quarta-feira, dezembro 22, 2010

Mortos-vivos

A volta dos mortos-vivos
VOCÊ JÁ deve ter ouvido falar na Lei Azeredo. É um projeto de lei para criminalizar a internet, correndo na Câmara dos Deputados.
Pela proposta, quem transferir músicas do iPod para o computador, mesmo que tenha pago por elas, está sujeito a uma pena de três anos de prisão.
O projeto ganhou esse apelido por causa de seu maior defensor, o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG -que, no ano que vem, será deputado).
Essa proposta de lei causou muita revolta na sociedade (e em quem entende e respeita a internet). Por exemplo, um abaixo-assinado contrário conseguiu 157 mil assinaturas (bit.ly/11YwFC). Houve forte mobilização de várias entidades contrárias, da USP ao Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor).
Isso fez com que muita gente julgasse o projeto morto. Estavam errados.
Na semana passada, o morto-vivo andou. A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara emitiu opinião favorável à aprovação do projeto. Ainda por cima apresentou um novo texto que piora o original, abrindo caminho para o vigilantismo e o desrespeito à privacidade em redes sociais, blogs e até no Twitter.
Se for aprovado, adeus privacidade. Autoridades vão ter o direito de, sem ordem judicial, vigiar pessoas.
Tudo isso ignora o trabalho feito pelo Ministério da Justiça no chamado "Marco Civil da Internet", que passou um ano construindo uma alternativa ao projeto Azeredo, contando com intensa participação pública (bit.ly/1kBQcx).
O objetivo não é criminalizar, mas proteger a rede e os direitos dos internautas.
Vale notar que esse andamento da Lei Azeredo aconteceu em 5 de outubro, logo após as eleições, quando não havia ninguém prestando atenção. Foi assinado por um deputado não reeleito (Regis de Oliveira, do PSC-SP). Tudo leva a crer que se trata de uma estratégia para fugir da opinião pública.
Diferentemente de outros tipos de zumbi, esse parece ter medo de gente.


JÁ ERA
Zumbis dominando apenas o cinema, desde "A Noite dos Mortos-Vivos"

JÁ É
Zumbis chegando à televisão com a série "The Walking Dead", que acaba de estrear

JÁ VEM
Sustos de mais projetos legislativos comoa Lei Azeredo


Na Folha de São Paulo, caderno Folhaten - 25/10/2010: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/folhatee/fm2510201006.htm

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sexta-feira, dezembro 17, 2010

Artigo: 2011, o ano em que poderemos dar adeus à liberdade na internet


Cada vez mais governos e instituições parecem controlar o uso da web, caso de países como China e Estados Unidos.

Este artigo de final de ano é, acima de tudo, um modesto olhar sobre o que vejo e imagino para o futuro. Afinal, estamos prestes a começar 2011, e ao que tudo indica, será um ano decisivo para a Internet e para todo o seu grande potencial livre.

Ao longo de sua história, a Internet tem sido essencialmente livre de regulamentação governamental. Embora existam exceções - alguns países estão trabalhando bastante para controlar o conteúdo online.  

Mas, sem dúvida, tem sido profundo o impacto da Internet sobre a indústria da música e do cinema, jornais, entretenimento, privacidade, transparência de governo (voluntária ou não) e educação.

Claro, existem muitas pessoas que não estão felizes com estas mudanças, muitas vezes, impostas pela web. Por alguns anos, a indústria dos direitos autorais protestou bastante contra a Internet.  Ainda que alguns indivíduos tenham realmente tido dores de cabeça, nada realmente mudou para a maioria, pelo menos até o momento. 

Entretanto, os esforços para controlar a rede de outras maneiras estão começando a crescer.

Governos x Internet

Um exemplo recente foi o evento ITU Plenipotentiary Conference, em Guadalajara, no México, onde ocorreu uma grande discussão sobre a possibilidade de extender à Internet o regime regulatório dos sistemas mundiais de telefonia. Mas, no final, o encontro terminou sem a conclusão de um regulamento global.

Uma outra tentativa surgiu com a Comissão para Ciência e Tecnologia das Nações Unidas, que votou no sentido de estabelecer um comando único, nas mãos do Fórum para Governança da Internet - um grupo responsável por discutir questões na web relacionadas, principalmente, a direito de imagens.

Agora, um grupo, constituído por países integrantes da ONU, investigará como ajustar a IGF para este comando. Sinceramente, não é preciso muita imaginação para prever o provável resultado. 

Afinal, os governos, em geral não gostam muito da internet ou pelo menos de atividades online que eles não controlam. Alguns, como a chinês, por exemplo, estabeleceram inúmeras restrições aos websites de seus próprios países. Um caso recente é a Venezuela. 

Uma possível reestruturação da Internet permitiria a cada país gerenciar o conteúdo de tal forma que se tornaria difícil descobrir o que está acontecendo ao redor do mundo.

Mas não temos de esperar a ONU para refletirmos sobre o futuro. Recentemente, o governo dos EUA tirou do ar uma série de domínios, sem qualquer notificação oficial aos proprietários. 

Caso semelhante pode ter ocorrido caso o governo dos EUA tenha realmente pressionado o PayPal e a Amazon para interromper seus serviços ao WikiLeaks, novamente, sem a utilização de nenhum meio legal. 

Você não tem de ser um fã do WikiLeaks para entender que deixar o governo dos EUA decidir sozinho, sem nenhum processo jurídico como o definido pela Constituição, não é um caminho para a liberdade. Além disso, a FCC votará um novo marco regulatório para a internet no dia 21 de dezembro – e o conteúdo está sendo mantido longe dos holofotes.

Posso estar sendo um pouco alarmista, mas os sinais indicam que a Internet do futuro não será igual àquela que um dia conhecemos, a não ser no nome. Feliz Ano Novo.
(Scott Bradner)

Artigo do IDGNow!

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terça-feira, novembro 30, 2010

Web ultrapassa jornal, revista e rádio como fonte de informação nas eleições 2010

A internet foi um dos principais meios usados pelos eleitores brasileiros para se informar sobre política durante a campanha eleitoral deste ano. De acordo com uma pesquisa do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a web, citada por 9,9% dos respondentes, perdeu apenas para TV (56,6%) e conversa com amigos e parentes (18,4%).

O jornal impresso aparece em quarto lugar, com 6,4%, rádio (4,2%), revista (0,7%), cartazes em pontos de ônibus (0,6%) e totens digitais nos aeroportos (0,3%).

Com a campanha regulamentada na internet, o movimento na web foi intenso e coordenadores das campanhas digitais reconheceram o papel da internet nos resultados. O jornalista Caio Tulio Costa, que dirigiu a campanha online da senadora Marina Silva (PV), então candidata à presidência da República, chegou a afirmar que a web foi responsável pelo segundo turno entre Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB).

Segundo turno muda de figura
Para o segundo turno, 44,2% dos eleitores responderam que já estavam decididos sobre seus candidatos. Apenas 18,8% usaram os debates na TV e rádio para ajudar na decisão do voto; 15,5% os programas dos candidatos na TV; 6,2% opinião de amigos, colegas de trabalho e parentes; 4,4% programa dos candidatos no rádio; 3% noticiário de emissoras de televisão e rádio; 1,7% leitura de jornais e revistas; 1,7% internet; e 1% comentário de jornalistas/comentaristas, articulistas.

TV
A TV, que aparece em primeiro lugar, os entrevistados destacaram a Globo como a mais assistida, com 79,6%, seguida pela Record (60,4%), SBT (37,8%), Bandeirantes (25,6%), Rede Vida (12,3%), TV Cultura (10,4%), Gazeta (8,2%) e TV Educativa (7%).

A pesquisa do TSE foi realizada com duas mil pessoas em 24 Estados nas cinco regiões do País, entre os dias 3 e 7/11. A margem de erro de 2,2% para mais ou para menos.


Notícia do Comunique-se. 

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quarta-feira, novembro 03, 2010

Os antigos papéis sexuais em um "novo" mundo

Em um novo mundo, os dois sexos desempenham os mesmos antigos papéis


Luisita Lopez Torregrosa

Em Nova York (Estados Unidos)


Esse tem sido o filme do momento desde que foi lançado no início deste mês, com sucesso nas bilheterias, expectativas quanto a um Oscar e dezenas de artigos e blogs que o dissecaram e elogiaram. Não há dúvida de que “The Social Network” (“A Rede Social”, Estados Unidos, 2010) – a história do Facebook e do seu cofundador, Mark Zuckerberg – é uma narrativa do milênio, um marco cultural, de ritmo rápido e fascinante, um drama explosivo sobre a nova geração da tecnologia.


Muito tem se questionado se a história narrada no filme respeitou a realidade na forma como retratou Zuckerberg, que atualmente, aos 26 anos de idade, é o mais jovem bilionário do mundo. O jovem Zuckerberg é retratado como sendo socialmente agressivo e egomaníaco, distante e evasivo. Teria ele roubado a ideia do Facebook, traído amigos e enganado sócios?


Talvez. Ele não admite nada disso, mas está pagando milhões de dólares em indenizações e multas para fazer com que o problema desapareça. Sem sucesso.


É claro que Zuckerberg não gosta nem um pouco da forma como é retratado no filme, mas aquela personalidade antipática aparentemente reflete de fato o Zuckerberg da vida real.


Aos 19 anos de idade Zuckerberg era um calouro arrogante, mas inseguro, da Universidade Harvard, quando jurou que se vingaria de uma namorada que terminou com ele e – pelo menos no filme – dos clubes sociais que o esnobaram.


Ele criou o Facebook com o seu companheiro de quarto na universidade, no seu computador, em fevereiro de 2004. Tudo começou como uma brincadeira, uma lista virtual de fotografias que classificava as alunas do campus pela beleza, com comentários progressivamente cruéis. A ideia foi recebida com entusiasmo e se espalhou rapidamente.


Zuckerberg teve um sucesso muito maior do que sequer poderia ter sonhado e deu continuidade à ideia, criando uma rede de mídia social que atualmente conta com 500 milhões de membros em todo o mundo.


O filme expõe as falhas de caráter de Zuckerberg, que emergem durante os seus dias de insônia quando ele era um hacker maníaco, e em encontros sociais e sexuais esquisitos.


Mas, talvez de uma forma mais penetrante, “The Social Network” expõe uma espécie de sexismo que é disseminada e profunda entre jovens empresários nerds e gênios geeks – os futuros construtores do império tecnológico da cultura da Web 2.0, todos homens que desejam ser os donos do universo.


E onde estão as mulheres na criação de um dos mais bem sucedidos websites do novo século?


No filme, pelo menos, as mulheres são peças decorativas nos bastidores, uma face que se funde à outra, corpos esguios idênticos.


É verdade que há muitas mulheres no filme – em sua maioria asiáticas (supostamente devido à concepção tão comum de que as asiáticas são boas em matemática). Elas são a versão no mundo da Web das groupies (tietes), toadies (bajuladoras), trophies (mulheres troféus), gold diggers (literalmente, “cavadoras de ouro”, mulheres que entram em relações amorosas em busca de dinheiro) e floozies (jovens mulheres sexualmente promíscuas).


Elas são sexy, sedutoras, oferecidas e ansiosas para servir os garotos, não sendo muito diferentes daquelas mulheres de cintura justa em “Mad Men”, a série norte-americana de TV a cabo sobre homens dominantes que controlam a indústria de publicidade e propaganda da Avenida Madison no auge dos anos sessenta.


É como se não se tivesse passado tempo algum em mais de meio século – as modas mudaram, mas a igualdade das mulheres ainda não passa de uma ilusão – talvez mais agora do que naquela época.


Mas, em ambos os mundos – o da década de sessenta e o da primeira década deste século – os homens é que são os lutadores, produtores, criadores, inovadores, empreendedores e, no fim das contas, bilionários.


Poucos críticos de cinema mencionaram o sexismo ostensivo que é revelado no filme – ou seja, um sexismo que aparentemente corria solto entre os jovens alunos da Universidade Harvard de alto nível de escolaridade, brilhantes e mal educados, criados na era do feminismo moderno (o Zuckerberg da vida real, filho único de uma mãe psiquiatra e de um pai dentista, nasceu e foi criado, juntamente com as três irmãs, no afluente condado de Westchester, na região suburbana de Nova York).


Mas não eram apenas Zuckerberg, com o seu pedigree da Academia Phillips Exeter, e o seu grupo de amigos geeks que tratavam as mulheres como objetos descartáveis para se usar durante uma única noite. Os rapazes que pertencem aos clubes mais graduados da Universidade Harvard – sociedades que estão mais para fraternidades meio secretas – participavam de noitadas agitadas, quando garotas das escolas próximas eram levadas para Cambridge para participarem de festas movidas a álcool, drogas e sexo.


Isso traz à tona a pergunta óbvia: o que há de errado com essas mulheres? Exceto pela garota que terminou o namoro com Zuckerberg na memorável cena de abertura do filme porque, entre outras coisas, ele era um “jerk” (gíria em inglês para designar um indivíduo imbecil, estúpido ou rude) – ela na verdade usa uma palavra mais forte –, todas as jovens mostradas no filme não passam de vadias manipuladoras de cabeça oca, fúteis e cheiradoras de cocaína.


O roteirista do filme, Aaron Sorkin (“The West Wing”), pode ter uma resposta para isso.


Sorkin diz ter ficado chocado com a intensidade do sexismo que descobriu ao fazer pesquisas para o seu roteiro e ler o livro no qual o filme se baseia, “The Accidental Billionaires” (“Os Bilionários Acidentais”), de Ben Mezrich.


“Não é difícil entender como mulheres brilhantes podem ficar horrorizadas com o que veem no filme, mas é preciso entender que eu escrevi a respeito de um universo bastante específico”, disse Sorkin em um recente comentário em um blog do escritor Ken Levine.


“O Facebook nasceu durante uma noite de incrível misoginia”, explicou Sorkin. “A ideia de comparar as mulheres a animais de fazenda, e a seguir compará-las entre si, de acordo com a aparência, e finalmente classificá-las publicamente em uma determinada ordem...”.


“Eu escrevi sobre um grupo de pessoas cheias de raiva e profundamente misóginas”, continuou Sorkin. “Não estamos falando daqueles nerds amáveis sobre os quais nós fizemos filmes na década de oitenta. Estes jovens ainda têm muita raiva pelo fato de a cheerleader ainda desejar sair com o jogador de futebol americano, em vez de com os homens (na verdade, garotos) que estão agora comandando o universo. As mulheres das quais eles se cercaram não são mulheres que os desafiam (e, francamente, nenhuma mulher que pudesse desafiá-los teria interesse algum de estar perto desses garotos)”.


A história de Zuckerberg e do Facebook encaixa-se neste novo mundo de hackers, algoritmos e gênios geeks. Não faz muito tempo que uma editora de um jornal da Web, uma mulher de meia idade, me disse que quando olha para as editorias digitais vê muitas produtoras e editoras do sexo feminino. No entanto, o que chama a sua atenção é o fato de os indivíduos que fazem projetos para a Web, os cérebros criativos, os inovadores, aqueles que têm uma chance de alcançar a glória, serem todos homens jovens.


“The Social Network”, não é simplesmente um filme. Não é um documentário. E tampouco uma biografia. Poderíamos parar por aqui, mas a dura verdade é que, ficção ou não, ele reflete com uma precisão assustadora uma realidade cultural.




Texto do International Herald Tribune, republicado no UOL.

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sexta-feira, julho 16, 2010

O Fim da Edição Impressa do Jornal do Brasil

O Fim da Edição Impressa do Jornal do Brasil


A informação que se espalhou pela Internet é que o Jornal do Brasil, JB para os íntimos, deixará de ter circulação impressa, talvez a partir de setembro, ficando restrito a um sítio na Grande Rede, com material exclusivo para assinantes. O JB existe desde 1891, e segue caminho semelhante ao americano Christian Science Monitor.


Hoje (14 de julho) pude ler muitos lamentos a respeito do final da edição impressa do jornal. Textos de Ruy Castro e Fernando Gabeira, na Folha de São Paulo. Um longo texto de despedida de Luiz Gonzaga da Silva no blog do Luís Nassif. Muita tristeza. Não é à toa, na verdade. Grandes e antigos nomes do jornalismo brasileiro trabalharam no JB. O Elio Gaspari, que eu tanto admiro, trabalhou lá, bem como os referidos Ruy Castro e Fernando Gabeira. O jornalista Alberto Dines, hoje um dos coordenadores do Observatório da Imprensa também. Até não muito tempo atrás, o JB era considerado um dos quatro grandes jornais de nível nacional do Brasil (os outros seriam O Globo, O Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo). Mas desde o final da ditadura militar entrou em decadência, com tiragens diárias decrescentes.


O pessoal exalta muitas coisas do velho Jornal do Brasil, mas principalmente o projeto gráfico que, nas palavras do pessoal, “revolucionou” o formato do jornal no final da década de 1950, e que fez os outros jornais seguirem-no, e uma capa da edição do dia 14 de dezembro de 1968, dia seguinte ao decreto do AI-51, onde, entre coisas, falava do “clima sufocante” na previsão do tempo (e nisso pensava no “clima” político) , e lembrava que o dia anterior era o “dia dos cegos” (mas certamente não era com os deficientes visuais que o jornal estava preocupado naqueles dias).


Mas como diz o ditado, “aos amigos tudo, aos inimigos os rigores da lei”. Ninguém lembrou do envolvimento da família Britto Nascimento, então proprietários do jornal, na conspiração civil-militar que culminou no golpe militar que pôs fim ao regime constitucional do Brasil em 1964, depondo o presidente João Goulart2. Faz parte. O antigo Correio da Manhã, outro jornal carioca, clamou pelo golpe e saudou-o quando ele veio (o golpe). Posteriormente o Correio da Manhã acabou fechado por conta das pressões contra o jornal por parte do regime autoritário que fora antes invocado.


Mas, de fato, acho que é digno de lamentação que o velho jornal deixe de circular. A tendência é que ele fique ainda menos relevante, e muita gente venha a perder o emprego.


É difícil saber em que grau o surgimento da Internet e a má administração do jornal se combinaram para este fim.


E há aquela questão, os jornais estão sumindo, mas o que está assumindo seu papel, os sítios eletrônicos, não costumam ser agregadores como estes velhos diários.



14/07/2010.


jar

1O AI-5 é considerado, como “o golpe dentro do golpe” (civil-militar de 1964). Cassou o direito ao habeas-corpus, e deu poderes discricionários ao presidente da república, tais como cassar o mandato de parlamentares.

2Pelo que me lembro, é o que informa René Dreyfuss, em seu livro “1964, A Conquista do Estado”, publicado no início da década de 1980.

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quinta-feira, abril 01, 2010

Eleições 2010: O que você pode fazer para desconstruir o banditismo digital

Seguindo a boa política do Vi o Mundo de prestar consultoria gratuita em campanhas eleitorais, vamos abordar um pouco a atuação dos trolls na rede e como a bandidagem digital utiliza suas práticas para impregnar o debate político, atrapalhando o fluxo das boas idéias que podem elevar a discussão democrática no país.

O troll digital está sempre pronto para desestabilizar o debate. Seu único objetivo é confundir e impedir que uma discussão flua naturalmente, utilizando argumentos com baixa credibilidade e, ao final, apelando para a verborragia e ofensa. A tática do troll, quase sempre, é começar “testando hipóteses” para sentir a lista de discussão (ou comentários). Em época eleitoral, a prática é a mesma, muitas vezes remunerada, alterando somente o fim da ação para a ofensa a um candidato ou as idéias que este defende perante seu provável eleitorado.

O apelido troll, dado aos difamadores da rede, é baseado nas personagens do folclore escandinavo, conforme nos ensina a Wikipedia. São humanóides pouco inteligentes que não vivem em bandos, são agressivos e temidos pelo domínio da arte da ilusão.

Durante o processo eleitoral as atividades dos trolls profissionais vão além da interferência nos debates. Dentre suas atribuições momentâneas estão a redação de e-mails falsos atribuídos a jornalistas, a disseminação destes e-mails, a criação de perfis falsos em redes sociais e também a criação de perfis genéricos. Existe uma diferença entre o perfil fake (falso) e o genérico. O fake levanta a bola do debate, muita vezes reproduzindo o que outras pessoas enviam. O perfil genérico parece real, com dados pessoais que simulam um histórico de vida. Este é o avatar do troll.

Para você cidadão que preza o debate construtivo, que pretende nestas eleições discutir propostas, idéias e discordar até, inteligentemente, veja alguns itens que podem ajudar a combater o banditismo digital gratuito ou patrocinado. Prováveis candidatos que pretendem fazer campanha limpa, com plataforma de campanha, também podem utilizar as informações abaixo.

Investigação de e-mails falsos

Investigar os e-mails falsos é um trabalho fundamental durante uma campanha e pode ser realizado pela equipe do comitê ou por qualquer simpatizante. Diversos virais com informações falsas circulam na rede. É preciso mapear os principais, diariamente, investigar e soltar uma nota desmentindo a informação. É um trabalho profundo de apuração para identificar locais ou pessoas citadas nas mensagens e conseguir declarações de desmentidos, invalidando assim o rumor. O texto resposta deve ser liberado no site de campanha, nas redes sociais, lista de e-mails e boletins de campanha.

Como checar um e-mail falso usando a rede

É muito simples. Ao receber o e-mail pegue partes do texto, geralmente a manchete, ou palavras-chave, e faça uma busca nos indexadores de rede como o Google ou Yahoo. O referenciamento vai lhe dizer se a história é falsa ou não. Geralmente, em período eleitoral, textos antigos voltam a circular repaginados para as eleições. Até hoje, textos de 2000 atribuídos a jornalistas e escritores de grande influência são disseminados. Esta prática visa atingir eleitores desprevenidos, que não acompanham habitualmente a cobertura jornalística e que não conhecem as posições destes profissionais sobre determinados assuntos.Uma busca resolve o problema, indicando o desmentido dos jornalistas em seus próprios blogs ou sites das empresas em que atuam.

Os e-mails falsos chegam até você

Sem muito esforço o e-mail falso chega até você. Para isto é preciso sempre manter canais de comunicação abertos com a população, via conta institucional ou a checagem constante das redes sociais. O search do Twitter é essencial nesta localização. Canais abertos ajudam os aliados a enviarem denúncias falsas que devem ser investigadas e também permitir que os opositores entrem em contato com seus próprios e-mails de ataque. Não se iludam, isto sempre acontece e serve para saber quais os níveis de ataque e o que deve ser respondido. A conta de e-mail deve ter um filtro por assunto para catalogar os temas e acompanhar o que mais está circulando no dia.

Resposta por mail

Todos os mails devem ser respondidos, desde ataques ou elogios. A resposta sempre circula. Os mails de ataques não devem ser respondidos com mais ataques. A resposta deve ser com proposta de trabalho, nunca desqualificando quem ataca, mesmo que seja ataque pessoal. A resposta de ataque, enfurecida, pode servir de armadilha para que o opositor divulgue o candidado como destemperado.

Não repassar e-mail sem checar a informação

O que mais acontece na rede é a criação de boatos para desestabilizar campanhas/pessoas. É o famoso “ ouvi dizer”. Na rede ninguém está escondido. O candidato que se sentir ofendido por uma informação falsa pode realizar o rastreamento na rede para encontrar o provedor de onde partiram os ataques utilizando o IP (internet protocol) se estes estiverem disponíveis nas mensagens enviadas.

Tudo na internet tem identificação, via endereços de protocolo, os chamados IPs (Internet Protocol). Diversas ferramentas permitem chegar até o provedor de acesso, como o site “What’s my IP address” e, com decisão judicial, identificar quem repassou a mensagem. Por isso, quem pensa que está protegido atrás de um computador, está equivocado. Repassar mensagens falsas, além de trazer prejuízos para o próprio eleitor, pode prejudicar o honesto debate eleitoral na rede. Trolls profissionais podem se esconder na rede utilizando ferramentas como o Tor ou outras ferramentas. Veja aqui o post do @gutocarvalhoexplicando a privacidade na rede.

O tempo que se perde repassando uma mensagem falsa, tentando destruir a reputação de um candidato, pode ser utilizado para ajudar o seu próprio candidato a disseminar propostas de campanha, com os boletins, a argumentação coerente nas redes sociais e respondendo dúvidas dos eleitores indecisos.

É sempre importante denunciar para os próprios comitês que você apóia as mensagens falsas que estejam circulando para prejudicar o oponente. Assim, o seu candidato pode soltar alguma nota negando que a tal mensagem difamatória tenha saído do seu comitê. Lembrem-se que isso pode prejudicar a candidatura perante o TRE ou TSE, gerando multas ou até a impugnação da candidatura.

Toda e qualquer ofensa difamatória ao seu candidato, ou ofensas aos adversários atribuídas ao seu candidato, devem ser notificadas ao Tribunal Superior Eleitoral ou Tribunal Regional Eleitoral, seja por e-mail ou protocolando documentos nas sedes das entidades. O registro pode ajudar os tribunais a obter informações em qualquer denúncia de crime eleitoral para rastrear prováveis fraudadores.

Perfis falsos de políticos em redes sociais

O submundo da militância cria sempre perfis falsos em redes sociais para soltar informações virais na rede sobre um candidato. Alguém que não gosta de um político cria um perfil em nome dele para prejudicá-lo na campanha, acumulando seguidores para lançar informações incorretas ou mensagens difamatórias. Não se deve estimular que as pessoas sigam estes perfis, que ajudam a desestabilizar a discussão democrática. É preciso também denunciar aos comitês de campanha quando isto acontece.

Perfis genéricos para lançar dúvidas ideológicas

É comum também que os profissionais da militância de submundo criem perfis genéricos para atuar na rede, com uma prática muito simples: a de desqualificar ideologicamente o candidato subvertendo o que ele pensa perante grupos religiosos ou políticos. Ex: em 2006 diversas comunidades religiosas no Orkut, que eram contra o aborto, foram invadidas por estes perfis genéricos para entrar no debate e levar a impressão de que o presidente Lula era a favor do aborto. É público e notório que o presidente era, e é, contra o aborto. Estes perfis não entravam de forma raivosa no debate. Entravam de forma sútil, como um participante comum, estimulando idéias para depois inserir frases como: “pois é, por isso eu não voto no Lula, ele é a favor do aborto”. O raciocínio destes perfis genéricos é contar com a desinformação do eleitor, que muitas vezes não conhece a opinião de um candidato sobre diversos assuntos. Por isso, antes de tudo, é importante que o eleitor se informe sobre a opinião do seu candidato sobre assuntos polêmicos.

O candidato na web

Para quem deseja se candidatar a algum cargo público é preciso marcar presença na rede. Como? Criando perfis nas principais redes sociais para participar de comunidades. Redes sociais: Orkut, Twitter, Linkdin, Flickr (fotos) e Facebook. O candidato precisa se dedicar, em algum momento, a alimentar seu próprio perfil. Os usuários esperam sempre, nas redes sociais, que o cidadão do outro lado do perfil seja real e esteja presente incentivando o debate com propostas de campanha e soluções, gerando informações exclusivas para seus seguidores. Na impossibilidade do candidato não conseguir manter a interação, não adianta colocar um assessor para dar atenção ao público. Esta prática é facilmente identificada pelos usuários. O ideal nestes casos é criar um perfil da chapa para estimular o debate.

Comunidades no Orkut são sempre interessantes para debater e também para lançar informações de campanha para a base de eleitores e militantes. Ex: um texto de campanha pode ser imediatamente lançado na comunidade, que o replica em blogs e outras redes sociais.

Frequentar comunidades de candidatos concorrentes? Sim, desde que seja para se defender de ataques e debater com propostas. O candidato nunca deve cair em discurso de provocadores nas redes sociais, pois é isto que eles querem: a desmoralização diante do público. O candidato só deve responder questionamentos sérios, mesmo que divergentes das suas idéias.

Website

O website deve ser padrão, com todas as propostas, e em formato multimídia, com publicação imediata de textos, áudios, vídeos e fotos em sequência de blog. Os conteúdos são independentes e não precisam mais de conjugação entre si. Uma foto com legenda é um post, um vídeo, áudio, mesmo que isolados, é conteúdo que pode ser replicado em blogs. Isso tudo não impede que sejam feitos textos consolidados, mais parrudos de informação. Claro, podem existir, mas pensem nos conteúdos isolados para difusão.Usar licença Creative Commons para tudo é o mais adequado. O Copyright só restringe a difusão da informação uma vez que as pessoas perdem tempo para conseguir autorização e acabam desistindo de replicar, burocratizando o comitê. Quanto mais o conteúdo circular, melhor para o candidato. Se o cidadão tiver que ligar, mandar e-mail, passar fax ou enviar carta para pedir autorização de uso, ele desiste. A autorização deve estar embutida em toda a licença do site, afinal, tudo é público.

Boletim de campanha

Todos os dias deve sair um boletim de campanha do candidato, pela manhã ou a tarde. O ideal se possível é que saiam dois boletins. Conteúdo? Propostas de campanha em todas as áreas possíveis, eventualmente respondendo questionamentos dos opositores. Sempre propositivo, estimulando a base de militância em suas ações. O boletim deve ser produzido em formato jornalístico, com fotos, textos e infográficos explicativos, sempre pensando que o material pode ser impresso e distribuído por quem quiser. É material de campanha que deve ser distribuído por e-mail para o mailing de campanha e publicado imediatamente no site com recursos multímidia para enriquecer o conteúdo. Publique sempre versão em PDF dos boletins para download.


Reproduzido do Vi o Mundo.


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terça-feira, novembro 17, 2009

TV deixa de ser item mais importante entre os jovens

TV deixa de ser item mais importante entre os jovens

A TV, o eletrodoméstico de maior penetração no país, já não é considerado o item mais importante do dia a dia para a população jovem (de até 34 anos), segundo resultado de pesquisa feita pelo Ibope sobre hábitos de consumo de meios de comunicação.
Para a faixa etária de dez a 17 anos,o computador com acesso a internet é o aparelho mais relevante (com 82% no ranking de prioridade), seguido pela TV (65%) e telefone celular (60%). Dos 18 aos 24 nos, o líder do ranking passa a ser o telefone celular (78%), com computador ligado à rede (72%) e TV (69%) em sequência, o que tem pequenas diferenças em relação ao próximo grupo, dos 25 aos 34: celular (81%), TV (73%) e computador (65%). Na média geral da população, a TV fica na liderança da pesquisa, com77% de preferência.
Para Dora Câmara, diretora comercial do Ibope, os resultados também são explicados por um processo de convergência: quanto mais jovem a população, maior é a capacidade de acomodar os meios de comunicação de forma simultânea.
"Metade dos jovens de 12 a 19 anos costuma acessar a internet enquanto veem TV ou ouvem rádio", diz.
Apesar disso, 82% dos 800 entrevistados preferem consumir um meio de cada vez. Dora brinca que, apesar da evolução dos meios, "o homem ainda é versão 1.0", o que de certa forma explica essa preferência. "Estamos cada vez mais midiáticos, mas isso não significa que abandonaremos os meios mais antigos. Apenas incorporamos os novos em nossa rotina", diz Dora.


Trecho da coluna Toda Mídia, na Folha de São Paulo, de 26 de outubro de 2009.


As emissoras de TV deveriam ficar preocupadas.


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quarta-feira, setembro 09, 2009

Yes, você pode. Quer?

Yes, você pode. Quer?

SÃO PAULO - O jornal espanhol "El País" revisitou ontem Rahaf Harfoush, a moça canadense que foi uma das estrategistas da campanha na internet de Barack Obama, tida como a razão do sucesso.
Suas observações são um valioso guia para os incontáveis leitores que reclamam por e-mail dos congressistas e pedem sugestões sobre como atuar para acabar com a pouca-vergonha.
Harfoush ensina, primeiro, que "o importante é a estratégia, não a tecnologia". Acrescenta que "é fácil criar perfis, fazer amigos no Facebook ou ter blogs". Mas "o objetivo era que as pessoas saíssem às ruas e votassem. Se todo esse esforço na rede não se tivesse traduzido em votos, não teria valido de nada".
É o que já escrevi aqui e digo sempre aos leitores: restringir protestos e ações à internet pode ser uma excelente maneira de acalmar a própria consciência e de sentir-se participante ativo, mas, como diz a perita da turma de Obama, "não vale nada".
No caso brasileiro, o que vale é convencer os eleitores a não votar em todos aqueles que, a juízo de cada leitor/eleitor, participam da grande esculhambação.
Não adianta também ficar no velho esquema de "nós com nós mesmos", uma característica da internet. Ou, em linguagem mais fina, pregar aos convertidos. É preciso inventar e, acima de tudo, pôr em prática um meio de atingir os eleitores dos políticos visados, a grande maioria dos quais não frequenta internet, Facebook, Orkut.
Para fazer a campanha de Obama, Harfoush diz ter largado tudo -namorado, apartamento e emprego- para mudar-se para Chicago, que não é exatamente a mais agradável cidade do mundo, mas era o QG do candidato.
Não recomendo a ninguém tanto sacrifício, mas, se a indignação que exalam nos e-mails é para valer, no mínimo terão que tirar o bumbum do sofá.

Texto de Clóvis Rossi, na Folha de São Paulo, de 14 de agosto de 2009.

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terça-feira, setembro 01, 2009

Novo Jornalismo

NOVO JORNALISMO

Zarpou da Califórnia com destino a uma zona de calmaria ao norte do Havaí um navio com a equipe do projeto Kaisei. Eles vão em busca do "Lençol de Lixo do Pacífico" uma área do tamanho do Estado do Amazonas, transformada em depósito de sujeira flutuante pelas correntes marítimas.
Na equipe viaja a repórter Lindsey Hoshaw, uma moça formada por Stanford que organizou um projeto de cobertura, colocou-o no sítio Spot.Us e pediu ajuda. Conseguiu US$ 6.000. O "New York Times" entrou no lance, oferecendo cerca de US$ 700 caso decida comprar fotografias. Se publicar um texto, pagará mais. Também aderiram os fundadores do eBay e da CraigList, um megaportal de anúncios classificados.
O Spot.Us expõe projetos de reportagens relacionados com a área e os interesses de San Francisco. Aceita doações individuais que raramente chegam a cem dólares e devolve o dinheiro se o serviço não é entregue. Salvo no caso de empresas jornalísticas, não recebe cheques com valor superior a 20% do valor do projeto.

O texto é parte da coluna de Elio Gaspari na Folha de São Paulo, de 9 de agosto de 2009.

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terça-feira, agosto 18, 2009

Mudanças nos nomes de domínio

Mudança nos domínios virtuais coloca em jogo maneira como usamos a internet hoje

Maija Palmer e Richard Waters

Algumas semanas atrás, Sarah Deutsch recebeu um telefonema típico. A advogada-associada da Verizon falou com um amigo advogado que lhe informou que alguém estava vendendo o endereço na Internet "Verizonwirelessstorm.com" na eBay por US$ 1 milhão. Para Deutsch e sua equipe de cinco advogados especializados em marcas registradas, isso iniciou mais um cansativo processo de tentar localizar o vendedor e recuperar o nome da web.

"Recebemos relatos de milhares de violações diárias, e é difícil priorizar os que vamos procurar", ela diz.

A Verizon, uma grande operadora de telecomunicações dos EUA, possui um portfólio de 10 mil nomes de domínio, desde o evidente verizon.com até erros de grafia como verison.com e nomes como verizonsucks.com, que eles preferem manter fora das mãos de pessoas mal-intencionadas ou concorrentes. Isso é típico das grandes companhias. A Microsoft, por exemplo, possui mais de 24 mil nomes de domínio.

O trabalho de Deutsch vai ficar muito mais difícil. Na próxima primavera, a Corporação da Internet para Atribuição de Nomes e Números (Internet Corporation for Assigned Names and Numbers, ou Icann) - o órgão que dirige as operações cotidianas da web - pretende permitir uma drástica expansão dos 268 domínios de "alto nível", ou seja, qualquer coisa que venha depois do ponto. Atualmente estes vão dos genéricos ".com" ou ".org" até os específicos de países, como ".uk" ou ".br". Mas o órgão baseado nos EUA agora pretende abrir as comportas e deixar qualquer um registrar um novo domínio de alto nível - desde que pague os US$ 186 mil (cerca de R$ 380 mil) de taxa de registro. A Icann estima que haverá cerca de 500 novos domínios, variando do específico de pessoas ou empresas (".verizon") até o genérico (".livros").

Essa abertura da Internet representa uma das maiores mudanças já vistas na estrutura da rede mundial de comunicação. Suas implicações são complexas e controversas - e se estenderão muito além das preocupações das empresas comerciais que veem a web como pouco mais que um shopping center virtual global.

Um representante do papa, por exemplo, escreveu para a Icann preocupado sobre como garantir que domínios religiosos delicados - como ".católico", ".muçulmano" ou mesmo ".deus" - não caiam nas mãos erradas.

Enquanto isso, grupos de interesse público temem que as mudanças marquem uma redefinição mais geral das regras da Internet, que poderá fazer a livre expressão ser suplantada por interesses comerciais.

Essas preocupações, por sua vez, provocaram novas perguntas sobre a estrutura e a governança da Internet - uma questão que nunca esteve muito abaixo da superfície nos últimos anos. A Icann, uma corporação sem fins lucrativos que em última instância ainda responde ao Departamento (Ministério) do Comércio dos EUA, já enfrentou desafios sobre sua organização, notadamente uma tentativa europeia de colocá-la sob o controle da ONU.

A próxima expansão do sistema de nomes da Internet é uma parte central da tentativa da Icann de provar que realmente opera no interesse de um público global em rápido crescimento. O alfabeto romano, por exemplo, ainda domina o sistema de nomes da Internet, mas o maior público da rede hoje é o chinês. Os países árabes também se irritaram com a longa demora das tentativas da Icann de encontrar um sistema adequado para suas necessidades.

Se a Icann não conseguir agradar a esses grupos de interesse, as consequências poderão ser severas. Entender a coisa errada poderia levar a cismas sobre o sistema de nomes da Internet - na verdade levando a uma fragmentação que transformará a mídia online global em uma série de sistemas separados.

Com a próxima conclusão dos anos de trabalho para se criar um novo sistema de nomes, são as grandes corporações que vêm fazendo mais ruído.

Os custos e os riscos para qualquer grande empresa que faça negócios na Internet são consideráveis. Embora alguns nomes de domínio possam ser registrados por poucos dólares, se eles já forem propriedade de alguém poderá custar cerca de US$ 2 mil comprá-los de volta. Se a propriedade for discutida em um tribunal, os custos serão consideravelmente mais altos.

Mas os grandes anunciantes como a Verizon não podem ignorar os oportunistas - chamados de "cybersquatters", ou "ciberinvasores" - que registram variações de sua marca na rede. Além de confundir as pessoas, sites falsos podem prejudicar a marca de uma companhia aos olhos de seus clientes. A Verizon estima que pelo menos 9 milhões de clientes poderiam ter sido atraídos para sites falsos, se ela não lutasse para recuperar o controle.

Em consequência, os donos de grandes marcas estão tentando garantir que a Icann tenha procedimentos que protegerão seus direitos quando o ataque começar - maneiras de fazer que os sites que infringirem marcas sejam fechados rapidamente, por exemplo.

No entanto, esses procedimentos estão se mostrando controversos com outras partes da comunidade da Internet, como grupos não-comerciais preocupados que possam sufocar a livre expressão online.

"No Irã os manifestantes puderam se comunicar com o mundo exterior por causa de servidores proxy [substitutos] que lhes permitiram continuar anônimos. Mas há grupos dentro da Icann trabalhando para evitar os servidores proxy anônimos porque eles podem interferir com marcas registradas", diz Robin Gross, da IP Justice, uma organização internacional de liberdades civis.

Enquanto as tensões estão altas, poucos discutem que abrir o sistema de nomes é um passo necessário para criar uma base mais duradoura para a Internet, que beneficiará centenas de milhões de usuários.

Fãs da expansão dos domínios dizem que isso poderá facilitar a navegação. Procurar por "encanador.londres" poderá supostamente dar uma indicação mais clara do que é e onde fica uma empresa do que as muitas variações de "A1encanadores.com".

"Gastamos muito tempo e dinheiro tentando conduzir as pessoas para os sites. Qualquer coisa que torne mais fácil encontrar as coisas na web é bom", disse Tom Eslinger, da agência de publicidade Saatchi & Saatchi.

Outros acrescentam que o alto custo do novo sistema de nomes vai diminuir com o tempo. Nick Wood, da Com Laude, uma empresa de administração de nomes de domínio que trabalha para clientes multinacionais como Nestlé e AstraZeneca, diz que as taxas poderão ser inicialmente altas, mas "inevitavelmente" cairão.

"Quando os domínios .com começaram a ser vendidos, em 1994, custavam US$ 200. Hoje podem ser registrados por US$ 6. Isso acontecerá para os domínios de alto nível. Quando um registro cair para US$ 18 mil ou US$ 9 mil, muitas companhias vão se candidatar", ele diz, acrescentando que já sabe de 54 companhias do Reino Unido e do norte da Europa que estão interessadas em registrar seu próprio nome de domínio.

Mas os esforços de última hora de grandes corporações para garantir que o novo sistema de nomes proteja seus interesses provocaram uma reação mais ampla, expondo as profundas tensões dentro da Icann.

Uma recente reunião da Icann em Sydney (Austrália) chegou a um conflito frontal sobre a questão.

"Foi um ambiente muito hostil - mesmo para uma reunião da Icann, que geralmente é um ambiente hostil para proprietários e representantes [de propriedade intelectual]. Havia pessoas gritando para nós, dizendo que éramos tiranos, e blogs nos comparando com Ahmadinejad", disse Kristina Rosette, da firma de advocacia Covington & Burling, que estava envolvida em esboçar recomendações para a Icann sobre proteção de marcas quando os novos nomes de domínios forem lançados.

Hoje muito depende de Rod Beckstrom, o novo executivo-chefe da Icann. Um ex-czar da ciber-segurança no Departamento de Segurança Interna dos EUA, Beckstrom se esforça para manter uma posição neutra em seus primeiros dias no cargo - mas seus comentários pouco serviram para acalmar os temores das corporações.

"Você pode olhar para os donos de domínios de muitas maneiras. Alguns os veem como 'cibersquatters', alguns como empreendedores. Eu acho que existe um rico e saudável debate a ser feito", ele diz, acrescentando: "Não há solução em que todo mundo ganhe o que quer".

Os donos de marcas registradas temem que esses comentários mostrem que Beckstrom não está escutando suas preocupações.

"Existe definitivamente um potencial para um impasse entre a Icann e os donos de marcas", diz Rosette, que descreve as declarações de Beckstrom como "desconcertantes". Se a Icann não demonstrar que realmente pretende evitar a violação de marcas registradas, os dois lados poderão acabar no tribunal, ela adverte.

"Não é segredo que há donos de marcas registradas que adorariam processar a Icann por infração."

Grupos de interesse público, por outro lado, também advertem que uma divisão prejudicial pode estar à frente. "Se usuários não-comerciais sentirem que nossas vozes não estão sendo ouvidas nas reuniões, não conseguiremos que as pessoas participem da Icann."

Afinal, o perigo para a Icann - e para os internautas de todo o mundo - é que essas tensões possam destruir o delicado consenso em que se baseia o diretório global da internet. Se a Icann perder a confiança de países afiliados ao seu sistema, poderá levar ao surgimento de sistemas de nomes rivais, rompendo o mundo online em uma série de redes fragmentadas.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Notícia do Financial Times, no UOL.

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sábado, maio 16, 2009

Web "mata" correspondente estrangeiro

Web "mata" correspondente estrangeiro

Distraído pela internet, repórter pode deixar de testemunhar

ANAND GIRIDHARDAS

VERLA, Índia - É uma mudança importante no mundo: os correspondentes estrangeiros não cobrem mais um lugar para benefício exclusivo de seus leitores alhures. Na era da internet, cobrimos cada lugar em benefício de todos os lugares, e os "reportados" estão entre os mais ávidos consumidores daquilo que reportamos.
Segundo dados do serviço Google Trends, as frases "new york times india" e "washington post india" são pesquisadas oito vezes mais na Índia do que nos EUA, proporcionalmente ao total de buscas em cada país. Analogamente, "new york times china" é uma frase mais intensamente pesquisada em Pequim do que em Nova York.
A dinâmica se aplica a países de Brasil a Rússia. E o livro "O Mundo É Plano", em que Thomas Friedman cita a transformação de Bangalore para explicar o mundo do século 21, é procurado com mais regularidade na Índia do que nos EUA. A internet permite, em quase todos os lugares, ver como o mundo exterior nos vê, em tempo real.
Liguei para Roger Cohen, veterano correspondente, hoje colunista do "New York Times", para saber a respeito de um mundo em extinção.
Cohen começou na agência Reuters em 1979, época em que os correspondentes vagavam durante dias; os editores não sabiam onde eles estavam, e não havia como localizá-los.
Seu trabalho lentamente se filtrava nas discussões de Washington ou Paris, e ajudava a informar o debate; na época, naturalmente, isso poderia voltar aos países cobertos. Alguns jornais, inclusive o "New York Times", vendiam pequenas tiragens de edições internacionais em dezenas de cidades estrangeiras. Emigrantes recortavam artigos para parentes no antigo país. Governos monitoravam a cobertura da imprensa estrangeira.
Mas as vastas populações sobre as quais os correspondentes estrangeiros escreviam em geral permaneciam alheias ao que estava sendo dito delas. E, mesmo que soubessem, não era fácil responder, exceto por cartas às sedes dos jornais, as quais, pelo que contam os correspondentes, quase nunca chegavam às sucursais.
Comecei 26 anos depois de Cohen, e a minha geração de correspondentes nunca sentirá falta de retorno. A edição on-line do jornal está disponível em quase todos os lugares. Pessoas em países distantes nos leem como qualquer outro jornal. Outros chegam até os nossos sites por meio de mecanismos de busca.
Então os "reportados" sabem o que estamos dizendo. Comentam nosso trabalho em seu blog ou no Facebook; acham nosso e-mail com alguns toques no teclado; apontam erros pelo site. Pela minha experiência como correspondente na Índia, a maior parte dessa atividade vem de dentro do país. A cobertura está disponível universalmente, mas é acompanhada com mais paixão pelos que estão sendo cobertos.
Os leitores "daqui" são melhores vigilantes do que os leitores "de lá". Eles notam erros que um editor ocidental não notaria. E também freiam o impulso de fazermos relatos "exóticos". Certas lentes para ver um país vendem bem no exterior: a pobreza da Índia; a repressão na China. Mas um batalhão de blogueiros está ansioso por apontar o que for óbvio e banal, e nos mantêm em alerta.
Peter Foster, correspondente em Pequim do "Telegraph", de Londres, escreveu num e-mail que o seu blog "abriu uma inestimável discussão/diálogo com os leitores", mas que ele também nota altos níveis de nacionalismo e "sarcasmo" nessas respostas.
Luke Harding, chefe da sucursal de Moscou do jornal britânico "The Guardian", sugeriu que o sarcasmo provocado pela sua cobertura da guerra do ano passado na Geórgia parecia organizado. "Suspeito -mas não posso provar- que haja atualmente um novo quadro de blogueiros profissionais trabalhando anonimamente para o Kremlin, e presumivelmente para outros governos", escreveu ele num e-mail.
Além do mais, há uma tradição de as fontes dizerem a correspondentes estrangeiros aquilo que não diriam a um jornalista ou funcionário local. Frequentemente é assim que um registro histórico sobre guerras e genocídios é montado: por pessoas sussurrando no ouvido de alguém que irá logo embora. Os sussurros podem minguar na era da web.
Na década de 1990, Cohen narrou, pessoalmente, os horrores que acompanhavam a dissolução da Iugoslávia. Hoje, correspondentes que fazem tal trabalho podem ver seu tempo interrompido pela profusão de opiniões e imagens on-line, e do uso do Twitter no local, que se multiplica e exige atenção. Mas ficar a par do bochicho da internet não é a mesma coisa que ouvir um testemunho. "Em vez de olhar para uma aldeia ou morro bósnio, ou de estar numa sala com um grupo de sobreviventes de campo de concentração, você teria estado simplesmente olhando para uma tela", disse Cohen. "Não lamento nem um pouco que isso não existisse na época", acrescentou.

Texto do The New York Times, republicado na Folha de São Paulo, de 11 de maio de 2009.


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