e quase neo-feudal.

Em primeiro lugar, na véspera do Dia da Acção, houve o habitual congestionamento de transportes acompanhado por um concerto de buzinas em Riga, capital da Letónia, durante 10 minutos às 13 horas para informar o público que alguma coisa estava a acontecer. O que estava a acontecer de mais importante são as eleições parlamentares nacionais deste sábado (2 de Outubro), onde a coligação à esquerda, Centro Harmonia , está comprometida no estabelecimento de um sistema fiscal e de uma política económica alternativa às políticas económicas neoliberais que reduziram os salários e os padrões de trabalho tão drasticamente – juntamente com a infraestrutura pública – ao longo da última década.

Cerca de 10 mil lituanos compareceram a reuniões de protesto, desde a capital até cidades mais pequenas no âmbito da "Jornada dentro da Crise". Seis sindicatos independentes e o Centro Harmonia organizaram uma reunião de protesto no Parque Esplanada, em Riga, que atraiu 700 a 800 manifestantes, um número relativamente grande para uma cidade tão pequena. Outro protesto junto ao Gabinete de Ministros em que foi planeado e executado o programa de austeridade da Lituânia teve cerca de metade desse número.

Para destacar a questão económica, uma excursão em autocarro levou jornalistas às vítimas – escolas e hospitais que foram fechados, edifícios do governo cujos empregados viram os seus salários cortados e a força de trabalho reduzida. Multidões reuniram-se, relançando a ira expressa no ano passado, no frio de meados de Janeiro, quando lituanos manifestaram-se em protesto contra o início destes cortes.

Estas manifestações parecem ter ganho a simpatia do eleitorado para os sindicatos mais militantes, encabeçados pelas centenas de sindicatos individuais pertencentes à Associação Independente de Sindicatos. O outro grupo sindical – os Sindicatos Livres (LBAS) perderam a face ao concordarem em Junho de 2009 com a proposta do governo de cortes de 10% nas pensões (e, na verdade, de 70% para pensionistas trabalhadores). O tribunal constitucional da Lituânia em Dezembro último foi suficientemente independente para rejeitar estes cortes drásticos. E se o governo na verdade mudar neste sábado, o conflito entre a Revolução Neoliberal e os últimos poucos séculos de reforma progressiva clássica será tornado claro.

A Revolução Neoliberal procura alcançar na Europa o que foi alcançado nos Estados Unidos a partir de 1979, quando os salários reais pararam de subir. O objectivo é duplicar a fatia de riqueza relativa desfrutada pelos 1% mais ricos. Isto envolve reduzir a população à pobreza, romper o poder sindical e destruir o mercado interno como condição prévia para atribuir a culpa de tudo isto ao "Sr. Mercado", presumivelmente forças inexoráveis por trás da política, puramente "objectivo" ao invés de uma captura do poder político.

Não é realmente "o mercado" que está a promover esta austeridade económica destrutiva, é claro. O Centro Harmonia da Lituânia mostra que há um caminho muito mais fácil para cortar o custo do trabalho pela metade do que reduzir os salários. Simplesmente mudar o fardo fiscal para fora do trabalho e para dentro do imobiliário e dos monopólios (especialmente a infraestrutura privatizada). Isto deixará menos excedente económico para ser capitalizado em empréstimos bancários, reduzindo consequentemente o preço da habitação (o principal factor no custo de vida do trabalho), bem como o preço de serviços públicos (fazendo com que os proprietários tomem os seus retornos como um retorno como um retorno sobre capitais próprios ao invés de incorporar encargos de juros dentro do seu custo de fazer negócio). A dedutibilidade fiscal do juro será revogada – não há nada de intrinsecamente "ditado pelo mercado" neste subsídio fiscal por dívida alavancada.

Sem dúvida muitas economias pós-soviéticas serão obrigadas a retirar-se da área euro ao invés de verem uma fuga do trabalho e do capital. Elas continuam a ser o exemplo mais extremo do Experimento Neoliberal para verificar quanto uma população pode aguentar cortes nos seus padrões de vida antes de rebelar-se.


Texto visto no blog do Luís Nassif.

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terça-feira, maio 11, 2010

Cavalo de Troia na Europa

Cavalo de Troia na Europa

ONTEM FOI dia de brasileiros prestarem atenção à chatíssima crise da dívida grega. Que pode se tornar crise da dívida portuguesa, quiçá irlandesa ou espanhola. O intermitente churrasco grego serviu para impulsionar a "correção" da Bolsa. O Ibovespa fechou ontem 7,4% abaixo do pico do dia 8. A Bolsa estava carinha e, enfim, os juros vão subir, o que não é assim lá tão relevante no caso do mercado brasileiro, mas pega.
A Grécia mergulhara no vinagre na semana passada, quando pediu dinheiro ao FMI e à União Europeia. Como de hábito, as agências de classificação de risco comparecem ao campo de batalha a fim de matar os feridos. Degradaram ontem a nota de crédito do governo grego para "junk", investimento com razoável risco de levar calote. A dívida portuguesa também foi desacreditada.
Apesar de ineptas e cúmplices da bandalha que resultou na crise de 2007-09, as notas das agências são relevantes. Investidores podem ser impedidos, por motivos contratuais, de comprar títulos com nota de crédito "junk".
Se todas as maiores agências rebaixarem a Grécia para "junk", os títulos gregos não serviriam como garantia nem para negócios com o Banco Central Europeu. O problema é que bancos usam títulos gregos como garantia para empréstimos no BCE. Quando os papéis perdem valor, em tese os bancos têm de oferecer mais garantias.
O mercado passou a cobrar taxas de juros cada vez mais altas do governo grego. Cobra quase o dobro da taxa pedida para o Brasil, desde a semana passada. É a espiral da morte: o país já superendividado paga cada vez mais caro para refinanciar a dívida, que cresce mais. O rendimento dos papéis gregos ("juros") de dois anos ultrapassou bem o dos brasileiros e até os argentinos. Excetuado algum país obscuro, são agora os mais altos do mundo.
Se a Alemanha não abrir logo o cofrinho, os gregos terão de "reestruturar" a dívida (pagar mais tarde, quando puderem). Os alemães em tese bancariam 28% do empréstimo europeu à Grécia. Mas o governo alemão adia a decisão sobre a ajuda, muito impopular entre o eleitorado.
E daí?
Se a Grécia "reestrutura", dá um calote, bancos franceses e alemães, entre outros, perdem dinheiro e ficam com menos capital. Isso para não falar do medo -os seguros de crédito ficam mais caros, os juros sobem, e não apenas para os governos europeus. O caldo da economia do mundo rico pode voltar a entornar.
O novo pico da crise pode ser um faniquito do mercado. Pode não ser. Em tese, apenas a promessa de empréstimos tapa-buraco à Grécia deveria ter acalmado o ambiente. Com o dinheiro prometido por FMI e Europa, a Grécia poderia tapar buracos até o início do trimestre final do ano.
Mas rumores e palpites publicados na mídia financeira europeia dão conta de que o mercado quer um remendo de pelo menos ano e meio. O remendo também não garante o fim da novela. O governo grego precisa cortar sua despesa em pelo menos 12% do PIB até 2015. É um massacre. Virá recessão, corte de benefícios sociais e revolta, que já está nas ruas. Além do mais, os gregos vão precisar tomar empréstimos a juros de pai para filho, de modo a não voltar ao buraco. Está difícil.

Texto de Vinicius Torres Freire, na Folha de São Paulo, de 28 de abril de 2010.

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segunda-feira, dezembro 29, 2008

"Governança Corporativa"

Empresas desgovernadas

UMA CONVERSA que ficou bem desmoralizada nesta crise foi a da "governança corporativa". A conversa fiada é velha, assim como a da racionalidade do mercado, na qual até o bom economista-padrão não acredita mais faz duas décadas, embora não fale muito sobre o assunto quando discute política e esparge ideologia mercadista.
Um exemplo velho e até ingênuo de fraude sistêmica é o da bolha dos anos 1990, que estourou em 2001 e escancarou a baderna da contabilidade de grandes conglomerados.
Com o auxílio de bancos de investimento, de "analistas", de agências de risco e de auditores (Arthur Andersen), empresas fraudavam o público e contratos. O vexame maior foi o de Enron, WorldCom, Tyco, GlobalCrossing, Lucent, Adelphia, mas até empresas como a Xerox levaram multas de milhões e tiveram de reescrever seus balanços. A fraude inflou a bolha, que inflou a fraude. Não eram "casos isolados". Era "modus operandi". Era contumaz.
Agora vimos grandes instituições financeiras (Wall Street, a City e meia Suíça) e grandes empresas financistas (GE, GM etc.) esconderem em contas paralelas, de modo legal mas picareta, montes de papéis podres, lastreados em créditos ineptos, e/ou os cotarem de modo fantasista. "Falha de mercado"? "Alocação ineficiente de capital"? "Informação assimétrica"? Violação da "moralidade" que deveria fundar os mercados (na frase patética de Alan Greenspan e Robert Shiller)? O nome fica para depois. Mas o rolo não é casual ou localizado. É "sistêmico".
A "governança" chegaria depois ao Brasil. Mesmo com seu alto teor de conversa fiada, a difusão da idéia e até de alguma exigência prática de "governança" foi um avanço nesta selva. Desde 2003, a Bovespa fez o bom trabalho de exigir mínimos de publicidade, de controle das diretorias e de respeito a acionistas. A Bolsa até começou a tomar jeito de mercado de capitais. Houve propaganda marqueteira vulgar, sim, na onda de IPOs e de commodities que inflou o Ibovespa. Mas era alguma coisa.
Porém a crise revelou o quanto (muito) havia de impostura na "governança" brazuka também. O prejuízo cambial, o bafafá e a obscuridade dos casos Aracruz, Votorantim e Sadia, para ficar nos mais evidentes, são o escárnio da transparência.
Mostram ainda a inércia da CVM, que ao ritmo de cágado exige normas mais decentes de prestação de contas. Aliás, para a CVM o mercado brasileiro é mais limpinho que o dos EUA, onde financistas muita vez e outra são algemados -por aqui, isso não rola. Enfim, a bola passou sob as pernas do Banco Central, que não viu bancos armando a porcaria dos derivativos. Não tinham como fiscalizar? Sorry, para quem quer tanta autonomia, a desculpa não cola.
Agora há bancos estatais a auxiliar empresas. Pode ser útil. Ou não. Estatais não prestam contas da qualidade e do custo de seus créditos até que virem rombos, ao menos nos diz a história. Há muito subsídio e chororô por aí. Múltis que nadavam em lucros pedem socorro. Há o risco de empresas do cassino do câmbio taparem rombos com verba subsidiada. Há o estranho caso da Petrobras com a Caixa. Foi recriado o caldo de cultura em que a bactéria da desgovernança privada pode proliferar no dinheiro açucarado do governo.

Texto de Vinicius Torres Freire, na Folha de São Paulo, de 28 de novembro de 2008.

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quinta-feira, novembro 27, 2008

Os piratas da Somália

Prefiro os piratas da Somália

SÃO PAULO - Deu no "Wall Street Journal", que não é exatamente um jornal antimercado ou nada que se pareça com isso: durante o período em que se gestou a crise que está pondo o mundo de joelhos, 15 executivos de grandes firmas financeiras e construtoras ganharam, cada um, mais de US$ 100 milhões (R$ 240 milhões, o suficiente para comprar, digamos, 34 jatinhos LearJet, versão mais luxuosa, para citar um exemplo que essa gente certamente entende).
Acrescenta o "Journal": "Quatro desses executivos, incluídos os presidentes de Lehman Brothers e Bear Stearns, estiveram no comando de companhias que foram à bancarrota ou viram cair 90% o valor das ações [dessas empresas]".
É bom lembrar que o derretimento da Bolsa de Valores nos Estados Unidos levou os detentores de ações a perderem montantes inacreditáveis. Para o "Journal", foram US$ 9 trilhões, para o editorial desta Folha de ontem, um pouco menos (US$ 7 trilhões) -em todo o caso, perdas que equivalem a sete, oito ou nove "brasis", dependendo do número que se aceitar como mais próximo da realidade.
O "Journal" fuçou as declarações financeiras de 120 companhias de capital aberto em setores como a banca, financiamento de hipotecas, empréstimos para estudantes, corretagem de bolsa e construção -ou seja, aqueles que estão no epicentro do terremoto.
A análise mostrou que "os principais executivos e os membros das diretorias dessas firmas embolsaram mais de US$ 21 bilhões durante os últimos cinco anos", os anos em que inflou a bolha que explodiu.
Depois ainda tem gente que se opõe a uma regulação e supervisão mais rígidas no setor financeiro, alegando que podem estrangular a criatividade.
Se se trata da criatividade apontada pelo "Journal", que estrangulem. Os piratas da Somália parecem gente fina perto deles.

Texto da Folha de São Paulo, de 21 de novembro de 2008.

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Dinheiro sim, controle não

Dinheiro, sim; controles, não

SÃO PAULO - O velho sábio que habitava esta Folha ficava indignado com os freqüentes pedidos de "papai, mande dinheiro", como ele designava os apelos do empresariado para que o governo os socorresse nos momentos de dificuldade (e, a bem da verdade, até nos momentos de facilidade).
Não tivesse morrido, estaria estupefato ante a quantidade de "filhos" que pedem dinheiro a "papai-Estado". E mais ainda ante a facilidade com que o Estado abre os cofres, de que dão prova, apenas a mais recente, os governadores José Serra e Aécio Neves.
O pior é que os "filhos" (no caso, os bancos) não se arrependem nem um tiquinho da overdose de ativos tóxicos que ingeriram e os levaram ao coma (e ao apelo a "papai").
Ao contrário. Comunicado do Instituto de Finanças Internacionais, que reúne cerca de 350 dos maiores bancos do mundo, louva os pacotes oficiais de auxílio ao setor , mas afirma, em seguida, que tais pacotes "não devem dar margem a um papel mais amplo e permanente do setor público no sistema financeiro internacional".
Tampouco querem uma regulação que lhes impeça de beber demais, porque "ameaçaria as perspectivas de reativar o crescimento da produção e dos empregos, ao estender ineficiências nos mercados globais".
É uma desfaçatez fora do normal, porque deixa de lado que foi o excesso de desregulação -e não o excesso de regulação- que causou a presente "ineficiência" (quase colapso) dos mercados globais.
A propósito, meu cardiologista -na verdade o médico da família, o napolitano Giuseppe Dioguardi- perguntava se depois de tanta doação de dinheiro público os governos ainda teriam coragem de negar dinheiro para a saúde, como fazem sistematicamente.
Ah, Beppe, santa ingenuidade. Esse "filho", a saúde, não financia campanhas eleitorais.

Texto de Clóvis Rossi, na Folha de São Paulo, de 13 de novembro de 2008.

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quinta-feira, outubro 30, 2008

A Volks e o cassino

A Volks e o cassino

SÃO PAULO - Você abre o jornal de manhã e ousa percorrer a coleção sem fim de tragédias que é, hoje, o noticiário econômico. Lá na undécima página, fica sabendo que a Volkswagen vai conceder férias coletivas de dez dias para 1.800 funcionários da unidade de São José dos Pinhais (PR).
Aí, pensa, distraído: "Vixe, essa empresa está indo pro vinagre".
Que nada, companheiro. É justamente o contrário: pelo menos ontem, a Volks (a mundial) tornou-se a companhia de maior valor de capitalização no planeta (ou seja, o valor de todas as suas ações na Bolsa de Valores superou o de qualquer outra instituição, inclusive a portentosa Exxon).
Como é possível, se a indústria automobilística é a segunda maior vítima da crise global, logo atrás da construção/imóveis? Trata-se apenas de um exemplo "das distorções que se produzem hoje em dia nos mercados", diz Juan José Ruiz, o economista-chefe do Santander (na Espanha).
Se, em vez de distorções, falasse em cassino, estaria mais perto da realidade. Acontece que "hedge funds", esses que vão apostando em vários ativos, para defenderem-se de eventuais perdas em um deles, decretaram que as cotações da VW permaneceriam em queda. Aí vem a Porsche e anuncia que quer aumentar a sua fatia na Volks. O pessoal dos "hedge funds" correu desesperado para cobrir suas posições e cada ação da montadora voou dos 210 da sexta-feira para 1.005 em dado ponto de ontem.
Uma coisa, portanto, é a vida real, em que férias coletivas significam queda nas vendas. Outra coisa, bem diferente, é o cassino, em que férias coletivas nada significam. É por isso -entre outras mil razões- que, cada vez que vejo economista fingindo que faz análises lógicas sobre o mercado, levo a mão ao coldre.
Não que tenha um revólver, mas, nessas horas, dá vontade de ter.

Texto de Clóvis Rossi, na Folha de São Paulo, de 29 de outubro de 2008.

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quarta-feira, outubro 22, 2008

"Capitalismo encurralado"

"Capitalismo encurralado"

"CAPITALISMO encurralado" é o título da capa e do texto de abertura da "Economist" desta semana. Trata-se de um elogio à mais que centenária atitude liberal da revista britânica e ao "capitalismo". E de um panfleto que convoca companheiros de viagem para o bom combate de defender o "capitalismo" nestes tempos de "estatismo". E nós com isso? A "Economist" costumava ser a síntese jornalística mais inteligente e irônica da opinião da elite "liberal anglo-saxã", digamos. Nesta semana, a opinião da revista é uma síntese da vulgaridade intelectual que tem sido a reação do "establishment" à fúria popularesca contra financistas e, ainda, ao que passa por crítica no esquerdismo retrógrado.
Os conservadores se limitam a justificativas grosseiras para o desastre que provocaram e a um "cala-boca". Estão como a dizer: o Estado fará só uma manutenção do "capitalismo", que assim é, sempre o será e beneficia até crioulos, se dêem por felizes, não encham a paciência e levem as gorjetas. Calem a boca e nem lembrem que o economicismo faz água por muitos furos (furos tais como a eficiência dos mercados e a racionalidade dos agentes, que luminares da economia agora dizem ter falhado por "falta de moralidade").
Os conservadores do museu da esquerda, por sua vez, acreditam que se abriu uma janela de oportunidade para reocuparem o Estado, uma chance de restauração estatista e de barragem contra inovações econômicas, não de uma possibilidade de mudanças sociais democráticas.
Por que "capitalismo" entre aspas? "Capitalismo" é conceito grande demais até para livros, que dirá para revistas e modestos artigos de jornal. Mas a revista diz que, na última década, o "capitalismo" deve (sic) ter elevado a renda per capita da humanidade como "nunca antes", o que nem é verdade nem faz muito sentido. A "Economist" comete ainda a imprudência de citar a contribuição da China para tal progresso -a China, que bancou boa parte do descalabro econômico americano e é aquele modelo de liberdade política e econômica.
Enfim, de qual "capitalismo" se trata? Existem, na verdade, mercados mais ou menos livres pelo mundo: EUA, França, Suécia, Coréia, China, Brasil. No que diferem e se parecem tais Estados, sociedades e mercados? A pergunta é crucial, pois revela a possibilidade de alternativas, presentes e futuras, que o "cala-boca" conservador quer reprimir.
A crítica grosseira ao "estatismo", que "tolhe a liberdade", quer é calar a crítica da dominação e da distribuição desigual de poder (e liberdades) em sistemas em que é grande a desigualdade econômica. Centrar o debate na "necessidade de regulação" parece mais uma disputa grupal sobre quem vai mandar, burocratas ou financistas, danem-se as liberdades. Tal atitude tanto menospreza o problema de quão difícil é regular como apaga o conflito sobre distribuição de poder e oportunidades, em sistemas regulados ou não. Enfim, a "Economist" sintetizou a propaganda do status quo: a ideologia do "fim da história" e sua tentativa de reprimir sugestões alternativas de como tornar os indivíduos mais livres diante do poder econômico e do poder do Estado, os quais, aliás, costumam ser a mesma coisa.

Texto de Vinicius Torres Freire, na Folha de São Paulo de 17 de outubro de 2008.

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Crise expõe perigo de fortalecimento da direita, diz Hobsbawm

O britânico Eric Hobsbawm, considerado um dos historiadores mais influentes do século 20, disse à BBC nesta terça-feira que o maior perigo da atual crise financeira mundial é o fortalecimento da direita.

“A esquerda está virtualmente ausente. Assim, me parece que o principal beneficiário deste descontentamento atual, com uma possível exceção – pelo menos eu espero – nos Estados Unidos, será a direita”, disse Hobsbawn, em entrevista à Rádio 4.

O historiador marxista comparou o atual momento “ao dramático colapso da União Soviética” e ao fim de “uma era específica”.

“Agora sabemos que estamos no fim de uma era e não se sabe o que virá pela frente.”

Hobsbawn diz não acreditar que a linguagem marxista, que lhe serviu de norte ao longo de toda sua carreira, será proeminente politicamente, mas intelectualmente, “a análise marxista sobre a forma com a qual o capitalismo opera será verdadeiramente importante”.

Abaixo, os principais trechos da entrevista.

Muitos consideram o que está acontecendo como uma volta ao estadismo e até do socialismo. O senhor concorda?

Bem, certamente estamos vivendo a crise mais grave do capitalismo desde a década de 30. Lembro-me de um título recente do Financial Times que dizia: O capitalismo em convulsão. Há muito tempo não lia um título como esse no FT.

Agora, acredito que esta crise está sendo mais dramática por causa dos mais de 30 anos de uma certa ideologia “teológica” do livre mercado, que todos os governos do Ocidente seguiram.

Porque como Marx, Engels e Schumpter previram, a globalização - que está implícita no capitalismo -, não apenas destrói uma herança de tradição como também é incrivelmente instável: opera por meio de uma série de crises.

E o que está acontecendo agora está sendo reconhecido como o fim de uma era específica. Sem dúvida, a partir de agora falaremos mais de (John Maynard) Keynes e menos de (Milton) Friedman e (Friedrich) Hayek.

Todos concordam que, de uma forma ou de outra, o Estado terá um papel maior na economia daqui por diante.

Qualquer que seja o papel que os governos venham a assumir, será um empreendimento público de ação e iniciativa, que será algo que orientará, organizará e dirigirá também a economia privada. Será muito mais uma economia mista do que tem sido até agora.

E em relação ao Estado como redistribuidor? O que tem sido feito até agora parece mais pragmático do que ideológico...

Acho que continuará sendo pragmático. O que tem acontecido nos últimos 30 anos é que o capitalismo global vem operando de uma forma incrivelmente instável, exceto, por várias razões, nos países ocidentais desenvolvidos.

No Brasil, nos anos 80, no México, nos 90, no sudeste asiático e Rússia nos anos 90, e na Argentina em 2000: todos sabiam que estas coisas poderia levar a catástrofes a curto prazo. E para nós isto implicava quedas tremendas do FTSE (índice da bolsa de Londres), mas seis meses depois, recomeçávamos de novo.

Agora, temos os mesmos incentivos que tínhamos nos anos 30: se não fizermos nada, o perigo político e social será profundo e ainda mais depois de tudo, da forma com a qual o capitalismo se reformou durante e depois da guerra sob o princípio de “nunca mais” aos riscos dos anos 30.

O senhor viu esses riscos se tornarem realidade: estava na Alemanha quando Adolf Hitler chegou ao poder. O senhor acredita que algo parecido poderia acontecer como conseqüência dos problemas atuais?

Nos anos 30, o claro efeito político da Grande Depressão a curto prazo foi o fortalecimento da direita. A esquerda não foi forte até a chegada da guerra. Então, eu acredito que este é o principal perigo.

Depois da guerra, a esquerda esteve presente em várias partes da Europa, inclusive na Inglaterra, com o Partido Trabalhista, mas hoje isso já não acontece.

A esquerda está virtualmente ausente, Assim, me parece que o principal beneficiário deste descontentamento atual, com uma possível exceção – pelo menos eu espero – nos Estados Unidos, será a direita.

O que vemos agora não é o equivalente à queda da União Soviética para a direita? Os desafios intelectuais que isto implica para o capitalismo e o livre mercado são tão profundos como os desafios enfrentados pela direita em 1989?

Sim, concordo. Acredito que esta crise é equivalente ao dramático colapso da União Soviética. Agora sabemos que acabou uma era. Não sabemos o que virá pela frente.

Temos um problema intelectual: estávamos acostumados a pensar até então que havia apenas duas alternativas: ou o livre mercado ou o socialismo. Mas, na realidade, há muito poucos exemplos de um caso completo de laboratório de cada uma dessas ideologias.

Então eu acho que teremos de deixar de pensar em uma ou em outra e devemos pensar na natureza da mescla. E principalmente até que ponto esta mistura será motivada pela consciência do modelo socialista e das conseqüências sociais do que está acontecendo.

O senhor acredita que regressaremos à linguagem do marxismo?

Desde a crise dos anos 90, são os homens de negócio que começaram a falar assim: “Bem, Marx predisse esta globalização e podemos pensar que este capitalismo está fundamentado em uma série de crises”.

Não acredito que a linguagem marxista será proeminente politicamente, mas intelectualmente a natureza da análise marxista sobre a forma com a qual o capitalismo opera será verdadeiramente importante.

O senhor sente um pouco recuperado depois de anos em que a opinião intelectual ia de encontro ao que o senhor pensava?

Bem, obviamente há um pouco a sensação de schadenfreude (regozijo pela desgraça alheia).

Sempre dissemos que o capitalismo iria se chocar com suas próprias dificuldades, mas não me sinto recuperado.

O que é certo é que as pessoas descobrirão que de fato o que estava sendo feito não produziu os resultados esperados.

Durante 30 anos os ideólogos disseram que tudo ia dar certo: o livre mercado é lógico e produz crescimento máximo. Sim, diziam que produzia um pouco de desigualdade aqui e ali, mas também não importava muito porque os pobres estavam um pouco mais prósperos.

Agora sabemos que o que aconteceu é que se criaram condições de instabilidades enormes, que criaram condições nas quais a desigualdade afeta não apenas os mais pobres, como também cada vez mais uma grande parte de classe média.

Sobretudo, nos últimos 30 anos, os benefíciários deste grande crescimento têm sido nós, no Ocidente, que vivemos uma vida imensuravelmente superior a qualquer outro lugar do mundo.

E me surpreende muito que o Financial Times diga que o que se espera que aconteça agora é que este novo tipo de globalização controlada beneficie a quem realmente precisa, que se reduza a enorme diferença entre nós, que vivemos como príncipes, e a enorme maioria dos pobres.

Texto da BBC Brasil.

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terça-feira, outubro 21, 2008

Pânico inútil

Pânico inútil

É CADA VEZ mais evidente que Paulson e Bernanke cometeram um erro catastrófico na sua avaliação das conseqüências da quebra do Lehman Brothers.
Supondo que a violação do princípio do "grande demais para falir" interromperia a cadeia de desconfiança que se instalara nos mercados, eles puseram em marcha um processo que está longe de poderem controlar. Sua propagação está cobrando um preço gigantesco, que será pago pela economia real de todos os países do mundo. Graças aos abusos, à fértil imaginação que dispensa a moralidade e aos equívocos da política monetária (que durante longos anos não teve a humildade de conformar-se com a teoria), o sistema financeiro, que deveria servir à economia real (a do PIB e do emprego), ameaça destruí-la.
Os agentes financeiros estavam desconfiados com a crise do "subprime". E os cidadãos estavam assustados com a queda dos preços dos imóveis (que representam 1/3 de sua "riqueza"). Nesse quadro de profunda ansiedade, a quebra do Lehman promovida pela autoridade foi o epicentro de um terremoto financeiro mundial, que, na escala logarítmica Richter, foi superior a 9, ou seja, altamente destrutivo.
A história vai julgar duramente a competência de Bernanke, um excelente economista e historiador da crise de 1929, e a argúcia de Paulson, um profissional treinado que presidiu durante anos a Goldman Sachs. Vai ser muito difícil entender como a "boa" teoria somada à "boa" prática terminou em tal desastre.
Por outro lado, é fácil entender o comportamento aleatório (não irracional, como dizem alguns economistas) dos aplicadores. Ele lembra os estouros das boiadas quando assustadas por um estalo.
O mesmo acontece com os violentos terremotos: não sabendo onde encontrar abrigo, corre-se em qualquer direção. Trata-se pura e simplesmente de um estado de pânico. Todos querem sair e descobrem que a ampla porta de entrada (a ilusão vendida pela "ciência" dos bancos de investimento, que haviam descoberto como medir o risco e oferecer retorno garantido) é agora uma minúscula abertura de saída, onde vão amargar o custo de terem acreditado no milagre do máximo lucro com o mínimo de risco.
Não existe abrigo seguro. Todos vão pagar um preço pela irresponsabilidade de poucos, e uns poucos, de sangue frio e financeiramente líquidos, vão ficar ainda mais ricos.
Se você não tem nem sangue-frio nem liqüidez, fique quieto e espere.
Um dia a confiança voltará, como voltou depois das dezenas de crises do passado. Não fuja de casa para morrer na rua...

Texto de Delfim Netto, na Folha de São Paulo, de 15 de outubro de 2008.


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Lamentações

"Nós lamentamos"

NOVA YORK - O momento mais simbólico e patético da atual crise até agora foi a aparição pública ontem, logo cedo, do presidente dos EUA, George W. Bush, e de seu secretário do Tesouro (ministro da Fazenda), Henry Paulson.
Constrangidos, envergonhados e em posição explícita de genuflexão ideológica, os dois admitiram a necessidade de usar dinheiro público para comprar ações de bancos privados. O governo norte-americano torrará US$ 250 bilhões, só para começar, na compra de participação acionária em grandes instituições financeiras do país.
Mas as falas de Bush e Paulson foram além da capitulação. Ambos fizeram questão de reafirmar a crença no capitalismo. Por mais paradoxal que possa soar, essas declarações de fidelidade ao modelo liberal têm grande relevância: impedem a conclusão epidérmica, já presente aqui e ali, sobre uma possível falência inexorável ou reforma completa do sistema monetário e financeiro internacional. Não há indicações de uma coisa nem de outra num horizonte próximo.
Duas frases são úteis para guardar na parede da memória. Bush afirmou não haver a "intenção de tomar o lugar do livre mercado, mas de preservar o livre mercado". Paulson veio depois, compungido e explícito sobre seus atos: "Nós lamentamos por tomar essas medidas. As medidas de hoje não são as que nós gostaríamos de tomar, mas as medidas de hoje são as que nós devemos adotar para restaurar a confiança no nosso sistema financeiro".
Em resumo, os governos dão agora, mas cobrarão de volta mais tarde. Os banqueiros ficarão mais ricos? Possivelmente. Haverá regras novas? Algumas, sempre preservando a liberdade para o sistema bancário descobrir brechas e aumentar seus lucros. E daqui a alguns anos enfrentaremos todos outra crise parecida. Ou pior.

Texto de Fernando Rodrigues, na Folha de São Paulo, de 15 de outubro de 2008.

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terça-feira, outubro 14, 2008

Plano "socialista" britânico salvará o capitalismo?

Plano "socialista" britânico pode salvar o capitalismo

Imprensa britânica aplaude pacote do primeiro-ministro Gordon Brown

Jornais dizem que plano é "bem desenhado", "atinge o coração do problema" e que, diante da crise, "faz sentido recapitalizar os bancos"

CLÓVIS ROSSI
ENVIADO ESPECIAL A MADRI

Como nos velhos tempos em que os anticomunistas viscerais enxergavam comunistas até debaixo da cama, Simon Heffer, o ultraliberal colunista do jornal britânico "The Daily Telegraph", disparou ontem todos os sinais de alarme depois do pacote do primeiro-ministro Gordon Brown de socorro e semi-estatização dos bancos:
"Todos somos socialistas agora", começou, em artigo de página inteira. E fechou: "A intervenção, ou melhor, interferência, do Estado em assuntos financeiros e econômicos só pode levar à esclerose, à supressão da livre empresa, ao aumento dos impostos, à inanição em investimentos, à falta de inovação, ao atraso tecnológico e ao aumento do poder do trabalho organizado".
Antigas paranóias à parte, Heffer tem alguma razão quando diz que "todos somos socialistas agora". Dois professores norte-americanos -Laurence Kotlikoff, da Boston University, e Perry Mehrling, da Columbia, em artigo para o "Washington Post"- até ironizam: "Tio Sam se tornou nosso novo banco. Ele também se tornou nossa nova companhia de seguros com a compra, na prática, da maior seguradora do mundo, a AIG".
Pior, pelo menos para os que, como Heffer, vêem na ação dos governos na presente crise a ante-sala do comunismo e, por extensão, do fim do mundo: há um coro de aplausos, da direita à esquerda, em especial ao pacote de Brown, que, na manchete de ontem do "Guardian", "arrisca 500 bilhões de libras [R$ 1,866 trilhão) do dinheiro público no pacote de resgate dos bancos".
Até o "The Wall Street Journal", uma das mais potentes vozes pró-livre mercado, diz, em editorial: "A mexida de Londres vai ao coração do problema, que é a falta de capital no sistema financeiro -o combustível para o pânico global".
O "Guardian", mais à esquerda, segue o mesmo caminho: chama o plano Brown de "bem desenhado" e completa: "Enfrenta os três grandes problemas dos bancos -capital, liquidez e financiamento. Sob esse aspecto, é melhor que o plano Paulson [Hank Paulson, secretário do Tesouro americano]".
Concorda a colunista Gillian Tett, no "Financial Times", outro baluarte do livre mercado: "Quando uma crise bancária é séria a esse ponto, faz mais sentido recapitalizar os bancos comprando ações preferenciais do que seus ativos sem valor".
Em tese, comprar os ativos sem valor é o eixo do plano Paulson, mas Kotlikoff e Mehrling chamam a atenção para uma distração da mídia, que não teria notado que "a seção 113 da lei [Paulson] autoriza injeção de capital do governo no sistema bancário quando necessário -algo que o governo britânico está fazendo agora e o governo sueco fez com sucesso no passado recente".
Os hiperliberais norte-americanos ficariam horrorizados como ficou o britânico Heffer, mas Kotlikoff e Mehrling festejam: "Isso significa que [o governo] não deixará falir nenhum banco que seja viável só porque ele está temporariamente subcapitalizado". Eles reduzem a intervenção ao que de fato é: "Pode parecer socialismo ou capitalismo de Estado, mas é simplesmente o rearranjo do mobiliário financeiro".
Ou é algo bem mais prosaico, segundo Felipe González, ex-presidente do governo espanhol. Na sua opinião, a economia chegou a funcionar como um "cassino global", mas com uma fundamental diferença: "Nos cassinos, o que arrisca e perde não reclama que papai-Estado lhe devolva o dinheiro".
Só falta agora que o dinheiro de papai-Estado ponha fim ao pânico, o que ainda não estava demonstrado até o começo da noite de ontem (na Europa).

Texto da Folha de São Paulo, de 10 de outubro de 2008.

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Governo na anarquia mundial

Governo na anarquia mundial

O GOVERNO dos EUA disse ontem que subiu no telhado o plano original de compra do papelório podre dos bancos. Não deve, é claro, desistir de "tabelar" e comprar os produtos financeiros que os bancos não querem ter nos cofres enquanto o governo não subsidiá-los. Mas o governo parece que viu mais escuridão no fim do túnel e alguma luz no pacotão britânico, que inclui a compra de ações dos bancos alquebrados. Em suma, os americanos podem estatizar parte dos bancos. Talvez seja a solução terminal que estará em debate na reunião do G7 que começa hoje. Até agora, o mundo rico não se entende.
O governo britânico sugeriu ontem que os governos dos países do G7 passem a funcionar como seguradores dos empréstimos entre bancos -EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá compõem o G7. A França e os Estados Unidos também não gostaram da idéia. Mais relevante é que não há ordem política que se contraponha à anarquia financeira mundializada. As maiores economias do mundo combinaram de cortar os juros na quarta-feira. Dada a velocidade dos fatos, parece que a "inédita e concertada demonstração de cooperação" ocorreu na crise de 1873, pois a devastação continuou nos mercados financeiros. Poucas horas depois do corte, o governo dos EUA avisava que mais bancos poderiam quebrar.
Dias antes do corte de juros, a Alemanha se estranhava em público com a França, que havia proposto um fundo europeu para dar conta da crise. Pouco antes, o Reino Unido ficara irado com a Irlanda, que garantira os depósitos dos correntistas de seus bancos, o que poderia estimular vazamento de dinheiro britânico para a Irlanda. Vários países europeus protestaram contra a iniciativa irlandesa, para, logo depois, adotarem medida semelhante. No sábado passado, dada tamanha barafunda e o cada um por si, a França promoveu uma cupulazinha com a Alemanha, o Reino Unido e a Itália para "coordenar as ações", que, no entanto, continuam descoordenadas.
Um grupo de economistas importantes, entre os quais Barry Eichengreen, Alberto Alesina, Charles Calomiris, Bradford DeLong e Raghuram Rajan, publicou ontem uma avaliação da crise (em 12 artigos curtos) e um "manifesto" dirigido ao G7, que, entre outras coisas, pede a "entrada" dos governos nos bancos. Os elementos básicos do plano para a "quase certamente mais séria crise econômica de nossas vidas" seria o seguinte: 1) Rápida recapitalização dos bancos, em ação global coordenada [isto é, injeção de dinheiro dos governos para aumentar o capital dos bancos, de modo que eles voltem a emprestar]; 2) Garantia de depósitos e/ou empréstimos, em ação global coordenada [isto é, os governos garantiriam cobrir todas as contas dos correntistas e talvez empréstimos, levando todo o risco dos bancos para as contas públicas]; 3) Depois, estímulo macroeconômico coordenado [ações relativas a taxas de juros e a gastos públicos].
"Todos os autores concordaram com o primeiro ponto, muitos com o segundo, e um bom número com o terceiro", diz Eichengreen. Os textos, reunidos sob o título "Rescuing our jobs and savings: What G7/8 leaders can do to solve the global credit crisis", estão no site http://voxeu.org/.

Texto de Vinicius Torres Freire, na Folha de São Paulo, de 10 de outubro de 2008.


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Começa a estatização em massa

Fim de papo: começa a estatização

A ESTATIZAÇÃO de fatias grossas do sistema financeiro euroamericano vai começar, agora de modo sistemático. Hoje, o Reino Unido anuncia o plano de comprar até US$ 87 bilhões (R$ 202 bilhões) em ações dos seus cinco maiores bancos. Havia rumores de que pelo menos dois deles não resistiriam à virada da noite -o dinheiro vale um terço da economia argentina.
A idéia inicial é que os bancos continuem a ser companhias privadas.
Mas o governo terá representantes na direção e algumas normas serão baixadas para que os bancos não parem de emprestar para clientes de varejo e a pequenas e médias empresas. De quebra, jogando para a galera, o governo vai limitar o rendimento dos altos executivos.
Essas são, mais ou menos, as "diretrizes" que a União Européia aprovou para a intervenção em massa nos bancos.
Na sexta-feira, a Espanha deve anunciar um pacote de até US$ 68 bilhões (R$ 158 bilhões) para financiar a compra de ativos financeiros dos bancos, ora saudáveis, a fim de que eles descongelem o fluxo de empréstimos para a economia "real".
Mais complicado, mas mais impressionante, é que o Fed, o banco central dos Estados Unidos, tornou-se na prática um banco múltiplo, para não dizer ênuplo, de "n" utilidades: além de autoridade monetária, é agora banco de bancos, banco comercial e de investimento. O Fed vai financiar a atividade cotidiana de empresas e de bancos, por meio de um veículo de propósito específico, uma "subsidiária", digamos. Vai comprar notas promissórias das firmas. Isto é, vai emprestar dinheiro para o capital de giro, os recursos de que as empresas necessitam para tocar atividades comezinhas, como honrar a folha de pagamento.
Em geral, fundos de investimento compravam tais papéis de empresas. Com a crise, tais fundos congelaram de medo de calote.
Em suma: o dinheiro apenas flui no centro do mundo quando é intermediado pelos bancos centrais, o Fed em particular. Alguma coisa parecida, embora em muito menor escala, começa a acontecer no Brasil, também varrido pela seca duradoura de crédito. A coisa pode não parar por aí. Talvez o Fed tenha de garantir todas as transações entre instituições financeiras dos EUA, como uma espécie de seguradora gigante de calotes financeiros, uma das alternativas restantes ao medo paralisante de emprestar e ser caloteado.
Tais iniciativas, tão extraordinárias quanto vexaminosas, mas necessárias, resultam de três semanas de congelamento de crédito. São o efeito final da desconfiança dos mercados em seu próprio sistema de preços e de avaliação de riscos.
Calotes imobiliários relativamente pequenos destruíram o valor de títulos financeiros lastreados em simples prestações da casa própria, e assim o valor dos investimentos financeiros de bancos. Quebrados por conta e risco próprios, não emprestam dinheiro entre si. Sem capital, temem emprestar à produção.
Para evitar eventual confusão, e desculpas pela obviedade, a estatização da finança do mundo rico não é uma opção pelo dirigismo estatal, mas medida desesperada com o objetivo de evitar que a ineficiência catastrófica do mercado financeiro moderno resulte em desastre ainda maior para a dita "economia real".

Texto de Vinicius Torres Freire, na Folha de São Paulo, de 8 de outubro de 2008.


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Começa a era da incerteza

Começa a era da incerteza

MADRI - As falhas grosseiras que o mercado apresentou e as sucessivas intervenções dos governos levaram à suposição de que o liberalismo morreu ou está em coma e que o intervencionismo estatal está de volta com toda a força, certo?
Errado, escreve Daniel Innerarity, professor de filosofia da Universidade de Zaragoza, em artigo para o jornal "El País".
"Se estivéssemos ante o final do neoliberalismo e o retorno das certezas social-democratas, talvez nos sentíssemos mais aliviados, mas não teríamos entendido que o que se acaba é outra coisa: uma determinada concepção de nosso saber acerca da realidade social e de nossa capacidade de decidir sobre ela", escreve.
Conseqüência: "Agora, nos toca acostumarmo-nos à instabilidade e à incerteza, tanto no que diz respeito às predições dos economistas, ao comportamento do mercado ou ao exercício das lideranças políticas", acrescenta o filósofo.
Fecha com: "Nosso principal desafio é a governança do risco, que não é a renúncia a regulá-lo nem a ilusão de que poderíamos eliminá-lo completamente".
Desagradável, não é? Os seres humanos, com poucas exceções, preferimos as certezas, mesmo que sejam ilusórias. Os mercados ofereceram certezas absolutas, acompanhados pelo coro que lhes conferia características de semideuses ou de "Mestres do Universo", para remeter a Tom Wolfe e a sua "Fogueira das Vaidades".
Agora vem o papa Bento 16 e constata: "Vemos que, na queda dos grandes bancos, o dinheiro se desfaz e que todas essas coisas que parecem a única verdade são na realidade de segunda ordem". Sorte do papa (e dos crentes), para quem "só a palavra de Deus é uma realidade sólida".
Para todos os demais (e mesmo para os crentes que têm dinheiro nas Bolsas), resta administrar a instabilidade e a incerteza.

Texto de Clóvis Rossi, na Folha de São Paulo, de 8 de outubro de 2008.

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sábado, outubro 11, 2008

Fim de linha: estatização em massa

Fim de linha: estatização em massa


ONDE FICA o fim da picada? A desordem nas finanças mundiais acaba de dar sentido concreto à metáfora: sem meias palavras, propõe-se que o fim do caminho agora é a estatização, ainda que provisória, de vastas partes do sistema financeiro euroamericano, além da intervenção estatal maciça nas relações entre credores e devedores do sistema financeiro privado.
A anarquia financeira, a demorada implementação do pacotão dos EUA e a desordem política na Europa provocam corridas. Correntistas sacam seus depósitos na Europa, americanos sacam de seus fundos de investimento, clientes de "hedge funds" sacam suas aplicações. O resultado é pânico ainda maior, seca de crédito e venda em massa de ativos financeiros para atender demandas de saques e a perdas decorrentes da liquidação de ativos, queima total que atinge também ativos brasileiros.
Em parte, a estatização já está acontecendo, como se vê em casos pontuais nos EUA e na Europa. De resto, os maiores BCs do mundo são agora provedores iniciais de crédito para um sistema financeiro privado que congelou de terror.
A solução estatizante terminal foi apresentada da maneira mais simples e direta num editorial de hoje do diário financeiro britânico "Financial Times", mas está por toda parte -em artigos de economistas de ponta, de grandes gestores de fundo e de grandes bancos. Diz o jornal, no texto "Como salvar os bancos europeus": "Encerrar o pânico vai requerer algo mais: a recapitalização do setor bancário. Na falta de uma fila de investidores ávidos, a recapitalização ocorrerá ou por meio da conversão forçada de dívida em ações ou de governos comprando eles mesmos uma parte [dos bancos]".
Isto é: 1) governos devem obrigar os credores a transformar os créditos que têm a receber dos bancos em participação no capital dessas instituições financeiras; 2) governos têm de comprar bancos alquebrados que ainda podem ser salvos. Paul Krugman apresentou a mesma proposta ontem, num "paper" cheio de equações, mas de conclusão simples, que tem repetido faz dias: o governo tem de levar partes dos bancos a fim de recapitalizá-los.
Segundo relato de ontem do BNP Paribas, o bancão francês, o Fed (o BC dos EUA) viria a fazer empréstimos sem garantia para bancos, além de já pagar juros sobre reservas que os bancos têm de manter no banco central: o Fed se alavanca e explode o seu "limite" de empréstimos. "O Fed está morto. Viva o Ben Bernanke Capital Management", diz sarcasticamente o banco, comparando o Fed a um notório e gigantesco "hedge fund" falido em 1998, o Long Term Capital Management (LTCM).
O BNP relata rumores de que os EUA vão recapitalizar bancos quebrados, subsidiar mais fusões & aquisições bancárias e emprestar dinheiro aos fundos de investimento ("money markets funds"), principais fornecedores de crédito de curto prazo para empresas. O UBS e o Citi sugerem que os governos ofereçam garantias gerais para todos os depósitos e, também, programas estatais de recapitalização de bancos privados. Todo mundo sugere a criação de câmaras de compensação para dar ordem a mercados como os de derivativos de crédito e outros papéis enrolados. Etc. É o fim da linha.

Texto de Vinicius Torres Freire, na Folha de São Paulo, de 7 de outubro de 2008.


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terça-feira, outubro 07, 2008

O cassino e a chantagem

O cassino e a chantagem

SÃO PAULO - O valor das ações de uma empresa na Bolsa de Valores (ou do conjunto das empresas nela listadas) deveria ser determinado pelo desempenho corrente da companhia e/ou pelas expectativas a respeito de sua performance futura. Perdão pelo óbvio, e sigamos.
Na segunda-feira, por essa lógica, o desempenho das empresas listadas na Bolsa de São Paulo e suas perspectivas eram tão ruins, mas tão ruins, que o índice caiu 9,36%.
Mas, no dia seguinte, desempenho e perspectivas melhoraram tanto, mas tanto, que subiu 7,63%. Como é simplesmente impossível que haja tal mudança em tão curto espaço de tempo, os fatos dão ao presidente Lula toda a razão quando diz que se trata de cassino.
Pior: é um cassino que está fazendo chantagem com o Congresso norte-americano, tentando forçar a aprovação de um pacote de socorro aos gatos gordos de Wall Street, cuja ganância infinita é a causa básica da crise. Chantagem que é apoiada pelo presidente dos Estados Unidos, país que já foi um modelo de democracia.
Quando Bush diz, como fez ontem, que "as conseqüências [da não-aprovação do pacote] se tornarão piores a cada dia", está claramente chantageando os congressistas.
Ora, quem votou contra o pacote apenas atendeu à opinião de seu eleitorado, maciçamente contrário ao salvamento dos gatos gordos. E é assim que deveria funcionar a democracia representativa: o representante faz o que o representado quer (ou convence o representado de que está equivocado).
Convence-o, por exemplo, de que está de fato em curso a "desintegração do sistema financeiro", como diz Martin Wolf, principal colunista do "Financial Times". Parece estar, mas é com fatos, não com chantagem, que se deve argumentar.
É possível que a chantagem vingue, mas seu triunfo só fará aumentar o gosto amargo da crise.

Texto de Clóvis Rossi, na Folha de São Paulo, de 1º. de outubro de 2008.

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E agora, liberais?

E agora, liberais?

A MAIOR OPERAÇÃO ideológica desde a queda do Muro de Berlim foi por água abaixo. Fizeram do secretário do Tesouro dos EUA, Henry Paulson, um super-herói que iria salvar o planeta de um gigantesco acidente natural chamado crise financeira.
Colocaram no roteiro verdadeiras crises de consciência: o herói faria o salvamento ao preço de enorme sacrifício pessoal, imolando suas mais caras convicções liberais no altar da estatização.
Na seqüência, fizeram com que o já entronado grão-vizir das finanças públicas negociasse com os legítimos representantes do povo. Os superpoderes se tornariam então poderes supervisionados e delegados pela vontade da maioria.
O acordo entre Hollywood e o Capitólio foi selado no domingo e derrubado no dia seguinte. Para o Congresso dos EUA não foi suficiente dizer "desculpe, foi engano" depois de décadas de exaltação às maravilhas da desregulação econômica.
A situação é inédita. Pela primeira vez o capitalismo enfrenta uma crise global sem ter adversário. Não há movimento social e político de importância a confrontar o capital e a sua forma de distribuir a riqueza. E, nesse momento, a premissa de toda a encenação desmorona: não há harmonia preestabelecida entre capitalismo e democracia.
Resta saber que figurino vai usar agora quem toca o bumbo do liberalismo econômico no Brasil. A primeira tentativa foi vender o resgate como salvação universal e defesa do bem comum em uma situação de emergência. Não colou. Nos últimos tempos, resolveram dar de analistas imparciais, que não têm nada a ver com isso.
Nos casos mais patológicos, mantiveram a beligerância de sempre, só que disfarçada. Em vez de falar da crise do mercado, disseram que a regulação estatal também produz crises. Recorreram a uma suposta experiência histórica para dizer que políticas adotadas para conter crises só fazem piorar as crises. Para completar, espreguiçaram na cadeira de balanço e pontificaram que a crise é uma oportunidade, uma pausa para a reflexão e para a reforma interior da pessoa humana.
Não é só cinismo. É arrogância própria de quem serve ao poder do capital da maneira que for necessária. Poder que detém um quase monopólio da tradução da crise para a sociedade na esfera pública.
Foi essa arrogância que produziu tantas trocas levianas de figurino ideológico em tão pouco tempo. A dança descompromissada do liberalismo confiou em que um Congresso não desafiaria um plano que se apresentou desde o início como inevitável, sem alternativa. Vão ter de fazer muito melhor agora.

Texto da Folha de São Paulo, de 30 de setembro de 2008.

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terça-feira, setembro 30, 2008

Parem o Mercado!

Parem o mercado, querem descer

SÃO PAULO - Dois momentos, separados por escassos 14 meses, dão uma idéia perfeita da marcha acelerada da crise global.
Momento 1 - Na cúpula do G8, em junho de 2007, o governo alemão, o anfitrião de turno, queria que fosse discutido algum tipo de código de conduta para os agentes do mercado financeiro, em especial para os "hedge funds", esses que apostam em diferentes ativos para se proteger caso uma (ou mais de uma) das apostas dê errado. Seria uma espécie de auto-regulação.
Explicava à época o ministro alemão de Finanças, Peer Steinbrueck, que tais fundos especulativos representam "um risco sistêmico".
Por quê? Simples: "Alguns deles estão alavancados cinco, seis ou até sete vezes, o que significa que os credores podem ser seriamente prejudicados se um desses fundos se tornar insolvente", explicava Steinbrueck.
Ou seja, previa tudo o que viria logo depois (a crise, então chamada modesta e incorretamente de "crise das subprime", estourou em agosto, dois meses depois). Os Estados Unidos rejeitaram a proposta alemã. Deu no que se vê.
Momento 2 - O presidente da poderosa Confederação Espanhola de Organizações Empresariais, Gerardo Díaz Ferrán, fez anteontem a seguinte declaração: "Creio na liberdade de mercado, mas, na vida, há conjunturas excepcionais. Pode-se fazer um parêntesis na economia de livre mercado".
Passou-se, pois, em meros 14 meses, de uma proposta de auto-regulação, típica medida de mercado, à impossível hibernação do próprio mercado.
Não se aceitou a primeira porque os governos, todos, têm medo do mercado e não o enfrentam. E, para executar a segunda, seria preciso que houvesse um estadista disponível no mercado de governantes capaz de apresentar alguma idéia, uma que fosse, para organizar a farra. Você conhece algum?

Texto de Clóvis Rossi, na Folha de São Paulo, de 19 de setembro de 2008.


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