terça-feira, novembro 09, 2010

O pesadelo dos gerentes

O pesadelo dos gerentes


ACONTECE EM TODO lugar, mas videolocadoras são, ou eram até recentemente, as campeãs neste tipo de coisa. Você entra, os funcionários são muito jovens, estão mais interessados na própria conversa do que em atender o cliente, não fazem ideia do filme que você está pedindo e, na hora de pagar com cartão de crédito, o "sistema caiu".
Essa, pelo menos, era minha experiência desde os tempos do VHS e, ao que tudo indica, nos Estados Unidos ocorre o mesmo. Pois o exemplo da videolocadora aparece no capítulo inicial de "Não Tenha Medo de Ser Chefe", livro do consultor de negócios Bruce Tulgan, publicado no Brasil pela editora Sextante.
Por que seriam tão ruins os serviços daquela videolocadora hipotética? A culpa não é dos funcionários, nem do dono da empresa, responde Tulgan. A culpa é do gerente.
A questão, diz ele, é que estamos vivendo uma "epidemia de subgerenciamento". Teorias modernas de administração insistiram exageradamente na ideia de que é preciso delegar funções, atribuindo metas aos funcionários, sem orientá-los e acompanhá-los de perto.
Prêmios, penalidades, ordens precisas, baixa tolerância com a mediocridade: só assim, diz o livro, as coisas vão começar a funcionar.
Volto ao exemplo da videolocadora, entretanto, e penso em outra hipótese. O gerente, de fato, nunca está por perto em estabelecimentos desse tipo. Mas penso no funcionário que me atende.
Não se trata, necessariamente, de alguém com baixo nível de instrução. O que parece predominar nesse tipo de serviço é a figura do empregado temporário, muitas vezes um estudante. Basta você atrasar a devolução do DVD que todas as caras na locadora já mudaram. Provavelmente, o gerente também é outro.
O sociólogo Richard Sennett, em "A Corrosão do Caráter" (ed. Record), dá o exemplo de uma padaria, hoje totalmente informatizada, que ele tinha estudado há questão de 20 ou 30 anos.
O trabalho tornou-se muito menos exaustivo; o ambiente é asséptico como o de um laboratório. Produz-se uma quantidade muito maior e mais variada de pães.
Os empregados, entretanto, perderam comprometimento com a profissão. Não se consideram mais "padeiros". Apertam botões em um computador, cujo funcionamento desconhecem. Sabem que dali a alguns meses arranjarão outro serviço -numa locadora, provavelmente.
Pobre do gerente que quiser "liderar", como se diz, equipes desse tipo. A mão de obra tornou-se transitória como nunca num sistema de produção marcado pela extrema tecnologia. A velha "ética" do trabalhador, tanto na relação com seus colegas quanto com o resultado de seus esforços, pulverizou-se no que, com certa visão moralizante, gosta-se de denominar o "hiperindividualismo" contemporâneo.
O "hiperindividualismo" existe, antes de tudo, porque o próprio trabalho deixou de ser algo coletivo e perdeu o pouco sentido que antes possuía. Como exigir "motivação" de quem não passa de um apertador de botões e passador de cartões de crédito?
Na outra ponta, o alto dirigente tampouco está feliz. Em "O Executivo sem Culpa" (ed. Lua de Papel), João Ermida narra como passou por uma longa síndrome de pânico depois de muito sobe e desce no mercado financeiro. É dos que lamentam a "crise de valores" na sociedade contemporânea.
Infelizmente, para superá-la -adotando comportamento mais sábio e menos imediatista-, não bastam, a meu ver, transformações individuais. Seria preciso, antes de mais nada, avisar a concorrência.
Enquanto isso, o leitor interessado no assunto pode ler "Como Enrolar Seu Chefe", de João José da Costa (ed. Matrix). Entre as recomendações, na aparência humorísticas, mas bastante profundas de seu livro, estão a de tomar o máximo de cafezinhos por dia, participar de tudo quanto é curso de reciclagem, preparar um Power Point "multivalente" para sair dando palestras por aí, entrar em toda reunião inútil. O objetivo, claro, é trabalhar o menos possível.
Por trás de tudo, está o fato de que o trabalho se autoinventa; criam-se funções e projetos para justificar o que nunca teve tão pouco sentido; o desemprego, ou na melhor das hipóteses, o trabalho temporário, é o pesadelo do qual todos, gerentes ou não gerentes, gostariam de acordar.

Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo, de 3 de novembro de 2010.


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sábado, agosto 01, 2009

Teles móveis usam Copa no Brasil para pressionar a Anatel

Teles móveis usam Copa no Brasil para pressionar a Anatel

Para evitar suposto colapso na rede durante o evento, as operadoras de celular reivindicam frequências da TV paga

Anatel duvida de panes, mas sinaliza repartição das frequências; disputa pode prejudicar o consumidor, segundo associação das TVs

JULIO WIZIACK
DA REPORTAGEM LOCAL

As teles móveis estão usando a Copa do Mundo, que acontecerá no Brasil em 2014, como forma de pressionar a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) para antecipar a divisão das frequências hoje em posse das TVs pagas e evitar um suposto colapso nas redes de celular no país.
As frequências são as "avenidas" por onde as operadoras enviam seus sinais (voz e dados). Quanto mais "veículos" trafegam por elas, menor a velocidade e, no limite, é preciso que a Anatel libere mais "ruas" (frequências) para garantir a qualidade do serviço.
Representadas pela Acel, a associação do setor, as teles móveis afirmam que as TVs pagas dispõem de faixas ociosas de frequência e pedem uma repartição pela Anatel. Motivos: o número de assinantes da TV fechada é de cerca de 620 mil, ante os 158 milhões da telefonia celular, sendo que os usuários de internet pela rede móvel dobram a cada ano.
Ainda segundo a Acel, durante a Copa, essa rede corre o risco de entrar em colapso com o excesso de tráfego de dados se a distribuição das frequências não ocorrer logo. Em 2006, na Copa da Alemanha, a rede teve de suportar um tráfego de 15 trilhões de bites em telefonemas e acessos à internet por um mês -o equivalente a 100 milhões de livros enviados. No Brasil, estima-se que esse fluxo será pelo menos 30% maior.
"Com a chegada de jornalistas e representantes das delegações de diversos países, vamos ter problemas", diz Luiz Otávio Marcondes, diretor de assuntos regulatórios da Claro e integrante da Acel.
A TIM afirmou que será afetada antes disso, apenas com o tráfego nacional. Janilson Bezerra, gerente de infraestrutura da operadora, afirma que, em 2011, São Paulo será a primeira capital a enfrentar dificuldades. Segundo ele, 4,3 milhões de clientes da TIM na cidade navegarão abaixo de 500 Kbps se os clientes somarem 8,6 milhões. "Isso se não houver mais frequências." Bezerra não quis revelar quantos clientes a TIM tem em São Paulo.
Essa discussão ocorreu há cerca de 20 dias, em Brasília, durante um evento promovido pela GSM Association, que representa as principais companhias móveis do mundo. Metade dos participantes eram técnicos da Anatel, e as teles tentavam convencê-los da necessidade de dispor de 140 MHz das TVs pagas (que hoje detêm 190 MHz). Com isso, as móveis somariam 500 MHz, ainda 60% abaixo do que elas dizem precisar dispor até 2013, quando, ainda segundo elas, 90 milhões de brasileiros estarão conectados à internet móvel.

Tentativa de golpe
Alexandre Annenberg, presidente da ABTA, a associação das TVs pagas, considera essa manobra um "crime contra a concorrência". "Eles querem nos tirar da competição na banda larga e estão usando a Copa como pretexto", afirma Annenberg. "Esse é um evento previsto daqui a cinco anos, tempo que, comercialmente, as teles levariam para disponibilizar o 4G (quarta geração). O que elas querem é pressionar a agência para reservar já a frequência de 2,5 GHz [hoje utilizada pela TV paga] para o LTE [Long Term Evolution], tecnologia que o mundo está escolhendo para implementar o 4G," diz.
A ABTA defende a convivência no Brasil entre o LTE e o WiMax (tecnologia que permite a oferta de banda larga por micro-ondas, usadas pelas TVs pagas). Annenberg afirma que as TVs pagas só esperam a certificação dos equipamentos pela Anatel para oferecer o serviço pelas frequências que, segundo a Acel, estariam ociosas.
"É uma alternativa de baixo custo que poderia ampliar o número de competidores no mercado de banda larga, especialmente em regiões de difícil acesso," diz Annenberg. "No fundo, o que as teles querem é nos tirar desse negócio. A agência não pode permitir, porque isso fere a concorrência e prejudica o consumidor."
Segundo o gerente de Engenharia do Espectro da Anatel, Marcos de Souza Oliveira, há duas possibilidades em estudo. A primeira prevê a retirada de 80 MHz das TVs pagas, que seriam transferidos para duas operadoras móveis. Seria possível ainda destinar esse total a uma entidade independente, que repartiria essa frequência entre as operadoras a ela vinculadas. A decisão final sai até o final deste ano.
A Folha apurou com técnicos da Anatel que a agência duvida da possibilidade de um colapso nas redes das operadoras móveis. Para eles, se isso for verdade, significa que as teles não fizeram os investimentos que disseram à agência terem feito até o momento.

Notícia da Folha de São Paulo, de 14 de julho de 2009.

É um assunto de muito interesse para os consumidores.


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quarta-feira, maio 23, 2007

Manchetes Que Nunca Veremos(3): "Assentados do MST Exportam Arroz Orgânico"

Agricultores assentados, em regiões da Grande Porto Alegre, como Nova Santa Rita, Viamão, Eldorado do Sul e Guaíba, entre outros, originários do MST, estão exportando 40 toneladas de arroz orgânico para Estados Unidos e Europa. São 20 toneladas de arroz branco e outras 20 de arroz integral. O arroz é exportado em sacas de 25 Kg, com a marca "Arroz Ecológico".
Certamente esta quantidade de arroz, 40 toneladas, é um grão de areia na praia que é a produção de grãos brasileira, estimada em mais de 120 milhões de toneladas. Mas se pensarmos em consumo familiar, é uma quantidade razoável.
Além disso, esta produção entra em conflito com os rótulos que algumas pessoas gostam de aplicar aos movimentos sociais, como "vagabundos", "desocupados", "baderneiros", e outros que tais.

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sexta-feira, abril 27, 2007

Rotulagem de transgênicos