terça-feira, março 02, 2010

Vítimas do Islã radical - Os mártires modernos do cristianismo

Vítimas do Islã radical - Os mártires modernos do cristianismo



Juliane Von Mittelstaedt, Christoph Schult, Daniel Steinvorth, Thilo Thielke, Volkhard Windfuhr



A ascensão do extremismo islâmico coloca uma pressão cada vez maior sobre os cristãos que vivem em países muçulmanos, que são vítimas de assassinatos, violência e discriminação. Os cristãos agora são considerados o grupo religioso mais perseguido em todo o mundo. Paradoxalmente, sua maior esperança vem do Islã politicamente moderado.



Kevin Ang é mais cauteloso hoje em dia. Ele espia ao redor, dá uma olhada para a esquerda para a longa fileira de lojas, e depois para a direita em direção à praça, para checar se não há ninguém por perto. Só então o zelador da igreja tira sua chave, destranca o portão, e entra na Igreja Metro Tabernacle num subúrbio de Kuala Lumpur.



A corrente de ar vira páginas queimadas da Bíblia. As paredes estão cobertas de fuligem e a igreja cheira a plástico queimado. A Igreja Metro Tabernacle foi a primeira de onze igrejas a serem incendiadas por muçulmanos revoltados – tudo por causa de uma palavra: “Alá”, sussurra Kevin Ang.



Tudo começou com uma questão – se os cristãos daqui, assim como os muçulmanos, poderiam chamar seu deus de “Alá”, uma vez que eles não têm nenhuma outra palavra ou língua à sua disposição. Os muçulmanos alegam que Alá é deles, tanto a palavra quanto o deus, e temem que se os cristãos puderem usar a mesma palavra para seu próprio deus, isso poderia desencaminhar os fiéis muçulmanos.



Durante três anos isto era proibido e o governo confiscou Bíblias que mencionavam “Alá”. Então, em 31 de dezembro do ano passado, o mais alto tribunal da Malásia chegou a uma decisão: o deus cristão também poderia ser chamado de Alá.



Os imãs protestaram e cidadãos enfurecidos jogaram coquetéis Molotov nas igrejas. Então, como se isso não bastasse, o primeiro-ministro Najib Razak declarou que não podia impedir as pessoas de protestarem contra determinados assuntos no país – e alguns interpretaram isso como um convite para a ação violenta. Primeiro as igrejas foram incendiadas, depois o outro lado revidou colocando cabeças de porcos na frente de duas mesquitas. Entre os habitantes da Malásia, 60% são muçulmanos e 9% são cristãos, com o restante composto por hindus, budistas e sikhs. Eles conseguiram viver bem juntos, até agora.



É um batalha por causa de uma única palavra, mas há muito mais envolvido. O conflito tem a ver com a questão de quais direitos a minoria cristã da Malásia deve ter. Mais que isso, é uma questão política. A Organização Nacional dos Malaios Unidos, no poder, está perdendo sua base de apoio para os islamitas linha dura – e quer reconquistá-la por meio de políticas religiosas.



Essas políticas estão sendo bem recebidas. Alguns dos Estados da Malásia interpretam a Sharia, o sistema islâmico de lei e ordem, de forma particularmente rígida. O país, que já foi liberal, está a caminho de abrir mão da liberdade religiosa – e o conceito de ordem está sendo definido de forma cada vez mais rígida. Se uma mulher muçulmana beber cerveja, ela pode ser punida com seis chibatadas. Algumas regiões também proíbem coisas como batons chamativos, maquiagem pesada, ou sapatos de salto alto.



Expulsos, sequestrados e mortos


Não só na Malásia, mas em muitos países em todo o mundo muçulmano, a religião ganhou influência sobre a política governamental nas últimas duas décadas. O grupo militante islâmico Hamas controla a Faixa de Gaza, enquanto milícias islamitas lutam contra os governos da Nigéria e Filipinas. Somália, Afeganistão, Paquistão e Iêmen caíram, em grande extensão, nas mãos dos islamitas. E onde os islamitas não estão no poder hoje, os partidos seculares no governo tentam ultrapassar os grupos mais religiosos assumindo uma tendência de direita.



Isso pode ser visto de certa forma no Egito, Argélia, Sudão, Indonésia, e também na Malásia. Embora a islamização frequentemente tenha mais a ver com política do que com religião, e embora não leve necessariamente à perseguição de cristãos, pode-se dizer ainda assim que, onde quer que o Islã ganhe importância, a liberdade para membros de outras crenças diminui.



Há 2,2 bilhões de cristãos em todo o mundo. A organização não-governamental Open Doors calcula que 100 milhões de cristãos são ameaçados ou perseguidos. Eles não têm permissão para construir igrejas, comprar Bíblias ou conseguir empregos. Esta é a forma menos ofensiva de discriminação e afeta a maioria desses 100 mil cristãos. A versão mais bruta inclui extorsão, roubo, expulsão, sequestro e até assassinato.



Margot Kässmann, que é bispo e foi chefe da Igreja Protestante na Alemanha antes de deixar o cargo em 24 de fevereiro, acredita que os cristãos são “o grupo religioso mais perseguido globalmente”. As 22 igrejas regionais alemãs proclamaram este domingo como o primeiro dia de homenagem aos cristãos perseguidos. Kässmann disse que queria mostrar solidariedade para com outros cristãos que “têm grande dificuldade de viver de acordo com sua crença em países como a Indonésia, Índia, Iraque ou Turquia”.



Há exemplos contrários, é claro. No Líbano e na Síria, os cristãos não são discriminados, e, na verdade, desempenham um papel importante na política e na sociedade. Além disso, a perseguição contra os cristãos não é de forma alguma um domínio exclusivo dos fanáticos muçulmanos – os cristãos também são presos, agredidos e assassinados em países como o Laos, Vietnã, China e Eritreia.



“Lento genocídio” contra os cristãos


A Open Doors edita um “índice de perseguição” global. A Coreia do Norte, onde dezenas de milhares de cristãos estão presos em campos de trabalho forçado, esteve no topo da lista por muitos anos. Ela é seguida pelo Irã, Arábia Saudita, Somália, Maldivas e Afeganistão. Entre os dez primeiros países da lista, oito são islâmicos, e quase todos têm o Islã como sua religião oficial



A perseguição sistemática de cristãos no século 20 – por comunistas na União Soviética e na China, mas também pelos nazistas – custou muito mais vidas do que qualquer outra coisa que tenha acontecido até o momento no século 21. Agora, entretanto, não são apenas os regimes totalitários que perseguem os cristãos, mas também moradores de Estados islâmicos, fundamentalistas fanáticos, e seitas religiosas – e com frequência simples cidadãos considerados fiéis.



Foi-se a era da tolerância, em que os cristãos, chamados de “Povo do Livro”, desfrutavam de um alto grau de liberdade religiosa sob a proteção de sultões muçulmanos, enquanto a Europa medieval bania judeus e muçulmanos do continente ou até mesmo os queimava vivos. Também se foi o apogeu do secularismo árabe pós 2ª Guerra Mundial, quando árabes cristãos avançaram nas hierarquias políticas.



À medida que o Islã político ficou mais forte, a agressão por parte de devotos deixou de se concentrar apenas nos regimes políticos corruptos locais, mas também e cada vez mais contra a influência ostensivamente corrupta dos cristãos ocidentais, motivo pelo qual as minorias cristãs foram consideradas responsáveis. Uma nova tendência começou, desta vez com os cristãos como vítimas.



No Iraque, por exemplo, grupos terroristas sunitas perseguem especialmente pessoas de outras religiões. O último censo do Iraque em 1987 mostrou que havia 1,4 milhão de cristãos vivendo no país. No começo da invasão norte-americana em 2003, eles eram 550 mil, e atualmente o número está está pouco abaixo dos 400 mil. Os especialistas falam num “lento genocídio”.



“As pessoas estão morrendo de medo”


A situação na região da cidade de Mosul, no norte do Iraque, é especialmente dramática. A cidade de Alqosh fica no alto das montanhas sobre Mosul, a segunda maior cidade iraquiana. Bassam Bashir, 41, pode ver sua antiga cidade natal quando olha pela janela. Mosul fica a apenas 40 quilômetros dali, mas é inacessível. A cidade é mais perigosa que Bagdá, especialmente para homens como Bassam Bashir, um católico caldeu, professor e fugitivo dentro de seu próprio país.



Desde o dia em que a milícia sequestrou seu pai de sua loja, em agosto de 2008, Bashir passou a temer por sua vida e pela vida de sua família. A polícia encontrou o corpo de seu pai dois dias depois no bairro de Sinaa, no rio Tigre, perfurado por balas. Não houve nenhum pedido de resgate. O pai de Bashir morreu pelo simples motivo de ser cristão.



E ninguém afirma ter visto nada. “É claro que alguém viu alguma coisa”, diz Bashir. “Mas as pessoas em Mosul estão morrendo de medo.”

Uma semana depois, integrantes da milícia cortaram a garganta do irmão de Bashir, Tarik, como num sacrifício de ovelhas. “Eu mesmo enterrei meu irmão”, explica Bashir. Junto com sua mulher Nafa e suas duas filhas, ele fugiu para Alqosh no mesmo dia. A cidade está está cercada por vinhedos e uma milícia cristã armada vigia a entrada.



Aprovação tácita do Estado


Os familiares de Bashir não foram os únicos a se mudar para Alqosh à medida que a série de assassinatos continuou em Mosul. Dezesseis cristãos foram mortos na semana seguinte, e bombas explodiram em frente às igrejas. Homens que passavam de carro gritaram para os cristãos que eles podiam escolher – ou saíam de Mosul ou se convertiam ao Islã. Das 1.500 famílias cristãs da cidade, apenas 50 ficaram. Bassam Bashir diz que não voltará antes de lamentar a morte de seu pai e seu irmão em paz. Outros que perderam totalmente a esperança fugiram para países vizinhos como a Jordânia e muitos mais foram para a Síria.



Em muitos países islâmicos, os cristãos são perseguidos menos brutalmente do que no Iraque, mas não menos efetivamente. Em muitos casos, a perseguição têm a aprovação tácita do governo. Na Argélia, por exemplo, ela tomou a forma de notícias de jornal sobre um padre que tentou converter muçulmanos ou insultou o profeta Maomé – e que divulgaram o endereço do padre, numa clara convocação para a população fazer justiça com as próprias mãos. Ou um canal de televisão pública pode veicular programas com títulos como “Nas Garras da Ignorância”, que descreve os cristãos como satanistas que convertem muçulmanos com o auxílio de drogas. Isso aconteceu no Uzbequistão, que está no décimo lugar do “índice de perseguição” da Open Doors.



A blasfêmia também é outra justificativa frequentemente usada. Insultar os valores fundamentais do Islã é uma ofensa passível de punição em muitos países islâmicos. A justificativa é com frequência usada contra a oposição, quer sejam jornalistas, dissidentes ou cristãos. Imran Masih, por exemplo, cristão dono de uma loja em Faisalabad, no Paquistão, foi condenado à prisão perpétua em 11 de janeiro, de acordo com as seções 195A e B do código penal do Paquistão, que tratam do crime de ofender sentimentos religiosos ao dessacralizar o Alcorão. Um outro dono de loja o acusou de queimar páginas do Alcorão. Masih diz que ele queimou apenas documentos antigos da loja.



É um caso típico para o Paquistão, onde a lei contra a blasfêmia parece convidar ao abuso – é uma forma fácil para qualquer um se livrar de um inimigo. No ano passado, 125 cristãos foram acusados de blasfêmia no Paquistão. Dezenas dos que já foram sentenciados estão agora esperando sua execução.



“Não nos sentimos seguros aqui”


A perseguição tolerada pelo governo acontece até mesmo na Turquia, o país mais secular e moderno do mundo muçulmano, onde cerca de 110 mil cristãos representam menos de um quarto de 1% da população – mas são discriminados assim mesmo. A perseguição não é tão aberta ou brutal quanto no vizinho Iraque, mas as consequências são semelhantes. Os cristãos na Turquia, que estavam bem acima dos 2 milhões no século 19, estão lutando para continuar a existir.



É o que acontece no sudeste do país, por exemplo, em Tur Abdin, cujo nome significa “montanha dos servos de Deus”. É uma região montanhosa cheia de campos, picos e vários mosteiros de séculos de existência. O local abriga os assírios sírios ortodoxos, ou arameus, como denominam a si mesmos, membros de um dos grupos cristãos mais antigos do mundo. De acordo com a lenda, foram os três reis magos que levaram o sistema de crenças cristão de Belém para lá. Os habitantes de Tur Abdin ainda falam aramaico, a língua usada por Jesus de Nazaré.



O mundo sabe bem mais sobre o genocídio cometido contra os armênios pelas tropas otomanas em 1915 e 1916, mas dezenas de milhares de assírios também foram assassinados durante a 1ª Guerra Mundial. Estima-se que cerca de 500 mil assírios viviam em Tur Abdin no começo do século 20. Hoje há apenas 3 mil. Um tribunal distrital turco ameaçou, no ano passado, tomar posse do centro espiritual assírio, o mosteiro Mor Gabriel de 1.600 anos de idade, porque acreditava-se que os monges haviam adquirido terras de forma ilegal. Três vilarejos muçulmanos vizinhos reclamaram que sentiam-se discriminados por causa do mosteiro, que abriga quatro monges, 14 freiras e 40 estudantes atrás de seus muros.



“Mesmo que não queira admitir, a Turquia tem um problema com pessoas de outras religiões”, diz Ishok Demir, um jovem suíço de ascendência aramaica, que vive com seus pais perto de Mor Gabriel. “Nós não nos sentimos seguros aqui.”

Mais que qualquer coisa, isso tem a ver com o lugar permanente que os armênios, assírios, gregos, católicos e protestantes têm nas teorias de conspiração nacionalistas do país. Esses grupos sempre foram vistos como traidores, descrentes, espiões e pessoas que insultam a nação turca. De acordo com uma pesquisa feita pelo Centro de Pesquisa Pew, sediado nos EUA, 46% dos turcos veem o cristianismo como uma religião violenta. Num estudo turco mais recente, 42% dos entrevistados disseram que não aceitariam cristãos como vizinhos.

Os repetidos assassinatos de cristãos, portanto, não são uma surpresa. Em 2006, por exemplo, um padre católico foi assassinado em Trabzon, na costa do Mar Negro. Em 2007, três missionários cristãos foram assassinados em Malatya, uma cidade no leste da Turquia. Os responsáveis pelo crime eram nacionalistas radicais, cuja ideologia era uma mistura de patriotismo exagerado, racismo e Islã.



Convertidos correm grande risco


Os muçulmanos que se converteram ao cristianismo, entretanto, enfrentam um perigo ainda maior do que os próprios cristãos tradicionais. A apostasia, ou a renúncia ao Islã, é castigada com a morte de acordo com a lei islâmica – e a pena de morte ainda se aplica no Irã, Iêmen, Afeganistão, Somália, Mauritânia, Paquistão, Qatar e Arábia Saudita.



Até no Egito, um país secular, os convertidos atraem a cólera do governo. O ministro da religião defendeu a legalidade da pena de morte para os convertidos – embora o Egito não tenha uma lei como esta – com o argumento de que a renúncia ao Islã é alta traição. Esses sentimentos fizeram com que Mohammed Hegazy, 27, convertido para a Igreja Cóptica Ortodoxa, passasse a se esconder há dois anos. Ele foi o primeiro convertido no Egito a tentar fazer com que sua religião nova aparecesse oficialmente em sua carteira de identidade expedida pelo governo. Quando seu pedido foi recusado, ele tornou o caso público. Inúmeros clérigos pediram a sua morte em resposta.



Os coptas são a maior comunidade cristã do mundo árabe, e cerca de 8 milhões de egípcios pertencem à Igreja Cóptica. Eles são proibidos de ocupar altas posições no governo, no serviço diplomático e militar, assim como de desfrutar de vários benefícios estatais. As universidades têm cotas para alunos coptas consideradas menores do que a porcentagem que eles representam na população.

Não é permitido construir novas igrejas, e as antigas estão caindo aos pedaços por causa da falta de dinheiro e de permissão para reforma. Quando as meninas são sequestradas e convertidas à força, a polícia não intervém. Milhares de porcos também foram mortos sob o pretexto de combater a gripe suína. Naturalmente, todos os porcos pertenciam a cristãos.



O vírus cristão


Seis coptas foram massacrados em 6 de janeiro – quando os coptas celebram a noite de Natal – em Nag Hammadi, uma pequena cidade 80 quilômetros ao norte do Vale dos Reis. Previsivelmente, o porta-voz da Assembleia do Povo, a câmara baixa do parlamento egípcio, chamou isso de “um ato criminoso isolado”. Quando acrescentou que os responsáveis queriam se vingar do estupro de uma jovem muçulmana por parte um copta, isso quase pareceu uma desculpa. O governo parece pronto a reconhecer o crime no Egito, mas não por tensão religiosa. Sempre que conflitos entre grupos religiosos acontecem, o governo encontra causas seculares por trás deles, como disputas por terras, vingança por algum crime ou disputas pessoais.



Nag Hammadi, com 30 mil moradores, é uma poeirenta cidade comercial no Nilo. Mesmo antes dos assassinatos, era um lugar onde os cristãos e os muçulmanos desconfiavam uns dos outros. Os dois grupos trabalham juntos e moram próximos, mas vivem, casam-se e morrem separadamente. A superstição é generalizada e os muçulmanos, por exemplo, temem pegar o “vírus cristão” ao comer junto com um copta. Não surpreende que esses assassinatos tenham acontecido em Nag Hammadi, nem que depois deles tenham se seguido os piores atos de violência religiosa em anos. Lojas cristãs e casas muçulmanas foram incendiadas, e 28 cristãos e 14 muçulmanos foram presos.



Nag Hammadi agora está cercada, com seguranças armados em uniformes negros guardando as estradas para entrar e sair da cidade. Eles certificam-se de que nenhum morador deixe a cidade e nenhum jornalista entre nela.



Três suspeitos foram presos desde então. Todos eles têm fichas criminais. Um admitiu o crime, mas depois negou, dizendo que havia sido coagido pelo serviço de inteligência. O governo parece querer que o assunto desapareça o mais rápido possível. Os supostos assassinos provavelmente serão libertados assim que o furor passar.



Mais direitos para os cristãos?


Mas também há pequenos indícios de que a situação de cristãos acuados em países islâmicos possa melhorar – dependendo do tanto que recuarem o nacionalismo e a radicalização do Islã político.



Uma das contradições do mundo islâmico é que a maior esperança para os cristãos parece surgir exatamente do campo do Islã político. Na Turquia, foi Recep Tayyip Erdogan, um ex-islamita e agora primeiro-ministro do país, que prometeu mais direitos aos poucos cristãos remanescentes no país. Ele aponta para a história do Império Otomano, no qual os cristãos e judeus tiveram de pagar um imposto especial por muito tempo, mas em troca, tinham a garantia de liberdade de religião e viviam como cidadãos respeitados.



Uma atitude mais relaxada em relação as minorias certamente representaria um progresso para a Turquia.



Tradução: Eloise De Vylder



Notícia da Der Spiegel, republicada no UOL.


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terça-feira, janeiro 12, 2010

Um choque de civilizações na Nigéria

Tanto muçulmanos quanto cristãos estão se radicalizando na Nigéria, lar do nigeriano da "cueca explosiva". Em quase nenhuma outra parte do mundo a rivalidade entre as religiões leva a conflitos sangrentos com tanta frequência.

Em Bauchi, há rumores de que muçulmanos militantes estão preparando um ataque aos cristãos em Jos, a 100 quilômetros de distância. Será verdade? Ou apenas uma tentativa de provocar medo?

Nada é certo em Jos, uma cidade de perto de um milhão de habitantes no chamado "Cinturão do Meio" no centro da Nigéria, uma região ampla entre os paralelos 8º e 12º norte. Em alguma parte dessa região, uma linha móvel separa o norte predominantemente islâmico da Nigéria de seu sul cristão. Muitos cristãos temem que os seguidores de Alá estão tentando se expandir para o sul e Jos fica no meio do conflito.

A violência estourou novamente na semana passada, logo depois de Umar Farouk Abdulmutallab, o homem que tentou explodir um avião em Detroit, ter sido identificado como sendo um muçulmano nigeriano. "Os hausa-fulani não fazem parte de nós", escreveram cristãos em fóruns na internet, se referindo ao maior grupo étnico muçulmano ao qual Abdulmutallab traça sua origem. "Eles são bastardos, misturados com sangue árabe para aterrorizar o mundo. Eles não gostam de educação. Eles odeiam a civilização e eu me pergunto por que eles ainda existem como parte da raça humana."

O ex-James Wuye
O pastor James foi a Jos para passar algumas poucos horas. Isso não é um bom sinal, porque sempre que o pastor James aparece, o terror não está distante. Ele acabou de vir de Bauchi, onde ouviu conversas sobre os muçulmanos estarem se armando.

O pastor de 50 anos é um dos ativistas da paz mais proeminentes na Nigéria. Um motivo para ser tão famoso é que ele aparece com frequência com o imã Muhammad Ashafa, de Kaduna, no centro-norte da Nigéria. Os homens pregam a mesma mensagem: "Não importa se você seja cristão ou muçulmano, viva sua religião mas não mate ninguém". Outro motivo para o pastor ser tão proeminente é que, há 20 anos, atendendo pelo nome de James Wuye, ele era conhecido como um temido líder de milícia cristã em Kaduna, a cerca de 200 quilômetros a oeste de Jos. Ele perdeu um braço lutando contra as pessoas que seu atual parceiro de púlpito representa. "Eu odiava os muçulmanos", ele diz. Ele recobrou a razão em meados dos anos 90 e, desde então, chama a si mesmo de "gestor de conflito". O pastor James é um homem ocupado hoje, pregando a paz por toda a Nigéria.

O país tem uma população de cerca de 150 milhões; seus aproximadamente 400 grupos étnicos falam mais de 400 línguas. Metade da nação reza para "Alá" e a outra metade reza para "Deus". Dificilmente em qualquer outro lugar no mundo a rivalidade em andamento entre cristãos e muçulmanos custou tantas vítimas, com pelo menos 10 mil mortos.

Há morte por toda a parte. Os muçulmanos foram caçados na cidade portuária de Lagos, no sul, enquanto cristãos foram mortos em Kano, no norte muçulmano. Mas a maioria das mortes ocorre no Cinturão do Meio, em locais como Kaduna e Bauchi, e particularmente em Jos, onde os seguidores das duas religiões vivem relativamente próximos uns dos outros.

Em quase nenhuma outra cidade no mundo o choque de civilizações é mais evidente. Sem um muro, Jos é uma cidade dividida. Bairros inteiros foram incendiados, repetidas vezes, mais recentemente em novembro de 2008. Cada nova conflagração custa centenas de vidas. Em 2001, os muçulmanos incendiaram os enormes prédios do mercado no centro de Jos, que abrigavam mais de 10 mil bancas. A maioria das vítimas era de membros da tribo Ibo cristã. Após cada novo conflito, a divisão entre as religiões se agrava.

Uma divisão colonial
Mercadores árabes trouxeram o Islã para a zona do Sahel há cerca de 1.000 anos, mas por muito tempo ele tinha apenas um papel secundário como religião. O comércio, incluindo o comércio de escravos, era mais importante para os califas e emires do que a fé. Missionários cristãos penetraram pelo sul há pouco mais de 100 anos, seguindo os mestres coloniais britânicos do país. Mas os britânicos permitiram que os emires prevalecessem e impedissem um maior avanço dos missionários. Uma consequência da decisão dos mestres coloniais é que as escolas e universidades no sul são atualmente muito melhores do que as do norte.

Os governos militares que governaram a Nigéria até 1999 usaram meios autoritários para manter unida a nação multiétnica. Então veio a democracia. Uma nova Constituição e acordos informais trouxeram certa estabilidade - por exemplo, sob as novas leis, a presidência troca de mãos entre os cristãos do sul e os muçulmanos do norte pelo menos uma vez a cada dois mandatos, enquanto presidente e vice-presidente não são do mesmo grupo religioso.

Mas esses acordos não garantiram a paz.

O governo encobriu os números reais
Olusegun Obasanjo, um cristão, mal tinha sido eleito em 1999 quando 12 Estados no norte da Nigéria introduziram a lei Sharia, provocando protestos por todo o mundo cristão.

As causas do estouro periódico de conflitos religiosos às vezes são banais e frequentemente absurdas. Quando um concurso de Miss Mundo foi marcado para ser realizado na Nigéria, em 2002, os muçulmanos ficaram enfurecidos com um comentário insensível de jornal. A violência resultante custou 215 vidas apenas em Kaduna.

Uche Uruakpa, 38 anos, pode descrever o conflito religioso por um ponto de vista singular. Ele é um médico cristão e em 2001 começou a trabalhar no maior hospital muçulmano em Kano, uma cidade de 1 milhão de habitantes - 90% deles muçulmanos. "Em certas manhãs, havia 2.000 pacientes aguardando diante da minha sala no hospital", diz Uruakpa.

O derramamento de sangue começou quando um muçulmano fundamentalista viu uma criança cristã na rua, segurando uma página do Alcorão - e prontamente matou a criança. Centenas morreram no frenesi que se seguiu. "O governo encobriu os números reais", diz Uruakpa, que se escondeu por duas semanas no bairro cristão em Kano e deixou a cidade um ano depois. "Eles teriam que me oferecer muito para trabalhar de novo lá", ele diz.

Uruakpa viveu em uma cultura que considerou estrangeira e impenetrável. "Eu vi eles todos", ele diz, incluindo homens com quatro esposas, o número máximo que é permitido ao homem no Islã. Algumas garotas casadas, ele diz, não tinham nem mesmo 12 anos. "Os homens vinham até mim com suas grandes famílias e eu tinha que perguntar quais eram suas esposas e quais eram suas filhas."

Êxodo do norte
A ironia na Nigéria é que o norte tem uma maior necessidade de especialistas bem treinados, médicos e cientistas do sul, mas a falta de cultura e os atos de extrema violência persistentes levaram a um êxodo de empresários, professores, médicos e cientistas.

No início dos anos 90, havia cerca de 500 empresas industriais em Kano. Dez anos depois, o número caiu para cerca de 200. Este é um motivo para muitos muçulmanos hausa-fulani terem se deslocado mais ao sul, para cidades como Kaduna, Jos e Bauchi, onde agora formam os novos pobres proletários.

O xeque Khalid Aliyu está familiarizado com os garotos que vendem gasolina adulterada em garrafas, ao longo das principais avenidas de Jos, periodicamente cheirando gasolina ou cola para se drogar. "Pobreza, políticas ruins e tribalismo são os combustíveis do descontentamento", diz Aliyu, cuja organização promove a conciliação e o entendimento entre a população muçulmana.

Aliyu sabe muito bem que os sucessos são modestos. "Os políticos não estão solucionando os problemas", ele diz. "Sem empregos, sem educação, sem eletricidade, sem nada para fazer. Um homem faminto não produzirá a paz", ele diz.

Os cristãos agora se sentem ameaçados, enquanto os muçulmanos se sentem marginalizados. Os hausa-fulani tiveram problemas quando chegaram a Jos. Como a lei nigeriana distingue entre os recém-chegados e os moradores locais, eles não conseguem se livrar do rótulo de "recém-chegados" na cidade, que possui um governo dominado pelos cristãos. Isso os impede de obterem empregos no setor público e a ter acesso às universidades. O mesmo acontece por toda a Nigéria, mas nos lugares de grande pobreza, a revolta cresce desenfreada - e com ela o impulso de buscar refúgio na religião.

Ambos os lados estão se preparando para a batalha
Maiduguri, no extremo nordeste da Nigéria, com uma população estimada de mais de 1 milhão, é um desses lugares - com ruas de terra, isolada e empobrecida. Há dezenas de escolas corânicas em Maiduguri, algumas fundadas com dinheiro saudita. Caminhões cheios de crianças de Níger e do Chade ocasionalmente chegam à cidade, e as crianças são recebidas nas madrassas para aprender o Alcorão, mas não a ler e escrever. Quando elas não estão na escola, as crianças devem trabalhar.

"É escravidão moderna", diz Bolaji Aina, da organização alemã de ajuda humanitária GTZ, que apoiou projetos para mulheres em Maiduguri por muitos anos. A Boko Haram, uma seita islâmica, se mostra bastante disposta a receber esses escravos modernos. Mais de 700 pessoas morreram em julho passado durante choques entre a seita e a polícia em Maiduguri.

O país entrou em 2010 dividido, sem qualquer perspectiva real e sem liderança. O presidente Umaru Yar'Adua está em um hospital na Arábia Saudita há semanas, incapaz de governar seu país em meio às crescentes exigências para a nomeação de um sucessor. Mas quem seria? Outro muçulmano como Yar'Adua? Ou é a vez dos cristãos?

"Ambos os lados estão se preparando para a batalha", diz o pastor James, o missionário da paz, em Jos. "É um jogo de gato e rato. Os eventos no norte também estão radicalizando o sul."

O Natal foi tranquilo em Jos. Mas os rumores que vinham de Bauchi não eram apenas rumores. Os confrontos na cidade, na última segunda-feira, instigados por uma seita islâmica, deixaram 38 mortos.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Texto da Der Spiegel, republicado no UOL.

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terça-feira, dezembro 15, 2009

"Agora, a islamização dos costumes está triunfando", diz Wassyla Tamzali

"Agora, a islamização dos costumes está triunfando", diz Wassyla Tamzali


Josyane Savigneau

Nascida em 1941, Wassyla Tamzali foi advogada em Argel e depois diretora do programa de Direitos da Mulher para a Unesco. Ela milita no movimento feminista magrebino. Publicou, em 2007, pela editora Gallimard, "Une éducation algérienne" ["Uma educação argelina"], e também "Une femme en colère: Lettre d'Alger aux Européens désabusés" ["Uma mulher em fúria : Carta de Argel aos europeus desiludidos"].

Le Monde: Em "Une femme en colère", a senhora se pergunta se o feminismo laico cumpriu seu papel histórico.
Wassyla Tamzali:
Há mais de um século, pensadores, intelectuais e feministas tentam mostrar que, sem renegar o Islã, pode-se chegar a atitudes diferentes daquelas que são correntes. Uma constatação do meu livro é que este trabalho não teve influência sobre o próprio interior do problema. Daí meu interesse pela aparição em massa dessas mulheres que lutam ao mesmo tempo em que permanecem no seio da religião, e minha pergunta é: "O feminismo laico acabou?" Mas é uma figura de linguagem.

Fui e continuo sendo arraigada em uma cultura universalista. O feminismo magrebino ao qual pertenço foi trazido pelos movimentos de descolonização com a participação maciça das mulheres, e, quaisquer que tenham sido seus resultados, esses movimentos falavam de liberdade e de igualdade.

Le Monde: A senhora é pessimista quanto à situação das mulheres hoje em dia. A senhora realmente acredita que os progressos sociais sejam simples reestruturações do sistema patriarcal?
Tamzali:
Se as reformas sociais forem a única solução, sim. E o que pensar do trabalho se as mulheres são cada vez mais obrigadas a usar o véu para ir trabalhar? A cultura do harém se apoderou das ruas, não foi a modernidade que entrou nos lares! Veja a educação, que é a panaceia dos reformistas. Através da educação religiosa nas escolas, colocamos nas cabeças das crianças que a dominação das mulheres é exigida por Deus.

Talvez nossa tradição mediterrânea não tenha inventado a dominação das mulheres, mas certamente inventou o sistema familiar mais eficaz para mantê-la viva. Os Estados modernos pós-coloniais não nos libertaram da "República dos primos", retomando Germaine Tillion. Nem o texto corânico acabou com a moral sexual mediterrânea. Entretanto, o Profeta do Islã havia aberto uma brecha na dominação masculina secular. O homem e a mulher, criados ao mesmo tempo, são expulsos do paraíso por um erro comum: "Vocês continuarão a brigar até o fim dos tempos". Isso não durou muito, com o tempo os exegetas restabeleceram a ideia de uma mulher diabólica e perigosa, e daí surgiu a ideia de enclausurá-la.

Hoje somos confrontados a um vasto campo de doutrinação sobre a inferioridade das mulheres, conduzida por sábios, pelas escolas, pelas televisões por satélite, pelos milhares de imames autodidatas, e pelas estrelas da mídia. Então quando aqui, em Paris, me falam de liberdade e de escolhas para usar o véu, eu sorrio.

A questão de igualdade é uma questão ética; ela deve ser abordada sobre o plano dos princípios e não pelas reformas sociais. Daí a necessidade do laicismo, somente ele pode derrubar as relações de opressão pelas quais sofrem as mulheres e os homens nas sociedades muçulmanas; somente o laicismo pode levar ao surgimento de uma consciência moderna muçulmana.

Le Monde: Segundo a senhora, a maneira como esse debate é levantado na França faz com que as próprias feministas não coloquem mais a igualdade no centro de suas preocupações.
Tamzali:
Algumas feministas, cujos discursos confortam as antifeministas. Elas se juntam a uma minoria da intelligentsia de esquerda que acredita que não se pode mais mudar o mundo, e que é preciso aceitá-lo como ele é. Hoje se quer dialogar com todo mundo, varrem-se todas as dificuldades e escondem a poeira sob o tapete para se ter a paz. Não querem mais abordar as questões essenciais. Parece que se aceita tudo em um movimento de fraternidade recuperada, mas na realidade, é para controlar melhor o planeta.

Nossa época é a da derrapagem controlada. São as mulheres que pagam, e as feministas que são enviadas à zona de guerra para lutar contra pedaços de tecido. O véu e a burca são artifícios pelas quais nos desgastamos. Somos reduzidas a lutas ridículas, ao passo que a essência é grave. Quem se interessa pela essência das coisas?

Le Monde: O que a senhora tem vontade de dizer às garotas que, na França, exigem o uso do véu?
Tamzali:
Que elas caíram em uma armadilha. Algumas usam o véu pelo jogo, por provocação, mas também por rebeldia contra a ordem dominante, encontrando ali uma definição da liberdade. Tenho vontade de lhes dizer que não se pode exprimir sua liberdade atirando-se sem resistência a uma cultura cujo objetivo é a dominação das mulheres.

Os movimentos dos anos 1970 foram a rejeição a qualquer identificação. Hoje, só se reivindica sua identidade, geralmente uma identidade de vítima; por exemplo: os nativos da República, as prostitutas... Diante disso, pedem-nos que abandonemos a ideia de que a história caminha no sentido da emancipação das mulheres e da igualdade para todos.

Seríamos ultrapassadas, e as mulheres de véu representariam o futuro nascido das classes da liberdade, e da descolonização. Elas ajudam a democracia real e nós mantemos conflitos de cultura entre os povos!

Le Monde: A senhora também é crítica em relação ao islamismo moderado.
Tamzali:
O islamismo moderado é um conceito político. Ele diz respeito aos sistemas políticos, é uma questão de tática política e não me ajuda em nada, eu chegaria a dizer que ele é perigoso. O que me interessa é me questionar com aqueles que compartilham da minha história, das minhas preocupações, bem como das minhas esperanças, sobre o que assusta hoje no islamismo. E primeiramente falar disso com os muçulmanos.

São muitos os que rejeitam o islamismo sob todas suas formas. Gostaria de lhes dizer que, em vez de ver no debate sobre a burca os sinais do racismo, eles deveriam dizer que rejeitam a burca e que é atroz querer colocar as mulheres nessa posição. Uma grande manifestação nesse sentido teria mudado a cara do problema, cuja solução está nas mãos dos muçulmanos silenciosos, e na sua coragem de dizer o que pensam. Esses muçulmanos existem, são muitos deles, mas por enquanto sua música é frágil, ela não interessa às mídias.

Le Monde: Como a senhora explica que no Marrocos, na Argélia, na Tunísia, mulheres intelectuais decidam usar o véu?
Tamzali:
Diversas razões são mencionadas, e eu vejo muitas delas, como a busca por uma respeitabilidade, uma boa conduta, a demonstração de sua submissão para atrair os homens, etc. Mas quero dizer aqui que a explicação religiosa não me convence, vivi o islamismo em minha família onde as mulheres e os homens praticavam sua religião sem precisar de todos esses símbolos. Acredito que a razão principal seja que o véu é vivido como uma fortaleza contra a violência sexista, simbólica ou exprimida.

Existem escolas, universidades e outros locais na Argélia onde não se pode mais ficar sem o véu. Em árabe argelino dizem que uma mulher sem véu está nua, o que é bastante revelador. É uma fortaleza ilusória; em meu livro mostro a escalada da violência nas ruas árabes onde há cada vez mais mulheres de véu.

Le Monde: A senhora diz que mesmo onde o islamismo político não triunfou, a islamização de costumes está vencendo.
Tamzali:
Sim. Agora, a islamização de costumes está triunfando, ela se espalha sob a vigília da violência islâmica que só está adormecida. Não me iludo. Mas sou uma otimista incorrigível. Os "bons muçulmanos" que lutam no seio da religião são a prova de que o fenômeno da opressão não pode durar eternamente. E também porque nós, feministas laicas, estamos sempre nos mobilizando, com os homens e as mulheres de nosso país que têm, apesar de tudo, o gosto pela liberdade.

Tradução: Lana Lim

Do Le Monde, reproduzido no UOL.

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quarta-feira, setembro 30, 2009

Nova lei de família divide o Marrocos

Nova lei de família divide o Marrocos

Por STEVEN ERLANGER e SOUAD MEKHENNET

TÂNGER, Marrocos — Apesar de uma reforma importante do código de família do Marrocos feita em 2004, o sexo fora do casamento não é reconhecido no país, nem a homossexualidade.
A nova lei, conhecida como Moudawana, foi imposta a um Parlamento relutante pelo jovem rei Mohamed 6°. Ela não oferece proteção a mulheres como Latifa al Amrani, 21, que está prestes a se tornar mãe solteira. Ela conheceu um homem, Ali, que disse ser policial. Um dia, ele a levou supostamente para conhecer sua tia. Era um apartamento vazio, e eles fizeram amor.
“Ele me disse que queria casar comigo”, contou Amrani. “Mas então ele trocou seu número de telefone, e não consegui mais encontrá-lo.” Ela deu queixa à polícia, mas não teve retorno. Seus pais lhe bateram, ela disse, por isso fugiu.
Mas Amrani pretende ficar com seu bebê. Um dos motivos de sua confiança é o trabalho de um grupo beneficente chamado 100%Mamans, criado em 2006 por Claire Trichot, 33. Com a ajuda de uma organização não governamental espanhola e de doadores privados, ela oferece alimentação, abrigo e educação para mães solteiras, leva-as a hospitais para o parto e depois as ajuda a cuidar dos bebês e a encontrar trabalho.
A maioria das jovens foi rejeitada por suas famílias e abandonada pelos pais de seus filhos, disse Trichot. As mesquitas as ignoram; as famílias às vezes as expulsam; a polícia geralmente acha que até as vítimas de estupro estão mentindo.
“Queremos garantir que essas mulheres sejam tratadas com justiça”, disse Trichot.
A lei Moudawana foi muito elogiada, porque deu às mulheres direitos iguais aos dos homens no casamento, incluindo o direito de pedir divórcio; aumentou a idade legal para o casamento de 15 para 18 anos; e deu às primeiras mulheres o direito de recusar se seus maridos quiserem ter uma segunda cônjuge. A lei tornou o divórcio um procedimento legal, eliminando a tradição de o marido se divorciar da mulher simplesmente entregando-lhe uma carta.
Mesmo cinco anos depois, a lei é bastante polêmica, e muitos juízes de família são suscetíveis à corrupção, segundo grupos que promovem os direitos femininos, como a Associação para o Desenvolvimento das Mulheres, de Casablanca. “Você não pode esperar uma mudança rápida de mentalidade e de hábitos em apenas cinco anos”, disse Touria Eloumri, presidente da associação.
Há casos em que o consentimento da primeira mulher a um segundo casamento é forjado, ou uma mulher aparece diante do juiz fingindo ser a esposa de um homem, disse Eloumri. Há longas demoras, e o sistema de tribunais familiares começa a ser instituído. Muitas mulheres querem mais mudanças.
Em uma recente pesquisa feita pela revista marroquina “TelQuel” e pelo jornal francês “Le Monde”, 91% tinham opiniões favoráveis sobre o rei. Mas a mesma pesquisa, que foi proibida pelo governo, revelou que 49% disseram que a Moudawana dá “direitos demais às mulheres”, enquanto 30% disseram que dá “direitos suficientes às mulheres” e não deveria ir além.
Hinde Taarji, 52, escritora e jornalista divorciada, recentemente adotou um filho. “É evidente que a nova lei não pode ser implementada da maneira como deveria, por enquanto”, ela disse. “Mas é um sinal importante.”
Ela falou sobre uma amiga que dirigia um hotel e estava separada há 15 anos, mas não podia obter o divórcio porque seu marido o recusava. Sob a nova lei, ela finalmente se divorciou.
“Mesmo com a melhor lei do mundo, a corrupção do sistema judiciário ainda é um problema muito grande aqui”, disse Taarji. “Mas muitas coisas mudaram para melhor no Marrocos.”
Ainda assim, o maior problema para as jovens é a falta de educação; há pouca educação sexual, mesmo em casa, e quase 70% das mulheres que procuram a 100%Mamans são analfabetas. “Elas saem de casa, vão para as cidades trabalhar e ganham liberdade”, disse Trichot. “Depois, conhecem rapazes, mas ainda não estão prontas.”

Notícia do The New York Times, republicada na Folha de São Paulo, de 14 de setembro de 2009.


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terça-feira, julho 21, 2009

Fisk: Irã dos aiatolás é um experimento político no coração da "Xia"

por Robert Fisk, no The Independent

A imagem mais nauseabunda de toda a tragédia Iraniana não mostrava corpos ensanguentados de manifestantes em Teerã; foi imagem distribuída pela Reuters, do ex-príncipe ex-coroado Reza Pahlavi, "tentando controlar as lágrimas" em Washington, e declarando que Neda Agha Sultan, a jovem morta pelos assassinos comandados por Ahmadinejad, semana passada, "estará para sempre em meu bolso". Santo deus! No bolso dele! "Juntei Neda à lista das minhas filhas" – disse ao mundo o filho do falecido Xá, brutal e impiedoso.

Nem é preciso dizer que o filho da "Luz dos Arianos" não juntou à "lista de suas filhas" as muitas, as milhares de mulheres também inocentes e jovens torturadas até a morte pela sádica polícia secreta de seu pai.

Em 1979, vi um homem que torturou uma mulher amarrada a uma chapa de metal e posta sobre bicos acessos de um fogão a gás. Chamava-se Mohamed Sadafi, levantador de pesos e lutador profissional. "Você matou minha filha", o pai daquela infeliz mulher gritou para Sadafi, à minha frente. "A pele queimou por partes, até ela ficar paralisada. Pode-se dizer que foi assada", Sadafi respondeu ao homem, sem explicar por que a moça ter-se-ia enforcado depois de sete meses de cárcere. Mas "não havia nem lençóis na prisão, nos quais ela pudesse enforcar-se" – o pai ainda berrou, furioso. Ah, sim, havia, sim, Sadafi respondeu. "Eu vi muito bem as notas da lavanderia da prisão de Evin."

Não, não acho que Reza Shah tenha posto aquela moça "no bolso". Mas tampouco a moça foi salva pelos clérigos xiitas, que se diz que apoiaram o golpe anglo-americano original contra Mohammed Mossadeq, líder democraticamente eleito no Irã em 1953. Ao mesmo tempo em que avançava o golpe, um alto clérigo de Teerã foi mandado a Qom para persuadir o aiatolá daquela época, Sayed Mohammad Hossein Boroujerdi, a lançar uma fatwa, conclamando a uma guerra santa contra os comunistas do Partido Tudeh, aos quais Mossadeq aliara-se. Dizia-se que um certo Ruhollah Khomeini fora encarregado de ordenar a Boroujerdi que tomasse essas providências.

A própria análise da CIA sobre o golpe – o qual, é claro tem sido lembrado cada vez mais entusiasticamente por Ahmadinejad e seus asseclas durante as últimas duas semanas – inclui uma entrevista pós-golpe entre Kermit Roosevelt, chefe da CIA em Teerã, e Winston Churchill, que vivia seus últimos meses como primeiro-ministro inglês. "Foi momento muito tocante" – diz o relatório da CIA sobre o encontro Roosevelt-Churchill.

"O primeiro-ministro parecia não estar em boas condições físicas e de saúde (...) com muita dificuldade para ouvir; com problemas ocasionais para articular palavras; e com o que parecia ser uma dificuldade de ver à sua esquerda. Apesar disso, mostrou grande entusiasmo pela operação. Chegou a manifestar desejo de "ter alguns anos a menos", e poder servir sob as ordens de Roosevelt: "Nossa operação deu-nos inesperada e maravilhosa oportunidade de modificar todo o panorama no Oriente Médio."

É exatamente o mesmo discurso, explícito, de Condoleezza Rice. Lembram as "dores do parto" de que Condi falava, do parto do qual nasceria um novo Oriente Médio, quando os libaneses afogavam-se em sangue, atacados pelas bombas israelenses em 2006? Pois "todo o panorama no Oriente Médio", de Churchill, só mudou, mesmo, em 1979.

Nesse caso... Que fim levou a famosa revolução? Foi realmente um florescente retorno aos valores básicos do islamismo xiita, volta aos anos dourados de Ali e Hussein, quando a autoridade islâmica jamais poderia ser imposta ao mesmo tempo que um governo secular? Essa é a narrativa que está sendo implantada agora em Teerã. Essa é a história em que o Aiatolá Khamenei diz que acredita; mediante a qual o aiatolá Khomeini – apesar dos conselhos que deu a Boroujerdi em 1953 – levou o Irã de volta à pureza das raízes islâmicas xiitas, segundo as quais ninguém deve tentar separar o poder religioso e o poder secular.

Por extraordinária coincidência, acaba de ser publicado mais um livro do professor Nader Hashemi da Universidade de Denver, e que, provavelmente, é hoje o livro mais absolutamente necessário para que se entendam os dramáticos eventos no Irã.

Reverente aos terríveis deveres acadêmicos, o prof. Hashemi deu ao livro um título que mais parece aviso de "NÃO LEIA": Islam, Secularism, and Liberal Democracy: Toward a Democratic Theory for Muslim Societies. Esqueça o título. O livro é leitura absolutamente indispensável e vale cada página. (...)

No livro está citada uma fala de Khomeini, de quando vivia exilado na cidade iraqueana de Najaf, em 1970. "Esse slogan da separação entre religião e política e a exigência de que os sábios islâmicos não intervenham nos negócios sociais e políticos são ideias formuladas e propagandeadas pelos imperialistas; só os infieis e maus muçulmanos as repetem. Quando, no tempo do Profeta, separaram-se religião e política? Algum dia houve separação, os clérigos de um lado e, do lado oposto, um grupo de políticos e líderes?"

Outra vez, em 1999, o aiatolá Abolghassem Khazali, um duro ex-membro do Conselho dos Guardiões, insistiu que "quando um juiz como o aiatolá Mesbah Yazdi" – hoje apoiador dedicado e próximo de Ahmadinejad, com forte desejo de suceder Khamenei – "pronuncia-se sobre algo, todos temos de responder 'Devo ouvir e devo obedecer'. Se há algum perigo, virá sempre dos slogans da 'sociedade civil'. A situação hoje chegou a tal ponto, que se debate a existência de deus nas universidades".

Não surpreende que a Universidade de Teerã tenha sido invadida e violada pela milícia Basij, semana passada. Não surpreende que a tendência 'secular' de Mir-Hossein Mousavi pareça hoje tão perigosa para o regime.

Mas, como Hashemi observa – e aqui está o ponto mais frágil do regime Iraniano – "Há consenso quase completo de que a doutrina Khomeini, do governo pelos juízes islâmicos, marcou rompimento significativo na tradição xiita, no que tenha a ver com o relacionamento entre religião e política. Importantes aiatolás, no mundo xiita (inclusive no Irã, naquele momento), opuseram-se fortemente à doutrina política de Khomeini, considerada inovação e rompimento radical com o papel político dos religiosos na sociedade política, papel tradicionalmente muito discreto."

Então é isso. Khomeini inventou o chamado "velayat-e faqih" (governo do líder religioso); na história do islamismo jamais houve qualquer tipo de República Islâmica. O Irã dos aiatolás é um experimento político. Um experimento que poderá ser continuado ou interrompido. As duas últimas semanas sugerem que a República Islâmica terá de trabalhar muito, se quiser sobreviver.

Enquanto isso, lembremos o que disse Mossadeq, há 46 anos: "Nenhuma nação jamais chegará a lugar algum conduzida por ditadores."

O artigo original, em inglês, pode ser lido aqui.

Este texto veio do Vi o Mundo.


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quinta-feira, junho 19, 2008

Turquia planeja modernizar o Corão

Turquia planeja modernizar o Corão
Turquia quer reinterpretar o islamismo e aproximá-lo da modernidade


Juan Carlos Sanz
Enviado especial a Istambul


As convulsões que a Turquia vive devido ao confronto entre o aparelho laico do Estado e o governo de base islâmica parecem ocultar um dos mais ambiciosos projetos de modernização da religião muçulmana. Nesta semana, o diretor de Assuntos Religiosos, Ali Bardakoglu, anunciou na rede CNN-Turk que antes do fim do ano terminará o trabalho de uma centena de teólogos turcos para reinterpretar os "hadiths", atos e frases do profeta Maomé segundo os quais os fiéis devem reger sua conduta.

"Devemos reinterpretar a prática da religião. O Corão não defende a poligamia. Também não é pecado namorar, mas os casamentos combinados em idade precoce não estão de acordo com a religião", afirmou o responsável islâmico máximo da Turquia em sua entrevista televisiva, na qual se referiu aos casamentos de meninas e adolescentes como um mal endêmico nas áreas rurais do oeste da Anatólia.

As declarações de Bardakoglu ocorreram pouco depois que a imprensa turca divulgou o conteúdo de um manual sobre conduta sexual para fiéis, publicado no site da Internet da Direção de Assuntos Religiosos, um órgão do governo turco do qual dependem os imãs.

Esse manual condena as relações como "o flerte, que pode levar a cometer adultério". Mas também adverte: "As mulheres devem ser mais cuidadosas, vestir-se adequadamente e não mostrar o corpo". Até o perfume pode ser imoral, na opinião dos religiosos turcos: "O profeta Maomé não aprovava que as mulheres usassem perfume fora do lar". A polêmica serviu para atirar mais lenha à fogueira da briga entre os setores laicos turcos, nos quais se inclui uma grande parte da imprensa, e o governo islâmico.

Estudiosos do islã, como o professor da Universidade de Oxford Tariq Ramadan, afirmam que os muçulmanos podem fazer uma "leitura aberta e reformadora da religião para situá-la em seu contexto histórico e cultural". O chefe da equipe de teólogos de Ancara, Mehmet Gormez, parece compartilhar dessa tese. "Cada um dos 170 mil hadiths tem seu próprio contexto cultural e geográfico. A proibição às mulheres de viajar sozinhas poderia ter sentido por motivos de segurança na época do profeta Maomé", explica Gormez, que também é subdiretor de Assuntos Religiosos.

Enquanto no Ocidente se observa com interesse a revisão dos hadiths, na Turquia (diante do imobilismo de países como a Arábia Saudita, que proíbe que as mulheres dirijam carros), a reforma do islã que os teólogos de Ancara preparam passa quase despercebida na vida cotidiana dos turcos, que transcorre entre as dificuldades da crise econômica e os sobressaltos políticos. Ontem mesmo o presidente do Parlamento, o islâmico Koksal Toptam, pediu uma redução da autoridade do Tribunal Constitucional, que na quinta-feira anulou uma reforma legal do governo que autorizava que as jovens cobertas com o véu islâmico estudassem nas universidades turcas.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Texto do El País, no UOL.

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quinta-feira, maio 29, 2008

Repressão a cristãos na Argélia

Rodrigo Coelho
Da BBC Brasil no Cairo

Argélia: Cristãos convertidos são julgados por pregar religião não-islâmica

Seis cristãos convertidos do islamismo podem ser condenados a até dois anos de prisão e a pagar multas de cerca de US$ 8 mil na Argélia, depois de serem acusados de pregar uma religião não-islâmica sem a aprovação do governo.

Os homens, protestantes, são acusados de distribuir material religioso considerado ilegal. O veredicto deve ser anunciado na próxima terça-feira, dia 3 de junho.

Em um caso paralelo, uma mulher, Habiba Kouider, foi processada por ter sido pega portando exemplares da Bíblia, na cidade de Tiaret, a cerca de 400 km da capital Argel.

Ela é acusada de pregar uma religião sem autorização e pode ser condenada a até três anos de cadeia. Kouider nega a acusação.

Exemplo

Alguns jornais argelinos afirmam que o caso de Kouider seria um exemplo de desrespeito à liberdade de consciência, direito garantido pela Constituição do país, que permite, pelo menos no papel, a prática de outras religiões.

Desde 2006, entretanto, as leis argelinas determinam que congregações não-islâmicas e líderes de outras religiões precisam obter licença do governo para poder pregar suas crenças.

Os advogados das vítimas estão sendo pagos pela organização não-governamental American International Christian Concern.

A porta-voz para a África da organização, Darara Gubo, disse à BBC Brasil acreditar que atualmente existe um movimento crescente de repressão à conversão ao cristianismo em vários países muçulmanos.

“Em diversas nações islâmicas os cristãos estão sendo processados quando usam sua liberdade religiosa e evangelizam muçulmanos. Isso acontece na Argélia, Irã, Arábia Saudita, Jordânia e muitos outros países”, disse ela.

Gubo afirma que a repressão aumentou na Argélia após a exibição de um documentário que mostrava um aumento do número de cristãos no país.

“Isso (o documentário) gerou muita pressão de outros países do Oriente Médio e da África. Eles consideraram vergonhoso que os muçulmanos estivessem se convertendo.”

O governo da Argélia afirma que existem cerca de 11 mil cristãos no país, cuja população é de cerca de 33 milhões. Grupos religiosos cristãos afirmam que o número de fiéis é bem maior.

Da BBC Brasil.

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