quinta-feira, setembro 30, 2010

Engasga?...

Chávez engasga com pergunta de jornalista sobre lei eleitoral


Pablo Ordaz

Enviado especial a Caracas (Venezuela)


Hugo Chávez está aborrecido, muito aborrecido. Os resultados eleitorais de domingo o deixaram de semblante contrariado. Não tanto pela ressurreição da oposição --que conseguiu 65 deputados dos 165 em disputa--, nem mesmo porque os 98 obtidos por seu partido não são suficientes para legislar à vontade, mas sim porque a forma de ganhar, através de uma lei eleitoral desenhada na sua medida há apenas um ano, deixou a descoberto sua maneira particular de usar a democracia. O aborrecimento de Chávez se revelou na tarde de segunda-feira, diante de uma pergunta de uma jornalista venezuelana.


Mais que uma pergunta, foi "a" pergunta: "A diferença entre os votos obtidos por seu partido, o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e os que conseguiu a Mesa da União Democrática (MUD) é de apenas 100 mil. E é difícil entender que, tendo obtido quase o mesmo número de votos, a oposição tenha conseguido 37 cadeiras a menos que o PSUV (afinal a diferença seria de 33). Pergunto-me se estaria se confirmando a tese da oposição que afirma que a redistribuição dos circuitos eleitorais foi feita com a intenção de favorecer o PSUV, ou que talvez o voto do PSUV valha por dois..." O que respondeu Chávez? Nada. Não soube responder e, fiel a seu estilo, atacou a jornalista.


Acusou-a de não conhecer a Constituição, de pertencer a um meio de comunicação que divulga mentiras, de não prestar atenção e formular "perguntas gelatinosas que não têm fundamentação lógica", de viver na lua, de manipular... Entre uma crítica e outra - com o coro de uma parte dos membros de seu governo e dos jornalistas do regime que riem de suas graças -, Chávez tentava responder, mudava papéis de lugar, se remexia na cadeira, segurava um lápis ou convidava a jornalista, Andreína Flores, a tomar o café que acabavam de lhe servir...


Mas o comandante-presidente não encontrava uma resposta lógica... e afinal decidiu atirar para o alto: acusou os que formulam essas perguntas de obedecer a interesses obscuros e desestabilizadores, que "tentam tirar o petróleo da Venezuela para entregá-lo aos ianques". Mas não respondeu. Talvez porque não houvesse como fazê-lo: com a lei anterior e esses mesmos resultados, o PSUV e a Mesa da União teriam empatado em 80 deputados. Mas ele reformou a lei de tal modo que nas áreas mais inclinadas a sua gestão um deputado valha menos votos que nas demarcações onde nunca ganhou. O resultado não pode ser mais claro: uma vitória de 98 a 65 com o mesmo número de votos.


A verdade é que o presidente, que passou 24 horas em silêncio digerindo na intimidade o mau resultado, está disposto a utilizar os meses que restam até janeiro - data em que se constituirá a nova Assembleia Nacional - para aproveitar a maioria absoluta que ainda tem. O chefe do comando Bolívar e deputado Aristóbulo Istúriz advertiu assim a oposição: "Vamos legislar até o último dia, por isso preparem-se". E Chávez, quando ia se recuperando do mal trago, desafiava a oposição a convocar um referendo para revogar seu mandato: "Como são maioria e eu já cumpri três anos deste período, lhes faço um desafio: convoquem já uma revogatória! Para quê vão esperar dois anos para me tirar? Dentro de dois anos será mais difícil, porque o que vem é 'joropo' [baile], por isso vão comprando alpargatas".


Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves



Texto do El País, reproduzido no UOL.



Comentário: Na verdade são coisas da democracia. Nem sempre a quantidade de votos equivale à quantidade de representantes eleitos. Foi evidente na eleição presidencial dos Estados Unidos no ano 2000, e acontece muito em países com sistema eleitoral distrital.

No Brasil, por conta disso,um deputado federal precisa de muito mais votos em São Paulo, do que no Amapá para se eleger.

Não conheço o sistema eleitoral venezuelano, mas acredito que a aparente distorção noticiada, que, segundo o El País, provocou um engasgo em Hugo Chávez, passa por aí.


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quarta-feira, setembro 08, 2010

Juíza presa na Venezuela

Governo aponta corrupção e ato irregular de juíza

A procuradora-geral da Venezuela, Luisa Ortega Díaz, afirma que a juíza Maria Lourdes Afiuni cometeu várias irregularidades ao conceder liberdade condicional a Eligio Cedeño: a principal delas é ter ditado a medida sem a presença dos promotores do caso.
A acusação diz ainda que Afiuni cometeu crime de corrupção, embora a investigação preliminar não tenha encontrado vestígios.
A relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para a independência dos juízes e advogados, a brasileira Gabriela Carina Knaul de Albuquerque e Silva, classificou a prisão de "arbitrária" e apresentou um informe sobre o caso perante o Conselho de Direitos Humanos da entidade.
A Comissão de Direitos Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos) também condenou a prisão, advertindo para os riscos de um Judiciário sem independência no continente.

Prisioneira de HUGO CHÁVEZ

MINHA HISTÓRIA: MARIA LOURDES AFIUNI, 47

Dei a ordem de liberdade [ao banqueiro] e meia hora depois eu estava presa. Ficou evidente que ele era prisioneiro político, e agora sou mais uma. Não posso ir ao pátio. Estou há nove meses sem tomar sol

RESUMO A juíza Maria Lourdes Afiuni, 47, foi presa em dezembro de 2009, meia hora depois de conceder liberdade ao banqueiro Eligio Cedeño, um ex-aliado do governo, acusado de fraudar o sistema de câmbio.
O presidente Hugo Chávez pediu que ela fosse condenada a 30 anos. A juíza é acusada de corrupção e de facilitar a fuga de Cedeño para os EUA, mas diz que é vítima de perseguição política.

FLÁVIA MARREIRO
DE CARACAS

Sou uma prisioneira de Hugo Chávez. Não tenho nenhum arrependimento de ter ditado a medida cautelar de liberdade de Eligio Cedeño.
Havia um atraso no processo e a lei diz que, quando não há julgamento por culpa do sistema judicial, o acusado não pode ficar detido mais de 24 meses. Ele estava preso havia três anos.
Sabia que era um caso com importância política. Mas não por isso eu seria cúmplice com erros.
Dei a ordem de liberdade e meia hora depois estava presa. Ficou evidente que ele era um prisioneiro político, e agora eu sou mais uma.
Não houve suborno. A acusação já cruzou meus dados bancários e os de Cedeño. Não encontraram nada.
Muitos advogados que vêm me visitar dizem que desde que fui presa nenhum juiz quer tomar uma decisão por temor de represálias.
No dia seguinte, um funcionário me falou que Chávez havia dito que eu deveria ficar 30 anos presa. Dois dias depois, me disseram que ele tinha pedido 35 anos.

COMPANHEIRAS
Dez dias depois, fui transferida para o Instituto Nacional de Orientação Feminina.
Minha ala tem prisioneira por sequestro com homicídio, pistolagem, infanticídio. Duas celas depois da minha tem uma presa por jogar bomba numa sinagoga. Esse caso passou por mim.
Por ordem da diretora do presídio, não posso ir ao pátio. Ela diz que é para garantir a minha vida. Estou há nove meses sem tomar sol.
Não me sinto segura. Um dia veio uma detenta gritando: "Juíza!". Disse que era chavista, que não me metesse com o presidente. Chegou com uma gilete, que elas escondem no céu da boca.
Acordo umas 5h. Então tomo banho, me arrumo, ponho maquiagem. Minha mãe traz o cabeleireiro de vez em quando. Antes morta que simplória. Não vão me ver com cara de vítima!
Fizeram uma avaliação psiquiátrica. Acho que depressiva não estou. Mas disseram que há sinais de ansiedade próprios de quem vive o dia inteiro trancado.
De tarde, rezo. Entro no Twitter. É minha janelinha para o mundo. O governo sabe que tenho. Dizem que o ministro da Justiça me segue.
Já me tiraram seis BlackBerry. Esse [mostra] é o sétimo. A senha é Hugo [gargalha]. Não posso tirar esse homem da cabeça.
O mais difícil é ficar longe da minha filha. Eu era uma mãezona, com a Geraldine debaixo da minha asa.

FUTURO
Estou com a sensação de que vão arrumar um jeito de me condenar a mais de dez anos. A pena dos crimes que eles me imputam daria seis anos e quatro meses.
Sou candidata à Assembleia Nacional. É uma alternativa para ter a liberdade por causa da imunidade.
No fundo, só confio na imprensa e na repercussão internacional. Faz uns meses eu encontrei uma bolinha na axila. Pedi para ir ao médico. Não me ouviram. Só quando a imprensa publicou me levaram ao Hospital Militar.
Não adianta programar o que fazer quando sair, na hora é tudo diferente. Mas quero minha casinha! E tomar um banho de água quente.
[Pausa] Ah, vou passar mais de um mês pagando promessa [ri] para a Divina Pastora, Nossa Senhora de Fátima, Virgem Milagrosa...
Sou basicamente a mesma, mas minha visão das coisas mudou. Não sei se voltaria a ser juíza nesse sistema. Pensaria duas vezes antes de declarar alguém culpado.
Duro é aceitar a sanha com que as autoridades me perseguem. A sanha desse monstro de mil cabeças que está na Justiça, Ministério Público, na Assembleia...
Pensei que havia juízes sérios. Não há por covardia, por comodidade, por manter sua cota de poder. Dá vergonha.
Mas sou apaixonada pela minha carreira como juíza. Um dia ditava uma medida de privação de liberdade. No outro, estou aqui. Não sei se essas coisas são por acaso.

Notícias da Folha de São Paulo, de 6 de setembro de 2010: 1 e 2.

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terça-feira, setembro 22, 2009

Uribe conspirou para depor Chávez?

Ex-agente confirma que Colômbia planejou derrubar Chávez

De acordo com o ex-chefe de informática do serviço de Inteligência da Colômbia Rafael García, o governo do presidente Álvaro Uribe elaborou "uma conspiração" contra o líder venezuelano, Hugo Chávez, que incluiu o envio de paramilitares e planejava o assassinato de personalidades.

O procurador-geral interino da Colômbia, Guillermo Mendoza, disse nesta segunda-feira à emissora de rádio "RCN" que as declarações de García "conduziram a diversas investigações, acusações e até sentenças condenatórias", mas que em "outras ocasiões nada foi encontrado".

Em entrevista ao "Canal Uno" de televisão, García alegou que faziam parte do plano para derrubar e assassinar Chávez o ex-diretor do Departamento Administrativo de Segurança (DAS) Jorge Noguera, preso por supostas conexões com paramilitares, e o Bloco Norte das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC).

"Houve toda uma conspiração contra o governo venezuelano, no qual até onde sei, participaram facções do Bloco Norte e do DAS, também estimuladas pelo ex-ministro (do Interior) Fernando Londoño", disse.

O ex-funcionário do DAS acrescentou que houve a participação, além disso, de alguns venezuelanos, como criadores de gado da fronteira entre os países.

Dentro do plano também estava a "sabotagem das cadeias de produção da Venezuela", que "provocaram uma greve em 2002 que causou ao país um enorme dano", disse.

Entre os planos, segundo García, havia o de "assassinar personalidades, com o objetivo de causar alvoroço na sociedade venezuelana".

"Muitos explosivos foram passados por funcionários do próprio DAS no posto de fronteira de Paraguachón na minha frente, eu os vi quando passaram", acrescentou.

Os principais alvos do grupo, de acordo com García, eram o presidente Chávez, o ex-vice-presidente José Vicente Rangel, o ex-ministro do Interior Jessi Rodríguez Chacón, e o procurador-geral, Isaias Rodríguez.

O ex-chefe de informática já tinha feito denúncias sobre um suposto complô do DAS e dos paramilitares contra o Governo venezuelano, mas os detalhes e nomes dos envolvidos só eram conhecidos pela Promotoria.

Mendoza explicou que apenas um testemunho não pode, por si só, ser o suficiente para que o caso seja considerado como verdadeiro, e outras fontes deverão ser ouvidas.

A versão de García coincide com a dada por Hugo Chávez na cúpula da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) em agosto, na Argentina, sobre um plano elaborado na Colômbia contra ele.

Fonte: EFE


Origem: Vermelho via Blogoleone.

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sábado, agosto 01, 2009

Chávez culpa diplomacia americana pelo golpe

Chávez culpa diplomacia americana pelo golpe

Venezuelano diz, porém, que Obama não sabia da ação do Departamento de Estado

Durante comemoração dos 200 anos da independência da Bolívia, presidente Evo Morales também fez duras críticas a Washington

DA REDAÇÃO

A festa de bicentenário do levante de La Paz contra a coroa espanhola, marco da campanha de independência da América hispânica, transformou-se ontem num palco para o ataque, com nuances, do imperialismo americano, e para clamar pela volta de Manuel Zelaya ao poder em Honduras.
O anfitrião, o presidente boliviano Evo Morales, pediu que a data seja usada como impulso na luta contra a dominação dos EUA na região e voltou a responsabilizar do Comando Sul da Forças Armadas dos EUA, responsável pela região, pelo golpe hondurenho.
Já o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, preferiu ser seletivo na crítica, afirmando que a deposição de Zelaya foi orquestrada pelo Departamento de Estado americano, chefiado por Hillary Clinton, à revelia do presidente Barack Obama.
Clinton tem sido acusada, especialmente por esquerdistas, inclusive nos EUA, de usar um tom mais brando que Obama para condenar o golpe, o que daria fôlego ao governo interino de Roberto Micheletti. Associação empresarial hondurenha contratou ex-assessores do Clinton para assessorar os golpistas e fazer lobby pró-Micheletti em Washington.
Obama "está entre a espada e a parede", pois "não o informaram" sobre o que ia acontecer em Honduras, disse ele.
Além de Chávez, estiveram em La Paz para as comemorações o presidente do Equador, Rafael Correa, o presidente do Paraguai, Fernando Lugo, além da chanceler do governo deposto de Honduras, Patricia Rodas.
Representando o Brasil estava o chanceler Celso Amorim, que não fez declarações sobre o tema recolhidas pelas agências de notícias.
Chávez previu um cenário de "guerra civil" em Honduras caso não haja solução para a crise. Rodas afirmou ontem que "medidas mais agudas" poderiam ser tomadas se o "séquito golpista" não entregar o poder a Zelaya até sábado. A chanceler disse ainda que "o presidente está a caminho de Honduras" e vai retomar o poder "à medida que os criminosos contra a democracia retrocederem".
Correa repetiu que os governos não reconhecerão eleições feitas sob o governo golpista.


Com agências internacionais

Notícia da Folha de São Paulo, de 17 de julho de 2009.


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segunda-feira, maio 11, 2009

Presidente Chávez rechaça críticas feitas pelo Parlamento Europeu

Chávez afirma que críticas europeias fedem "a podre"

DE CARACAS

O Parlamento Europeu aprovou ontem resolução na qual acusa o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, de "concentração de poder e autoritarismo crescente" e cita recentes ordens de prisão contra líderes opositores.
Em resposta, o presidente disse à noite que a resolução europeia era um "lixo e "cheira a podre".
"Não nos importa [o que dizem] o Parlamento Europeu ou a direita europeia. Aqui somos livres e não nos importa nada", afirmou Chávez, durante reunião ministerial transmitida em cadeia nacional obrigatória de rádio e TV.
O texto aprovado pelos parlamentares do bloco europeu exorta o mandatário a conduzir seu comportamento político "pela via do diálogo, do respeito ao Estado de direito e da legalidade constitucional".
A resolução cita os casos do prefeito licenciado de Maracaibo, Manuel Rosales, exilado no Peru após mandado de prisão contra ele, e do ex-ministro da Defesa Raúl Baduel, que está preso acusado de corrupção.
Segundo o texto, a escalada autoritária está levando "ao acosso, à ameaça, à intimidação e à perseguição política e penal da oposição, de seus prefeitos e governadores eleitos democraticamente, do movimento estudantil e de jornalistas".
Não é a primeira vez que o Parlamento Europeu emite resoluções contra a Venezuela. Há cerca de dois anos, criticou duramente o governo Chávez por ter retirado o sinal aberto da emissora oposicionista RCTV.
(FM)

Texto publicado na Folha de São Paulo, de 8 de maio de 2009.

Pequeno comentário: há cerca de dois anos, como diz o texto da Folha, este blog apoiou a iniciativa do governo venezuelano de cassar o sinal da RCTV. Hoje eu lamento que Manuel Rosales esteja exilado, e Raúl Baduel preso. Mesmo que digam que seja assunto interno da Venezuela, e que quem está perseguindo estes homens seja o judiciário venezuelano.


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quarta-feira, abril 15, 2009

Assembleia Nacional Venezuelana corte poderes do governo eleito de Caracas

Assembleia chavista cria governo biônico para Caracas

DE CARACAS

Dando continuidade a uma série de medidas que transferem ao governo nacional poderes que antes cabiam a governadores em Estados hoje sob controle da oposição, a Assembleia Nacional venezuelana, de maioria governista, sancionou ontem uma lei que cria um chefe de governo biônico para Caracas a ser nomeado pelo presidente Hugo Chávez.
A aprovação foi duramente contestada pelo governador distrital, o opositor Antonio Ledezma, que perderá boa parte das atribuições.
Pela recém-aprovada Lei Orgânica do Distrito Capital, o novo chefe de governo será nomeado por Chávez "porque [em Caracas] repousa o assento dos órgãos do poder nacional". A ele caberá "administrar a Fazenda Pública, elaborar e executar o plano de desenvolvimento e social (...) e decretar, licitar e contratar as obras públicas do Distrito Capital".
Ledezma, que na segunda organizou um protesto contra a lei debelado pela Polícia Metropolitana (controlada por Chávez), acusou, em entrevista coletiva, uma "fraude constitucional" que "atropela o desejo popular".
No debate na Assembleia, o deputado dissidente Ismael Garcia afirmou que "esse chefe de governo de fato será o governador de Caracas" e acusou Chávez de "submeter a seu controle todos os setores do país".
Já o governista Carlos Escarrá negou que a nova lei elimine o governo distrital, que, afirma, "funcionará como órgão de coordenação".
Chávez, em viagem à China, disse que a lei "criará uma figura que até agora não existia". (FABIANO MAISONNAVE)

Texto da Folha de São Paulo, de 8 de abril de 2009.

Apesar da manchete marcadamente preconceituosa da Folha de São Paulo (“Assembleia chavista” é o nome do Congresso venezuelano?), as notícias que têm sido publicadas, e esta é mais uma, indicam que se o presidente Hugo Chávez não é um ditador, tem tomado passos no sentido de se tornar um. As tais leis de centralização que tem sido produzidas desde que a oposição recuperou parte de sua força, nada mais são que leis para centralizar poder no governo central da Venezuela. Líderes de oposição, como o general reformado Raúl Baduel, ex-ministro da defesa de Chávez são presos ou ameaçados de prisão. E vez por outra recebemos notícias de milícias intimidando opositores do governo. Huuummmm...


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segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Atentado contra ex-ministro da defesa (agora oposicionista) na Venezuela

Dissidente chavista, ex-ministro é alvo de atentado na Venezuela

Carro de Baduel foi atacado; ataques contra atos oposicionistas se tornaram frequentes

FABIANO MAISONNAVE
DE CARACAS

O ex-ministro da Defesa e dissidente chavista Raúl Isaías Baduel foi atacado ontem por bombas de gás lacrimogêneo e teve o seu carro atingido por vários disparos enquanto participava de evento contra a proposta de reeleição presidencial indefinida, que será submetida a referendo em 15 de fevereiro.
O atentado ocorreu no campus da Universidade de Carabobo, na cidade de Valencia (160 km a oeste de Caracas). Baduel, que rompeu com o presidente Hugo Chávez em 2007, havia sido convidado ao campus pelo grêmio universitário. Ninguém ficou ferido.
À TV Globovisión, Baduel disse que não pode identificar os autores do ataque. Segundo ele, uma maleta com documentos pessoais e um talão de cheque foi roubada do veículo.
Nas últimas semanas, foram registrados ataques quase diários a eventos de estudantes oposicionistas contra a reeleição indefinida. Os ataques têm sido atribuídos a organizações paramilitares chavistas, como o grupo "La Piedrita", que assumiu a autoria de alguns ataques com bomba contra o que chamam de "alvos militares".
Chávez tem chamado os estudantes de "pitiyanquitos" e chegou a ordenar a polícia a "lançar gás do bom" contra manifestações não autorizadas pelo seu governo. O venezuelano, que na segunda-feira completará dez anos no poder, quer reformar a Constituição para concorrer novamente à Presidência no final de 2012.
Chávez também ordenou a vigilância de alguns campi universitários por militares. Em Caracas, por exemplo, a entrada da Universidade Central da Venezuela (UCV), a mais importante do país, está sob a vigilância de dezenas de homens da Guarda Nacional.
O ex-ministro da Educação Aristóbulo Istúriz, um dos principais nomes da campanha do "sim", acusou a CIA de estar por trás dos ataques. "É fácil fazer autoatentados, isso é um conhecido plano da CIA, preparam situações para jogar a culpa em alguém", afirmou ao jornal "Ultimas Notícias".
Pesquisa divulgada nesta semana pelo respeitado instituto Datanálisis mostra empate técnico entre o "sim" e o "não", com ligeira vantagem para a aprovação da emenda: 51,5% a favor da proposta de Chávez, e 48,1% contrários à reeleição indefinida. A margem de erro é de 2,7 pontos percentuais.

Texto da Folha de São Paulo, de 30 de janeiro de 2009.


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sexta-feira, janeiro 30, 2009

Para analistas, erros da oposição fortaleceram Chávez

Além dos altos índices de popularidade, do controle sobre as Forças Armadas e da bonança do petróleo, o presidente da Venezuela Hugo Chávez contou com um elemento fundamental que colaborou para fortalecer seu poder ao longo da última década no país: o conjunto dos erros da oposição.

Na avaliação de analistas e políticos ouvidos pela BBC Brasil a tentativa, a qualquer preço, de derrubar o presidente e tirar a legitimidade de seu governo, aliada à divisão e a incapacidade desse grupo de propor um projeto alternativo ao chavismo, contribuíram para a consolidação da chamada revolução bolivariana.

O fracassado golpe de Estado, em abril de 2002, que chegou a afastar Chávez do poder por 48 horas, foi o primeiro e o principal erro da oposição na avaliação de Julio Borges, do partido opositor Primeiro Justiça (PJ) de centro-direita.

"O erro foi pensar que era preciso tirar Chávez do Palácio de Miraflores (sede do governo) quando o que tínhamos de ter feito era tirá-lo do coração das pessoas", afirmou Borges, da direção do partido.

Borges argumenta que a oposição ainda batalha para recuperar a confiança perdida junto à população no período de crise política no país.

"Ainda estamos pagando (pelo erro) porque ao final o que se produziu é que o país viu durante muitos anos que de um lado estava Chávez e o povo e do outro lado estava a oposição", acrescentou.

O golpe levou milhares de simpatizantes do presidente, provenientes fundamentalmente dos bairros pobres, a tomarem as ruas para exigir o regresso do mandatário ao Palácio de governo, episódio que fortaleceu o presidente.

A partir de então a polarização tomou conta da sociedade venezuelana e permitiu que a tese de que a disputa política na Venezuela também se tratava de uma batalha entre pobres (chavistas) e ricos (anti-chavistas) se fortalecesse.

Greve petroleira

Diferente da situação atual, em 2002, os partidos políticos eram um grupo minoritário na corrente opositora ao governo. Empresários, a cúpula da Igreja Católica e os meios de comunicação privados eram os grupos com maior poder de decisão.

"Todos eles tinham mais credibilidade do que os partidos políticos, porém, esses são setores que não foram feitos para negociar e sim para impor o seu ponto de vista", afirmou a historiadora Margarita López Maya, da Universidade Central da Venezuela.

Meses depois do golpe, a oposição organizou um locaute liderado pela federação de empresários Fedecamaras e pela direção da PDVSA, estatal petroleira responsável por 94% das divisas que ingressam ao país.

A medida, que tinha como objetivo levar à renúncia o presidente, afundou o país em uma crise econômica, com uma perda de 24% do Produto Interno Bruto (PIB) e de desabastecimento de alimentos e combustível.

"A teoria era de que não há governo na Venezuela que resista a três dias de greve petroleira. Chávez agüentou 62 dias (de locaute) e a greve morreu sozinha", afirmou o diretor do diário opositor Tal Cual, Teodoro Petkoff, ex-assessor de campanha do candidato presidencial Manuel Rosales.

Depois da greve, Chávez demitiu 18 mil funcionários da PDVSA e estabeleceu pleno controle da principal indústria do país, hoje um dos pilares de sustentação de seu governo.

Derrotas

Em 2004, a oposição acumulou mais uma derrota. Agrupados na organização civil Coordenadora Democrática, os opositores recolheram assinaturas e conseguiram submeter o mandato presidencial a referendo revogatório, em mais uma tentativa de encurtar o período de Chávez no poder. Foi o auge da polarização entre chavistas e anti-chavistas.

Chávez saiu vitorioso das urnas com 58,25% dos votos. Os opositores, porém, não acataram os resultados e acusaram o governo de ter manipulado a votação.

Teodoro Petkoff considera que, ao denunciar a fraude sem poder demonstrá-la, a oposição desqualificou a via eleitoral como alternativa à Chávez e desmobilizou seus eleitores para as eleições de governadores e prefeitos que ocorreram poucos meses depois.

"A abstenção nas eleições regionais foi tão grande que entregou de graça o controle do país a Chávez, sem oposição", afirmou. Na ocasião, os aliados do governo conquistaram 21 governos estaduais dos 23 em disputa.

A perda do espaço da oposição no Legislativo foi similar. Em 2005, buscando tirar a legitimidade da disputa para a eleição do novo Parlamento, os partidos opositores decidiram não participar do pleito, alegando que o sistema eleitoral era fraudulento. Até as eleições, a oposição controlava 45% das cadeiras na Assembléia Nacional.

A oposição "pensava que se as pessoas não participassem, o governo se deslegitimaria e perderia apoio popular, mas ao final quem perdeu credibilidade foi a própria oposição", afirmou Julio Borges (PJ).

Sem espaços institucionais para disputar politicamente com o chavismo, as ações da oposição de caráter público tiveram que limitar-se a manifestações de rua, em protestos que acabaram sendo ignorados pelo Executivo.

Nova oposição

A resistência da oposição à disputa eleitoral passou a mudar a partir de 2006, quando o candidato Manuel Rosales participou da eleição presidencial e aceitou a vitória - e reeleição - do presidente venezuelano com mais de 61% dos votos.

"Se marcou uma estratégia que admitia a democracia como caminho e o processo eleitoral como saída (para derrotar o chavismo)", afirmou Teodoro Petkoff, que assessorou Rosales durante a campanha eleitoral.

Mas foi a derrota do chavismo no referendo da reforma constitucional de 2007, porém, que deu novo fôlego à oposição, que passou a acreditar, ainda que com uma vitória apertada no pleito, que era possível vencer nas urnas.

"Pela primeira vez se ganhou uma de Chávez", disse Petkoff.

Os opositores do governo ganharam novos adeptos durante a campanha para modificar a Carta Magna. Primeiro o partido Podemos (social-democrata), que deixou a base governista e se aliou à oposição.

A outra ruptura veio com a saída do ex-ministro de Defesa Raul Isaías Baduel. O general, até então visto como um dos "heróis" que garantiram o regresso de Chávez ao poder durante o golpe, criticou o que chamou de "projeto autoritário" de Chávez e rompeu com o governo. Mas, diferente do que previam alguns analistas, Baduel tampouco foi aceito pela oposição.

"Em muitos casos os ataques contra mim provém mais da oposição do que do próprio governo", afirmou. Baduel defendeu a realização de uma nova Assembléia Constituinte para modificar a Constituição de 1999, proposta que não foi acolhida, até agora, pelos demais opositores.

Recuperação

Embalados com a vitória no referendo da reforma constitucional, os representantes anti-chavistas de maior peso conseguiram em alguns casos recuperar e, em outros, consolidar espaços de poder, nas eleições regionais realizadas em novembro do ano passado.

Ligado aos setores empresarial e agropecuário do Estado Zulia, Rosales se consolidou no poder local e entrou fortalecido na corrida às eleições presidenciais de 2013. Rosales - que é acusado de corrupção - conquistou a prefeitura de Maracaibo, capital zuliana e conseguiu eleger seu candidato Pablo Perez (ambos do partido Um Novo Tempo) como governador desse Estado.

No Estado de Miranda, um dos mais importantes do país, Capriles Radonski (PJ), saiu vitorioso, reforçando o peso de seu partido no campo opositor.

Em busca de um líder

Analistas consideram que a incapacidade de propor alternativas ao chavismo foi um dos principais fracassos da oposição.

Entre os anti-chavistas, há também muitos que acham que a oposição carece de um líder que seja capaz de unificá-los. Teodoro Petkoff admite que a única liderança existente no país, ainda que não concorde com ela, é a do presidente da República.

"A liderança de Chávez é massacrante, ao lado dele não cresce nada, por isso há tanta carência de referências políticas", afirmou.

Petkoff aposta que nos próximos quatro anos a oposição construirá uma candidatura presidencial viável, mas admite que, no momento, não há outro líder ou projeto no país comparáveis a Chávez e a revolução bolivariana.

"Ainda não há alternativa no país, há oposição, mas não há alternativa", afirmou Petkoff. "Todos os setores sociais que vão se desencantando (com o chavismo), quando olham para o outro lado, não vêem alternativa".

Para a historiadora Margarita López Maya, o desafio da oposição é entender que, no imaginário do venezuelano comum, a política liberal adotada nas décadas anteriores não seria aceita pelos venezuelanos. "Eles ainda não entenderam que, para os venezuelanos, este projeto está derrotado, que há que se pensar em um novo modelo", diz ela.

López Maya acredita que é necessário romper com o "messianismo" da era Chávez, mas a seu ver, "enquanto o governo tiver recursos e enquanto não houver uma oposição crível, os venezuelanos preferirão continuar como estão do que experimentar outras coisas", afirmou.

O opositor Julio Borges sintetiza o dilema vivido por seus aliados: "O problema é que os que não estão de acordo com Chávez ainda não se colocaram de acordo sobre o quê concordam. Sabem que não gostam disso (chavismo), mas o problema é: do que gostam então?".

Texto da BBC Brasil. A Venezuela se encaminha para novo plebiscito / referendo sobre a possibilidade de reeleição ilimitada para a presidência da república, que beneficia, já, o presidente Hugo Chávez. Este blogueiro é contra. Mas não que isso importe muito para os venezuelanos, que, afinal, serão os votantes.


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segunda-feira, janeiro 12, 2009

E Chávez, o homem-coração, se tornou herói da causa Palestina

E Chávez, o homem-coração, se tornou herói da causa Palestina

Este blogueiro, para sua própria desonra, não chegou a ler o livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. Assim, não pode confirmar se quando o notável historiador fala em “homem cordial”, ele está falando de amistosidade, ou de reagir “pelo coração”, seja com inesperada ira, seja com inesperada ternura, dependendo das circunstâncias. Creio que já ouvi falar que a última alternativa é a mais correta. Mas não tenho certeza.

Pois o presidente Chávez, da Venezuela, parece se comportar assim. Um homem que é “puro coração”, na interpretação deste blogueiro, pois o presidente Chávez primeiro age, e depois vai pesar as conseqüências de suas decisões.

Seja colocando o seu exército em prontidão na fronteira com a Colômbia, quando este último país invadiu o vizinho Equador, sob a alegação de estar perseguindo terroristas. Se pensarmos bem, não foi a Venezuela que foi invadida, e a população venezuelana representa cerca de um terço da população colombiana. Complicado estar pronto para uma guerra assim.

Seja, logo em seguida, restabelecendo laços com o mesmo presidente colombiano que havia xingado, e ao qual havia ameaçado com guerra.

Nestes últimos dias, após o início dos ataques israelenses à Faixa de Gaza, que pelas recorrentes fotos de crianças mortas, este blog tem chamado de “massacre de Gaza”, ou o “infanticídio de Gaza”, o presidente Chávez expulsou o embaixador israelense de Caracas. Um gesto de solidariedade ao povo palestino, sem dúvida, mas uma atitude tomada muito mais com o coração, do que com a razão. Afinal, a Jordânia, um dos poucos países árabes que mantém relações diplomáticas com Israel, aparentemente nem mesmo convocou seu embaixador em Tel-Aviv para explicações, o que, dizem os meios de comunicação, passaria uma mensagem de protesto ao governo israelense, apesar dos esforços de relações pública da Rainha Rania, aparecendo em público doando sangue às vitimas dos bombardeiros israelenses, ou arrecadando doações para aliviar o sofrimento dos habitantes de Gaza. O mesmo vale para o Egito, que está demonstrando mais horror ao Hamas, que amor e solidariedade aos palestinos.

Com seu gesto arrebatado, porém, o presidente Chávez

ganhou ampla simpatia dos apoiadores da causa Palestina. Nas fotos abaixo, retiradas de um álbum de manifestações publicado pelo UOL, é possível ver claramente o retrato do líder venezuelano, nas manifestações de São Paulo, de Paris, e de Nablus. Chávez agora é um herói para os palestinos.

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Hamas agradece à Venezuela expulsão de embaixador israelense

Gaza, 7 jan (EFE).- O grupo islamita Hamas comemorou hoje a expulsão do embaixador israelense na Venezuela e apelou a outros Governos do mundo, entre eles árabes, que sigam o presidente venezuelano, Hugo Chávez.


Em comunicado publicado em seu site, o Hamas diz que a decisão de Chávez foi uma "medida corajosa" contra as "covardes agressões" de Israel -contra cujo território lançava foguetes desde antes do fim do cessar-fogo, em 19 de dezembro.


Em uma crítica ao Egito e Jordânia -únicos países árabes que mantém relações diplomáticas plenas com Israel-, o Hamas diz se surpreender por não terem tomado uma decisão semelhante retirado a seus diplomatas de Tel Aviv.


O Egito estabeleceu relações diplomáticas com Israel em 1979, enquanto a Jordânia o fez em 1994, ambos após acordos de paz.


A expulsão do embaixador israelense em Caracas, Shlomo Cohen, foi anunciada pelo ministro venezuelano de Relações Exteriores, Nicolás Maduro, durante um ato de "solidariedade ao povo palestino" realizado ontem por ocasião da ofensiva militar de Israel em Gaza, que já matou 660 pessoas.


Maduro especificou que o Governo venezuelano também decidiu "reduzir à menor expressão possível" a embaixada israelense em Caracas.


Pouco antes, em comunicado, seu Ministério havia divulgado um comunicado no qual explicava que a decisão "reafirmava a vocação de paz" da Venezuela e "sua exigência de respeito ao Direito Internacional" - sem mencionar, porém, a quebra do cessar-fogo pelo Hamas.


A Venezuela "presencia mais uma vez o horror da morte de crianças e mulheres inocentes, produto da invasão da Faixa de Gaza por tropas israelenses, e do bombardeio inclemente que, por céu e terra, descarrega sistematicamente o Estado de Israel sobre território palestino", indicou.


Após conhecer a decisão, Israel estuda a possibilidade de aplicar medidas recíprocas à Venezuela, na atualidade representada por um único diplomata, o encarregado de negócios, Roland Betancourt.


A expulsão desse funcionário obrigaria a fechar a embaixada venezuelana em Tel Aviv. EFE

Notícia do G1.

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terça-feira, novembro 25, 2008

Chávez perde a capital e mais três Estados

O governo do presidente venezuelano Hugo Chávez perdeu o controle da prefeitura metropolitana de Caracas e do Estado (distrito federal) de Miranda nas eleições deste domingo.

Os venezuelanos elegeram um total de 23 governadores, 328 prefeitos, além de 233 legisladores regionais.

De acordo com o Conselho Nacional Eleitoral (CNE), o governo venceu em 17 dos 22 Estados em disputa e continuará mantendo o controle da maioria dos governos estaduais.

Os resultados correspondem a 95,67% das urnas apuradas.

Houve empate técnico nos Estados de Carabobo, Táchira e no município Sucre, o mais populoso da região metropolitana de Caracas (que inclui cinco municípios), razão pela qual o CNE só anunciará os resultados depois da totalização de todos os votos.

"Hoje falou de novo o povo venezuelano, parabéns (...) o povo se expressou e olha com que contundência", afirmou Chávez ao admitir a vitória de seus adversários, logo depois do anúncio oficial do CNE na madrugada desta segunda-feira.

Chávez disse que a jornada eleitoral foi uma "grande vitória da democracia" em seu país. "Oxalá ninguém nunca mais caia na tentação de sair fora do marco da Constituição", afirmou Chávez em referência a seus adversários que apoiaram a tentativa de golpe de Estado de 2002 e que hoje saíram vitoriosos das urnas.

Em tom conciliador, Chávez pediu que seus adversários respeitem seu governo. "Aos prefeitos que se dedicaram a conspirar, a trazer paramilitares, aos novos governadores (...) eu como chefe de Estado reconheço esse triunfo e espero que vocês reconheçam a este governo", afirmou.

Oposição

A surpresa desta jornada eleitoral foi na prefeitura metropolitana de Caracas, o segundo posto mais importante do país, depois da Presidência. Antonio Ledezma, um velho líder opositor venceu com 52,45% dos votos ao candidato chavista Aristóbulo Isturiz que obteve 44,92% dos votos. Ambos já foram prefeitos da cidade.

No Distrito Federal de Miranda, na capital Caracas, o atual governador chavista, Diosdado Cabello, candidato à reeleição, foi derrotado por Capriles Radonski, atual prefeito do município Baruta, um dos cinco municípios da região metropolitana de Caracas. Radonski obteve 52,56% dos votos contra 46,64% de Cabello.

A oposição continuará no controle do Estado de Zulia, reduto anti-chavista controlado pelo governador Manuel Rosales, principal líder da oposição e candidato à prefeitura de Maracaibo. Os resultados desta cidade ainda não foram anunciados, mas Rosales deve ganhar com facilidade de acordo com pesquisas.

O governo de Zulia ficará no controle de Pablo Perez do partido opositor Um Novo Tempo, que venceu com 53,59% dos votos contra o candidato do governo Gian Carlo Di Martino que obteve 45,02%.

O Estado Nueva Esparta, onde está o balneário de Isla Margarita, continuará no controle da oposição.

Jornada eleitoral

Os venezuelanos madrugaram neste domingo para ir às urnas. As longas filas que duraram todo o dia obrigaram alguns centros de votação a permanecer abertos até as 22h (00h30 de Brasília), por determinação do CNE. A legislação venezuelana prevê que as urnas não podem ser fechadas enquanto houver eleitores na fila de votação.

A medida, porém, foi questionada pela oposição. O líder do partido Podemos, Ismael Garcia, que rompeu com a base governista no ano passado, disse que a intenção de deixar as mesas abertas seria para "obrigar" eleitores chavistas a reverter, na última hora, a votação a favor dos candidatos do governo.

De acordo com o CNE, a participação nessas eleições ultrapassou o recorde histórico com mais de 65% do total de 17 milhões de eleitores.

Voto castigo

No bairro periférico 23 de Enero, um dos redutos chavistas em Caracas, o taxista Rafael Landaeta disse à BBC Brasil estar descontente com a atual administração da cidade e que, pela primeira vez nesses 10 anos de governo Chávez, votaria na oposição, que saiu vitoriosa na cidade de Caracas.

"Os prefeitos chavistas simplesmente abandonaram esse bairro e se dedicaram à corrupção. Precisamos de mão forte para combater a delinqüência", afirmou.

De acordo com o instituto de pesquisas Hinterlaces, a insegurança é a principal preocupação de 79% dos venezuelanos.

O taxista disse que continua apoiando o presidente, mas pretende castigar o governo local.

"Apoio Chávez por ser o líder desse processo de transformação. O país está melhor e não podemos retroceder, por isso precisamos de mudanças, não podemos ser coniventes com a ineficiência", disse.

Chávez admitiu que a derrota em Caracas e Miranda levará seu partido a fazer uma autocrítica, mas disse que a "revolução bolivariana" saiu fortalecida do pleito.

"Começa uma nova etapa, essa grande vitória socialista é um sinal muito forte. Chávez continuará pelo mesmo caminho, o caminho do socialismo bolivariano", afirmou.

Texto da BBC Brasil.


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Mais sobre as eleições regionais na Venezuela

Chávez assedia seus rivais com a campanha do "você será preso"
O presidente da Venezuela ameaça levar à prisão os candidatos opositores na eleição de domingo

Francisco Peregil
Em Barinas (Venezuela)


Na Venezuela ninguém se assombra mais que o presidente em época eleitoral despeje o conhecido repertório de insultos contra seus rivais. Por exemplo, em Barinas, sua terra natal, mandou seu candidato "limpar a prefeitura dos ratos". Mas uma coisa é chamar de rato ou ladrão, corrupto, mafioso, oligarca e narcotraficante pessoas como Manuel Rosales, governador do estado de Zulia... e outra é que o próprio presidente ameace um adversário, como fez no domingo passado: "Você será preso. Foi apanhado com as mãos na massa, Rosales. Ninguém pode salvá-lo. Não vá fugir".

Em 25 de outubro Chávez já advertiu que se colocaria à frente de um plano que chamou de "Operação Manuel Rosales, você será preso". Como fruto desse plano, na quinta-feira o presidente da comissão da controladoria da Assembléia Nacional, Mario Isea, disse que Rosales tem de dar explicações para ver como financiou suas "duas casas em Miami", avaliadas em "US$ 700 mil", suas viagens em aviões privados e suas ligações com empresas internacionais de seguros.

Há outro candidato que nunca foi ameaçado publicamente com a prisão, mas está há uma semana preso. Chama-se Abdalá Makled e era até há pouco mais de um ano um importante empresário chavista, aspirante à prefeitura de Valencia, capital do estado de Carabobo. "As pessoas do governo o haviam aconselhado a não se candidatar a prefeito", indica Rafael Simón, candidato de oposição à prefeitura de Barinas. Mas Makled foi em frente, tirando votos do candidato governista. Até que na última sexta-feira a juíza Carina Zachei ordenou a prisão dele, após a apreensão de 394 quilos de cocaína em uma fazenda de sua propriedade.

"Todo mundo na Venezuela sabia que Makled estava metido em assuntos nebulosos, pela quantidade de negócios que administrava", indica Francisco Bello, presidente da empresa de pesquisas Pronósticos, com sede em Valencia. "Enquanto outros candidatos distribuem algumas cadeiras de rodas para inválidos e bolas de futebol nos bairros, ele distribuía máquinas de lavar roupa e secadoras. Mas se realmente é um narcotraficante importante, por que o governo esperou até nove dias antes das eleições?"

Há muito em jogo nas eleições do próximo domingo. Nada menos que 22 governos estaduais e 328 prefeituras. No caminho ficaram opositores como Leopoldo López, aspirante à prefeitura de Caracas, e Enrique Mendoza, ao governo do estado de Miranda, que foram considerados inelegíveis pela Controladoria Geral da República. A oposição se manifestou nas ruas contra essas decisões, que tachou de ilegais. Mas a campanha seguiu em frente sem os inelegíveis. Agora, graças aos chavistas dissidentes, Chávez pode perder alguns estados mais que os dois em que foram derrotados nas últimas eleições regionais. Um dos mais simbólicos é Barinas, a terra onde nasceram os Chávez.

O ex-chavista Julio César Reyes, prefeito de Barinas, se candidatou a governador contra Alán Chávez, irmão do presidente. O presidente o chamou várias vezes de traidor. E na quinta-feira um canal público de televisão divulgou uma fotografia em que César aparece junto com o suposto traficante Makled.

Na Venezuela muitos políticos da oposição parecem sofrer uma espécie de paranóia sobre as escutas dos serviços secretos do Estado nos telefones celulares. Muitas vezes mudam de telefone e costumam usar um Blackberry com o fim de que não interceptem suas mensagens de texto. Às vezes essas suspeitas parecem ter fundamento. O canal 8, a mesma televisão pública que esta semana divulgou a foto de César com o suposto narcotraficante, também divulgou em setembro várias conversas telefônicas privadas nas quais se escutava Julio César Reyes falando com opositores do governo. Em uma delas se referia a Chávez como um "patotero" (criminoso) de bairro e acrescentava: "Ele que venha nos chamar de bandido, quando sabe que os bandidos são seus próprios irmãos!" César nem sequer respondeu aos ataques dos partidários de Chávez. Só diz que essas estratégias de campanha são "um reflexo do desespero que se espalha pelas fileiras chavistas". Apesar de tudo, Reyes afirma que confia na limpeza do processo eleitoral.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Texto do El País, no UOL.


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segunda-feira, novembro 24, 2008

Eleições regionais na Venezuela: Dissidente ameaça Chávez em terra natal

Dissidente ameaça Chávez em terra natal

Pesquisas mostram irmão do presidente cinco pontos atrás de ex-aliado em Barinas, há dez anos governado por seu pai

Embora eleição de domingo seja regional, mandatário fez três comícios em 60 dias por Adán no Estado, onde chavismo é questão local

FABIANO MAISONNAVE
DE CARACAS

Em 1998, quando se elegeu presidente, a popularidade de Hugo Chávez também colocou seu pai, Hugo de los Reyes Chávez, no Palácio de Governo de Barinas, seu Estado natal. Dez anos depois, o presidente venezuelano tem suado a camisa para que Adán, seu irmão, supere o favoritismo do dissidente do governismo Julio Cesar Reyes.
Pesquisas de opinião recentes mostram uma vantagem de até cinco pontos percentuais para Reyes -um empate técnico. Prefeito da capital, também chamada Barinas, ele deixou o chavismo em meio à disputa para escolher o candidato a sucessor de Hugo pai, reeleito com facilidade em 2000 e 2004. Agora, é chamado de "Judas Cesar" por Chávez.
"A oposição nova e velha disse que Chávez perde em 23 de novembro [este domingo], que eles ganharão Barinas porque estão empenhados em me golpear no fígado", disse o presidente venezuelano no último domingo durante o terceiro comício eleitoral em dois meses na capital do Estado. "Se ganham (...), estariam golpeando o meu próprio ninho."
O discurso de Chávez em Barinas segue a estratégia nacional de transformar as eleições para governador e prefeito num plebiscito sobre o seu governo. Com isso, relega ao segundo plano a avaliação dos governos locais, quase todos nas mãos de chavistas -e, segundo pesquisas de opinião, com baixa popularidade devido a problemas de gestão em áreas como segurança pública.
Insultado várias vezes pelo presidente, Reyes não tem respondido às provocações, adotando a linha do "chavismo sem Chávez". Mas ele apóia para a Prefeitura da capital do Estado o deputado federal Wilmer Azuaje, um dissidente que tem acusado duramente a família Chávez de ter comprado várias fazendas no Estado por meio de testas-de-ferro.
Para o analista Alfredo Keller, do instituto de pesquisa Keller e Associados, essa estratégia está sendo bem-sucedida em quase todo o país, onde se tem verificado uma recuperação dos candidatos chavistas. Mas Barinas é uma das poucas exceções, diz ele, porque ali "Chávez" é um tema mais regional do que nacional.
Segundo Keller, a escolha de um irmão de Chávez como candidato "reforçou ainda mais a idéia de que Barinas é um feudo praticamente monárquico onde governa a família imperial. E isso tem ajudado a tese dos que pedem um voto de castigo".
Keller diz que muitos eleitores que inicialmente votariam no candidato apoiado pela oposição tradicional, Rafael Simón Jiménez, estão migrando para Reyes com objetivo de tirar a família Chávez do poder.
Seu instituto de pesquisa avalia que Barinas é um dos 9 dos 23 Estados em que a oposição tem a possibilidade de ganhar. Em outros seis, a derrota do chavismo é cogitada. Atualmente, governistas controlam 18 dos 24 governos regionais.
Além de Barinas, Chávez enfrenta o fenômeno dos candidatos dissidentes em outros dois Estados, Carabobo e Guárico, cujos atuais governadores também deixaram as filas governistas.

Texto da Folha de São Paulo, de 19 de novembro de 2008.


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quarta-feira, outubro 22, 2008

"Camarada"

"CAMARADA"
Pelas agências, o presidente venezuelano Hugo Chávez ironizou ontem que o "camarada" George W. Bush "agora está à minha esquerda". Às voltas com a negociação de uma "nacionalização" de banco também na Venezuela, sublinhou como o colega americano "vai comprar ações de bancos privados".

Trecho da coluna Toda Mídia, de Nelson de Sá, na Folha de São Paulo, de 17 de outubro de 2008.

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terça-feira, setembro 30, 2008

Hugo Chávez toma o controle do Poder Judiciário

Hugo Chávez toma o controle do Poder Judiciário
Relatório da Human Rights Watch denuncia que o tribunal máximo da Venezuela se transformou em um fantoche do governo

Francisco Peregil
Em Madri


Aquele livrinho que o presidente venezuelano, Hugo Chávez, começou a mostrar em dezenas de programas de televisão a partir de 1999 não era perfeito. Mas continha a melhor Constituição latino-americana em termos de direitos humanos. O texto de 1999 contemplava a criação de um novo Tribunal Superior de Justiça que atuaria de forma independente como garantia máxima dos direitos fundamentais. Seria o último refúgio de qualquer cidadão que visse seus direitos atropelados.

Essa é a opinião de José Miguel Vivanco, diretor para a América da Human Rights Watch (HRW), uma ONG com presença em mais de 70 países, que criticou duramente, entre muitos outros casos, o governo americano por sua gestão de Guantánamo e o da Colômbia pelo processo de inserção dos paramilitares. Agora é a vez da Venezuela.

Sob o título "Intolerância política e oportunidades perdidas para o progresso dos direitos humanos na Venezuela", a HRW apresenta um relatório de 266 páginas sobre a gestão de Chávez desde que chegou ao poder, em dezembro de 1998. "Tentamos analisar o filme inteiro. Lendo as notícias de forma isolada é impossível fazer uma idéia da tendência que marcou Chávez em seus dez anos de governo", explica Vivanco.

Uma pesquisa de 1998 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) concluiu que só 0,8% da população confiava no sistema judiciário. Por isso todos os candidatos que se apresentaram nas eleições daquele ano prometeram reformar o sistema. Foi Hugo Chávez Frías quem ganhou, com 56% dos votos, e pôs mãos à obra. Cumpriu sua promessa.

Em agosto de 1999 a Assembléia Nacional encarregada de redigir a nova Constituição declarou que o Poder Judiciário se encontrava em estado de emergência, criou uma comissão com faculdades para suspender os juízes cujo patrimônio não tivesse relação com suas rendas e para destituir os que, por exemplo, tivessem adotado decisões que refletissem um "desconhecimento manifesto do direito". Nos meses seguintes a comissão separou de seus cargos centenas de juízes. Em março de 2000 estava criado o novo Tribunal Supremo da Venezuela, que tem competências semelhantes às do Supremo e Constitucional espanhol. Era integrado por 20 magistrados, dos quais, segundo Vivanco, dez eram aliados e dez opositores de Chávez.

"Então havia um equilíbrio de forças. As decisões do Supremo naquela época não eram previsíveis", afirma. Em 11 de abril de 2002 Chávez sofreu uma tentativa de golpe que durou apenas 40 horas. O próprio Chávez brincou muitas vezes dizendo que foi o golpe mais curto da história. Mas o sistema judiciário começou a se ressentir. Em agosto, quatro meses depois da intentona, o Supremo ditou uma sentença na qual se negava a iniciar uma investigação contra quatro generais acusados de participar do golpe, sob a alegação de que não havia provas suficientes contra eles.

Chávez pôs novamente as mãos à obra. Mas desta vez na direção contrária à indicada pela Constituição de 1999. "Com o pretexto do golpe, Chávez se dedicou a desarmar sistematicamente os controles previstos em sua própria Constituição, a concentrar poderes e a anular instituições oficiais", declara Vivanco.

De todas as medidas de redução das liberdades e direitos humanos, a HRW destaca uma especialmente grave: a lei que reformou o Tribunal Supremo em maio de 2004. "Com a reforma, Chávez incorporou 12 juízes chavistas, despachou a maioria e transformou o tribunal em um apêndice do Executivo", acrescenta.

"Poucas semanas depois da sanção da lei, os três magistrados responsáveis pelas sentenças mais criticadas pelos seguidores de Chávez estavam fora do tribunal", afirma o relatório. "Nos anos seguintes o novo tribunal supremo ligado ao governo demitiria centenas de juízes e designaria outras centenas. Essa reposição maciça de juízes contribuiu para prejudicar ainda mais a credibilidade do Poder Judiciário da Venezuela", indica o texto da investigação.

Listas negras

A discriminação política, a distinção entre amigos e inimigos, é um dos principais traços do governo Chávez, segundo a Human Rights Watch. A ONG destaca em seu relatório como um caso especialmente flagrante o que ocorreu na companhia Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA), a principal fonte de divisas do país.

"Depois de uma greve de dois meses, em dezembro de 2002 o governo demitiu quase a metade dos funcionários da PDVSA e criou listas negras dos empregados demitidos para impedir seu acesso a futuros empregos no setor petrolífero", salienta a ONG. "Um mês antes das eleições presidenciais de 2006, o ministro da Energia (que também era o presidente da PDVSA) se vangloriou de que a companhia tinha "tirado dessa empresa 19.500 inimigos deste país" e que estavam dispostos a continuar fazendo isso. Nessa oportunidade também disseram aos empregados da PDVSA que era "necessário" que quem estivesse em desacordo com o governo "cedesse seu cargo a um bolivariano". Apesar de o ministro ter emitido um memorando quase um ano depois no qual proibia a discriminação política, existem evidências convincentes de que a mentalidade discriminatória que seus comentários iniciais refletiam também orientou as políticas sobre emprego de alguns setores da PDVSA".

A ONG lembra que 30 anos antes da eleição de Chávez a lealdade política já "era o passaporte para ocupar cargos no setor público e para a distribuição de contratos e serviços do governo". Os partidos políticos dividiam os cargos. Chávez decidiu dedicar-se aos menos favorecidos através de planos específicos que desprezavam o aparelho do Estado. Mas o governo de Chávez depois incorreu no vício da discriminação "através de novas formas de exclusão baseadas na lealdade política".

Imerso nessa dinâmica de discriminação, Chávez decidiu em maio de 2007 não renovar a licença de emissão ao canal opositor RCTV, que se negava a moderar sua linha editorial. "Oficialmente, a decisão foi justificada pela necessidade de usar a freqüência do RCTV para criar um novo canal público, mas o governo tinha outras freqüências a sua disposição e nesse momento havia renovado as licenças de canais que apoiavam o governo ou que haviam moderado sua crítica", indica a entidade.

O "destacado legislador chavista Luis Velázquez Alvaray" presidiu mais de 400 demissões de juízes de tribunais inferiores. "Nesse momento, 80% dos juízes venezuelanos ocupavam cargos provisórios ou temporários, e, portanto, conforme o direito venezuelano, podiam ser destituídos sumariamente. Além disso, a Comissão Judiciária presidida por Velázquez Alvaray designou centenas de juízes permanentes para os tribunais inferiores." As moções contra Alvaray foram anuladas pelo Supremo.

A HRW admite que em ocasiões o Supremo ditou sentenças em defesa dos direitos humanos, como a que em 2005 protegeu o jornal "El Universal", que a promotoria pretendia castigar penalmente por causa de um editorial que criticava a promotoria e o Poder Judiciário.

Mas de modo geral, segundo a ONG, desde a reforma de 2004 o Supremo se transformou em um tribunal "complacente" com o governo. Desde então o órgão rejeitou os recursos de constitucionalidade que vários juristas venezuelanos interpuseram em 2004 contra a própria reforma do tribunal. Também rejeitou o recurso que o canal opositor RCTV interpôs quando Chávez anunciou que não renovaria sua licença de transmissão. E "não defendeu a liberdade sindical dos trabalhadores" ao recusar uma petição que na prática permitiu que "o governo continue violando o direito básico dos trabalhadores de reeleger livremente seus representantes".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Texto do El País, no UOL.

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quarta-feira, agosto 27, 2008

Venezuela: A revolução improvisada

Revolução improvisada

A VENEZUELA foi adotada pelos órfãos do anticomunismo como a grande ameaça à estabilidade do continente. Os arroubos de Hugo Chávez, despachando tropas contra a Colômbia ou ameaçando intervir na Bolívia, alimentam a histeria. Mas, quando se deixa sua retórica de lado para examinar a gestão, surge um país mais próximo de um Estado falido do que de uma potência regional.
Em nove anos de Chávez, sobram exemplos de improvisação, aparelhamento e corrupção. Correios, emissão de documentos, hospitais, geração de estatísticas, controle das fronteiras -quase todo serviço público básico peca pela ineficiência extrema, às vezes maquiada pelos petrodólares. O descontrole mais visível talvez seja no campo econômico, onde o hiperestatismo não pára de crescer. Há tempos a Venezuela vem registrando a inflação mais alta das Américas, com um acumulado de 33,7% nos últimos 12 meses.
Como em outros países, o índice é puxado pelos alimentos. Mas, ao importar 80% do que come, a Venezuela é especialmente vulnerável aos preços internacionais e ao desabastecimento.
Um dos produtos que mais têm faltado é o açúcar. Como solução, Chávez ordenou a construção de uma usina e incentivou a cana. O resultado: mergulhada num escândalo de corrupção, a fábrica nunca ficou pronta, e dezenas de milhares de hectares de cultivo foram jogados fora desde o ano passado.
Nem o petróleo vai bem. A PDVSA aumentou sua dívida de US$ 3 bilhões para quase US$ 20 bilhões em dois anos, mas a produção vem caindo, segundo a Opep. E isso em meio a recordes do preço do barril. A administração é tão ruim que o ministro Rodolfo Sanz (Indústrias Básicas) aconselhou há pouco os trabalhadores da siderúrgica recém-nacionalizada Sidor a não imitar a PDVSA.
Outra área crítica é o sistema carcerário. Se, como diz Nelson Mandela, a melhor forma de avaliar um governo é ver como trata os presos, Chávez está reprovado. Somente no ano passado, 498 dos mais de 21 mil presos perderam a vida no país -quase todos com arma de fogo-, uma média de 23,4 mortos por cada mil detidos.
(No Brasil, a média foi de cerca de 0,7 por mil no mesmo período.) É o sistema carcerário mais violento da América Latina, segundo o Observatório Venezuelano de Prisões. O descontrole beira o surrealismo. Recentemente, descobriu-se que um estuprador condenado da Penitenciária Geral da Venezuela abusou sexualmente de cinco mulheres, entre as quais uma psiquiatra, ajudado por funcionários. As recentes nacionalizações só farão inchar um Estado já altamente incapaz. E este é o grande paradoxo venezuelano: quanto mais Chávez concentra poder, mais o país escorrega de suas mãos.

Texto de Fabiano Maisonnave, na Folha de São Paulo, de 24 de agosto de 2008.

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segunda-feira, junho 16, 2008

"Alô! Presidente"

Conheça o "Alô! Presidente", o programa de televisão de Chávez

Jean-Pierre Langellier

Primeiro, há o cenário. Uma austera escrivaninha de madeira, instalada, ao ar livre, na frente da câmera. Sobre o móvel, foram colocados um potinho repleto de lápis e de canetas esferográficas, um copo de água e uma xícara para café; além de fichas cobertas de anotações, mapas, dossiês, livros e de um volume da Constituição. Atrás, como pano de fundo, uma usina.

Em segundo lugar, há o público. Todas as pessoas presentes estão vestidas de vermelho. Elas foram escolhidas a dedo e estão devidamente identificadas com um crachá. Há algumas centenas de militantes; sentados, eles parecem ser disciplinados, e sempre prontos para aplaudir, em meio a um ambiente descontraído. Alguns operários exibem sobre a cabeça o seu capacete de trabalho. Várias mães de família merecedoras estão aparentemente encantadas por estarem ali. Todas as autoridades locais compareceram em peso; no caso, são aquelas do Estado de Falcon, no nordeste da Venezuela, além de um destacamento de militares de uniforme. Na primeira fileira estão um ou dois ministros, além de visitantes notáveis: o embaixador da China, aquele do "valente povo antiimperialista" do Irã, e ainda a embaixadora da Argentina, que traja uma japona militar.

Por fim, e, sobretudo, há o personagem central do espetáculo, sentado atrás da escrivaninha, ao mesmo tempo o ator e o encenador do seu próprio ego: Hugo Chávez, o presidente da República Bolivariana da Venezuela. Ele traja uma camisa por cima de uma camiseta, ambas vermelhas. Assim como Fidel Castro, o seu modelo, Chávez é um comunicador brilhante, um orador incansável. Ele mostra-se claro, pedagógico, caloroso, e não raro engraçado. Ele se expressa na linguagem simples e direta do povo.

São 11 horas, neste domingo, 8 de junho. O 312º episódio da novela política dominical, "Alô! Presidente" pode começar. Ele será transmitido ao vivo pela VTV, o canal público de televisão, totalmente devotado ao poder, e também nas ondas da Rádio Nacional.

Chávez aquece a platéia por meio de alguns comentários mordazes. Dirigindo-se aos Estados Unidos, ele dispara o bordão: "Yankees, go home! Gringos, nós somos livres!" Ou, numa reflexão endereçada a Fidel Castro, a quem ele envia "un abrazo profundo": "Fidel, how are you?" (Como vai você?). Então, ele faz referência a Che Guevara, "o gigante argentino". Em seguida, Chávez apresenta para a platéia as pessoas que contam. Este ritual revela ser bastante demorado. O microfone circula. Todas elas fazem questão de agradecer ao anfitrião.

Passamos agora à lição de história, ilustrada por um pequeno filme. O tema do dia: a vida e a obra do marechal Antonio José de Sucre (1795-1830), um tenente do "libertador" Simon Bolívar. O glorioso morto é gratificado por Chávez com a honra suprema: Sucre era um "socialista".

Retornamos agora à atualidade recente. Uma conexão por satélite com a cidade de Puerto Cabello permite que um oficial se dedique a explicar, com um mapa nas mãos, as manobras aeronavais que possibilitaram o lançamento, dois dias antes, dos primeiros mísseis a partir de um navio patrulheiro e de cinco aviões Sukhoi 30. Os pilotos haviam recebido ordens para "abrirem fogo à vontade, em nome da dignidade da Venezuela". Uma seqüência mostra a organização da defesa civil, posicionada nas praias em caso de ataque marítimo. Chega então o prato de resistência político, aquele que irá proporcionar as manchetes dos jornais no dia seguinte. Chávez pede à guerrilha colombiana para libertar todos os reféns e entregar as armas.

O programa passa a abordar as realizações concretas da "pátria socialista". O quadro se inicia com aquela usina de "pedra moída", de onde Chávez está falando, onde rochas são trituradas para serem transformadas em areia. O "batalhão" dos operários se levanta. Chávez se permite uma brincadeira irônica sobre George W. Bush, que ele gostaria muito de ver "passar no triturador". Ele pega então os seus marcadores, e, com a sua mão esquerda, tira traços, em primeiro plano nas imagens, reproduzindo os esquemas da produção, a qual, segundo ele, traz a promessa de um futuro grandioso. Este é o seu lado meio professor de curso primário, meio estrategista em campanha. Em seguida, ele passa para os exercícios práticos, montando durante alguns minutos numa bicicleta "Atômica", fruto recém nascido da cooperação com o Irã.

O programa "Alô! Presidente" não é apenas um exercício de comunicação, ou um instrumento do desejo reivindicado de "hegemonia" frente ao "terrorismo" dos veículos de comunicação de oposição. É um ato de governo por meio do qual Chávez anuncia importantes decisões: a mobilização das suas tropas na fronteira colombiana, no início de abril; a nacionalização de uma empresa; a expropriação de uma fazenda; a demissão de um ministro. É a partir deste palanque que ele interpela um determinado comentarista, ou tal outro caricaturista: "Então, quanto foi que você recebeu do império?", ou ainda certo ministro: "Até que eu gosto de você, mas se você não tiver um desempenho à altura, serei obrigado a substituí-lo".

Passando por cima das administrações, cuja ineficiência é proverbial, o que ele deplora, Chávez dirige diretamente ao povo a sua boa palavra, ilustrada com slogans, longe do palácio presidencial. A grande maioria desses programas é realizada em localidades da província, seja numa escola, num centro de produção agrícola, num parque nacional, num complexo petroquímico, numa academia militar, e até mesmo num sítio arqueológico pré-colombiano. E ainda, em certos casos, no exterior, como foi o caso quando a filmagem aconteceu na frente do mausoléu do Che, em Santa Clara, um local histórico da revolução cubana.

A segunda parte do programa é constituída por um diálogo entre o presidente e alguns ouvintes que o entrevistam a respeito de diversos problemas da vida cotidiana. A esta altura, Chávez já está tomando seu décimo cafezinho. A cada meia-hora, um membro da produção lhe traz uma xícara de guayoyo, um café leve e muito açucarado. Quando o show se encerra, Chávez declama uma última vez o slogan em voga: "A pátria, o socialismo ou a morte!", e convida a platéia para cantar alegremente, enquanto uma orquestra entra em cena.

Neste domingo, a maratona presidencial durou cerca de 6 horas. O recorde, que foi alcançado em 23 de setembro de 2007 - 8 horas e 8 minutos -, ainda está por ser batido.

Tradução: Jean-Yves de Neufville
Texto do Le Monde, publicado no UOL.

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quarta-feira, dezembro 05, 2007

A Venezuela de hoje pode ser o Brasil de amanhã, quando apertar a sede do mundo por petróleo e água

CARACAS - Na madrugada de segunda-feira, numa praça de Altamira, um bairro de classe média da capital venezuelana, um estudante queima uma cópia da proposta de reforma constitucional que os venezuelanos rejeitaram. Foi uma festa modesta, com cerca de mil pessoas, multiplicadas por milhares pela presença maciça da mídia. Foi um evento midiático, como toda a política, enfim, vem se tornando um movimento midiático, apesar do esforço dos movimentos sociais de politização, sejam eles de direita ou de esquerda. Hoje é muito mais fácil conseguir alguns "atores sociais", legitimados pela própria mídia, do que se atirar à trabalhosa tarefa de conquistar eleitores pela conscientização. E quando você faz alguém pensar há um grande potencial de que essa pessoa discorde, uma lição que serve para o próprio presidente Hugo Chávez.

Chávez foi derrotado por chavistas. Conforme informei neste espaço, inclusive entrevistando um chavista que votou pelo NÃO na porta de uma zona eleitoral, houve uma debandada, que o próprio líder venezuelano constatou ao aceitar o resultado do referendo: o SIM teve quase três milhões de votos a menos que Chávez obteve nas eleições presidenciais de 2006. O bloco da oposição ganhou menos de 500 mil. A abstenção subiu de 25% para 44%. Dentre muitos outros fatores que causaram a derrota de Chávez, o mais importante foi esse: milhões de simpatizantes do presidente simplesmente não foram votar.

Os motivos são diversos: discordância em relação a pontos da reforma, como a reeleição indefinida; discordância das próprias declarações de Chávez, de que ficaria no poder até 2050 se os eleitores quisessem; dúvidas em relação ao conteúdo da reforma, especialmente nos pontos relativos ao direito à propriedade e rejeição a medidas tomadas pelo presidente desde que foi reeleito - do fechamento da emissora RCTV às polêmicas internacionais.

Depois de três dias em Caracas, estou esperando para ver a tal ditadura chavista se materializar em falta de liberdade de imprensa, de manifestação, de expressão, de trânsito... Não fui parado uma vez sequer filmando nas ruas da cidade, nem mesmo em zonas eleitorais. Tente filmar por quinze minutos, com uma câmera amadora, o prédio do Citibank em Nova York e você vai ver o que acontece...

De volta a Chávez, o cálculo dele era de que, reeleito com ampla maioria, tinha uma janela de oportunidade para fazer passar a reforma constitucional, aproveitando a "fraqueza" relativa do governo Bush. Porém, enfrentou uma barragem sem precedentes da artilharia midiática, no que talvez tenha sido a primeira grande campanha internacional, com métodos de guerrilha informativa, na História contemporânea da América Latina. Através da omissão, da manipulação, da seleção e da deturpação de imagens e informações.

O que sabem os leitores brasileiros sobre as propostas de Chávez? Que ele buscava a reeleição indefinida, com certeza. Mas, como sempre acontece, foram "escondidos" alguns pontos importantes que poderiam servir de "mau" exemplo para a população de outros países, como a redução da jornada de trabalho para 6 horas, a proibição da privatização da empresa petrolífera PDVSA e o completo monopólio estatal sobre os recursos naturais do país - petróleo e gás, essencialmente.

Os atores sociais que foram às ruas não podem ser desprezados. Embora sejam mesmo filhos da classe média, em sua maioria, os estudantes antichavistas estavam convictos ao defender o que consideravam uma ameaça à sua liberdade, embora seja irônico que gente que sempre mandou e teve completa liberdade, inclusive sob Chávez, tenha adotado essa palavra-de-ordem repentinamente. Chávez perdeu para os seus próprios erros mas também perdeu para a Igreja Católica, que silenciosamente, nas missas, pregou aberta ou indiretamente contra o SIM.

Quem acha que o Chávez é chucro pela sua aparência, se engana. É um leitor voraz, de formação militar, que acredita em fazer uma reforma que toca no que é realmente essencial na Venezuela: este é um país rico cheio de gente pobre. Como é possível que algumas centenas de milhares de pessoas concentrem o poder econômico e a renda em alguns bairros privilegiados de algumas cidades, enquanto convivem com milhões de deserdados nos morros e na zona rural? É o dilema de toda a América Latina.

Existem alguns outros assuntos sobre os quais eu gostaria de escrever, mas a hora do vôo se aproxima. Terei tempo para fazer isso nos próximos dias, inclusive com alguns vídeos bizarros da festa de comemoração pela vitória do SIM, a demonstração mais clara, em toda a minha carreira, de que alguns poucos podem ter um impacto gigantesco em uma sociedade, desde que tenham espaço garantido na mídia.

A mídia venezuelana é uma questão à parte, que merece muitos estudos. As formas de manipulação midiática se sofisticaram em relação ao golpe de 2002. Afinal, as empresas precisam garantir alguma credibilidade para manobras futuras. É por isso que critiquei, no site, deputadas que rasgaram elogios à RBS recentemente, sem fazer qualquer reparo à atuação do grupo na política brasileira. A mídia, em seu novo papel de protagonista da política, tão ou mais forte que os partidos políticos, com a capacidade de determinar a agenda política, criar e alimentar factóides e decidir eleições, "armazena" credibilidade como se fosse munição para ser usada no futuro.

Essa credibilidade é dada por todos os outros atores sociais, inclusive mas não somente leitores, telespectadores e ouvintes. Políticos de todos os partidos aceitam a barganha de ajustar o seu discurso para garantir espaço na mídia. Porém, é uma barganha que pode custar caro lá na frente. Digo isso a políticos do PT, do PDSB, do DEM e do PCdoB e a todos aqueles que são eleitos ou exercem cargos públicos. Amanhã pode chegar a SUA VEZ de ser demolido pela artilharia midiática.

Na Venezuela, Hugo Chávez tentou criar alternativas e foi razoavelmente bem sucedido para seus objetivos políticos, não para o meu gosto. A polarização no país é tamanha que os venezuelanos ficaram entre dois extremos. Insultos, insinuações e notícias plantadas foram usados tanto nos partidos midiáticos da oposição quanto nos oficialistas. Mas, pelo menos, para quem é curioso agora há mais de uma opção. Minha sugestão aos políticos brasileiros é que façam como a deputada Manuela D'Avila, do PCdoB, que interage com seus eleitores diretamente, principalmente através da internet, e não faz política PARA a mídia, como foi o caso do deputado Fernando Gabeira, em alguns episódios.

Uso aqui esta foto, feita hoje de manhã, no bairro de classe média de Altamira, reduto da oposição. É uma demonstração do nível de polarização e baixaria política vivida na Venezuela, em que o debate passou a ser travado por extremos e abafou a voz da maioria.

A camiseta é do Partido Socialista Unificado da Venezuela, formado por Hugo Chávez na cola do PC cubano, o que também acarretou a ele a perda de importantes aliados. O colante do NO foi acrescentado à peça e exibido como se fosse um "cadáver", bem diante de um pequeno "barrio", uma favelinha de algumas centenas de habitantes incrustrada entre prédios de "cidadãos do bem". Alguns chavistas vivem nela. O processo político, aqui, foi seqüestrado por extremistas. O discurso racional perdeu espaço para os apelos à emoção, típicos das campanhas publicitárias do medo, que se tornaram padrão na política internacional.

Hoje Caracas acordou respirando aliviada. Foi tamanha a tensão das últimas semanas, causada por fatos reais e notícias imaginárias, que mesmo o eleitor chavista deve ter pensado com seus botões: ainda bem que acabou. É assim que funcionam as campanhas de terror. Lembram-se daquele empresário que prometeu, em 1998, que se Lula fosse eleito 800 mil brasileiros fugiriam para Miami? A Venezuela é o Brasil de 1998, ainda. Os grandes interesses econômicos, representados pela mídia corporativa e os jornalistas-vereadores, jornalistas-deputados e jornalistas-senadores, colocam um bode em sua casa através dos jornais, das emissoras de rádio e de TV.

Para depois "tirar" esse bode imaginário, simplificado, diabolizado ou exagerado. Lula matou 200 brasileiros naquele acidente aéreo da TAM, escreveu um "especialista" em aviação (ou era um psicanalista?) na capa do maior jornal do Brasil, a "Folha de S. Paulo", que costumava ser também o mais responsável. Assim que Lula adotou um tucano no ministério o caos aéreo assumiu a sua devida importância. O bode foi tirado de sua sala. A oposição, embora derrotada nas eleições, governa junto sem ter de apresentar propostas aos eleitores, sem politizar a sociedade, sem correr o risco de desatar processos políticos que mais tarde fujam ao seu controle. É a extração política de concessões através do partido da mídia. Cadê o partido de direita puro-sangue do Brasil? Na TV Globo.

Finalmente, algumas considerações sobre aqueles que não estavam na praça de Altamira, na madrugada desta segunda-feira, que afinal são os mais importantes: os empresários de carne-e-osso e os executivos de carne-e-osso que representam os interesses que se opõem aos de Hugo Chávez. Também não estavam lá o embaixador-ativista dos Estados Unidos, nem os representantes das agências de fomento da "democracia" bancadas com dinheiro público americano, que só atuam onde interessa. Estava um rapaz, com uma bandeira americana, que não sabia que eu era jornalista. Quando perguntei a ele sobre o motivo da presença daquele símbolo, ele disse que era essencial reaproximar os dois países. Justo. Justíssimo. A câmera ainda estava ligada quando ele disse: "Sabe o que é? Trabalho para o banco Santander."

Voltando à indevida intervenção americana na política de outros países, não foi por acaso que Vladimir Putin, outro vilão da mídia internacional, restringiu a atuação política de ONGs financiadas pelos Estados Unidos na Rússia. Um artigo específico da reforma constitucional proposta por Hugo Chávez proibia o financiamento externo de atividades políticas na Venezuela. Não é teoria conspiratória. É verdade factual e a informação está à disposição de quem quiser, no site do National Endownment for Democracy, o NED - criado durante o governo de Ronald Reagan para "promover" a democracia. Está lá a lista de projetos financiados mundo afora, com valor e tudo.

Eu sou a favor da democracia, mas também no Egito, na Arábia Saudita, no Paquistão, respeitada a cultura e a soberania destes países. Ou seja, feito a repercussão seletiva de capas na TV brasileira - que no processo eleitoral do ano passado só repercutia capas de revista com manchetes contrárias a um candidato -, o NED promove a democracia seletivamente.

Existe uma rede de prestadores de serviço a essa causa, que acho justa, DO PONTO-DE VISTA DOS INTERESSES DOS ESTADOS UNIDOS. Eu, se fosse eles e quisesse exercer a hegemonia mundial, faria exatamente a mesma coisa. Essa rede de "denuncismo" ou "patrulhamento" de outros países - que raramente faz denúncias que envolvam os próprios Estados Unidos - é formada por entidades que se apresentam como defensoras da liberdade de imprensa, quando na verdade defendem mais o direito das empresas que o dos jornalistas. Procurem saber quem financia quem e vocês vão entender melhor a lógica desse novo "negócio".

O NED, com apoio desses monitores de mídia, dos institutos internacionais do Partido Republicano e Democrata e entidades afins, financia - com dinheiro público americano, apropriado pelo Congresso - , além do dinheiro de empresários-ativistas, um novo modelo de "golpe branco", que não envolve a ocupação física de território, mas estratégias sofisticadas de organização política, estratégia eleitoral, marketing e propaganda.

Uma bala para quem advinhar onde é que essa estratégia foi aplicada: em países pobres, sem recursos naturais ou importância geopolítica? Ou em países ricos de recursos naturais e estrategicamente importantes? Deu certo na Ucrânia e na Geórgia, que passaram do guarda-chuva russo para o pró-ocidental. Deu certo por 47 horas, em 2002, quando Hugo Chávez foi apeado do poder na Venezuela. Deu certo de novo neste domingo, embora tenha sido apenas um ingrediente da receita.

Dos escombros da oposição venezuelana emergiram partidos como o Primero Justicia, que começou uma ong da sociedade civil com ajuda do NED. Os mecanismos de atuação dos grupos financiados pelos Estados Unidos incluem monitoramento de eleições, formação de lideranças, consultoria eleitoral e pesquisas de opinião. O que prega o Primero Justicia? Uma plataforma pró-americana, com uma concessão aqui ou ali aos interesses locais, que ninguém é de ferro.

Tenham em mente que a proposta de reforma constitucional de Hugo Chávez, rejeitada pela maioria dos venezuelanos por diversos motivos que não este, tinha um capítulo que proibía a privatização da petroleira PDVSA, a segunda maior empresa da América Latina e controladora das maiores reservas de gás e petróleo do continente. O texto também reafirmava o completo monopólio estatal sobre as reservas. É a verdade factual. O controle dessas reservas é essencial para o que os Estados Unidos definem como sua "segurança energética", além de representarem um gigantesco lucro em potencial para as petroleiras internacionais.

Digam o que disserem de Hugo Chávez, ele é um estrategista que tinha isso em mente. Sabia que ia peitar grandes interesses econômicos e políticos. Em seu estilo tudo ou nada, calculou o risco e jogou o jogo. Perdeu. O essencial é que os brasileiros - sejam do DEM, do PT, do PSDB ou do PP - tenham em conta que esse é o jogo da política internacional. E que a Venezuela de hoje pode ser o Brasil de amanhã, quando alguém decidir que precisa de água ou de um naco da floresta amazônica. Não se preocupem, que desculpa eles arranjam e há os jornalistas-vereadores, jornalistas-deputados e jornalistas-senadores dispostos a representá-los na linha de frente da artilharia midiática.

O senador José Sarney, nosso grande democrata maranhense, literato e estrategista de visão mundial, num artigo que escreveu para a "Folha de S. Paulo", recentemente, perguntou: "Para que a Venezuela precisa de armas?" Eu gostaria de perguntar ao senador: "Para que os Estados Unidos estacionam a Sexta Frota no Mediterrâneo?"

É viagem de turismo?

Para que os Estados Unidos orçaram U$ 127 bilhões para a Marinha só no ano fiscal de 2007?

Chávez tem um milhão de defeitos, além de ser brega e feio, como diz a oposição venezuelana. Mas em oito anos transformou a política local de tal forma que hoje a oposição defende com unhas-e-dentes a Constituição de 1999, que na época boicotou e não subscreveu. Chávez rompeu com o bipartidarismo que sufocou o país política e economicamente e esse fato fez emergir novas forças políticas, algumas das quais vão competir com ele para modernizar a Venezuela e desfazer o extremo fosso social que divide o país. Chávez fez mil vezes mais pela Venezuela, em nove anos, do que Sarney fez pelo Maranhão em quarenta.



Texto copiado do Vi o Mundo, o saite do Luiz Carlos Azenha. Quem quiser ver o original, pode ir lá. Tem figurinhas, e mais algumas notas interessantes.

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sexta-feira, agosto 17, 2007

Chávez e as Infinitas Chances de Reeleição

O editorial do Correio do Povo desta quinta-feira, 16 de agosto, condena a proposição do presidente Hugo Chávez, da Venezuela, de enviar proposição à Assembléia Nacional daquele país de reforma constitucional que lhe permitirá candidatar-se infinitas vezes à presidência.
Este blog discordou da proposição do presidente Chávez antes.
Há que se discordar do editorial do jornal gaúcho em duas coisas. Uma comentando que todos os membros da Assembléia Nacional venezuelana são partidários de Chávez. De fato são, mas porque a oposição partidária resolveu boicotar as eleições parlamentares, para melar novamente o jogo político na Venezuela, e, talvez, tentar outro golpe de Estado. O tiro saiu pela culatra. Partidários de Chávez se elegeram, e até o fim da atual legislatura venezuelana a oposição de Chávez no parlamento venezuelano será apenas de uma ou outra dissidência.
A outra coisa é que o Correio do Povo diz que a Suprema Corte venezuelana está na mão de Chávez. Até pode ser que os atuais membros da Corte tenham sido todos (na verdade este blogueiro não sabe quantos são os juízes, nem quando foram nomeados) nomeados por Chávez. Mas a Suprema Corte venezuela recentemente rejeitou moções do governo no sentido de ter proibir a transmissão do sinal da RCTV por cabo e satélite.

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terça-feira, agosto 14, 2007

Infinitas Reeleições?

A BBC Brasil informa que o presidente Hugo Chávez, da Venezuela, deve encaminhar à Assembléia Nacional de lá um projeto de reforma da constituição que deverá permitir a ele candidatar-se quantas vezes quiser à reeleição presidencial, sem se desincompatibilizar do exercício do cargo.
Desde já este blog informa que é contra, e isso não é de hoje.
Não que isso importe muito, afinal este blogueiro não é cidadão venezuelano.
Mas sempre volta à mente aquela famosa citação dos chamados pais fundadores dos Estados Unidos da América: "o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente". Embora este este blogueiro reconheça a legitimidade do presidente Hugo Chávez, que já venceu duas eleições presidenciais, mais um "recall", é preciso reconhecer que quanto mais ele permanecer no poder, mais estará tentado a exercer o poder absoluto. Se o projeto de nação que ele oferece aos venezuelanos for realmente bom, este projeto poderá progredir pela liderança de outro político bolivariano.

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