sábado, agosto 28, 2010

O domínio do trivial

O domínio do trivial

AOS VINTE anos, leitor de Gramsci, eu entendia que o poder das classes dominantes se exercia de duas maneiras.
Havia a exploração econômica, com repressão eventualmente brutal das reivindicações dos trabalhadores (sem contar as guerras imperialistas).
E havia a outra face do domínio: o controle das ideias e das mentes, oculto e insidioso. Esse era o terreno de luta dos intelectuais: podíamos colaborar com a classe dominante ou, então, fazer o quê? Sermos porta-vozes de uma nova classe?
Não éramos totalmente ingênuos. Reconhecíamos os horrores do dito "socialismo real" e percebíamos que ele substituíra uma classe dominante por outra. A ditadura do proletariado não tinha por que ser melhor do que a ditadura da burguesia; talvez, aliás, ela fosse pior. Nosso sonho era outro: uma sociedade sem classes.
Pois bem, um espectador apressado poderia pensar que, enfim, realizamos a famosa sociedade sem classes -ao menos em parte.
Claro, desigualdades e exploração continuam; no entanto, é difícil distinguir a cultura da classe dominante das outras que lhe seriam opostas, porque, no fundo, mesmo quando parecemos discordar, pensamos todos igual.
Acabo de ler "L'Egemonia Sottoculturale", de Massimiliano Panarari (Einaudi, 2010). O autor, um intelectual de minha geração, faz uma crítica hilária da "subcultura da fofoca", que seria, segundo ele, a cultura dominante na Itália de hoje. Infelizmente, é difícil entender os exemplos no texto de Panarari sem ter sido espectador da televisão aberta italiana durante um bom tempo (e para isso é necessário dar prova de um certo heroísmo). Mas o que Panarari diz não se aplica só ao caso da Itália.
Mundo afora, é cada vez mais difícil dizer algo que não faça parte de um senso comum que é feito de referências, ideias e, sobretudo, maneiras de pensar compartilhadas graças ao uso generalizado da mesma mídia.
Nesse quadro, pensar criticamente é árduo. Quem deseja convencer seus leitores ou espectadores de que ele pensa fora da trivialidade dominante tende a parecer-se com aquelas crianças que, de vez em quando, gritam "xixi e cocô" e, com isso, gabam-se de ter quebrado um grande tabu.
Nesse sentido, nos EUA, são cada vez mais populares radialistas, apresentadores e jornalistas supostamente "conservadores", que devem seu sucesso a uma vulgaridade e a uma truculência que parecem satisfazer a espera de todos por um pensamento novo, diferente. Um exemplo: um dos aspectos do senso comum é um respeito forçado das regras do politicamente correto. Diante disso, os ditos comentadores não inventam visões mais complexas e produtivas da diversidade social, mas, para criar a ilusão de que eles pensariam fora do senso comum, permitem-se, de vez em quando, dizer ou gritar "negro" ou "viado". Sua "ousadia" é tão inovadora quanto a das crianças do "xixi e cocô".
No Brasil, o debate eleitoral em curso poderia também servir para mostrar que nosso senso comum compartilhado é, no caso, uma espécie de razoabilidade, resignada a evitar temas excessivamente conflitivos (o aborto, por exemplo) e a aceitar alianças duvidosas e supostamente "necessárias".
Como chegamos a essa perda de contraste na vida pública e cultural?
Segundo Panarari, a burguesia ganhou a luta pela hegemonia jogando a carta do prazer: "Na década do hedonismo reaganiano, todos se convenceram, de repente, que estava na hora de divertir-se. Palavra de ordem: "Queremos folgar" e, por favor, evite-se empestar a existência, de qualquer maneira que seja, com política, cultura, economia e todas essas "coisas" assimiláveis a preocupações e aborrecimentos". Conclusão: a subcultura hedonista da fofoca é o novo ópio do povo.
Concordo (um pouco) com essa visão apocalíptica da cultura dominante. Mas discordo da ideia de que a subcultura da fofoca seja a invenção vitoriosa de uma classe específica.
Ela é, ao meu ver, uma consequência dos nossos tempos, pela razão que segue. Quando a mídia é de massa, não há mais diferença entre manipuladores e manipulados, pois os próprios manipuladores, expostos à mídia, são manipulados por suas produções. Ou seja, progressivamente, todo o mundo pensa as mesmas trivialidades.
É o feitiço que enfeitiça o feiticeiro.

Texto de Contardo Calligaris, na Folha de São Paulo, de 19 de agosto de 2010.

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quarta-feira, abril 02, 2008

Das Crônicas do Heuser: Perpetua elettorale

Perpetua elettorale


Por Paulo Heuser


Gianfranco Anarchico perambula pelo Alto da Bronze, no centro velho da cidade. Perambula, pois parece não ter destino definido. Simpático, lá pela casa dos 70, usa barba e cabelos longos grisalhos presos em forma de rabo de cavalo. As bermudas largas acentuam a magreza. Seus olhos vivos não deixam nada fugir, apesar das grossas lentes dos óculos de armação redonda. Ele não perde oportunidade para uma prosa com qualquer um que passe, conhecido ou não. Gian – como é conhecido por lá – nasceu na Toscana, onde seu pai militava em um movimento anarquista. Gian seguiu os passos do pai e foi convidado pelo PAIS – Partido Anarchista Independente Sectário – a vir ao Brasil para fundar uma célula local entre imigrantes daquele país. Apesar de o PAIS estar ligado a uma seita que cultuava Baco, não conseguiram mais adesões, senão aquelas dos dois membros já filiados. Mesmo após o fracasso, que até poderia ser encarado como sucesso, pois o partido manteve-se acéfalo e anárquico, Gian ficou por aqui e abriu uma gráfica de fundo de quintal para a fabricação de brindes.

Gian descia a Rua da Praia, na direção do Gasômetro, quando passou pelo Bar da Elvira, meio escondido entre os demais. Dois sujeitos que ocupavam a parte externa do bar - os dois degraus junto à soleira da porta - discutiam acaloradamente um dos assuntos do momento: se as obras públicas são eleitoreiras. Um rapaz com ares de estudante de Administração, com ênfase em Desestatização do Estado, afirmava que a Mãe do PAC – Ministra Dilma Rousseff – seria a candidata à sucessão do Presidente Lula, e que o plano seria puramente eleitoreiro. O outro, com ares de estudante de Governança, com ênfase no Terceiro Setor, rebatia afirmando que havia eleições demais, tornando qualquer coisa eleitoreira, pelo menos na aparência.

Duas pessoas formam um comitê. Três, um comício – pensou Gian, enquanto acomodava-se entre os dois, no segundo degrau.

- Ciao, ragazzi! Sabem que vocês dois têm razão! – disparou ele, sem convite. Essa sempre foi uma forma estratégica para entrar numa conversa sem ser expulso imediatamente. Contentava metade de cada lado. E continuou, antes que se refizessem da surpresa:

- Meu falecido pai, Armando, defendia a renovação constante do parlamento, coisa que meus conterrâneos parecem levar a sério. – referindo-se à nova queda do parlamento italiano. Antes que os rapazes pudessem esboçar qualquer reação, Dona Elvira já havia alcançado um copo de requeijão light – ainda com o rótulo – para que Gian se servisse de meio copo de cada cerveja. Novamente, não tomou partido. Tomou duas marcas de cerveja, misturadas, elogiando ambas.

- O poder não pode ser exercido por tanto tempo, mesmo que emanado do povo, pois não há nada mais corrupto que o povo acomodado. Já em 1959, defendíamos as eleições anuais, em agosto, mês que não tem Natal, Carnaval, Páscoa, Ano Novo ou qualquer outra data que venda brindes e ocupe o setor de serviços. Nem casamentos há em agosto. O que fazem os fotógrafos e os promotores de eventos? As eleições anuais movimentariam a economia e reduziriam essa sensação de obra eleitoreira. Logo poderíamos implantar as eleições em 12 turnos. Já imaginaram o salto de qualidade? O candidato assumiria representatividade nunca dantes vista.

Dona Elvira já ouvira essa história um sem número de vezes. Mudava apenas a introdução, conforme o papo que rolava no momento da chegada do Gian. Ele fez sinal para que ela trouxesse mais duas cervejas para os rapazes. Um deles tentou estabelecer um diálogo:

- Mas, isso vai virar bagunça...

- Bagunça não, mobilidade sociopolítica desprovida de hierarquia institucionalizada. Um novo e dinâmico sistema de perpetuação do poder do povo. Já pensávamos nele em 1959.

Gian serviu-se de mais meio copo de cada cerveja. Olhou para os dois incrédulos e involuntários fornecedores de cerveja blended e continuou o diálogo com ares de monólogo:

- Após o primeiro ano poderíamos transformar os turnos mensais em novas eleições. Então, seria fácil alcançarmos nosso objetivo final.

Nem os rapazes, nem Dona Elvira, figuradamente careca de tanto conhecê-lo, ousaram perguntar-lhe sobre esse objetivo final. O final soou como terminal. Mesmo assim, Gian respondeu a pergunta que não fora feita:

- Meu falecido pai, Armando, sonhava com a continua perpetua elettorale – eleição perpétua contínua.

Gian seguiu caminho, sem destino, sonhando com contínuos e eternos comícios, enquanto os dois rapazes permaneceram sentados em silêncio. Subitamente, perceberam que a distância entre suas idéias não era assim tão grande, afinal.

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quinta-feira, setembro 27, 2007

Juremir Machado da Silva: Falsas Verdades e Verdades Falsas

FALSAS VERDADES E VERDADES FALSAS


Há um campeonato brasileiro da hipocrisia. Esquerda e direita brigam para saber quem mente mais. Por enquanto, está dando empate. Algo em torno de 105 a 105. Cada vez que alguém anuncia o fim do binômio esquerda/direita, algo que acontece diariamente por toda parte, não há dúvida: trata-se de um representante da direita bancando o imparcial, o neutro e o homem acima dos próprios interesses. O mesmo acontece quando se repete o clichê a respeito do fim das ideologias. A idéia de que não há mais esquerda e direita é simplesmente uma idéia de direita transformada em verdade pela força da repetição e do vazio. Não custa repetir. No combate entre Lulla e os seus opositores a dissimulação é a principal arma. É um jogo curioso e praticado com certo esmero. Todos os lances devem ser calculados com muita antecedência. É lugar-comum contra lugar-comum. Sempre.

A direita ataca o governo Lulla por causa da corrupção. O fundo é verdadeiro. Mas é o que menos interessa. Na verdade, não passa de um pretexto para fustigar Lulla por ele estar ocupando um lugar tradicionalmente reservado às elites. Onde já se viu um operário grosseirão virar presidente da República? Essa quebra da 'ordem natural das coisas' ainda não foi engolida. Nem será. Se a corrupção não existisse, seria preciso inventá-la para se ter bons argumentos contra o usurpador. Talvez por isso José Dirceu e os outros venham a ser recompensados pelos bons serviços prestados aos donos do capital. Sem eles, daria mais trabalho minar as bases do governo. Lulla adotou o modelo econômico de FHC e acrescentou uma boa dose de assistencialismo. É tudo. A direita poderia simplesmente adotá-lo. Não perderia um centavo nem corria qualquer risco. Por que fazer isso se a própria direita pode recuperar o poder e andar sozinha?

Por outro lado, sempre que atacado, o governo usa os mesmos expedientes: a chantagem emocional e o vitimismo. Tudo é conspiração da direita contra o pobre do operário no poder. Tudo é preconceito contra um homem que se fez sozinho e rompeu o círculo sagrado do poder controlado por elites selvagens. Tudo é ressentimento das classes médias e altas com suas manias de estudo formal, doutorados, uso correto da língua e outras manifestações burguesas e obsoletas. A direita ridiculariza a obsessão da esquerda por teorias conspirativas, mas não se cansa de conspirar. A esquerda cobra imparcialidade, mas nunca a pratica. Todos sabem que há uma parte de verdade em cada argumento utilizado conforme as conveniências. A totalidade, no entanto, é falsa. Há, de fato, preconceito contra o operário no poder, mas a corrupção nada tem de fictícia. Lulla está fazendo um bom governo. Nada, porém, que não represente uma linha de continuidade em relação à era FHC.

Além da mentira, da dissimulação e dos clichês, direita e esquerda têm em comum o golpismo. Os petistas não suportam críticas e sonham com uma imprensa dócil. A direita não tem paciência para esperar as eleições e estimula a mídia a ser raivosa. Nesse espetáculo sem intervalo, feito de capítulos sempre mais sensacionalistas, a esquerda utiliza com mais freqüência o método da intimidação. A direita prefere lançar mão da influência por baixo dos panos. O objetivo é um só: silenciar a crítica. É uma guerra econômica. Não se gasta tempo com originalidade.

Este texto foi publicado no Correio do Povo (para assinantes) de 23 de setembro de 2007.

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