quinta-feira, outubro 19, 2006

Boa Noite Pro Porco: Assim é se lhe parece


Do blog "Boa Noite Pro Porco" (http://boanoiteproporco.blogspot.com):

Assim é, se lhe parece

"As I was saying, that seems to be done right -- though I haven't time to look it over thoroughly just now -- and that shows that there are three hundred and sixty-four days when you might get un-birthday presents --
Certainly, said Alice.
And only one for birthday presents, you know. There's glory for you!
I don't know what you mean by 'glory', Alice said.
Humpty Dumpty smiled contemptuously. Of course you don't -- till I tell you. I meant "there's a nice knock-down argument for you!
But 'glory' doesn't mean 'a nice knock-down argument', Alice objected.
When I use a word, Humpty Dumpty said in rather a scornful tone, it means just what I choose it to mean -- neither more nor less.
The question is, said Alice, whether you can make words mean so many different things.
The question is, said Humpty Dumpty, which is to be master - - that's all".

Lewis Carroll. Through the looking glass, chapter 6 – Humpty Dumpty.



Este texto nasceu de um desconforto com uma série de argumentos que atualmente pululam na internet através de correntes, mensagens individuais, coletivas e afins. Tais argumentos têm, em geral, a forma "Vote em Geraldo Alckmin porque o governo Lula foi corrupto", admitindo as variantes "Vote em Geraldo Alckmin porque o PT é um partido corrupto" e "Se os petistas são corruptos, então vote em Geraldo Alckmin". Uma sua variante mais benevolente, e isso pelo fato de conceder ao menos alguma sorte de reconhecimento ao governo Lula, é o "Voto em Geraldo Alckmin porque não concordo com o 'rouba, mas faz'". O que os unifica, como pode ser visto de uma maneira muito clara, é o fato de que, em função de atos de corrupção verificados no governo petista, deve-se votar em Geraldo Alckmin. O argumento da corrupção, portanto, aparece em tais raciocínios como razão suficiente para se eleger Alckmin e não Lula.
O objetivo deste texto é mostrar que tal argumento não é o caso, uma vez que sua conclusão é contraditória. Por conseguinte, sua defesa pública ou bem envolve uma generosa dose de ignorância, ou bem uma não menos generosa porção de má-fé. O ponto a ser defendido aqui é que se atos corruptos passados são razão suficiente para não se eleger um dos dois projetos políticos que atualmente se oferecem ao eleitorado brasileiro, então pela mesma razão nenhum deles pode ser eleito. É importante que isso fique claro porque não se discutirá aqui se atos corruptos passados são razão suficiente não se eleger qualquer projeto político.
Uma das primeiras coisas que precisam ficar claras é que não estão em jogo no cenário nacional projetos pessoais de Lula e de Geraldo Alckmin, mas sim projetos partidários. Portanto, um voto em Geraldo Alckmin é um voto no projeto do PSDB para o Brasil e no histórico de administrações tucanas, assim como um voto em Lula é um voto no projeto do PT para o Brasil e no histórico de administrações petistas. Seguramente uma das maiores tragédias de nossa democracia é o voto que se dá ao candidato x em função de determinadas suas qualidades ou características, em geral a "honestidade", a "simpatia", a "seriedade", a "humildade", o grau de parentesco ou o fato de algum dia o referido candidato ter prestado alguma sorte de socorro ou ajuda ao seu eleitor, ou simplesmente ter cumprido sua obrigação como detentor de um cargo ou como profissional de mercado. Ainda que algumas dessas qualidades sejam altamente desejáveis e necessárias, nem sempre são suficientes para se desenvolver um trabalho satisfatório como representante, uma vez que interesses partidários obscuros podem ditar as regras do comportamento da bancada e estar acima, por exemplo, da honestidade de um de seus membros.
O governo de Fernando Henrique Cardoso, político do PSDB, entre os anos de 1995 e 2002, cometeu no mínimo tantos deslizes éticos quanto os cometidos pelo governo petista de Luís Inácio Lula da Silva entre 2003 e 2006. Geraldo Alckmin, governador afastado do Estado de São Paulo que abafou 69 CPIs em seus seis anos de governo e que levava seu pitbull para passear de helicóptero oficial, é candidato à presidência da república pelo PSDB, partido que, durante a gestão FHC, esteve envolvido (i) com a compra de votos de Ronivon Santiago e João Maia, do PFL do Acre, por R$ 200 mil cada, a favor do projeto de Emenda que viabilizaria a reeleição de FHC, entre outros acusados que foram absolvidos em plenário, (ii) com a manutenção artificial da quase paridade entre o real e o dólar até o final do processo eleitoral de 1998, a fim de criar um clima favorável à reeleição, paridade que durou até o começo da desvalorização da moeda, logo depois das eleições, com indícios de vazamento de informações do Banco Central a fim de favorecer 24 bancos que lucraram com a mudança cambial e outros quatro bancos que registraram movimentação especulativa suspeita às vésperas do anúncio das medidas, (iii) com a extinção, sem investigação, dos órgãos públicos SUDAM (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia) e SUDENE (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), envolvidos em escândalos de desvio de mais de 3, 5 bilhões de reais, à época administrados por partidos aliados ao PSDB, (iv) com denúncias de formação de caixa-dois de campanha nas eleições de 1994 e 1998 e de cobrança de propinas durante o processo de privatizações e, finalmente, (v) que supostamente viu nascer, sem tomar as providências cabíveis, os escândalos das máfias das ambulâncias e sanguessugas e dos vampiros. A diferença em relação ao governo Lula? O fato de que, durante os anos FHC, a oposição, representada basicamente pelo PT, não obtinha assinaturas suficientes para abrir CPIs, dificuldade essa não enfrentada pela oposição ao governo Lula. Nada além disso.
Luís Inácio Lula da Silva, presidente da república que não abafou sequer uma CPI e que levou sua poodle para a petshop em veículo oficial, é candidato à reeleição pelo PT, partido que esteve envolvido (i) com o escândalo do alcunhado "mensalão", esquema que pagava uma quantia variável a parlamentares em troca de votos favoráveis a projetos de interesse governamental, subsidiado com verbas públicas desviadas para tal fim a partir de licitações frias, ganhas por empresários que antes haviam financiado a campanha petista ao governo, (ii) e com o escândalo de uma suposta tentativa de compra com dinheiro supostamente não declarado de um suposto dossiê que hipoteticamente envolveria até o pescoço com a máfia das sanguessugas e das ambulâncias José Serra, político do PSDB que foi ministro da saúde no governo FHC. A diferença em relação ao governo Fernando Henrique Cardoso? O fato de que, durante os anos Lula, a oposição, representada basicamente pelo PSDB e PFL, obteve assinaturas suficientes para abrir CPIs, dificuldade essa enfrentada pela oposição ao governo FHC. Nada além disso.
Portanto, se atos corruptos passados são razão suficiente para não se eleger especificamente um dos dois determinados projetos políticos que atualmente se oferecem ao eleitorado brasileiro, então logicamente são razão suficiente para não se eleger nenhum deles, pois ambos cometeram atos corruptos em suas administrações. Ou seja, uma vez que se trata de um comportamento geral, de um comportamento verificado em ações de ambos os particulares que configuram tal universo de candidaturas, o argumento da corrupção não pode valer para um seu particular sem simultaneamente valer para o universal sem contradição. Se estivéssemos tratando de atos corruptos passados de especificamente um dos dois referidos projetos apresentados ao eleitorado brasileiro, então tais atos seriam uma boa razão para não elegê-lo e, em contrapartida, eleger aquele deles livre. Porém, como ambos têm sua biografia maculada, o argumento segundo o qual se deve eleger o projeto psdbista porque atos de corrupção foram verificados no governo petista não pode ser enunciado sem contradição, pois sua razão suficiente, ou seja, a premissa que lhe fundamenta suportando o peso de sua conclusão, distribui-se e está contida na sua própria conclusão, uma vez que atos de corrupção também foram verificados durante as gestões tucanas.
Por conseguinte, assumir publicamente tal argumento subentende ou bem errar por ignorância ou bem agir por má-fé. Errar por ignorância, dependendo de quem profere o referido argumento, é perfeitamente tolerável e compreensível, desde que tal sujeito não tenha acesso algum à informação e desconheça totalmente a história política brasileira dos últimos 20 anos. Errar por ignorância fora de tal contexto é injustificável, uma vez que a carga de informação existente a respeito da história política dos referidos últimos 20 anos seria suficiente para duas Bibliotecas de Alexandria. Agir por má-fé, por seu turno, é intolerável e injustificável. Age por má-fé quem, embora saiba ou não queira ver que a razão suficiente de seu argumento não é capaz de suportar sua conclusão, ainda assim o utiliza, e isso porque tal argumento convenientemente camufla uma série de outras razões, as quais seu enunciador julga suficientes tanto para justificar seu uso perante suas crenças irrefletidas quanto para justificar seu uso público. Entre tais veladas razões podemos encontrar (i) a equivocada crença de que o PT representa uma ameaça potencial à ordem democrática, operação lentamente em curso e a cargo de corruptos parasitas de Estado capazes de subverter a lógica natural dos direitos humanos e à propriedade, crença que responde pela alcunha de antipetismo e que, embora já se encontre diluída em determinadas regiões do Brasil entre uma reacionária pequena burguesia urbana e rural de variados matizes, é uma crença de uma elite econômica e social cuja gênese remonta à sua necessidade de se sustentar como classe hegemônica a fim de garantir sua auto-reprodução e a perpetuação de seus privilégios e interesses de classe, (ii) o preconceito social dessa mesma elite, com reflexos também entre a pequena burguesia, que não admite nem a hipótese da inversão da lógica hegemônica tradicional por conta da protagonização popular e nem um torneiro-mecânico nordestino deficiente físico com ensino fundamental como seu dirigente e catalisador de tal inversão, e (iii) fundamentalmente a necessidade de reconquista do poder político, essencial para a manutenção da hegemonia da elite econômica e social, mecanismo garantidor e perpetuador de seus privilégios e interesses.
Não há sentido algum, portanto, em se utilizar o argumento da corrupção como justificativa para se eleger Geraldo Alckmin, uma vez que ele conduz a uma conclusão contraditória. Quem quiser utilizar o argumento da corrupção a fim de justificar seu voto em qualquer dos dois projetos atualmente apresentados ao eleitor brasileiro não pode fazê-lo sem contradição. Quem quiser operar honesta e corretamente com tal argumento a fim de decidir seu voto inevitavelmente deve anulá-lo ou votar em branco, pois do contrário estará (i) ou bem legitimando o projeto petista para o Brasil, com seus erros, acertos e virtudes, (ii) ou bem legitimando o projeto psdbista para o Brasil, também com seus erros, acertos e virtudes. Todo o resto é ignorância ou má-fé.

http://boanoiteproporco.blogspot.com/2006/10/assim-se-lhe-parece.html

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Ah, Lewis Carroll, e pensar que se ele vivesse hoje estaria preso, condenado por pedofilia.

11:08 AM  

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