quinta-feira, abril 01, 2010

O que a Globo não contou sobre o Armando. E o debate Collor vs Lula

O que a Globo não contou sobre o Armando Nogueira é por que o mandou embora.

Roberto Marinho era menos esperto do que se diz.

Na sucessão do Governo Sarney – que ele co-presidiu – Roberto Marinho ficou vendido: não sabia quem apoiar.

Apoiou Quércia, Covas, namorou o Afif e só foi apoiar o Collor depois que o Collor estava na frente das pesquisas.

O Collor jamais se esqueceu disso.

E o Roberto Marinho sabia que o Collor não esqueceria isso.

Desde o início da campanha, Collor construiu uma ponte com Alberico de Souza Cruz, que Armando tinha nomeado vice para cuidar dos jornais das praças.

Woile Guimarães – de caráter de outra estirpe – cuidava dos jornais de rede.

Alberico ajudou a vestir em Collor o manto púrpura do “caçador de marajás ”.

(A Veja não deixava o manto arrastar no chão.)

Em Nova York, num intervalo de uma Assembleia Geral da ONU, Collor me contou que a ponte dele com a Globo sempre foi o Alberico.

O Dr Roberto se sentiu desamparado.

Estava mal acostumado com o Sarney.

No Sarney, o Mailson da Nóbrega só foi nomeado Ministro da Fazenda depois que o Dr Roberto assentiu.

Aí, veio o debate que decidiu o segundo turno, Collor vs Lula.

E a edição do jornal nacional foi uma patranha só.

A edição do debate – em que a Globo, por instrução do Roberto Marinho, selecionou “tudo o que era bom para o Collor” e “tudo o que era ruim para o Lula” ; uma pesquisa por telefone (quando não havia telefone no Brasil); e um editorial do Alexandre Garcia que queria dizer assim: se o Collor ganhou o debate, isso é a democracia.

Logo, vá lá domingo e vote no Collor para realizar a democracia.

Na Carta Capital – em dezembro de 1999 – e em meu livro “Plim-Plim, a peleja de Brizola contra a fraude eleitoral”, já contei o que eu vi e ouvi, naquele dia da edição do debate.

“(Mario Sergio) Conti errou na ida e na volta. Errou na volta, porque, na volta de Collor à planície, a reportagem decisiva foi a da IstoÉ com o motorista Eriberto França – e isso não ficou claro no (livro) Notícias do Planalto(da editora Companhia das Letras)..
Errou na ida, porque na ida de Collor ao poder, o episódio decisivo foi a edição do debate entre Collor e Lula, feita no Jornal Nacional. E Notícias descreve esse episódio de forma superficial, que atenua a responsabilidade de Roberto Marinho e de Alberico Souza Cruz, diretor dos jornais em rede a Globo.
Só isso explica O Globo de 27 de novembro [de 1999] dedicar ao livro (de Conti) três páginas no primeiro caderno. Como se sabe, O Globo não recebia um lançamento editorial com tanto entusiasmo desde a Epístola aos Romanos.
Sobre o episódio da volta, quando Conti dirigia a Veja, a revista concorrente de IstoÉ, o livro Imprensa e Poder: Ligações Perigosas, de Emiliano José, é mais completo do que Notícias.

Vou tratar da ida.
Então, dezembro de 1989, eu era editor de economia da Rede Globo. Na sexta- feira, dia 15, ao chegar à redação, percebi que uma tempestade se formava. Conversei com o Ronald Carvalho, editor de política. Com Wianey Pinheiro, responsável pela cobertura das eleições e também responsável pela edição do debate que o jornal Hoje, ao meio-dia, tinha exibido. Zanzei pela redação e ilhas de edição e soube:
• O dr. Roberto não gostou da edição de Hoje e mandou o Jornal Nacional dar tudo o que fosse bom para o Collor, e tudo o que fosse mau para o Lula.
• O Alberico mandou o Ronald editar como se fosse a luta em que o Mike Thyson destroçou o pobre coitado do Pinkle Thomas, dias antes transmitida pela Globo.

Isso, o que eu ouvi.

Agora, o que eu vi.

Vi por ali, como se fosse um dos nossos, o Daniel Tourinho, presidente do PRN, o partido do Collor.

Vi o Alberico na ilha (de edição). Não importa se ele disser que não editou.

Como todos os profissionais da Globo sabiam, o Alberico não tinha idéia do que fazer numa ilha de edição. Ele se sentia tão à vontade ali quanto no hall de entrada do Louvre.

Imediatamente após o Jornal Nacional, liguei para o Ronald e perguntei – não me lembro exatamente das palavras – ‘como é que você fez uma coisa dessas?’
Ele respondeu que decidiu exagerar, forçar a mão, para o espectador perceber que se tratava de uma manipulação.
Depois da publicação de Notícias, o Ronald me contou também que, logo após o Jornal Nacional, recebeu um telefonema do dr. Roberto para dizer que, daí para frente, era assim que queria a cobertura política.

Conti tem quatro explicações para o que aconteceu: 1. ‘O único critério objetivo’ para editar um debate de forma imparcial é dar aos dois candidatos o mesmo tempo (página 269). 2. O dr. Roberto determinou, muito antes, que a cobertura da campanha obedeceria à regra: todos os candidatos teriam o mesmo tempo. 3. O dr. Roberto não revogou essa ordem, ao determinar que a edição deveria ‘evidenciar que Collor vencera’ (página 270). 4. Os responsáveis pela indisciplina foram Alberico e Ronald (página 270). 5. A manipulação do debate não tem a menor importância, nem a cobertura parcial (‘o bom e o mau’), que a Globo fez toda a campanha. Pesquisas (páginas 273 e 274) demonstram que a decisão de votar em Collor independia do que a Globo fizesse. Collor encarnava ‘um Brasil… moderno. Como nas democracias da Europa Ocidental, o eleitor se expressara… com base no posicionamento (sic) ideológico…’ (página 274).

Vamos por partes.
Tempo em televisão não é critério para avaliar objetividade. Ao contrário. Dependendo de quem está na ilha de edição, dar mais tempo pode destruir um entrevistado. Quanto mais não é melhor.

Na linguagem da política, aliás, tempo não tem nenhuma relação com persuasão. O discurso de Lincoln em Gettysburg pode ser lido em dois minutos e sete segundos.
O fato de a Globo distribuir o tempo com ‘critério objetivo’ levanta suspeitas, também em outra circunstância. Na cobertura da campanha Fernando Henrique vs. Lula, a Globo deu aos dois o mesmo tempo. Mas, e as inúmeras e redundantes entrevistas do ministro da Fazenda Rubens Ricupero sobre o Plano Real? Ricupero já disse desconfiar que as entrevistas se desenrolavam, na verdade, num palanque.

(Espera-se que essa questão fique esclarecida, um dia, quando sair o livro – título provisório – Laços de Ternura, que está sendo escrito por um jornalista nos Estados Unidos – cujo nome não posso revelar – sobre ‘ a imprensa e Fernando Henrique Cardoso’.)

Se fosse uma grave indisciplina desrespeitar a ordem de distribuir o tempo por igual, o Alberico não teria sido nomeado para o cargo do Armando meses depois.
Corre por baixo de toda a narrativa de Conti a justificativa de que Collor ganhou o debate: o próprio Lula achou isso.

Suspeita-se que Manga, aquele notável goleiro do Botafogo, também achasse que o Collor ganhou o debate. E daí? O papel de um jornal é reproduzir o que aconteceu. E o que aconteceu não estava no Jornal Nacional. Se houve uma vitória no debate, não houve uma goleada. O que foi ao ar no Jornal Nacional é uma manipulação. A edição do Pinheiro e do Carlos Peixoto, a do Hoje, era uma edição que os profissionais da Globo subscreveriam. (Com duas ou três exceções, é claro…) Porque ela reproduzia o que aconteceu, em tamanho menor e é para isso, como os cartógrafos, que serve um editor.

Se o Lula tivesse ‘vencido’ o debate, o Jornal Nacional daria com uma divisão ‘criteriosa’ do tempo – a versão que mostrasse que Lula ganhou?

E a pesquisa? No Hoje e no Jornal Nacional, colada à edição do debate, havia uma pesquisa da Vox Populi (que trabalhava para o Collor, como ressalta Conti): por 44% a 32%, a opinião pública considerou que Collor venceu o debate. Se Lula tivesse ‘vencido’? O Jornal Nacional daria uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo?

Sobre o impacto da cobertura da Globo no eleitor. É bom lembrar que, segundo as pesquisas, Lula e Collor foram para o debate empatados.

A hipótese do livro – os três programas do partido foram mais importantes para a vitória de Collor do que a ajuda da Globo (página 274) – tem tanto valor científico quanto a proposição inversa. Na página 276, por exemplo, Boni diz: ‘Supor que o debate tenha influenciado a eleição é ridículo’.

Nos Estados Unidos, a literatura sobre o assunto é farta. Há quem diga que o célebre debate de John Kennedy e Richard Nixon – em que Nixon apareceu com a barba por fazer e a toda hora limpava o suor do rosto – não teve a menor importância. O eleitor já decidira votar em Kennedy. Tanto isso deve ser verdade que, dessa data em diante – foi o primeiro debate presidencial transmitido ao vivo, pela TV – todos os candidatos à Presidência, pelo mundo afora, vão aos debates na televisão de tamancos, barba por fazer e os cabelinhos do peito a sair pela camiseta em V.

O livro de Conti não mete a mão no câncer.

E é por isso que o título tem o sabor de tofu. Notícias do Planalto – o que diz sobre ‘a imprensa e Fernando Collor’?

Trabalhei no Jornal do Brasil com um profissional exemplar, José Silveira. Ele dizia que ‘matéria que não tem o que dizer não tem lead; e matéria que não tem lead não dá título’. O livro de Conti não deu título porque não tem lead. Não tem tese. Não dá murro. Não tem uma revelação estarrecedora.

Aquela edição foi a do debate do Collor. Poderia ter sido a do Quércia, porque, a certa altura, o candidato de Roberto Marinho era o Quércia. E, então, o Alberico vinha a São Paulo, toda semana, despachar com Carlos Rayel, homem do Quércia para a imprensa.

Quando Collor começou a subir, o Alberico ficou amigo pessoal do Collor e falava com ele todo dia, por telefone – mesmo depois de presidente. Como se diz amigo pessoal de Fernando Henrique. E se preparava para ficar amigo pessoal de Ciro Gomes quando caiu, de tão amigo se tornara de Sérgio Motta.

O importante não é o Alberico. O Alberico fazia os amigos que o dr. Roberto deixava. O Alberico administrava o varejo e abria portas que Roberto Marinho, sozinho, não abriria. (O livro não deixa claro que Collor detestava Roberto Marinho.)

O episódio do debate é o ponto culminante de uma política de manipulação de opinião pública, através do noticiário da maior rede de televisão comercial do mundo, fora dos Estados Unidos. Uma política que não começou com o Collor nem acabou com ele. É uma pena que Conti não tenha conseguido daí extrair um título. Poderia ser O Bom e o Mau – como a imprensa cobriu a campanha Collor vs. Lula. Já facilitava. Depois viriam O Bom e o Mau II, O Bom e o Mau III…”

“O bom e o mau”, copyright CartaCapital nº 113 (22/12/99)

Com o debate e a eleição do Collor, o Dr Roberto tratou de mandar o Armando embora (que não conhecia o Collor) e botar no lugar alguém que o Collor conhecia muito bem.

Foi assim que Armando caiu.

O jornal nacional se chamou “nacional”, não porque fosse “nacional”, já que não havia rede nacional, mas porque o patrocinador era o Banco Nacional.

Agora, ele precisava no comando do jornalismo de um homem em que Collor confiasse.

Armando costumava dar uma versão inexata dos acontecimentos.

Está hoje, na pág. A11 da Folha (*) :

“Na edição Collor-Lula eu fui o marido enganado. O cara que dirigia a área (Alberico) fez modificações à revelia do próprio empresário. Fez aquela manipulação por jogada pessoal, porque era ligado ao Collor.”

Ora, o diretor de jornalismo era ele.

E foi o próprio “empresário” quem mandou “o cara que dirigia a área” escolher o “bom” do Collor e o “mau” do Lula.

Outra imprecisão está na primeira página do Globo de hoje, de autoria do magistral Chico Caruso.

Chico mostra o Dr Roberto a receber o Armando no céu, (?) na companhia do Evandro Carlos de Andrade e o convida para fazer um jornal.

Não era bem assim.

Evandro dirigia o Globo e não era amigo do Armando.

Evandro achava que o Armando fazia mau jornalismo e ganhava bem demais.

O Armando achava que o Evandro fazia mau jornalismo e pouco se importava com os péssimo salário que o Globo sempre (e até hoje) pagou.

Na TV Globo do Armando, era melhor ter trabalhado no Jornal do Brasil, onde Armando brilhou, do que no Globo do Evandro.

Depois, Evandro foi substituir o Alberico para fazer uma limpeza de área e impor o novo comando à rede Globo – os filhos no lugar do Dr Roberto.

Evandro fazia questão de dizer que não entendia nem queria entender de televisão.

Tanto assim que as únicas coisas que fez enquanto esteve lá foi contratar a urubóloga Miriam Leitão e o Torquemada Jabor.

Foi o Armando quem me levou para a Globo.

Aprendi muito com ele.

Especialmente a escrever para a televisão.

Ele era um craque.

Armando inventou o jornalismo na televisão brasileira e o Ali Kamel vai passar a vida sentado lá, sem mexer no que o Armando fez (melhor do que ele).

Mas, o Armando perdeu o pênalti aos 45 do segundo tempo, no dia do debate do Lula com o Collor.


Depoimento do Paulo Henrique Amorim, no Conversa Afiada.

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segunda-feira, março 01, 2010

Os Jogos Olímpicos de Inverno e os malefícios da monopolização


Terminaram ontem os Jogos Olímpicos de Inverno, que foram realizados na cidade de Vancouver, no Canadá. Foram duas semanas em que pudemos acompanhar pela televisão uma série de atividades realizadas na neve, ou no gelo do inverno do hemisfério norte, enquanto aqui no Brasil, derretíamos de calor (no Rio de Janeiro, no período, foram registradas temperaturas acima de 40ºC, e sensação térmica ao redor de 50!).


Nós só pudemos acompanhar os Jogos Olímpicos de Inverno porque a TV Globo perdeu os direitos de transmissão dos Jogos Olímpicos de Verão de Londres, em 2012, para a TV Record. Como a transmissão dos Jogos de Inverno fazia parte do pacote, a Record também os transmitiu.


Os Jogos Olímpicos de Inverno se realizam desde a década de 1920, e desde 1994 (em Lillehammer, Noruega) não ocorrem mais no mesmo ano dos Jogos Olímpicos de Verão. O Brasil envia delegação aos Jogos Olímpicos de Inverno desde 1992 (Albertville, França). Por enquanto, nossos atletas estão fazendo figuração, não tendo trazido nenhuma medalha dos Jogos de Inverno, o que faz algum sentido, uma vez que, como diz a canção de Jorge Ben, somos um país tropical. A neve que eventualmente cai em algum rincão isolado do sul do país não chega a se acumular, e ser suficiente para a prática das modalidades esportivas que tivemos oportunidade de assistir. Mas há atletas esforçados que se dirigem à Argentina e ao Chile, ou mesmo que se radicam em países frios do hemisfério norte, para a prática de esportes de inverno. E sobre países tropicais e Jogos Olímpicos de Inverno, quem não assistiu àquele simpático filme da Disney, “Jamaica Abaixo de Zero” (“Cool Runnings”, 1993)? O filme foi sobre a participação da heróica delegação jamaicana nos Jogos de 1988, em Calgary, no Canadá. Nestes Jogos de 2010, a cerimônia de abertura testemunhou a participação de delegações do Brasil, Peru, Colômbia, Portugal, México, e África do Sul, entre outros. E, claro, da Jamaica.


O fato de nossos atletas não serem competitivos o suficiente para trazerem medalhas não nos impede de apreciarmos os jogos. Muita gente gosta de assistir, por exemplo, à competição de patinação artística, mesmo sem ter um atleta em especial para torcer. Meu filho gosta de assistir jogos de hóquei no gelo, tanto pela rapidez das jogadas, quanto pela violência admitida nos jogos. E as descidas de esqui pelas montanhas são bem impressionantes.


Mas tudo isso estaria fora de nosso alcance se a TV Globo tivesse mantido seus direitos de transmissão. A TV Globo já foi praticamente um monopólio na televisão brasileira. Hoje sua parcela de mercado é menor, mas ela ainda age como se fosse um monopólio. No momento ela tem menos parcela de mercado do que tinha a vinte anos atrás, e a televisão aberta ocupa menor parcela relativa em nossos interesses. Sofre a competição da Internet e da televisão por assinatura entre outras coisas (DVD, videogame, …). E a TV Globo obviamente não teria interesse em transmitir os Jogos Olímpicos de Inverno, pois estes possivelmente lhe trariam menos audiência que os “produtos” que ela oferece em seu chamado horário nobre, que são as novelas e o Jornal Nacional. Assim tivemos transmissões pela TV Record, e pela sua subsidiária, a Record News. E pudemos acompanhar os Jogos de Inverno. Mas me pareceu que a melhor transmissão foi da SportTV, subsidiária da Rede Globo. Mas só para quem tivesse TV por assinatura.


Como este virtual monopólio foi quebrado, pudemos acompanhar os Jogos de Inverno. Para quem gosta, foram muito bons.


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quarta-feira, agosto 22, 2007

Criança Esperança by Bira