domingo, novembro 18, 2007

Deus é brasileiro. O Diabo também.

Fui surpreendido, como todos, pela descoberta das gigantescas reservas de petróleo e gás no litoral. Nas expectativas mais pessimistas, elas aumentam o estoque petrolífero brasileiro em 30%. Nas projeções mais otimistas, colocariam o país no mesmo patamar da Venezuela. Em qualquer caso, as implicações são imensas: elevam o Brasil da autosuficiência para a condição de exportador de hidrocarbonetos, numa conjuntura de imensa valorização do petróleo.

O anúncio da descoberta foi feito em meio à crise de abastecimento energético. Astrólogos acreditam em coincidências. Cientistas políticos, não. Embora utilizemos ferramentas analíticas com mais ou menos o mesmo nível de precisão de Saturno na casa da Lua. É claro que o governo deu recado aos investidores e à opinião pública: a de que o crescimento econômico continuará, apesar das dificuldades atuais.

As perspectivas brasileiras são fascinantes: exportador de biocombustíveis e de petróleo, enorme potencial hidrelético (a ser ampliado pelas novas usinas no Rio Madeira), pesquisas na área nuclear (incluindo o submarino). Poucos países têm tanta segurança energética. No porte do Brasil, só a Rússia, pois EUA, Índia e China são extremamente deficitários em energia e dependem das importações que com freqüência vêm de regiões instáveis. E ainda vamos sediar a Copa do Mundo, liderar a OMC, participar como convidados do G-8 e da OCDE e eventulamente virar membros do Conselho de Segurança da ONU. Deus é brasileiro.

As reservas recém-descobertas seguem o padrão nacional: estão em águas muito profundas, de acesso difícil e caro. Isso significa que levará alguns anos até que sejam viáveis economicamente. A Petrobras estima que apenas em 2012, provavelmente levará mais. Em qualquer caso, significa que o atual governo, e seu sucessor, continuarão a enfrentar o problema de escassez de energia, sobretudo a de gás, com tudo que isso representa para a tensão com a Bolívia.

Mas o que me preocupa, no médio prazo, é como o Brasil gastará as enormes riquezas recém-descobertas. Se me permitem a paráfrase do grande filósofo político Paulinho da Viola, encontrar uma Venezuela ou uma Arábia Saudita no litoral é vendaval. Países petrolíferos quase sempre são exemplos de desperdício, corrupção, gastos inúteis e projetos faraônicos.

Outros países da América Latina entraram na euforia de reservas de petróleo que pareciam imensas e ao fim, não eram. Paraguai e Bolívia foram à guerra por causa de miragem do tipo. O México dos anos 70 implementou uma política econômica tão desastrosa por conta da esperança petrolífera que teve que decretar moratória da dívida externa poucos anos depois.

Claro, o Brasil não é um emirado do Oriente Médio e aqui há uma sociedade civil muito mais articulada e mobilizada. Graças a Deus, porque precisaremos muito dela para a fiscalização e o deabate sobre o que este país fará com os petrodólares que fluirão para cá daqui a alguns anos.


Texto de Maurício Santoro, no seu blog Todos os Fogos o Fogo.

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