sexta-feira, abril 24, 2009

100 minutos entre a esperança e a decepção, ou a angústia para entrar em Portugal

100 minutos entre a esperança e a decepção

Eduardo Tessler
De Lisboa

A angústia de ultrapassar o Muro de Lisboa dura agora intermináveis 100 minutos. Não que a capital portuguesa tenha construído uma barreira de pedras e tijolos, como a que dividiu as Alemanhas por 28 anos, ou como a que separa os Estados Unidos do México ou Israel da Palestina. O Muro de Lisboa é o controle de passaporte no Aeroporto da Portela. Agentes da Polícia avaliam se o estrangeiro tem ou não condições de entrar no país - e na Europa. Manuseia o passaporte, checa dados em um computador e dá o veredito: entra ou volta ao país de origem.

A situação de enfrentar o porto de entrada do maior contingente de brasileiros na Europa é constrangedor e dá medo. Um suposto mau humor do agente pode significar a volta ao Brasil, para milhares de imigrantes, que sonham com um trabalho honesto e um salário mais digno. Em euros. Na mesma fila misturam-se turistas e potenciais imigrantes, brancos e negros, africanos e orientais. Todos passam pela mesma triagem, exceto os europeus, que têm direito a rápidos guichês exclusivos.

A agonia de passar a fronteira tem agora um problema a mais em Lisboa. A demora. Domingo, dia 05 de abril, foram exatos 100 minutos para chegar aos agentes. As filas enormes foram provocadas pelo acúmulo de vôos oriundos do Brasil e de países africanos, bem como pelo pouco caso da polícia portuguesa. No domingo, entre 06h e 09h, eram apenas dois agentes nos guichês para todos os estrangeiros. O casal de atores Paulo Goulart e Nicete Bruno, ambos com 76 anos, que seguiram a Lisboa desde São Paulo pelo vôo Tap TP 196, foram duas das vítimas dos caprichos do controle de estrangeiros de Portugal. Uma hora e quarenta minutos em uma fila.

Para Nicete, Paulo e a maioria dos brasileiros, essa espera significa apenas quase duas horas a menos de tempo em Portugal, bem como algumas dores nas pernas, de tanto tempo em pé. Mas para os que sonham com a vida em Portugal são minutos de profunda angústia. O medo de não entrar no país, o discurso ensaiado para os agentes repassado na mente, os papéis arranjados com algum endereço, carta de quem promete trabalho, seguro-viagem. Os tempos duros no Brasil, a falta de esperanças, a vida modesta, o fim de um sonho, tudo isso passa várias vezes no filme da vida, que teima em repetir-se nos 100 minutos de espera. O riso nervoso, o suor frio, a enésima revisão dos documentos e do passaporte novo, sem qualquer carimbo. Os 100 minutos são mais de 1000 na cabeça do candidato a imigrante.

Os 100 minutos de fila fazem de Lisboa hoje o pior lugar para se chegar na Europa para turistas brasileiros sem riscos de serem barrados. A polícia do aeroporto de Madri tem sido dura com brasileiros, mas só complica quando há algum motivo aparente. Londres, que não está no acordo de Schengen (as fronteiras abertas da Europa), é cruel com quem tem perfil de imigrante. Paris é rápido e com poucas perguntas. Zurique é na Suíça, funciona como um relógio. Mas a inexplicável espera de Lisboa é uma tortura desnecessária. "Me sinto como um touro em direção ao abate", comparou uma brasileira na fila, com a filha dormindo no colo.

Em 100 minutos é possível assistir a um filme inteiro no cinema. É mais que um jogo de futebol. Pode-se ir de avião de São Paulo ao Rio e ainda tomar um táxi até Copacabana. E sobra tempo. Dá para sair do centro de São Paulo de carro e chegar em Campinas. Os 100 minutos da fila de Lisboa é uma perda de tempo sem precedentes. Mesmo no rigoroso sistema de imigração dos Estados Unidos, onde o turista deve deixar as digitais gravadas e uma imagem no vídeo, o tempo para se passar a fronteira é bem menor. Nada explica o absurdo dos 100 minutos de Lisboa.

Mas para tudo que está mal, há uma perspectiva. Nesse caso ainda pior. Segundo um dos agentes da Polícia de Fronteira do Aeroporto de Lisboa, não há nenhum plano em mudar essa lógica. O atendimento será reduzido, com as longas filas e os 100 minutos de espera, até segunda ordem. "Quem quer vir, que venha. Quem não quer esperar que fique em casa", disse, com uma ponta de sadismo e arrogância, o agente domingo.

Para fugir da espera, o melhor agora é entrar na Europa por outro aeroporto.

Texto do Terra Magazine.


Marcadores: , , , , ,

terça-feira, janeiro 29, 2008

Dois séculos de soberania

Nesta semana completaram-se 200 anos da chegada ao Rio de Janeiro da família real e da Corte portuguesa. Mais de 20 livros sobre a época foram publicados para celebrar a data, algo incomum num país de pouco hábito de leitura, como o Brasil. Ainda na graduação, li o excelente “D. João VI no Brasil”, de Oliveira Lima, que matou minha curiosidade pelo período. Contudo, vale aproveitar a ocasião para refletir um pouco sobre o que significou a transferência da Corte para nosso país.

Produções populares para cinema e TV consolidaram no imaginário brasileiro a idéia de D. João como um débil mental governando uma sociedade corrupta e decadente, e retrataram sua fuga de Lisboa como um episódio patético e inesperado. A realidade é mais matizada e interessante. Desde a Restauração de 1640, quando Portugal libertou-se do jugo da Espanha, o país tornou-se dependente da aliança com a Inglaterra para defender sua precária segurança e seu império marítimo ainda mais frágil. Já naquela época o padre Antônio Vieira propôs a mudança da capital, e no século XVIII o influente diplomata d. Luís da Cunha reforçou a idéia.

D. Luís havia representado Portugal em Londres, Paris e Madri e estava consciente do atraso lusitano diante da França e da Inglaterra, e assustado diante dos riscos militares nas crises do antigo regime, em particular a Guerra de Sucessão Espanhola. Os terremotos da Revolução Francesa e das guerras napoleônicas apenas agravaram as circunstâncias, colocando Portugal na situação insustentável de escolher entre enfrentar a coligação França-Espanha ou romper a aliança inglesa.

Não conheço outro império colonial que tenha sido governado de uma de suas colônias, embora algo assim tenha sido discutido na França quando o país foi invadido pela Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial. D. João foi mais sábio do que o marechal Pétain, preservou a monarquia e expandiu seus domínios para territórios americanos (os atuais Uruguai e Guiana Francesa) pertencentes a seus inimigos europeus. E pelo de Rio de Janeiro foi ficando, aqui foi aclamado rei e talvez por cá tivesse morrido, não fosse a Revolução Liberal do Porto e a indignação de seus súditos portugueses a exigir o retorno do soberano.

O principal legado da estada da Corte no Brasil foi ter lançado as bases para a construção do Estado nacional, com estadistas de primeiro porte, como d. Rodrigo de Sousa Coutinho, criando os primeiros estabelecimentos de ensino superior, eliminando o monopólio metropolitano do comércio exterior, estimulando a ciência e trazendo para o Rio de Janeiro a célebre “biblioteca dos reis”, que hoje conhecemos por Biblioteca Nacional. Tesouro tão importante que rendeu enormes disputas quando da independência brasileira, menores apenas do que as negociações da dívida externa.

Um olhar mais crítico veria que as bases desse Estado eram terríveis: patrimonialismo, nepotismo, escravidão, atraso econômico. Em grande medida, representavam o que havia de pior na Europa Ocidental naquele momento. Concordo. É destes cacos que estamos tentando construir um país.

Texto do Blog Todos os Fogos o Fogo.

Marcadores: , , , ,

segunda-feira, novembro 05, 2007

Liberdade para Ana Virgínia

Hóje é dia de blogagem coletiva pela libertação da brasileira Ana Virgínia, brasileira, presa em Portugal.
Pelo que pude entender, Ana viajou com seu filho de 6 anos para Portugal, para visitar o país e conhecer a residência do namorado. Lá chegando, o filho passou por uma crise de saúde, e Ana errou na dose de remédio ministrada, vindo a criança a falecer, fato este que gerou profundo transtorno emocional na mãe, tendo esta tentado se suicidar. Contudo a tentativa de suicídio fracassou, a polícia portuguesa interveio, e indiciou Ana por assassinato de seu filho, tendo ela sido recolhida a uma prisão. Nesta prisão ela foi submetida a maus-tratos por parte de suas colegas de cela, tendo que ser levada para uma clínica para ser submetida a tratamento. O estado português não foi capaz de garantir a integridade física de sua prisioneira.
Mais detalhes podem ser encontrados no Blog da Luma, onde eu descobri o relatado acima. Há uma petição online, encaminhada ao Presidente da República, e ao Ministro da Justiça, pedindo que eles intercedam por Ana Virgínia junto ao governo português. E há um saite mantido pelos familiares de Ana Virgínia.



Marcadores: , , ,