quarta-feira, julho 28, 2010

No Paquistão, elite isenta-se de impostos

No Paquistão, elite isenta-se de impostos

Por SABRINA TAVERNISE

ISLAMABAD, Paquistão - Na maior parte da capital do Paquistão, veículos esportivo-utilitários passam por portões reforçados de residências elegantes com vários andares, que são cuidadas por criados. A roupa lavada nunca é pendurada do lado de fora para secar.
Mas, por trás da opulência, espreita um fato perturbador. Muito poucas dessas famílias pagam Imposto de Renda. Isso ocorre principalmente porque os políticos que fazem as regras também são os cidadãos mais ricos do país e são tarimbados em encontrar maneiras de se isentar.
"É um país muito bom para o homem rico", disse Shabbar Zaidi, sócio da firma de contabilidade A.F. Ferguson & Company, em Karachi. "Motoristas, empregados, casas grandes. A pergunta é: quem está pagando? O homem comum."
Isso seria um problema em qualquer país. Mas, no Paquistão, a falta de um sistema fiscal eficaz alimenta algo mais ameaçador: uma crescente desigualdade na sociedade paquistanesa, onde a riqueza de seus membros mais poderosos nunca é redistribuída ou aplicada em algo que reverta ao bem comum. Isso cria condições que ajudam a disseminar a insurgência que atormenta o país e complica a política americana na região.
Também é um triste desempenho para um país que está entre os maiores receptores de ajuda americana, pagamentos de bilhões de dólares que sustentam as finanças do país e deveriam ajudar seus líderes a combater a rebelião.
Embora as autoridades tenham tentado expandir a rede nos últimos anos, taxando os lucros dos mercados de ações e imóveis, setores inteiros da economia continuam isentos, como a agricultura, um grande gerador de dinheiro para a elite.
"Este é um sistema da elite, pela elite e para a elite", diz Riyaz Hussain Naqvi, autoridade aposentada que trabalhou na coleta de impostos durante 38 anos. "É um sistema corrupto em que o homem pobre subsidia o rico."
O custo médio dos parlamentares paquistaneses é de US$ 900 mil, com os deputados mais ricos superando US$ 37 milhões, segundo estudo de dezembro do Instituto Paquistanês de Desenvolvimento Legislativo e Transparência.
Enquanto a receita fiscal do Paquistão em 2009 foi a menor da história do país, segundo Zafar ul-Majeed, diretor da Câmara Federal de Receita, os ativos dos atuais deputados quase duplicaram em relação aos dos membros do Parlamento anterior, revelou o estudo.
"Os impostos são o calcanhar de aquiles dos políticos paquistaneses", disse Jahangir Tareen, empresário e deputado que tenta colocar os impostos na agenda pública. Ele pagou US$ 225,5 mil em IR em 2009, número que divulgou no Parlamento no mês passado. "Se você não tem renda, está bem, mas depois não apareça dirigindo um Land Cruiser."
As regras definem que qualquer pessoa que ganhar mais de US$ 3.488 por ano deve pagar IR, mas poucas o fazem. Tareen disse que, quando ele tentou pagar pela primeira vez, os coletores se recusaram a aceitar, por não querer perturbar o status quo. Ele teve de escrever uma carta a uma autoridade superior para que fosse aceito.
Akbar Zaidi, economista baseado em Karachi, estima que 10 milhões de paquistaneses deveriam pagar Imposto de Renda, mas só 2,5 milhões estão registrados.
Zaidi culpa os EUA e suas constantes ajudas ao Paquistão. "Os americanos deveriam dizer: 'Basta. Resolvam a coisa vocês mesmos. Ponham sua casa em ordem primeiro'", afirmou. "Mas vocês [EUA} são covardes. Têm medo de aproveitar essa oportunidade."
Os coletores de impostos tentam ser duros. Quando Naqvi chefiou a autoridade fiscal, ele tentou realizar uma ampla auditoria, provocando uivos de protesto.
Majeed disse que seus coletores hoje usam as contas individuais de eletricidade para localizar os evasores ricos, supondo que contas altas significam o uso de ar condicionado, o que representa riqueza. Eles recentemente emitiram centenas de avisos para casas ricas em Islamabad. Mas perseguir os políticos é complicado, disse Majeed. "Pelo menos enquanto eles estão no poder", agregou, sorrindo.
Sem vontade política para coletar o IR, o Paquistão recorre a medidas mais fáceis, como um imposto sobre consumo considerado menos justo porque atinge os pobres tanto quanto os ricos.
Muhamed Azhar, 26, motorista em Karachi que tem um salário mensal de US$ 123, paga o mesmo imposto sobre consumo que um membro do Parlamento que ganha US$ 1.400 por mês mais benefícios. Os ganhos com imóveis e terra raramente são declarados.
"Os grandes que nos governam têm casas e empregados e deveriam pagar impostos", disse Azhar, observando a fila de veículos caros que passam a caminho do Parlamento.

Colaborou Salman Masood

Notícia do The New York Times, reproduzida na Folha de São Paulo, de 26 de julho de 2010.

Ou seja, este tipo de coisa não acontece apenas no Brasil...

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quarta-feira, agosto 26, 2009

Latifúndios do Paquistão

Autor traz a público feudalismo paquistanês

Por SABRINA TAVERNISE

MUEENABAD, Paquistão - Em meio ao calor da região central do Paquistão, há um mundo oculto de servos, senhores feudais, pobreza e corrupção. Essas vidas, escondidas por trás de grandes propriedades ou aldeias com casas de barro, raramente são vistas por estrangeiros. Mas Daniyal Mueenuddin, escritor paquistanês-americano que vive ali, as trouxe à tona na coletânea de contos "In Other Rooms, Other Wonders" ("Em outros quartos, outras maravilhas").
São retratos intimistas que despertam algumas das maiores questões do Paquistão atual. Por que uma pequena elite ainda controla enormes pedaços de terra, mais de 60 anos depois da independência do país?
Por quanto tempo os latifundiários continuarão controlando a vida de camponeses do mesmo modo que os colonizadores britânicos faziam?
Mueenuddin, 46, oferece uma paisagem ricamente observada. A propriedade onde ele vive com a sua esposa, no sul do Punjab, pertenceu a seu pai, um funcionário público paquistanês, e ele costumava ir ao local quando criança.
Seus pais se conheceram na década de 1950, nos EUA. O pai dele negociava um tratado, e a mãe era uma jovem repórter do "Washington Post". Eles se mudaram para o Paquistão, mas ela logo levou os filhos de volta para os EUA, quando Mueenuddin tinha 13 anos. Ele voltou ao Paquistão depois da faculdade, em 1987, como aspirante a escritor. Deparou-se com um decadente sistema da era colonial, ao qual os proprietários -sua família- havia muito já não prestavam atenção. Administradores estavam se apropriando das terras e cultivando suas próprias lavouras.
Mueenuddin rapidamente se tornou parte do Paquistão em mutação que ele queria captar na ficção. Os administradores da propriedade eram poderosos quando ele chegou, e tirá-los da gestão da fazenda seria um procedimento delicado. Ele dormia com uma arma e temia que sua comida fosse envenenada. "Ocorreu-me que eles poderiam me matar", afirmou.
Lentamente, ele recuperou a fazenda, que atualmente prospera com a produção de manga, cana-de-açúcar e algodão.
Os personagens da sua ficção são convincentemente locais: administradores rurais corruptos, filhos mimados de latifundiários ricos e criadas desesperadas para melhorar sua posição na vida.
Os contos exploram a dinâmica de poder entre servos e seus senhores. Mueenuddin argumenta que sua atividade rural prospera porque ele trata seus trabalhadores com justiça. Paga-lhes US$ 84 por mês, mais que o triplo do valor corrente.
No Paquistão, os latifundiários raramente se envolvem detalhadamente nos negócios de suas fazendas, e os trabalhadores recebem em média US$ 25 por mês. "Eles não entendem sua própria gente", disse Mueenuddin, referindo-se à classe ruralista. "A hierarquia está tão introjetada neles que eles se comportam como superiores."
Mas o elenco de personagens está mudando, algo que a prosa de Mueenuddin capta. Os administradores rurais, que são os funcionários mais poderosos, agora participam da política em alguns lugares. Mas, em vez de tornar o sistema mais justo, diz o escritor, eles aproveitam a chance para lucrar.
Enquanto isso, a pobreza se torna mais pronunciada. E os mulás da escola fundamentalista Deobandi se tornaram poderosos no sul do Punjab, difundindo uma mensagem antixiita e anti-Estado.
Tal difusão atingiu Mueenuddin. Um grupo religioso estava construindo uma mesquita ao lado de sua propriedade, e um dia um jovem gritou para ele: "A primeira coisa que você vai perceber é uma bala atingindo-o na testa".
Ele mandou que um muro fosse construído no limite da propriedade. "As pessoas estão cada vez mais desesperadas", disse.

Texto do The New York Times, publicado na Folha de São Paulo, de 10 de agosto de 2009.


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quarta-feira, junho 10, 2009

29/05/2009: Notícias de um Paquistão em chamas

Taleban ameaça novos atentados em grandes cidades paquistanesas

Em retaliação à ofensiva no Swat, grupo assume autoria de ataque contra base do serviço secreto e promete mais terror antes de explosões em série matarem 13

DA REDAÇÃO

No mesmo dia em que assumiu a autoria do atentado contra o complexo de segurança de Lahore, que deixou 30 mortos anteontem, o Taleban ameaçou atacar grandes cidades paquistanesas em retaliação à ofensiva do Exército na região do vale do Swat.
Horas depois, explosões sequenciais mataram 13 paquistaneses e feriram cerca de cem pessoas em dois pontos do país.
Um líder regional do Taleban exortou moradores de quatro cidades, entre elas Lahore (segunda maior do país) e a capital, Islamabad, a abandonarem suas casas, como fizeram os habitantes do Swat e distritos vizinhos. Desde o início do mês, quando foi deflagrada a operação contra o Taleban, 2,4 milhões de civis fugiram da região, segundo estimativa da ONU.
"Queremos que o povo de Lahore, Rawalpindi, Islamabad e Multan deixe essas cidades, pois planejamos grandes ataques nos próximos dias", ameaçou Hakimullah Mehsud, um dos líderes da facção paquistanesa do Taleban, à Reuters.
"Nosso alvo são as Forças de Segurança, que estão matando inocentes no Swat e em áreas vizinhas", afirmou Mehsud, que disse lamentar a morte de civis no atentado de Lahore.
A ofensiva contra o Taleban, lançada em resposta ao avanço do grupo nas cercanias da capital paquistanesa, já provocou 1.190 baixas entre os insurgentes, estima o Exército. Não há dados sobre as vítimas civis.
Apesar da promessa de poupar civis feita por Mehsud, duas bombas explodiram no final da tarde em um mercado de Peshawar, capital da conflagrada Província da Fronteira Noroeste, vizinha ao Afeganistão. Foi o atentado mais violento do dia, que matou ao menos seis pessoas e feriu cerca de 70.
"Foi um estouro repentino. Tudo em volta pegou fogo, e uma nuvem de fumaça tomou o céu", descreveu o lojista Khair Uddin, atingido nas mãos e peito por estilhaços. Dois suspeitos de planejar o atentado morreram baleados por policiais, e outro foi detido no local.
Menos de meia hora depois do ataque ao mercado, um homem-bomba explodiu um posto de controle na entrada da cidade, matando quatro policiais.
Em Dera Ismail Khan, um ataque ao posto próximo à prefeitura matou um policial, dois civis e deixou 16 feridos.
As ameaças não vão barrar o cerco ao Taleban no Swat, segundo o Exército paquistanês. O governo provincial anunciou ontem que 90 mil alunos do Swat, Dir e Bunner passarão de ano na escola sem realizar os exames finais, indicando que não há previsão para o fim dos combates.
Os militares têm planos de expandir operações até o Waziristão, também tomado por insurgentes pashtuns, grupo étnico que habita o cinturão tribal paquistanês e é majoritário no vizinho Afeganistão.
A ofensiva tem respaldo da Casa Branca, que considera a estabilização do Paquistão vital para a segurança afegã.
Removido do poder no Afeganistão com a invasão dos EUA de 2001, o Taleban tem se expandido no Paquistão, onde atua como rede de milícias semiautônomas, chefiadas por líderes tribais pashtuns.


Com agências internacionais

Notícia da Folha de São Paulo, de 29 de maio de 2009.

Risco Paquistão é medido em escala nuclear

CLÓVIS ROSSI
COLUNISTA DA FOLHA

Em conversa com a Folha em Davos, há um ano e meio, o presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, jurava que todos os problemas de seu país estão além-fronteiras, mais exatamente "nos países vizinhos" (ele evidentemente se referia ao Paquistão).
Na época parecia uma maneira simplória de tirar dos ombros o fardo do fracasso em estabilizar o país depois da ocupação por tropas da coalizão liderada pelos EUA.
Continua parecendo escapismo, mas bem menos depois que a guerra permanente na região tornou-se mais intensa no Paquistão. E menos ainda depois do atentado de anteontem em Lahore, cidade-ícone do que há de liberal na cultura paquistanesa e centro de sua comunidade cinematográfica.
É eloquente que Imran Khan, repórter da rede qatariana Al Jazeera, com a experiência da cobertura de 13 atentados na mesma área, diga agora que "o ataque em Lahore tem todas as indicações de algo mais organizado e mais letal".
Combina à perfeição com a avaliação de Karzai à Folha, segundo a qual nem mesmo o Taleban afegão é um problema feito em casa. "A versão nativa dos membros do Taleban não é extremista. São estudantes de escolas religiosas" (o que passa por cima do fato de que as madrassas, as escolas religiosas, são muitas vezes centros de formação de extremistas).
Seja como for, a comunidade acadêmica e diplomática internacional já assumiu uma nova designação para aquele ponto que é o mais explosivo do planeta hoje: Afe-Paqui, para designar o fato de que a crise no Afeganistão é inseparável da crise no Paquistão, mais ou menos nos termos da avaliação do presidente afegão.
Daria até para dizer que a estabilização do Afeganistão depende da estabilização do Paquistão, mas o inverso não é necessariamente verdadeiro. O Paquistão, não o Afeganistão, passou a ser (ou sempre foi, se Karzai tiver razão) a chave da estabilidade no subcontinente indiano.
O repórter da Al Jazeera dá uma ideia do tamanho da encrenca: "O medo agora entre muitos amigos, particularmente aqueles com os quais falei em Lahore, é que, mesmo que o Exército paquistanês vença a batalha pelo vale do Swat, o próprio Paquistão estará em risco".
O Paquistão tem 170 milhões de habitantes -é o sétimo país mais povoado do planeta. Tem pouco menos de 1 milhão de homens nas Forças Armadas, a sétima maior potência militar do mundo. Como se não bastasse, possui armas atômicas.

Comentário na Folha de São Paulo (29/05/2009), sobre o mesmo assunto.


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quarta-feira, outubro 01, 2008

Um crime bárbaro em nome da tradição

No Paquistão, um crime bárbaro em nome da tradição

Frédéric Bobin
Em Islamabad (Paquistão)


Eram três irmãs, com idades de 16 a 18 anos. Hameeda, Ruqqaya e Raheena viviam em Baba Kot, uma aldeia no Baluchistão, uma província árida situada no sudoeste do Paquistão, nos confins do Irã e do Afeganistão, lá onde a terra se resume a areia, pedras e rochas buriladas pelo vento. Elas morreram enterradas vivas numa vala comum. Foram vítimas de um "crime de honra" que, pela sua selvageria inédita, vem assombrando as consciências nestas últimas semanas por todo o Paquistão, onde a população geralmente aceita sem problema esses assassinatos que são práticas costumeiras ancestrais.

Hameeda, Ruqqaya e Raheena foram assassinadas em nome da tradição. Elas cometeram o crime de querer casar-se com o homem da sua escolha, e não com os primos que a tribo - dos umrani - havia indicado para elas. O que aconteceu realmente em 14 de julho, naquele dia funesto em que o crime foi perpetrado? Uma sucessão de fatos delineou-se em função das indicações que foram publicadas pela imprensa paquistanesa. Em 13 de julho, as três jovens mulheres haviam deixado sua aldeia de Baba Kot a bordo de um táxi, acompanhadas pela sua mãe e por uma tia. O grupo dirigiu-se na direção de Usta Mohammad, um vilarejo situado a 80 km, onde Hameeda, Ruqqaya e Raheena queriam comparecer no tribunal civil local para se casarem com os homens que haviam escolhido.

A escapada revelaria ser breve e, sobretudo, fatal. Mal haviam chegado a Usta Mohammad, as cinco mulheres foram raptadas por um comando de homens da tribo umrani que as perseguiam desde a sua partida. Elas tinham vilipendiado a ordem ancestral, que sujeita as moças às estratégias matrimoniais do clã, e, portanto, elas precisavam ser castigadas. Elas foram então embarcadas á força - sob a ameaça de fuzis - dentro da van Land Cruiser dos seus seqüestradores, que as conduziram de volta para a aldeia familiar de Baba Kot. Lá, uma jirga - assembléia de notáveis - estava à sua espera, solenemente convocada para decidir sobre as sanções a serem aplicadas contra elas. Prometeram-lhes uma morte muito especial. Esta seria precedida por um pavoroso suplício que deveria servir de lição para todas as outras moças da comunidade.

No dia seguinte, conduzem as cinco condenadas até a parte central de uma área deserta. Os carrascos da tribo levaram consigo uma escavadeira. A máquina começa a cavar uma fossa. Então, o motorista que está nos comandos do buldôzer aciona a lâmina dentada. Ele a dirige sobre as mulheres que estão amarradas e alinhadas. A ferramenta funciona como uma faca gigante que tritura sua carne, seus ossos, seu crânio. Depois disso, uma rajada de tiros de fuzil as ceifa. A escavadeira empurra então os corpos martirizados para dentro da vala que se tornaria o seu túmulo. Elas sangram em abundância, mas, conforme relatarão mais tarde os jornalistas paquistaneses, elas ainda não haviam sucumbido aos seus ferimentos quando os torturadores começaram a cobri-las com areia e pedras.

Mulheres foram enterradas vivas no Baluchistão! O que saberíamos hoje a respeito deste crime bárbaro se a sociedade civil paquistanesa, ajudada pelos seus veículos de comunicação audaciosos e suas associações feministas inconformadas, não tivesse se mobilizado para evitar que as supliciadas de Baba Kot fossem enterradas uma segunda vez? A informação veio à tona em 24 de julho, graças a um corajoso jornalista local, um correspondente do diário em língua urdu "Jang", que trabalha na sucursal de Quetta, a capital do Baluchistão. O artigo não oferece muitos detalhes e não cita nome algum, mas o seu autor não demora a receber ameaças de morte por parte da tribo umrani.

Justificativa cultural

A partir daquele momento, é na cidade de Islamabad, a capital do país, onde muitas mentes esclarecidas já se mobilizaram, que o combate jornalístico começa a ser orquestrado. O diário em inglês "The News" se destaca nessa tarefa. Ele confia para Rauf Klasra, um jornalista de investigação acostumado com os escândalos financeiros, a missão de desembaralhar o fio da meada deste "crime de honra", que uma conspiração do silêncio parece querer abafar. A polícia do Baluchistão não toma iniciativa alguma, porque personalidades locais de peso estão envolvidas no crime. A Land Cruiser que permitiu seqüestrar as cinco mulheres tinha uma placa oficial que é reservada exclusivamente para os veículos do governo do Baluchistão.

Segundo apontaram várias testemunhas, o instigador do assassinato seria Abdul Sattar Umrani, que não é ninguém mais que o irmão de Sadiq Umrani, o ministro da habitação do governo do Baluchistão, um respeitado membro do Partido do Povo Paquistanês (PPP), o partido do clã dos Bhutto que está atualmente no poder no Paquistão. Por mais que o movimento que foi liderado durante mais de duas décadas por Benazir Bhutto (assassinada no final de 2007) se valha de um progressismo teórico em relação à questão dos direitos das mulheres, as tramóias e os conluios politiqueiros quase sempre acabam soterrando os nobres ideais. Acima de tudo, o PPP tenta evitar ofender os chefes de tribo do Baluchistão, uma província que contribuiu de maneira decisiva para a eleição, em 6 de setembro, de Asif Ali Zardari, o viúvo de Benazir, para a presidência do Estado.

Contudo, o jornalista Rauf Klasra insiste em prosseguir até o fim a tarefa que lhe foi confiada. "É uma história de enorme importância, mas eu estava com medo de que ela acabasse sendo esquecida", explica, "isso porque os nossos dirigentes políticos fingiam não terem interesse nela". Portanto, o investigador do "The News" mantém a pressão, e segue revelando cada novo indício que ele encontra. O seu trabalho acaba encontrando uma receptividade inesperada no Senado, em 29 de agosto, quando, respondendo a uma interpelação de uma eleita a respeito do drama de Baba Kot, Mir Israhullah Zehri, um representante de um partido nacionalista do Baluchistão, apresenta como argumento uma justificativa cultural dos "crimes de honra". "Estas são tradições que remontam a muitos séculos", argumenta, "e eu sempre lutarei em favor da sua manutenção". No hemiciclo, protestos são ouvidos por todos os lados. A televisão filma esta altercação incomum e, assim fazendo, confere uma dimensão nacional para o caso.

"Tudo mudou de figura a partir do momento em que os canais de televisão transmitiram este incidente no Senado", decifra Rauf Klasra. "Num país como o Paquistão, onde a taxa de analfabetismo é muito elevada (70%), a imprensa escrita tem pouca repercussão. Uma vez que as emissoras de TV começaram a cobrir o caso, os dirigentes políticos foram obrigados a reagirem". O Paquistão deixou de ser verdadeiramente o mesmo desde que os canais privados floresceram, aproveitando-se da desregulamentação do setor audiovisual, uma herança paradoxal do reinado militar (1999-2008) do ex-presidente Pervez Musharraf.

Com isso, o silêncio constrangido deu lugar repentinamente para a indignação virtuosa. O Senado federal e a assembléia provincial do Sind adotaram resoluções denunciando o assassinato coletivo de Baba Kot. Nunca ninguém tinha visto coisa igual na história do Paquistão! Nunca um "crime de honra" havia provocado uma emoção tão grande, nas mais altas esferas do Estado. "Está havendo um verdadeiro processo de conscientização", admite Rauf Klasra.

As próprias feministas reconheceram que o seu combate, que era incompreendido e laborioso cerca de quinze anos atrás, passou a ter uma repercussão crescente na classe política. "Recentemente, comecei a ser convidada para dar palestras na Escola da magistratura", comemora Samar Minullah, uma documentarista antropóloga que se especializou nos "crimes de honra". Daqui para frente, dois Paquistãos estão frente a frente. O dos pretórios e dos hemiciclos; e aquele das tribos. Entre os dois, abriu-se uma profunda vala comum.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

Texto do Le Monde, no UOL.


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sábado, outubro 20, 2007

Benazir Bhutto Recebida com Fogos em Karachi

A ex-primeira-ministra do Paquistão foi recebida com fogos ontem ao chegar a seu país, após um exílio iniciado quando o general Musharraf deu o golpe de estado que lhe permitiu governar o país, a partir de 1999.
Brincadeiras a parte, o Paquistão é um país em ebulição, uma autêntica panela de pressão, e isso não é de hoje. Mas a pressão parece que tem aumentado desde os atentados contra os Estados Unidos, em 2001, e a retaliação deste país, invadindo o Afeganistão no final daquele ano. O atentado contra a ex-primeira-ministra é mais um capítulo da violência política do Paquistão, país que nasceu da reivindicação de alguns líderes islâmicos da criação de um estado islâmico para os muçulmanos que viviam na então colônia britânica da Índia. Esta reivindicação levou a massacres, e ao deslocamento de milhões de homens e mulheres no subcontinente indiano, quando os britânicos foram embora. Desde então Paquistão e Índia já estiveram em guerra aberta três vezes. Nos anos 1980, com a ajuda dos Estados Unidos, o serviço secreto paquistanês ajudou a combater a ocupação soviética no Afeganistão, treinando guerrilheiros e fornecendo apoio logístico. Quando os soviéticos abandonaram o Afeganistão e o país entrou em uma guerra civil generalizada, o mesmo serviço secreto paquistanês fortaleceu o Taleban, até que este prevalecesse sobre quase todo o Afeganistão. De quebra, na década de 1990, o Paquistão ainda explodiu uma bomba atômica, o que lhe valeu embargo econômico por parte dos Estados Unidos até 2001 (levantado também por conta da invasão do Afeganistão).
Desde a sua fundação, o Paquistão tem alternado entre governos parlamentares civis, que são acusados de corrupção e depostos por militares. O atual presidente, o general Musharraf chegou ao poder depondo o ex-primeiro-ministro Narwaz Sharif, que permanece exilado. Benazir Bhutto é filha de Ali Bhutto, primeiro-ministro que foi deposto e enforcado pelo general Zia Ul-Haq, que tomou o poder nos anos 1970. O general Zia Ul-Haq morreu na queda de seu helicóptero...
País explosivo! Faz tempo.

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quinta-feira, outubro 04, 2007

Mianmar Livre! E o Paquistão?...

Em tempo: este blogueiro consultou o Sr. Google e não encontrou nenhum linque concentrador pedindo liberdade para o povo do Paquistão. Isto na primeira página da pesquisa. Já para pedir liberdade para o povo de Mianmar aparecem vários linques na primeira página.

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