quarta-feira, dezembro 15, 2010

O homem e o boi


O homem e o boi

Depois da crise econômica, a Europa agora conhece a crise social. Um após o outro, os países europeus caem.
Antigos modelos de desenvolvimento até então vendidos como exemplo de sucesso, como a Irlanda (o "tigre celta"), expõem a olhos nus o apodrecimento de seu sistema financeiro. Outros, como Portugal, mostram claramente como não tinham nenhuma margem de manobra para se contrapor à "desconfiança do mercado". Países como o Reino Unido anunciam a supressão de 400 mil empregos no serviço público e o fim efetivo da educação pública universitária. A França parte para a milésima reforma da sua previdência social.
Diante de tal situação de catástrofe que parece nunca terminar, todos os países europeus conhecem só uma resposta: "plano de austeridade". A escolha da palavra é uma pérola. Afinal, quem poderia ser contra a retidão moral da austeridade a não ser crianças mimadas, acostumadas ao desperdício e àquilo que um ministro britânico teve a coragem de chamar de "cultura da dependência", produzida, segundo ele, pelo Estado do bem-estar social?
Mas é engraçado ver como nos escondemos atrás das palavras. Se quiséssemos realmente respeitá-las, "austeridade" deveria significar ser austero e duro contra aqueles que produziram tal crise, ou seja, o sistema financeiro.
Significaria não instaurar um verdadeiro "capitalismo de espoliação", no interior do qual o sistema financeiro espolia o Estado chantageando-o com a ameaça da propagação de uma crise que, no fundo, já se propagou. Significaria não pegar dinheiro do povo para pagar "stock-options" de executivos especialistas em maquiar balanços. Melhor seria decretar moratória, controle estrito de capitais e, se necessário, quebra de contratos.
Mas os governos europeus preferem transformar a "austeridade" em uma cortina de fumaça que visa esconder o mais brutal processo de pauperização social e de desmantelamento de redes de assistência que o continente conheceu. Tudo isso embalado em uma xenofobia cínica, que tenta fazer acreditar que o problema está na fronteira, quando ele está no coração da City.
Contra isso, vemos as populações europeias radicalizando sua insatisfação através de greves gerais e manifestações constantes.
Certamente, este é apenas o começo. A era das mobilizações volta paulatinamente.
Porque logo os europeus aprenderão a beleza da poesia de Torquato Neto, o mesmo que escreveu: "Leve um homem e um boi ao matadouro; aquele que berrar é o homem.
Mesmo que seja o boi".
O que faz do homem um homem é sua capacidade de gritar quando quem o governa lhe oferece a pura e simples imagem do matadouro.



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quinta-feira, outubro 21, 2010

Expansão da tecnologia diminui quantidade de empregos, diz economista

Profissões que não podem ser robotizadas como Jornalismo, Direito e Administração serão cada vez mais disputadas, segundo estudo.

Está difícil encontrar um emprego atualmente? A culpa é dos robôs, de acordo com uma tese do economista David Autor, da universidade norte-americana Massachusetts Institute of Technology (MIT), que analisou os efeitos dos avanços tecnológicos em relação a atividades de alta e baixa qualificação.

Segundo ele, os robôs estão substituindo os seres humanos em funções onde são exercidas tarefas repetitivas, como na área indústrial, de serviços bancários e de saúde.

Seus resultados foram discutidos no site Good Magazine. Para ele a quantidade de empregos voltados para trabalhadores instruídos e de classe média estão desaparecendo lentamente desde os anos 70. "A triste realidade ... a classe média está desaparecendo principalmente porque a tecnologia está tornando as habilidades desta classe quase que obsoletas", analisou.

o especialista ainda destacou que a tecnologia influenciará lentamente outras atividades, fazendo com que empregadores precisem cada vez menos de profissionais não qualificados ou iletrados.

No entanto, o estudo ainda apresenta algumas ressalvas. Mesmo que a tecnologia possa substituir funcionários com altos salários, as empresas ainda precisarão de pessoas bem qualificadas que saibam usar os sistemas tecnológicos implantados. Mesmo nas linhas de produção, existirá a necessidade de manter empregados que saibam consertar os equipamentos caso quebrem ou apresentem algum problema. Além disso, a tecnologia precisará ser inventada - e construída - antes de ser comercializada.

Por outro lado, existem também profissões que não podem ser robotizadas, como Jornalismo, Direito e Administração, por exemplo, o que poderia encorajar parte da população a se voltar mais para estes tipos de trabalho.

Nós poderíamos estar exagerando um pouco? Nossas casas são um excelente exemplo de como tudo não pode ser legado aos robôs. Claro, que eles podem dobrar as nossas roupas ou sincronizar produtos domésticos para facilitar o cotidiano. Entretanto, mesmo assim, eles exigem alguma intervenção do usuário e, certas tarefas, os robôs simplesmente não podem executar.

Se por um lado a tecnologia criou novos empregos, ela também afetou diversas atividades, o que não significa que ela seja a única culpada pela redução nos postos de trabalho nos Estados Unidos (EUA), por exemplo. Como diz o jornal The Economist, tais avanços talvez possam incentivar as crianças a permanecer na escola.

Seja qual for o futuro, ainda haverá espaço para seres humanos e robôs trabalharem juntos em harmonia.

(Elizabeth Fish)


Texto publicado no IDGNow!

Comentário: O otimismo dos três últimos parágrafos não me pareceu convincente.



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quarta-feira, maio 06, 2009

Militância trabalhista perde espaço nos EUA

Militância trabalhista perde espaço nos EUA

Por STEVEN GREENHOUSE

Os trabalhadores e manifestantes que se reuniram em massa durante a recente reunião do G20, em Londres, estavam continuando uma antiga tradição europeia de levar suas reivindicações para as ruas.
Em comparação, nos EUA, onde a GM planeja suas maiores demissões, os sindicatos parecem passivos. Ao contrário de seus colegas europeus, os trabalhadores americanos em geral ficaram fora das ruas, mesmo enquanto o desemprego sobe e as empresas cortam salários e benefícios.
O país teve uma história rica e às vezes militante de protestos trabalhistas —desde a greve da siderúrgica Homestead contra Andrew Carnegie em 1892 até as greves “sit-down” dos operários automobilísticos nos anos 1930 e a paralisação de 400 mil trabalhadores da GM por 67 dias em 1970.
Mas, nas últimas décadas, os trabalhadores americanos têm cada vez mais evitado essa militância, por motivos que vão do medo de ver seus empregos terceirizados no exterior a sua autoimagem como membros plenos da classe média, com todas as suas armadilhas e aspirações.
David Kennedy, autor de “Freedom From Fear: The American People in Depression and War, 1929-1945” [Liberdade do medo: a população americana na depressão e na guerra, 1929-1945], diz que a corrente individualista nos EUA é o principal motivo para essa relutância em ir às ruas. Citando um estudo de 1940 da psicóloga Mirra Komarovsky, ele disse que as entrevistas feitas por ela com os desempregados na época da Grande Depressão revelaram que “a reação era sentir-se culpados e envergonhados, [era] de fracasso pessoal”.
Somados, a culpa, a vergonha e o individualismo solapam impulsos de ação coletiva, tanto na época como hoje, disse Kennedy. Notando que os americanos estavam surpresos e desesperadamente inseguros no começo da Depressão, ele escreveu: “O que marcou a maioria dos analistas, e os mistificou, foi a docilidade da população americana, sua passividade enquanto o moinho da Depressão os triturava”.
Em meados dos anos 1930, porém, os protestos de trabalhadores aumentaram em número e militância. Eles foram incentivados pelos então poderosos partidos Comunista e Socialista e as frustrações pela constante privação. Os trabalhadores também sentiram que tinham a bênção do presidente Franklin Roosevelt (1933-45) para a ação coletiva depois que ele assinou a Lei Wagner em 1935, dando aos trabalhadores o direito de se sindicalizar.
Isto levou a um poderoso movimento trabalhista que representava 35% dos trabalhadores do país na década de 1950 e criou a maior classe média do mundo.
Hoje os trabalhadores americanos tendem a se considerar uma parte da classe média em ascensão. Já os trabalhadores europeus muitas vezes se veem como proletários em uma constante luta de classes.
E os líderes trabalhistas americanos, que já foram incitadores das massas, hoje muitas vezes trabalham ao lado dos executivos para melhorar a competitividade da empresa e proteger empregos e aposentadorias, afastando ativistas linha-dura.
“Há uma diminuição geral da liderança sindical que se dedicava a defender os trabalhadores por quaisquer meios necessários”, disse Jerry Tucker, antigo militante do sindicato UAW, do setor automobilístico. “A mensagem da liderança sindical hoje é muitas vezes: ‘Não temos opção, temos de seguir esse caminho de concessões’”, ele disse.
A agressividade dos trabalhistas também foi prejudicada pela redução do número de seus membros. Hoje os sindicatos representam apenas 7,4% dos trabalhadores do setor privado.
Michael Kazin, historiador da Universidade Georgetown, em Washington, disse que enquanto as demonstrações continuam sendo um canal vital para a esquerda europeia, para os americanos “a internet hoje de certa forma serve como canal principal”, com blogs e e-mails maciços.
Kennedy viu outro motivo para que os jovens trabalhadores e jovens em geral protestem menos hoje do que nas décadas passadas. “Esta geração encontrou maneiras mais eficazes de mudar o mundo”, disse. “Está envolvida em campanhas políticas e não espera que as coisas fiquem tão terríveis que seja obrigada a sair às ruas.”

Texto do The New York Times, na Folha de São Paulo, de 20 de abril de 2009.

O texto é uma exposição interessante. Mas o final abre uma lacuna curiosa. Se os trabalhadores americanos se sentem como classe média, seja lá o que isso signifique, e usa a Internet como canal principal para manifestar-se social e politicamente, este pessoal está vivendo do quê?

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