quinta-feira, novembro 04, 2010

Primeira mulher rabino em 75 anos é ordenada na Alemanha



Pela primeira vez em 75 anos, uma mulher foi ordenada rabino nesta quinta-feira na Alemanha, marcando a retomada de uma comunidade judaica devastada pela Shoah (Holocausto).

Alina Treiger, 31 anos, originária da Ucrânia, tornou-se sacerdote do culto judaico durante cerimônia emocionante em uma sinagoga do oeste de Berlim, que contou com a presença do presidente, Christian Wulff.

Ela é a segunda mulher ordenada na Alemanha. A primeira, também do mundo, a conseguir o título foi Regina Jonas, em 1935 - assassinada em Auschwitz em 1944, aos 42 anos.

Com cabelos ondulados loiros escuros e um grande sorriso, Alina era o centro das atenções, mesmo que outros dois estudantes rabinos estivessem sendo ordenados ao mesmo tempo.

"Enchamos nossos corações de amor. Estejamos unidos no amor pelo Bem e pela vontade de impedir a violência e o conflito", disse durante uma "oração para a Alemanha" pronunciada ao término de sua ordenação.

No fim de novembro, Alina Treiger deve assumir a direção da comunidade da cidade de Oldenburg, próxima à Holanda.

Ela afirma encarnar "a união de três culturas: judaica, alemã e a da antiga União Soviética". Nascida em Poltava, uma cidade de 300 mil habitantes que hoje pertence à Ucrânia, Alina Treiger estudou no colégio Abraham Geiger de Postdã, próximo a Berlim. Criado em 1999, foi o primeiro seminário rabínico da Europa Continental desde o Holocausto.

A trajetória da jovem mulher é símbolo da comunidade judaica alemã que, das cinzas da Shoah, tornou-se hoje uma das mais dinâmicas do mundo e é 90% composta por membros originários da extinta URSS.

Após a queda do Muro de Berlim, a Alemanha abriu suas portas para os judeus do antigo império soviético, vítimas de um forte antissemitismo, fornecendo a eles a nacionalidade alemã.

"Na Ucrânia, a religião era esquecida pela metade", contou Alina Treiber.Desde 1989, cerca de 220 mil judeus da extinta URSS chegaram à Alemanha que contabilizava, na época, 30 mil judeus, contra cerca de 600 mil antes de Adolf Hitler chegar ao poder em 1933.

Uma boa parte deles partiu, principalmente para Israel. As comunidades judaicas na Alemanha contam hoje com 110 mil membros, quatro vezes mais do que há 20 anos, segundo o Conselho Central de Judeus da Alemanha.

Essa migração em massa permitiu em algumas regiões, principalmente da ex-República Democrática Alemã, a recriação das comunidades aniquiladas pelo Holocausto.

Em Berlim, a comunidade judaica conta 11 mil membros, dois terços derivados da eentão URSS.

No entanto, a integração desses judeus vindos da União Soviética levanta problemas e suscita conflitos. Alguns judeus alemães os acusam de serem "desjudaizados".

A chegada desses refugiados teve fim no dia 31 de dezembro de 2004, quando a Alemanha impôs restrições à migração deles. O número de candidatos começou a cair drasticamente.

A ordenação, chamada semikha, é acessível às mulheres unicamente no judaísmo liberal. As raras mulheres rabinos estudaram, em sua maioria, nos Estados Unidos.

"É um dia extraordinário!", entusiasmou-se o rabino Daniel Freelander, vice-presidente da União do Judaísmo Progressista da América do Norte. As primeiras ordenações de rabinos na Alemanha depois do Holocausto ocorreram em 2006.


Notícia da AFP, no Terra. Foto com crédito para a AFP.

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terça-feira, dezembro 15, 2009

"Agora, a islamização dos costumes está triunfando", diz Wassyla Tamzali

"Agora, a islamização dos costumes está triunfando", diz Wassyla Tamzali


Josyane Savigneau

Nascida em 1941, Wassyla Tamzali foi advogada em Argel e depois diretora do programa de Direitos da Mulher para a Unesco. Ela milita no movimento feminista magrebino. Publicou, em 2007, pela editora Gallimard, "Une éducation algérienne" ["Uma educação argelina"], e também "Une femme en colère: Lettre d'Alger aux Européens désabusés" ["Uma mulher em fúria : Carta de Argel aos europeus desiludidos"].

Le Monde: Em "Une femme en colère", a senhora se pergunta se o feminismo laico cumpriu seu papel histórico.
Wassyla Tamzali:
Há mais de um século, pensadores, intelectuais e feministas tentam mostrar que, sem renegar o Islã, pode-se chegar a atitudes diferentes daquelas que são correntes. Uma constatação do meu livro é que este trabalho não teve influência sobre o próprio interior do problema. Daí meu interesse pela aparição em massa dessas mulheres que lutam ao mesmo tempo em que permanecem no seio da religião, e minha pergunta é: "O feminismo laico acabou?" Mas é uma figura de linguagem.

Fui e continuo sendo arraigada em uma cultura universalista. O feminismo magrebino ao qual pertenço foi trazido pelos movimentos de descolonização com a participação maciça das mulheres, e, quaisquer que tenham sido seus resultados, esses movimentos falavam de liberdade e de igualdade.

Le Monde: A senhora é pessimista quanto à situação das mulheres hoje em dia. A senhora realmente acredita que os progressos sociais sejam simples reestruturações do sistema patriarcal?
Tamzali:
Se as reformas sociais forem a única solução, sim. E o que pensar do trabalho se as mulheres são cada vez mais obrigadas a usar o véu para ir trabalhar? A cultura do harém se apoderou das ruas, não foi a modernidade que entrou nos lares! Veja a educação, que é a panaceia dos reformistas. Através da educação religiosa nas escolas, colocamos nas cabeças das crianças que a dominação das mulheres é exigida por Deus.

Talvez nossa tradição mediterrânea não tenha inventado a dominação das mulheres, mas certamente inventou o sistema familiar mais eficaz para mantê-la viva. Os Estados modernos pós-coloniais não nos libertaram da "República dos primos", retomando Germaine Tillion. Nem o texto corânico acabou com a moral sexual mediterrânea. Entretanto, o Profeta do Islã havia aberto uma brecha na dominação masculina secular. O homem e a mulher, criados ao mesmo tempo, são expulsos do paraíso por um erro comum: "Vocês continuarão a brigar até o fim dos tempos". Isso não durou muito, com o tempo os exegetas restabeleceram a ideia de uma mulher diabólica e perigosa, e daí surgiu a ideia de enclausurá-la.

Hoje somos confrontados a um vasto campo de doutrinação sobre a inferioridade das mulheres, conduzida por sábios, pelas escolas, pelas televisões por satélite, pelos milhares de imames autodidatas, e pelas estrelas da mídia. Então quando aqui, em Paris, me falam de liberdade e de escolhas para usar o véu, eu sorrio.

A questão de igualdade é uma questão ética; ela deve ser abordada sobre o plano dos princípios e não pelas reformas sociais. Daí a necessidade do laicismo, somente ele pode derrubar as relações de opressão pelas quais sofrem as mulheres e os homens nas sociedades muçulmanas; somente o laicismo pode levar ao surgimento de uma consciência moderna muçulmana.

Le Monde: Segundo a senhora, a maneira como esse debate é levantado na França faz com que as próprias feministas não coloquem mais a igualdade no centro de suas preocupações.
Tamzali:
Algumas feministas, cujos discursos confortam as antifeministas. Elas se juntam a uma minoria da intelligentsia de esquerda que acredita que não se pode mais mudar o mundo, e que é preciso aceitá-lo como ele é. Hoje se quer dialogar com todo mundo, varrem-se todas as dificuldades e escondem a poeira sob o tapete para se ter a paz. Não querem mais abordar as questões essenciais. Parece que se aceita tudo em um movimento de fraternidade recuperada, mas na realidade, é para controlar melhor o planeta.

Nossa época é a da derrapagem controlada. São as mulheres que pagam, e as feministas que são enviadas à zona de guerra para lutar contra pedaços de tecido. O véu e a burca são artifícios pelas quais nos desgastamos. Somos reduzidas a lutas ridículas, ao passo que a essência é grave. Quem se interessa pela essência das coisas?

Le Monde: O que a senhora tem vontade de dizer às garotas que, na França, exigem o uso do véu?
Tamzali:
Que elas caíram em uma armadilha. Algumas usam o véu pelo jogo, por provocação, mas também por rebeldia contra a ordem dominante, encontrando ali uma definição da liberdade. Tenho vontade de lhes dizer que não se pode exprimir sua liberdade atirando-se sem resistência a uma cultura cujo objetivo é a dominação das mulheres.

Os movimentos dos anos 1970 foram a rejeição a qualquer identificação. Hoje, só se reivindica sua identidade, geralmente uma identidade de vítima; por exemplo: os nativos da República, as prostitutas... Diante disso, pedem-nos que abandonemos a ideia de que a história caminha no sentido da emancipação das mulheres e da igualdade para todos.

Seríamos ultrapassadas, e as mulheres de véu representariam o futuro nascido das classes da liberdade, e da descolonização. Elas ajudam a democracia real e nós mantemos conflitos de cultura entre os povos!

Le Monde: A senhora também é crítica em relação ao islamismo moderado.
Tamzali:
O islamismo moderado é um conceito político. Ele diz respeito aos sistemas políticos, é uma questão de tática política e não me ajuda em nada, eu chegaria a dizer que ele é perigoso. O que me interessa é me questionar com aqueles que compartilham da minha história, das minhas preocupações, bem como das minhas esperanças, sobre o que assusta hoje no islamismo. E primeiramente falar disso com os muçulmanos.

São muitos os que rejeitam o islamismo sob todas suas formas. Gostaria de lhes dizer que, em vez de ver no debate sobre a burca os sinais do racismo, eles deveriam dizer que rejeitam a burca e que é atroz querer colocar as mulheres nessa posição. Uma grande manifestação nesse sentido teria mudado a cara do problema, cuja solução está nas mãos dos muçulmanos silenciosos, e na sua coragem de dizer o que pensam. Esses muçulmanos existem, são muitos deles, mas por enquanto sua música é frágil, ela não interessa às mídias.

Le Monde: Como a senhora explica que no Marrocos, na Argélia, na Tunísia, mulheres intelectuais decidam usar o véu?
Tamzali:
Diversas razões são mencionadas, e eu vejo muitas delas, como a busca por uma respeitabilidade, uma boa conduta, a demonstração de sua submissão para atrair os homens, etc. Mas quero dizer aqui que a explicação religiosa não me convence, vivi o islamismo em minha família onde as mulheres e os homens praticavam sua religião sem precisar de todos esses símbolos. Acredito que a razão principal seja que o véu é vivido como uma fortaleza contra a violência sexista, simbólica ou exprimida.

Existem escolas, universidades e outros locais na Argélia onde não se pode mais ficar sem o véu. Em árabe argelino dizem que uma mulher sem véu está nua, o que é bastante revelador. É uma fortaleza ilusória; em meu livro mostro a escalada da violência nas ruas árabes onde há cada vez mais mulheres de véu.

Le Monde: A senhora diz que mesmo onde o islamismo político não triunfou, a islamização de costumes está vencendo.
Tamzali:
Sim. Agora, a islamização de costumes está triunfando, ela se espalha sob a vigília da violência islâmica que só está adormecida. Não me iludo. Mas sou uma otimista incorrigível. Os "bons muçulmanos" que lutam no seio da religião são a prova de que o fenômeno da opressão não pode durar eternamente. E também porque nós, feministas laicas, estamos sempre nos mobilizando, com os homens e as mulheres de nosso país que têm, apesar de tudo, o gosto pela liberdade.

Tradução: Lana Lim

Do Le Monde, reproduzido no UOL.

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segunda-feira, julho 13, 2009

Sudanesas são chicoteadas por usarem calças

Sudanesas são chicoteadas por usarem calças

Um grupo de mulheres sudanesas foi preso e recebeu chicotadas como punição por usar calças em público na capital, Cartum, segundo uma jornalista que foi presa junto com o grupo.

Lubna Ahmed al-Hussein, que afirma que foi condenada a 40 chicotadas, informou que ela e outras 12 mulheres que usavam calças e blusas foram detidas em um restaurante da cidade.

Segundo a jornalista, várias mulheres do grupo admitiram serem culpadas da acusação de se vestir "de forma indecente" e receberam dez chicotadas imediatamente.

Al-Hussein afirmou que um grupo de entre 20 e 30 policiais entrou de repente em um dos restaurantes mais populares de Cartum e "escolheu apenas garotas que usavam calças. Éramos cerca de 12 ou 13".

"Na delegacia eles libertaram aquelas que usavam calças mais largas ou cujas blusas foram consideradas longas o bastante. Na delegacia encontramos outras garotas do sul (do país), aguardando julgamento, elas eram cristãs e três delas tinham menos de 18 anos."

"As meninas foram sentenciadas a dez chicotadas para cada uma e a sentença foi executada imediatamente", afirmou.

A jornalista afirmou que muitas se declararam culpadas apenas para "acabar logo com isso", mas outras - incluindo ela - escolheram chamar seus advogados e esperar o julgamento.

De acordo com a lei islâmica em vigor no norte do Sudão, onde se encontra a capital, a punição a mulheres que se vestem "de forma indecente" é 40 chicotadas.

Segundo as leis do país, sudaneses que não são muçulmanos não são obrigados a seguir a lei islâmica mesmo na capital ou no norte do país, onde predomina o islamismo.

Críticas

Lubna Ahmed al-Hussein é uma jornalista sudanesa conhecida por suas críticas ao governo do país. Ela é autora de uma coluna semanal para jornais do país, chamada Kalam Rijal, que, na tradução literal significa "Conversa de Homem", uma referência satírica a uma expressão parecida em árabe coloquial, que se refere ao que as mulheres falam como algo risível e não confiável.

A jornalista disse à BBC que contratou um advogado que conseguiu enviar o processo contra ela de volta à promotoria. E também afirmou que imprimiu centenas de convites para o julgamento para que o povo sudanês possa ver o que acontece com as mulheres.

Antes de comparecer à corte, al-Hussein afirmou que o problema que ela enfrenta é também o problema de centenas de mulheres que são chicoteadas todos os dias devido às roupas que usam.

A jornalista escreveu que estas mulheres saem dos julgamentos com um sentimento de vergonha e toda a família da mulher é tratada como pária.

De acordo com o analista da BBC para o mundo árabe Magdi Abdelhadi, o Sudão tem uma sociedade conservadora que condena mulheres que desobedecem os costumes islâmicos.

A lei islâmica foi introduzida pelo ex-presidente Jaffar Al Numeri há cerca de 30 anos e, desde então, causa polêmica no país, especialmente na região sul do Sudão, que é cristã.

Notícia da BBC Brasil.

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terça-feira, abril 21, 2009

Pressão internacional adia enforcamento de condenada no Irã

O enforcamento da pintora iraniana Delara Darabi, 23 anos, condenada à pena de morte foi adiado nesta segunda-feira. A execução dela estava prevista para hoje, mas foi remarcada para daqui a 2 meses, informou o Comitê de Direitos Humanos do Irã.

O adiamento foi ordenado pelo mais alto representante do judiciário iraniano, o aiatolá Mahmud Hashemi Shahroudi, após a "massiva atenção nacional e internacional" que o caso despertou.

"A atenção nacional e internacional que o caso de Delara levantou foi decisiva para as autoridades decidirem não seguir adiante com o enforcamento hoje", disse o porta-voz da comissão, Mahmud Amiry-Moggaddam.

O caso
Delara Darabi tinha 17 anos de idade quando foi presa no Irã. Foi acusada de ter matado com uma punhalada a prima de 58 anos de idade. Respondeu, também, por furto na casa da prima morta e por manter relacionamento sexual com o namorado Amir Hossain de 19 anos de idade: no Irã, sexo só com o casamento e a adúltera recebe pena capital.

Hoje, Delara Darabi está com 23 anos. Continua presa desde os crimes consumados em 2005. Hoje, seria enforcada por ter sido considerada autora da punhalada, com intenção de matar. Ela nega o crime.

Pelo furto e intimidade com o namorado, cumpriu pena de 3 anos de cadeia. Recebeu, em público, 50 chicotadas pelo furto e mais 20 pelas relações amorosas com o namorado.

Ela disse que confessou quando presa para "salvar" o namorado da pena de morte. Frisou que imaginava, pelos seus 17 anos, que não seria condenada à morte. Errou nos cálculos pois a responsabilidade criminal no Estado teocrático do Irã começa aos 15 anos de idade para homens e 9 anos para as do sexo feminino.

O crime de homicídio, se consumou em 2005 e a sentença condenatória à pena de morte foi confirmada pela Corte Suprema em 2007. A única chance legal para Delara Darabi seria a família da vítima, - sua prima -, aceitar uma indenização em dinheiro.

O pai da condenada chegou a fazer uma oferta, mas não houve aceitação. Segundo o advogado e as organizações internacionais de defesa de direitos humanos ficou provado nos autos, por laudo pericial oficial e único, que Delara Darabi é inocente. Para os peritos, o golpe de punhal foi desferido por uma pessoa destra. Darabi é canhota.

Notícia do Terra.

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terça-feira, janeiro 20, 2009

Meninas afegãs desafiam ataque terrível se recusando a suspender os estudos

Meninas afegãs desafiam ataque terrível se recusando a suspender os estudos

The New York Times

Dexter Filkins
Em Kandahar (Afeganistão)

Certa manhã há dois meses, Shamsia Husseini e sua irmã estavam caminhando pelas ruas lamacentas até a escola local de meninas, quando um homem encostou de moto ao lado de Shamsia e lhe fez uma pergunta que parecia comum.

"Vocês vão para a escola?"

Então o homem arrancou a burca da cabeça de Shamsia e borrifou ácido no rosto dela. Cicatrizes, irregulares e descoloridas, agora se espalham pelas pálpebras de Shamsia e grande parte de sua bochecha esquerda. Atualmente sua visão fica borrada, o que lhe dificulta a leitura.

Mas se o ataque com ácido contra Shamsia e 14 outras pessoas - alunas e professores - visava aterrorizar as meninas a permanecerem em casa, parece que ele fracassou completamente.

Hoje, quase todas as meninas feridas estão de volta à Escola para Meninas de Mirwais, incluindo Shamsia, cujo rosto foi tão gravemente queimado a ponto de ter sido enviada para o exterior para tratamento. Talvez ainda mais notável, foi o fato que quase todas as outras alunas nesta comunidade profundamente conservadora também voltaram - cerca de 1.300 ao todo.

"Meus pais me disseram para continuar indo a escola mesmo se fosse morta", disse Shamsia, 17 anos, em um pausa após a aula. A mãe de Shamsia, como quase todas as mulheres adultas na área, não sabe ler e nem escrever. "As pessoas que fizeram isso comigo não querem que as mulheres tenham instrução. Eles querem que continuemos estúpidas."

Nos cinco anos desde que a Escola para Garotas de Mirwais foi construída aqui pelo governo japonês, ela parece ter provocado uma espécie de revolução social. Enquanto o Taleban aperta seu laço ao redor de Kandahar, as garotas vão para a escola toda manhã. Muitas delas caminham mais de três quilômetros desde suas casas de tijolos de barro no alto das colinas.

As garotas entram na escola murada, muitas delas vestindo trajes que cobrem da cabeça aos pés, conversando, se divertindo e rindo de formas que são inconcebíveis do lado de fora -para garotas e mulheres de qualquer idade. Mirwais não tem fornecimento regular de eletricidade, não tem água encanada e nem ruas pavimentadas. As mulheres são raramente vistas, e quando são elas aparecem em burcas que deixam seus corpos sem forma e tornam seus rostos invisíveis.

Logo, foi particularmente assustador em 12 de novembro, quando três pares de homens em motos começaram a rondar a escola. Uma das duplas usou um borrifador, outro uma pistola d'água e outra um jarro. Elas atingiram 11 meninas e quatro professores ao todo; seis foram parar no hospital. Shamsia foi quem sofreu o pior.

Os ataques pareciam ser obra do Taleban, o movimento fundamentalista que está lutando contra o governo e a coalizão liderada pelos americanos. Proibir as meninas de estudar foi um dos símbolos mais notórios do regime do Taleban antes de ser derrubado em novembro de 2001.

A construção de novas escolas e assegurar que as crianças -especialmente as meninas- as frequentassem era um dos principais objetivos do governo e dos países que contribuíram para a reconstrução do Afeganistão. Alguns dos estudantes na escola de Mirwais estão no final da adolescência ou já são jovens adultos, frequentando a escola pela primeira vez. Mas ao mesmo tempo, na guerra de guerrilha que se desdobra no sul e leste do Afeganistão, o Taleban transformou as escolas em um de seus principais alvos.

Mas quem exatamente esteve por trás do ataque com ácido é um mistério. O Taleban negou qualquer participação nisso. A polícia prendeu oito homens e, pouco depois, o Ministério do Interior divulgou o vídeo da confissão de dois deles. Um deles disse que foi pago por um oficial do Diretoria de Interserviços de Inteligência, a agência de inteligência paquistanesa, para realizar o ataque.

Mas em uma coletiva de imprensa na semana passada, Hamid Karzai, o presidente afegão, disse que não houve envolvimento paquistanês.

Uma coisa é certa: nos meses que antecederam o ataque, o Taleban ingressou na área de Mirwais e no restante dos arredores de Kandahar. Logo, cartazes começaram a aparecer nas mesquitas locais.

"Não deixe suas filhas irem à escola", dizia um deles.

Nos dias que se seguiram ao ataque, a Escola para Meninas de Mirwais permaneceu vazia; nenhum dos pais deixava suas filhas se aventurarem para fora de casa. Foi quando o diretor, Mahmood Qadari, foi trabalhar.

Após quatro dias olhando para salas de aula vazias, Qadari convocou uma reunião com os pais. Centenas compareceram à escola -pais e mães- e Qadari implorou para que permitissem o retorno de suas filhas. Após duas semanas, algumas poucas voltaram.

Então Qadari, cujas três filhas vivem no exterior, incluindo uma nos Estados Unidos, pediu o apoio do governo local. O governador prometeu um maior policiamento, uma ponte para atravessar uma estrada movimentada próxima e, mais importante, um ônibus. Qadari convocou outra reunião e disse aos pais que não havia mais motivo para manter suas filhas em casa.

"Eu lhes disse, se vocês não enviarem suas filhas para a escola, então o inimigo vence", disse Qadari. "Eu lhes disse para não cederem às trevas. Educação é a forma de melhorar nossa sociedade."

Os adultos de Mirwais não precisaram de muita persuasão. Nem o ônibus, nem a polícia e nem a ponte se materializaram, mas as meninas começaram a comparecer assim mesmo. Agora apenas duas dúzias de meninas perdem aulas regularmente; três delas são meninas que foram feridas no ataque.

"Eu não quero ver as meninas sentadas desperdiçando suas vidas", disse Ghulam Sekhi, um tio de Shamsia e de sua irmã, Atifa, 14 anos, que também foi queimada.

Apesar de toda a incerteza do lado de fora de seus muros, a escola de Mirwais está cheia de vida. Suas 40 salas de aula estão tão lotadas que aulas também são dadas no pátio em quatro tendas, doadas pela Unicef. O Ministério da Educação afegão também está construindo um prédio permanente.

Nos últimos dias a escola passou pelo período de provas. Em uma sala, uma aula de geografia, uma professora fazia uma série de perguntas enquanto suas alunas escutavam e escreviam as respostas no papel.

"Qual é a capital do Brasil?" perguntou a professora, chamada Arja, andando de um lado para outro.

"Agora, quais são suas maiores cidades?"

"Quantas vezes os Estados Unidos são maiores do que o Afeganistão?"

Em uma carteira na primeira fila, Shamsia, a garota com o rosto queimado, pensava nas perguntas enquanto escondia sua maior cicatriz com a mão. Ela se abaixou na direção do papel, esfregou os olhos e escreveu algo.

Os médicos disseram para Shamsia que seu rosto poderá precisar de cirurgia plástica para que tenha chance das cicatrizes desaparecerem. É um sonho distante: a aldeia de Shamsia não tem nem mesmo fornecimento regular de eletricidade e seu pai é inválido.

Após a aula, Shamsia se misturou com as outras garotas, circulando, rindo e brincando. Ela parecia não consciente de sua desfiguração, até começar a recontar o caso.

Ela disse: "As pessoas que fizeram isso não sentem a dor dos outros".

Tradução: George El Khouri Andolfato

Ela disse: Texto do The New York Times, no UOL.


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sábado, novembro 29, 2008

Dia Internacional de Eliminação da Violência contra a Mulher



Mulheres fazem vigília durante o "Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres", em Assunção, no Paraguai. A imagem faz parte do álbum de fotos do UOL, do dia 25 de novembro.

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terça-feira, novembro 04, 2008

Mulher apedrejada por adultério era menina estuprada

Uma menina de 13 anos foi apedrejada até a morte por adultério na Somália depois que seu pai disse que ela foi estuprada por três homens.

» Mulher é morta a pedradas por adultério

Segundo a organização de defesa dos direitos humanos, Anistia Internacional, Aisha Ibrahim Duhulow foi morta no dia 27 de outubro por um grupo de 50 homens em um estádio na cidade portuária de Kismayo, no sul do país, diante de mil espectadores.

A menina foi acusada de violar leis islâmicas e detida pela milícia al-Shabab, que controla a cidade.

"Dentro do estádio, membros da milícia abriram fogo quando algumas das testemunhas tentaram salvar a vida de Duhulow, e mataram a tiros um menino que estava observando tudo", disse nota no website da Anistia Internacional.

Segundo a organização, há notícia de que depois um porta-voz da al-Shabab pediu desculpas pela morte da criança, e disse que um miliciano seria punido.

Jornalistas somalianos haviam noticiado que Duhulow tinha 23 anos de idade, julgando pela sua aparência física. A verdadeira idade dela só veio à tona quando seu pai disse se tratar de uma criança.

Buraco
Duhulow lutou contra quem a detinha, e foi levada à força para dentro do estádio.

A Anistia Internacional disse que foi informada por várias testemunhas que, em dado momento durante o apedrejamento, enfermeiras receberam instruções para verificar se Aisha Ibrahim Duhulow ainda estava viva.

Ao constatarem que sim, a menina foi recolocada em um buraco no chão onde tinha sido coberta de pedras, para que o apedrejamento continuasse até sua morte.

Segundo a Anistia, nenhum dos homens que estupraram a menina foi preso.

A Anistia Internacional vem realizando uma campanha para pôr fim à prática de punição por apedrejamento. "A morte de Aisha Ibrahim Duhulow demonstra a crueldade e a discriminação inerente contra mulheres nesta punição", disse nota no website da organização.

Texto visto no Terra.

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quinta-feira, outubro 09, 2008

Jornalistas pela Igualdade de Gênero

quarta-feira, outubro 01, 2008

Um crime bárbaro em nome da tradição

No Paquistão, um crime bárbaro em nome da tradição

Frédéric Bobin
Em Islamabad (Paquistão)


Eram três irmãs, com idades de 16 a 18 anos. Hameeda, Ruqqaya e Raheena viviam em Baba Kot, uma aldeia no Baluchistão, uma província árida situada no sudoeste do Paquistão, nos confins do Irã e do Afeganistão, lá onde a terra se resume a areia, pedras e rochas buriladas pelo vento. Elas morreram enterradas vivas numa vala comum. Foram vítimas de um "crime de honra" que, pela sua selvageria inédita, vem assombrando as consciências nestas últimas semanas por todo o Paquistão, onde a população geralmente aceita sem problema esses assassinatos que são práticas costumeiras ancestrais.

Hameeda, Ruqqaya e Raheena foram assassinadas em nome da tradição. Elas cometeram o crime de querer casar-se com o homem da sua escolha, e não com os primos que a tribo - dos umrani - havia indicado para elas. O que aconteceu realmente em 14 de julho, naquele dia funesto em que o crime foi perpetrado? Uma sucessão de fatos delineou-se em função das indicações que foram publicadas pela imprensa paquistanesa. Em 13 de julho, as três jovens mulheres haviam deixado sua aldeia de Baba Kot a bordo de um táxi, acompanhadas pela sua mãe e por uma tia. O grupo dirigiu-se na direção de Usta Mohammad, um vilarejo situado a 80 km, onde Hameeda, Ruqqaya e Raheena queriam comparecer no tribunal civil local para se casarem com os homens que haviam escolhido.

A escapada revelaria ser breve e, sobretudo, fatal. Mal haviam chegado a Usta Mohammad, as cinco mulheres foram raptadas por um comando de homens da tribo umrani que as perseguiam desde a sua partida. Elas tinham vilipendiado a ordem ancestral, que sujeita as moças às estratégias matrimoniais do clã, e, portanto, elas precisavam ser castigadas. Elas foram então embarcadas á força - sob a ameaça de fuzis - dentro da van Land Cruiser dos seus seqüestradores, que as conduziram de volta para a aldeia familiar de Baba Kot. Lá, uma jirga - assembléia de notáveis - estava à sua espera, solenemente convocada para decidir sobre as sanções a serem aplicadas contra elas. Prometeram-lhes uma morte muito especial. Esta seria precedida por um pavoroso suplício que deveria servir de lição para todas as outras moças da comunidade.

No dia seguinte, conduzem as cinco condenadas até a parte central de uma área deserta. Os carrascos da tribo levaram consigo uma escavadeira. A máquina começa a cavar uma fossa. Então, o motorista que está nos comandos do buldôzer aciona a lâmina dentada. Ele a dirige sobre as mulheres que estão amarradas e alinhadas. A ferramenta funciona como uma faca gigante que tritura sua carne, seus ossos, seu crânio. Depois disso, uma rajada de tiros de fuzil as ceifa. A escavadeira empurra então os corpos martirizados para dentro da vala que se tornaria o seu túmulo. Elas sangram em abundância, mas, conforme relatarão mais tarde os jornalistas paquistaneses, elas ainda não haviam sucumbido aos seus ferimentos quando os torturadores começaram a cobri-las com areia e pedras.

Mulheres foram enterradas vivas no Baluchistão! O que saberíamos hoje a respeito deste crime bárbaro se a sociedade civil paquistanesa, ajudada pelos seus veículos de comunicação audaciosos e suas associações feministas inconformadas, não tivesse se mobilizado para evitar que as supliciadas de Baba Kot fossem enterradas uma segunda vez? A informação veio à tona em 24 de julho, graças a um corajoso jornalista local, um correspondente do diário em língua urdu "Jang", que trabalha na sucursal de Quetta, a capital do Baluchistão. O artigo não oferece muitos detalhes e não cita nome algum, mas o seu autor não demora a receber ameaças de morte por parte da tribo umrani.

Justificativa cultural

A partir daquele momento, é na cidade de Islamabad, a capital do país, onde muitas mentes esclarecidas já se mobilizaram, que o combate jornalístico começa a ser orquestrado. O diário em inglês "The News" se destaca nessa tarefa. Ele confia para Rauf Klasra, um jornalista de investigação acostumado com os escândalos financeiros, a missão de desembaralhar o fio da meada deste "crime de honra", que uma conspiração do silêncio parece querer abafar. A polícia do Baluchistão não toma iniciativa alguma, porque personalidades locais de peso estão envolvidas no crime. A Land Cruiser que permitiu seqüestrar as cinco mulheres tinha uma placa oficial que é reservada exclusivamente para os veículos do governo do Baluchistão.

Segundo apontaram várias testemunhas, o instigador do assassinato seria Abdul Sattar Umrani, que não é ninguém mais que o irmão de Sadiq Umrani, o ministro da habitação do governo do Baluchistão, um respeitado membro do Partido do Povo Paquistanês (PPP), o partido do clã dos Bhutto que está atualmente no poder no Paquistão. Por mais que o movimento que foi liderado durante mais de duas décadas por Benazir Bhutto (assassinada no final de 2007) se valha de um progressismo teórico em relação à questão dos direitos das mulheres, as tramóias e os conluios politiqueiros quase sempre acabam soterrando os nobres ideais. Acima de tudo, o PPP tenta evitar ofender os chefes de tribo do Baluchistão, uma província que contribuiu de maneira decisiva para a eleição, em 6 de setembro, de Asif Ali Zardari, o viúvo de Benazir, para a presidência do Estado.

Contudo, o jornalista Rauf Klasra insiste em prosseguir até o fim a tarefa que lhe foi confiada. "É uma história de enorme importância, mas eu estava com medo de que ela acabasse sendo esquecida", explica, "isso porque os nossos dirigentes políticos fingiam não terem interesse nela". Portanto, o investigador do "The News" mantém a pressão, e segue revelando cada novo indício que ele encontra. O seu trabalho acaba encontrando uma receptividade inesperada no Senado, em 29 de agosto, quando, respondendo a uma interpelação de uma eleita a respeito do drama de Baba Kot, Mir Israhullah Zehri, um representante de um partido nacionalista do Baluchistão, apresenta como argumento uma justificativa cultural dos "crimes de honra". "Estas são tradições que remontam a muitos séculos", argumenta, "e eu sempre lutarei em favor da sua manutenção". No hemiciclo, protestos são ouvidos por todos os lados. A televisão filma esta altercação incomum e, assim fazendo, confere uma dimensão nacional para o caso.

"Tudo mudou de figura a partir do momento em que os canais de televisão transmitiram este incidente no Senado", decifra Rauf Klasra. "Num país como o Paquistão, onde a taxa de analfabetismo é muito elevada (70%), a imprensa escrita tem pouca repercussão. Uma vez que as emissoras de TV começaram a cobrir o caso, os dirigentes políticos foram obrigados a reagirem". O Paquistão deixou de ser verdadeiramente o mesmo desde que os canais privados floresceram, aproveitando-se da desregulamentação do setor audiovisual, uma herança paradoxal do reinado militar (1999-2008) do ex-presidente Pervez Musharraf.

Com isso, o silêncio constrangido deu lugar repentinamente para a indignação virtuosa. O Senado federal e a assembléia provincial do Sind adotaram resoluções denunciando o assassinato coletivo de Baba Kot. Nunca ninguém tinha visto coisa igual na história do Paquistão! Nunca um "crime de honra" havia provocado uma emoção tão grande, nas mais altas esferas do Estado. "Está havendo um verdadeiro processo de conscientização", admite Rauf Klasra.

As próprias feministas reconheceram que o seu combate, que era incompreendido e laborioso cerca de quinze anos atrás, passou a ter uma repercussão crescente na classe política. "Recentemente, comecei a ser convidada para dar palestras na Escola da magistratura", comemora Samar Minullah, uma documentarista antropóloga que se especializou nos "crimes de honra". Daqui para frente, dois Paquistãos estão frente a frente. O dos pretórios e dos hemiciclos; e aquele das tribos. Entre os dois, abriu-se uma profunda vala comum.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

Texto do Le Monde, no UOL.


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sexta-feira, abril 04, 2008

Mulheres Turcas

Feministas turcas criticam o pedido do governo para que tenham mais filhos

O corpo e a imagem da mulher são "campos de batalha ideológicos", afirma a escritora Elif Safak


Ricardo Ginés
Em Istambul


"Se não quisermos que nossa população (turca) diminua, cada família deve ter pelo menos três filhos (...) Cada filho é uma bênção." Por motivo do Dia Internacional da Mulher, o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, de origem islâmica, dirigiu-se assim a seu público em Usak, uma pequena cidade no oeste da Anatólia.

Na declaração, que foi transmitida pouco depois pela rede nacional CNNtürk, Erdogan, com sua tradicional veemência retórica, advertiu sobre o perigo que representa o controle de natalidade, que na sua opinião "deseja acabar com a nação turca". A verdade é que, com uma idade média de 28,3 anos, a Turquia é um país jovem em comparação com outros europeus.

Em todo caso, e como é habitual em seus discursos pronunciados na Anatólia e não para a galeria diplomática, Erdogan fez uma separação populista entre "eles", o Ocidente, e "nós", muçulmanos.

A reação por parte de associações feministas e de mulheres críticas ao governo não demorou. "Tayyp, dê à luz você e cuide das crianças, nós seremos primeiras-ministras", "Queremos trabalho! Erdogan quer que fiquemos em casa!", entoavam em coro muitas das mulheres nos protestos por seus direitos que ocorreram em toda a Turquia e reuniram milhares de manifestantes.

O jornal liberal "Taraf" assumiu o posto no dia seguinte e deu lugar a análises sobre se na Turquia não seria melhor transformar o Dia da Mulher em Dia da Natalidade. Outros meios de comunicação laicos, a maioria e de maior peso na Turquia, foram menos irônicos e salientaram de forma muito crítica a retórica "que infunde medo", como criticou o jornal "Milliyet".

Desde que o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) chegou ao governo, em 2002, sua legislatura foi marcada, principalmente nos primeiros dois anos, por um fortalecimento democrático -o que é exigido pela União Européia no caminho de acesso- e que foi e é apoiado pelo setor liberal da sociedade civil, minoritário mas importante.

O setor mais laicista, porém, receia as verdadeiras intenções do gabinete liderado por Erdogan e vê no caminho europeu uma simples estratégia para erodir e eliminar o controle do exército, autoproclamado guardião das essências kemalistas [de Kemal Ataturk, o "pai da pátria"].

No calor da discussão, como afirma a escritora turca Elif Safak, o corpo e a imagem da mulher se transformaram em "campos de batalha ideológicos". A afirmação foi referendada pelas caricaturas das mulheres com véus nos veículos mais laicos turcos, que no ano passado lembraram a estigmatização discriminatória das que não o usavam no vizinho Irã.

O véu islâmico se transformou assim no símbolo chave da feminilidade turca, instrumentalizado pela classe política de várias tendências.

O xis da questão é se é verdadeira ou não a vinheta do jornal "Milliyet" do final de fevereiro em que uma mulher vestida de maneira estritamente islâmica carrega um cartaz que diz "Desejo liberdade para minha religião que limita minha liberdade".
Como regra geral, as mulheres turcas que usam véu trabalham menos fora de casa, são mais reclusas e têm maior descendência que suas compatriotas. Mas também entre elas se encontra por exemplo Songül Dogan, célebre por tentar atacara um centro comercial com turbante e pistola.

Uma coisa é indiscutível: para as mulheres dos políticos do AKP, o véu islâmico representou, como regra geral e apesar do elevado nível médio de educação, um primeiro passo para sua atual reclusão como donas de casa. E é no lar matrimonial que 51% das mulheres turcas, usando o véu ou não, sofrem a violência doméstica, segundo um estudo do Worldwatch Institute.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Texto do La Vanguardia. Publicado no UOL.

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