sábado, setembro 04, 2010

ONU documenta banho de sangue no Congo

ONU documenta banho de sangue no Congo


Mulheres e meninas foram estupradas. Homens foram massacrados. Refugiados foram assassinados com facões e paus. Um novo relatório da ONU descreve uma orgia de violência no Congo entre 1993 e 2003, documentando meticulosamente como a lei e a humanidade foram abandonadas. Ele também acusa Ruanda de atrocidades no Congo – algo que não foi bem recebido em Kigali.


O relatório tem mais de 500 páginas. É uma das investigações mais completas de crimes de guerra na história da ONU. Apesar de ainda não ter sido publicado, causou tensões diplomáticas sérias em Nova York, Congo e Ruanda.


Duas dúzias de inspetores examinaram meticulosamente os assassinatos em massa na República Democrática do Congo, entre 1993 e 2003. Eles avaliaram relatórios, assistiram vídeos e entrevistaram milhares de testemunhas. Eles conferiram tudo que foi considerado significativo. Uma prévia do relatório já vazou e documenta o horror.


Os investigadores descrevem como, por anos, grupos rebeldes patrocinados por Ruanda caçaram, torturaram e massacraram refugiados hutus no Congo, ou Zaire, como era chamado na época. Escolas, hospitais, campos de refugiados, crianças, mulheres, idosos – nada nem ninguém estava seguro das gangues assassinas dos dois lados. De forma alguma, os perseguidores de Ruanda eram os únicos a perpetrarem os crimes. O relatório descreve o enorme país como corrupto e podre, um lugar onde direitos humanos, justiça e valores humanitários perderam seu valor décadas atrás.


Conflitos étnicos pelo Congo


O declínio do país começou muito antes da Primeira Guerra do Congo de 1996 a 1998 e a derrubada e exílio do ex-ditador Mobutu Sese Seko, em 1997. No final de 1991, os congoleses da província rica em cobre de Katanga, no sul do país, começaram a perseguir, remover e matar pessoas que tinham migrado da região de Kasai. O conflito foi alimentado por Mobutu, que se sentiu ameaçado por muitos políticos de oposição de Kasai.


Comerciantes de Kasai tiveram o acesso negado aos mercados em Katanga, suas propriedades foram roubadas e eles foram perseguidos. No final do outono de 1992, cerca de metade dos moradores da cidade de Likasi, em Katanga, foram forçadas a sair, 60.000 pessoas no total. Migrantes de Kasai também foram expulsos da cidade mineira de Kolwezi, com a ajuda da polícia e autoridades locais.


As mesmas arbitrariedades ocorreram em outras províncias, algumas vezes promovidas pelos governadores. Conflitos entre grupos étnicos diferentes levaram à morte de mais de mil pessoas só em Katanga, algo que mal foi registrado na Europa ou nos EUA. Os conflitos logo se espalharam para a capital Kinshasa, onde Mobutu estava tentando com todas suas forças se segurar no poder. Migrantes de Kasai foram as principais vítimas, mas oponentes políticos também temeram por suas vidas.


Enquanto isso, em meados de 1990, no leste do país, rico em recursos, começou uma agitação contra os imigrantes tutsis de Ruanda e Burundi. Na província de Kivu do Norte, banyamasisi-tutsis já tinham sido vítimas de remoção forçada. Agora, a pressão estava crescendo contra os banyamasisi-tutsis em Kivu do Sul. Essa pressão aumentou porque, dois anos antes, milhões de refugiados de Ruanda, primariamente hutus, tinham fugido para o leste do Congo. Eram uma mistura de soldados e civis, assassinos e crianças, e todos tinham deixado Ruanda com medo dos tutsis vitoriosos e seu líder militar Paul Kagame buscarem vingança após o genocídio de 1994, quando 800.000 tutsis e hutus moderados foram assassinados por extremistas hutus em apenas 100 dias.


Assassinatos sistemáticos


Muitos se reorganizaram em campos de refugiados ao longo da fronteira e depois começaram a caçar os tutsis que vinham se estabelecendo no Congo por décadas. No final de setembro de 1996, os assassinatos sistemáticos de banyamasisi-tutsis começaram. O relatório da ONU os descreve em detalhes:


. No dia 29 de setembro de 1996, em Lueba, 78 km ao sul de Ivira, unidades do grupo étnico bembe mataram 152 civis banyamulenge, inclusive muitas mulheres e crianças, com a ajuda do exército do Zaire. Algumas das vítimas foram mortas por golpes de facão, outras foram queimadas em suas casas. Houve estupro em massa de mulheres e meninas.


. Neste momento, em Kivu do Norte, havia um inferno na Terra. Centenas de milhares de pessoas fugiam de suas casas. Milicianos tutsis e soldados de Ruanda invadiram campos de refugiados ao longo da estrada principal entre Goma e Rutshuru. Homens foram amarrados e mortos, mulheres violentadas, crianças surradas até a morte.


. Na noite do dia 29 de setembro e manhã do dia 30, unidades bembe mataram quase 100 civis banyamulenge perto da aldeia de Moboko. As vítimas eram sobreviventes do massacre de Lueba, ocorrido horas antes. Os milicianos disseram que iam levá-los de volta para Ruanda. Entretanto, enquanto as mulheres e crianças puderam deixar o país, os homens foram amarrados e jogados no lago Tanganica.


. No dia 21 de outubro, um banyamulenge foi morto em Uvira e sua cabeça foi carregada em um bastão pela cidade. Os perpetradores fizeram e usaram um colar com seus testículos.


. O chefe das forças armadas do Zaire acusou os banyamulenges, no dia 11 de outubro de 1996, de trabalharem com Ruanda para travar uma guerra contra o Zaire. O anúncio foi uma declaração oficial de caça aberta aos tutsis. Então, tutsis e banyamulenges, apoiados por soldados de Ruanda, começaram a avançar para o Congo, usando métodos igualmente brutais. Eles montaram bloqueios nas estradas e separaram os ruandeses e hutus de Burundi da multidão de refugiados. Centenas de hutus foram mortos ali mesmo, milhares de outros foram selecionados, aparentemente para serem enviados para Ruanda, mas foram assassinados ali perto.


. No dia 22 de novembro de 1996, centenas de refugiados foram amontoados no campo de Chimanga, a 71 km a oeste de Bukavu. Uma vaca foi morta, teoricamente para que tivessem forças para a longa marcha de volta para Ruanda. Quando os hutus começaram a se inscrever, os guardas em torno do campo abriram fogo, matando cerca de 500 a 800 refugiados.


. Na ponte de Ulindi, perto da cidade de Shabunda, os tutsis mataram 500 refugiados no dia 5 de fevereiro de 1997. O povo local teve que remover os corpos e restos da matança na ponte.


O relatório descreve sobriamente mais de 600 incidentes similares e para cada caso há testemunhas e provas. Os investigadores não se fiaram em boatos.


O relatório afirma que as pessoas foram “executadas às centenas, muitas vezes com armas pontiagudas”. Ele afirma que “a maioria das vítimas eram crianças, mulheres, idosos e doentes... que não impunham ameaça alguma às forças que os atacavam”. O relatório prossegue dizendo que “os ataques sistemáticos e amplos têm uma série de elementos agravantes, que provados diante de um tribunal, seriam classificados como crimes de genocídio”.


Não foram apenas os tutsis que colocaram de lado todos os padrões de humanidade em sua guerra de vingança contra os hutus no Congo. Os congoleses não se tratavam muito melhor. O relatório fornece evidências disso.


Quando os conflitos entre os povos hema e lendu escalaram na província de Ituri, em fevereiro de 2003, os hemas convidaram uma delegação lendu para conversas na aldeia de Sangi. O grupo lendu, que incluía mulheres, mal tinha chegado quando os hemas os atacaram com facões, facas e porretes. Alguns foram amarrados e assassinados na igreja local. Somente dois lendus sobreviveram. Os conflitos entre esses grupos étnicos também são detalhadamente documentados no relatório da ONU.


Ruanda ameaça retirar-se de missões da ONU


A versão oficial do relatório será divulgada em poucos dias, mas as primeiras reações às notícias da mídia, em Ruanda em particular, causaram grande inquietação. O governo de Kagame negou expressamente ter tomado parte em crimes que podem ser comparados a genocídios no Congo. Nos últimos meses, o governo até tentou impedir a publicação do relatório, ou ao menos mitigá-lo um pouco.


A ministra de relações exteriores, Louise Mushikiwabo, escreveu uma carta ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, na qual ameaçou terminar o envolvimento de Ruanda com a ONU e disse em particular que ia retirar tropas de paz de Ruanda de missões da ONU, por exemplo, na região de crise sudanesa em Darfur. E o porta voz do governo em Kigali disse que seria “imoral e inaceitável” para a ONU, “uma organização que não conseguiu impedir o genocídio em Ruanda”, agora acusar “o exército que impediu esse genocídio de cometer atrocidades na República Democrática do Congo”.


Ainda assim, Ruanda e sua história estão inextricavelmente ligadas com décadas de banho de sangue no Congo. Isso ficou novamente claro no início de agosto. Membros da milícia hutu de Ruanda, Fdlr, violentaram ao menos 179 mulheres perto de Walikale no Congo. As vítimas disseram que tinham sido estupradas entre duas e seis vezes cada uma. A violência tenebrosa continuou por vários dias.


Tradução: Deborah Weinberg



Notícia da Der Spiegel, republicada no UOL.


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segunda-feira, abril 12, 2010

Total de homicídios cresce 12% no 1º trimestre em SP

São Paulo - Depois de dez anos de queda ininterrupta, os homicídios voltaram a crescer no primeiro trimestre deste ano na capital paulista. Foram registrados 353 assassinatos nos três primeiros meses do ano, enquanto no mesmo período do ano passado ocorreram 315 mortes. O aumento é de 12%, segundo os dados do Infocrim, sistema eletrônico de informação da Secretaria de Segurança Pública, obtidos com exclusividade pelo jornal O Estado de S. Paulo.

Longe de ser um fenômeno localizado, os assassinatos cresceram de forma homogênea em toda a capital. Houve registro de aumentos nas oito seccionais de polícia, nas zonas central, sul, oeste, norte, leste, Santo Amaro, Itaquera e São Mateus.

Na zona norte, por exemplo, a média mensal do primeiro trimestre foi 18% acima da média dos meses de 2009. A 6.ª Seccional, que engloba a região de Santo Amaro, teve 82 homicídios em três meses, uma média de 27,3 por mês, o que significa aumento de 13% em relação ao mesmo período do ano passado.

PM

Em uma tendência que vem se consolidando desde março do ano passado, os casos de resistência seguida de morte - homicídios em que a vítima morre em supostos tiroteios com a Polícia Militar (PM) - voltaram a crescer nos dois primeiros meses deste ano no Estado de São Paulo. Em janeiro e fevereiro foram 140 ocorrências, 52% acima do verificado no mesmo período do ano passado, quando ocorreram 92 casos.

Desse total, 114 pessoas morreram em casos envolvendo policiais militares em serviço, enquanto 26 pessoas morreram em ocorrências com policiais em folga. Nos dois primeiros meses do ano, também cresceu o total de policiais militares mortos. Onze homens morreram no bimestre - sete deles fora do horário do expediente. Durante o mesmo período do ano passado, sete policiais morreram - cinco deles durante a folga.

O aumento da letalidade ocorre apesar de o comando da PM ter tomado iniciativa para diminuir essas ocorrências, com reforço de treinamento e técnicas não letais de enfrentamento; investigação dos casos de resistência pela Corregedoria; análise psicológica daqueles que se envolvem em tiroteios e investimento em equipamentos não letais, como cassetete, munição de borracha e armas de paralisação por descarga elétrica. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.


Notícia da Agência Estado, republicada no UOL.


Então é bom notar: são 353 homicídios contabilizados no estado São Paulo, mas 140 destes homicídios foram, digamos, executados por policiais. Assim, podemos contabilizar em 213 os homicídios perpetrados por criminosos.


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quinta-feira, abril 01, 2010

A tortura por herança

Herança deixada para os mais pobres

Maria Inês Nassif
01/04/2010

A história é um processo, mas em alguns períodos os sobreviventes de um tempo conseguem perceber quase na pele que vivem um momento em que uma página é virada e outra se inicia. Nessas ocasiões, a impressão é a de que cada um de um vasto número de incógnitos atores sociais conseguiu imprimir a sua assinatura num capítulo da história e que os dias, meses e anos passaram a andar porque foram movidos por uma vontade coletiva. São momentos de explosão social de emoção indescritível e, quando eles acontecem, os consensos formados no tecido social têm conteúdo positivo – a construção do novo. Embora sejam situações que exijam a coragem coletiva da mudança, e isso sujeita a sofrimentos, elas trazem junto a alegria da superação. Não apenas uma superação pessoal, mas coletiva.

O golpe de 1964 completou 46 anos ontem. Há 25 anos, o país passou por um momento histórico de superação. O país, que vivera a quebra da ordem institucional com relativa indiferença, do ponto de vista da maioria não engajada partidariamente; que assistira a um início de resistência de massa nos movimentos populares de 68; que caíra novamente na letargia no período do milagre econômico e de feroz repressão do governo Médici; que lutou com dificuldade no governo Geisel, aquele presidente que manobrou maiorias parlamentares, aumentou a lista de desaparecidos políticos e interviu no Judiciário – esse país chegou ao governo Figueiredo tecendo consensos. A redemocratização foi um consenso; a anistia foi uma convicção coletiva; a luta pelas eleições diretas ganhou as ruas. O primeiro presidente civil não foi eleito pelo voto direto, mas certamente assumiu porque o fim do regime militar tornou-se uma explosão de consenso: se Tancredo Neves foi o escolhido pelo Colégio Eleitoral numa transição negociada com os militares, ele também foi ungido pelo consenso das ruas.

Esses momentos, todavia, são o limiar de um tempo. Embora tragam uma intenção construtiva, são capazes exclusivamente de operar a mudança da página. Não trazem, em si, a energia da superação que transforma. As letras que carregam das páginas da história passada apenas são efetivamente reescritas no momento em que, já virada a folha, se opera a reflexão, letra por letra, das páginas anteriores. É a única forma de conseguir que as folhas seguintes se livrem da sombra do passado.

Os governos pós-ditadura, na revisão do passado, andaram um tanto que impede acusá-los de não andar nada, mas andaram tão pouco que deixaram por escrever as páginas anteriores, que permanecem nas sombras. A Comissão da Memória e da Verdade, que tanto assombra os militares, é um exemplo. Não consegue sair do papel; como não sai, não reescreve o passado; como não reescreve o passado, não vira a página para o futuro. A reivindicação de decortinar as circunstâncias da morte e desaparecimento político dos adversários do regime militar e apontar os torturadores que operaram a máquina repressiva da ditadura não é um mórbido desejo de sobreviventes e familiares de recontar sofrimentos. É coragem de expor feridas para que outras não sejam abertas.

A recusa em mexer no lixo da repressão da ditadura cobra seu preço. A conta está nas delegacias de polícia, nos presídios e nos centros de detenção de menores. Está nas favelas, onde o crime incorporou a prática como punição, amedrontamento e técnica de interrogatório. Segundo relatório da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados oferecido como subsídio à missão oficial da ONU, em 2001, a tortura é “o principal mecanismo de investigação policial” no Brasil; “é largamente aplicada como meio de pressão e imposição de disciplina em presídios e em centros de cumprimento de medidas socioeducativas para adolescentes”. O relatório de 2005 traz uma análise de casos de tortura e crimes correlatos no banco de dados do SOS Tortura. De 1.863 dos casos coletados entre 31 de outubro de 2001 até 31 de janeiro de 2004 (que estão longe de representar a totalidade dos casos ocorridos no período), São Paulo foi responsável por 306 deles; Minas, por 283; Pará, por 168; Bahia, por 145; Rio de Janeiro, por 96; Distrito Federal; por 82; Maranhão, por 74, entre outros. Segundo a pesquisa, 40% desses casos aconteceram em delegacias de polícia e 21% em unidades prisionais. Segundo as vítimas, 38% dos casos de torturas foram operados como castigos e 33% para obtenção de informações.

A seccional da OAB do Estado do Maranhão acaba de entregar às autoridades uma lista com 43 pessoas mortas em presídios e delegacias do Maranhão desde 2008 e denúncias de torturas contra presos. O Espírito Santo foi denunciado na 13ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU pelas violações que ocorrem em seu sistema prisional.

Hoje, as principais vítimas de torturas e de violações de direitos dentro do aparelho policial e no sistema prisional são pessoas pobres; sofrerão mais abusos, tanto no sistema como fora dele, impostas pelo representante do Estado ou por aqueles que “substituem” sua autoridade pela força nas comunidades carentes, quanto mais pobres forem, e serão mais atingidos, entre os pobres, os negros.

A ditadura acabou; a tortura, não. Ela está impregnada no aparelho policial porque a história de superação da ditadura não a superou: protegeu-a sob o manto de um pseudo-esquecimento. Esse legado da ditadura a sociedade brasileira transferiu para as classes mais pobres, que estão pagando a conta.

Texto do Valor Online, mas visto no blog do Luís Nassif.


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quinta-feira, março 18, 2010

Cresce a violência urbana em Caracas

Violência em Caracas explode depois de 11 anos de chavismo

Só neste fim de semana, 67 pessoas foram assassinadas na capital venezuelana

Número é o mais alto do ano; em 2009, houve 140 homicídios por 100 mil habitantes, segundo uma estimativa independente


FABIANO MAISONNAVE
DE CARACAS

Há três semanas, a advogada Joaquina Alsina, 53, e sua filha, Oriana, 20, foram encontradas queimadas e baleadas depois de serem sequestradas num bairro de classe média de Caracas. Dias depois, três membros da Polícia Metropolitana, controlada pelo Ministério do Interior, foram presos após manter uma mulher em cativeiro dentro de uma delegacia de polícia.
Esses foram os casos de maior repercussão do recente aumento da criminalidade na capital venezuelana, que acaba de atravessar o fim de semana mais violento do ano. Entre a última sexta à noite e a madrugada de segunda, foram 67 assassinatos, entre ajustes de contas, balas perdidas e latrocínios -um camelô foi assassinado por não entregar os sapatos e o celular.
Estatísticas extraoficiais divulgadas na semana passada pelo OVV (Observatório Venezuelano da Violência) mostram que Caracas registrou 140 assassinatos por 100 mil habitantes no ano passado.
No mesmo período, ocorreram 16.047 homicídios na Venezuela, 3,5 vezes mais do que os 4.500 de 1998, último ano antes do governo Hugo Chávez. O país tem cerca de 28 milhões de habitantes.
Em comparação, o Estado de São Paulo, com uma população de pouco mais de 41 milhões, registrou 4.771 homicídios em 2009, o que representa taxa de 10,95 assassinatos por 100 mil no Estado -12,3 na região metropolitana de São Paulo.
Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), a taxa de homicídio é "epidêmica" quando supera dez assassinatos por 100 mil habitantes.
O levantamento do OVV mostra também um aumento da impunidade -91% dos crimes ocorridos nos últimos três anos não foram resolvidos. Em 2009, foram presos 1.491 ligados a assassinatos naquele ano. Em 1998, foram 5.017 prisões para um número de homicídios 72% menor.

Polícia bolivariana
Os números do OVV não foram contestados pelo governo Chávez, que há cinco anos não revela números nacionais de estatísticas de violência.
A principal iniciativa do governo Chávez na área de segurança pública no último ano foi a criação da PNB (Polícia Nacional Bolivariana), que atualmente atua apenas na região de Sucre, zona oeste de Caracas.
Segundo o próprio Chávez, a PNB conseguiu reduzir os homicídios em 72% na região desde o final de dezembro.
Apesar de a insegurança ser a principal preocupação dos venezuelanos em todas as pesquisas de opinião, Chávez menciona pouco o assunto, e muitas vezes para acusar a imprensa privada de sensacionalismo. Recentemente, no entanto, reconheceu que a criminalidade é uma "ameaça para a revolução bolivariana".

Notícia da Folha de São Paulo, de 17 de março de 2010.


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terça-feira, março 16, 2010

GLAUCO (1957 - 2010)


Vez por outra a violência nos invade e nos choca. Nos deixa perplexos, catatônicos. Me senti assim quando soube da notícia da morte do cartunista Glauco, na manhã de sexta-feira passada, dia 12.


Eu ouvia o rádio, adiando o momento de levantar da cama para ir trabalhar, quando o narrador divulgou a notícia do assassinato do cartunista e de seu filho Raony, um jovem com 25 anos, em decorrência de um assalto.


Depois a notícia mudou, e o assassino seria um jovem, possivelmente sob efeito de drogas, e que seria conhecido da família de Glauco. A relação teria se dado através de um culto do Daime, que Glauco liderava em um templo que ficava anexo à sua casa, em São Paulo.


Na verdade, não sei se este esclarecimento melhora ou piora a perplexidade pela estupidez da morte do cartunista.


E eu nem era grande fã de Glauco. Mas acho que ninguém merece morrer desta maneira.


A charge acima, em sua homenagem, foi publicada na Folha de São Paulo, do dia 13.

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quarta-feira, dezembro 09, 2009

Polícias de SP e RJ matam mais que a da África do Sul, diz ONG

Polícias de SP e RJ matam mais que a da África do Sul, diz ONG

Um relatório divulgado nesta terça-feira pela organização de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch revela que, em 2008, as polícias do Rio e de São Paulo mataram juntas 1.534 pessoas, número maior que o de mortes cometidas por policiais em toda a África do Sul, país com taxa de homicídios mais alta que a dos dois Estados brasileiros.

No país africano, a polícia matou 468 pessoas (o cálculo sul-africano leva em conta o ano fiscal, de abril de 2008 a março de 2009). Nos Estados Unidos, país com nível de violência policial considerado alto, 371 pessoas foram mortas pela polícia em 2008.

O relatório Força Letal: Violência Policial e Segurança Pública no Rio de Janeiro e em São Paulo afirma que parte “substancial” dos mais de 11 mil casos de resistência seguida de morte registrados nos Estados do Rio e de São Paulo desde 2003 podem ter sido, na verdade, execuções extrajudiciais.

Os casos de resistência seguida de morte (ou autos de resistência) se referem a mortes cometidas por policiais em confrontos em que supostos suspeitos de crimes resistem à prisão.

“Em quase todos os casos no Rio e em São Paulo nos quais policiais mataram pessoas enquanto estavam em serviço, os agentes envolvidos relataram as mortes como atos de legítima defesa e afirmaram ter atirado somente em resposta a tiros disparados pelos susspeitos”, diz o relatório.

“Dado que os policiais em ambos os Estados frequentemente enfrentam ameaças reais de violência por parte de membros de gangues, muitos desses ‘autos de resistência’ são provavelmente resultado do uso legítimo de força por parte da polícia. Muitos outros, no entanto, claramente não são”, afirma o texto.

Letalidade

O relatório é resultado de uma investigação de dois anos. A Human Rights Watch examinou 51 casos em que afirma ter “evidências” de que os mortos em autos de resistência “foram na verdade vítimas de execuções extrajudiciais”.

O documento de 134 páginas usa estatísticas oficias para comparar o índice de letalidade desses confrontos nos dois Estados brasileiros, na África do Sul e nos Estados Unidos.

Em entrevista à BBC Brasil, o autor do estudo, Fernando Delgado, disse que a escolha dos dois países para comparação foi feita porque “tanto África do Sul quanto Estados Unidos também encaram um nível de violência policial bastante alto”.

Segundo o relatório, em 2008 a polícia do Rio prendeu 23 pessoas para cada morte em autos de resistência. Em São Paulo, foram 348 prisões para cada morte. Nos Estados Unidos, essa média é de 37 mil prisões para cada caso de resistência seguida de morte.

No relatório, a organização afirma que os policiais responsáveis por homicídios ilegais raramente são levados à Justiça e que o principal motivo é o fato de o sistema de Justiça penal em ambos os Estados se apoiar quase iteiramente em investigadores policiais para resolver esses casos.

“O problema no Rio e em São Paulo persiste porque a equação básica permanece”, disse Delgado à BBC Brasil. “À polícia é dada a responsabilidade para investigar esses casos de abuso policial, o que é uma receita para a continuação do abuso.”

A Human Rights Watch afirma que, além dos muitos casos de resistência seguida de morte, há centenas de outros homicídios atribuídos a policiais fora de serviço, como parte de milícias no Rio e grupos de extermínio em São Paulo.

A organização diz ainda que policiais “frequentemente” agem para encobrir “a verdadeira natureza” dos casos de resistência seguida de morte.

Recomendações

“Enquanto forem deixadas para a própria polícia, essas execuções continuarão sem verificação e os esforços legítimos para conter a violência em ambos os Estados sofrerão”, disse o diretor da Human Rights Watch para as Américas, José Miguel Vivanco.

“A execução extrajudicial de suspeitos de crimes não é a resposta ao crime violento. Os moradores do Rio e de São Paulo precisam de um policiamento mais eficaz, e não de uma polícia mais violenta.”

Segundo o autor do relatório, o documento já foi entregue ao governador do Rio, Sérgio Cabral, e será também entregue ao governo de São Paulo.

A Human Rights Watch recomenda às autoridades a criação de unidades especializadas para investigar esse tipo de crime e garantir que os policiais responsáveis por execuções extrajudiciais sejam levados à Justiça.

O documento também sugere que os casos de resistência seguida de morte sejam notificados imediatamente.

Recomenda ainda que seja estabelecido um protocolo de ação para impedir que policiais possam usar técnicas de acobertamento nesses casos, e que essas técnicas sejam investigadas e os policiais envolvidos sejam punidos.

Questionada sobre as afirmações do relatório, a Secretaria de Segurança do Rio disse que "o governo do Rio realiza um trabalho de combate ao poder paralelo e, pela primeira vez na história, reconquista comunidades para uma vida em paz".

A nota afirma ainda que "está em curso um trabalho de formação e valorização dos bons policiais e não se tolera corrupção e violações dos direitos humanos, casos punidos com expulsões da corporação".

A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo também foi questionada sobre o relatório mas, até a publicação desta reportagem, não havia se pronunciado.



Texto da BBC Brasil.

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Violência policial pode ofuscar 'brilho emergente' do Brasil, diz jornal

Violência policial pode ofuscar 'brilho emergente' do Brasil, diz jornal

Uma reportagem do jornal espanhol ABC afirma nesta quarta-feira que a violência policial pode ofuscar o "brilho" do Brasil como economia emergente e sede de eventos esportivos internacionais como os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo.

Como outros artigos da imprensa estrangeira, a reportagem notícia o relatório da organização não-governamental Human Rights Watch, que denuncia as execuções extrajudiciais praticadas pelas polícias de Rio e São Paulo.

A ONG calcula que desde 2003 mais de 11 mil pessoas foram mortas em execuções da polícia paulista e fluminense. Grande parte delas entra nas estatísticas de morte "por resistência".

Para o ABC, as estatísticas das duas maiores cidades brasileiras são "comparáveis à dos países em guerra".

"A imagem do Brasil como economia emergente e como sede de grandes eventos esportivos pode perder o seu brilho se o governo não encontrar uma saída para combater a violência de sua própria polícia."

Outros jornais

O tema ganhou espaço também em diversos outros jornais estrangeiros.

Na avaliação do jornal americano The New York Times, o relatório da Human Rights Watch "levanta questões problemáticas" sobre a situação da segurança pública brasileira.

"A segurança no Rio se tornou uma preocupação internacional desde que o Comitê Olímpico Internacional anunciou, em outubro, que a cidade seria sede dos Jogos Olímpicos de 2016", diz o NYT, lembrando a derrubada de um helicóptero da polícia por traficantes duas semanas após a decisão.

A reportagem destaca trechos do relatório no qual a polícia é acusada de fingir que presta socorro aos executados e de retardar a investigação das mortes.

Em declarações ao também americano Washington Post, o porta-voz da ONG diz que as mortes "indicam um problema sério", que é casar essa imagem do Brasil com a de “um país moderno e democrático”.

Segundo o porta-voz, embora autoridades locais e estaduais reconheçam o desafio, "existe no Brasil uma pressão para dar à polícia carta branca para combater o crime violento".

Já o Los Angeles Times afirmou que a "estatística arrepiante" levou a ONG a pedir reformas no sistema.

No artigo, as duas polícias são caracterizadas como "corroídas por corrupção ao estilo da máfia".



Texto da BBC Brasil.

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segunda-feira, dezembro 07, 2009

Tiros e clichês

Tiros e clichês

Na quarta-feira passada, em Jardim Mirna, zona sul de São Paulo, um agente e um carcereiro da Polícia Civil, fora do horário de serviço, tomaram um Gol emprestado de um informante e sequestraram dois traficantes de drogas, ambos de 19 anos, para extorqui-los. Os jovens portavam grande quantidade de maconha, cocaína e crack. Metros depois, o carro foi cercado por quatro amigos dos traficantes, em duas motos, que tentaram libertá-los, atirando contra os policiais.
O carcereiro reagiu e disparou três vezes. O agente não teve tempo. Das mais de 20 balas que acertaram o Gol, várias atingiram o policial, que morreu ali mesmo. A cena se deu em frente a um colégio, na hora da saída dos alunos. No tiroteio, um estudante de 17 anos levou uma bala perdida na cabeça e também morreu. Duas de suas colegas foram feridas, uma na perna, outra na barriga.
Essa ocorrência - apenas uma entre outras que a mídia publica com certo tédio, talvez porque ninguém saiba onde fica Jardim Mirna - comporta uma quantidade de agravantes a fazer pensar. É como se fosse uma suma do que deve acontecer com regularidade no submundo, mas tão distante de nossos olhos que não tomamos conhecimento. Vamos ler de novo.
Policiais fora de serviço cercam e capturam traficantes, não para prendê-los, mas para extorqui-los -quem é o bandido? Os traficantes são muito jovens; os amigos que acorrem em sua defesa também. Não faltam carros, motos e armas no pedaço -todo mundo está bem equipado. O tiroteio se dá perto de uma escola e, como sói, na hora de saída dos alunos - um estudante morre e duas saem feridas.
Se fosse cinema ou novela, o roteirista se envergonharia de juntar tantos clichês numa sequência. Mas a realidade é grossa, não tem essa sofisticação.

Texto de Ruy Castro, na Folha de São Paulo, de 25 de novembro de 2009.

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terça-feira, novembro 10, 2009

Elio Gaspari: A Guerra do Rio

A guerra do Rio é uma metáfora cavilosa

O RIO GANHOU um novo problema, a blindagem dos helicópteros da polícia. (E por que só os da polícia?) Os três jovens mortos na entrada do morro dos Macacos são uma nota de pé de página. Três dias de desordens nas estações da Supervia já são coisa do passado. De uma hora para outra, o carioca sente-se num cenário de "Tropa de Elite".
Primeiro, ele parou de caminhar pelas ruas do bairro depois do jantar. Um país com a taxa de fecundidade de 6,3 filhos por casal não podia ir para a frente. Depois, faz tempo, surgiram as grades nos jardins do recuo dos edifícios. Do Leblon ao Leme há algo como 10 mil metros de calçadas gradeadas, mas não poderia ser diferente: nessa época a população favelada do Rio dobrara de 335 mil pessoas para 722 mil.
Isso acontecia numa cidade em que, até 1983, pareceu irrelevante o fato de os ônibus não passarem pelo túnel Rebouças, inaugurado em 1966. Parecia natural que a choldra da zona norte não tivesse acesso fácil a Copacabana e Ipanema.
Na virada do século foi preciso blindar o carro. Pensando bem, era uma impropriedade estatística. A taxa de fecundidade das brasileiras caíra para 2,9 filhos por casal. Estavam nascendo menos pobres, portanto, não fazia sentido que a população favelada chegasse a 722 mil almas, quase 15% da população da cidade.
Aos perigos e transtornos impostos ao carioca somou-se a cenografia de uma guerra. A crise da segurança pública do Rio não é uma guerra. Pode ser pior, mas não é guerra. Os quatro anos da ocupação alemã em Paris foram menos cruentos que quaisquer quatro anos do Rio, desde 1980. A ideia de uma guerra pressupõe um inimigo perfeitamente identificado e a disposição de se utilizar todas as forças disponíveis para submetê-lo. Guerra pressupõe tentar devolver o Vietnã do Norte à Idade da Pedra.
Não há guerra no Rio, o que há é uma metáfora de conveniência. Ela cria o cenário da emergência, mas não pode dar o passo seguinte, que seria o reconhecimento de que uma parte da cidade está em guerra com outra, como aconteceu na Argélia, ou na África do Sul da fase mais agressiva do "apartheid".
Esse passo não é dado porque, apesar dos surtos demofóbicos, a sociedade brasileira nunca se associou a um projeto desse tipo. Colocando a coisa de outro modo: o pedaço da sociedade que seria capaz de apoiar uma política de violência segregacionista levando-a a consequências extremas, ainda não tem coragem para vocalizar suas propostas e não haverá de tê-la nos próximos anos. Pensar que essa linha de pensamento não existe é colocar a ingenuidade a serviço das boas maneiras.
A metáfora da guerra não define o inimigo mas, cavilosamente, deixa-o subentendido. Ele está na favela ("fábrica de marginais", na definição do governador Sérgio Cabral). Essa guerra sem inimigo produz cenários, cenas de batalha, vítimas e juras de vingança, nada mais. Tudo fica parecido com "Tropa de Elite". Uma metáfora pode sustentar um filme, mas não resolve as questões da segurança de uma cidade.
Se o clima de guerra sair da agenda do Rio, não há qualquer garantia de que as coisas melhorem, mas pelo menos será retirada a cortina de fantasia que mascara políticas públicas fracassadas.

Coluna de Elio Gaspari, na Folha de São Paulo, de 21 de outubro de 2009.

Em tempo: Segundo o Dicionário Michaelis da Língua Portuguesa, cavilosa significa algo como fraudulenta, ou sofismática, ou capciosa.


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sábado, outubro 31, 2009

No Rio, policial é treinado para se achar um justiceiro, diz coronel

Rosanne D'Agostino
Enviada especial do UOL Notícias
No Rio de Janeiro

Ser policial no Rio de Janeiro virou sinônimo de controvérsia. Nas operações mais recentes na zona norte, moradores acusaram a polícia de chegar atirando, ocasionando a morte de inocentes, entre eles, a mãe de um bebê de 11 meses, baleada na favela Kelsons, Penha. Para especialistas, o que ocorre é fruto de um treinamento inadequado que, aliado aos baixos salários e uma política falha de Segurança Pública, faz com que o policial se sinta um "justiceiro" em uma guerra particular contra o tráfico.

"O policial do Rio é o mais mal pago, mal treinado, mora em áreas perigosas, em favelas, são submetidos a situações de estresse. Sempre há promessas de melhora, mas nunca nada é feito. Concordo absolutamente com o que o Maierovitch falou (em entrevista ao UOL Notícias - Assista aqui), de que eles são camicases", diz Julita Lemgruber, socióloga e ex-ouvidora da Polícia Civil do Rio.

A especialista em segurança critica a atual forma de combater o tráfico nos morros cariocas, por meio do confronto. "É uma política de inteligência limitada de que esses confrontos são a melhor saída. Tráfico existe em todos os lugares do mundo, mas só no Rio a polícia acha que deve chegar atirando. É preciso mais inteligência e menos truculência", defende.

Na pele da polícia
Jorge da Silva, hoje coronel reserva com 33 anos da Polícia Militar, diz que não anda mais armado por medo. "Quando eu era tenente, capitão, ficava achando que ia prender todo mundo. Mas eu acabei vendo que isso causava situações problemáticas, para mim e para os outros. Sou um perigo armado, sou uma bomba. Quando eu vejo uma injustiça, eu quero me meter", diz.

Isso acontece, segundo ele, pelo próprio treinamento. "O policial é treinado para se achar um salvador, arauto da justiça, um justiceiro. Diante de uma situação complicada, quer resolver tudo sozinho. Perdemos esses dias um coronel exatamente assim. Ele foi reagir a um assalto, achando que fosse resolver a situação, mas outro cúmplice estava na cobertura do bandido e atirou."

Silva nasceu no complexo de favelas do Alemão, um dos mais violentos da cidade. Entrou na PM aos 17 anos. "Existe essa tradição da valentia. O policial é muito afoito, de se indignar, mas ele precisa ser treinado para mediar. O que ocorre é que a polícia, lamentavelmente, é treinada como as Forças Armadas, o Exército, para combater um inimigo. Mas isso não é uma guerra. E, hoje, policiais e bandidos estão travando uma guerra particular no Rio de Janeiro."

Tiro pela culatra
A guerra, segundo o coordenador de Estudos e Pesquisas em Ordem Pública e Direitos Humanos da UERJ (Universidade do Estado do Rio), é acentuada com a atual política de confrontamento. "Quando se escolhe agir assim, é mais traumático. A ideia é conter a violência, mas isso parte de uma premissa falsa, que não leva em conta que outras pessoas podem morrer, que causa balas perdidas. O propósito é positivo, a intenção é a tranquilidade, mas não é isso que acaba acontecendo."

A isso, se soma a rotina estressante do próprio policial. "Muitos têm problema de alcoolismo, problemas neurológicos. Na polícia, isso se acentua muito. E a tensão não é só quando se está em serviço. É quando está de folga também. É uma tensão permanente, com relação à família. É drástica. E isso é fruto de uma construção antiga, de deixar tudo na mão da polícia. Cria uma guerrinha particular, entre bandido e polícia, como se criminalidade não fosse um problema de toda a sociedade."

Para Julita, "o Rio tem hoje uma polícia extremamente letal e isso não está trazendo paz para a população". "É uma polícia que atua reativamente. Não é invadindo favelas e saindo em seguida, deixando a população sem assistência, que vai se resolver o problema. É inaceitável que a polícia mate bandido. Inocente, menos ainda", completa.

Silva também considera que falta inteligência às ações. "É preciso adotar uma política que entronize a inteligência na polícia, para que ela haja com menos emoção nas ações, evitando mortes."

Ainda conforme a socióloga, o tráfico não justifica uma polícia cada dia mais armada. "No Rio acontecem quatro vezes mais homicídios do que em São Paulo. E dizer que os traficantes têm cada vez mais armas poderosas pode ser visto como mais uma forma de justificar a continuidade dessa truculência."

"Não que o tráfico não esteja bem armado. Indiscutivelmente, eles têm armamento pesado. Mas a polícia tem bem mais. O governo investe", complementa Silva. "Quando derrubaram o helicóptero, disseram que estavam com armas muito letais. Mas, se for seguir essa lógica, daqui a pouco vão querer helicópteros equipados com mísseis. Isso é um discurso de pessoas que querem uma polícia mais repressiva, mais belicista. Mas é uma maluquice", conclui.

Origem: UOL Notícias.

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sexta-feira, outubro 09, 2009

"Mães de maio" dizem que filme sobre PCC conta meia-verdade

"Mães de maio" dizem que filme sobre PCC conta meia-verdade


Rodrigo Bertolotto
Do UOL Noticias
Em São Vicente (SP)

A combinação de cinema nacional e realidade policial rendeu indicação para prêmios e muita polêmica nos últimos anos com "Carandiru", "Cidade de Deus", "Tropa de Elite" e "Última Parada 174". E não vai ser diferente com "Salve Geral - O Dia em que São Paulo parou", do diretor Sérgio Rezende, que estreia nesta sexta (2). Até as mães de vítimas do maio sangrento de 2006, pano de fundo do enredo, criticam o filme.

"Esse filme não mostra a matança sobre a sociedade civil. Pelo que li, a história termina no terceiro dia, na segunda, e as mortes continuaram por mais cinco dias", aponta Débora Maria da Silva, que preside a Associação de Amparo a Mães e Familiares Vítimas de Violência, que programou um protesto nesta sexta (2), às 18h, no Espaço Unibanco, na avenida Augusta (centro de São Paulo).

O grupo é mais conhecido pelo codinome "mães de maio", uma referência ao grupo familiares de vítimas mais conhecido mundialmente, "Madres de la Plaza de Mayo", que luta pela punição dos crimes da última ditadura na Argentina (1976-1983).

Aliás, a dimensão do que aconteceu na semana sangrenta no Estado de São Paulo é demonstrada se comparada com os números do regime militar brasileiro: foram assassinados a tiros 493 pessoas entre 12 e 20 de maio de 2006 em território paulista, enquanto 424 é o total de mortos e desaparecidos pela repressão da ditadura de 1964 a 1985.

O foco principal do filme, que é o indicado brasileiro para a lista final do Oscar de filme estrangeiro em 2010, é a relação entre mãe de classe média e filho presidiário, com ambos se envolvendo com uma facção criminosa que em tudo se parece com o PCC - até é chamada de "o Partido". "Ele não retrata a realidade das mães. Não me sinto representada", afirma Débora sobre o papel interpretado por Andréa Beltrão, que acaba ajudando a advogada da facção, e até se envolvendo sexualmente com um líder criminoso, inspirado em Marcos Herbas Camacho, o Marcola.

Para aumentar a temperatura do assunto, nesta quinta-feira (1º) começa o julgamento de Marcola e Júlio César de Moraes, o Julinho Carambola, pelo assassinato em 2003 de Antônio José Machado Dias, o então juiz-corregedor de Presidente Prudente - seja dito de passagem, esse caso também entra na trama de "Salve Geral" (veja vídeo ao lado).

Depois de ser alvo dos meios policiais, que, em blogs e entrevistas, apontaram desde parcialidade ou ingenuidade do diretor (a principal crítica é apresentar o PCC como defensor dos direitos dos presos e não como uma máfia, como apontam as autoridades locais).

O filme reproduz o tradicional tema da mater dolorosa (a produção anterior de Rezende, "Zuzu Angel" cercava o mesmo mote), mas a figura materna ficcional aceita sem pestanejar as regras do jogo de corrupção e violência. Já as "mães de maio" lutam para que esse estado de coisas mude.

"O problema é que as chacinas promovidas por encapuzados e esquadrões da morte continuam. Isso acontece porque não houve justiça", se queixa Vera Lucia de Freitas, mãe de Mateus, morto a tiros com 21 anos após voltar da escola em São Vicente, litoral paulista.

Junto com ele, foi alvejado seu colega de classe Ricardo Noronha, 17, que tinha acabado de passar em uma peneira do Santos Futebol Clube. "Era a paixão dele. Podia estar agora defendendo o Brasil, mas foi executado", afirma Débora, a líder do grupo santista.

O filho dela caiu primeiro. O gari Edson Rogério Silva dos Santos foi morto na mesma calçada que varreu na manhã do dia 15 de maio de 2006. Após ter sido detido por suposto envolvimento em assalto, ele tentava a reabilitação social. A passagem, contudo, decretou sua condenação à morte por um grupo usando toucas ninjas.

A semana sangrenta teve como estopim a transferência de prisão de vários líderes do PCC. Como retaliação, o grupo criminoso promoveu dezenas de rebeliões prisionais e execuções de agentes do Estado, que ficou a cargo dos indultados pelo Dia das Mães.

Um total de 43 policiais, bombeiros e carcereiros foram assassinados entre sábado e domingo. A reação veio ainda na noite do domingo e foi até o sábado seguinte e vitimou 450 civis, ou seja, dez para cada baixa das forças de segurança.

A Ouvidoria da Polícia de São Paulo juntou indícios de atuação policial em grupos de extermínio, em um total de 54 casos com "características de execução sumária". "Os laudos mostram tiros de cima para baixo, com a mesma bala atravessando a mão e o crânio, o que aponta que a pessoa estava em posição defensiva. Além disso, os restos de pólvora em torno dos orifícios são típicos de que o assassino estava próximo", explica o ouvidor Luiz Dantas.

Outros casos suspeitos são as 48 ocorrências de "resistência seguida de morte", em que o PM estava em serviço e descreveu que matou após o suspeito não permitir a detenção. "Esse termo não existe na legislação. E o problema é que quem matou aparece no boletim como vítima e a pessoa morta ainda é incriminada", relata Dantas.

O ouvidor afirma que há indícios da participação policial nas chacinas. "Vários depoimentos falam que uma viatura policial passou pelos locais e identificaram pessoas minutos antes que carros pretos com encapuzados chegassem para executar", conta.

A líder das mães é mais taxativa. "Eu atribuo à PM a morte do meu filho", diz Débora, que pede indenização ao Estado, como receberam no ano passado os familiares dos policiais vitimados. Com a comprovação de que por trás das toucas estavam policiais, as mães usam o argumento de que o Estado não ofereceu segurança naquela semana para pedir reparação.

"O Estado não se aparelhou para frear aquela onda de violência. Já que o nexo policial é difícil de caracterizar, afinal, os autores estavam mascarados, as cápsulas de bala foram retiradas e os mortos levados a hospitais antes da chegada da perícia", diz a defensora pública Vânia Pereira, que está à frente de dois casos contra a Fazenda Pública.

A resposta padrão da Secretaria de Segurança Pública é que não há comprovação da presença de agentes do Estado nas ações. Por isso mesmo, não há espaço para pedido público de desculpa. Essa possibilidade se torna ainda mais remota porque o governo mudou de mãos e havia um governo interino à época (Geraldo Alckmin havia se lançado candidato à Presidência e deixou o governo paulista para Cláudio Lembo).

"A morte do meu filho foi um crime político. Era ano de eleição e os poderosos não podiam mostrar que não controlavam a situação. Matar nossos filhos foi a solução", desabafa Débora. Vendo que mais de 60% dos casos foram arquivados e nenhum apontou culpado, sua associação, junto com outras ONGs (organizações não-governamentais), já pediu a federalização das investigações e levou a questão a OEA (Organização dos Estados Americanos).

As mães que viraram ativistas sociais contam que a polícia continua pressionando para que a luta delas não vá à frente. "Eu já sofria todo o tipo de perseguição. No mês passado, fui presa por oito dias acusada de associação ao tráfico. Os PMs chegaram falando que 'não damos viagem perdida' e forjaram o flagrante", conta Ednalva Santos, mãe de Marcos Rebello Filho, 26 à época, um surfista e funcionário de papelaria em São Vicente que foi morto quando saía de uma lan house.

Nas manifestações que participam, as "mães de maio" pintam o rosto de branco e desenham uma lágrima vermelha. "Para quem fala que nós somos as mães de bandidinhos, a gente mostra nossa luta, arriscando a própria vida", afirma Ednalva.

A reportagem do UOL Notícias procurou as corporações, sindicatos e associações dos agentes públicos de segurança, mas todas responderam que os familiares de policiais, bombeiros e carcereiros mortos em maio de 2006 não quiseram se pronunciar sobre o assunto.

Texto original do UOL Notícias.

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quarta-feira, julho 08, 2009

Imigrantes a caminho dos EUA são vítimas de sequestro, tortura e assassinato na passagem pelo México

Imigrantes a caminho dos EUA são vítimas de tortura na passagem pelo México, diz relatório

Pablo Ordaz
Na Cidade do México (México)

A primeira parte do relatório surpreende. A segunda deixa os cabelos em pé. Porque as primeiras páginas da investigação realizada pela Comissão Nacional de Direitos Humanos (CNDH) do México demonstram que entre setembro de 2008 e fevereiro de 2009 quase 10 mil imigrantes centro-americanos que tentavam chegar aos EUA foram sequestrados e tratados com extrema crueldade em sua passagem pelo território mexicano.

Mas nas últimas 23 páginas são as próprias vítimas que relatam o calvário que sofreram nas mãos de seus captores. Diz uma jovem salvadorenha: "Enquanto não chegou o resgate, me violentaram. Mas minha amiga não tinha familiares para pagar por sua liberdade. Por isso lhe deram dois tiros na cabeça e a deixaram sangrando durante três horas na minha frente... para me intimidar".

As vítimas são homens e mulheres jovens que partem diariamente de Honduras, El Salvador, Guatemala ou Nicarágua em busca de um futuro melhor nos EUA. Mas também são velhos e crianças que empreendem o caminho sozinhos para encontrar-se com seus filhos ou com seus pais. Eles também fizeram um dia essa mesma rota e talvez tenham encontrado trabalho, mas não podem voltar para buscar seus seres queridos por falta de papéis e recursos. Crianças e idosos viajam escondidos em vagões de trem ou no fundo falso de caminhões controlados pelas máfias. Movem-se de noite e por caminhos secundários, fugindo das autoridades. Assim que cruzam a fronteira e entram no México, transformam-se nas vítimas perfeitas.

O relatório, realizado ao longo de seis meses por 30 agentes da comissão supervisionados pelo professor Mauricio Farah, contém um sem-fim de dados, cada qual mais alarmante. O número de pessoas sequestradas foi 9.758. Muitas delas foram capturadas em grupos, retiradas dos vagões de trens e confinadas em casas de segurança ou em armazéns industriais. O resgate exigido por elas flutuava entre 1.100 e 3.600 euros.

A Comissão Nacional de Direitos Humanos calcula que a indústria do sequestro obteve nesse curto espaço de tempo mais de 18 milhões de euros. Para isso não hesitou em utilizar uma violência extrema que inclui tortura, violação e assassinato. Nove em cada dez vítimas receberam ameaças de morte contra elas ou seus parentes; 67% dos sequestrados eram de Honduras, 18% de El Salvador, 13% da Guatemala e os demais da Nicarágua, Equador, Brasil, Chile, Costa Rica e Peru. Os investigadores souberam de 157 mulheres que foram sequestradas, quatro delas grávidas. Duas foram assassinadas por seus captores. Outras foram violentadas e uma foi obrigada a permanecer junto com seus agressores e a desempenhar o papel de "mulher" do chefe do bando.

Da leitura do relatório e de uma conversa posterior com o professor Farah, se deduz que foi realizada de forma conscienciosa. Que apesar da ausência de dados - os sem-documentos não denunciam por medo de ser devolvidos a seu país -, os números dos abusos foram contrastados para evitar duplicidade ou exagero. Também se chega à conclusão de que os criminosos atuam muitas vezes com a cumplicidade das autoridades: "Com frequência os migrantes são vítimas de bandos organizados e em muitas ocasiões de autoridades federais, locais e municipais, especialmente as encarregadas da segurança pública, as quais golpeiam brutalmente, humilham e extorquem com ameaças de privá-los da vida, da liberdade ou deportá-los para seus países de origem".

Embora os sequestros sejam mais frequentes na fronteira sul do México, os dados também demonstram que os sem-papéis não estão seguros em nenhum ponto de sua travessia pelo país. "Às vezes as máfias os roubam dos 'polleros' [traficantes que os ajudam a cruzar a fronteira em troca de dinheiro] para extorqui-los", explica o professor Farah.

E é nesse momento que o leitor do relatório se aproxima das páginas finais. Ali se encontra a história de uma imigrante de Honduras: "Eles me bateram na cabeça, no quadril, nos braços com uma tábua que chamam de 'a lembrança'. Quando ligavam para minha família para pedir dinheiro me colocavam uma furadeira na mão para que eles escutassem. Depois me violentaram". E a de um menor de idade, também de Honduras: "Durante o sequestro só me davam de comer uma vez por dia, tortilhas duras e um pedaço de frango velho. Mataram um salvadorenho que estava conosco. Não denunciei o sequestro porque junto com os sequestradores, que bebiam cerveja e consumiam cocaína o dia todo, também havia policiais de uniforme. Obrigaram a mim e a um companheiro a violar uma mulher sequestrada na frente deles..."

EL PAÍS tentou na quarta-feira, sem êxito, que a Presidência da República ou algum departamento do governo mexicano desse sua versão sobre as graves denúncias feitas pela Comissão Nacional de Direitos Humanos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Texto do El País, reproduzido no UOL.


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quarta-feira, junho 24, 2009

A paz sinistra do Sri Lanka

A paz sinistra do Sri Lanka

Suketu Mehta

Fim da guerra não significou o fim das perseguições políticas

No Sri Lanka, a paz poderá afinal ser pior do que a guerra civil que acaba de terminar -e não apenas para os rebeldes dos Tigres Tâmeis, que saíram perdedores. O governo está em um clima de triunfo, e há medo nas ruas de Colombo. Jornalistas, ativistas de direitos humanos e acadêmicos críticos ao governo estão sendo mortos, atacados ou ameaçados.
O Sri Lanka desafia os estereótipos religiosos, com homens-bombas hindus e católicos e esquadrões da morte budistas; os muçulmanos são os menos violentos de seus povos. É o país mais belo que já vi e também o mais sangrento; a guerra custou 100 mil vidas.
Visitei os rebeldes em um acampamento remoto na selva no início de 2002, pouco depois que um cessar-fogo foi declarado. No território dominado pelos tâmeis, eles viviam em condições péssimas, graças a um bloqueio do governo. Quando eu queria ouvir o noticiário da BBC, alguém montava em uma bicicleta e pedalava para acionar um gerador que fornecia eletricidade ao rádio.
Tudo o que eles tinham para se sustentar era uma crença inabalável em uma pátria independente. Por isso enfrentaram o governo durante um quarto de século -até que o Ocidente os designou como terroristas e os chineses entraram com dinheiro. No ano passado a China deu US$ 1 bilhão para o Sri Lanka lutar a guerra, o que virou a maré contra os rebeldes. Em troca, a China conseguiu acesso a um porto profundo na ilha-país.
No Sri Lanka, assim como em outros lugares, a China tem conduzido uma política externa amoral. A China não é uma potência colonial; ela não tem interesse em adquirir terras ou em aumentar sua população. O que ela quer são recursos. Até 2020 a China só terá reservas domésticas suficientes para se abastecer de 6 de 45 minérios estratégicos. Antecipando essa carência, o governo chinês apoia alguns dos piores tiranos do planeta: Robert Mugabe, do Zimbábue, a junta bizarra de Mianmar, Kim Jong-il, da Coreia do Norte, Omar al Bashir, do Sudão.
Pequim não se importa, desde que consiga manganês ou bauxita. Sua política oficial é a não interferência nos assuntos internos desses países. Mas ela interfere por seus governos no Conselho de Segurança da ONU, onde veta qualquer ação contra seus clientes.
A dissidência é tão perigosa em Colombo quanto em Pequim. Uma amiga do Sri Lanka bem relacionada nos círculos sociais e políticos de Colombo me disse: "As pessoas que estão sendo mais atingidas no momento são os jornalistas e as ONGs internacionais. Tenho amigos que tiveram vistos revogados depois de viver aqui 20 anos e são expulsos ou presos por causa de informação aparentemente inofensiva". Então, temendo quem poderia estar monitorando sua ligação, ela acrescentou: "Acredito que você esteja ouvindo minha mensagem alto e claro". Catorze jornalistas críticos do governo foram assassinados desde 2006.
Nas ruas, há uma orgia de nacionalismo que poderá se inverter e alimentar-se de si própria. O que a maioria dos estrangeiros não percebe é que houve outra guerra civil no país na década de 1980, uma rebelião estudantil maoísta que custou quase tantas vidas quanto a guerra com os tâmeis.
Os Tigres foram ruins para o Sri Lanka e piores para os tâmeis que eles alegavam representar. Começaram com um movimento de libertação nacional e se transformaram em um bando assassino.
Mas não há desculpa para o governo matar dezenas de milhares de civis ou prender em massa a população tâmil do norte. O Sri Lanka deve implementar um mecanismo constitucional para compartilhar o poder com os tâmeis. Um país que protege suas minorias também protege por extensão os direitos de cada pessoa da maioria.


Suketu Mehta é autor de "Maximum City: Bombay Lost and Found"

Texto do The New York Times, reproduzido na Folha de São Paulo, de 15 de junho de 2009.

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09/06/2009: Peru em crise política - confrontos e mortes da Amazônia Peruana

Troca de acusações reforça tensão entre Lima e índios

Principal central sindical peruana convoca para quinta marcha contra governo García, após conflito que deixou ao menos 50 mortos

DA REDAÇÃO

A dura troca de acusações entre o governo direitista de Alan García e lideranças indígenas e a convocatória de uma marcha sindical em Lima para quinta-feira compuseram ontem o quadro de tensão no Peru, três dias após confronto entre policiais e manifestantes que deixou ao menos 50 mortos no norte do país.
Governo e movimento indígena, que reivindica a revogação de leis pró-investimento na Amazônia peruana, divergem sobre o número de vítimas. Para a Adeisp (Associação Interétnica de Desenvolvimento da Selva Peruana), corroborada por fontes médicas da região na sexta, ao menos 30 indígenas morreram. O governo fala em 9 manifestantes e 24 policiais mortos.
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), ligada à OEA (Organização dos Estados Americanos), condenou "energicamente" a violência que se desatou durante ação de desbloqueio de uma estrada próxima à cidade de Bagua, a 1.400 km de Lima. A CIDH instou o Estado peruano a "esclarecer judicialmente os episódios" e alertou quanto ao uso desproporcional das forças de segurança.
Hoje, o Conselho Permanente da OEA, em Washington, fará uma sessão extraordinária sobre o confronto peruano.
A oposição e ONGs locais e internacionais acusaram o governo de estar promovendo uma "limpeza" de corpos na região, ainda sob toque de recolher. Lima negou, e os opositores não apresentaram provas.
Segundo o presidente do Conselho de Ministros (premiê) Yehude Simon, o principal líder da Adeisp, Alberto Pizango, refugiou-se na Embaixada da Nicarágua em Lima após ser acusado pelo governo de incitar a violência.
Walter Categari, diretor da Adeisp, disse à Folha que a orientação da associação, que representa 450 mil pessoas de 65 povos indígenas na Amazônia peruana, é seguir a mobilização que completa dois meses hoje, com bloqueios de estradas e ocupações de instalações petrolíferas. "Se pararmos agora, seremos derrotados."
Ontem, a principal central sindical peruana, a CGTP, convocou para quinta uma "Jornada Nacional de Luta", em resposta à violência na Amazônia, acentuando a pressão sobre o governo Alan García, que completa três anos em julho.

Negociação no Congresso
No Congresso, o Partido Nacionalista -de Ollanta Humala, derrotado por García nas eleições de 2006-, anunciou que convocará uma sessão extraordinária para debater o decreto 1.090, chamado de lei florestal.
O adiamento do debate sobre o decreto 1.090 foi um estopim da violência da sexta. No dia anterior, a maioria governista aprovara projeto para congelar o tema no Parlamento até que a mesa de diálogo -formada pelo Executivo e lideranças indígenas, neste momento já em impasse-, chegasse a um acordo.
A norma é um dos pilares do conflito no Peru porque reduz a área de proteção florestal no país e esboça um amplo plano de regulação do investimento na Amazônia.
Ativistas indígenas dizem que estarão disponíveis para atividade econômica mais 45 milhões de hectares, ou 60% da floresta, e que, contrariando legislação internacional adotada pelo Peru, as comunidades indígenas não foram consultadas.
Nos últimos dez anos, cresceu enormemente a ocupação da floresta peruana por empresas mineradoras e petrolíferas. A subsidiária da Petrobras no país explora um lote, com produção de 16 mil barris/dia, e detém concessão de outros cinco lotes ainda em prospecção.


Com agências internacionais.

Notícia da Folha de São Paulo, de 9 de junho de 2009.

Opositor pede investigação internacional

DA SUCURSAL DO RIO

Colunista do jornal "La República", Javier Diez Canseco é antigo militante da esquerda peruana. A partir da democratização do país, em 1978, foi constituinte, senador e congressista por vários mandatos até ser derrotado ao disputar a Presidência em 2006.
Em entrevista por telefone, de Lima, ele defende investigação internacional sobre as mortes em Bagua e diz que parte da solução do conflito está no Peru se reconhecer como Estado plurinacional. Abaixo, trechos da entrevista. (CLAUDIA ANTUNES)

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/images/ep.gif

FOLHA - Ao lançar a repressão contra os indígenas, o governo sabia que poderia desencadear reação também violenta?
JAVIER DIEZ CANSECO
- Na região onde ocorreram os conflitos estão ex-combatentes da guerra com o Equador [1995], nativos das etnias awajum e ashaninka que têm experiência com uso de armas. Há também as rondas camponesas, que derrotaram o [grupo maoísta] Sendero Luminoso em várias zonas e às vezes se confundem com a delinquência.
Além disso, o governo sabia que havia 38 policiais armados retidos pelos nativos numa base de bombeamento de petróleo. Há vídeos da ofensiva da polícia e da reação dos nativos. A polícia usou franco-atiradores em Bagua. Um dos dirigentes indígenas, Santiago Manuin, tem oito balas no corpo.
Isso não é bala perdida.

FOLHA - O governo diz que parte dos policiais foi degolada.
DIEZ CANSECO
- Essa versão parece vir do fato de a etnia awajum ser uma etnia guerreira. Não descarto que tenha ocorrido. Não justifico nem aceito. Mas não sei a versão exata, por isso creio que é necessária uma investigação internacional.

FOLHA - Que grupos formam a Associação Interétnica pelo Desenvolvimento da Selva Peruana, que lidera os protestos?
DIEZ CANSECO
- A Aidesep agrupa cerca de 60 etnias em oito regiões da Amazônia peruana. Existe há 30 anos e é encarregada da educação bilíngue. Recebeu prêmios internacionais. Não é um grupo de loucos.

FOLHA - O Peru sempre teve uma divisão forte entre a costa e o interior. Qual é a solução?
DIEZ CANSECO
- Os grupos que comandaram o Estado no Peru nunca reconheceram o caráter plurinacional do país. O Peru não é um país homogêneo, é diverso. Essa plurinacionalidade implica direitos culturais, judiciais, políticos e territoriais.
É uma ideia que está sendo formalizada hoje nas Constituições do Equador, da Bolívia. Até na Colômbia o tema das etnias amazônicas foi reconhecido. No Peru isso não aconteceu. A isso se soma a batalha que o governo trava para abrir a exploração dos recursos naturais às transnacionais.

Entrevista na Folha de São Paulo, de 9 de junho de 2009.


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ONU rejeita estatísticas do governo brasileiro apontando queda no índice de homicídios

ONU rejeita dados sobre queda de homicídios no Brasil

http://n.i.uol.com.br/ultnot/home/agencia_estado.gif

Em São Paulo

A Organização das Nações Unidas rejeitou os números apresentados pelo governo brasileiro que indicam queda nos índices de homicídios no país. Ontem, o relator da ONU contra assassinatos sumários, Phillip Alston, afirmou ter "sérias dúvidas sobre a credibilidade" das informações. A Anistia Internacional denunciou ontem o fato de que a polícia continua a matar e não há qualquer mudança para lidar com a impunidade. O Conselho de Direitos Humanos da ONU ouviu o relato de Alston, que, em 2007, fez uma viagem pelo Brasil.

Os dados apresentados pelo governo apontam que, entre 2002 e 2007, o número de homicídios caiu 20%. "Tenho sérios motivos para colocar em dúvida essa queda", disse Alston. "O que acreditamos que está ocorrendo é apenas uma nova classificação dessas mortes para que não haja o perigo de elas serem registradas como homicídios". Segundo ele, uma das "aberrações" no Brasil é a possibilidade de PMs classificarem mortes como "autos de resistência". "Policiais alegam que podem atirar caso um suspeito resista a uma prisão. Os casos são simplesmente fechados e não há investigação", disse.

"Não temos nenhuma confirmação de fontes independentes de que essa queda de fato esteja ocorrendo. Muito pelo contrário." Em relatório de 2008, a ONU alertou que parte da polícia no Brasil está envolvida com o crime organizado, é corrupta e os abusos não são punidos. "O Brasil tem um dos mais elevados índices de homicídios do mundo, com mais de 48 mil mortes a cada ano", alertou o documento, baseado em dados de 2007.

A constatação é de que as políticas de segurança não dão resultados. Para piorar, Alston constatou que a política está intimamente envolvida com o crime. Outra conclusão do documento é que viver sob o julgo das milícias formadas por policiais é tão perigoso como viver diante do crime organizado. Alston ainda deixou claro que a classe política, em busca de votos, também adota uma postura dúbia. "Muitos políticos, ávidos por agradar um eleitorado amedrontado, falham ao demonstrar a vontade política necessária para refrear as execuções praticadas pela polícia." As informações são do jornal "O Estado de S. Paulo".

Visto no UOL Notícias. Grifos do blogueiro.


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terça-feira, junho 23, 2009

Irã proibiu funeral aberto para jovem morta durante protesto

O noivo de uma jovem iraniana de 26 anos morta a tiros durante uma manifestação anti-governo em Teerã, no sábado, disse à BBC que as autoridades do país proibiram sua família de realizar um funeral público.

Um vídeo que mostra o momento da morte Neda Agha Soltani foi colocado em blogs e sites como YouTube, Twitter e Facebook, e assistido por milhares de pessoas. Uma foto de seu rosto ensanguentado foi usada em protestos realizados na capital iraniana em várias cidades do mundo.

Segundo o noivo de Neda, Caspian Makan, as autoridades religiosas e a milícia Basij, pró-governo, impediram a família de realizar uma cerimônia religiosa dedicada à jovem em uma mesquita por temer que ela se torne um símbolo dos protestos.

"As autoridades estão cientes de que todos no Irã e em várias partes do mundo sabem o que aconteceu com Neda", afirmou Makan, que se identificou como fotojornalista. "Eles temiam que muita gente fosse à cerimônia religiosa, e eles não querem mais confusão."

"Então, por enquanto, não termos permissão para realizar nenhuma reunião ou ato público de homenagem a Neda", explicou ele, na entrevista ao canal de TV BBC Persian.

"Covas prontas"
A jovem foi enterrada no domingo, no cemitério Behesht-e-Zahra, na zona sul de Teerã.

"Eles nos pediram para sepultá-la numa parte do cemitério que, aparentemente, tinha sido separada pelas autoridades para fazer as covas para as pessoas mortas durante os protestos da semana passada", afirmou Makan.

Ele ainda reclamou do fato de as autoridades terem demorado para liberar o corpo de Neda.

"Ela foi levada para um necrotério fora de Teerã, e os funcionários perguntaram se poderiam retirar partes de seu corpo para transplantes médicos. A família concordou porque queriam enterrá-la imediatamente", disse Makan.

"Tiro deliberado"
Segundo ele, Neda não estava participando diretamente dos protestos.

"Ela estava em um carro, com seu professor de música, a alguns quarteirões de distância, presa no congestionamento. Ela estava cansada e com muito calor, então saiu do carro por alguns minutos", disse o noivo.

"Foi aí que aconteceu. As testemunhas disseram e o vídeo mostra claramente que prováveis paramilitares Basij à paisana atiraram nela deliberadamente. Ela foi atingida no peito."

"Ela perdeu os sentidos poucos minutos depois. As pessoas ainda tentaram levá-la para o hospital mais próximo, mas já era tarde mais", descreveu.

Notícia da BBC Brasil, no Terra.

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segunda-feira, junho 22, 2009

Silêncio no Alemão

Silêncio no Alemão

RIO DE JANEIRO - Na última sexta-feira, o presidente Lula e o governador do Rio, Sérgio Cabral, se abraçaram muito carinhosamente no complexo de favelas de Manguinhos e, à tarde, foram ao Complexo do Alemão. Entregaram 56 apartamentos para moradores removidos de suas casas em razão das obras do PAC.
Na véspera, o governo federal também marcara presença no Rio. O ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, lançou na Biblioteca Nacional o livro "Brasil - Direitos Humanos", um conjunto de artigos, entrevistas e reportagens.
Na página 264, recorda-se o que aconteceu no Alemão em 27 de junho de 2007: 1.350 homens das Polícias Civil e Militar (de Cabral) e da Força Nacional de Segurança (de Lula) entraram na área da Grota e mataram 19 pessoas. É possível que a maioria fosse traficante e estivesse em confronto, mas não há como ter certeza: não houve perícia no local e, de acordo com o livro, provas foram destruídas pela polícia.
Três peritos examinaram os corpos na época e produziram para a Secretaria dos Direitos Humanos um relatório. Apresentaram "argumentos para embasar a afirmação de existência de execução sumária e arbitrária", entre eles o "grande número de orifícios de entrada na região posterior do corpo, numerosos ferimentos em regiões letais, elevada média de disparos por vítima, proximidade de disparos, sequência de disparos em rajada e armas diferentes utilizadas numa mesma vítima". Dos 78 tiros encontrados nos 19 corpos, 32 foram pelas costas.
Sempre que Lula e Cabral fossem ao Alemão, deveriam explicar como aquela operação contribuiu para dar paz às favelas. As crianças da Grota que ainda falam dos momentos de pavor que viveram naquele 27 de junho gostariam de ouvi-los.

Texto de Luiz Fernando Vianna, na Folha de São Paulo, de 2 de junho de 2009.


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quinta-feira, junho 04, 2009

O "contador de mortos" de Recife

O "contador de mortos" de Recife

Le Monde
Jean-Pierre Langellier

Em pleno coração de Recife, a grande cidade do Nordeste brasileiro, no cruzamento das ruas Joaquim Nabuco com Guilherme Pinto, o "contador de mortos" chama a atenção de motoristas e pedestres. Mas esse grande mostrador circular não tem nada a ver com os estragos da insegurança das estradas. Seus números contam os homicídios cometidos no Estado de Pernambuco, cuja capital é Recife. Ou melhor, "contavam", pois desde 1º de maio o contador está desligado, por falta de dinheiro para sua manutenção.

Para continuar a ser informado em tempo real sobre a mortalidade de origem criminal no Pernambuco, é preciso ir até a página inicial do site PEbodycount, onde se encontra o mesmo contador. Três números registram os homicídios cometidos nas últimas 24 horas, no mês e no ano em curso. Em 31 de maio, já se contavam 1.806 vítimas desde o início do ano, sendo que a grande maioria era na cidade de Recife. Nesse ritmo, serão quase 4.500 homicídios em 2009.

O PEbodycount foi lançado em março de 2007 por quatro jovens jornalistas de Recife: Rodrigo Carvalho, Eduardo Machado, Carlos Eduardo Santos e João Valadares. Todas as manhãs, inclusive aos domingos, um ou vários deles fazem cerca de 50 telefonemas às delegacias, aos hospitais e aos necrotérios de Pernambuco. Ao meio-dia, eles atualizam o contador.

Com a ajuda de um modesto subsídio - o equivalente a cerca de € 500 (R$ 1.385) -, eles instalaram o famoso mostrador e lançou o PEbodycount, "o blog da segurança pública". Eduardo Machado explica o sentido dessa iniciativa "de protesto", independente e sem fins lucrativos: "Ao contabilizar os cadáveres, chamamos a atenção da população e do poder público para a violência de Pernambuco. Mas além da preocupação e da perplexidade passiva, contribuímos para a busca de soluções coletivas. É difícil, mas é possível".

Na ocasião do lançamento de seu blog, os jornalistas quiseram causar uma comoção, conduzindo nas ruas, durante um mês, uma operação chamada "As marcas da violência".

Assim que ficava sabendo de um assassinato, a equipe, vestida de camiseta preta, ia até os lugares de carro, enchendo o porta-malas com material de pintura. Depois de obter informações junto às testemunhas do drama ou à família, ela estendia no chão um boneco de pano de forma humana, no lugar exato, às vezes ainda manchado de sangue, onde havia caído a vítima. Ela desenhava com um pincel os contornos do cadáver antes de pintá-lo com rolo em tinta vermelha, e de escrever sua mensagem em letras brancas: "Basta".

Isso se passava em um beco, em uma calçada ou às vezes no meio da rua, sob o olhar surpreso dos passantes. Às vezes um parente do morto ajudava a equipe, como esse pai que acabara de perder, pela segunda vez, um filho, morto a tiros. Algumas dessas intervenções simbólicas foram filmadas. Elas podem ser vistas no site PEbodycount.

"Essas pessoas assassinadas não são simples números", ressalta Eduardo Machado. Além da data e do local do homicídio, o blog fornece alguns detalhes sobre a vítima e as circunstâncias de sua morte. É o que mostram alguns desses exemplos pegos meio ao acaso, nos últimos dias.

Gleibson Augusto de Amorim, 29, foi morto a tiros em Olinda, quando ele saía de sua casa com sua esposa e um sobrinho. Roberto Teixeira dos Santos, pescador em Itapissuma, 20, foi assassinado em sua casa com seu cunhado. Maria Helena dos Santos, 57, mãe de família, foi vítima de um acerto de contas certamente ligado ao tráfico de drogas em Santa Cruz do Capibaribe. Sandro Ricardo da Silva, 22, morto em Recife, havia cometido no passado alguns pequenos furtos. Ávila Naiara Santos do Nascimento, um bebê de 7 meses, teve a cabeça esmagada com um pedaço de pau por seu tio materno, um borracheiro, que havia brigado com seus pais.

No blog também há declarações dos parentes das vítimas. Um médico e sua mulher, cujo filho Igor acabara de ser assassinado, dirigiu uma carta ao governador do Estado, Eduardo Campos: "Proteja bem seus filhos para não sentir um dia a nossa indescritível dor (...). E não se esqueça de incluir o Igor em suas estatísticas oficiais".

Os organizadores do PEbodycount interpelam as autoridades, que se apressam em publicar as "boas" cifras e em dissimular as "más", lembrando-os o tempo todo de seu dever de transparência: "Para combater um fenômeno", eles observam, "é preciso primeiro poder medi-lo com precisão". Recife tem uma tradição antiga de violência. Os homens sempre adoraram possuir uma arma, branca ou de fogo, e muitas vezes se massacram por bobagens. Hoje a cidade detém o triste recorde nacional da criminalidade de vítimas entre 15 e 24 anos.

Na favela Ayrton Senna, conta o jornalista João Valadares, garotos passeiam com seus "buldogues" (revólver de cano curto), ou suas "espadas" (um calibre 38). "Lá", diz nosso colega, "o destino dos adolescentes está praticamente traçado: a prisão ou o cemitério".

Tradução: Lana Lim

Texto do Le Monde, no UOL Notícias.

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quarta-feira, maio 06, 2009

Violência atinge indígenas na Colômbia

Tráfico expulsa índios da selva colombiana

Por SIMON ROMERO

NUNCIDO, Colômbia - Subindo e descendo os rios do oeste da Colômbia, um novo tipo de exército criminoso está se aprofundando na selva isolada, lutando com guerrilheiros pelo controle do comércio de cocaína e obrigando milhares de indígenas a fugir.
É o tipo de pesadelo muito comum na longa guerra da Colômbia: agricultores aterrorizados por atiradores que tentam dominar o interior.
Enquanto a guerra pelo controle do tráfico se intensifica nas fronteiras do país, com novos combatentes desejando ocupar rotas de tráfico e áreas de plantação de coca onde os índios extraem uma magra subsistência, aumenta o já alto número de baixas entre os indígenas. Pelo menos 27 grupos estão em risco de extinção por causa do conflito de 40 anos no país, segundo a ONU, e grupos de direitos humanos temem que a nova violência esteja penetrando ainda mais nas antigas terras indígenas.
Na região de selva de Chocó, mais de cem atiradores chegaram enquanto Johnny Caisamo colhia bananas. Os homens o espancaram, depois ameaçaram afogá-lo nas águas turvas do rio Cedro.
"Eles queriam saber onde os guerrilheiros estavam acampados", disse Caisamo, 18, um dos muitos índios emberas que narram recentes espancamentos, estupros ou ameaças de grupos armados. "Eles disseram que me matariam se eu não colaborasse."
As batalhas se desenrolam longe de grandes cidades como a capital, Bogotá, onde um governo confiante aplaude os recentes avanços militares contra rebeldes de esquerda e a desmobilização de milhares de paramilitares. Em outra região, as autoridades recentemente ajudaram um grupo indígena, os arhuacos, a recuperar terras de combatentes paramilitares.
A Colômbia tem cerca de 3 milhões de refugiados internos -perde apenas para o Sudão, segundo a ONU-, e seus indígenas suportam a maior parte do sofrimento. O último deslocamento dos emberas foi causado por um pânico coletivo depois de relatos de que os Rastrojos, um exército criminoso, violentou duas garotas emberas no início de março e matou um homem embera antes de queimar seu corpo diante de sua família. Testemunhas disseram que os atiradores foram de aldeia em aldeia, espancando, torturando e detendo temporariamente alguns líderes emberas para obter informações sobre os rivais dos atiradores, a facção Cimarrón do Exército de Libertação Nacional, o ELN, grupo rebelde que domina a área há anos.
Em Chocó, os emberas que fugiram no primeiro trimestre quase se igualam aos 2.400 deslocados em 2008, disse Luis Enrique Murillo, comissário de paz local.
Na última manifestação do conflito, novos grupos paramilitares como os Rastrojos, que se originaram como um sindicato de tráfico de cocaína ao redor da cidade de Cali, surgiram dos grupos desmobilizados. Às vezes eles usam alguns combatentes de grupos que formaram anos atrás para combater as guerrilhas de esquerda, mas também recrutam novos combatentes, segundo analistas.
Hoje esses grupos armados, despidos de suas antigas inclinações ideológicas, forjam alianças com rebeldes em algumas partes do país, enquanto iniciam conflitos em outras, como nesta região de Chocó. De qualquer modo, seu objetivo é o mesmo: dominar as áreas de plantação de coca e as rotas para enviar cocaína para o exterior, principalmente para os EUA.
O conflito encontrou nova vida em áreas como Chocó, em parte por causa dos sucessos do governo em outras áreas. Enquanto projetos de erradicação financiados pelos americanos reduziram a plantação de coca em certas áreas, o cultivo em Chocó aumentou 32% em 2007, segundo a ONU.
Em Puerto Meluk, porto fluvial cheio de bares e lojas que vendem substâncias químicas usadas para processar cocaína, refugiados emberas cozinhavam em um pântano que cheirava a esgoto e contaram histórias semelhantes às de rio acima: surras e ameaças em suas aldeias, depois o deslocamento.
Em uma casa, 11 famílias se amontoavam. Enrique Manyoma, 42, plantador de milho, contou sobre sua fuga da aldeia de Incirá. "Esta é minha filha, Marta Cecília", disse Manyoma, apontando para uma criança. "Ela nasceu aqui há oito dias. Enquanto os homem armados estiverem na selva, não acho que sua casa será em Incirá", lamentou.

Colaborou Jenny Carolina González em Bogotá

Texto do The New York Times, na Folha de São Paulo, de 4 de maio de 2009.


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