Guantánamo
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Porque política é um assunto muito chato mas é fundamental. Início: 06/04/2006.
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SÃO PAULO - O Itamaraty e o governador José Serra não gostaram do relatório dos EUA sobre violações aos direitos humanos no Brasil. É direito deles, mas não dá para dizer que o relatório mente.
Eu, se fosse ministro ou governador de São Paulo, preferiria usar as perguntas que a Human Rights Watch faria ao presidente George Walker Bush durante sua visita ao Brasil. Duas delas:
1 - "De acordo com um relatório divulgado pela Human Rights Watch na semana passada, o governo dos EUA é responsável por desaparecimentos forçados ao manter suspeitos detidos em prisões secretas fora dos EUA. O relatório identifica 38 "desaparecidos" cujo paradeiro permanece desconhecido.
Quando é que os Estados Unidos vão revelar o destino e o paradeiro de todos os prisioneiros mantidos em prisões secretas pela CIA desde 2001?".
2 - "Em fevereiro, o Brasil e muitos outros países da América Latina assinaram a recém-adotada Convenção contra Desaparecimentos Forçados. Os EUA se recusaram a assiná-la. Por que os EUA não apóiam essa tentativa de combater uma internacionalmente reconhecida violação dos direitos humanos?"
Faria também uma cobrança em relação aos prisioneiros da chamada "guerra ao terror", mantidos ilegalmente em Guantánamo, em uma situação que Franz Kafka teria dificuldades de imaginar.
É assim: um tribunal federal decidiu, há 15 dias, que estrangeiros presos nesse pedaço de Cuba não têm direito ao amparo judicial porque Guantánamo não é dos Estados Unidos. Ou seja, os EUA criam um encrave em território cubano e "escondem" lá certos presos, que ficam, por isso, no limbo judicial, o que joga no lixo o "devido processo" de que tanto se orgulhava a democracia norte-americana e cuja ausência tanto criticam em outros países, com razão, aliás.
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FABIANE LEITE
DA REPORTAGEM LOCAL
A brasileira Janaína Regina da Conceição, 30, que iria dar um testemunho na ONU em Nova York anteontem sobre como adquiriu o HIV após ser vítima de violência, teve o visto negado pelo consulado dos EUA em Recife.
Janaína foi convidada por uma importante ONG internacional, a Action Aid, que cobriria todos os custos da viagem. Ela faria parte do lançamento de uma campanha para alertar sobre a relação entre violência e Aids. Janaína foi forçada a se prostituir por uma mulher que a adotou e foi vítima de estupro durante a adolescência.
"Mal me olharam, perguntaram se estudava e trabalhava, eu disse que não e apenas responderam que eu não tinha qualificação para viajar", relata Janaína sobre sua entrevista no consulado dos EUA em Recife.
Procurada pela Folha, a embaixada dos EUA no Brasil diz que Janaína não apresentou provas de vínculos no Brasil e que por isso o visto foi negado.
O lançamento da campanha ocorreu na última terça, durante a 51ª Sessão da Comissão sobre o Status das Mulheres.
Janaína vive em um abrigo para soropositivos em Recife com os filhos de quatro e seis anos e o caso de suposta discriminação foi alardeado pela ONG Gestos.
Segundo Adlene Andrade, responsável pela comunicação social da ONG, recebido o convite logo após o Carnaval, foi marcada uma entrevista para o dia 27 de fevereiro. No mesmo dia o visto foi negado. "Quando você pensa que deu um passo à frente, aí lhe dão um empurrão", afirmou Janaína.
Na sexta passada mais de 20 ONGs, brasileiras e internacionais, enviaram carta à secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, protestando contra a negativa do visto.
A embaixada dos EUA diz que chegou a dar uma segunda chance para Janaína apresentar os documentos necessários, mas ela não teria comparecido com os papéis -o que a Gestos nega. A ONU disse que não comentaria o caso.
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