segunda-feira, maio 21, 2007

Da Agência Carta Maior: O Fim dos Kibutzim




Colunista:
Bernardo Kucinski


O socialismo privatizado

No começo deste mês, a assembléia do kibutz Gaash, em Israel, deliberou por ampla margem de votos extinguir a igualdade de pagamentos, principal traço da vida coletiva do kibutz. É o ocaso da mais radical forma coletiva de organização social.

Data: 15/05/2007

Gaash é uma colônia coletiva situada na região mais rica de Israel, entre Telavive e Haifa, às margens do Mediterrâneo. Ali moram cerca de 300 pessoas, inclusive brasileiros que emigraram nos anos 50, atraídos não só pela idéia de um Estado Nacional judeu, depois do holocausto, mas principalmente pela idéia de uma vida totalmente coletiva, uma sociedade socialista. Na forma kibutz, todos ganham o mesmo pagamento, uma espécie de mesada base, que varia apenas com o número de filhos. Não pagam aluguel e nem serviços de saúde. Há um rodízio entre todos na execução dos serviços, como cozinha e limpeza. As crianças recebem educação em tempo integral, e nos primórdios do kibutz moravam em coletivos próprios, as “casas das crianças”. Não há propriedade privada, exceto para os objetos pessoais.

No começo deste mês, a assembléia do kibutz Gaash, que se reúne todas as sextas-feiras, deliberou por ampla margem de votos extinguir a igualdade de pagamentos, principal traço da vida coletiva do kibutz, instituindo valores diferentes conforme os ganhos de cada indivíduo no mercado (para os que trabalham fora) ou o equivalente aos que trabalham internamente (nota 1). Algumas semanas antes, o mais emblemático de todos os kibutzim (plural de kibutz), Degânia, havia também abolido a igualdade de ganhos e as ordens de serviço, permitindo aos seus membros procurar empregos que quiserem, e lhes dando a propriedade das casas em que moram. Em todo o país, um kibutz após o outro está abandonando o princípio da igualdade de ganhos a adotando o que vem sendo chamado de “privatização”. Mas foi a decisão de Degânia que causou o maior impacto.

Porque Degânia criou a forma kibutz. Foi o primeiro kibutz fundado em Israel, ainda em 1910, por imigrantes russos fugidos da revolução fracassada de 1905 e imbuídos de idéias socialistas. A decisão de Degânia é um marco na história do movimento kibutziano, que, apesar de crise que atravessou, conta com 280 colônias coletivas em todo o país, algumas de grande importância social e econômica. Uma nova demonstração da dificuldade de sobrevivência de uma formação socialista num meio predominantemente capitalista. A mesma maldição que acabou com os sonhos dos socialistas utópicos e manietou o movimento cooperativista.

É o fim do socialismo kibutziano, reclamam os veteranos. “O encanto do Kibutz acabou. A tendência é que virem comunidades de residentes, cada um levando sua própria vida”, diz um brasileiro veterano do Kibutz Gat, que fica mais ao Sul, perto do deserto do Neguev. Ele é favorável às mudanças, que vê como inevitáveis. “É a única forma de mantermos dentro do kibutz os jovens, fascinados pelos altos salários e benfeitorias que o capitalismo israeli oferece, e com isso garantirmos a sobrevivência do próprio Kibutz”, diz outro brasileiro, o ‘Negro’, como é apelidado Isaac Rubinstein, que vive em Gaash. Com esse argumento, Negro conseguiu convencer alguns veteranos a apoiarem a mudança, o que foi decisivo na assembléia.

Além de alguns poucos que se opõem às mudanças por motivos ideológicos, votaram contra apenas famílias que nem eram suficientemente antigas para já terem ganhado suas casas definitivas, e já não tão jovens para iniciarem uma nova vida fora do kibutz. Em geral, famílias na faixa dos 40 anos, com dois ou três filhos. São os que saem perdendo com a abolição da igualdade de renda.

As privatizações começaram timidamente há alguns anos, depois do movimento kibutziano mergulhar numa profunda crise econômica, e agora estão se acelerando. Muitos kibutzim haviam assumido dívidas com bancos que não puderam pagar quando os juros saltaram para a estratosfera, fenômeno coincidente com o da crise da dívida externa do Brasil e provocado pelos mesmos fatores. Quando a direita assumiu o poder em Israel e decidiu acabar com o apoio à agricultura, tudo piorou, já que o Kibutz havia se formado essencialmente como uma unidade de produção agrícola. Alguns kibutzim foram virtualmente à ruína. Entre eles, Bror Chail, fundado por brasileiros, que hoje não passa de um condomínio residencial.

Paradoxalmente, foi a superação da crise da dívida que permitiu a aceleração desse processo de privatização do movimento kibutziano. Gaash, por exemplo, conseguiu pagar suas dívidas e instituir um fundo de pensão, para garantir uma velhice mais tranqüila a seus membros mais velhos. Era a inexistência desse fundo de pensão, já que o kibutz, em tese, sempre asseguraria a qualidade de vida de seus membros, que emperrava a mudança. Os mais velhos votavam contra. Também foi assegurado aos mais velhos a cobertura quase plena dos serviços médicos eventualmente não cobertos pelo Serviço Nacional de Saúde.

Permanece como grande empecilho à privatização a questão da propriedade das casas, e com isso, o direito de herança. Já está decidido que o patrimônio do kibutz será divido em cota e cada membro terá uma cota, ou meia cota ou um quarto de cota, se tiver menos anos de kibutz. Mas como fazer com as casas de cada família, se elas tem valores diferentes, mesmo dentro de cada kibutz? Além disso, as terras do kibutz em sua maioria são terras nacionais cedidas em comodato, e não propriedade do kibutz. Nem o governo, favorável às privatizações, sabe como resolver esse imbróglio. Em Gaash, o terreno de uma casa pode valer no mercado um quarto de milhão de dólares. Isso dá uma idéia da tensão em torno do tema, uma vez introduzida na cabeça das pessoas a idéia da cada um por si e Deus por todos.

Alguns membros de Gaash que se opuseram à mudança alegam que há um processo de corrupção inerente às formas capitalistas de produção, gerência e propriedade. Dizem que, no fim, os gerentes vão abocanhar todos os ganhos e pouco vai sobrar dos lucros do patrimônio para ser dividido entre os cotistas (nota 2). Dizem que há anos a nova geração de dirigentes promoveu a separação entre o kibutz, como um coletivo social, e as diferentes unidades de produção a ele pertencentes. Assim, uma fábrica de um Kibutz é gerida por uma diretoria própria, o hotel que o kibutz ergueu para gerar renda por outra diretoria, e assim por diante. São sempre as mesmas pessoas, cerca de 20 ou 30, que comparecem a todas as assembléias, se interessam por tudo. Acabam controlando todas as decisões, assumindo todos os cargos de direção, e com eles algumas mordomias. Esses dirigentes passaram a ter carros e verbas de representação. E passaram a se comparar também com os gerentes do mundo exterior que recebem salários altíssimos e com os quais tinham que negociar. Assim nasceu a idéia da privatização do kibutz.

Para convencer os mais velhos e os mais necessitados, esses dirigentes fizeram as concessões, dos fundos de pensão e outorga de moradias. Também estabeleceram limites para as diferença salariais. Em Gaash, por exemplo, o maior salário só pode ser duas vezes o valor do menor. A proposta inicial era de que poderia ser três vezes. Os mudancistas cederam para poder aprovar. O excedente irá para um fundo de compensação dos salários menores.

O brasileiro Negro divide as mudanças no movimento kibutziano em três grandes grupos. O grupo mais numeroso está fazendo como Gaash, promovendo a privatização em graus diferentes. Alguns deles, como Ruhama e Nir Am, sem mesmo providenciar fundos de pensão para os seus velhinhos. Outros, como Gat, onde também há brasileiros, instituíram um fundo de pensão e um sistema misto de renda familiar, metade igual para todos e a outra metade proporcional ao que o sujeito ganha ou ganharia no mercado capitalista de trabalho. Gat tem uma grande fábrica de sucos, a maior do país, o que lhe deu uma folga para promover as mudanças.

E há um segundo grupo de colônias coletivas tão fortes economicamente que não precisam aderir à privatização, porque cada membro e cada família já vivem vida de milionários. É o caso de Ramat Iochanan, que além de excelentes terras agriculturáveis, possui três fabricas de plásticos, duas delas no exterior em aparceira com uma multinacional. Mesmo assim, a assembléia geral de Ramat Iochanan aprovou uma proposta pela qual o coletivo se compromete a dividir o patrimônio da fábrica entre os veteranos, se eventualmente forem introduzidos salários diferenciados. “É uma espécie de garantia dada pelos jovens, que poderiam auferir salários maiores, aos velhos, que constituíram historicamente o patrimônio do kibutz”, explica Negro. Entre os que se recusam a privatizar, estão também alguns dos mais antigos, quase tão velhos quanto Degânia, como Mishmar Haemek e Gan Shmuel.

Um grupo menor que se recusou a fazer as mudanças, por inércia ou teimosia, acabou caindo numa situação de anomia social. Negro os chama de “caóticos”. Dá como exemplo Haoguen, kibutz de imigrantes húngaros, no qual cada um faz o que quer. É a pior forma abandonar essa extraordinária experiência social que foi o kibutz. Não deixa nada. Só amargura e desencanto.

Notas
(1) A votação foi secreta. Votaram 285 membros, 80% a favor da privatização.
(2) Fato corriqueiro no mundo das grandes empresas.

http://www.agenciacartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3586&boletim_id=288&componente_id=5537


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