segunda-feira, outubro 18, 2010

A heroína corrói a Rússia

A heroína corrói a Rússia


Marie Jégo


Mais mortífera que o terrorismo, mais destrutiva que o álcool, a heroína é o flagelo número um na Rússia, país de população instável, único Estado industrial onde a expectativa de vida caiu consideravelmente nesses últimos 30 anos (60 anos para os homens). Segundo o general Viktor Ivanov, chefe do serviço de combate às drogas, todo ano 30 mil pessoas morrem vítimas do consumo de heroína, ou seja, bem mais que o saldo de mortos (13.500) da guerra afegã-soviética (1979-1989).


Embora a produção mundial de ópio tenha caído (8.890 toneladas em 2007, 7.754 toneladas em 2009), a Rússia absorve 21% da heroína produzida no Afeganistão, ou seja, 70 toneladas por ano. Vladimir Putin nomeou um de seus mais fiéis aliados – Viktor Ivanov, ex-oficial da KGB, como ele – para chefiar o combate ao narcotráfico, em vão. Os serviços competentes apreendem somente 4% das cargas transportadas para a Rússia. Impotentes, os serviços de Ivanov se limitam a constatar que 2 milhões de jovens, com idade entre 18 e 39 anos, são consumidores regulares.


Essa “geração perdida”, principal vítima da contaminação pelo vírus da Aids, pode ser vista nas grandes cidades industriais dos Montes Urais, no coração do tráfego rodoviário, ferroviário e aéreo com a Ásia Central. A droga passa pela Rússia através da fronteira com o Cazaquistão, com 7.000 quilômetros de extensão, e difícil de ser controlada.


Na Ásia Central, a antiga rota da seda funciona sem parar. Os países pobres e minados pela instabilidade e pela corrupção, tais como o Tadjiquistão e o Quirguistão, são pontos de passagem obrigatórios. Osh, a grande cidade do sul do país, palco de violentos massacres anti-uzbeques em junho, está no centro do tráfico.


Um uzbeque originário de Batken (ao sul de Osh), preferindo manter-se anônimo, conta: “Desde o fim dos anos 1990, toda minha família vive do tráfico, uma verdadeira dinastia. Meus tios, meus irmãos, meus primos ganharam uma fortuna com o dinheiro da droga”. Em um país onde o salário médio não passa de 70 euros (R$ 163), o dinheiro da droga é uma tentação fácil. Comprado a US$ 1.500 no Afeganistão, o quilo da heroína atinge US$ 6 mil quando chega à fronteira do Cazaquistão, e US$ 50 mil em Moscou.


O Quirguistão, que em vinte anos foi palco de dois massacres étnicos (Uzgen em 1990, Osh e Jalal-Abad em 2010) e de duas revoluções (deposição do presidente Askar Akayev em 2005 e de Kurmanbek Bakiyev em abril de 2010), minado pela economia pálida e dependente de ajuda internacional, é um elo importante na rota da heroína. As cargas viajam da fronteira tadjique, ao sul, até Osh. De lá, duas vias são possíveis: para o Uzbequistão a oeste ou para o Cazaquistão ao norte. Para terminar na Rússia.


A divisão das tarefas se faz de acordo com as realidades étnicas do sul quirguiz: “Os uzbeques transportam, os quirguizes dirigem”, explica nosso interlocutor. Como em todo o espaço pós-soviético, as estruturas de segurança e os governadores de região estão envolvidos: “É impossível passar qualquer coisa sem o aval das autoridades locais, que recebem até 70% das transações”. Não é de se surpreender que o sul do país tenha visto a ascensão, nesses últimos anos, de barões locais prontos a desafiar o governo central.


Durante o mandato do presidente Bakiyev (2005-2010), originário do sul, o dinheiro da droga correu abundante. Em 2008, o presidente mandou fechar, sem maiores explicações, o serviço de combate ao narcotráfico do ministério do Interior. Em 2009, aboliu a Agência de Controle de Narcóticos. Ao mesmo tempo, criou um fundo de investimentos e de inovações, pouco preocupado em relação à natureza dos fundos investidos, colocando em sua direção seu filho Maxime. O presidente Bakiyev hoje vive exilado em Minsk, mas seus partidários ainda são muito poderosos. Dizem que seu irmão Janych, que dirigia os serviços de segurança, hoje passa a maior parte de seu tempo entre o sul quirguiz e o Tadjiquistão. Prova de que os pró-Bakiyev são fortes, seu partido Ata-Jourt venceu as legislativas do dia 10 de outubro. Esses “sulistas” agora são a principal força do novo Parlamento, ponta de lança do projeto de república parlamentar lançado pela nova presidente Roza Otunbayeva.


Talvez o parlamentarismo acalme a situação no cenário político quirguiz, mas não terá efeitos sobre o tráfico. “O maior problema é a corrupção”, acredita o analista russo Alexandre Zelitchenko, citado pelo jornal “Komsomolskaia Pravda” do dia 8 de outubro. Mesmo se o Tadjiquistão, o Quirguistão e o Cazaquistão começassem a controlar melhor suas fronteiras, a corrupção dos altos funcionários e dos policiais parece invencível na Ásia Central e na Rússia.


No dia 1º de julho de 2009, dois oficiais do “Narkokontrol” russo foram encontrados mortos por overdose nos recintos do centro de combate às drogas da região oeste de Moscou. A investigação se apressou em concluir uma “intoxicação alimentar”. Seria porque uma das vítimas, Konstantin Khrustalyov, era genro do general Korzhakov, veterano da KGB e ex-guarda costas de Boris Yeltsin? Não se contam mais os casos de cumplicidade entre traficantes e os serviços de segurança. O estranho nome dado ao serviço de combate ao narcotráfico talvez tenha algo a ver com isso: “Serviço Federal para Controle do Fluxo de Drogas”. Como se o problema não fosse impedir o tráfico, e sim controlá-lo!”


Tradução: Lana Lim



Notícia do Le Monde, republicada no UOL.


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sábado, outubro 31, 2009

No Rio, policial é treinado para se achar um justiceiro, diz coronel

Rosanne D'Agostino
Enviada especial do UOL Notícias
No Rio de Janeiro

Ser policial no Rio de Janeiro virou sinônimo de controvérsia. Nas operações mais recentes na zona norte, moradores acusaram a polícia de chegar atirando, ocasionando a morte de inocentes, entre eles, a mãe de um bebê de 11 meses, baleada na favela Kelsons, Penha. Para especialistas, o que ocorre é fruto de um treinamento inadequado que, aliado aos baixos salários e uma política falha de Segurança Pública, faz com que o policial se sinta um "justiceiro" em uma guerra particular contra o tráfico.

"O policial do Rio é o mais mal pago, mal treinado, mora em áreas perigosas, em favelas, são submetidos a situações de estresse. Sempre há promessas de melhora, mas nunca nada é feito. Concordo absolutamente com o que o Maierovitch falou (em entrevista ao UOL Notícias - Assista aqui), de que eles são camicases", diz Julita Lemgruber, socióloga e ex-ouvidora da Polícia Civil do Rio.

A especialista em segurança critica a atual forma de combater o tráfico nos morros cariocas, por meio do confronto. "É uma política de inteligência limitada de que esses confrontos são a melhor saída. Tráfico existe em todos os lugares do mundo, mas só no Rio a polícia acha que deve chegar atirando. É preciso mais inteligência e menos truculência", defende.

Na pele da polícia
Jorge da Silva, hoje coronel reserva com 33 anos da Polícia Militar, diz que não anda mais armado por medo. "Quando eu era tenente, capitão, ficava achando que ia prender todo mundo. Mas eu acabei vendo que isso causava situações problemáticas, para mim e para os outros. Sou um perigo armado, sou uma bomba. Quando eu vejo uma injustiça, eu quero me meter", diz.

Isso acontece, segundo ele, pelo próprio treinamento. "O policial é treinado para se achar um salvador, arauto da justiça, um justiceiro. Diante de uma situação complicada, quer resolver tudo sozinho. Perdemos esses dias um coronel exatamente assim. Ele foi reagir a um assalto, achando que fosse resolver a situação, mas outro cúmplice estava na cobertura do bandido e atirou."

Silva nasceu no complexo de favelas do Alemão, um dos mais violentos da cidade. Entrou na PM aos 17 anos. "Existe essa tradição da valentia. O policial é muito afoito, de se indignar, mas ele precisa ser treinado para mediar. O que ocorre é que a polícia, lamentavelmente, é treinada como as Forças Armadas, o Exército, para combater um inimigo. Mas isso não é uma guerra. E, hoje, policiais e bandidos estão travando uma guerra particular no Rio de Janeiro."

Tiro pela culatra
A guerra, segundo o coordenador de Estudos e Pesquisas em Ordem Pública e Direitos Humanos da UERJ (Universidade do Estado do Rio), é acentuada com a atual política de confrontamento. "Quando se escolhe agir assim, é mais traumático. A ideia é conter a violência, mas isso parte de uma premissa falsa, que não leva em conta que outras pessoas podem morrer, que causa balas perdidas. O propósito é positivo, a intenção é a tranquilidade, mas não é isso que acaba acontecendo."

A isso, se soma a rotina estressante do próprio policial. "Muitos têm problema de alcoolismo, problemas neurológicos. Na polícia, isso se acentua muito. E a tensão não é só quando se está em serviço. É quando está de folga também. É uma tensão permanente, com relação à família. É drástica. E isso é fruto de uma construção antiga, de deixar tudo na mão da polícia. Cria uma guerrinha particular, entre bandido e polícia, como se criminalidade não fosse um problema de toda a sociedade."

Para Julita, "o Rio tem hoje uma polícia extremamente letal e isso não está trazendo paz para a população". "É uma polícia que atua reativamente. Não é invadindo favelas e saindo em seguida, deixando a população sem assistência, que vai se resolver o problema. É inaceitável que a polícia mate bandido. Inocente, menos ainda", completa.

Silva também considera que falta inteligência às ações. "É preciso adotar uma política que entronize a inteligência na polícia, para que ela haja com menos emoção nas ações, evitando mortes."

Ainda conforme a socióloga, o tráfico não justifica uma polícia cada dia mais armada. "No Rio acontecem quatro vezes mais homicídios do que em São Paulo. E dizer que os traficantes têm cada vez mais armas poderosas pode ser visto como mais uma forma de justificar a continuidade dessa truculência."

"Não que o tráfico não esteja bem armado. Indiscutivelmente, eles têm armamento pesado. Mas a polícia tem bem mais. O governo investe", complementa Silva. "Quando derrubaram o helicóptero, disseram que estavam com armas muito letais. Mas, se for seguir essa lógica, daqui a pouco vão querer helicópteros equipados com mísseis. Isso é um discurso de pessoas que querem uma polícia mais repressiva, mais belicista. Mas é uma maluquice", conclui.

Origem: UOL Notícias.

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quarta-feira, julho 15, 2009

O Tráfico de Cocaína na Guiné-Bissau

Traficantes sul-americanos ditam a lei na Guiné-Bissau

Jean-Philippe Rémy
Enviado especial a Bissau

No meio da noite, o bar sem nome no porto de Bissau parece ser a única luz na escuridão de uma cidade sem iluminação pública. Sob a fraca lâmpada aparece uma magra parcela do tráfico de drogas em escala industrial que se desenvolveu na Guiné-Bissau, país da África Ocidental assolado pela pobreza, por uma guerra civil (1998-1999) e por uma cultura nacional do assassinato político.

Sentado em uma mesa, o homem está nervoso. Carlos (vamos chamá-lo assim) tem a ponta do nariz queimada pelo consumo de crack (derivado de cocaína) fumado em pequenos cachimbos. A chama do isqueiro o deixou em carne viva. Carlos prefere dizer que foi ferido por uma dentada furiosa de sua namorada.

Nosso camarada se remexe em seu uniforme manchado. Ele derruba sua cerveja, levanta os braços para cima, perde a paciência. Essa noite, ele espera pela tripulação de um cargueiro italiano que ele diz ter ajudado a descarregar cocaína discretamente. Agora, o capitão deve "recompensá-lo" em espécie. Para concluir a transação, ele os seguirá nos bares do centro, onde estão sentados homens calados, de óculos escuros, com seus 4 x 4 estacionados por perto, e que riem às gargalhadas quando lhes perguntam o que eles fazem da vida.

Ali ficam somente os pequenos padrinhos locais da redistribuição local de cocaína, especialmente nigerianos. Para o grosso do tráfico, é preciso percorrer os bairros periféricos, fuçar perto dos casarões onde os chefões sul-americanos e seus homens administram as chegadas e partidas de toneladas de cocaína, enquanto evitam aparecer.

Rede global e consumo local, altos lucros e riscos de explosão política, é esse o resumo em linhas gerais do impacto da transformação brutal de um pequeno país perdido na plataforma de reexportação da cocaína sul-americana para a Europa. O problema é regional, do tamanho da África Ocidental. Desde 2005, "pelo menos 46 toneladas" de cocaína transitaram na Guiné-Bissau e nos países vizinhos, observa o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, sigla em inglês). O valor dessa cocaína em trânsito? Quase US$ 2 bilhões (R$ 3,86 bilhões) por ano. O suficiente para virar cabeças na Guiné, no Gana, em Serra Leoa ou nos países vizinhos, cabeças de ponte da rede. O volume do tráfico cresce, as apreensões se espaçam, o sistema político se deixa gangrenar pelos dólares do narcotráfico: a cocaína promete futuros violentos na África Ocidental.

A Guiné-Bissau é a primeira a ser atingida. Os assassinatos políticos ligados a disputas entre grupos militares e políticos rivais se multiplicam. Alguns dirigentes guineenses teriam constituído milícias com o dinheiro dos traficantes, na espera pelo resultado da eleição presidencial deste domingo (28). "É um país muito frágil", suspira Franco Nulli, representante da Comissão Europeia no país, antes de revirar os olhos com a primeira pergunta sobre as drogas e te dispensar.

A Guiné-Bissau ainda não se transformou em narco-Estado. Os cartéis não se entregam a acertos de contas sangrentos nas ruas adormecidas do centro da cidade, uma vez que seus chefes se preocupam mais com discrição do que com rivalidades suicidas.

Mas o consumo local de drogas já dispara. Os grupos da região envolvidos no tráfico (especialmente nigerianos e mauritanos), muitas vezes pagos em cocaína, disparam ou esfaqueiam sem pensar duas vezes. E apesar do auxílio do UNODC ao aparelho judiciário, os traficantes vivem na impunidade, uma vez que a política local já está sob influência dos traficantes de drogas.

Antonio Mazitelli, representante regional da UNODC, constata: "Os cartéis utilizam o país como base logística enquanto se aproveitam da existência de grupos rivais no seio do poder. Por enquanto, o maior perigo é a competição entre os grupos locais que administram a dimensão local do tráfico". Pois a competição entre pequenas redes de "mulas" já provoca mortes.

Luis Vaz Martins, advogado e presidente da Liga Guineense de Defesa dos Direitos Humanos, tenta investigar o assunto: "A cocaína mata, sobretudo quando um grupo detém uma certa quantidade de drogas que deve entregar para manter a pressão sobre aqueles que devem pagar". Ele trabalha com uma prudência felina sobre o caso de dois comerciantes libaneses recentemente crivados de balas em sua vizinhança, e sobre curiosos assassinatos no mar, "quando elementos concorrentes da marinha levaram tiros".

Um grupo de dirigentes militares havia aberto pistas de aterrissagem no sul do país. Especialmente em Kufar, bem ao lado de um quartel. Os "Gulf Stream" com sistemas de abastecimento para atravessar o Atlântico aterrissavam ali com "uma tonelada e meia de cocaína" em seus compartimentos, avalia um especialista.

A intervenção do ex-chefe do Exército, Tagmé Na Wai, foi decisiva para bloquear o tráfico, ao fechar as pistas e ameaçar abater qualquer avião que sobrevoasse território guineense. Desde então, o tráfico utiliza outros caminhos, pelo mar, chegando nas ilhas Bijagós, onde abundam estranhos hoteizinhos sem clientes, ou pelo ar. "Pode-se organizar aterrissagens em qualquer lugar. Chega-se a construir uma pista em duas semanas", comenta, abatido, Mazitelli.

Enquanto isso, a violência vence. Tagmé Na Wai foi aniquilado em um atentado em março, seguido pelo assassinato do presidente da República, Nino Vieira. Mortes previsíveis? "Tagmé fechou a torneira deles", garante uma fonte judiciária que implora para não ser identificada. "Era de se esperar que houvesse uma vingança".

Tradução: Lana Lim

Texto de Le Monde, no UOL.


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quarta-feira, maio 06, 2009

Violência atinge indígenas na Colômbia

Tráfico expulsa índios da selva colombiana

Por SIMON ROMERO

NUNCIDO, Colômbia - Subindo e descendo os rios do oeste da Colômbia, um novo tipo de exército criminoso está se aprofundando na selva isolada, lutando com guerrilheiros pelo controle do comércio de cocaína e obrigando milhares de indígenas a fugir.
É o tipo de pesadelo muito comum na longa guerra da Colômbia: agricultores aterrorizados por atiradores que tentam dominar o interior.
Enquanto a guerra pelo controle do tráfico se intensifica nas fronteiras do país, com novos combatentes desejando ocupar rotas de tráfico e áreas de plantação de coca onde os índios extraem uma magra subsistência, aumenta o já alto número de baixas entre os indígenas. Pelo menos 27 grupos estão em risco de extinção por causa do conflito de 40 anos no país, segundo a ONU, e grupos de direitos humanos temem que a nova violência esteja penetrando ainda mais nas antigas terras indígenas.
Na região de selva de Chocó, mais de cem atiradores chegaram enquanto Johnny Caisamo colhia bananas. Os homens o espancaram, depois ameaçaram afogá-lo nas águas turvas do rio Cedro.
"Eles queriam saber onde os guerrilheiros estavam acampados", disse Caisamo, 18, um dos muitos índios emberas que narram recentes espancamentos, estupros ou ameaças de grupos armados. "Eles disseram que me matariam se eu não colaborasse."
As batalhas se desenrolam longe de grandes cidades como a capital, Bogotá, onde um governo confiante aplaude os recentes avanços militares contra rebeldes de esquerda e a desmobilização de milhares de paramilitares. Em outra região, as autoridades recentemente ajudaram um grupo indígena, os arhuacos, a recuperar terras de combatentes paramilitares.
A Colômbia tem cerca de 3 milhões de refugiados internos -perde apenas para o Sudão, segundo a ONU-, e seus indígenas suportam a maior parte do sofrimento. O último deslocamento dos emberas foi causado por um pânico coletivo depois de relatos de que os Rastrojos, um exército criminoso, violentou duas garotas emberas no início de março e matou um homem embera antes de queimar seu corpo diante de sua família. Testemunhas disseram que os atiradores foram de aldeia em aldeia, espancando, torturando e detendo temporariamente alguns líderes emberas para obter informações sobre os rivais dos atiradores, a facção Cimarrón do Exército de Libertação Nacional, o ELN, grupo rebelde que domina a área há anos.
Em Chocó, os emberas que fugiram no primeiro trimestre quase se igualam aos 2.400 deslocados em 2008, disse Luis Enrique Murillo, comissário de paz local.
Na última manifestação do conflito, novos grupos paramilitares como os Rastrojos, que se originaram como um sindicato de tráfico de cocaína ao redor da cidade de Cali, surgiram dos grupos desmobilizados. Às vezes eles usam alguns combatentes de grupos que formaram anos atrás para combater as guerrilhas de esquerda, mas também recrutam novos combatentes, segundo analistas.
Hoje esses grupos armados, despidos de suas antigas inclinações ideológicas, forjam alianças com rebeldes em algumas partes do país, enquanto iniciam conflitos em outras, como nesta região de Chocó. De qualquer modo, seu objetivo é o mesmo: dominar as áreas de plantação de coca e as rotas para enviar cocaína para o exterior, principalmente para os EUA.
O conflito encontrou nova vida em áreas como Chocó, em parte por causa dos sucessos do governo em outras áreas. Enquanto projetos de erradicação financiados pelos americanos reduziram a plantação de coca em certas áreas, o cultivo em Chocó aumentou 32% em 2007, segundo a ONU.
Em Puerto Meluk, porto fluvial cheio de bares e lojas que vendem substâncias químicas usadas para processar cocaína, refugiados emberas cozinhavam em um pântano que cheirava a esgoto e contaram histórias semelhantes às de rio acima: surras e ameaças em suas aldeias, depois o deslocamento.
Em uma casa, 11 famílias se amontoavam. Enrique Manyoma, 42, plantador de milho, contou sobre sua fuga da aldeia de Incirá. "Esta é minha filha, Marta Cecília", disse Manyoma, apontando para uma criança. "Ela nasceu aqui há oito dias. Enquanto os homem armados estiverem na selva, não acho que sua casa será em Incirá", lamentou.

Colaborou Jenny Carolina González em Bogotá

Texto do The New York Times, na Folha de São Paulo, de 4 de maio de 2009.


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As máfias da droga venceram...

As máfias da droga ganharam a guerra. E agora, o que faremos?

El País

Fernando Peinado Alcaraz

A luta contra as máfias fica sempre aquém de sua capacidade de regenerar-se, e cada vez mais instituições pedem para reconhecer o fracasso e atacar a demanda

As máfias da droga se regeneram como a hidra da mitologia grega. Quando a luta policial bloqueia uma rota, ressurgem por um novo caminho; quando os campos de folha de coca ou de ópio são fumigados, deslocam as plantações para outro lugar. Apesar de a caça mundial ao narcotráfico ter dado poucos frutos - os contrabandistas são cada vez mais poderosos, as drogas mais baratas e abundantes -, a maioria dos países resiste a experimentar alternativas além de uma perseguição esquizofrênica, cara e contraproducente. Há métodos mais eficazes para ganhar a guerra das drogas?

A questão ganhou força nos últimos meses. Era preciso avaliar a estratégia traçada em 1998 pela ONU para um período de dez anos, e os especialistas proclamaram a derrota na batalha contra os narcos e pediram o abandono de uma estratégia repressiva que utopicamente definiu como objetivo "um mundo livre das drogas".

Para alcançar essa meta, alguns governos apostaram em erradicar a origem do mal. Mas as campanhas para eliminar com herbicida as colheitas de coca sul-americanas foram um desperdício de dinheiro, principalmente dos EUA: só conseguiram transferir as plantações para lugares mais escondidos e inacessíveis, e a produção mundial não diminuiu.

Também não funcionou bloquear as narco-rotas. Embora a ONU estime que atualmente se apreendem cerca de 42% da produção mundial de cocaína e 23% da de heroína, os especialistas em política antinarcóticos questionam a confiabilidade desses números e argumentam que a quantidade de droga que se vende nas ruas europeias ou americanas é cada vez maior, como prova a queda dos preços de venda, de 10% a 30% na última década.

Quanto mais as forças da ordem dificultaram a vida dos cartéis, mais engenho e recursos estes investiram. Um dos últimos exemplos da inesgotável capacidade do crime organizado para burlar as forças da lei são os narco-submarinos. São construídos em estaleiros clandestinos na selva colombiana e têm capacidade para transportar dez toneladas de cocaína, à flor da água, rumo ao lucrativo mercado americano.

A Guarda Costeira dos EUA, que já implementou um investimento milionário em sensores aquáticos, interceptou em 2008 uma média de dez semi-submersíveis por mês, embora estime que quatro em cada cinco chegam ao seu destino sem ser avistados. Os chefões da cocaína da Galícia (Espanha) usaram um narco-submarino pelo menos uma vez, em 2006, quando a Guarda Civil encontrou um abandonado na ria de Vigo.

Esta P&D do tráfico de drogas cresce alimentada pela suculenta recompensa que representa cada operação realizada com sucesso. Se fosse um país, a narcoindústria seria a 21ª economia mundial, segundo a ONU, com um PIB anual de € 243 bilhões, logo atrás da Suécia, com € 272 bilhões. No Terceiro Mundo, os narcos são os empresários mais poderosos. Como na África Ocidental, onde países como Guiné-Bissau têm no comércio de mangas com a Índia sua principal fonte de renda legal. Com esses incentivos, não é estranho que, apesar das batidas policiais, sempre haja alguém disposto a arriscar passar a vida entre as grades para entrar no negócio.

"Os contrabandistas pagam aos agricultores US$ 300 pela folha de coca necessária para produzir um quilo de cocaína, que nas ruas americanas, vendida em doses de 1 grama a US$ 70 lhes dará US$ 100 mil", explica Peter Reuter, professor da Universidade de Maryland e um dos mais reputados especialistas em políticas antidrogas, que não acredita que destinar mais recursos à repressão possa reduzir significativamente o volume de droga disponível nos mercados consumidores, EUA e Europa. "Seria mais eficaz diminuir a forte demanda de drogas nos países consumidores do que continuar insistindo em um controle inviável da oferta", opina Reuter.

"É imperativo retificar a estratégia de guerra às drogas aplicadas nos últimos 30 anos", critica um relatório publicado em fevereiro pela Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia, com três ex-presidentes entre seus membros: Ernesto Zedillo (México), Fernando Henrique Cardoso (Brasil) e César Gaviria (Colômbia). "As políticas proibicionistas (...) não produziram os resultados esperados. Estamos mais longe que nunca do objetivo declarado de erradicação das drogas."

O relatório acusa os EUA e a Europa de não fazer o suficiente para prevenir ou curar o apetite por drogas de seus cidadãos, que estimula a produção e o tráfico do resto do mundo. Apesar dos volumosos recursos investidos em políticas antidrogas (US$ 40 bilhões ao ano nos EUA e € 34 bilhões na UE), só um em cada € 4 é destinado à prevenção do consumo, enquanto o restante é investido em repressão ao crime.

Não é por acaso que as queixas provêm da região que é o principal campo de batalha na guerra contra os cartéis: no México, o desafio criminoso ao governo deixou mais de 7 mil mortos desde janeiro de 2008 (superando os 6.628 registrados na Palestina e Israel entre 2000 e 2008 pela ONG B'Tselem), e a sangria se estende por países vizinhos, como Guatemala e Honduras. A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, reconheceu que por não ter contido o consumo doméstico de drogas seu país é co-responsável pelo drama ao sul da fronteira.

Apostar em alternativas não significa que seja preciso baixar a guarda diante dos narcos, adverte Antonio María Costa, diretor-executivo do Agência da ONU contra as Drogas e o Crime (Unodc na sigla em inglês), um órgão que assiste e coordena os governos. Costa critica que haja lobbies pró-drogas que defendem a legalização como solução. "Não há necessidade de sacrificar a proteção da saúde do cidadão para reduzir o crime. Ambos os objetivos são compatíveis", afirma.

Durante muito tempo, qualquer dissidência do discurso clássico proibicionista levantou suspeitas. Agora que os cartéis causam mais estragos que nunca, na América Central, África Ocidental ou Afeganistão, muitos se perguntam qual o sentido de os países terem deixado as máfias enriquecerem com o monopólio da droga, e propõem um regime de legalização controlado que lhes tiraria a participação de mercado.

"Eu não estranharia que em cinco ou dez anos surja com força na Europa o debate para legalizar a venda de maconha", afirma Ethan Nadelmann, diretor-executivo da Aliança pela Política de Drogas, uma organização que promove a legalização da venda controlada de maconha nos EUA. Em seu país, o principal porta-bandeira da guerra contra as drogas, ainda são presos os consumidores, mas o governo Obama acaba de romper o tabu reinante durante décadas sobre alternativas contra as drogas com o anúncio de que apoiará com verbas federais os programas de distribuição de seringas para viciados.

"O debate para abandonar o proibicionismo nunca esteve tão quente nos EUA em 30 anos", afirma Nadelmann. "Obama é mais inclinado a mudar o rumo, e isso vai afetar o resto do mundo porque reduzirá as pressões na Europa para avançar para políticas mais progressistas", ele argumenta.

Partidários ou não da legalização, a filosofia que move os críticos do proibicionismo é que a sociedade deve se acostumar a conviver com as drogas e a reduzir os efeitos mais nocivos destas. "O ideal que continua movendo muitos governos é a erradicação total das drogas", constata Iván Briscoe, especialista da Fundação para Relações Internacionais e o Diálogo (Fride) em narcotráfico. "No entanto, não há uma política realista que se proponha a reduzir outros crimes, que não levam aparelhada uma carga de moralidade tão extrema, como o furto ou o roubo de propriedades."

Reuter acredita que, em última instância, a influência que o Estado pode exercer sobre a quantidade de droga que se consome é limitada porque são valores culturais e sociais que entram em jogo. "Há países com um consumo muito baixo apesar de nunca terem criado uma política pública antidrogas."

Os paladinos da batalha sem quartel contra os traficantes reconhecem sua derrota, mas a atribuem à escassa coordenação policial e à pouca vontade dos governos para acabar com a lavagem de dinheiro. O esforço até agora foi uma colcha de retalhos de ações nacionais, e a cooperação não foi além do intercâmbio de informação e assistência técnica.

Haveria necessidade de uma força policial mundial? "Não é necessário pôr os policiais sob um mesmo comando", contesta Amado Philip de Andrés, encarregado de desenvolvimento de programas da Unodc na América Latina. "O que nos preocupa é a pouca cooperação que houve até agora." Markus Schultze-Kraft, diretor na América Latina do International Crisis Group, uma influente organização que assessora os governos em segurança, acredita que uma polícia internacional do narcotráfico é algo idealista.

"Ainda é difícil fazer-se entender os policiais de dois países que não compartilham o idioma, como Alemanha ou Espanha, quando trabalham em um corpo de intercâmbio de informação como o Europol." Schultze-Kraft destaca o avanço que representa o Centro de Análise e Operações contra o Narcotráfico por Via Marítima (MAOC-N na sigla em inglês), em operação desde 2007. Com sede em Lisboa, pretende vigiar a costa entre a África do Sul e a Noruega, como faz desde 1989 do outro lado do Atlântico a americana Força-Tarefa Conjunta Interagências Sul (JIATF na sigla em inglês).

A Espanha, ponto quente em muitas das narco-rotas, é um dos países que mais gastam em luta policial contra a droga. Tenta proteger sua extensa fronteira costeira com uma sofisticada e dispendiosa mobilização de câmeras e sensores, o Sistema Integrado de Vigilância Exterior (SIVE), que já cobre Andaluzia, Múrcia e as ilhas Canárias, mas não espantou os narcotraficantes.

Sabem disso em Cádiz, província pioneira na instalação do SIVE, que apesar dos sucessos policiais - 25% das apreensões de droga da Espanha em 2008 - registra um tráfico cada vez mais intenso, como advertiu em diversas ocasiões a promotora antidrogas de Cádiz, Ángeles Ayuso.

"Quando desarticulam uma organização, no dia seguinte há outros dispostos a ocupar seu lugar", critica Francisco Mena, presidente há 20 anos da Coordenadoria de Associações Antidrogas da província e conhecedor dos impulsos que levam tantos para as redes criminosas: "Um adolescente que vigia na praia a presença de guardas civis ganha cerca de € 1.500, o que vende ganha entre € 3 mil e € 4 mil e o que a leva em seu carro, cerca de € 6 mil".

Apesar de tudo, e embora Cádiz seja uma das províncias andaluzas com maior consumo, Mena reconhece que a situação de segurança hoje é melhor que antes da implantação do SIVE. O Plano Nacional sobre Drogas deu ênfase crescente à prevenção e ao tratamento dos narcodependentes. Em 2004 o plano deixou de estar sob a órbita do Ministério do Interior para ser coordenado pela Saúde, marcando a passagem de um enfoque de ordem pública para a proteção da saúde.

"É preciso aprofundar na prevenção, mas o problema das drogas apresenta muitas faces e precisa de atuações em uma diversidade de âmbitos", afirma a delegada do Plano Nacional de Drogas, Carmen Moya: "É verdade que as medidas repressivas exclusivamente não resolvem o problema, mas não podemos reduzir os meios policiais". Se em 2003 havia 3.491 policiais e guardas civis combatendo o crime organizado, hoje são 10.653 os agentes dedicados a esse trabalho.

Em 2009 está prevista a ampliação do SIVE para leste, para conter a entrada de drogas pelo delta do Ebro, mas os narcos inauguraram uma nova via de acesso muito mais permeável, pela estrada dos Bálcãs, intensificaram a rota africana da cocaína e continuam colocando droga em botes de borracha, avionetas, contêineres de mercadorias ou nos intestinos de "mulas" em voos comerciais. A criatividade e a sofisticação dos traficantes parece não ter fim. A Polícia Nacional de Barcelona interceptou em 20 de março um pacote procedente da Venezuela que continha um aparelho de 42 peças - copos, pratos e vasilhas - fabricado com cocaína.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Texto do El País, no UOL.


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quinta-feira, abril 23, 2009

México: o fim de um delicado equilíbrio

O fim de um delicado equilíbrio

A recente promessa da secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, de ficar “ombro a ombro” com o México na sua guerra às drogas nos levou a lembrar de quando éramos crianças e nossa família se mudou dos subúrbios de Tel Aviv, Israel, para El Paso, no Texas.
Um israelense chamado Giora se tornou nosso guia e, naquela primeira semana, nos mostrou os arredores, chegando a cruzar a fronteira com Ciudad Juárez, no México.
Quando encostamos para estacionar, um policial mais velho, ligeiramente obeso, se aproximou. A julgar só pela roupa, suspeitar-se-ia que ele apenas fingia ser da polícia. Sua farda estava esfarrapada, a camisa ficava para fora da calça, e o quepe era velho e surrado. Ele se aproximou de mão estendida, educadamente esperando um pagamento.
“Mas estacionar nesta rua deveria ser grátis”, protestou nosso pai, um israelense consumado. Giora lhe dirigiu um olhar “cala a boca” e entregou dois dólares ao agente. “A taxa é para proteção”, explicou ele. “Você paga ao agente para ‘guardar’ o carro. Claro que, se não pagar, seu carro é misteriosamente vandalizado.”
Rapidamente percebemos que Ciudad Juárez funcionava sob regras diferentes. Policiais, políticos e traficantes formavam alianças e às vezes trocavam de papel. Mas, surpreendentemente, apesar de toda a corrupção, Ciudad Juárez era relativamente ordeira. Turistas norte-americanos lotavam as lojas durante o dia, e adolescentes de El Paso faziam festa à noite. Embora longe de ser um lugar idílico, Ciudad Juárez mantinha um certo equilíbrio.
Tal equilíbrio foi perturbado pela guerra dos Estados Unidos às drogas, e nos perguntamos se o governo dos EUA caiu na mesma armadilha que nós com o agente de trânsito: ver a situação pela lente americana, deixando de reconhecer que regras diferentes vigoravam.
Ao longo dos anos, Washington pressionou o México a reprimir os cartéis de drogas. Em 2006, quando o então presidente mexicano, Vicente Fox, propôs legalizar a posse de pequenas quantidades de narcóticos, o governo Bush o pressionou até que revertesse sua posição.
Quando o atual presidente, Felipe Calderón, tomou posse, imediatamente passou a reprimir as quadrilhas do tráfico. Como recompensa, o presidente Bush destinou US$ 1,4 bilhão para apoiar os esforços mexicanos.
Mas no momento em que Calderón colocou os cartéis na mira, o frágil equilíbrio do México se rompeu. A mera ilegalidade se transformou em violência. Os cartéis começaram a retaliar contra a polícia e o governo —e a lutar entre si. Além disso, para compensar a perda de faturamento, os cartéis passaram a se envolver com tráfico humano, extorsão e sequestros.
Desde que Calderón declarou guerra aos traficantes, mais de 8.000 pessoas já morreram. Recentemente, houve uma ameaça contra o chefe de polícia de Ciudad Juárez: renuncie ou começaremos a matar policiais, um a cada 48 horas. Após quatro dias e dois homicídios, ele renunciou e fugiu para os EUA. E as drogas estão sendo traficadas tão agressivamente quanto antes.
Assim como não podemos separar guardas de trânsito desonestos isoladamente do sistema em que operam, os EUA precisam entender que enfrentar os cartéis perturba um frágil equilíbrio. Certamente não devemos ser lenientes com eles, mas, se realmente pretendemos ficar ombro a ombro com o México, uma solução viável deve levar em conta o equilíbrio de poderes no sistema com o qual estamos lidando.


Ori Brafman e Rom Brafman são irmãos e coautores de “Sway: The Irresistible Pull of Irrational Behavior”. Envie seu comentário para brafmans@nytimes.com .

Texto do The New York Times, na Folha de São Paulo, de 06 de abril de 2009.


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quinta-feira, abril 02, 2009

Ciência viciada

Ciência viciada

JOSÉ MARIA E SILVA

EM RECENTE defesa da descriminalização da maconha, Fernando Henrique Cardoso afirmou que o debate sobre a legalização das drogas enfrenta um tabu que precisa ser quebrado. Trata-se de miragem do ex-presidente, já que a descriminalização das drogas -incluindo a defesa explícita da legalização da maconha- não sai da pauta da imprensa e das universidades, permeando até os "temas transversais" do MEC, impostos às crianças nas escolas. Na prática, o uso de drogas já foi legalizado no país, com a bênção de tucanos e petistas -ideologicamente ecumênicos quando se trata de subverter costumes.
A lei nº 11.343, de 23 de agosto de 2006, que institui o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas, aboliu qualquer punição para os usuários. A pena máxima é a prestação de serviços à comunidade, que, se não for cumprida, acarreta simples "admoestação" por parte do juiz, até que o crime prescreva. E quem sofre as consequências é o bolso do contribuinte. Para a nova lei, consumir drogas é um direito inalienável do usuário, e curar sua dependência, um dever incondicional do Estado.
Essa tendência já havia sido antecipada pela Assembleia Legislativa de São Paulo, que, em 9 de fevereiro de 2006, derrubou veto do governador do Estado e, num arroubo de independência não muito comum no Parlamento brasileiro, promulgou, por decreto legislativo, a lei estadual nº 12.258, que confere privilégios aos usuários de drogas sem lhes impor nenhum dever. Essas leis nasceram de uma tese hegemônica nos meios acadêmicos: a política de redução de danos -eufemismo com que intelectuais universitários disfarçam sua apologia ao uso de drogas.
O brasileiro nem sonha, mas existe até a "Declaração dos Direitos dos Usuários de Drogas", que, obviamente, não foi feita por uma Constituinte de usuários, mas por acadêmicos financiados pelo contribuinte. Subscrita pelo Cebrid (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas), da Universidade Federal de São Paulo, a declaração finge-se arauto da ciência de ponta, mas não passa de entulho ideológico do Maio de 68. Nela se alicerçam a nova lei sobre drogas e as políticas do MEC e do Ministério da Saúde na área.
Professores universitários, a quem cabe a educação da juventude, proclamam, na referida declaração, o seguinte mandamento: "Conclamamos as organizações não governamentais e governamentais a incluir usuários de drogas em seus conselhos, gerências e direções". Ou seja, as universidades estão defendendo cotas para drogados nas mesas diretoras do Congresso, nos gabinetes ministeriais e nas cortes de Justiça. Deve ser por isso que os autores da declaração condenam, veementemente, o exame antidoping.
Mas, enquanto não chega o mundo sonhado por essa espécie de "Manifesto Consumista" dos acadêmicos (versão lisérgica do "Manifesto Comunista" de Marx), a deputada Cida Diogo (PT-RJ), apoiada por Rita Camata (PMDB-ES), contenta-se em impor ao mundo real dos usuários do SUS os privilégios dos usuários de drogas. Cida Diogo é autora de projeto de lei que obriga o SUS a dar a eles, entre outros insumos, agulhas e seringas descartáveis. A expressão "outros insumos" abre brecha para que o SUS distribua a própria droga, como a maconha, usada como alternativa de redução de danos para viciados em crack. O projeto está sendo aprovado sem passar pelo plenário da Câmara, como se o luxo da distribuição de seringas para viciados não merecesse debate diante da miséria da falta de medicamentos para crianças nos postos de saúde.
Mais grave é que a atuação dos especialistas encarregados da redução de danos oscila entre a incapacidade e a inconsequência. O próprio Ministério da Saúde, em um texto sobre álcool e drogas recomendado em seu site para crianças de 12 anos, mistura vulgaridade, lascívia e imprecisão, ao comparar a "fissura" proporcionada pelo crack ao prazer do orgasmo -aguçando dupla e criminosamente a curiosidade das crianças. E ainda nega, taxativamente, que a cocaína produza tolerância e síndrome de abstinência, numa indisfarçável apologia da droga para menores, contrariando a lei e a ciência.
Eis, portanto, a danosa política de redução de danos. Ela se alicerça na crença pueril de que o drogado -useiro e vezeiro em escarnecer da lei, da pátria e da família- vai obedecer feito criança as recomendações dos engenheiros sociais. Ainda que quisesse fazê-lo, de nada adiantaria. A "Declaração dos Direitos dos Usuários de Drogas" é uma prova de que a ciência de muitos especialistas é mais alucinada do que delírio de viciado.


JOSÉ MARIA E SILVA, 45, jornalista, é mestre em sociologia pela Universidade Federal de Goiás, com dissertação sobre violência nas escolas.

Texto publicado na Folha de São Paulo, de 23 de março de 2009.


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terça-feira, março 17, 2009

O crescente poder do exército mexicano El País

O crescente poder do exército mexicano

El País

Pablo Ordaz
No México

A cada segundo que passa, o exército tem mais poder no México. Todo mundo sabe - principalmente Felipe Calderón - que sem o exército teria sido impossível empreender e manter a atual guerra ao narcotráfico. Primeiro, porque boa parte dos 1.600 corpos policiais do país estavam infiltrados ou diretamente comprados pelo crime organizado. Segundo, porque a única maneira de construir uma polícia federal com rapidez é abastecê-la - por cima e por baixo - de militares. Oitenta por cento dos policiais federais mobilizados nas áreas de conflito são antigos soldados agora vestidos de azul. E um bom número dos cargos de direção na Secretaria de Segurança Pública - equivalente ao Ministério do Interior - está sendo ocupado por generais aposentados. Ainda há uma terceira questão: Calderón confia no exército. Ou, melhor dizendo, Calderón só confia no exército.

Até aqui o que se vê é a primeira linha de fogo. Mas o exército também está tendo um papel principal em outros âmbitos ainda mais delicados. Diante das eleições de julho, os partidos estão polindo suas candidaturas. Uma das principais preocupações dos respectivos dirigentes é não colocar como candidato os personagens captados pelo narcotráfico. Vista a situação no México, não deve ser tarefa fácil separar o grão da palha.

Alguns dirigentes admitem em particular que nos casos de dúvida estão pedindo à Secretaria da Defesa que investigue o passado, as amizades e as propriedades dos possíveis candidatos. A situação é tão delicada que a deputada espanhola Elena Valenciano, em visita ao México na qualidade de secretária das Relações Internacionais do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE, no governo da Espanha), ouviu em algum de seus encontros com líderes políticos mexicanos: "Tememos que em algumas áreas o narcotráfico tente comprar os três candidatos para ter o poder local ganhe quem ganhar..." O exército patrulhando as ruas, o exército investigando os civis, o exército sabendo-se imprescindível...

A situação enche de orgulho os militares, mas também de preocupação. Eles sabem que o trabalho policial que estão executando por ordem do presidente da República se situa na borda da lei. Controles de estradas, detenção de civis, choques armados. Os chefes militares já pediram a Felipe Calderón uma blindagem jurídica que os ponha a salvo de possíveis denúncias. Ou, o que é o mesmo: mais poder. Por isso não são poucos os setores - sobretudo da esquerda - aos quais esta situação preocupa extremamente. Embora Calderón costume repetir que a mobilização militar terminará no mesmo dia em que deixe de ser necessária, há quem se pergunte: "E eles vão querer deixar de ter tanto destaque na vida do México; os militares vão querer voltar à vida aborrecida dos quartéis?"

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Texto do El País, no UOL.

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sábado, novembro 29, 2008

México: Outro alto oficial preso por envolvimento com tráfico de drogas

Outro oficial é preso por tráfico no México

Mario Velarde é da cúpula de unidade antidrogas da polícia federal e ex-assessor da Secretaria de Segurança

DA REUTERS

Um dos chefes da unidade antidrogas da polícia federal do México e ex-assessor da Secretaria de Segurança foi preso anteontem por suposto envolvimento com o narcotráfico, disseram fontes que pediram anonimato. Mario Velarde é o segundo oficial de polícia de alto escalão a ser detido nesta semana, em outra ação desatada pela "Operação Limpeza".
Segundo a imprensa mexicana, Velarde já é o quinto auxiliar do secretário de Segurança, Genaro Garcia Luna, a ser investigado pela PGR (Procuradoria Geral da República), que leva a cabo a "Operação Limpeza". Ele foi identificado por foto por uma testemunha protegida pela DEA (agência americana de combate às drogas).
Assim como Ricardo Gutiérrez, chefe de operações da Interpol no México, detido no domingo, Velarde foi preso preventivamente, de acordo com a fonte. As acusações contra ele não foram especificadas, mas as investigações realizadas pela PGR na "Operação Limpeza" focam o vazamento de informações confidenciais por funcionários públicos ao tráfico.
A ofensiva da PGR integra os esforços do governo Felipe Calderón de combater os cartéis de narcotraficantes que disputam as rotas da droga para os EUA. A espiral de violência gerada a partir das ações de Calderón, que colocou 36 mil soldados no combate ao tráfico, causou, estima-se, entre 4.300 e 5.000 mortes apenas neste ano.

Texto da Folha de São Paulo, de 21 de novembro de 2008.


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quinta-feira, outubro 02, 2008

O México vive sob o terror do narcotráfico

O México vive sob o terror do narcotráfico
O México vive dias de chumbo e sangue. Os narcotraficantes, infiltrados na polícia e na política, responderam à pressão do Exército e dos federais com uma guerra sem quartel. Ninguém está a salvo

Pablo Ordaz

Baixa a voz, olha de soslaio para um casal que toma café numa mesa vizinha e solta a pergunta:

- Contaram para você o que aconteceu num salão de cabeleireiro de Culiacán?

O barulho de um helicóptero do Exército voando muito baixo interrompe todas as conversas na praça de Morelia, capital do Estado de Michoacán. A cidade colonial está tomada desde que, na noite de 15 de setembro, que coincidiu com a celebração do grito de independência, duas granadas lançadas contra a multidão causaram a morte de nove pessoas e feriram uma centena.

Os soldados e os policiais, alguns deles encapuzados e portando rifles R-15, cruzam com vendedores de balões e casais de adolescentes de mãos dadas. Um segundo helicóptero segue o rastro do primeiro. Ninguém mais levanta os olhos. Numa das esquinas da catedral - em frente ao Palácio de Governo - continuam acesas as velas que os moradores colocaram para honrar as vítimas do primeiro atentado narcoterrorista da história do México. A noite vai se tingindo com os brilhos azuis e vermelhos dos carros da polícia.

- Onde?

- Num salão de cabeleireiro de Culiacán, no Estado de Sinaloa...

O cabeleireiro estava atendendo uma cliente regular. Outra mulher esperava sua vez folheando uma revista. A cliente se queixava com amargura da onda de violência inusitada da qual o México padece, sobretudo nos Estados do norte. Entre eles, a cidade de Sinaloa, berço dos narcotraficantes mais famosos; um lugar onde a metade das mortes acontece por tiros e onde os jovens assassinos mortos em combate descansam em mausoléus de mármore adornados com seus retratos. Há murais de até cinco metros nos quais é possível admirá-los empunhando um chifre de cabrito (o famoso rifle AK-47) ou posando em frente ao avião Cessna que pilotavam, carregado de drogas. A mulher se queixava no salão do mesmo que todo mundo se queixa no México. "Os traficantes já não matam apenas entre si". Em sua corrida ensandecida pelo controle dos lugares, em seus enfrentamentos quase diários com o Exército, já não importa que morram inocentes. O caso mais doloroso é o de Creel, uma cidade turística do Estado de Chihuahua. Um bebê e 12 adultos foram crivados com balas capazes de esburacar blindados. As pessoas recolheram 170 cápsulas do chão. Havia muito sangue. A polícia demorou muito tempo para chegar. Estranhamente, não havia nenhum policial nas proximidades. O crime das vítimas foi cruzar a rua principal da cidade junto com dois jovens assassinos, no mesmo momento em que um cartel rival estava atrás deles. Cento e setenta disparos.

- Já não dá mais para viver aqui - queixou-se a cliente para o cabeleireiro -, não podemos nem deixar nossos filhos brincarem na rua. E tudo por culpa do maldito narcotráfico...

Nesse momento, a segunda mulher, que havia permanecido em silêncio todo o tempo, levantou os olhos e disse uma palavra, só uma, dirigindo-se ao cabeleireiro:

- Raspe! [a cabeça dela].

O homem, assustando, tentou mediar, mas a ordem repetida era muito clara. Sobretudo porque vinha enfatizada por um revólver que a mulher acabava de tirar do bolso.

- Raspe!

Só quando se certificou de que o cabeleireiro havia começado a cumprir sua ordem, a desconhecida levantou-se e dirigiu-se à porta. Antes de ir embora, encarou a mulher e a advertiu:

- E não use peruca. Se usar, eu te mato.

O policial, sentado sob a galeria da praça de Morelia, ri da história. Diz que tem todo um repertório de casos iguais ou piores que esse. Histórias de terror que demonstram que o narcotráfico mexicano - conhecido como "el narco" no país - está deixando de ser um assunto distante, um mito refugiado nas mansões inacessíveis da terra quente de Michoacán ou nos corredores do tráfico de Los Tigres Del Norte. O narcotráfico está cada dia mais presente na vida cotidiana de muitos mexicanos. "E a razão é muito simples e muito complicada ao mesmo tempo", explica o policial, "mas não se apresse, vou explicar".

Sua análise coincide com a de outras fontes consultadas, e, ainda que cheia de matizes, pode ser resumida assim: os narcotraficantes mexicanos têm cada vez mais problemas para transportar a droga pelo México para introduzi-la nos Estados Unidos. Em primeiro lugar, a culpa é do governo de Felipe Calderón, que está transformando a luta contra o crime organizado no eixo de sua legislatura. Empenhou-se em retirar os corruptos da polícia - tarefa nada fácil; estudos dizem que 80% dos policiais são corruptos -, e também colocou o Exército na guerra contra os cartéis. A segunda dificuldade que os narcotraficantes enfrentam - a redução do comércio com o norte - tem, por sua vez, dois motivos: os controles fronteiriços cada vez mais difíceis de driblar e uma queda bastante pronunciada da demanda de cocaína nos Estados Unidos. O resultado de tudo isso é que grandes quantidades de cocaína estão ficando no México. Para abrir mercado, os cartéis estão distribuindo-a a preços tão acessíveis que já são muitos os mexicanos - sobretudo os mais jovens - que estão se viciando. As principais organizações fragmentaram-se em outras menores e já não buscam tanto o mercado externo, mas sim o interno. Mais do que manter abertas as rotas tradicionais de tráfico, o que lhes interessa agora é conseguir o controle dos Estados e das cidades. Bairro por bairro. Praça por praça. Do narcotráfico ao narcovarejo. Para isso, necessitam controlar os políticos locais e manter os grupos rivais na linha. Para o primeiro, precisam de muito dinheiro. Para o segundo, de muito chumbo.

O casal vizinho se levanta, dá boa tarde e se vai. O policial federal - que faz parte de uma equipe de investigação - introduz um pen drive no computador portátil deste repórter.

- Quer ver como atua o narcotráfico aqui em Michoacán? Mas não vá desmaiar...

A primeira coisa que aparece na tela do computador é um título que diz: "La Familia. Informe confidencial". La Familia é o nome do cartel mais poderoso que opera em Michoacán. Depois, uma fotografia. Nela vêem-se as cabeças cortadas de cinco homens jovens, ainda com sangue, espalhadas pelo cenário de um clube de strip tease da cidade de Uruapan. "Quer ver mais ou já é suficiente?"

Sem esperar resposta, o agente vai percorrendo com o cursor todo o informe. Há mais fotos. E uma parte muito extensa dedicada aos 'narcorecados'. Junto a cada acerto de contas, La Familia deixa um cartaz com os motivos de seu assassinato (por delatar, por não respeitar La Familia, por não respeitar os acordos), os nomes, sobrenomes e indicações dos próximos na lista negra (policiais, políticos, jornalistas, assassinos dos cartéis rivais) e com sua assinatura inconfundível: "O ódio não é esquecido. Isso é justiça divina. Atenciosamente. La Familia de Michoacán". Mas há outra parte do informe que impressiona ainda mais que a imagem dos executados. É a que resume o poder do grupo armado. Ele opera em 87 dos 112 municípios do Estado de Michoacán. Controla diretamente os cabarés, as máquinas de caça-níquel, o negócio milionário da pirataria, muitos dos 2.100 pontos de venda de droga que há no Estado, as madeireiras ilegais, a venda de armas... E oferece proteção obrigatória aos donos dos postos de gasolina, aos produtores de abacate, às lojas de alimentos... A tarifa é de 2.500 a 25 mil dólares. Em dinheiro. Não se admite um não.

- Há alguns meses - conta um advogado de Morelia - um espetáculo muito famoso em todo o México veio para a cidade. Desculpe mas não posso dizer o nome. O fato é que, quando estavam montando o espetáculo, uns sujeitos visitaram o empresário e ofereceram proteção. O homem, que não conhecia o cotidiano daqui, disse que muito obrigado, mas não precisavam de proteção, que ele já contava com a polícia e com a Cruz Vermelha em caso de incidentes.

Eles responderam que não era suficiente, que o espetáculo necessitava de proteção. "Mas, de quem?", atreveu-se a perguntar o empresário. "De nós", foi a resposta... O empresário teve de pagar 5 mil dólares. E o espetáculo, é claro, aconteceu sem incidentes.

Sabendo de tudo isso - afinal ele nasceu aqui, onde sua mãe e irmão ainda moram - o presidente Felipe Calderón colocou Michoacán na mira da Polícia Federal e do Exército. Não somente para combater o narcotráfico, mas também - ou principalmente - para tentar evitar a desaparição paulatina do Estado em favor dos cartéis. Foram feitas apreensões importantes de drogas e armas, detenções, e ainda assim o crime organizado foi capaz de seqüestrar em plena luz do dia Maribel Martínez Martínez, secretária da prefeitura de Uruapan - a 45 minutos de carro de Morelia.

Levaram-na quando ela saia de um ato na Casa de Cultura. Um acompanhante e dois policiais foram feridos gravemente. O suposto motivo da ação está em toda imprensa local: "La Familia financiou a campanha eleitoral do presidente municipal, Antonio González. Em troca queriam que a administração de Segurança Pública, a de Obras Públicas, o mercado e o palanque ficassem com homens de sua confiança. González - que pertence ao PAN, o mesmo partido do presidente da República - não cumpriu seus compromissos com a máfia e agora eles estão acertando contas". Maribel Martínez foi seqüestrada há dois meses. Segundo fontes da polícia, ainda está viva.

Assim estavam as coisas quando, às onze da noite de 15 de setembro, duas granadas explodiram em frente ao Palácio de Governo de Morelia. O primeiro atentado narcoterrorista da história do México deixou nove mortos e mais de cem feridos. Mas, além disso, revelou as vergonhas de um país que sangra por todos os poros.

Nos dias seguintes ao atentado, foram se revelando os detalhes que passariam por fantasiosos na história mais disparatada. O governador, Leonel Godoy, sabia que os narcotraficantes haviam ameaçado atentar contra o desfile do dia 16, mas - pelo menos oficialmente - não se preocupou em reforçar a segurança na noite do dia 15. Um grupo de policiais cuja missão era mesclar-se à paisana na multidão para evitar incidentes, não se apresentou na praça. Um dos chefes recebeu um telefonema misterioso e o obedeceu. Imagens de vídeo mostram os policiais de elite alterando a cena do crime e depois lavando as mãos com uma lata de refrigerante. Um bom número de testemunhas assegura que os que jogaram a granada estavam vestidos de uniforme preto - muito parecido com o usado pelo Grupo de Operações Especiais - e que um deles se chamava El Zorro, mas nenhuma das testemunhas é da polícia. Poucas horas depois do crime - e para finalizá-lo com um surrealismo macabro - o cartel La Familia colocou cartazes por toda a cidade de Morelia condenando o atentado, assegurando que não foram eles os responsáveis, e comprometendo-se a "investigar os fatos".

Hoje, entretanto, junto às velas acesas no lugar do atentado, há um cartaz gigante colado no chão que diz "Paz", assinado por La Familia. Ninguém, nem de uniforme, nem à paisana, atreveu-se a retirá-lo.

- Mas, foram eles?

- Talvez. Ou talvez tenham sido Los Zetas [um grupo de assassinos em guerra aberta contra La Familia]. Ou talvez não tenham sido os narcotraficantes...

Os fantasmas andam a solta pelo país que conhece de cor a árvore genealógica de seus narcotraficantes. Duas semanas depois dos atentados, ninguém sabe ao certo quem é responsável ou por que eles aconteceram em Morelia. Há quem diga que foi um aviso para Calderón: somos capazes de cometer atentados a três quadras da casa de sua mãe.

E há quem - citando fontes fidedignas - assegura que o aviso era para Leonel Godoy, governador de Michoacán, em resposta a uma dívida obscura pendente com La Familia. Outros apostam que o aviso foi para o Exército: vejam o que podemos chegar a fazer se vocês continuarem nos pressionando. Porque o Exército - e nisso todos concordam no México - transformou-se na principal bandeira de Calderón em sua luta desigual contra o narcotráfico. Até os mais próximos - ainda que em privado - reconhecem que o presidente da República pecou por ingenuidade ou atrevimento quando anunciou a guerra aberta contra o narcotráfico. "Somos todos contra o tráfico. E sem dúvida limpar o país dos delinqüentes é vital para o nosso futuro. Mas sim, talvez ele devesse ter contado as balas que tinha antes de sacar o revólver", comenta um dirigente do PAN - o partido do presidente -, sem dúvida alarmado com o desgaste.

Todos os dias, nos principais jornais do México, aparece um quadro com dois números. "El Universal" intitula o quadro de "Baixas do narcotráfico". O primeiro número se refere aos mortos do dia anterior. Na quarta-feira passada 25 pessoas foram mortas em execuções ou tiroteios. O segundo número informa o total. No período de um ano, 3.337 pessoas morreram assassinadas no México. Debaixo desses dois números, há uma coluna de texto - com não mais do que 30 linhas - na qual se resume o que aconteceu no dia anterior. O texto publicado pelo El Universal na quarta-feira intitulava-se "Pepenador encontra crânio em Juárez".

O texto dizia: "A espiral de violência em Chihuahua deixou 11 homicídios e um policial municipal seqüestrado nas últimas 24 horas. Em Ciudad Juaréz, um grupo de homens encapuzados matou a tiros Miguel Ángel Ramírez e Efraín Gallardo Ramírez, que viajavam num Cadillac. Em outro caso, Francisco Cevallos Gálvez morreu baleado na frente de sua mulher e filho. E Félix Antonio García Ramírez, de 17 anos, faleceu num hospital, para onde foi levado com ferimentos a bala. No lixão municipal de Ciudad Juárez, um catador encontrou um crânio que ainda tinha pele no rosto. O corpo não foi localizado. Enquanto isso, foram localizados cinco corpos do sexo masculino nas imediações da capital de Chihuahua..." Esse trecho é apenas 30% de uma coluna perdida no meio do jornal. Só quando o crime alcança conotações especiais vai para a primeira página. E, para desgraça dos mexicanos, o mês de setembro foi especialmente negro. Uma caminhonete cheia de homens sem cabeça. 24 jovens abandonados em La Marquesa - parque natural na entrada da Cidade do México - amarrados, torturados e com um tiro de misericórdia. Um motim em Tijuana com um número de mortos e desaparecidos ainda indeterminado...

O crime organizado e desorganizado parecem ter se juntado para transformar o país - e principalmente o Distrito Federal - num lugar pouco recomendável. As estimativas de mais de 3 mil executados se unem às vítimas de seqüestros por resgate. Segundo números oficiais, em um ano foram seqüestradas 650 pessoas, e, entre elas, 130 ainda continuam em poder dos criminosos, ninguém sabe se estão vivas ou mortas, à espera de um acordo pelo preço do resgate. Mas esse número está, com certeza, muito aquém da realidade. Todos sabem que, aqui, denunciar não adianta muito, que 85% dos delitos ficam sem resolução e que procurar a polícia é às vezes mais perigoso do que lançar-se nos braços do criminoso. De fato, alguns bancos - entre eles o Santander - recomendam a seus clientes que, caso sejam parados por uma patrulha, a primeira coisa a fazer é trancar "todas as portas do carro".

O presidente Calderón passou a semana em Nova York. Lá, voltou a pedir a cumplicidade - e os fundos - do vizinho do norte para vencer a batalha contra o narcotráfico.

No país, enquanto isso, os membros de seu governo ligados à segurança têm sido atacados pela oposição, que - à sua maneira - também lhes pedem dinheiro ou chumbo.

Solução ou demissões. Diante da pressão, um dos homens fortes do governo, o secretário Juan Camilo Mouriño, chegou a reconhecer na tribuna da Câmara dos Deputados: "Não podemos garantir a segurança. A polícia foi infiltrada pelo crime organizado. Assim, até que isso não seja solucionado, não poderemos nem garantir a segurança, nem gozar da confiança dos cidadãos".

Enquanto o alto representando do governo pronunciava essa declaração sincera de impotência, onde estavam os mexicanos? Escondidos debaixo da cama? Enclausurados a sete chaves em suas casas? Nada mais longe da realidade. É verdade que a preocupação cresce e que há empresários que estão tentando colocar suas vidas e propriedades fora de perigo, mas a realidade retratada pelos dados e pelos jornais não é toda a realidade.

O México continua sendo um país amável, de trânsito caótico e natureza exuberante; de uma beleza dificilmente igualável; situado numa posição fundamental para o futuro da América e, talvez, a partir de agora, mais consciente do que nunca do perigo que o narcotráfico representa para seu próprio desenvolvimento. Uma corrente, ainda tímida, de indignação começou a percorrer o país. Umas velas acesas na praça de Morelia. Uma manifestação de milhares de pessoas no Distrito Federal. Uma pressão quase unânime dos meios de comunicação para que o presidente Calderón, uma vez abertos os cofres do trono, não caia na tentação de pactuar ou claudicar diante do terror.

O narcotráfico - tão celebrado até agora em romances e baladas de pistoleiros - já não assusta só os seus iguais. O medo foi esparramado, saiu nas ruas, e os mexicanos, colocados em frente ao espelho, começam a temer a própria imagem refletida diante de si mesmos e do resto do mundo. Há uma placa na entrada de Ciudad Juárez - onde este ano foram executadas mais de mil pessoas - que explica muito bem essa preocupação, esse medo que infunde medo:

- Bem vindo a Ciudad Juárez. Não somos como dizem que somos.

Tradução: Eloise De Vylder

Texto do El País, no UOL.


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quinta-feira, julho 17, 2008

Vitória?

Vitória?

EM 2 DE JULHO, as Forças Armadas da Colômbia executaram o resgate perfeito. Hollywood não poderia ter inventado missão mais espetacular. Sem disparar um tiro ou causar qualquer morte, 15 reféns que haviam passado mais de meia década aprisionados, entre os quais Ingrid Betancourt e três norte-americanos, foram retirados da selva debaixo do nariz das Forças Armadas Revolucionárias Colombianas (Farc) e puderam voltar para suas famílias.
Esse resgate dos seqüestrados representou uma imensa vitória para o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe. Seu índice de aprovação atingiu os 91% nesta semana.
Nos últimos anos os analistas têm dito que a América Latina estava se inclinando à esquerda. Hugo Chávez atraía todas as atenções. Mas com Uribe na Colômbia e Felipe Calderón no México, o que está emergindo de fato é uma nova direita democrática. Faltava à América Latina uma alternativa conservadora viável e confiável, livre das tentações autoritárias do passado e disposta a trabalhar sem constrangimento com os Estados Unidos para a defesa de interesses comuns. A Colômbia, e agora o México, evidentemente foram recompensados no plano material, com infusões maciças de assistência bancada pelos contribuintes norte-americanos. E a capacidade das Forças Armadas colombianas sem dúvida se beneficiou dessa generosidade de Washington.
Há um porém. A assistência norte-americana à Colômbia e ao México está condicionada a uma redução na produção de narcóticos: sufocar a oferta. Mas o comércio de cocaína floresce como nunca. Seus tentáculos, rotas internacionais e operações de lavagem de dinheiro se expandiram dramaticamente no Brasil e na África Ocidental. A estimativa é que cerca de 300 toneladas de cocaína passem pelo México para chegar aos Estados Unidos, a cada ano, e o valor dessas drogas do outro lado da fronteira é estimado em US$ 25 bilhões. As cidades fronteiriças do norte do México se tornaram zonas de combate para as gangues de traficantes de drogas.
Em última análise, o comércio de drogas é uma questão de demanda, e os Estados Unidos continuam a ser um mercado insaciável. Mas a "guerra contra as drogas" foi terceirizada para a América Latina de maneira tão efetiva que nem mesmo faz parte das perguntas apresentadas aos eleitores nas pesquisas de opinião para o pleito deste ano nos EUA. A derrota das Farc não é a mesma coisa que uma vitória sobre o narcotráfico. Ninguém parece ter percebido que o helicóptero que conduziu Ingrid Betancourt e os demais cativos à liberdade pousou em um campo de coca.

Texto de Kenneth Maxwell, na Folha de São Paulo, de 10 de julho de 2008. O grifo é do blogueiro.

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sexta-feira, março 21, 2008

Informalidade perversa

Informalidade perversa

EM RECENTE simpósio internacional sobre o tráfico de drogas, uma das afirmações mais esclarecedoras sobre a questão veio do economista colombiano Francisco Thoumi, considerado um dos maiores especialistas do mundo no assunto.
Disse ele que, na produção de heroína e cocaína, há uma enorme concentração em poucos países, enquanto centenas de outros reúnem as mesmas condições ambientais de produzi-las. E principalmente que a concentração não se explica nem pela alta rentabilidade da mercadoria ilegal, nem pela existência da demanda.
Tais produtos não são produzidos onde são mais consumidos. Na verdade, são produzidos de forma concentrada onde é mais fácil fazer coisas ilegais.
A história de fracionamento político e a falta de governo central com controle de todo o território nos países sul-americanos que fabricam a cocaína explica a ilegalidade. Para Thoumi, é a oferta abundante que reduz o preço e cria a demanda. Portanto, a fácil explicação de que o usuário é o culpado deve ser revista.
No Brasil, as ilhas da informalidade-ilegalidade e o oscilar entre centralização e independência local criaram as condições para que o tráfico se espalhasse pelo território nacional. Nas cidades, o varejo do tráfico pode até mesmo, como acontece no Rio de Janeiro, controlar militarmente territórios urbanos classificados pelo IBGE como "subnormais". Isso quer dizer, locais onde a ocupação não obedece às posturas urbanas e onde pode vir a se desenvolver a lei do mais forte ou lei da selva, tanto no acesso à moradia nesses locais, como na resolução de conflitos e na distribuição de benefícios.
Portanto, de nada adianta dotar tais locais de infra-estrutura urbana e serviços públicos decentes se não se termina com a "subnormalidade". Com a experiência adquirida pelo projeto Favela-Bairro, já sabemos que o nó está na propriedade do solo e da habitação. A lentidão, por conta dos inúmeros problemas jurídicos envolvidos, na distribuição de títulos de propriedade aos moradores das favelas vem a realimentar a lei do mais forte, ainda mais que os investimentos públicos aumentam o valor dos imóveis subnormais.
A situação caótica na propriedade do solo urbano faz com que continuem a agir grileiros que "vendem" lotes que não lhes pertencem, transformando em invasores os que pagaram prestações para obtê-los. E a informalidade nas invasões de favelas transformou associações de moradores em poderosas agências imobiliárias e eleitorais, aproveitadas pelos homens armados que se impõem militarmente, sejam eles traficantes, sejam paramilitares.

Texto de Alba Zaluar, na Folha de São Paulo, de 17 de março de 2008 (para assinantes).

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sábado, outubro 20, 2007

ELITE SEM TROPA

Meu texto sobre o filme 'Tropa de Elite' causou tremores frios em muita gente. Entendo. O cinema brasileiro da chamada 'retomada' é muito ruim. Até a pornochanchada era melhor. Tinha mais ritmo. Há uma tradição brasileira de idealização de bandidos, de cangaceiros a traficantes. O mal é sempre a ordem, o poder, a polícia. Faz sentido. Afinal, neste país, a lei é uma fachada para a sacanagem dos mais ricos. Mas esse esquema simplifica. Os últimos filmes, de gente como Jorge Furtado e Guel Arraes, são totalmente vazios e não conseguem situar esse paradoxo da cultura nacional. José Padilha, com 'Tropa de Elite', conseguiu trazer finalmente a realidade brasileira para a tela. Sem afetações nem conversa fiada. É pau puro mesmo.

Todo problema do consumo de drogas pela burguesia da zona Sul do Rio de Janeiro está baseado no seguinte princípio: a Polícia não deveria reprimir. Afinal, por que não se poderia consumir drogas tranqüilamente? Porque o tráfico é ilegal. O pessoal quer consumir sem ser incomodado por não concordar com essa ilegalidade. Como a sociedade, por meio dos seus representantes, não muda a lei, a galera espera que a Polícia seja complacente, tolerante e conivente, nem que seja corrompendo-se. É o que mais acontece quando um filhinho da burguesia cai na rede policial e precisa ser liberado. Que deve fazer a Polícia? Tentar cumprir a lei ou praticar desobediência civil (ou militar?) para estar de acordo com os leitores de Foucault (o teórico francês que mais denunciou os mecanismos do poder capilarizado) em universidades cariocas?

'Tropa de Elite' espanta por ser o ponto de vista do policial. Nesse sentido, coloca-se do lado da lei e do poder. Num país em que a sociedade vê o Estado como seu inimigo, a lei e a ordem são sempre ilegítimos. Todo filme não reacionário deve, portanto, denunciar a ordem. Descobre-se que os nossos cineastas gostam de mensagens e de certo maniqueísmo. Cada filme precisa ter o personagem bom, ainda que algumas hesitações, podendo até ser o bandido, vítima da sua condição social, e o mau (o policial, a ordem, o poder) bem claros. O espectador é tido por meio bronco. Necessita de heróis e de perfis claros. A equação é simples: o jovem burguês comete uma ilegalidade, a Polícia reprime. O jovem sente-se vítima do policial. O filme de Padilha tem razão: não há passeata por policial morto. Só por rico. Mas todos querem segurança. Eis o paradoxo: espera-se que a segurança seja garantida pelo inimigo, o policial. Depois, ele deve fechar os olhos.

A burguesia brasileira não quer ser tolhida nas suas ações, mesmo quando ilegais. A ordem deve ser imposta aos pobres. No caso do uso de drogas, porém, os pobres são apenas os fornecedores dos ricos. A velha chantagem do intelectual de esquerda volta à cena: cumprir uma lei julgada conservadora é ilegítimo. A turma quer viver em paz na ilegalidade. Bastaria convencer pais e avôs, detentores do poder, a mudar a lei. É brega estar do lado da ordem. 'Tropa de Elite', embora esteticamente fraco, é o mais realista dos filmes brasileiros das últimas décadas. O problema dos seus críticos é que eles se identificam com os jovens burgueses da zona Sul do Rio de Janeiro. Querem dar um 'tapinha' sem remorsos nem maiores responsabilidades. Por que não liberar geral? Muita gente perderia com isso.

Texto do Juremir Machado da Silva, no Correio do Povo de 18/10/2007(para assinantes).

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