quarta-feira, dezembro 16, 2009

Números desimportantes sobre automóveis no Brasil

O jornal Folha de São Paulo informa em sua edição de hoje que a venda de automóveis no Brasil deve ultrapassar o número de três milhões de unidades neste ano de 2009. Se não estou enganado, em 1990 eram quatrocentos mil por ano. E a população do Brasil não aumentou sete vezes nesses quase 20 anos.

Todos estes carros significam conforto para mais algumas pessoas. Significam também uma melhora geral nas condições da economia brasileira, que permitiu um aumento massivo do consumo.

E isso sem falar no também expressivo aumento no número de vendas de motocicletas, provavelmente maior que as vendas de automóveis.

Claro que isso tudo significa também aumento de consumo de recursos do planeta, mais poluição, e mais congestionamentos.

Mas, e daí? Quem se importa?


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quarta-feira, setembro 23, 2009

Ainda sobre o Dia Mundial sem Carro - 22/09/2009

Sobre o Dia Mundial sem Carro, que foi ontem, resolvi perguntar a respeito a quatro colegas meus que normalmente vão trabalhar de automóvel.

Dos quatro, um não sabia que ontem era o Dia Mundial sem Carro. Em todo caso, informou que, mesmo que soubesse, iria trabalhar de carro.

Os outros três estavam cientes que ontem era o Dia Mundial sem Carro, mas utilizaram o carro para ir trabalhar igualmente.

Como é possível constatar, esta pesquisa informal não tem absolutamente nenhum caráter científico.

As minhas conclusões, totalmente subjetivas:

1) O trânsito de Porto Alegre não está saturado a ponto de fazer as pessoas pensarem que poderia ser melhor para elas irem trabalhar com o transporte coletivo, ou de bicicleta;

2) O ar de Porto Alegre não está suficientemente poluído para as pessoas pensarem que deixar o carro em casa melhoraria a qualidade do ar que elas respiram;

3) O transporte coletivo não aparece como uma alternativa rápida e confortável ao automóvel individual;

4) Algumas pessoas saem de casa com uma gama de tarefas a serem realizadas que para elas seria um desperdício de tempo se não estivessem usando o automóvel.

Assim, o Dia Mundial sem Carro não foi capaz de mobilizar nenhum destes meus colegas, cientes ou não da iniciativa.

Aguardemos os próximos anos.


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terça-feira, setembro 22, 2009

22 de setembro de 2009: Dia Mundial sem Carro

Ou, talvez, simplesmente, 22 de setembro, Dia Mundial sem Carro.

Não pude perceber que o trânsito de Porto Alegre tenha estado mais tranquilo nesta terça-feira, que deveria ser o Dia Mundial sem Carro. Há pelo menos dois dilemas aqui. Um é que nem sempre as pessoas estão alertas quanto a este tipo de iniciativa. O segundo é que a adesão é voluntária.

Eu até diria que o trânsito de Porto Alegre parecia mais tranquilo no Centro. Mas pode ser só impressão...


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terça-feira, agosto 18, 2009

Nós, o Diabo e o automóvel

Nós, o Diabo e o automóvel

JORGE WILHEIM

O DRAMATURGO italiano Luigi Pirandello (1867-1936) disse, na década de 1930, que "o automóvel é uma criação do Diabo". Mas qual seria a estratégia empregada pelo Diabo e qual o seu objetivo?
Por meio do mecanismo da sedução, o Diabo tornou o automóvel um objeto de desejo do ser humano, pois o carro nos dá um onipotente sentimento de liberdade: locomovo-me quando quero, para onde quero e com quem eu quero! Contudo, o automóvel não nos seduz só ao agir sobre a natural aspiração de liberdade, mas também ao nos distinguir de quem não tem um: somos diferentes, melhores, com mais recursos ao revelar aos demais que temos um carro. Finalmente, e o Diabo nos conhece bem, o carro seduz porque é um objeto bonito, sensual e poderoso.
Mas qual seria o real objetivo do Diabo? Utilizando a sedução irresistível, o egoísmo e a ambição por status dos seres humanos, alcança o objetivo diabólico de gerar o caos nas cidades, o congestionamento das vias, a impossibilidade de estacionar, tudo seguido da paralisação da vida urbana.
Perante Deus, o anjo caído sempre se mostrará inocente, pois são os seres humanos que, em sua imprevidência, cupidez e estupidez, provocam o caos.
Segundo as principais religiões monoteístas, o homem foi criado à imagem de Deus, sendo vital sua controvérsia com o Diabo. Porém, segundo outras religiões, os deuses, cuja biografia constitui mito, foram moldados a partir de características (boas e más) do ser humano. Donde sua ambivalência multiuso.
Não nos admiremos, portanto, se, no caso do automóvel, nos entregamos ao mal com prazer, sorriso nos lábios. Será preciso muito esforço para dominá-lo, reduzindo-o a um objeto útil e bonito, mas com menos poder demoníaco sobre nossas mentes, retirando-lhe o poder de obliterar nosso pensamento e ofuscar realidades.
Mas este artigo não pretende ser reflexão metafísica. Os parágrafos anteriores introduzem comentário sobre o comportamento das pessoas, dos formadores de opinião, dos governantes a respeito de alguns fatos atuais da cidade de São Paulo: a) a pressão sobre a prefeitura para que veículos voltem a circular no vale do Anhangabaú; b) o aumento das pistas da marginal do Tietê; e c) o sacrilégio que se comete no Pátio do Colégio.
O atual Anhangabaú é uma reconquista dos direitos do pedestre no coração da cidade e resultou de concurso que, entre 95 propostas, tive a ventura de vencer em 1981, com coautoria da paisagista Rosa Kliass. Sua implantação, dez anos após o concurso, deve-se à iniciativa dos prefeitos Jânio Quadros (a praça da Bandeira) e Luiza Erundina (o restante do vale).
Embora destinado primordialmente a atividades envolvendo pedestres, todos os problemas de circulação de veículos na área foram considerados e resolvidos. Agora, por pressão dos comerciantes locais, que olvidam o fato de que a única atividade comercial a exigir a presença do carro é o posto de combustível, a prefeitura é solicitada a permitir novamente a circulação de veículos em parte do vale.
Segundo exemplo: para o alargamento das faixas carroçáveis das marginais do Tietê, começou o corte das árvores. Anuncia-se que haverá vasto plantio de reposição, mas não se diz que tal compensação se dará na APA do Tietê, entre Itaquaquecetuba e as nascentes do rio em Salesópolis.
E não se menciona na mídia a existência de alternativas para obter o pretendido e necessário descongestionamento diário das marginais: o rodoanel norte e as duas vias de suporte leste-oeste, paralelas às marginais, diretrizes do Plano Diretor propostas desde... 1968.
Por fim, São Paulo tem um espaço sagrado: o Pátio do Colégio, emblemático lugar da fundação da cidade. Em sua reurbanização, que projetei com misto de emoção e honra, na década de 1970, cogitei sobre essa sacralidade, limitando-me ao ensinamento "o menos é mais": espaço e lugar de visitação respeitosa e reflexão silenciosa. Pois os responsáveis por sua manutenção, embora ligados à ordem religiosa que fundou a cidade, transformaram-no em estacionamento dos veículos da Associação Comercial!
Compreende-se que ninguém seja contra o próprio carro. Nem sequer os que não o têm, mas aspiram um dia a tê-lo. Detestamos a existência do carro dos outros na nossa frente. Porém, o triunfo do egoísmo primitivo sobre a reflexão cidadã, do imediato sobre o definitivo, revelar-se-á desastroso em curto prazo (mormente quando da próxima crise: a do estacionamento).
Será que o silêncio em torno dessas "entregas" ao automóvel faz parte do projeto do Diabo? Nem instituições responsáveis pela preservação e órgãos de classe que deveriam defender projetos, nem editores da mídia e governantes manifestam-se a respeito dessas obras. Elas vão avançando envoltas no silêncio cúmplice em busca da conveniência egoísta e urgente, levando a melhor sobre o planejamento, sobre o futuro da cidade e a vida de todos nós.


JORGE WILHEIM , 81, é arquiteto e urbanista. Foi secretário municipal de Planejamento Urbano de São Paulo (governo Marta Suplicy), secretário-geral da Conferência Habitat 2 da ONU, secretário estadual de Economia e Planejamento (governo Paulo Egydio) e secretário estadual do Meio Ambiente de São Paulo (governo Quércia).

Este texto foi publicado na Folha de São Paulo, de 28 de julho de 2009.


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