terça-feira, setembro 30, 2008

Unasul na Bolívia

Saem os EUA, entra a América do Sul

CLÓVIS ROSSI
ENVIADO ESPECIAL A SANTIAGO

A cúpula da Unasul (União de Nações Sul-Americanas), realizada na segunda-feira em Santiago, marca talvez o primeiro momento em que os Estados Unidos não exercem o protagonismo em uma crise na região desde a independência dos países sul-americanos, que está para completar 200 anos.
Daria, portanto, para chamá-la de histórica, mas é prudente aguardar para ver se a efeméride é acompanhada de eficiência, sem o que se torna apenas um registro banal.
É prudente também esperar para ver se a marginalização de Washington faz parte de um fenômeno mais amplo, de redistribuição do poder em escala global, ou é apenas conseqüência de estar na Casa Branca um "pato manco", como os americanos chamam presidentes em fim de mandato e sem poder, que além disso é desastrado, para dizer o mínimo.
Goste-se ou não, a América do Sul (e a América Latina, mais amplamente) ainda é o pátio traseiro dos EUA. Assim como a Rússia, muito menos poderosa hoje, embora também historicamente imperial, não permitiu movimentos em territórios que considera seus (caso Geórgia/Ossétia do Sul/ Abkházia), não é razoável supor que os EUA deixarão que seus interesses sejam contrariados na sub-região.
Ainda mais que a liderança alternativa, a do Brasil, é historicamente relutante em aceitar tal papel. Basta ver que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, antes de embarcar para a cúpula de Santiago e mesmo durante a sua realização, fez questão de enfatizar que cabia a Evo Morales, o presidente boliviano, decidir se aceitava o diálogo com a oposição e, por extensão, a intermediação da Unasul.
Em nenhum momento, Lula fez qualquer tipo de sermão sobre o comportamento que deveria ser adotado, seja pela própria Bolívia, seja pela Unasul. Os EUA (e também a Europa, é bom deixar claro) raramente deixam de dar as receitas que consideram não só as melhores mas as únicas.

Chávez e Lula
Ainda assim, o Brasil é cristalinamente o líder regional. É puro espetáculo especular, como o faz parte importante da mídia sul-americana, com uma disputa de liderança Brasil/Venezuela ou Lula/Hugo Chávez.
Pelo território, pela população e pelo tamanho da economia, o Brasil, qualquer que seja o presidente, é o líder natural, indisputado. Com Lula, é mais ainda porque o presidente tornou-se, além de estrela pela sua história de vida, a palavra da moderação e do sentido comum nos foros regionais e também nos internacionais.
Chávez só lhe disputa a liderança no que restou de esquerda -e não é muito, seja nas urnas, seja nos palácios de governo. Embora, pelo passado, todos os presidentes da Unasul sejam de esquerda, exceto Álvaro Uribe, só 3 dos 12 merecem hoje o rótulo pela ação político-administrativa (Chávez, Evo Morales e o equatoriano Rafael Correa).
Mesmo Alan García, hoje sempre listado à direita, é do Apra, sigla histórica que quer dizer Aliança Popular Revolucionária Americana. Seu fundador, Victor Raúl Haya de la Torre, escreveu nos anos 30 um clássico chamado "O Apra e o antiimperialismo" -muito antes, portanto, de Hugo Chávez adotar o mote.
A liderança de Lula, no entanto, não se exerce pelo confronto, como ficou evidente, pela enésima vez, na cúpula de segunda-feira. Chávez discursou, de novo, contra a suposta ou real "mão oculta" de Bush na crise boliviana, evocou Salvador Allende, deposto faz 35 anos, com ativa participação norte-americana, e ainda voltou a acusar generais bolivianos de golpistas.

Brasil responsável
Lula tomou a palavra, fingiu que não ouvira nada e definiu o eixo da intervenção da Unasul na crise boliviana: se Morales aceitar o diálogo, vamos a ele. Do contrário, não há nada que a Unasul possa fazer. É verdade que a proposta original do que está sendo chamado de "mesa de diálogo" é do governo chileno. Mas, a julgar pelo que a Folha ouviu dos próprios chilenos, foi a intervenção de Lula que a tornou a pedra de toque da cúpula.
O que, de resto, aumenta a responsabilidade do governo brasileiro na gestão da crise. Um fracasso agora tornaria a cúpula de Santiago não a primeira intervenção sul-americana independente dos EUA, mas o seu primeiro fracasso.

NA FOLHA ONLINE
www.folha.com.br/082601
leia a íntegra do comunicado da Unasul

Texto da Folha de São Paulo, de 17 de setembro de 2008.

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Morales aceita que Unasul seja mediadora na Bolívia

Morales aceita que Unasul seja mediadora na Bolívia

Presidente exige que oposição desocupe prédios públicos antes de negociações

Lula disse que bloco só atuaria se boliviano fizesse opção por diálogo; Chávez apontou "mão oculta" de Bush na ação oposicionista

CLÓVIS ROSSI
ENVIADO ESPECIAL A SANTIAGO

O presidente da Bolívia, Evo Morales, aceitou ontem que a Unasul (União de Nações Sul-Americanas) atue como mediadora do diálogo entre seu governo e os cinco governadores de oposição, que há três semanas promovem o bloqueio de rodovias e a ocupação de aeroportos e prédios públicos.
Morales, no entanto, apresentou aos oito presidentes (mais a anfitriã Michelle Bachelet), reunidos em cúpula de emergência da Unasul em Santiago, Chile, duas condições para iniciar as negociações. Primeiro, que os opositores desocupem os edifícios do governo; segundo, que uma comissão internacional investigue o massacre de camponeses pró-governo no departamento de Pando (norte da Bolívia).
O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, ofereceu sua instituição para a investigação.
O "sim" de Morales à mediação veio depois da intervenção do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva. Lula disse que, se Morales optasse por reprimir os opositores, não havia nada que a Unasul pudesse fazer. O bloco regional, criado há apenas quatro meses, atuaria se a opção pelo diálogo fosse de Morales.
"A posição de Lula mudou o eixo da reunião", conforme a Folha ouviu de representantes chilenos e peruanos.

Vídeo de abertura
Explica-se a frase: até então, haviam predominado as críticas do venezuelano Hugo Chávez ao que considerou "mão oculta de Bush [o presidente dos EUA] na preparação de um golpe na Bolívia".
Aliás, Morales abriu a reunião, depois da apresentação da anfitriã, Michelle Bachelet, exibindo vídeo de atos de vandalismo da oposição e de proclamações golpistas.
Também Cristina Kirchner (Argentina) criticou, embora em termos bem mais brandos, os EUA, depois de Chávez ter dito que a suposta conspiração norte-americana agora estava envolvendo a própria presidente argentina (referência à acusação dos EUA de que a campanha eleitoral da hoje presidente foi financiada por Chávez).
Lula tirou completamente o foco dos EUA com a sua observação sobre a autonomia de Morales para aceitar ou não o diálogo. Tanto que não houve, na declaração final, qualquer menção a Washington.
Lula, ao sair do Palácio de la Moneda, sede do governo chileno e da cúpula de emergência, já avançada a noite (passava das 21 horas, 22h em Brasília), festejou o resultado e a ênfase no diálogo: "Um país pobre como o Bolívia precisa de tranqüilidade para poder se desenvolver".
Já o chanceler Celso Amorim preferiu resumir o encontro em duas palavras: "pressão e diálogo". Pressão no sentido de que a condição indispensável para o diálogo é a desocupação, pelos oposicionistas, de prédios públicos ainda tomados.
O documento dá ainda, como a Folha antecipara, forte respaldo à "autoridade legítima", o presidente Evo Morales, condição, aliás, que Lula também fez questão de ressaltar, lembrando até que a legitimidade do boliviano saíra reforçada do recente referendo revogatório.
O texto faz ainda intransigente defesa da integridade territorial da Bolívia, "que não deve ser posta em questão em nenhum momento", segundo o chanceler chileno Alejandro Foxley. Parte da oposição já vinha usando uma palavra incendiária ("secessão") para tratar da autonomia dos departamentos rebelados contra La Paz.

"Mesa de diálogo"
De todo modo, o nítido respaldo a Morales, natural em se tratando de um presidente eleito e reconfirmado, vem acompanhado do aceno ao diálogo com a oposição. Falta apenas definir o formato final do que os chilenos estão chamando de "mesa de diálogo".
O que está certo é que a presidência de turno da Unasul, exercida pelo Chile, será a liderança. Houve uma proposta para que o chamado grupo de amigos da Bolívia (Argentina, Brasil e Colômbia) completasse a mesa. Mas o uruguaio Tabaré Vázquez reclamou: "Porque só três amigos, se somos todos amigos da Bolívia?".
Ficou então decidido que todos os 12 países da Unasul formarão o grupo de amigos, que se colocará à disposição de Morales para iniciar a mediação. Mas nem todos, óbvio, irão à Bolívia. Bachelet vai conversar nos próximos dias com os colegas para definir quem acompanhará a missão de pacificação.
Antes da reunião dos presidente, o chanceler Foxley dissera que o diálogo seria com "todos os setores". "Inclusive com Leopoldo Fernández, governador de Pando, cuja prisão foi decretada pelo governo e que o presidente Morales não aceita à mesa?", perguntou a Folha.
Foxley respondeu com uma frase que permite qualquer interpretação: "O que interessa é um diálogo construtivo com interlocutores dispostos a chegar a um acordo".
Ao chegar a La Paz, Morales antecipou o que seria seu discurso ante os chefes de governo. Denunciou que está em marcha o que chamou de "golpe de Estado cívico em alguns departamentos", em referência aos Comitês Cívicos, que reúnem a elite econômica e política das regiões.

Texto da Folha de São Paulo, de 16 de setembro de 2008.


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Relato da Folha para os Confrontos em Pando

1:

Agentes de Pando atuaram em massacre

Vídeo mostra que funcionários do governo de oposição a Evo Morales atiraram em camponeses que fugiam por um rio

Polícia assistiu à cena sem intervir; marcas do embate que deixou pelo menos 15 mortos e 106 desaparecidos ainda são vistas em Porvenir

FABIANO MAISONNAVE
ENVIADO ESPECIAL A PORVENIR E FILADELFIA (BOLÍVIA)

Funcionários do departamento boliviano de Pando, governado pelo oposicionista Leopoldo Fernández, participaram dos confrontos entre camponeses pró-Evo Morales e opositores do presidente que, segundo informações corrigidas ontem por La Paz, deixaram ao menos 15 mortos e 106 desaparecidos na quinta-feira.
Relatos de sobreviventes, corroborados por imagens às quais a Folha teve acesso, mostram que atiradores dispararam contra camponeses que tentavam fugir a nado. A Polícia Departamental, que responde ao governo nacional, assistiu à cena sem intervir.
Quatro dias depois dos confrontos, no centro de Porvenir, um casario de cerca de 3.000 habitantes, seis carcaças de veículos queimados ainda estavam na rua, junto a um parque infantil. Todos pertenciam aos camponeses, que fugiram a pé ou a nado. Ou foram mortos.
"Fizeram uma emboscada", diz o morador de uma casa vizinha à praça, que pediu para não ser identificado. "Dizem que os camponeses tinham armas, mas não vi nenhuma". Ele insiste ter visto funcionários do departamento no confronto.
Metros adiante, uma moradora, também sob anonimato, afirma que a maioria dos camponeses carregava paus e alguns portavam rifles.
Na rua que termina no rio, outro morador de Porvenir disse que os camponeses foram perseguidos a tiros até as águas -os dois buracos de bala em sua casa têm essa trajetória.
O confronto teve início na madrugada da última quinta, quando três caminhões com cerca de 340 camponeses vindos de Puerto Rico se aproximaram de Porvenir. O destino era Filadelfia, a 15 km dali. Segundo os camponeses, haveria ali um encontro de organizações que apóiam Morales.
O comboio foi impedido de prosseguir por uma trincheira cavada por funcionários do departamento. Para justificá-la, o governador Leopoldo Fernández alegou que os camponeses "estavam armados e iam participar de um ataque contra os oposicionistas organizado pelo ministro da Presidência [Juan Ramón Quintana]".
Durante a tentativa de ultrapassar a barreira, um engenheiro do departamento morreu. Fernández diz que ele foi baleado, mas os camponeses alegam que ele morreu quando a sua camioneta se chocou com um carro do comboio.
No início da manhã, os camponeses avançaram até o centro de Porvenir, mas foram barrados por cerca de 50 homens da Polícia Departamental de Pando, submetida ao governo nacional, para evitar o choque com a oposição.
Aos poucos, os dois grupos incharam. Por volta do meio-dia, os opositores, fortemente armados, avançaram dos dois lados da rua, obrigando os camponeses a deixar seus carros e a fugir pelo rio Tahuamano, de 20 metros de largura. A polícia, dizem ambos os lados, nada fez. Uma seqüência de vídeo amador mostra que, durante a travessia, foram feitos disparos contra os que estavam na água.
O governo boliviano afirma que provavelmente a maioria dos desaparecidos morreu a tiros quando estava no rio.
A reportagem foi à sede da Polícia Departamental em Porvenir, mas o comandante de plantão não quis falar.

Prefeitura incendiada
Por volta do meio-dia de ontem, a reportagem visitou o povoado de Filadelfia, sede do município, um reduto de apoiadores de Morales de apenas 120 habitantes. Ante a negativa de táxis, os 15 km de distância foram percorridos em uma moto.
Na rua principal, ainda saía fumaça do que sobrou de uma pequena casa de madeira onde funcionava a Prefeitura, incendiada na madrugada de domingo. Todo o arquivo e dois meses de merenda infantil do município de 6.000 habitantes foram queimados, exceto por algumas cebolas ao lado das ruínas.
Ontem, dez homens de uma força especial do Exército boliviano patrulhavam o povoado com metralhadoras e revólveres. "Eles estão muito assustados. Muitos moradores tinham ido dormir no mato e deixaram os móveis fora de casa para que não queimassem em caso de ataque", disse um tenente, sob condição de anonimato.
Após submeter a reportagem a revista e perguntas, o prefeito pró-Morales Antonio Aguilera Roca e outros líderes aceitaram falar e autorizaram fotos.
Quase todos os camponeses e dirigentes estavam nos confrontos de Porvenir. Alguns deles mostraram cicatrizes de disparos. Os de Puerto Rico estavam em situação mais precária: perderam todos os pertences e, sem segurança para voltar, dormem na pequena biblioteca.
Segundo Aguilera, 70 moradores do município desapareceram. Um deles é o dirigente Victor Choque. Chorando, sua mulher, Dilma Hurtado, 44, disse que não voltaria à sua casa, a sete horas de viagem, até encontrá-lo.

2:

Militares controlam apenas parcialmente a capital pandina

DO ENVIADO A COBIJA (BOLÍVIA)

Sob estado de sítio desde sexta-feira, Cobija está apenas parcialmente controlada pelas Forças Armadas, que ontem de madrugada invadiram ao menos dez casas de opositores em várias partes da capital do departamento de Pando, localizada na fronteira com o Acre. Ao menos seis dirigentes foram presos, segundo o governador Leopoldo Fernández.
Mesmo com a presença militar, várias instituições do Estado estão fechadas pelos opositores. Os serviços de imigração e as aduanas, por exemplo, estiveram fechados nos últimos dias -não há nenhum controle nos dois postos de fronteira com o Brasil. A divisa é marcada pelo rio Acre.
Algumas lojas da cidade continuam fechadas, depois de uma onda de saques na semana passada. Já os poucos postos de gasolina abertos acumulavam longas filas, principalmente de motos, por causa da falta de combustível em toda a região.
Um dos locais mais tensos é o aeroporto, tomado na sexta-feira pelo Exército em meio a um intenso tiroteio, com um saldo de ao menos dois mortos.
A única medida do estado de sítio proclamado por Morales que vem sendo respeitada é o toque de recolher após a meia-noite, quando apenas patrulhas do Exército são vistas circulando pela cidade.
Apesar de o governo Evo Morales ter anunciado a intenção de prendê-lo no sábado à noite, o governador oposicionista de Pando caminhou pelas ruas de Cobija durante a manhã.
Acusado por Morales de estar por trás da violência nos últimos dias, Fernández andou por duas quadras até a sede do governo, acompanhado por jornalistas e algumas dezenas de simpatizantes, apesar de o estado de sítio proibir manifestações desse tipo.
"Eles não têm o argumento legal para me prender, eu sou autoridade eleita pelo meu povo", disse Fernández, em entrevista coletiva. "Segundo, estão esperando as condições para inventar as evidências para que se dê um suposto processo de investigação que leve à minha detenção."
"Estou aqui; não entendo por que podem levar outras pessoas que não têm absolutamente nada a ver nem sequer com a luta política", afirmou o governador, sobre as detenções na madrugada.

Denúncia por genocídio
Horas mais tarde, o procurador-geral da Bolívia, Mario Uribe, formalizou uma denúncia contra Fernández e outros dois políticos regionais.
A denúncia fala em "suposta comissão de delito de genocídio em sua forma de massacre sangrento". Os três são acusados de promover os choques violentos da última quinta-feira, quando morreram 15 pessoas, quase todos camponeses pró-Morales. (FM)

Com agências internacionais

Textos da Folha de São Paulo, de 16 de setembro de 2008: 1 e 2.


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terça-feira, setembro 02, 2008

Bolívia: protestos paralisam reformas

Protestos paralisam reformas na Bolívia

Andres Schipani
Em La Paz


Debaixo da lona azul no seu precário quiosque de rua, Rosita, uma açougueira de etnia aimará, reclama. "Não há carne suficiente", diz ela. "Esses conservadores racistas do leste querem que nós, os índios, passemos fome para que cedamos e voltemos a ficar sob a sola dos sapatos deles. Mas nós não permitiremos que eles façam isso. Lutaremos por Evo e por este processo de mudanças".

Mas o processo parece ter chegado a um violento impasse nos últimos sete dias. Embora o primeiro presidente indígena da Bolívia tenha emergido como o vitorioso incontestável em uma eleição nacional no início deste mês que poderia ter culminado com a sua remoção da presidência, a metade oriental do país, que é mais branca e rica, não está querendo admitir a derrota. E esta elite tampouco está feliz com um governo que muitos no leste da Bolívia descrevem como totalitário.

Na segunda-feira (26), os chamados grupos cívicos das províncias de Chuquisaca, Tarija e Santa Cruz bloquearam as estradas nacionais e aquelas que levam à Argentina e ao Paraguai, e ameaçaram ocupar os campos estatais de petróleo em suas regiões.

Esses grupos estão exigindo que o governo eleve o preço do gás exportado para a Argentina e o Brasil dos atuais US$ 5 para US$ 18 por unidade térmica britânica (BTU).

Manifestantes nas terras baixas orientais cortaram os suprimentos de carne para o oeste na semana passada, e bloquearam as estradas, embora o fornecimento já tenha sido normalizado.

Houve também confrontos violentos envolvendo inimigos e apoiadores de Evo Morales e a polícia em várias províncias orientais, depois que grupos de jovens radicais pró-autonomia armados de paus e escudos atacaram policiais em Santa Cruz na semana passada.
Por sua vez, alguns dos aliados indígenas de Morales bloquearam o acesso à capital constitucional e judicial do país, Sucre, um bastião oposicionista, e grupos indígenas nas áreas mais pobres de Santa Cruz afirmaram estar prontos para contra-atacar.

O vice-presidente da Bolívia, Álvaro García Linera, descreveu as ações como "uma agressão à Bolívia e um ato criminoso", enquanto Morales garantiu que o governo protegerá as instalações de gás.

A Bolívia, geograficamente dividida entre as terras baixas tropicais prósperas do leste e os altiplanos ocidentais pobres, ficou mais polarizada após o referendo. Os governadores da oposição das regiões orientais de Santa Cruz, Tarija, Beni e Pando também obtiveram novos mandatos nas urnas e exibiram uma crescente popularidade, enquanto as conversações entre Morales e os governos do leste não foram capazes de resolver a crise.

"Estamos enfrentando um acirramento de posições radicais que aprofundam a polarização já existente", explica Guido Riveros Franck, diretor da Fundação Boliviana para a Democracia Multipartidária. "E agora estamos à mercê de grupos radicais e violentos de ambos os lados... Neste quadro, o diálogo fica cada vez mais distante".

Morales está seguindo em frente com os seus planos para a realização de um novo referendo com o objetivo de aprovar uma nova constituição nacional. Mas as cinco províncias orientais que se opõem à constituição afirmam que ela privilegiaria injustamente os grupos indígenas, estimularia o controle centralizado e faria com que uma parcela das rendas provenientes do petróleo fosse retirada das províncias que produzem a maior parte do gás boliviano.

Eles estão pressionando para que seja adotado um sistema mais federativo com maior autonomia regional.

"O governo chama o federalismo de divisionismo e separatismo. Mas é isto o que os centralistas querem mostrar, já que eles temem perder o poder", afirma Carlos Dabdoud, um líder oposicionista de Santa Cruz. "Enquanto o presidente encarar esta sua última vitória com arrogância, tentando impor a sua vontade, o conflito continuará".

Morales indicou que poderia adotar uma rota intermediária que concedesse mais autonomia no contexto da nova constituição. Mas os seus aliados estão pessimistas.

"Com a violência, a oposição deseja que a Bolívia retorne ao status quo anterior, egoísta e neoliberal", acusa Sabino Mendoza, parlamentar pró-Morales que redigiu o texto da nova constituição. "Não podemos permitir que isso aconteça".

Tradução: UOL

Texto do The Financial Times, publicado no UOL.


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terça-feira, agosto 19, 2008

Aritmética e racismo

Aritmética e racismo

SÃO PAULO - OK, a Bolívia está dividida entre o presidente Evo Morales e um punhado de governadores provinciais. Mas vamos fazer direitinho a aritmética dessa divisão: dois terços dos bolivianos estão com o presidente, e o terço restante, com a oposição.
Jogar na aritmética o forte apoio dado ao governador oposicionista de Santa Cruz de la Sierra, Rubén Costas, é distorcer as contas. Costas só foi votado em sua terra; Evo, em toda a Bolívia.
É claro que ambos estão legitimados, como sempre acontece com os ganhadores de consultas eleitorais na democracia. Mas é justo dizer que Evo Morales está mais legitimado do que qualquer dos outros ganhadores. Afinal, o presidente obteve cerca de dez pontos percentuais a mais do que na eleição presidencial de 2005. Única leitura possível, de resto óbvia: há mais bolivianos que aprovam Evo hoje do que os que nele votaram em 2005, apesar de todo o alto grau de conflitividade em seus dois anos e meio de gestão.
Evo ganha o direito de passar o rolo compressor na oposição, como o fez, por exemplo, aprovando em um quartel -e só com sua turma- o texto constitucional? Não, mesmo que ele pudesse fazê-lo, o que não parece ser o caso.
Mas lhe dá o direito de cobrar da oposição o comportamento democrático que ela reclama de Evo. Chamar o presidente de "macaco", como o fez Rubén Costas, é tudo, menos democrático. Revela uma divergência que é não só sobre autonomias nem só ideológica mas também étnica -ou racismo em estado puro.
O fato é que a maioria dos bolivianos cabe no rótulo de "macaco" quando vistos por Costas. E maioria ganha eleição.
À oposição resta conviver com essa matemática ou partir para a separação, perdendo no percurso o direito de acusar o presidente de ter o monopólio do radicalismo.

Texto de Clóvis Rossi, na Folha de São Paulo, de 13 de agosto de 2008.


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quinta-feira, junho 26, 2008

Governadores recusam-se a submeter seu cargo ao referendo de Morales

Governadores recusam-se a submeter seu cargo ao referendo de Morales
Mandatários de quatro regiões desafiam a cartada do presidente boliviano


Jorge Marirrodriga
Em Tarija


Os governadores da "meia lua" boliviana - as quatro regiões que aprovaram de forma unilateral suas autonomias - não estão dispostos a aceitar o grande desafio convocado por Evo Morales para o próximo dia 10 de agosto na forma de um referendo revogatório. Reunidos na segunda-feira em Tarija, com o governador de Cochabamba, os líderes de Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija colocaram em dúvida a participação de seus territórios na consulta sobre a qual se ampara Morales, para demonstrar que continua tendo o apoio das urnas e tem legitimidade para levar a cabo a profunda reforma institucional proposta na nova Constituição, ainda não ratificada.

Morales respondeu fazendo um apelo às bases do Movimento ao Socialismo (MaS) para que garantam a realização da votação em todo território nacional. O presidente boliviano até agora optou por aceitar o inevitável e não se opor, na prática, à realização dos quatro referendos consecutivos por autonomia, apesar de considerá-los ilegais e separatistas, já que o governo central é o único com legitimidade para convocar os cidadãos às urnas. Mas não pode permitir que a consulta crucial de agosto não seja realizada em mais da metade do território boliviano. Na prática, o novo desafio dos defensores da autonomia e a resposta do governo elevam em mais um grau a tensão entre duas visões do país totalmente contrárias e sem perspectivas até o momento, de que se chegue a um acordo.
As províncias rebeldes criaram um novo órgão: o Conselho Nacional de Defesa da Democracia e querem que Morales abra mão da consulta para firmar em troca um acordo de reconciliação nacional que reconheça os textos aprovados unilateralmente em seus respectivos territórios. O conselho de reuniu na segunda-feira em Tarija onde menos de 24 horas antes se aprovou por 80% um estatuto de autonomia embora com elevada abstenção, que oscila em torno dos 30%, segundo as autoridades locais e os 60%, defendidos pelo governo central. O presidente boliviano considera os governadores que formam o Conselho como representantes das oligarquias locais e ameaçou recorrer à "pressão social" contra eles. Pela primeira vez, desde que se desencadeou o conflito pela autonomia que tem marcado seu mandato, Morales joga com vantagem. Para ser derrotado,o presidente precisaria ter contra si uma quantidade de votos maior do que a que o elegeu. Dado que ele alcança 54% - uma das maiores percentagens jamais registradas - é improvável que venha a perder na consulta. Além disso, ele obrigou a participar do jogo os governadores das nove províncias do país, que deverão submeter-se ao veredicto popular em um referendo que promete ter participação maciça. "A votação foi pedida por pessoas que nada têm a ver com a minha administração", explicava o governador de Tarija, Mario Cossío, que também declarou "não ter medo" da convocação. De sua parte, Leopoldo Fernández, governador de Pando, disse que o referendo revogatório "não convém a ninguém porque não soluciona nada". Para o governo, essas alegações são um inequívoco sinal de medo de derrota, da parte dos governadores rebeldes. "Eles já sabem que perderão no dia 10 de agosto", ressaltou o vice-ministro da Justiça, Wilfredo Chávez.

Com uma vitória nas mãos, Morales terá luz verde para retomar a aprovação da controvertida Constituição acatada em dezembro passado no interior de um quartel e com a presença apenas dos deputados do Movimento ao Socialismo (MaS), o grupo do presidente. Para que entre em vigor, o texto - que consagra a revolução indigenista projetada por Morales - ainda precisa do apoio de um referendo popular e o mandatário quer chegar a essa outra consulta depois de uma vitória e não depois de uma série de votações que o desafiaram.

Tradução: Claudia Dall'Antonia
Texto do El País, no UOL.

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quinta-feira, dezembro 27, 2007

Oligarquia aposta na desestabilização institucional na Bolívia

Oligarquia aposta na desestabilização institucional na Bolívia

Escrito por Max Altman
17-Dez-2007

O presidente Lula estava coberto de razão quando exclamou em Buenos Aires, em uma das cerimônias da posse de Cristina Kirchner, que Evo Morales “foi a coisa mais extraordinária que aconteceu recentemente na América do Sul”. Poderíamos acrescentar que para a Bolívia foi a coisa mais extraordinária que aconteceu em seus cinco séculos de existência.

Uma história de espoliação

A Bolívia tinha muita prata nas minas das montanhas de Potosi. Na época colonial, a prata de Potosi foi, durante mais de dois séculos, a principal alavanca do desenvolvimento capitalista da Europa. "Vale um Potosi", dizia-se, para elogiar o que não tinha preço. Em meados do século dezesseis, a cidade mais povoada, mais cara e que mais esbanjava no mundo brotou e cresceu ao pé da montanha que manava prata. Essa montanha, o chamado Cerro Rico, devorava índios. As comunidades se esvaziavam de homens, que de todas as partes marchavam prisioneiros, rumo à boca que conduzia aos buracos escavados. Do lado de fora, temperaturas de gelo. Do lado de dentro, o inferno. De cada dez que entravam, somente três saíam vivos. Mas os condenados à mina, que pouco duravam, geravam a fortuna dos banqueiros flamengos, genoveses e alemães, credores da coroa espanhola, e eram esses índios que faziam possível a acumulação de capitais que converteu a Europa no que a Europa é. O que ficou na Bolívia, de tudo isso? Uma montanha oca, cheia de buracos, uma incontável quantidade de índios assassinados por extenuação e uns quantos palácios habitados por fantasmas.

No século dezenove, quando a Bolívia foi derrotada na chamada Guerra do Pacífico, não só perdeu sua saída ao mar e ficou encurralada no coração da América do Sul. Também perdeu seu salitre. A história oficial, que é história militar, conta que o Chile ganhou essa guerra; mas a história real comprova que o vencedor foi o empresário britânico John Thomas North, Sem disparar um tiro nem gastar um centavo, North conquistou territórios que haviam sido da Bolívia e do Peru e se converteu em um dos homens mais ricos do mundo, no “rey del salitre”, que era então o fertilizante imprescindível para alimentar as cansadas terras da Europa. Saiu todo o salitre da província de Antofogasta, então pertencente à Bolívia, ficaram os buracos, e os salitreiros na miséria.

No século vinte, a Bolívia foi o principal abastecedor de estanho no mercado internacional.

Na profundidade dos buracos escavados nas montanhas de Huanuni, Oruro, o implacável pó de salitre matava por asfixia. Os pulmões dos trabalhadores apodreciam para que o mundo pudesse consumir estanho barato. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Bolívia contribuiu à causa aliada vendendo seu mineral a um preço dez vezes mais baixo que o preço de sempre. Os salários dos trabalhadores se reduziram a nada, houve greve, as metralhadoras dispararam fogo. Simón Patiño, dono do negócio e amo do país, não teve que pagar indenizações, porque a matança por metralha não é acidente de trabalho. Don Simón pagava cinqüenta dólares anuais de imposto de renda, mas pagava muito mais ao presidente da nação e a todo o seu gabinete. Vivia entre Paris e Londres onde se refinava o estanho. Suas netas e netos ingressaram na nobreza européia. Casaram-se com condes, marqueses e parentes de reis. Quando a revolução de 1952 destronou Patiño e nacionalizou o estanho, era pouco o mineral que restava. Ficaram os buracos, e os mineiros imersos na secular miséria (1).

A Bolívia está cheia de gás e petróleo. Seu povo, cansado de séculos de exploração, miséria e racismo, contudo, escaldado dos buracos deixados pela predatória exploração de suas riquezas naturais, resolveu eleger o índio aimara, Evo Morales. E o fez com a expressiva votação de 53,74%, porque Evo prometeu e cumpriu anterior plebiscito, nacionalizando o gás e o petróleo. Hoje, passado ano e meio, só com esta medida a receita fiscal passou de 300 milhões para 2 bilhões de dólares anuais. E mais, porque Evo prometeu que uma nova constituição iria refundar a Bolívia, pacífica e democraticamente, garantindo os direitos das populações indígenas, majoritárias no país, dos mineiros, dos trabalhadores e do povo em geral, modernizando o Estado. Aprovada em referendo a Constituinte, convocaram-se eleições gerais para a Assembléia Constituinte e novamente os apoiadores de Evo Morales, o partido Movimento ao Socialismo (MAS) e partidos menores aliados, alcançaram a maioria, 164 de 255 deputados constituintes. Estabeleceu-se um prazo para que os trabalhos constituintes se completassem e a nova Constituição fosse levada a referendo popular.

Mas as oligarquias brancas da Bolívia não toleram que um índio os governe e governe a nação. Não engoliram a nacionalização do gás e do petróleo, porque isso implicou em barrar os muitos negócios escusos que se faziam com as grandes corporações. Não admitem uma carta magna em que nações indígenas sejam reconhecidas e tenham sua própria autonomia. As oligarquias não querem perder os seus seculares privilégios e vão até as últimas conseqüências, a força bruta inclusive, para mantê-los.

Os boicotes à Constituinte

As classes exploradoras costumam alardear a defesa da liberdade e da democracia, porém, quando os seus interesses são atingidos, mandam às favas a democracia, sem a menor cerimônia. Dizem que democracia não é só o voto, que um de seus pilares é o respeito às minorias. Todavia, a minoria deve também respeitar a maioria e é esta quem governa.

A oposição, baseada nos governadores eleitos – antes eram nomeados pelo poder central - para 5 das 9 províncias do país, e no partido de direita Podemos, largamente derrotado nas últimas eleições presidenciais, começou por boicotar os trabalhos da Constituinte alegando inúmeros pretextos: a questão da maioria qualificada para aprovar artigo por artigo da Constituição – pelo regulamento aprovado, são necessários dois terços dos constituintes para aprová-los e o MAS mais os partidos aliados não atingiam essa cifra; a disputa pela capital do país entre Sucre e La Paz, uma divergência histórica. Passou-se mais de ano e os trabalhos constituintes não saíam do impasse.

Aproximando-se do prazo fatal de sua promulgação, os constituintes foram convocados a se reunir em Sucre na Assembléia local para dar continuidade aos trabalhos. Uma violenta manifestação organizada pelos comitês cívicos, compostos, liderados e apoiados pela oligarquia, ameaçou fisicamente os constituintes e, nos embates de rua, resultaram três mortos, fato ainda a ser esclarecido. Diante da grave ameaça à incolumidade física dos constituintes, a Assembléia se transferiu a um quartel onde o texto geral foi aprovado por 138 dos 255 constituintes. A oposição radical, liderada pelo ex-presidente Quiroga, líder do partido Podemos, boicotou a sessão. Foi designada nova sessão para 8 de dezembro – o prazo fatal das conclusões dos trabalhos era 14 de dezembro –a fim de se discutir artigo por artigo na Universidade de Oruro. A oposição mais radical de novo a boicotou, embora alguns poucos de seus membros resolvessem comparecer: 164 foram os presentes nessa nova sessão. Eram 64,3% da composição total e faltavam 2,3%.

Diante da postura antidemocrática, chantagista e provocadora da oposição, os constituintes presentes resolveram que aos artigos passassem a ser aprovados por dois terços dos presentes. Legítima e democrática reação. A voz do povo clamada reiteradamente em praça pública e nas urnas tinha de ser ouvida. A campanha vitoriosa à presidência de Evo pregou exaustivamente a convocação de uma Constituinte. Em referendo específico o povo a confirmou. Foram convocadas eleições constituintes para que os deputados eleitos escrevessem uma nova constituição. Era uma ordem do povo de quem emana, numa democracia, todo o poder. E foi aprovada a Constituição que será levada a referendo confirmatório, com uma única questão, a das terras, a ser dirimida no mesmo pleito.

O fundamentalismo reacionário da direita

Nesse momento, desencadeou-se o fundamentalismo reacionário e o radicalismo da direita e da oligarquia boliviana: a chantagem da secessão dos estados de Santa Cruz, Beni, Pando, Tarija e Cochabamba, cujos governantes se opõem raivosamente a Evo, tendo um deles, Rubem Costas, governador de Santa Cruz, dito que “aquela constituição, aprovada sob a mira de fuzis, não passa de um papel higiênico usado, e bem usado”; a greve de fome iniciada por alguns dos oposicionistas tentando sensibilizar a população; grupos juvenis fascistas armados de Santa Cruz de la Sierra que agridem comerciantes e populares que não compactuam de suas idéias e ordens; listas de nomes são coladas às paredes e postes denunciando a “traição” dos parlamentares que compareceram às discussões na constituinte.

Os opositores são cada vez em número menor, mas cada vez mais violentos. Contam em sua ação com o apoio político e logístico da embaixada norte-americana em La Paz. Não são as regiões que querem autonomia e sim alguns dirigentes dessas regiões. O povo quer a unidade nacional, também já expressa em voto.

Desesperada, a oligarquia aposta na desestabilização, no caos institucional e na derrubada do governo. Seus representantes foram bater às portas do quartel. Receberam uma resposta pública, tendo o Comandante Geral das Forças Armadas, general Wilfredo Vargas, ratificado seu respaldo ao presidente legítimo da nação boliviana: “As Forças Armadas não cederão diante das insinuações golpistas daqueles que promovem a violência, a partir de seus feudos”. Do exterior, pela voz dos presidentes, transcrita na Declaração de Buenos Aires, a Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Honduras, Paraguai, Uruguai e Venezuela também saíram em defesa de Evo, expressando solidariedade com o povo e o governo, manifestando confiança na capacidade das forças políticas bolivianas para manter um clima de diálogo e entendimento, rejeitando tentativas de enfraquecer a estabilidade das instituições e do governo eleito democraticamente.

Evo vem insistindo publicamente no diálogo, tendo proposto inclusive uma trégua natalina. Porém, se a oposição desprezar o diálogo e, apoiada na mídia ativamente a seu favor, insistir no plano golpista da sedição, do desabastecimento, do separatismo, do caos e da derrubada do governo, o governo Evo Morales, com base em sua legitimidade e apoiado pelos mineiros, camponeses, trabalhadores urbanos, pelos sindicatos e forças populares organizadas, tem o dever e o direito constitucional, valendo-se, se preciso, do uso da força, de impedir a sedição, o separatismo e o golpe de Estado, garantindo a unidade nacional, a democracia, as liberdades e a ordem pública.



(1) Eduardo Galeano in O país que quer existir (artigo de 1993)



Max Altman é advogado e militante petista.

Texto do Correio da Cidadania.

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