Ainda a Mosca Azul

Porque política é um assunto muito chato mas é fundamental. Início: 06/04/2006.

segunda-feira, agosto 02, 2010

Quem é Uribe

Ignorar a história, uma saída rasteira – por Wálter Fanganiello Maierovitch

Condenar a guerrilha sem levar em conta o contexto na qual surgiu é jogo sujo

Na campanha eleitoral em curso, o candidato tucano José Serra volta, como em 2002, a tentar colar no PT e, por tabela, em Lula e na concorrente Dilma, a imagem de apoiadores das Forças Armadas Revolucionárias Colombianas (FARC). Serra ignora a história da Colômbia, país onde a violência tornou-se endêmica desde a morte por tuberculose do frustrado Simón Bolivar, em dezembro de 1829.

O ex-governador de São Paulo faz tábula rasa do longo arco temporal em que as Farc eram uma organização insurgente, nascida em 20 de junho de 1964 e diante de uma heroica resistência campesina ao plano genocida elaborado pelos EUA e chamado Latin American Security Operation. Esse plano competiu ao exército colombiano, com assessoria norte-americana. Algo muito comum na historiografia da Colômbia: para matar Pablo Escobar, os americanos treinaram policiais colombianos e os direcionaram, com recursos tecnológicos made in USA, até o esconderijo do narcotraficante. A matança ficou por conta da mão do gato, no caso, os soldados colombianos.

A Serra, nesta campanha presidencial, só interessa as Farc da dupla Álvaro Uribe e George W. Bush. Com o Plano Colômbia (iniciado no governo Bill Clinton) e com a morte de Manuel Marulanda, apelidado de Tirofijo, houve a quebra de unidade de comando das Farc, perda de disciplina nas frentes e luta intestina pela sucessão.

Deu-se o conflito entre as alas lideradas pelo antropólogo Alfonso Cano e pelo combatente Mono Jojoy, uma espécie de general de campo e promotor da busca de recursos financeiros sujos, isto é, provenientes do tráfico de cocaína operado por uma miríade de cartelitos, que substituíram os grandes cartéis dos tempos de Escobar, de Gacha, dos Ochoa e dos irmãos Orejuela.

Antes do Plano Colômbia, conforme revelado pela Central Intelligence Agency (CIA), as fontes de arrecadação das Farc, por ordem de importância, eram as seguintes: sequestro de pessoas para fim de extorsão, abigeato (furto de gado), "taxa"de proteção aos produtores de café e milho e arrecadação de "imposto de circulação" gerado pela venda de folha de coca nos mercados. Hoje, segundo divulgam os 007 da Drug Enforcement Administration (DEA), as Farc arrecadam 1% do movimento financeiro operado pelo tráfico internacional de cocaína. Como fazem esse cálculo, só a unidade de propaganda imperialista e anti-Farc saberia informar.

Certa vez, Andrés Pastrana, já sequestrado pelas Farc e antecessor de Uribe, reclamou, em pronunciamento como presidente recém-eleito, como o seu país era objeto de análises equivocadas no exterior: "A Colômbia padece de duas guerras nitidamente diferentes. Aquela do narcotráfico contra o país e o mundo. E aquela da guerrilha contra um modelo econômico, social e político, que é injusto, corrupto e gerador de privilégios".

Com relação ao narcotráfico, Pastrana não se referia às Farc, com as quais procurou negociar um plano de paz e estabeleceu zonas desmilitarizadas. Apesar das críticas do governo Clinton, pela voz do general Barry MacCafrey, czar das drogas da Casa Branca e autor do Plano Colômbia, o conservador presidente Pastrana, filho do ex-presidente Misael, precisava conquistar confiança como negociador. Numa Colômbia que, em 1953, atraiu guerrilheiros de esquerda para o chamado pacto de "Paz, Justiça e Liberdade" e, às ordens do general Gustavo Rojas Pinilla, acabou por fuzilar, em três meses, 10 mil dos que haviam deposto as armas.

Pastrana, ao mencionar o narcotráfico, estava a se referir ao escândalo do seu antecessor, Ernesto Samper Pizano, que recebeu dinheiro dos cartéis da cocaína para a campanha presidencial, e à força adquirida por essas organizações criminosas durante a presidência de César Gaviria Trujillo (hoje associado a Fernando Henrique num projeto de legalização de todas as drogas proibidas pela Convenção das Nações Unidas). Nesse período, até Pablo Escobar se elegeu deputado.

Tendo em vista a trajetória da família Uribe, com laços estreitos com o narcotráfico, e como bem definiu, em 1881, o embaixador argentino na Colômbia, "este é um país onde matar um opositor ideológico não é considerado verdadeiro crime comum, e sim apenas o desenvolvimento natural de uma tática política".

A origem remota das Farc não escapou à pena brilhante de Gabriel García Márquez. Na obra Cem Anos de Solidão ele descreve a chacina, em 1928, de Ciénaga, de responsabilidade da estadunidense United Fruit. Os bananeiros da zona de Santa Marta se negaram a carregar os trens parados na estação ferroviária de Ciénaga, destinados a levar bananas para New Orleans. Os trabalhadores exigiam repouso semanal, melhores condições sanitárias, pagamento do salário em dinheiro, em vez de vales só aceitos em comércios da United Fruit. O exército foi acionado pela companhia americana e, antes do término do prazo para o carregamento dos vagões, abriu fogo e matou uma centena de bananeiros. Após isso, a United Fruit passou a se chamar Frutera de Sevilla e, em 1980, Chiquita Banana, Del Monte e Dole.

À tragédia de Ciénaga reagiu Jorge Eliécer Gaitán, líder da União Nacional da Esquerda Revolucionária (Unir). Gaitán tornou-se o candidato à Presidência, nas eleições de 1950. Era candidato imbatível, com maciço apoio popular. Acabou assassinado em 9 de abril de 1948, num complô armado pela CIA, que temia a expansão comunista, apesar de Gaitán nunca ter sido comunista e de ter se transferido até para o Partido Liberal.

Efetivamente, a violência colombiana é endêmica. No século XIX, por exemplo, a Colômbia republicana enfrentou duas guerras com o Equador, oito guerras civis internas de amplitude nacional e 14 guerras civis regionais. Os partidos, Conservador e Liberal, desde 1848 monopolizaram a vida política com programas diferentes, mas em permanente união na defesa do latifúndio, das elites, dos paramilitares e contra a formação de sindicatos.

Os conservadores tinham por lema "Deus, pátria e família". Os liberais, aparentemente progressistas, proclamavam a fórmula francesa da igualdade, liberdade e fraternidade. A forte Igreja Católica colombiana pendeu para os conservadores e fechava os olhos à exploração do trabalho. Gaitán foi a renovação liberal e o denominado "gaitanismo"lograva unir os pobres nas cidades e nos campos. Depois do assassinato de Gaitán, começaram as grandes resistências camponesas e o nascimento das Farc.

Uribe é desde sempre um governante empenhado a qualquer custo na manutenção do status quo. Quando governador de Antioquia, Uribe inventou o Conviver, uma segurança privada que promoveu o extermínio dos opositores. No fim do seu mandato, Antioquia já estava, com o aval de Uribe, sob controle dos paramilitares das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC). Durante anos, os grandes cartéis de cocaína, com Gonzalo Rodríguez Gacha à frente, financiaram os paramilitares contra as Farc. Gacha foi considerado pela revista Forbes, no fim dos anos 80, o homem mais rico do mundo, bem à frente de Escobar.

Este texto foi publicado na edição 607 da revista CartaCapital. Visto no blog do Luís Nassif.

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sexta-feira, maio 28, 2010

Escândalo de grampos ilegais se aproxima do presidente da Colômbia

Escândalo de grampos ilegais se aproxima do presidente da Colômbia

FLÁVIA MARREIRO
ENVIADA ESPECIAL A BOGOTÁ

"Minha filha foi convertida em um instrumento de tortura psicológica, controle social e violência política", diz a jornalista Claudia Julieta Duque, que protagonizou um dos casos mais dramáticos do chamado "escândalo do grampo" na Colômbia. Há cinco anos ela teve de sair do país com a filha, então com 10 anos, depois que seguidas chamadas prometiam "queimá-la viva".

Documentos em poder do Ministério Público colombiano desde o ano passado indicam que Julieta Duque, protegida pelo Estado, era perseguida por agentes do também estatal DAS (Departamento Administrativo de Segurança) --ligado à Presidência. Ás vésperas da eleição presidencial, a investigação sobre esquema ilegal de gravações telefônicas e quebra de sigilos bancários feito pelo órgão de inteligência subordinado a Álvaro Uribe avança e envolve cada vez mais funcionários de alto escalão do governo e do gabinete da Presidência.

Em outro revés para o governo, a ONU divulgou ontem relatório sobre outro escândalo, o dos 'falsos positivos': as execuções de civis por militares, que apresentavam seus corpos como 'baixa de guerra' em troca de bonificações por desempenho ou folgas.

Além de jornalistas --16, segundo informe da ONG Repórteres Sem Fronteira lançado ontem--, a operação teve como alvo opositores, como o candidato a presidente Gustavo Petro (Polo Democrático, esquerda), e defensores de direitos humanos, como José Miguel Vivanco, da Human Rights Watch. Mas o grupo de vítimas com maior voltagem política é o dos magistrados da Corte Suprema de Justiça, que investiga os nexos entre políticos, a maioria ligados ao governo, com paramilitares. Até sessões do tribunal foram gravadas, segundo os documentos da Procuradoria.

Nesta semana, Uribe foi arrolado como testemunha na investigação do Ministério Público do tema. Seu secretário, Bernardo Moreno, está sendo investigado por ter se reunido com agentes e funcionários atualmente presos ou investigados pelo escândalo. O secretário de imprensa, César Mauricio Velásquez, também está citado nas investigações.

Um dos agentes presos resolveu aderir ao programa de proteção a testemunhas e sustenta que as ordens para os grampos vinham da Casa de Nariño, o palácio presidencial. Vários documentos apreendidos têm a inscrição "enviar ao presidente". No caso da Corte Suprema e de alguns dos grampeados, a Unidade Administrativa Especial de Informação e Análise Financeiro (UIAF), do Ministério da Fazenda, também produziu relatórios sobre movimentações financeiras. Nesta semana, o Ministério Público acusou formalmente o chefe do setor, Mario Aranguren, de comandar uma "unidade criminosa". Ele renunciou.

Ontem, Uribe negou mais uma vez que tenha ordenado os grampos e as operações de difamação --todos já atacados nominalmente por ele em discursos.

Calvário

O caso da jornalista Julieta Duque é emblemático porque além de aparecer na lista de grampos ilegais, ela também foi vítima de uma operação --documentada-- de amedrontamento e ameaças. Tudo começou há cinco anos, quando ela começou a fazer reportagens sobre supostas ações do DAS para desviar uma investigação sobre a morte de um humorista no começo da década.

Em dezembro, a revista "Semana" de Bogotá, publicou um documento em papel timbrado do DAS que descrevia passo a passo como os agentes deveriam agir para ameaçá-la por telefone. Julieta Duque já contava, nesta época, com proteção policial. Em uma das chamadas, o agente prometia "queimar viva sua filha", "espalhar seus dedos pela casa". Foi então que ela decidiu deixar o país.

Em entrevista à Folha, Julieta Duque diz que não tem esperança os candidatos à Presidência na dianteira nas pesquisas --Juan Manuel Santos (governista) e Antanas Mockus (Partido Verde)-- tenham como prioridade a investigação do escândalo. "Em todo caso, com Mockus haveria um pouco mais de esperança, mas não confio tampouco." Jornalista da rádio Nizkor, especializada em direitos humanos, ela afirma que os anos do governo Uribe transformaram os críticos do governo --incluindo jornalistas-- em "inimigos".

"Uribe levou o país a uma reorientação afetiva, em que nossa nova redefinição como colombianos foi estar unidos em torno de um inimigo comum e único: as Farc [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia]. Assim, todos que pensavam de maneira diferente do presidente foram convertidos em inimigos."

Pela primeira vez em oito anos, Julieta Duque passou cinco meses inteiros na Colômbia, depois de pular de país em país por causa das ameaças. "Consegui, creio que consegui, ficar em meu país. E essa foi minha maior luta, de modo que estou satisfeita, depois de tudo."


Notícia da Folha.com .

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terça-feira, setembro 22, 2009

Uribe conspirou para depor Chávez?

Ex-agente confirma que Colômbia planejou derrubar Chávez

De acordo com o ex-chefe de informática do serviço de Inteligência da Colômbia Rafael García, o governo do presidente Álvaro Uribe elaborou "uma conspiração" contra o líder venezuelano, Hugo Chávez, que incluiu o envio de paramilitares e planejava o assassinato de personalidades.

O procurador-geral interino da Colômbia, Guillermo Mendoza, disse nesta segunda-feira à emissora de rádio "RCN" que as declarações de García "conduziram a diversas investigações, acusações e até sentenças condenatórias", mas que em "outras ocasiões nada foi encontrado".

Em entrevista ao "Canal Uno" de televisão, García alegou que faziam parte do plano para derrubar e assassinar Chávez o ex-diretor do Departamento Administrativo de Segurança (DAS) Jorge Noguera, preso por supostas conexões com paramilitares, e o Bloco Norte das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC).

"Houve toda uma conspiração contra o governo venezuelano, no qual até onde sei, participaram facções do Bloco Norte e do DAS, também estimuladas pelo ex-ministro (do Interior) Fernando Londoño", disse.

O ex-funcionário do DAS acrescentou que houve a participação, além disso, de alguns venezuelanos, como criadores de gado da fronteira entre os países.

Dentro do plano também estava a "sabotagem das cadeias de produção da Venezuela", que "provocaram uma greve em 2002 que causou ao país um enorme dano", disse.

Entre os planos, segundo García, havia o de "assassinar personalidades, com o objetivo de causar alvoroço na sociedade venezuelana".

"Muitos explosivos foram passados por funcionários do próprio DAS no posto de fronteira de Paraguachón na minha frente, eu os vi quando passaram", acrescentou.

Os principais alvos do grupo, de acordo com García, eram o presidente Chávez, o ex-vice-presidente José Vicente Rangel, o ex-ministro do Interior Jessi Rodríguez Chacón, e o procurador-geral, Isaias Rodríguez.

O ex-chefe de informática já tinha feito denúncias sobre um suposto complô do DAS e dos paramilitares contra o Governo venezuelano, mas os detalhes e nomes dos envolvidos só eram conhecidos pela Promotoria.

Mendoza explicou que apenas um testemunho não pode, por si só, ser o suficiente para que o caso seja considerado como verdadeiro, e outras fontes deverão ser ouvidas.

A versão de García coincide com a dada por Hugo Chávez na cúpula da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) em agosto, na Argentina, sobre um plano elaborado na Colômbia contra ele.

Fonte: EFE


Origem: Vermelho via Blogoleone.

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segunda-feira, setembro 21, 2009

Tudo por um terceiro mandato?

Inteligência mapeou votos, afirma revista

DA REDAÇÃO

A aprovação do referendo para autorizar a segunda reeleição consecutiva do presidente Álvaro Uribe foi precedida de nova revelação de espionagem, no fim de semana, supostamente ligada ao trâmite de aprovação do projeto.
Em sua edição mais recente, a revista "Semana" trouxe revelação de que o DAS, agência de Inteligência do país, mantém esquema de grampos de magistrados, congressistas e candidatos presidenciais.
Segundo funcionários do próprio DAS ouvidos pela revista sob anonimato, o esquema visava mapear os votos dos grampeados sobre o projeto de convocação da consulta.
Em fevereiro, a agência já havia sido envolvida em escândalo do tipo. Tanto à época como agora, um dos grampeados é o ministro da Corte Suprema de Justiça Iván Velásquez, responsável por julgar envolvimentos de aliados de Uribe com paramilitares.
Ontem, o diretor do DAS, Felipe Muñoz, disse estar colaborando com a Promotoria na investigação das novas denúncias e afirmou que existem empresas que atuam paralelamente ao Estado em esquemas de escutas ilegais.
Muñoz exortou todos os funcionários do DAS a fazerem denúncias caso recebam ordens à margem da cúpula do organismo.
No domingo, o ex-presidente da Colômbia César Gaviria (1990-94) acusou o governo de fazer do DAS uma "máquina de delinquência" a seu serviço.

Texto da Folha de São Paulo, de 2 de setembro de 2009.


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domingo, julho 26, 2009

ÁLVARO URIBE RECEBE CHANCELER DE GOVERNO GOLPISTA

ÁLVARO URIBE RECEBE CHANCELER DE GOVERNO GOLPISTA


Segundo o ministro Carlos López, o presidente colombiano disse, em encontro na segunda que só veio a público ontem, "simpatizar" com o governo de Roberto Micheletti por seu "respeito à ordem constitucional, à separação dos Poderes e aos direitos humanos". Em nota, Bogotá disse que recebeu de maneira informal uma comissão hondurenha "no âmbito do processo de facilitação da situação em Honduras, liderado pelo presidente Óscar Arias".

Notícia da Folha de São Paulo, de 23 de julho de 2009.

De alguma maneira a notícia não chega a ser totalmente surpreendente.

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domingo, maio 24, 2009

Senado colombiano aprova referendo para Uribe tentar terceiro mandato

Senado colombiano aprova referendo sobre 2ª reeleição

Texto precisa ser negociado com Câmara e aprovado pela Justiça antes de convocação

Caso iniciativa governista supere essas barreiras, população decidirá se o popular Uribe poderá buscar terceiro mandato em 2010


DA REDAÇÃO

O Senado da Colômbia, de controle governista, aprovou ontem a convocação de referendo para permitir ao presidente Álvaro Uribe concorrer a um terceiro mandato. A votação, a última de quatro no plenário, foi marcada por insinuações de compras de voto por parte da oposição.
Uribe, popular presidente conservador no poder desde 2002, aproxima-se ainda mais de uma nova candidatura em 2010, mas no caminho até as urnas o texto do referendo terá de ser compatibilizado com o aprovado na Câmara, em dezembro, e passar ainda pelo crivo da Corte Constitucional.
A tropa de choque uribista, encabeçada pelo ministro do Interior, Fabio Valencia, agora parte para convencer uma comissão de deputados, liderada por um opositor à ideia, a aceitar o texto do Senado, que permite três eleições seguidas para mandatos de quatro anos.
O referendo da Câmara abre caminho para Uribe disputar só em 2014 por conta de detalhe no texto: cita presidentes que "cumpriram" dois mandatos, e não "eleitos" duas vezes.
Espera-se que o presidente vença as resistências -Uribe tem maioria na Casa-, apesar dos sinais de que há aliados querendo barganhar mais.
No Senado, os governistas tentaram votar o texto na semana passada, mas não houve quórum, em meio a exigências de pequenos partidos aliados por mais cargos. Nos últimos dez dias, a base também perdeu mais cinco senadores acusados de ligação com paramilitares -o escândalo da parapolítica já tirou 30% dos nomes da Casa-, e não houve condições de empossar todos os suplentes.
Ontem, os dois principais partidos de oposição, o esquerdista Pólo Democrático e o centrista Partido Liberal, acusaram Uribe de jogar sujo e deixaram o plenário. Ainda assim, o projeto passou com 62 votos a favor e 5 contra (ao todo, são 102 integrantes). "O senhor [ministro Valencia] não pode ir de cadeira em cadeira [negociar apoio]. A votação é suja", disse o senador liberal Héctor Helí.

Cronograma e escândalos
Para os uribistas, a preocupação é o cronograma, porque o referendo terá de ocorrer até novembro, seis meses antes da eleição, em maio de 2010, para que Uribe possa concorrer.
A Corte Constitucional tem até 120 dias para dar aval ao referendo, e, se isso ocorrer, Uribe convocará a votação por decreto. Paralelamente, a autoridade eleitoral investiga irregularidades no financiamento da campanha que recolheu 5 milhões de assinaturas para propor o referendo em 2008.
Por via das dúvidas, enquanto Uribe evita dizer publicamente que quer um terceiro mandato, dois uribistas pregam lealdade a ele, mas já alistaram suas "candidaturas-reserva". A principal delas é a de Juan Manuel Santos, que anunciou anteontem que deixará no sábado o crucial Ministério da Defesa.
Em termos de apoio popular, o referendo não teria problemas, apesar dos sucessivos escândalos envolvendo o governo. Pesquisa Gallup deste mês relata que 59% dos colombianos votariam na consulta, e 84% desse grupo diria "sim" a um novo mandato a Uribe.
O mais recente e grave escândalo envolvendo Uribe investiga interceptações telefônicas ilegais feitas pela agência de inteligência a juízes, políticos e jornalistas na eleição de 2006, a primeira reeleição de Uribe.
No ano passado, Uribe teve de responder justamente pela acusação de ter comprado voto para passar a mudança de 2006, após uma ex-deputada confessar ter sido aliciada e ser condenada pela Justiça.

Com agências internacionais

Notícia da Folha de São Paulo, de 20 de maio de 2009.

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terça-feira, novembro 11, 2008

Colômbia: Chefe do exército renuncia e representante da Human Rights Watch compara governo de Uribe ao de Pinochet

Chefe do Exército renuncia por escândalo na Colômbia

General Montoya, próximo a Uribe, era pressionado por execuções sumárias de civis

Oposição pede saída do ministro da Defesa; caso de jovens de Bogotá mortos por militares trouxe à tona prática de forjar baixas


FLÁVIA MARREIRO
DA REPORTAGEM LOCAL

Ponte entre o Pentágono e as Forças Armadas da Colômbia, o comandante do Exército colombiano, general Mario Montoya, renunciou ao cargo ontem pressionado pelo escândalo dos "falsos positivos" -o assassinato de civis inocentes para inflar o número de baixas inimigas obtidas pelos militares.
Montoya, 59, anunciou sua saída horas antes de comparecer a uma comissão do Senado onde, ao lado do ministro da Defesa, Juan Manuel Santos, prestaria explicações sobre a crise que começou em setembro com a divulgação de 19 casos de "falsos positivos" -jovens do entorno de Bogotá recrutados para morrer.
A Procuradoria Geral da Colômbia investiga mais de mil casos de execuções sumárias de civis por militares. A prática foi descrita como "sistemática" pela alta comissária da ONU para Direitos Humanos, Navi Pillay, no fim de semana e foi apontada em relatórios de ONGs de Bogotá e do exterior.
O presidente Álvaro Uribe aceitou a renúncia e nomeou no posto o general Oscar González, que liderava o comando Caribe Nº 1 (norte). Por conta do escândalo, Uribe já havia afastado 27 oficiais e suboficiais na semana passada, após realizar uma investigação interna. Montoya, que disse não saber sobre a apuração interna, já havia se antecipado ao presidente e dispensado três coronéis dias antes.
O volume de casos de falsas baixas inimigas divulgados na imprensa somado à pressão da oposição para que o Montoya e Santos assumissem a responsabilidade política pela crise aumentaram os rumores de que o general cairia -até para conter os ataques ao ministro, um dos homens-fortes de Uribe. Os relatos, chocantes, falam de recrutamento até de doentes mentais para a prática, numa operação que combinava "limpeza social" e proteção de paramilitares aliados.
"A queda do general era esperada porque eram cada vez mais fortes as críticas de vários setores políticos, principalmente da oposição, e também da sociedade", disse à Folha Alejo Velázquez, cientista político da Universidade Nacional da Colômbia. "Mas os casos não são novos, de modo que é preciso valorizar a decisão de afastar envolvidos desta vez."

Ponte com EUA
A saída de Montoya ocorre no momento em que Uribe ainda tenta fazer lobby em Washington para aprovar o acordo de livre-comércio bilateral. Os democratas, que tendem a ampliar o domínio que já têm no Congresso, apontam as violações de direitos humanos praticadas por Bogotá como motivo tanto para votar contra o tratado como para reduzir a ajuda militar bilionária ao país.
Montoya é um homem conhecido em Washington. Foi um dos negociadores dos pacotes de ajuda dos EUA. Sob seu comando desde 2006, e com ajuda financeira e tecnológica americana, os militares acossaram as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) como nunca. Ele também colheu os louros da "Operação Xeque", que liberou a refém Ingrid Betancourt em julho.
Se a operação foi criticada, depois, por usar símbolo da Cruz Vermelha para enganar os guerrilheiros, o general, que conhece Uribe desde os anos 90, tem sobre si acusações graves. Em setembro, o "Washington Post" publicou trechos de depoimentos de um paramilitar preso que acusava Montoya de agir com grupos ilegais em Medellín no comando de execuções. Líderes de ONGs da região fazem as mesmas acusações, citadas também num relatório da CIA vazado em 2007.

Texto da Folha de São Paulo, de 5 de novembro de 2008.

Atacado, ativista compara Uribe a Pinochet

DA REDAÇÃO

Após ser acusado de ser "cúmplice" das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) pelo presidente Álvaro Uribe, o ativista chileno José Miguel Vivanco, diretor da ONG Human Rights Watch (HRW), comparou o atual governo colombiano ao regime Augusto Pinochet (1973-1990).
"Cometem-se por ano tantas violações de direitos humanos [na Colômbia] como todas as ocorridas durante a ditadura Pinochet no Chile", disse ele, em entrevista a uma rádio de Santiago.
Uribe criticou Vivanco depois da divulgação de um relatório da ONG que acusa Bogotá de atrapalhar investigações sobre paramilitares e políticos.
Vivanco foi expulso da Venezuela há dois meses após divulgar um informe crítico do governo Hugo Chávez.

Outro texto da Folha de São Paulo, de 5 de novembro de 2008.

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Assassinato de Civis pressiona governo Uribe

Escândalo militar pressiona governo Uribe

Ministro da Defesa fala hoje no Senado sobre execução de civis; presidente chama ativista de ONG de "cúmplice das Farc"

DA EFE

O ministro da Defesa da Colômbia, Juan Manuel Santos, e o comandante do Exército colombiano, general Mario Montoya, vão comparecer a sessão em uma comissão do Senado hoje para se explicar sobre a escalada do escândalo dos "falsos positivos" -civis assassinados por militares, mas apresentados mais tarde como guerrilheiros ou paramilitares mortos em combate.
O escândalo veio à tona quando se soube que 19 jovens, tidos como desaparecidos, foram contabilizados como baixas inimigas. Pelo episódio, o presidente Álvaro Uribe afastou 27 oficiais e suboficiais, incluindo três generais na semana passada. A Procuradoria está apurando mais de mil casos de execuções sumárias no último ano.
A oposição quer que Santos, homem forte de Uribe, assuma a "responsabilidade política" pelo escândalo e renuncie.
Irritado com um relatório da Human Rights Watch (HRW) que acusa Bogotá de atrapalhar investigações sobre paramilitares, Uribe chamou o diretor da ONG José Miguel Vivanco de "cúmplice e defensor" das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Vivanco foi expulso da Venezuela há dois meses após divulgar um informe crítico do governo.
Outro foco de pressão sobre Uribe, lideranças indígenas decidiram fazer nova marcha contra governo e pretendem protestar em Bogotá.

Texto da Folha de São Paulo, de 4 de novembro de 2008.


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quarta-feira, outubro 29, 2008

Colômbia: mais indígenas mortos em marcha de oposição à Uribe

Após novas mortes, indígenas obtêm adesões na Colômbia

Dois participantes de marcha anti-Uribe perdem as vidas em confronto com polícia

Estudantes e central sindical declaram apoio a protestos, que demandam mais terras; governo acusa Farc de estar por trás de manifestações

FABIANO MAISONNAVE
DE CARACAS

Dois manifestantes que participariam de uma grande marcha indígena contra a violência e a falta de terras morreram anteontem durante enfrentamentos com a polícia colombiana. O protesto de 10 mil pessoas, iniciado na semana passada, recebeu nas últimas horas o apoio de estudantes e sindicatos e tem provocado uma intensa troca de acusações entre o movimento e o governo do presidente Álvaro Uribe.
Os dois mortos faziam parte de um grupo de 200 indígenas e camponeses que, segundo a Organização Nacional Indígena da Colômbia (Onic), se integrariam à grande marcha na cidade de Villa Rica (sudoeste), amanhã. Eles fecharam a rodovia Panamericana, uma das mais importantes do país, dando início ao confronto com um esquadrão antidistúrbios.
A polícia nega envolvimento nas mortes e diz que podem ter sido provocadas pela explosão de uma bomba caseira.
Até sábado, quando devem chegar a Cali, os indígenas terão percorrido cerca de 100 km desde a cidade de Piendamó. O protesto está sendo feito numa das faixas da Panamericana -eles se comprometeram a não bloqueá-la totalmente.
Em reação às mortes, estudantes entraram em choque com a polícia após bloquear várias ruas na região do aeroporto internacional de Bogotá. Já a Central Unitária dos Trabalhadores (550 mil filiados) prometeu marchas pelo país em apoio aos indígenas e a uma greve de cortadores de cana.
Até o fim de semana, os manifestantes esperam reunir 20 mil pessoas em Cali, onde exigirão a presença de Uribe.
Porta-vozes do governo têm feito duras acusações contra o movimento. O diretor da Polícia Nacional, Oscar Naranjo, disse que as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) estão por trás da mobilização, enquanto o ministro de Proteção Social, Diego Palacio, afirmou que o objetivo é "desestabilizar" Uribe.
"Neste país, quem se opõe ao governo é considerado terrorista e conspirador. Diante disso, respondemos com uma marcha pacífica. Nossa mobilização não tem interesses obscuros", disse ontem à Folha Luis Fernando Arias, secretário-geral da Onic, em entrevista por telefone desde Santander de Quilichao, cidade onde se encontrava a marcha.
Segundo a Onic, 1.273 indígenas foram assassinados desde que Uribe assumiu, em 2002. A organização afirma que existem no país 1,35 milhão de indígenas, 3% da população.
Sobre o problema de falta de terras, Arias disse que, dos 27 milhões de hectares destinados aos indígenas na Colômbia, 23 milhões estão sob preservação. "As terras para o cultivo agrícola são muito poucas, porque a maior parte está na mão dos latifundiários deste país."
A Onic também exige a adesão à Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas, aprovada em 2007. O país foi o único da América Latina a não aprovar o documento.

Texto da Folha de São Paulo, de 23 de outubro de 2008.


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Anistia Internacional denuncia aumento de execuções extrajudiciais na Colômbia

MADRI, 28 Out 2008 (AFP) - A organização de defesa dos direitos humanos Anistia Internacional (AI) denunciou o aumento de "execuções extrajudiciais pelas forças de ordem na Colômbia e as violações de direitos humanos cometidas por grupos paramilitares", segundo documento publicado nesta terça-feira em Madri.

Em documento obtido pela AFP, a ONG destaca que, segundo o governo colombiano, no país há um "renascimento irreversível de uma paz relativa, um rápido recuo dos índices de violência, a desmobilização com sucesso de milhares de combatentes paramilitares e uma justiça efetiva para as vítimas de abusos".

"Sem dúvida, é certo que nos últimos anos a incidência de alguns abusos caiu", continua a AI em seu relatório de 85 páginas. "Mas outros, no entanto, aumentaram, particularmente as execuções extrajudiciais cometidas diretamente pelas forças de segurança e os deslocamentos forçados das populações", continua.

"Além disso, o aumento recente da violência contra os defensores dos direitos humanos e os sindicalistas também é motivo de preocupação", enfatizou a AI.

"Os grupos paramilitares continuam ativos e cometendo violações dos direitos humanos, apesar de o governo afirmar o contrário", diz o relatório, insistindo em particular na existência de um conflito que envolve o Exército, os paramilitares e as guerrilhas, e que não é só a guerra contra o terrorismo como afirma o governo do presidente colombiano Alvaro Uribe.

Este conflito custou a vida de mais de 70.000 pessoas em 20 anos, a maioria civis.

Segundo a ONG, entre 15.000 e 30.000 pessoas desapareceram desde o início do conflito, há 40 anos.

A AI denuncia também as guerrilhas de esquerda, em particular as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), pelos seqüestros, deslocamentos forçados da população, entre outros crimes.

O número de seqüestros caiu, de 3.570 em 2000 para 520 em 2007, mas a Colômbia continua sendo um país em que milhões de civis são castigados pelo conflito violento e prolongado, afirma a AI.

Texto do UOL Notícias.

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quarta-feira, outubro 22, 2008

Protesto de índios contra Uribe deixa três mortos na Colômbia

Protesto de índios contra Uribe deixa 3 mortos na Colômbia

Presidente acusa movimento, que cobra terras, de ligação com as Farc e de fazer campanha contra o TLC com os EUA

ONG Human Rights Watch acusa Bogotá de atrapalhar as investigações sobre paramilitares; governo diz que informe é tendencioso


DA REDAÇÃO

A Onic (Organização Nacional de Indígenas da Colômbia) prometeu ontem seguir com ações de protestos em vários pontos da Colômbia até que lideranças da entidade sejam recebidas pelo presidente Álvaro Uribe. Confrontos entre manifestantes e forças de segurança já deixaram três mortos em oito dias de mobilização. Um policial perdeu as mãos pela explosão de uma bomba caseira.
Não há dados completos sobre as vítimas indígenas, todas reportadas pela Onic. Duas das mortes aconteceram no departamento de Cauca (sudoeste), onde os indígenas bloqueavam vários pontos da estrada Panamericana, que liga a Colômbia ao Equador. Policiais liberaram a via anteontem.
A terceira vítima é uma criança que morreu asfixiada por gás lacrimogêneo em um confronto nas cercanias da cidade de Pueblo Rico, no departamento de Risaralda (centro-oeste). Os feridos dos dois lados são quase 200.
Os indígenas colombianos protestam em 16 dos 32 departamentos, em especial no oeste, em repúdio a assassinatos de lideranças -foram 66 só neste ano- e para cobrar compromissos de compras de terras.
Anteontem, o presidente disse ter cumprido mais de dois terços das entregas de terras e atribuiu a mobilização a uma tentativa de barrar o TLC (Tratado de Livre Comércio) com os EUA, parado no Congresso americano. Acusou o movimento de embutir "terroristas", referência às Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), causar violência e depois "denunciar diante da comunidade internacional".
Segundo a revista colombiana "Semana", diplomatas de Espanha, EUA, Canadá e Suécia se reuniram com representantes da ONU na terça-feira para avaliar se Bogotá abusava da força contra os protestos.
São 102 os povos indígenas na Colômbia, 18 sob ameaça de extinção. Os indígenas são 2% da população, e 12% dos deslocados internos, diz a ONU.

Human Rights Watch
Ontem, a ONG Human Rights Watch lançou relatório de 148 páginas no qual acusa o governo Uribe de prejudicar as investigações da máfia paramilitar e seus cúmplices, lançando mão, em especial, de reiterados ataques à Suprema Corte de Justiça e se opondo a reformas do Legislativo para expurgar os políticos ligados aos "paras".
A entidade criticou a extradição de chefes "paras" aos EUA e pediu à Corte Penal Internacional que monitore as investigações. O documento foi assinado pelo chileno José Miguel Vivanco, o mesmo que foi expulso da Venezuela em setembro após lançar relatório crítico ao governo Hugo Chávez. Bogotá disse que o informe é "tendencioso" e contém inverdades.

Com agências internacionais

Texto da Folha de São Paulo, de 17 de outubro de 2008.

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sexta-feira, agosto 29, 2008

Suprema Corte acusa Uribe de armar complô

Corte acusa Uribe de armar complô

Presidente do tribunal diz que há "estranha aliança" entre Bogotá e paramilitares; presidente retruca

Reportagem sobre reuniões de secretários de Uribe com enviados dos "paras", que levavam gravações contra juízes, detonou nova crise

DA REDAÇÃO

O presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, e o presidente da Corte Suprema de Justiça, Francisco Ricaurte Gómez, voltaram a trocar duras acusações ontem sobre supostos vínculos do governo e da Justiça com chefes paramilitares, envolvidos com grupos de extermínio e tráfico de drogas.
O ressurgimento da crise entre Uribe e o principal tribunal da Colômbia foi provocado por uma reportagem da influente revista "Semana", que revelou que o secretário jurídico da Presidência, Edmundo del Castrillo, e o de Imprensa, César Velázquez, receberam, na sede de governo, emissários do ex-chefe paramilitar Diego Murillo, o Don Berna.
Os enviados de Don Berna, um dos ex-chefes das AUC (Autodefesas Unidas da Colômbia) -poderosa coalizão paramilitar que em 2005 concordou formalmente em deixar as armas-, entregaram ao governo gravações clandestinas que provariam que os juízes da Corte conspiravam contra Uribe.
O tribunal investiga laços entre cerca de 60 parlamentares, a maioria da base governista, e paramilitares, no chamado escândalo da "parapolítica". O presidente já havia acusado a Justiça de coagir testemunhas a mencioná-lo nos processos.
Ontem, o presidente da Corte Suprema reagiu à reportagem. Disse haver "uma estranha aliança" entre setores do governo e paramilitares e devolveu a Uribe a acusação de "complô": "Aqui há algo próximo, uma convivência com criminosos para fazer montagens contra a Corte".

Honra e extradição
Irritado, Uribe convocou entrevista coletiva na qual justificou os encontros com os emissários de Don Berna -um deles, integrante de uma quadrilha em atividade, foi assassinado no mês passado. "Tínhamos de escutá-los, porque aqui houve tráfico de testemunhas, que é grave." E continuou: "Tentaram enlamear o presidente, e o presidente tem direito de defender sua honra". Acusou ainda os juízes de "embebedarem-se" com testemunhas.
"Vão falar de aliança? Que tal o presidente dizer que o obstáculo da Corte à extradição era uma aliança com paramilitares?", lançou Uribe, que atacou um jornalista da "Semana".
Em maio, o governo colombiano extraditou aos EUA 14 ex-chefes paramilitares, entre eles Don Berna, para cumprir penas por narcotráfico, entre outros crimes. À época, integrantes da Corte e ONGs criticaram a decisão dizendo que ela dificultava a investigação da "parapolítica" e de crimes contra a humanidade.
O argentino Luis Moreno Ocampo, procurador do Tribunal Penal Internacional (TPI), está na Colômbia nesta semana também para avaliar o impacto das extradições. Ontem, Ricaurte disse que recorreria ao TPI contra Uribe.


Com agências internacionais

Texto da Folha de São Paulo, de 26 de agosto de 2008.

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terça-feira, agosto 05, 2008

Álvaro Uribe - Justiça de bolso num país de bolso

Álvaro Uribe - Justiça de bolso num país de bolso

Segunda, 4 de agosto de 2008, 21h21

Se ainda restavam dúvidas a alguém de que o presidente da Colômbia anda transitando pelos caminhos da inconstitucionalidade e acumulando poderes quase ditatoriais, a reforma da Justiça apresentada pelo ministro da pasta deixa as coisas bem claras: todo o poder a Uribe!

É como se vivêssemos uma versão da acumulação dos sovietes, mas agora no seio de uma direita que beira o extremismo e defende a completa desinstitucionalização do país, com um viés autoritário alarmante e em meio a uma completa negação do princípio democrático da autonomia e da separação dos poderes. Tudo isso baseado na aplicação de uma ditadura de maiorias, tendo em visto o fato de que Uribe hoje conta com aprovação popular de 84%, isso também de acordo com os grupos de pesquisa que ele guarda em seu bolso.

Uribe não vê obstáculos em privar de poder os grandes tribunais do país, e em fazer do Judiciário uma dependência da presidência, que ele "clientelizaria" da maneira que lhe seja mais agradável e em benefício dos partidos de sua coalizão. Tudo isso, claro, justificado da maneira mais cínica pelo ministro do Interior e da Justiça, Fabio Valencia, ao afirmar que "o que procuramos é afirmar a independência do Judiciário".

A reforma da Justiça será apresentada ao Congresso cuja maioria apóia Uribe - e que tem 25% de seus membros, todos eles leais a Uribe, presos ou sob investigação por conexão com os paramilitares -, e de acordo com os cálculos do governo deve ser aprovada em julho de 2009.

Já inicialmente, o primeiro ponto a destacar na reforma é que ela favorece aos congressistas leais a Uribe, que aparentemente participaram da orgia sanguinolenta promovida pelas organizações paramilitares (as quais assassinaram um total estimado em 90 mil camponeses). O governo deseja que a Corte Suprema de Justiça, que até hoje vinha mantendo sua independência, deixe de julgar os congressistas acusados de crimes; essa função ficaria reservada a tribunais de alçada menor, manipuláveis, politizados e, acima de tudo, nada neutros ante o avanço da cooptação da Justiça por parte do regime.

A Corte Suprema perderia sua posição como foro natural para o julgamento dos congressistas, porque além disso as funções de magistratura investigativa e as de julgamento seriam separadas. Tudo isso seria perfeito para Uribe e para seus amigos encarcerados ou a encarcerar: a investigação, caso a reforma seja aprovada, seria conduzida pela Corregedoria Geral colombiana, cujo titular, Mario Iguarán, é um dos prepostos de Uribe no Judiciário. Aliás, a reforma prevê que o mandato do corregedor seja ampliado de quatro para oito anos. O julgamento dos casos investigados por esse órgão caberia, em seguida, ao Tribunal Superior de Bogotá. A Corte Suprema teria como missão julgar apenas os recursos.

E, como um julgamento implica, para os congressistas, em perda do mandato, e a decisão sobre conduzir ou não parlamentares a julgamento cabe ao Conselho de Estado, Uribe deseja tranferi-la a outra instância, o Tribunal Superior do departamento de Cundinamarca, cuja competência jurídica é bem inferior à do Conselho do Estado. Mas como na Colômbia houve dezenas de casos de congressistas e políticos encarcerados por crime de paramilitarismo ou outros delitos de corrupção e até homicídios, o que mais temem esses politiqueiros profissionais é não poderem voltar ao Congresso depois de um julgamento, ainda que egressos da prisão. E é essa justamente a maior pena aplicada pela perda do mandato, da maneira em uso atualmente: a "morte política" do congressista deposto. Mas essa é mais uma mudança proposta sob o plano de reforma: de acordo com a proposta, esses cavalheiros teriam o direito de reingressar nos partidos que apóiam Uribe e até mesmo de voltar ao Congresso para votar - favoravelmente, claro - esta e qualquer outra reforma jurídica, política e constitucional que agrade a Álvaro Uribe, que os continuará a ter no bolso.

É com motivo que o senador liberal Juan Fernando Cristo comenta que "não há motivo para que o governo deseja reformar a Justiça quando esta tem funcionado bem". Mas a coisa parece menos absurda se considerarmos que, em benefício dos amigos do governo, a idéia é mesmo a de promover uma reforma para garantir que a Justiça não funcione. Para Gustavo Petro, senador oposicionista do Pólo Democrático Alternativo, a reforma representa "uma retaliação contra a Corte Suprema e uma operação de salvamento a congressistas amigos do governo". Mas seria preciso acrescentar, igualmente, que representa mais um passo no caminho para uma ditadura civil.

Mas a baderna não pára por aí. Outra instância que serviria para controlar as irregularidades no governo, a Procuradoria Geral da Nação, tampouco estaria autorizada a interferir com os congressistas que estão sob julgamento, porque, segundo Valencia, é o Congresso que elege o detentor do cargo, e não seria lícito que ele julgasse a quem o elege. Edgardo Maya, o chefe do ministério público colombiano, vem sendo ao menos medianamente beligerante em seu esforço para promover a justiça e a condenação dos congressistas envolvidos com os paramilitares. Para que não restem pontas soltas, o governo propõe que o procurador, até hoje eleito pelo Congresso com base em uma lista tríplice encaminhada pelos tribunais e o presidente ao Congresso, passe agora a ser escolhido com base em uma lista tríplice que seria preparada apenas - para surpresa de ninguém - pelo presidente.

Sim, vocês estão compreendendo tudo perfeitamente: todo o poder a ele, e à impunidade.

Por outro lado, a única grande corte que poderia interferir com o presidente seria a Constitucional. A reforma propõe que, de agora em diante, esse tribunal seja renovada por cooptação, ou seja, que seus integrantes, indicados por Uribe, fiquem encarregados de eleger seus sucessores, também leais a Uribe. É como que se isso garantisse que não restará nenhuma desordem democrática, nenhuma peça solta. E tudo isso em meio à nova era do "clientelismo judicial".

Não poucos juristas consideram que esse acúmulo de medidas faria com que todas as investigações sobre os elos entre os políticos e os paramilitares desabassem, e que esse horrendo fenômeno, em virtude do qual boa parte da classe política de direita foi e continua sendo cúmplice dos paramilitares, simplesmente se dissolveria em meio à mais completa impunidade judicial.

O corolário é evidente: a reforma judicial precisaria ser acompanhada por uma reforma constitucional que permita a segunda reeleição de Uribe. E para isso os partidos leais a Uribe já estão há algum tempo recolhendo assinaturas com vistas a um referendo. O presidente poderia, então, velar sobre a impunidade até 2014.

Ou por que não até 2018? E, se o desagradável problema da intermediação democrática for solucionado até lá, por que não até o final do reinado? É claro que, em meio a todas essas mudanças, caberia sempre ao presidente Uribe decidir: ditador ou monarca?

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Terra Magazine

Leia esta notícia no original em:
Terra - Terra Magazine
http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3049356-EI6580,00.html

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quarta-feira, julho 09, 2008

Um resgate estranhíssimo

Há um grande mistério nesse resgate da ex-senadora Íngrid Betancourt e mais 14 reféns das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).

Não me venham contar, como o estão fazendo, que os 15 reféns entraram em um helicóptero em plena selva e foram entregues ao Exército da Colômbia.

Soa como uma piada. A simples infiltração de nove agentes do Exército, com camisetas com a efígie de Che Guevara, entre os guerrilheiros, não explica o resgate.

Como é que guerrilheiros experientes iriam cair numa fraude dessas sem ser disparado um único tiro?

Para mim, há fatos que robustecem a suspeita de que o resgate foi acertado entre o governo colombiano e os guerrilheiros.

Um dos fatos é que, estrategicamente, os reféns sempre foram, através dos último oito anos, mantidos em cativeiros separados.

Certamente para evitar que uma operação de resgate levasse todos eles.

Como é então que, anteontem, no dia do resgate, foi dada a ordem para que reunissem os 15 reféns em um só local, de onde partiriam para outro lugar da selva, transportados por entidades humanitárias?

Impossível de acreditar nessa versão. Tem gato na tuba. Soou entre os guerrilheiros, exatamente nesse dia, o recolher dos reféns para um único lugar, onde apareceriam dois helicópteros que os levariam para outro lugar na selva, ao abrigo de um acampamento de um dos líderes emergentes da guerrilha. Mas isto não é uma anedota?

A refém ilustre, Íngrid Betancourt, agradeceu ao Exército e ao presidente Uribe a sua libertação.

Só faltou agradecer também aos guerrilheiros: na entrevista que concedeu, Íngrid agradeceu aos céus que os guerrilheiros que a aprisionaram durante seis longos anos "permanecessem vivos" em seus acampamentos.

E disse que quando viu, no chão do helicóptero, um dos carcereiros que cuidavam dela imobilizado e com o rosto colado ao chão, preso pelos homens do exército que tripulavam o aparelho, sentiu "compaixão por ele".

Em dois outros pontos de sua entrevista, revelou certa simpatia pelos guerrilheiros.

Além disso, a diferença entre a Íngrid Betancourt que tinha sido fotografada tempos atrás no cativeiro, esquálida, pálida, doente, apareceu agora totalmente alegre e hígida, falante, com o rosto estampando sorrisos.

Estava muito ajeitadinha, corada, disposta, eloqüente, gordinha para quem saíra de um cativeiro opressivo.

Está na cara que ela foi produzida durante meses para ser apresentada daquele jeito, a transmitir a impressão de que não era tão sofrido assim como se calcula o seu aprisionamento.

Ou seja, ela vinha sendo, ao que parece, alimentada, medicada, com os cabelos cortados, nos preparativos que já duravam quase um ano para sua libertação.

São todos detalhes que flagro para configurar uma farsa, arrisco dizer que esse resgate foi feito com inteira concordância dos guerrilheiros, obtida com demorada negociação.

Se uma guerrilha é capaz de se atirar até o tráfico de cocaína, como se noticia em todo o mundo, iria se recusar a receber alta soma em dinheiro para libertar a ex-senadora, ainda mais que com ela foram libertados também três norte-americanos?

Da forma singela com que foi divulgado o relato desse resgate, simplesmente não é possível acreditar na história.

Observei também que as duas partes envolvidas nesse suposto acerto político e financeiro, principalmente financeiro, guardaram no dia de ontem um estranho e obsequioso silêncio, nem o presidente Uribe se gabou da façanha nem os guerrilheiros se mostraram envergonhados da grande derrota.

Tem capincho nessa moita.

Correu muito dinheiro em torno desse resgate, ainda mais que, debilitada pela perda de vários dirigentes, a guerrilha deve estar passando por dramática situação financeira.

Eu não acreditei em nenhuma frase dessa versão montada.

Texto do Paulo Sant'ana.


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A aventura de Uribe

A aventura de Uribe

O PRESIDENTE da Colômbia, Álvaro Uribe, vem enfrentando dificuldades político-jurídicas. Seu prestígio, entretanto, segue em alta. Sobretudo pelo sucesso no combate à violência, ele conta com taxas de aprovação da ordem de 80%, as maiores da América Latina. É justamente a mistura de tibieza institucional com aclamação de lideranças que preocupa.
Uribe já vinha enfrentando dificuldades no Legislativo. Cerca de 60 congressistas de partidos situacionistas são investigados por envolvimento com os "paras", as milícias de extrema direita cujas atividades ilícitas incluem chacinas e narcotráfico. Três dezenas de políticos estão presos, incluindo um primo e estreito colaborador de Uribe.
Mais recentemente, o presidente viu-se envolvido em denúncias de compra de votos para aprovar a emenda constitucional que permitiu sua reeleição, em 2006. A ex-senadora Yidis Medina acaba de ser condenada pela Suprema Corte a quatro anos de prisão domiciliar depois que admitiu ter recebido promessa de regalias do governo em troca do seu voto na comissão que aprovou o mecanismo da reeleição.
O caso agora foi remetido para o Tribunal Constitucional, que deverá decidir sobre a validade da emenda e eventualmente até da eleição de 2006 -embora sua anulação seja muito improvável.
Na tentativa de abafar o escândalo, o governo lança a idéia de convocar um referendo que autorize a repetição do pleito presidencial de 2006. Seria uma forma, alegam os situacionistas, de resgatar a legitimidade.
A lógica da proposta é precária. Ninguém questiona a vitória de Uribe; o que se contesta é a legalidade de sua candidatura.
Parece temerário levar tal decisão para as ruas, especialmente num contexto em que Executivo e Judiciário travam uma queda-de-braço e o Legislativo atravessa crise de credibilidade sem precedentes. A medida soa ainda mais perigosa quando se sabe que Uribe flerta já há algum tempo com a idéia democraticida de um terceiro mandato.

Editorial da Folha de São Paulo, de 2 de julho de 2008.

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sexta-feira, junho 13, 2008

Uribe imita Chávez

Uribe imita Chávez

O MAIOR desafeto do presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, na porção sul do continente é sem dúvida nenhuma seu homólogo venezuelano, Hugo Chávez. O antagonismo, entretanto, não o impede de agir exatamente como o rival quando se trata de aferrar-se ao poder.
Chávez, é verdade, teve seu projeto de perpetuação presidencial barrado nas urnas, com a rejeição da Carta que lhe garantiria reeleições ilimitadas. Agora é Uribe quem flerta com essa idéia de claro viés democraticida. Ele já não descarta modificar a Constituição para que possa disputar o terceiro mandato.
Deve-se reconhecer que o colombiano, ao contrário do venezuelano, tem pelo menos uma realização que transcende ao populismo a apresentar: sua política de segurança é um sucesso. Não apenas logrou reduzir substancialmente a violência que assolava os grandes centros urbanos como ainda obteve um impressionante avanço militar sobre as Farc, a guerrilha que há mais de 40 anos inferniza a vida da população.
Em 2002, o grupo -que migrou do golpismo marxista para o narcotráfico e a indústria dos seqüestros- controlava 40% do território colombiano. Hoje seus membros refugiam-se nos grotões do país. Não é por outro motivo que Uribe é o presidente mais popular das Américas, com 84% de aprovação.
No front político, entretanto, sua gestão é vulnerável. Cerca de 60 congressistas de partidos situacionistas são investigados por envolvimento com os "paras", as milícias de extrema direita cujas atividades ilícitas incluem chacinas e narcotráfico. Três dezenas de políticos estão presos, incluindo um primo e colaborador de Uribe. Para piorar, o presidente é agora acusado de ter comprado votos para aprovar a emenda constitucional que lhe possibilitou o segundo mandato.
Uribe pode ver-se tentado a recorrer à cartada plebiscitária. Certa vez, ele disse que apenas uma "hecatombe" poderia levá-lo a postular mais uma reeleição. O receio agora é que ele providencie uma.

Editorial da Folha de São Paulo, de 6 de maio de 2008.

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terça-feira, maio 27, 2008

A outra revelação do computador de Reyes

A outra revelação do computador de Reyes


Maria Teresa Ronderos
Bogotá, Colômbia

Na semana passada, a Interpol anunciou formalmente em uma coletiva de imprensa realizada em Bogotá que, apesar de as autoridades colombianas terem apreendido um dos computadores das Forças Armadas Revolucionárias Colombianas (Farc) confiscados na selva equatoriana depois de um ataque da força pública colombiana ao acampamento de Raúl Reyes, ex-membro do Secretariado - como é chamado a junta diretora dessa guerrilha -, não haviam manipulado seu conteúdo.

Como se nunca tivesse passado pela cabeça dele que alguém colocaria as mãos em seus equipamentos, Reyes tinha ali todos os documentos, cartas, fotos e vídeos que os chefes das Farc trocaram entre eles, com seus aliados, com pessoas a quem queriam conquistar como amigos e com os milhares de negociantes que lhes ofereciam todo tipo de parafernálias de guerra, desde 1999. Conhecemos apenas uma parte do enorme arquivo, e já apareceram conexões desse movimento de guerrilha com meio continente. Com Chávez e algumas figuras de seu regime, eles conversaram sobre um plano estratégico para impulsionar mutuamente seus fins: o bolivarismo dos primeiros e a queda do governo colombiano, para os segundos. Isso incluiu contatos para compras de armas na Rússia e Belarus, petrodólares, declarações e gestos com benefícios mútuos (Chávez pediu para as Farc o reconhecimento internacional como força beligerante, e as Farc fizeram do mandatário venezuelano um príncipe da paz quando liberaram seqüestrados depois que ele intercedeu).

Até onde se envolveu Chávez em semelhante despropósito pela obsessão de conseguir a libertação dos seqüestrados, e até onde, como asseguram os chefes das Farc em suas comunicações, seus fins reais incluía negócios menos altruístas, como a venda de armas, os aportes em dinheiro e a cumplicidade em crimes de guerra colombiana contra venezuelanos, será questão a ser definida em investigação futura (já que é possível que as Farc não tenham conseguido tudo que dizem).

Também aparecem no computador trocas de mensagens com os grupos mais extremos de produtores de coca, os de Quispe, na Bolívia, que pediam treinamento para seus homens; com alguns representantes do PT brasileiro; com outros da ala mais esquerdista da aliança liderada por Correa no Equador; com os da Pátria Livre, do Paraguai, bem como conexões com o Panamá, transações financeiras na Costa Rica e a lista segue...

A informação apresentada revela as alianças políticas internacionais que as Farc construíram, e ajuda a entender como um exército de homens, mulheres e crianças provenientes das margens mais esquecidas do campo colombiano despejavam tanta soberba. Olhavam-se em um espelho a partir do qual dirigentes políticos de quase toda a América os louvavam, pediam seu apoio e treinamento, manifestavam sua solidariedade. Como não iam se sentir transcendentais e filantropos?

Mas esses computadores de Reyes permitiram descobrir outro fato muito mais importante para a Colômbia: a absoluta ineficácia de sua política externa. Ou, para expressar a descoberta em outros termos, os profundos equívocos na linha adotada pela Colômbia para convencer os latino-americanos a não apoiar as Farc. A Colômbia, preocupada porque podia perder os milionários recursos do Plano Colômbia depois do 11 de setembro de 2001, resolveu se abrigar desde então, sem reparo nenhum, sob a cantata antiterrorista dos Estados Unidos de George W. Bush. No governo de Uribe, as Farc deixaram de ser uma guerrilha colombiana, produzida por erro e estupidez locais, e se converteram, como por magia, em uma força terrorista alienígena. E os diplomatas de Uribe saíram a alardear que o movimento não merecia apoio porque, como a Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan), a Colômbia estava lutando contra as forças terroristas das Farc.

Qualquer pessoa que se defina como progressista, esquerdista ou nacionalista na América Latina não dá ouvidos a esse discurso, porque cheira a "made in USA". A Colômbia deveria, em lugar disso, ter explicado a seus vizinhos americanos que precisa que eles não apóiem as Farc porque a guerrilha causa danos à população colombiana mais pobre, sabota a produção e agrava a injustiça, e tornou os dirigentes colombianos mais retrógrados e assustadiços, já que associa as mudanças sociais necessárias à subversão e ao comunismo. Caso a Colômbia tivesse explicado aos vizinhos que é exatamente porque as Farc são sua responsabilidade, seu Frankenstein, surgido da inépcia de um Estado que jamais ocupou todo seu território com outra coisa que não armas e também, em parte, da concentração de terras e da desigualdade, não precisaria que ninguém desse à guerrilha razões para continuar existindo, do exterior. O panorama seria outro.

Caso a Colômbia houvesse construído um discurso próprio, autêntico e veraz para convocar a solidariedade dos povos irmãos em sua busca de reconciliação, é muito provável que as Farc obtivessem êxito muito menor em seus esforços de conquistar aliados em quase todos os países americanos. Caso Chávez, Rafael Correa e os partidos de esquerda soubessem com certeza que abrir espaço às Farc equivale a prolongar o conflito colombiano por anos, porque graças a elas se justifica a direita violenta, e isso os torna cúmplices da crueldade como método de domínio político e aliados de um movimento cujos ideais estão carcomidos por negócios lucrativos... Mas não. O governo colombiano constata o enorme fracasso de sua política externa nos computadores de Raúl Reyes, mas insiste em manter a mesma receita. A linguagem de Bush permeia a tal ponto seu discurso que o senhor Noble, da Interpol, colocou sua credibilidade em grande risco ao apresentar seu relatório por classificar as Farc como "terroristas".

Tomara que um novo governo colombiano, com mentalidade menos colonizada, aproveite a descoberta dos computadores de Reyes não só para desarticular os negócios montados pela guerrilha em todos os caminhos americanos mas também para reconhecer que as Farc só puderam chegar tão longe graças à nossa política externa falida, e que portanto é urgente corrigi-la.

Texto do Terra Magazine.


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segunda-feira, maio 26, 2008

Colômbia XI

Colômbia perde arquivo eletrônico de paramilitares

Sumiço suspeito contrasta com caso de laptops das Farc

FABIANO MAISONNAVE
DE CARACAS

O desaparecimento dentro de presídios de um computador, arquivos de memória e chips de celulares pertencentes a ex-líderes paramilitares vem provocando críticas ao governo do presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, e comparações com o caso dos laptops do número dois das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), Raúl Reyes.
Até ontem, não haviam sido encontrados o computador de Salvatore Mancuso, principal líder das AUC (Autodefesas Unidas da Colômbia), além de discos rígidos e chips de celulares de outros paramilitares extraditados para os EUA na semana passada. A parafernália eletrônica era mantida nas celas onde eles estavam.
"Não é muito paradoxal que os computadores das Farc sobrevivam aos bombardeios [ao acampamento de Reyes, em 1º de março] e os dos narcoparamilitares não sobrevivam ao Inpec [Instituto Nacional Penitenciário e Carcerário da Colômbia]?", questiona Cláudia Lopez, uma das principais especialistas em "parapolítica" e articulista do "El Tiempo".
O próprio jornal, geralmente pró-governo, ironizou o fato de os dirigentes das AUC terem direito a todo esse material ao mesmo tempo em que Uribe justificou a extradição alegando que eles continuavam organizando delitos do presídio.
"Dotados de telefones e conexão à internet, graças à autorização oficial no marco da Lei de Justiça e Paz, os chefes paramilitares podiam se comunicar tranqüilamente com Raimundo e todo o mundo do presídio. Não surpreende que continuassem delinqüindo", diz o editorial de ontem.
Sob críticas, o ministro do Interior, Carlos Holguín, assegurou que já foram identificadas as pessoas que levaram o material de informática. Ele disse que, se necessário, submeterá o material à análise da Interpol, assim como foi feito com os documentos dos computadores de Reyes, morto em março.
Segundo Holguín, dos 12 computadores pertencentes aos ex-líderes, 10 estão em poder da Procuradoria Geral.
Para analistas e a oposição, a extradição dos 14 ex-chefes paramilitares dificultará as investigações sobre seus vínculos com políticos, que já levaram 33 parlamentares à prisão.

Texto da Folha de São Paulo, em 21 de maio de 2008.

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segunda-feira, maio 19, 2008

Colômbia X

Justiça colombiana pede investigação de Uribe por compra de votos

A Suprema Corte da Colômbia pediu ao Congresso a abertura de uma investigação sobre o presidente Álvaro Uribe e outros membros do governo pela suposta compra de votos para a aprovação da emenda que instituiu a possibilidade de reeleição presidencial no país.

A Suprema Corte também decidiu manter na prisão a ex-deputada Yidis Medina, que no mês passado disse numa entrevista ter recebido de funcionários do governo uma oferta de indicações para cargos públicos para que votasse pela aprovação da emenda.

Medina disse na ocasião que Uribe conhecia a proposta, mas que ela nunca foi cumprida.

O voto dela foi considerado vital para a aprovação da emenda em uma comissão da Câmara de Deputados, em 2004. Uribe foi reeleito em 2006.

Depósitos bancários

Segundo afirma uma reportagem publicada nesta semana pela revista colombiana Cambio, a ex-deputada entregou à Justiça comprovantes de depósitos bancários que teriam sido feitos a outro deputado, Teodolindo Avendaño, que como ela tinha posição inicialmente contrária à reeleição.

Avendaño faltou à votação sobre a reforma constitucional para a reeleição, que acabou sendo aprovada por 18 votos a favor (incluindo o de Medina) e 16 contra.

Segundo um comunicado da Suprema Corte, a confissão de Medina e as provas que apresentou serão enviadas à Comissão de Acusação e Investigação da Câmara dos Deputados e à Procuradoria-Geral “para que as autoridades competentes conheçam a suposta lista de delitos nos quais possam ter incorrido outros congressistas e vários funcionários e ex-funcionários do Estado”.

Em sua confissão, feita em troca de uma possível redução da pena pelo crime de corrupção, a ex-deputada disse que as ofertas para que mudasse seu voto foram feitas por vários funcionários do governo.

Medina mencionou o ex-ministro do Interior e atual embaixador da Colômbia na Itália, Sabas Pretelt, o ministro da Proteção social, Diego Palacio, o ex-secretário-geral da Presidência da República Alberto Velásquez e outras pessoas.

Uribe nega

Assim que a confissão de Medina se tornou pública, Uribe negou que seu governo tivesse comprado votos para aprovar a reeleição no Congresso, e o ministro Diego Palacio desafiou a ex-deputada a provar suas afirmações.

Apesar do envio da confissão da ex-deputada e de documentos apresentados por ela à Câmara, hoje não parece muito provável que o Congresso decida abrir um processo contra Uribe, já que a coalizão governista tem a maioria do Poder Legislativo.

Ao contrário dos congressistas, que são interrogados pela Suprema Corte, os presidentes na Colômbia só podem ser investigados pela Câmara dos Deputados e julgados pelo Senado.

No último século, somente um presidente colombiano, o ditador Gustavo Rojas Pinilla (1953-1957), foi condenado pelo Senado, mas ainda assim dois anos após deixar o poder.

Texto da BBC Brasil.


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sexta-feira, maio 09, 2008

Colômbia IX

Ex-congressista dá provas de compra de voto

DA REDAÇÃO

A ex-congressista colombiana Yidis Medina, cujo voto garantiu a reforma constitucional de 2004 que permitiu a reeleição do presidente Álvaro Uribe, entregou à Justiça o que diz serem provas de pagamentos do governo a outro colega para comprar seu apoio à medida, disse a revista "Cambio" ontem.
Medina confessou ter votado a favor da reforma em troca da promessa cargos no governo. A "Cambio" afirma que ela entregou ontem prova de que o governo Uribe pagou 200 milhões de pesos (cerca de US$ 110 mil) ao ex-deputado Teodolindo Avedaño, que se ausentou da votação da reforma e facilitou assim sua aprovação.

Na Folha de São Paulo, de 2 de maio de 2008.

Marcadores: Álvaro Uribe, Colômbia, Uribe

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