quarta-feira, outubro 27, 2010

Michel Temer...

Michel Temer: tanto faz

SÃO PAULO - Índio da Costa ainda não brilhou na TV de José Serra, mas Michel Temer enfim apareceu no programa eleitoral de Dilma Rousseff. Foi na terça à noite. Discursou por um minuto diante da câmera, como se fosse o fiador ou o guardião da governabilidade.
Destacou a importância de uma "maioria sólida" no Congresso para o futuro presidente e desfilou números: Dilma, se eleita, terá o apoio "de mais de 350" dos 513 deputados, e poderá contar "com mais de 50" dos 81 senadores. E concluiu, com seu típico sorriso de Monalisa no canto da boca: "Dilma poderá governar com tranquilidade".
Michel Temer...
Há quatro anos, já então presidente do partido, o vice de Dilma apoiou Geraldo Alckmin contra Lula. Mais do que isso. O PMDB, sem candidato próprio, rachou no segundo turno. O governador Sérgio Cabral fechou com Lula. E Temer foi o articulador do apoio do casal Garotinho -Anthony e Rosinha, à época no PMDB- ao tucano.
Está tudo documentado: no endereço www.folha.com/102942 você pode ver as imagens de Alckmin, Temer, Garotinhos -juntos pelo Brasil. "Nós começamos a fazer um trabalho para obter a parcela mais ampla do PMDB no apoio à Alckmin. Hoje, com Rosinha e Garotinho, foi o primeiro passo", disse Temer no dia 4 de outubro de 2006. Clarissa, a filha do casal, trajava camiseta onde se lia: "FORA LULA".
Isso deve dizer algo sobre as convicções de Temer. Entre aquele que queria mandar Lula para casa em 2006 e o que hoje se apresenta como vice de Dilma, o que mudou? Não é, afinal, o mesmo governo?
Temer seria o primeiro a acenar na direção de Serra na hipótese improvável de uma vitória tucana. Daria ao gesto um ar solene e grave, invocando a mesma "governabilidade" que serve de álibi para os negócios do partido. O presidente do PMDB é o senhor tanto faz da política brasileira. Ou são o PT e o PSDB que estão cada vez mais parecidos com a política de Michel Temer?

Coluna de Fernando de Barros e Silva, na Folha de São Paulo, de 22 de outubro de 2010.


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terça-feira, abril 07, 2009

Ego (V): O Azedume

Ópera do malandro

Pelo andar da carruagem, com direito a foto ao lado da rainha e elogios a céu aberto de Barack Obama, Luiz Inácio Lula da Silva ainda acaba recebendo o Prêmio Nobel. Não o da Paz, mas o de Literatura, pelo conjunto da obra, na ausência de um de Artes Cênicas, que lhe conviria melhor.
Não há por que discordar do político mais popular do mundo -Lula é mesmo o cara. Primeiro propagou a ficção da "marolinha" e dela desembarcou sem explicações. Depois responsabilizou os "brancos de olhos azuis" pela crise. Assoprou e mordeu, falou duro ou macio, disse "A" e seu contrário, sempre conforme as conveniências. Agora, Lula tira nova casca e emerge do G20 como uma liderança, acolhido com honrarias no clube dos poderosos.
Se o colegiado supranacional contra a catástrofe mundial tivesse de escolher seu urso de pelúcia, Lula seria o melhor candidato.
Ao paparicar o operário que chegou lá, o mundo rico expia a sua culpa sem correr riscos adicionais.
Quando não se sabe bem o que fazer, mas qualquer mudança radical parece fora do horizonte, a falta de convicções pode ser uma virtude. No caso de Lula, é também um expediente de sobrevivência.
Ao dizer que ele é "boa pinta", Obama está a um passo de fazer, na figura de Lula, o elogio do jeitinho brasileiro -da nossa eterna vocação para acomodar conflitos, da arte nacional e malandra de ziguezaguear entre o sim, o não e o talvez.
Menos do que o fim do Consenso de Washington celebrado por Gordon Brown, talvez estejamos assistindo à sua "brasilianização".
O tema da "brasilianização do mundo" tem sido um tópico recorrente da sociologia. Quem, por aqui, recenseou suas várias dimensões num ensaio corrosivo foi o filósofo Paulo Arantes ("A Fratura Brasileira do Mundo", do livro "Zero à Esquerda"), que, ainda em 2001, dizia: "Na hora histórica em que o país do futuro parece não ter mais futuro algum, somos apontados, para o mal ou para o bem, como futuro do mundo". O colapso em curso tornou essa comédia ainda mais atual.

Texto de Fernando de Barros e Silva, na Folha de São Paulo, de 6 de abril de 2009.

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quinta-feira, abril 02, 2009

Kafka em Sucupira

Kafka em Sucupira

SÃO PAULO - Alguém deve ter reclamado a ausência da Diretoria de Pequenas Causas (Próprias). Odorico Paraguaçu já teria criado a Subsecretaria da Jenipapança. O Senado, de resto, nada deve a Sucupira. Pelo contrário: é a alegoria cômica do país tacanho, corrupto e atrasado que não dá conta dos excessos da realidade, não obstante a atualidade da obra de Dias Gomes quase 40 anos depois da sua consagração.
A crise que toma o Congresso já não é moral, mas de metáforas. Parece até que acordamos de repente de um sonho estranho com 181 diretores no Senado. Para contornar o pesadelo, Heráclito, o Fortes, anuncia com pompa o corte de 50 cargos. São, agora, só 131 diretores, em nome da moralidade pública. Mas por que não 147 ou 93? 111 ou 77? Seria mais "transparente" criar as Diretorias das Explicações Surreais de curto, médio e longo prazos -184, e não se fala mais nisso!
Tudo nessa história soa absurdo e arbitrário. Está evidente que tanto a cultura arraigada do compadrio e dos favores quanto a pantomima moralizante que deveria combatê-la obedecem a uma mesma lógica, de preservação dos interesses de uma burocracia que funciona para alimentar a si mesma.
A total desconexão dessa política com a sociedade diz muito da distância entre o projeto original de Brasília e o que ela representa hoje -do abismo entre o que a capital quis ser e o que se tornou.
O problema, claro, não é estético, mas a aposta de Niemeyer, no caso do Congresso, foi sendo devorada pela profusão de anexos, de salinhas obscuras, de corredores acarpetados e paredes aveludadas. O cortiço cafona que funciona sob o esqueleto da utopia moderna parece selar um destino histórico.
Neste mundo fechado de privilégios autoconcedidos, a mansão de Agaciel é o sonho de consumo do barnabé abnegado. E o castelo do deputado Edmar Moreira -um conto de fadas kitsch- talvez seja a melhor metáfora da vida como ela é hoje em Sucupira, a capital do país.

Texto de Fernando de Barros e Silva, na Folha de São Paulo, de 23 de março de 2009.


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