terça-feira, novembro 10, 2009

Elio Gaspari: A Guerra do Rio

A guerra do Rio é uma metáfora cavilosa

O RIO GANHOU um novo problema, a blindagem dos helicópteros da polícia. (E por que só os da polícia?) Os três jovens mortos na entrada do morro dos Macacos são uma nota de pé de página. Três dias de desordens nas estações da Supervia já são coisa do passado. De uma hora para outra, o carioca sente-se num cenário de "Tropa de Elite".
Primeiro, ele parou de caminhar pelas ruas do bairro depois do jantar. Um país com a taxa de fecundidade de 6,3 filhos por casal não podia ir para a frente. Depois, faz tempo, surgiram as grades nos jardins do recuo dos edifícios. Do Leblon ao Leme há algo como 10 mil metros de calçadas gradeadas, mas não poderia ser diferente: nessa época a população favelada do Rio dobrara de 335 mil pessoas para 722 mil.
Isso acontecia numa cidade em que, até 1983, pareceu irrelevante o fato de os ônibus não passarem pelo túnel Rebouças, inaugurado em 1966. Parecia natural que a choldra da zona norte não tivesse acesso fácil a Copacabana e Ipanema.
Na virada do século foi preciso blindar o carro. Pensando bem, era uma impropriedade estatística. A taxa de fecundidade das brasileiras caíra para 2,9 filhos por casal. Estavam nascendo menos pobres, portanto, não fazia sentido que a população favelada chegasse a 722 mil almas, quase 15% da população da cidade.
Aos perigos e transtornos impostos ao carioca somou-se a cenografia de uma guerra. A crise da segurança pública do Rio não é uma guerra. Pode ser pior, mas não é guerra. Os quatro anos da ocupação alemã em Paris foram menos cruentos que quaisquer quatro anos do Rio, desde 1980. A ideia de uma guerra pressupõe um inimigo perfeitamente identificado e a disposição de se utilizar todas as forças disponíveis para submetê-lo. Guerra pressupõe tentar devolver o Vietnã do Norte à Idade da Pedra.
Não há guerra no Rio, o que há é uma metáfora de conveniência. Ela cria o cenário da emergência, mas não pode dar o passo seguinte, que seria o reconhecimento de que uma parte da cidade está em guerra com outra, como aconteceu na Argélia, ou na África do Sul da fase mais agressiva do "apartheid".
Esse passo não é dado porque, apesar dos surtos demofóbicos, a sociedade brasileira nunca se associou a um projeto desse tipo. Colocando a coisa de outro modo: o pedaço da sociedade que seria capaz de apoiar uma política de violência segregacionista levando-a a consequências extremas, ainda não tem coragem para vocalizar suas propostas e não haverá de tê-la nos próximos anos. Pensar que essa linha de pensamento não existe é colocar a ingenuidade a serviço das boas maneiras.
A metáfora da guerra não define o inimigo mas, cavilosamente, deixa-o subentendido. Ele está na favela ("fábrica de marginais", na definição do governador Sérgio Cabral). Essa guerra sem inimigo produz cenários, cenas de batalha, vítimas e juras de vingança, nada mais. Tudo fica parecido com "Tropa de Elite". Uma metáfora pode sustentar um filme, mas não resolve as questões da segurança de uma cidade.
Se o clima de guerra sair da agenda do Rio, não há qualquer garantia de que as coisas melhorem, mas pelo menos será retirada a cortina de fantasia que mascara políticas públicas fracassadas.

Coluna de Elio Gaspari, na Folha de São Paulo, de 21 de outubro de 2009.

Em tempo: Segundo o Dicionário Michaelis da Língua Portuguesa, cavilosa significa algo como fraudulenta, ou sofismática, ou capciosa.


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sábado, outubro 31, 2009

No Rio, policial é treinado para se achar um justiceiro, diz coronel

Rosanne D'Agostino
Enviada especial do UOL Notícias
No Rio de Janeiro

Ser policial no Rio de Janeiro virou sinônimo de controvérsia. Nas operações mais recentes na zona norte, moradores acusaram a polícia de chegar atirando, ocasionando a morte de inocentes, entre eles, a mãe de um bebê de 11 meses, baleada na favela Kelsons, Penha. Para especialistas, o que ocorre é fruto de um treinamento inadequado que, aliado aos baixos salários e uma política falha de Segurança Pública, faz com que o policial se sinta um "justiceiro" em uma guerra particular contra o tráfico.

"O policial do Rio é o mais mal pago, mal treinado, mora em áreas perigosas, em favelas, são submetidos a situações de estresse. Sempre há promessas de melhora, mas nunca nada é feito. Concordo absolutamente com o que o Maierovitch falou (em entrevista ao UOL Notícias - Assista aqui), de que eles são camicases", diz Julita Lemgruber, socióloga e ex-ouvidora da Polícia Civil do Rio.

A especialista em segurança critica a atual forma de combater o tráfico nos morros cariocas, por meio do confronto. "É uma política de inteligência limitada de que esses confrontos são a melhor saída. Tráfico existe em todos os lugares do mundo, mas só no Rio a polícia acha que deve chegar atirando. É preciso mais inteligência e menos truculência", defende.

Na pele da polícia
Jorge da Silva, hoje coronel reserva com 33 anos da Polícia Militar, diz que não anda mais armado por medo. "Quando eu era tenente, capitão, ficava achando que ia prender todo mundo. Mas eu acabei vendo que isso causava situações problemáticas, para mim e para os outros. Sou um perigo armado, sou uma bomba. Quando eu vejo uma injustiça, eu quero me meter", diz.

Isso acontece, segundo ele, pelo próprio treinamento. "O policial é treinado para se achar um salvador, arauto da justiça, um justiceiro. Diante de uma situação complicada, quer resolver tudo sozinho. Perdemos esses dias um coronel exatamente assim. Ele foi reagir a um assalto, achando que fosse resolver a situação, mas outro cúmplice estava na cobertura do bandido e atirou."

Silva nasceu no complexo de favelas do Alemão, um dos mais violentos da cidade. Entrou na PM aos 17 anos. "Existe essa tradição da valentia. O policial é muito afoito, de se indignar, mas ele precisa ser treinado para mediar. O que ocorre é que a polícia, lamentavelmente, é treinada como as Forças Armadas, o Exército, para combater um inimigo. Mas isso não é uma guerra. E, hoje, policiais e bandidos estão travando uma guerra particular no Rio de Janeiro."

Tiro pela culatra
A guerra, segundo o coordenador de Estudos e Pesquisas em Ordem Pública e Direitos Humanos da UERJ (Universidade do Estado do Rio), é acentuada com a atual política de confrontamento. "Quando se escolhe agir assim, é mais traumático. A ideia é conter a violência, mas isso parte de uma premissa falsa, que não leva em conta que outras pessoas podem morrer, que causa balas perdidas. O propósito é positivo, a intenção é a tranquilidade, mas não é isso que acaba acontecendo."

A isso, se soma a rotina estressante do próprio policial. "Muitos têm problema de alcoolismo, problemas neurológicos. Na polícia, isso se acentua muito. E a tensão não é só quando se está em serviço. É quando está de folga também. É uma tensão permanente, com relação à família. É drástica. E isso é fruto de uma construção antiga, de deixar tudo na mão da polícia. Cria uma guerrinha particular, entre bandido e polícia, como se criminalidade não fosse um problema de toda a sociedade."

Para Julita, "o Rio tem hoje uma polícia extremamente letal e isso não está trazendo paz para a população". "É uma polícia que atua reativamente. Não é invadindo favelas e saindo em seguida, deixando a população sem assistência, que vai se resolver o problema. É inaceitável que a polícia mate bandido. Inocente, menos ainda", completa.

Silva também considera que falta inteligência às ações. "É preciso adotar uma política que entronize a inteligência na polícia, para que ela haja com menos emoção nas ações, evitando mortes."

Ainda conforme a socióloga, o tráfico não justifica uma polícia cada dia mais armada. "No Rio acontecem quatro vezes mais homicídios do que em São Paulo. E dizer que os traficantes têm cada vez mais armas poderosas pode ser visto como mais uma forma de justificar a continuidade dessa truculência."

"Não que o tráfico não esteja bem armado. Indiscutivelmente, eles têm armamento pesado. Mas a polícia tem bem mais. O governo investe", complementa Silva. "Quando derrubaram o helicóptero, disseram que estavam com armas muito letais. Mas, se for seguir essa lógica, daqui a pouco vão querer helicópteros equipados com mísseis. Isso é um discurso de pessoas que querem uma polícia mais repressiva, mais belicista. Mas é uma maluquice", conclui.

Origem: UOL Notícias.

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quinta-feira, agosto 20, 2009

Agora a Tropa de Elite no National Geographic

National Geographic visita favela carioca

Guerra ao tráfico no Rio dá início à série documental "Shadow Soldiers"

Apresentada pelo militar e escritor Chris Ryan, nos próximos episódios programa também passará por Colômbia, México e EUA

JANAINA LAGE
DE NOVA YORK

O escritor Chris Ryan elegeu o Rio de Janeiro como um dos locais para a série de documentários "Shadow Soldiers" (soldados das sombras). A guerra do Bope (Batalhão de Operações Especiais) contra o tráfico de drogas nas favelas do Rio foi exibida neste mês no canal National Geographic, nos EUA.
Chris Ryan, na verdade um pseudônimo para o militar Colin Armstrong, ficou famoso ao se tornar o único membro da missão "Bravo Two Zero" da força aérea especial britânica, a SAS, a sobreviver e escapar na primeira guerra do Golfo, em 1991. Depois disso, ele se tornou escritor.
Nas próximas semanas estão previstos episódios na Colômbia, no México e nos EUA. No Rio, ele acompanhou as operações do batalhão durante uma semana e participou de uma invasão à Vila Cruzeiro, favela na zona norte da cidade.
O retrato da criminalidade e do papel da polícia na série é bastante estereotipado. A começar pela narração em voz dramática de cada passo da equipe e do sotaque do narrador que chama o batalhão de "bópp". Frases como "as favelas do Rio são uma zona de guerra" e "as gangues cariocas são o seu futuro, eles são do Comando Vermelho" dão o tom do documentário.
Ryan tece elogios ao "caveirão", o veículo blindado da PM usado durante as operações em favelas, e constata a falta de recursos da corporação.
O documentário alterna explicações sobre a origem dos fuzis AK-47, usados pelos traficantes, com o fascínio pelo misticismo da corporação. Um dos membros do Bope mostra uma caveira, o símbolo do batalhão, que o salvou de um tiro durante uma incursão policial. A bala teria batido na caveira que faz parte da faca do policial.
O documentário não tem conclusão, apenas a constatação de que a guerra contra o tráfico no Rio é pior do que Ryan esperava.

Texto da Folha de São Paulo, de 17 de agosto de 2009.

É programa pra gringo ver e pensar no sofá da sala: “Puxa, como são violentas estas cidades do terceiro mundo”. Em breve também na sua TV por assinatura.


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segunda-feira, junho 22, 2009

Silêncio no Alemão

Silêncio no Alemão

RIO DE JANEIRO - Na última sexta-feira, o presidente Lula e o governador do Rio, Sérgio Cabral, se abraçaram muito carinhosamente no complexo de favelas de Manguinhos e, à tarde, foram ao Complexo do Alemão. Entregaram 56 apartamentos para moradores removidos de suas casas em razão das obras do PAC.
Na véspera, o governo federal também marcara presença no Rio. O ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, lançou na Biblioteca Nacional o livro "Brasil - Direitos Humanos", um conjunto de artigos, entrevistas e reportagens.
Na página 264, recorda-se o que aconteceu no Alemão em 27 de junho de 2007: 1.350 homens das Polícias Civil e Militar (de Cabral) e da Força Nacional de Segurança (de Lula) entraram na área da Grota e mataram 19 pessoas. É possível que a maioria fosse traficante e estivesse em confronto, mas não há como ter certeza: não houve perícia no local e, de acordo com o livro, provas foram destruídas pela polícia.
Três peritos examinaram os corpos na época e produziram para a Secretaria dos Direitos Humanos um relatório. Apresentaram "argumentos para embasar a afirmação de existência de execução sumária e arbitrária", entre eles o "grande número de orifícios de entrada na região posterior do corpo, numerosos ferimentos em regiões letais, elevada média de disparos por vítima, proximidade de disparos, sequência de disparos em rajada e armas diferentes utilizadas numa mesma vítima". Dos 78 tiros encontrados nos 19 corpos, 32 foram pelas costas.
Sempre que Lula e Cabral fossem ao Alemão, deveriam explicar como aquela operação contribuiu para dar paz às favelas. As crianças da Grota que ainda falam dos momentos de pavor que viveram naquele 27 de junho gostariam de ouvi-los.

Texto de Luiz Fernando Vianna, na Folha de São Paulo, de 2 de junho de 2009.


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terça-feira, maio 26, 2009

Pescador contrário a gasoduto no RJ é morto

Pescador contrário a gasoduto no RJ é morto

Paulo César dos Santos Souza, 40, era fundador de uma associação que se opunha a projeto da Petrobras em Magé

Consórcio GLP Submarino executava a obra, embargada pela prefeitura horas antes do assassinato na noite de sexta-feira

ANDRÉ ZAHAR
DA SUCURSAL DO RIO

Fundador de uma associação que se opunha a um projeto da Petrobras na baía de Guanabara, o pescador Paulo César dos Santos Souza, 40, foi assassinado na noite de sexta em Magé (região metropolitana do Rio). A obra havia sido embargada seis horas antes. Em abril, os pescadores bloquearam o empreendimento por 36 dias.
O crime ocorreu por volta de 23h, na casa do tesoureiro da Associação dos Homens do Mar (Ahomar). Segundo testemunhas, três homens invadiram o local e, após espancá-lo, mataram-no com cinco tiros na face e na nuca diante da mulher e dos filhos de 8 e 16 anos.
O projeto da Petrobras na praia de Mauá, na baía de Guanabara, é executado pelo consórcio GLP Submarino, que reúne as empresas GDK S.A. e Oceânica. Estão sendo construídos dois dutos para escoamento de gás de cozinha entre o terminal da Ilha Redonda, perto da Ilha do Governador (zona norte do Rio), e a Refinaria de Duque de Caxias.
Os pescadores reclamam de degradação ambiental, da redução à metade do pescado no mar e de acidentes provocados por embarcações do consórcio.
Na sexta, após vistoria das secretarias de Meio Ambiente e Fazenda de Magé, que apontou 42 supostas irregularidades, a prefeitura cassou a licença do canteiro de obras, que foi lacrado, seis horas antes do crime.
O corpo de Souza foi enterrado ontem de manhã no cemitério Nossa Senhora da Guia, em Magé. Cerca de 50 pessoas acompanharam o cortejo, inclusive o presidente da associação, Alexandre Anderson de Souza, que afirma já ter sofrido três atentados -o mais recente em 1º de maio. O caso foi registrado na 66ª DP (Piabetá).
O tesoureiro da Ahomar estava afastado da "linha de frente" do movimento havia quatro meses. Segundo uma fonte ouvida pela Folha, ele era contra as manifestações, inclusive porque sua mulher trabalha no canteiro de obras. Anderson, porém, afirma que ele se afastou, antes da admissão da mulher, porque estava com medo.
"Não há muita dúvida quanto à vinculação do homicídio e as denúncias da associação", disse Marcelo Freixo (PSOL), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio.
A GDK, empresa que lidera o consórcio, é a mesma que doou um jipe Land Rover ao ex-dirigente do PT Silvio Pereira. A Folha telefonou ontem para os escritórios da GDK em São Paulo, Rio e Salvador e mandou e-mail para a assessoria de imprensa, mas não obteve resposta até a conclusão desta edição.
A Petrobras disse que vai aguardar as investigações antes de se pronunciar sobre o crime.

Notícia da Folha de São Paulo, de 25 de maio de 2009.

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quinta-feira, outubro 23, 2008

Guerra na Favela

Guerra nas favelas
Buscam, capturam e matam. "EL PAÍS" presenciou uma operação da brutal polícia de elite do Rio de Janeiro

Francho Baron
No Rio de Janeiro

Favela do Rebu, 9h30 da manhã. A hélice do helicóptero da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), o eufemismo com que se denomina a tropa de elite da Polícia Civil do Rio de Janeiro, quebra com seu estrondo o silêncio do amanhecer na periferia oeste da cidade. Por terra, um comboio de 30 veículos todo-terreno liderados por um carro blindado (o temido Caveirão, na gíria carioca) ocupa e fecha o principal acesso ao subúrbio. Cento e vinte homens uniformizados de preto e equipados com armamento de guerra (fuzis de assalto M-16 e FAL-762, metralhadoras M-60 e coletes à prova de bala) formam duas colunas que rapidamente se dispersam pelos dois lados da principal artéria da favela.

Os becos estão desertos: alguém deu voz de alerta minutos antes do desembarque da polícia. Começa mais uma operação da Core, um dos dois corpos de elite do Rio, polêmico pela brutalidade com que atua onde a polícia convencional não se atreve a pisar.

Em Rebu a facção criminosa Comando Vermelho acampa à vontade. Os narcotraficantes estabeleceram nas ruelas mais largas da favela várias "bocas de fumo" (pontos de venda de droga) e ditaram leis paralelas para regulamentar a vida de seus moradores: todo mundo é obrigado a colaborar com a "firma" e não se permitem roubos dentro nem nas imediações da comunidade. O Comando Vermelho oferece em troca proteção aos moradores e, com a receita da cocaína, de vez em quando subvenciona pequenos gastos domésticos aos que pedem, como um botijão de gás ou um medicamento de urgência. Hoje, fato incomum, os criminosos não receberam com tiros a chegada da polícia.

A operação, lançada em julho passado, tem como objetivo capturar os chefes do narcotráfico, os donos das bocas de fumo, vivos ou mortos. No Rio se dá por fato que a Core, assim como o Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio (Bope), tem carta-branca para quase tudo: pode disparar à queima-roupa, revistar residências sem autorização judicial, submeter a dramáticos interrogatórios qualquer suspeito de ocultar informação sobre pessoas procuradas.

Ronaldo Oliveira, chefe do Grupo Especializado em Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA), chefia a coluna direita. Agora o silêncio na favela é quase absoluto, somente rompido pelo leve ruído do cascalho sob as botas dos policiais e pelo choro premonitório de um menino, que instintivamente percebe a violência que se aproxima. Oliveira não se dirige a seus soldados com palavras, mas com um intricado código de gestos que só os homens da Core e do Bope entendem.

O comandante dá ordem e sua coluna abandona a artéria principal, deslocando-se com agilidade por uma ruela adjacente. Começam as revistas. O grupo é encabeçado por um sujeito coberto por um capuz preto e um chapéu de camuflagem; é o condutor da operação, o que se conhece na gíria do crime como um X9, um informante ou desertor do narcotráfico que pretende pagar algum favor à polícia entregando cabeças mais importantes que a sua. O indivíduo indica com o dedo a porta de um casebre.

A Core não costuma bater à porta; diretamente tenta abri-la pelos métodos civilizados e, se não conseguir, a derruba a pontapés ou, como último recurso, recorre aos explosivos. Não sabemos se este é o caso, já que a polícia afirma que foram os traficantes que lançaram uma granada contra a porta, mas a explosão provocou pânico na favela e agora o cheiro de pólvora, a fumaça, a poeira e os estilhaços se misturam aos gritos das mulheres e ao choro compungido das crianças.

Oliveira pede cobertura a seus homens e entra primeiro na casa, apontando um M-16 contra tudo o que parece se mover entre a fumaceira. Sai uma mulher do quarto pedindo entre soluços misericórdia para seu marido. O policial nem se incomoda em responder; simplesmente a afasta de seu caminho com o antebraço e entra no quarto, onde encontra escondido em um armário A.R.M., um dos principais cabeças do tráfico na favela de Rebu, que se entrega sem opor a menor resistência.

O criminoso é levado ao acesso principal da favela, onde fica exposto, como se fosse um troféu de caça, aos jornalistas que cobrem a operação. Junto dele estão algemados outros quatro supostos criminosos, alguns deles com claros sinais de violência no rosto (um olho roxo, um pouco de sangue coagulado nos lábios...). Não são pessoas com aspecto de criminosos perigosos, mas adolescentes sem camisa, com os olhos injetados de sangue de fumar maconha ou crack.

A seus pés também ficaram expostos o abundante material bélico e as drogas apreendidas: três subfuzis Uzi, dois AK47, duas pistolas, várias bombas de fabricação artesanal (cilindros de alumínio cheios de pólvora e fragmentos) e várias centenas de papelotes de cocaína. Esses são os temíveis "soldados" do narcotráfico do Rio: deserdados da terra, em muitos casos sem noção de bem e de mal, drogados e armados até os dentes.

"Os crimes aqui são muito violentos. Normalmente são cometidos por jovens de 17 a 25 anos com capacidade mental muito reduzida, que saem à rua para ganhar um dinheiro rápido e acabam matando sua vítima e cometendo outras atrocidades", explica de maneira bastante gráfica o delegado Oliveira.

Hoje, no Rebu, a Core foi razoavelmente cirúrgica e não houve vítimas fatais, mas a poucos quilômetros daqui, na favela da Coréia, a polícia militar interveio com menos consideração e matou três pessoas.

No Rio de Janeiro, isso deixou de ser notícia há tempo: a imprensa local tem seções fixas nas quais quase todos os dias se narra a guerra nas favelas e se contabilizam os mortos. Segundo os dados da própria Polícia Militar, em 2007 ocorreram 20 baixas de efetivos em choques armados no município do Rio. Em 2008 dez policiais militares morreram. Esses números contrastam de forma suspeita com as baixas contadas do outro lado; segundo o Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, só no primeiro semestre deste ano foram registrados 472 civis mortos no que a polícia considera baixas legítimas, provocadas pela resistência dos criminosos à autoridade. No mesmo período do ano passado, o número de mortos chegou a 509.

"Estamos diante de uma eficácia policial absurda", comenta para este diário o sociólogo espanhol Ignacio Cano, membro do Laboratório de Análise da Violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). "Não conhecemos outra polícia no mundo que cause tantas mortes em suas intervenções como a do Rio. Infelizmente, esta realidade corresponde a uma concepção política da segurança pública", acrescenta.

Segundo Cano, a polícia de operações especiais carioca tem três características próprias que a diferem de qualquer outro corpo policial do planeta. Primeiro, trata-se de uma força militarizada que responde a uma estratégia militar; isto é, os objetivos são eliminar o inimigo e ocupar seu território. Em segundo lugar, conta com um poder de fogo indiscriminado que causa grande número de vítimas inocentes. Por último, e em conseqüência das anteriores, os cidadãos passam para um segundo plano quando se toma a decisão de intervir. "Uma polícia européia que atuasse assim em áreas densamente povoadas como são as favelas seria inaceitável", concluiu o especialista em violência policial.

No último relatório anual da ONG Human Rights Watch, na rubrica dedicada à violência policial no Brasil, afirma-se: "Os policiais que cometem abusos raramente são sancionados e algumas vezes esses abusos são justificados pelas autoridades como uma conseqüência inevitável de seus esforços para combater os altos índices de criminalidade no Brasil".

Na mesma linha, o tarimbado repórter carioca Bartolomeu Brito, com 25 anos de experiência na cobertura de conflitos em favelas (suas reportagens inspiraram o roteiro do filme "Cidade de Deus", do diretor Fernando Meirelles), opina que a polícia "primeiro dispara e depois pergunta". "Existe uma solução em longo prazo: que as autoridades desmantelem as favelas e removam seus moradores para locais decentes. Mas infelizmente os políticos só pisam nesses lugares quando precisam pedir votos. Depois que passam as eleições tornam a desaparecer", denuncia o jornalista.

O comentário vem a propósito, porque no próximo domingo (26) será disputada a prefeitura do Rio de Janeiro, entre várias outras, no segundo turno das eleições municipais brasileiras. Nesses dias os candidatos a prefeito e a vereadores se empenham em tirar fotos, sorridentes, junto com os moradores das favelas, onde se concentram 19% da população carioca.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Texto do El País, no UOL.

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terça-feira, outubro 14, 2008

A reputação do Rio - Vale como piada e folclore

Um prato bem frio

RIO DE JANEIRO - A Base Aérea de Santa Cruz fica em... Santa Cruz, o bairro mais distante do centro, onde fica a sede da prefeitura -chamada de Piranhão pelos cariocas (a explicação do apelido fica mais embaixo). Nessa lonjura, a portas fechadas, sem direito a foto, deu-se a tentativa de aproximação entre Lula e Eduardo Paes, avalizada pelo governador Sérgio Cabral.
O fato em si, desenrolado num rancho militar, mostra a (pouca) disposição de Lula em digerir o ex-tucano, que a ele se referia como "chefe da quadrilha" à época do mensalão. Paes quer esquecer o passado. Lula não. E, mesmo que seja acometido por algum tipo de amnésia, a primeira-dama estará sempre ali para lembrá-lo dos ataques ao filho. Em 2005, Paes também mirou em Fábio Luiz Lula da Silva. Acertou um coração de mãe.
Vingança é um prato que se serve frio. No caso do ex-tucano, literalmente. Lá em Santa Cruz, teve que esperar três horas para dividir a refeição com o presidente. Ouviu histórias, causos e piadas. Pediu desculpas, humilhou-se em troca de apoio. Pela agenda internacional de Lula, calcula-se que o presidente tenha pouco tempo para subir em palanques até o dia 26. Logo...
Para não dizer que lavou as mãos após o almoço, Lula mandou um presentinho, via José Alencar, empacotado no eleitorado monolítico de uma igreja. Toma um Crivella lá e deixa quieto. Paes ganhou um caminhão de votos, mas, a julgar pelo 1º turno e o último Datafolha, com uma jamanta de rejeição a reboque.
Em tempo: a sede da prefeitura, o Centro Administrativo São Sebastião, é um prédio construído em região que abrigou por muito tempo uma zona de baixo meretrício, a Vila Mimosa. Quem ganhar, vai governar o Rio a partir da estrutura montada no Piranhão. Um lugar emblemático para refazer -sem trocadilho- a reputação do Rio.

Texto de Sérgio Costa, na Folha de São Paulo, de 10 de outubro de 2008.


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sexta-feira, setembro 05, 2008

Mãe Coragem



1:

Mãe investiga morte de filho e "condena" PMs

Após 6 anos de apurações e cobranças, Márcia de Oliveira Jacintho viu 2 policiais serem condenados por júri na terça-feira

Policiais tentaram simular confronto "plantando" arma e droga com Hanry, 16, morto com um tiro em 2002 no morro do Gambá, no Rio

ITALO NOGUEIRA
DA SUCURSAL DO RIO

Durante seis anos, Márcia de Oliveira Jacintho, 46, investigou a morte do filho, Hanry, 16, com um tiro no peito, em novembro de 2002. Moradora do morro do Gambá, zona norte do Rio, ela colheu depoimentos, localizou testemunhas, conseguiu perícia no local e até direito estudou para provar que ele não morreu em troca de tiros com a polícia, como havia dito a PM, e sim assassinado.
O 3º Tribunal do Júri confirmou o resultado da investigação de Márcia na terça-feira e condenou o PM Marcos Alves da Silva a nove anos de prisão por homicídio doloso e fraude processual (simulou apreensão de arma e droga com Hanry) e o PM Paulo Roberto Paschuini a três anos pelo último crime. Os dois vão recorrer.
Hanry Silva Gomes de Siqueira cursava o 1º ano do ensino médio à noite -nunca havia repetido. À tarde, fazia aulas de futebol e informática. Segundo documento do Instituto Sócio-Educacional Pró-Cidadania (ONG onde fazia cursos) entregue à polícia, "tinha o sonho de trabalhar para se mudar com a família da favela".
A perícia indicou que ele foi morto com um tiro no peito em trajetória descendente (de cima para baixo). O laudo contraria o relato dos PMs, sobre troca de tiros com traficantes.

Saga
A saga de Márcia começou em 21 de novembro de 2002, quando a PM registrou na 25ª Delegacia de Polícia a morte de um jovem pardo como "auto de resistência" em confronto numa operação que envolveu dez homens. Entregou um revólver 38 e um saco de maconha, apresentados como do "traficante".
Era Hanry. "Fiquei desnorteada. Sabia que havia sido a PM, mas não como tinha acontecido." Três semanas depois, ela conversava com outras mães quando foi abordada por um traficante de fuzil no ombro.
"Tia, você é a mãe do menino que morreu lá no alto, né? Um cana [policial] que me pegou [prendeu] disse que tava com ele na mão [rendido], colocou [a arma] no peito [de Hanry] e apertou. O filho da senhora era inocente, não tinha nada a ver [com o tráfico]. A senhora tem que correr atrás", disse ele.

Testemunhas
Ela correu. Procurou quem tivesse visto o filho antes da morte ou detalhes da operação policial e os convenceu a depor.
Um menino que soltava pipa lhe contou os últimos momentos do filho: ele voltava da comunidade vizinha, Boca do Mato, sem camisa, de bermuda.
Ao ouvir um morador que havia encontrado no dia seguinte ao crime o chinelo e a chave de Hanry, Márcia identificou o local exato do crime: dentro do mato, a 44 passos da trilha que o estudante fazia. Tirou fotos do local, assim como via em séries policiais na TV.
Apenas com o ensino fundamental, ela fez trabalho de perita e advogada. Abandonou o emprego de vendedora e passou a cobrar investigação das autoridades. Contou com a ajuda da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia -onde hoje trabalha, como assessora do deputado Marcelo Freixo (PSOL)- e da ONG Justiça Global. A casa passou a ser sustentada pelo marido, faxineiro.
Quatro meses após o crime, ela enviou carta à então governadora Rosinha Garotinho. Na semana seguinte, foi chamada a depor na 25ª DP. Sua investigação passou a ser oficial.
No final de 2004, abordou o chefe de Polícia Civil à época, Álvaro Lins, no Palácio Guanabara. O inquérito passou para a Delegacia de Homicídios.
Com as informações que colheu com moradores -e "oficializadas" em depoimentos à polícia-, viabilizou a realização da perícia no local, com a presença dos PMs envolvidos, dois anos e um mês depois.
Com base em depoimentos de moradores, placas e números de veículos anotados, Márcia afirma que 11 PMs participaram da operação. Apenas a dupla que assumiu ter atirado foi denunciada -e condenada.
Ao final da investigação, já havia se formado no ensino médio e cursado o primeiro período de direito -trancado atualmente. "Tinha que me instruir para saber como agir."

2:

"Antes de investigar, eu não tinha noção de nada", diz mãe

Segundo Márcia de Oliveira Jacintho, polícia poderia ter feito mais para elucidar crime

Ela saiu da sala quando a defesa dos PMs afirmou que o fato de Hanry estudar não era garantia de que não se tratava de traficante

DA SUCURSAL DO RIO

O sonho de Márcia de Oliveira Jacintho de se tornar investigadora, tal como via nas séries policiais na televisão, começou por vias tortas. Seu primeiro "caso" foi a morte do próprio filho, e a apuração foi estimulada por um traficante do morro do Gambá, onde ela mora até hoje, na zona norte do Rio.
Insatisfeita com a pena imposta aos dois PMs envolvidos na morte de Hanry Silva Gomes de Siqueira, 16, ela diz que a polícia poderia ter feito mais.
Durante o julgamento no 3º Tribunal do Júri, Márcia reproduziu os depoimentos dos moradores.
Controlada por quase todas as nove horas de sessão, ela chorou quando o promotor Marcelo Rocha Monteiro leu o documento do instituto onde Hanry cursava informática e fazia aulas de futebol.
Ela saiu da sala quando advogados de defesa afirmaram que o fato de o menino estudar não era garantia de que não se tratava de traficante.
(ITALO NOGUEIRA)

-

FOLHA - Como a senhora começou a investigar o crime?
MÁRCIA DE OLIVEIRA JACINTHO
- Quando acontece, sempre vem a questão dos porquês. Mas eu não tinha noção de nada.
Só quando estava na frente da creche, lá na comunidade, e o traficante veio falar comigo que eu tinha que correr atrás é que me deu o clique. Sempre tive o sonho de ser investigadora, delegada.

FOLHA - De onde tirou forças para tratar da morte do próprio filho?
MÁRCIA
- Eu não sabia nem que o caso tinha sido registrado como auto de resistência [morte em confronto com a polícia].
Comecei a procurar vizinhos, moradores que tinham visto algo. Depois fui à Comissão de Direitos Humanos da Alerj [Assembléia Legislativa do Rio], quando descobri como havia sido registrado o caso.

FOLHA - Por que acha que aconteceu isso com seu filho?
MÁRCIA
- Quando eles [PMs] pegam alguém na favela, eles falam: "Perdeu, perdeu". Os traficantes perdem dinheiro, fuzil, droga. Meu filho só tinha a vida para perder. Os PMs devem ter subido [à favela] porque algum acordo não foi cumprido e pegaram o meu filho.

FOLHA - A senhora acha que a polícia fez o que pôde para investigar?
MÁRCIA
- Vai ser difícil lembrar [risos]. A única coisa que fizeram foi assinar embaixo. Eles não buscaram nem a perícia feita nas cápsulas no local, dois anos depois do crime.

Textos da Folha de São Paulo: 1 e 2. (para assinantes). A foto está disponível no UOL. Há um outro texto, chamado de “Outro lado”, onde a Folha de São Paulo dá voz aos defensores dos policiais militares condenados por assassinato. Mas não vale a pena...

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quinta-feira, julho 31, 2008

Outdoor vira protesto contra violência policial

Outdoor vira protesto contra violência policial

DA SUCURSAL DO RIO

Outdoors espalhados pelo Rio exibem um desenho polêmico: uma mulher chora com uma criança ferida no colo, enquanto um homem com trajes semelhantes aos de um policial militar observa. Ao fundo, um veículo igual ao Caveirão dispara tiros.
Os outdoors celebram os 18 anos do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) e os 15 anos da chacina da Candelária. Ontem houve um ato público com cerca de 50 pessoas entre a Candelária e a Cinelândia para relembrar a chacina.

Texto da Folha de São Paulo, de 24 de julho de 2008.

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quinta-feira, julho 24, 2008

Democracia

Democracia
Candidatos a prefeito do Rio discutem o que fazer para reduzir seus riscos não eleitorais. Os riscos físicos de que, inadvertido, um deles entre em área urbana e eleitoral em que os chefes da bandidagem local não o queira.
Várias favelas estão vendidas a um deputado ou vereador, para se reservarem como áreas do candidato dele, e por isso os demais candidatos estão proibidos de entrar. Em outras, os chefes proibiram a entrada de todos os candidatos.
E ainda há quem ache que a prevalência do Estado fica anulada é nas reservas indígenas.
Parte da coluna de Jânio de Freitas, na Folha de São Paulo, de 17 de julho de 2008.

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quarta-feira, julho 09, 2008

O homem da ONU ganhou um Caveirão

O homem da ONU ganhou um Caveirão

O CORONEL PM Marcus Jardim, chefe do 1º Comando da Área da Capital do Rio de Janeiro e rotundo quindim da política de segurança do governador Sérgio Cabral, gosta de gracinhas. Em novembro de 2007, quando comandava um batalhão em Olaria, anunciou que "este ano será marcado por três pês: Pan, PAC e pau". Em abril passado, depois que morreram nove "supostos traficantes" numa operação policial contra um morro, o coronel informou que a PM é "o melhor inseticida social". Numa cidade onde a manipulação da histeria produziu a maldita e inexplicável figura do "suposto traficante", fazia-se necessário um coronel engraçado.
Seu melhor momento deu-se em novembro, quando recebeu no quartel o professor Philip Alston, fiscal das Nações Unidas para questões relacionadas com execuções sumárias. Diante da imprensa, presenteou-o com uma miniatura do "Caveirão", aquele blindado que dá aos coronéis da PM do Rio a sensação de comandar os tanques do general George Patton na Itália. Dando voz à inteligência de sua piada, anunciou: "Quem não gosta do Caveirão gosta de maconha. Quem não gosta do Caveirão gosta de cocaína". Ou ainda: "O que nós vivemos é uma guerra urbana".
O coronel desperdiçou valentia, pois Alston não estava sob sua jurisdição. Nascido na Austrália, ele é professor da New York University, já passou uma temporada em Harvard e há poucos dias concluiu a versão preliminar de seu relatório sobre o Brasil. Não fez referência ao mimo que recebeu, mas mencionou a filosofia pesticida do coronel Jardim. Parece até que Alston coordenou seu trabalho com a milícia da favela Batan. Disse o seguinte, referindo-se ao Brasil, não apenas ao Rio:
"Uma das principais razões da ineficiência da polícia na proteção dos cidadãos diante das gangues está no fato de freqüentemente aplicar violência excessiva e contraproducente quando está de serviço. Fora do serviço, participa daquilo que resulta no crime organizado".
Alston visitou o Rio depois da ocupação militar do Complexo do Alemão, onde morreram 19 pessoas. Relatou que ninguém lhe mostrou uma só prova de que essas mortes tenham sido investigadas. A crítica de Alston vai ao coração da política do governador Sérgio Cabral e da cenografia do coronel Jardim:
"No Rio, muitos funcionários consideraram a operação do Complexo do Alemão um modelo para iniciativas futuras. Seus resultados reais são dignos de nota: os maiores traficantes não foram presos nem mortos, e poucas drogas ou armas foram capturadas. (...) Na medida em que a operação do Complexo do Alemão reflete a estratégia central do governador do Rio, ela é orientada politicamente e resulta em policiar de acordo com as pesquisas de opinião. Ela é popular junto àqueles que buscam demonstrações de força e resultados rápidos. É irônico que seja contraproducente. Vários policiais experientes com quem eu falei mostraram-se muito críticos dessa idéia de "guerra'".
Quem não lembra da figura de Anthony Garotinho em 2004 cantando vantagem depois que sua polícia matou cinco na Maré? Dizia assim: "O papel da polícia não é fugir do bandido, é enfrentá-lo". Era a tal da linha do enfrentamento reciclada pelo doutor Sérgio Cabral. Afinal, no combate ao crime, Cabral e Garotinho sempre estiveram juntos.

Texto de Elio Gaspari, na Folha de São Paulo, de 4 de junho de 2008.

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quarta-feira, março 12, 2008

O Rio de Janeiro não é um burgo podre

A CANDIDATURA de Fernando Gabeira à Prefeitura do Rio de Janeiro será um sopro de inteligência na campanha eleitoral de uma cidade que parece entregue a um condomínio de caciques, comendadores e poderosos chefões. Na ponta do lápis, sua chances são pequenas, menores que as de Barack Obama em fevereiro do ano passado.
Desprezando o pedaço de sua biografia que ficou no século passado, vale relembrar que Gabeira mandou o PT passear em outubro de 2003.
Naquela época, os poderosos da República veneravam a trindade de comissários do "núcleo duro" do governo: José Dirceu, Antonio Palocci e Luiz Gushiken. (O primeiro registro digno de fé da existência de um sistema de mesadas no Congresso é de fevereiro do ano seguinte. O termo mensalão só aparece em setembro.)
Aos 67 anos, o deputado do PV entra em mais uma briga, carregando nas costas a mochila da decência. Há candidatos em quem se vota para ganhar e há aqueles com quem se vai na certeza da derrota. Lula em 1994 e 1998 foi um exemplo desse paradoxo da democracia. Gabeira parece ter essa qualidade. É melhor perder com ele do que ganhar com alguns de seus concorrentes.
Em 1973, opondo-se à fusão dos Estados do Rio e da Guanabara, que continha a valorosa cidade de São Sebastião, o economista Eugênio Gudin escreveu um memorável artigo intitulado "A Guanabara não é um burgo podre". Quase meio século depois, grande parte do poder político da cidade concentrou-se nas mãos de oligarcas e chefões.
Gente estranha, que se elege coligando-se com o inimigo a quem chamou de ladrão ontem e chamará novamente amanhã. Politicamente, o Rio de Janeiro nunca esteve tão perto de virar um burgo podre.
Nunca é demais lembrar que foi Nosso Guia, associado ao comissário José Dirceu, quem permitiu o aparecimento da dinastia dos Garotinho e de seus derivados. Em 1998, a dupla interveio no PT do Rio de Janeiro e detonou a candidatura de Vladimir Palmeira ao governo do Estado. Só o tempo dirá se essa decisão pode ser comparada à chegada do mosquito da febre amarela ao porto da cidade.
A presença de Fernando Gabeira na eleição talvez não resulte na sua ida para a prefeitura, mas terá três efeitos, todos benéficos. No primeiro, melhorará o nível de decência da disputa. Mesmo que melhore pouco, isso já será alguma coisa. No segundo, justificará a ida de pessoas para a rua, nem que sejam cinco. A idéia de ver alguém numa esquina agitando uma bandeira sem aquela cara de quem está esperando um lanche e R$ 50 já faz bem à alma. No terceiro, o mais relevante, trará uma voz que nunca se associou à demofobia que tomou conta da agenda político-social do burgo. Afinal, a Rocinha não é "uma fábrica de produzir marginal". Se fosse, o Rio já teria acabado.
O carioca não vive numa cidade qualquer. Quando ele vem pela avenida Rio Branco, passa pelo monumento a Floriano Peixoto, dobra e cruza com Deodoro da Fonseca e Getúlio Vargas. Quando chega à Siqueira Campos, vê o bronze (horrendo) dos 18 do Forte. Foi na sua cidade que aconteceram as coisas que fizeram a história daquelas pessoas. Era numa esquina de Ipanema que Tom Jobim e Vinicius de Moraes viam o mundo inteiro se encher de graça.

Texto de Elio Gaspari, na Folha de São Paulo, de 5 de março de 2008 (para assinantes).

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