terça-feira, setembro 15, 2009

Procura-se iniciativa privada

Procura-se iniciativa privada

DAS CEM MAIORES empresas do Brasil, dois terços são de capital nacional ou misto (segundo o ranking por receita líquida, elaborado pela publicação "Valor 1000", edição 2009). Dessas, metade são estatais ou contam com o governo como acionista relevante (via BNDES). Ou, pelo menos, abrem as portas para a intervenção governamental devido à participação acionária de fundos de pensão de empregados de estatais (do Banco do Brasil ou da Caixa, em geral).
Em algumas, a influência do governo é relevante não devido à participação no capital, ou não apenas devido a isso, mas também porque braços do Estado financiam as empresas com altas somas, como em teles. Ou, para falar francamente, as salvam da bancarrota, caso recente dos frigoríficos ou, mais antigo, de empresas de energia elétrica, ou logística, privatizadas nos anos FHC.
Poucas empresas das "top 100" foram "iniciativas privadas", como Gerdau, Pão de Açúcar, Cosan ou Natura, e assim continuaram a tocar a vida, basicamente sem depender de que o Estado entrasse em seu negócio. Muitas nasceram e foram por muito tempo "iniciativas privadas", mas fizeram um casamento arranjado, mas voluntário, com o Estado assim que precisaram crescer ou quando tomaram tombos, caso de quase todos os grandes frigoríficos.
O braço de participações acionárias do BNDES, a BNDESPar, poderia quase se chamar BNDESCarnes.
Notícias do final de semana suscitaram muxoxos e comentários direta ou indiretamente críticos a respeito do peso estatal, não apenas no capital das empresas. Dadas as rápidas pinceladas estatísticas acima, faz sentido a queixa? Por que há tão poucos negócios privados surgidos do chão, do nada? Por que há tão pouco investimento na criação de novos setores (a maioria das grandes empresas nacionais é do setor de recursos naturais e a grande maioria foi criada pelo Estado)? Por que o agronegócio, embora muito bem-sucedido, tenha tanto dependido da pesquisa estatal para florescer?
No final de semana, ouviu-se que a petroquímica Braskem (Odebrecht mais Petrobras e um tanto dos fundos de pensão) pode comprar a Quattor (onde a Petrobras tem 40%) a fim de evitar que a Petrobras volte a engolir o setor. Tudo bem.
Mas por que o capital privado já depende tanto da estatal petroleira? Ouviram-se ainda rangidos de dente por causa do calor que Lula tem dado na Vale, liderada pelo Bradesco, que é, porém, sócio menor da Previ (fundo de pensão do BB).
Por fim, amigos do mercado de capitais comemoram a "pujança" do setor privado devido ao fato de que faz ano e pouco a dívida privada é maior que a dívida pública. Tudo bem, mas "menos". Em parte, tal virada se deve ao fato de que a dívida pública cresceu bem menos.
De fato, começa a haver um mercado de capitais doméstico. O papel da empresa privada jamais foi tão grande no Brasil pós-Vargas. Mas, no país do agronegócio, onde estão as grandes empresas de biotecnologia? No país dos minérios, onde estão as grandes empresas de engenharia de materiais? No país do pré-sal, onde estão as empresas inovadoras na química? Talvez a esperar um subsídio (direto, indireto, "informal" ou "estratégico") do Estado.

Texto de Vinicius Torres Freire na Folha de São Paulo, de 25 de agosto de 2009.


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sábado, agosto 22, 2009

Ainda sobre bancos estatais e privados

A prova do pudim dos bancos

A QUEDA do lucro da Caixa Econômica Federal suscitou ironias da torcida mercadista, assim como o anúncio dos resultados do Banco do Brasil levantara poeira na facção estatista do debate futebolístico sobre o crédito. A rentabilidade da CEF caiu?
Caiu. Mas está na faixa média, maior ainda que a da maioria dos bancos médios e maiores. A inadimplência é, como a do Banco do Brasil, menor que a de bancos privados. Mas, como as carteiras de empréstimos são diferentes, fica difícil comparar médias. Coisa não muito diferente pode se dizer a respeito das médias de "spreads" divulgadas pelos bancos.
Os índices de eficiência estão sujeitos também à mesma crítica etc. etc. Isto não quer dizer que não seja possível comparar resultados. Mas um trimestre ou semestre apenas é pouco para se chegar a uma conclusão, ainda mais quando se trata de meses de crise. A prova do pudim será, como sempre, comê-lo. De quanto será o lucro no final do ano? Qual a relação entre expansão da carteira de crédito e o resultado? Quanto das provisões (reservas para cobrir perdas) irá de fato para o buraco, quanto será revertido? Quanto da fatia de mercado "comprada" pelos bancos públicos voltará à banca privada?
Mesmo que a divisão do bolo do crédito bancário volte ao que era antes do estouro da crise, alguma coisa pode ter mudado, para inverter a enfadonhamente repetida frase do superestimado Lampedusa. O que mudou? 1) Talvez se comprove que a banca estatal pode oferecer "uma rede de proteção financeira" à banca privada durante crises; 2) Executivos da banca privada atribuem boa parte da queda de lucro e de rentabilidade ao aumento da competição e à queda dos juros básicos.
Desde outubro, os bancos estatais foram responsáveis por 83% do aumento do estoque de crédito. Caso a política dos estatais fosse a mesma dos bancos privados, teria havido mais recessão, mais falências, mais desemprego. Mais calotes. O balanço dos bancos privados teria sido pior. Ou seja, não é possível avaliar o resultado privado sem levar em conta a "rede de proteção financeira" da banca estatal, que ajudou a evitar queda maior no PIB e mais calotes.
É possível argumentar que os estatais ofereceram crédito de modo "insustentável". Isto é, o ganho de parte do mercado teria sido artificial no pior sentido: a agressividade estatal em breve redundaria em perdas que anulariam o efeito provisória e ilusoriamente positivo da manutenção do crescimento do crédito no semestre recessivo. É preciso ser um fundamentalista fanático para acreditar nisso.
De qualquer modo, os dados ainda não estão disponíveis. A prova do pudim virá em novembro, no mais tardar fevereiro. Então será possível saber também se os bancos estatais podem ser um fator permanente de aumento da competição (mesmo que menos intensa que nos meses de crise). Vai se saber ainda se era possível baixar juros e taxas sem prejudicar a saúde financeira de um banco. Como o teriam feito os estatais.
Alguma coisa terá acontecido no coração do mercado bancário brasileiro se, no fim do ano, a "rede de proteção financeira" estatal não mostrar rasgos. Ou caso o esforço competitivo dos bancos estatais não lhes cause um infarto financeiro.

Texto de Vinicius Torres Freire, na Folha de São Paulo, de 18 de agosto de 2009.


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terça-feira, agosto 18, 2009

O vexame dos bancões privados (II)

BB expande crédito, tem menos calote e lucra R$ 4 bi

Direção do Banco do Brasil festeja volta à liderança do setor financeiro em ativos

Instituição supera Itaú Unibanco em R$ 2,4 bi em ativos, mas seu lucro no 1º semestre aumenta apenas 0,55% em relação a 2008

FABRICIO VIEIRA
DA REPORTAGEM LOCAL

O Banco do Brasil comemorou o retorno ao topo do ranking de maior banco do país. Mas, no que se refere a lucro conquistado, ficou atrás de seus concorrentes privados. No primeiro semestre do ano, o BB reportou lucro de R$ 4,014 bilhões, um aumento de apenas 0,55% em relação ao mesmo período de 2008. O Bradesco registrou R$ 4,020 bilhões. E o Itaú Unibanco apresentou lucro de R$ 4,586 bilhões.
"Para nós, é motivo de extrema satisfação, de alegria, voltar à liderança", afirmou o presidente do BB, Aldemir Bendine.
Encerrado o primeiro semestre, o BB computava ativos totais de R$ 598,8 bilhões, superando os R$ 596,4 bilhões registrados pelo Itaú Unibanco.
O balanço do BB mostrou claramente os reflexos da decisão do governo de utilizar os bancos públicos como instrumento de fomento do crédito.
Enquanto as carteiras dos gigantes privados encolheram entre março e junho, com as instituições temerosas em relação ao crescente risco de calote, o BB registrou expansão relevante, de 4,4%, alcançando R$ 252,5 bilhões. Em 12 meses, o aumento da carteira de crédito chegou a 32,8%.
A expansão da carteira destinada à pessoa física é ainda mais impressionante: 69% desde junho de 2008.
"O BB adotou a estratégia correta ao dar um voto de confiança ao país e trabalhar para o destravamento do crédito", disse o presidente do BB.
Mais do que a simples continuidade no crescimento do crédito, o BB mostrou recuo na inadimplência, em sentido contrário ao experimentado pelos seus concorrentes.
Os atrasos acima de 90 dias no segmento de pessoa física recuaram de 5,9% em março para 5,7% no fim do segundo trimestre. A média da inadimplência do sistema financeiro nessa categoria ficou em 8,6% no segundo trimestre.

Aproveitar o espaço
"O resultado do BB ilustra a atitude do governo de usar os bancos públicos para ocupar os espaços deixados pelos privados após a crise. O crescimento da carteira do BB foge do ritmo que observamos nos grandes privados. Agora que o BB exerceu essa atividade anticíclica, vamos ver como os privados vão se comportar", disse Luis Miguel Santacreu, analista da consultoria Austin Rating.
Além de buscar manter a oferta de crédito, o governo federal tem mostrado preocupação com a manutenção do "spread" em níveis elevados. O "spread" se refere à diferença entre os juros que os bancos pagam para captar dinheiro no mercado e a taxa cobrada nos empréstimos que concedem.
No caso do Banco do Brasil, houve pequeno aumento do "spread" à pessoa física entre março e junho, de 20,5% para 21,2%. Na comparação com junho de 2008, quando estava em 23,4%, houve queda expressiva.
Com a continuidade na expansão do crédito e a conjuntura econômica pouco favorável, o BB não teve como escapar de elevar suas provisões para liquidação duvidosa -recursos separados para compensar possíveis calotes futuros. A provisão total subiu 29,9% no ano e alcançou R$ 17,7 bilhões.
No segundo trimestre, o lucro líquido do banco alcançou R$ 2,348 bilhões. Nesse período, eventos extraordinários turbinaram o resultado -como a venda da participação na VisaNet, que gerou R$ 1,4 bilhão.
Segundo estudo da Economática, o BB apareceu como o mais rentável banco da América no primeiro semestre, com rentabilidade média sobre o patrimônio de 12,9%. Na segunda posição, o Bradesco apareceu com 11,2%.
A ação ON do BB subiu 2,37% no pregão da Bolsa de ontem.

Notícia da Folha de São Paulo, de 14 de agosto de 2009.


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Os vexames dos bancões privados

Os vexames dos bancões privados

FAZ PARTE do show petista espinafrar bancos. Mas a banca privada poderia ter dormido sem levar essa carraspana desmoralizante do ministro da Fazenda. Brandindo os números superiores do balanço do Banco do Brasil, Guido Mantega pôde sapatear alegremente sobre as críticas de banqueiros à concorrência estatal. Outro vexame dos bancos privados.
A vexação mais recente não tinha nem uma semana. Os bancos privados haviam feito enorme lobby para gorar o leilão das contas do INSS. Até 2008, o governo pagava mais de R$ 250 milhões aos bancos que faziam os pagamentos do INSS. Em vez de pagar, decidiu vender aos bancos o direito de prestar tal serviço, em leilão. A banca dizia que não iria ao "absurdo" leilão, que o governo pressionava os estatais para que a disputa não fosse um fracasso etc. Bem, houve o tal leilão. E o Bradesco levou um monte de contas do INSS.
Mais vexame da banca privada. Desde o estouro da crise, em outubro de 2008, os bancos estatais foram responsáveis por 83% do aumento do estoque de crédito para o setor privado no Brasil. Os bancos privados estrangeiros, aliás, chegaram a reduzir o total de empréstimos. De janeiro a setembro de 2008, os estatais respondiam por só 38% da variação do crédito. Logo, os estatais evitaram que o crédito desabasse na crise e, assim, recessão feia. Bancos privados e porta-vozes vários diziam que os bancos estatais faziam besteira, emprestando dinheiro que não receberiam. Dado o histórico de rombos e irresponsabilidade dos estatais, era um temor muito razoável. Mas não havia fatos bastantes para avacalhar, de pronto, a iniciativa estatal. Aliás, ainda pode ser que alguns empréstimos estatais desse período miquem. Até agora, os fatos desmentem tal possibilidade.
Roberto Setubal, do Itaú, motivo da ira de Mantega, disse nesta semana que a atitude da concorrência estatal é "insustentável"-em 12 meses, o crescimento da carteira de crédito do BB foi o dobro da alta da carteira do Itaú. Pode bem ser que Setubal, muito bem informado, tenha razão. Mas onde estão os seus fatos? Há mais vexames. Em maio, os números do crédito indicaram que a banca privada voltava a emprestar quase tanto quanto a estatal. Banqueiros diziam que podiam então fazê-lo responsavelmente, pois a economia dava sinais de vida. Bem, os dados de junho mostraram nova retirada dos bancos privados do front de crédito, cujo estoque só cresceu praticamente devido aos estatais.
Outra conversa fiada, outro vexame. Os bancos ainda bateram o pé para não baixar as taxas que cobram para administrar fundos de investimento. Diziam que a fuga dos investidores dos fundos em direção à poupança não era problema dos bancos, mas só dos juros altos da poupança. Os juros tabelados da poupança são decerto um problemão, mas muitas taxas de fundos são de fato extorsivas. Como o governo sentou sobre a solução do caso da poupança, em boa parte por populismo, a banca teve de se mexer e baixar suas taxas. Vexame.
Os bancos de resto foram flagrados pelos fiscais da concorrência aprontando com monopólios nos cartões de crédito. Foi um vexame dentro de casa, pois a banca afinal é amiga do capitalismo. Não é?

Texto de Vinicius Torres Freire, na Folha de São Paulo, de 14 de agosto de 2009.

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terça-feira, julho 28, 2009

De AntonioGallotti@edu para D.Rousseff@gov: Já começou o processo de sucateamento de concessionárias de serviços públicos e ele termina em estatização

De AntonioGallotti@edu para D.Rousseff@gov

PREZADA ministra Dilma Rousseff,
Mensagens como esta devem obedecer às normas da concepção dos biquínis, curtos para aguçar o interesse e suficientemente longos para cobrirem o objeto. Quero pedir-lhe que baixe o seu santo sobre as agências reguladoras das concessões de serviços públicos. Se a senhora começar hoje, o país ficará lhe devendo a conjuração de um desastre. Faça-o sabendo que ninguém lhe dará o crédito. Não o faça e dirão que foi cúmplice do sucateamento e da posterior estatização de operadoras de telefonia, distribuição de energia e de parte dos serviços de transporte urbano.
Escrevo com a autoridade de quem presidiu a Light e seu conselho de 1955 a 1978. Não essa Light de hoje. A minha controlava a energia, os telefones e os bondes do Rio e de São Paulo. Algo como a Light mais a Eletropaulo, a Telefônica, parte da Telemar e os metrôs das duas cidades. Nós fizemos muito pelo progresso material e político do país. Até hoje o Getúlio Vargas me agradece o socorro que a Light lhe deu em 1935. Nosso gerente, Alfred Hutt, era o homem do Serviço Secreto inglês no Brasil. Ele controlava um dos agentes do Comintern que veio ajudar o Luís Carlos Prestes a fazer a revolução bolchevique e contava tudo ao Palácio do Catete. O marechal Castello Branco nunca deixa de lembrar a ajuda que demos na conspiração contra o João Goulart.
A partir dos anos 60 eu ajudei a estatizar nossas operações e depois participei de alguns entendimentos para privatizá-las. (A senhora não imagina o trabalho que tive para adequar as normas de contabilidade dos acionistas estrangeiros aos costumes patrimoniais de algumas autoridades brasileiras.) No espaço de um século transformamos concessionárias em estatais e, depois, novamente em empresas privadas. Grosso modo, o pacote trocou de dono a cada 30 anos.
Veja o que a senhora tem em volta. O serviço de banda larga da Telefônica de São Paulo capotou. O ministro das Comunicações e a Anatel não se entendem e vossas tarifas para celulares estão entre as mais altas do mundo. Diversas ferrovias operam abaixo das metas contratadas. Os trens da Central do Brasil e as barcas do Rio estão à espera de quem os compre. Há geradoras de energia que não cumprem os planos de expansão. A Eletropaulo desmanda-se em apagões que incentivam um mercado paralelo de geradores a gás para condomínios de gente endinheirada. O Tancredo Neves, que é um desconfiado, diz que eu estou por trás da anarquia que é a Agência Nacional de Energia Elétrica. Finge desconhecer que não podemos mexer nas coisas daí. Estou ciente disso desde 1986, quando cheguei aqui.
Em todos os casos, as agências reguladoras queixam-se da falta de investimentos dos concessionários que, por sua vez, reclamam da burocracia. Eu já vi esse filme no cinematógrafo sem som e em technicolor. Iniciou-se o processo de sucateamento de algumas dessas companhias. Coisa incipiente, porém estratégica. Posso lhe dizer: a partir de um certo ponto, o sucateamento interessa ao concessionário, pois ele sabe que, no limite, o Estado terá que ficar com a companhia.
Entre 2015 e 2025 caducarão quase todas as concessões de serviços públicos e o Estado escolherá entre renová-las ou deixar que caduquem. Essa solução é a pior, até porque antes de se chegar a tal ponto os serviços estarão inevitavelmente degradados. Nesse negócio, dez anos equivalem a dez minutos do nosso cotidiano. Se a senhora apertar dolorosamente os parafusos a partir de amanhã, a briga será civilizada. Se deixar para depois, será dolorosa, selvagem e inútil.
Apiedo-me ao acompanhar seu trabalho de supervisão sobre o Ministério de Minas e Energia e lastimo que a senhora tenha tolerado alguns preenchimentos de cargos nas agências reguladoras atendendo a critérios rudimentares. Esse mal está feito, mas nem tudo está perdido. A vida ensina que os incapazes temem o ronco do palácio.
Torcendo pela senhora e pela sua candidatura, despeço-me,
Antonio Gallotti

O texto é parte da coluna de Elio Gaspari, na Folha de São Paulo, de 26 de julho de 2009.

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quarta-feira, outubro 29, 2008

O Pró-Tudo de Lula

O Pró-Tudo de Lula

O GOVERNO baixou ontem uma medida provisória que autoriza um banco estritamente estatal, a Caixa, a comprar qualquer empresa. Medida preventiva, pois, como disse o ministro Guido Mantega, "nenhum banco está quebrando"? Pode ser, embora seu anúncio tenha sido um tanto assustador, para dizer o menos. Mas o essencial é: não há mecanismos mais transparente de evitar "riscos sistêmicos"?
Tanto Banco do Brasil (BB) como Caixa (CEF) e suas subsidiárias podem fazer feira de instituições financeiras em estado pré-falimentar.
BB e CEF foram autorizados a comprar seguradora, empresa de previdência privada (que tomaram tombos feios com a crise no mercado) etc. Mas o BB pelo menos tem ações na praça. Seus acionistas minoritários podem chiar, embora os governos tenham o costume de cobrir rombos do bancão federal.
Mas a CEF, além de ser todinha da União, ainda foi autorizada a criar um banco de investimentos, que pode comprar "participações" (parte ou o controle de empresas), entre outras operações típicas do setor. Se não for inócua, a CEF-Par" tem toda a cara de que será o bancão sombra da crise brasileira, o que vai engolir companhias podres, mas sem prestar contas claras (é um banco) e tendo o dinheiro público como o garantidor último de negócios ruins ou de negócios com amigos quebrados.
Em suma, se a CEF fizer mau negócio, a conta cai no Tesouro Nacional.
O Banco do Brasil recebeu ajuda em 1996 e em 2001, no governo FHC. A CEF, o Banco do Nordeste e o Banco da Amazônia entraram também no pacotão de 2001. O colunista não conseguiu fechar as contas precisas dos dois pacotões mas, em valores de hoje, começaram custando R$ 38 bilhões. A conta é difícil porque, além de dinheiro vivo e compra de ações pelo Tesouro, a União agasalhou créditos podres desses bancos (como dívida agrícola, dívida de financiamento imobiliário etc.). Aliás, em geral, os bancos fazem tais negócios ruins porque lobbies pedem, e o governo cede.
Há dois problemas graves e essenciais no Pró-Tudo de Lula. Primeiro é o público simplesmente não vir a saber que risco estará correndo, pois as operações do banco de investimento da CEF não vão aparecer no sistema de contabilidade pública.
Ou melhor, podem aparecer: quando a conta do negócio ruim chegar.
Ou ainda antes: ou a CEF não tem dinheiro para bancar a feira de empresa ruim (e a medida é inócua) ou vai acumular passivos obscuros e/ou receber aporte de recursos do Tesouro desde já. Será essa a próxima medida provisória?
Segundo problema maior: o privilégio. Considere-se que uma empresa ou banco fez negócio ruim e está para quebrar. A CEF então dá uma mãozinha, compra "participação".
Os acionistas ou donos das firmas que fizeram maus negócios ficam com a empresa e com o subsídio público. Impedir que a empresa quebre é bom para os funcionários e para o país? Ok. Mas por que é preciso haver subsídio para o proprietário?
O PT fez aquela chacrinha com o Proer, o programa federal de cobertura de rombos dos bancos privados, criado no governo FHC. Mas o Proer, ainda com algumas obscuridades, parece muito mais claro do que o Pró-Tudo de Lula.

Texto da Folha de São Paulo, de 23 de outubro de 2008. O grifo é do blogueiro. Os lobbies representam os empreendedores privados, muitas vezes os mesmos empreendedores que reclamam da intervenção do estado na economia.

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quarta-feira, outubro 22, 2008

"Camarada"

"CAMARADA"
Pelas agências, o presidente venezuelano Hugo Chávez ironizou ontem que o "camarada" George W. Bush "agora está à minha esquerda". Às voltas com a negociação de uma "nacionalização" de banco também na Venezuela, sublinhou como o colega americano "vai comprar ações de bancos privados".

Trecho da coluna Toda Mídia, de Nelson de Sá, na Folha de São Paulo, de 17 de outubro de 2008.

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terça-feira, outubro 14, 2008

Plano "socialista" britânico salvará o capitalismo?

Plano "socialista" britânico pode salvar o capitalismo

Imprensa britânica aplaude pacote do primeiro-ministro Gordon Brown

Jornais dizem que plano é "bem desenhado", "atinge o coração do problema" e que, diante da crise, "faz sentido recapitalizar os bancos"

CLÓVIS ROSSI
ENVIADO ESPECIAL A MADRI

Como nos velhos tempos em que os anticomunistas viscerais enxergavam comunistas até debaixo da cama, Simon Heffer, o ultraliberal colunista do jornal britânico "The Daily Telegraph", disparou ontem todos os sinais de alarme depois do pacote do primeiro-ministro Gordon Brown de socorro e semi-estatização dos bancos:
"Todos somos socialistas agora", começou, em artigo de página inteira. E fechou: "A intervenção, ou melhor, interferência, do Estado em assuntos financeiros e econômicos só pode levar à esclerose, à supressão da livre empresa, ao aumento dos impostos, à inanição em investimentos, à falta de inovação, ao atraso tecnológico e ao aumento do poder do trabalho organizado".
Antigas paranóias à parte, Heffer tem alguma razão quando diz que "todos somos socialistas agora". Dois professores norte-americanos -Laurence Kotlikoff, da Boston University, e Perry Mehrling, da Columbia, em artigo para o "Washington Post"- até ironizam: "Tio Sam se tornou nosso novo banco. Ele também se tornou nossa nova companhia de seguros com a compra, na prática, da maior seguradora do mundo, a AIG".
Pior, pelo menos para os que, como Heffer, vêem na ação dos governos na presente crise a ante-sala do comunismo e, por extensão, do fim do mundo: há um coro de aplausos, da direita à esquerda, em especial ao pacote de Brown, que, na manchete de ontem do "Guardian", "arrisca 500 bilhões de libras [R$ 1,866 trilhão) do dinheiro público no pacote de resgate dos bancos".
Até o "The Wall Street Journal", uma das mais potentes vozes pró-livre mercado, diz, em editorial: "A mexida de Londres vai ao coração do problema, que é a falta de capital no sistema financeiro -o combustível para o pânico global".
O "Guardian", mais à esquerda, segue o mesmo caminho: chama o plano Brown de "bem desenhado" e completa: "Enfrenta os três grandes problemas dos bancos -capital, liquidez e financiamento. Sob esse aspecto, é melhor que o plano Paulson [Hank Paulson, secretário do Tesouro americano]".
Concorda a colunista Gillian Tett, no "Financial Times", outro baluarte do livre mercado: "Quando uma crise bancária é séria a esse ponto, faz mais sentido recapitalizar os bancos comprando ações preferenciais do que seus ativos sem valor".
Em tese, comprar os ativos sem valor é o eixo do plano Paulson, mas Kotlikoff e Mehrling chamam a atenção para uma distração da mídia, que não teria notado que "a seção 113 da lei [Paulson] autoriza injeção de capital do governo no sistema bancário quando necessário -algo que o governo britânico está fazendo agora e o governo sueco fez com sucesso no passado recente".
Os hiperliberais norte-americanos ficariam horrorizados como ficou o britânico Heffer, mas Kotlikoff e Mehrling festejam: "Isso significa que [o governo] não deixará falir nenhum banco que seja viável só porque ele está temporariamente subcapitalizado". Eles reduzem a intervenção ao que de fato é: "Pode parecer socialismo ou capitalismo de Estado, mas é simplesmente o rearranjo do mobiliário financeiro".
Ou é algo bem mais prosaico, segundo Felipe González, ex-presidente do governo espanhol. Na sua opinião, a economia chegou a funcionar como um "cassino global", mas com uma fundamental diferença: "Nos cassinos, o que arrisca e perde não reclama que papai-Estado lhe devolva o dinheiro".
Só falta agora que o dinheiro de papai-Estado ponha fim ao pânico, o que ainda não estava demonstrado até o começo da noite de ontem (na Europa).

Texto da Folha de São Paulo, de 10 de outubro de 2008.

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